31/01/14

José Manuel Pureza vs. Alexis Tsipras: um breve exercício comparativo

José Manuel Pureza escreve: "Equívoco seria fingir unidade entre quem acha que este é o tempo de desobedecer a uma Europa que só serve para nos punir e quem acha que mais esvaziamento das autonomias dos Estados é a solução", sugerindo que a "desobediência" aos governantes da Europa e às suas políticas tem como alternativa o reforço das soberanias nacionais e o reforços dos Estados-naçãõ.

Ora, é curioso ver que enquanto uma vozes prestigiada — e que, não há muito tempo ainda, já ouvimos mais inspirada — do BE parecem fazer do anti-europeísmo e da aposta numa desagregação da UE cada vez mais próxima da que o PCP e o KKE preconizam, a formação grega Syriza, que é correntemente apresentada como uma espécie de versão helénica do BE, extrai da necessidade de combater a austeridade e o autoritarismo reinantes, conclusões bastante mais convincentes, que, independentemente das críticas que, sob outros aspectos, devamos fazer da insuficiência da "hipótese democrática" do grupo,  são ao mesmo tempo mais audaciosas e mais realistas, e que, recentemente ainda, Tsipras formulava como se segue:


Queremos a reorientação democrática e progressista da União Europeia. O fim do neoliberalismo, da austeridade e das chamadas sociedades europeias dos dois terços, onde 1/3 da sociedade se comporta como se não houvesse crise económica e 2/3 sofrem todos os dias, mais e mais. A Esquerda Europeia tem a visão política e a coragem de construir um consenso social mais amplo em torno do objetivo programático de reconstruir a Europa numa base democrática, social e ecológica.

Este é o contexto político da minha candidatura à Presidência da Comissão Europeia pelo Partido da Esquerda Europeia. Ele explica porque não se trata apenas de mais uma candidatura. Trata-se, em vez disso, de um mandato pela esperança e a mudança na Europa. É um toque a reunir pelo fim da austeridade, pela salvaguarda da democracia e para trabalhar pelo crescimento. É um apelo a todos os cidadãos democratas e sensíveis, independentemente da sua ideologia e afiliação partidária. Porque à medida em que a recessão, a estagnação económica ou o crescimento anémico e sem criação de empregos submerge a Europa inteira, a austeridade também submerge as pessoas tanto do Sul quanto do Norte. Assim, a reação à austeridade transcende o estado-nação e alinha as forças sociais a nível europeu. A austeridade atinge o povo trabalhador independentemente do local de moradia. Por esta razão, precisamos de integrar a indispensável aliança antimemorandos do Sul num amplo movimento europeu anti-austeridade.



30/01/14

"Ninguém é obrigado a ser praxado"



Esquema gráfico das praxes no ISEG, há uns 20 anos.

29/01/14

Se todos os dias há quem dê a matar na cabeça, tronco e membros da mulher e/ou outros membros do agregado familiar…

… porque não, transpondo por analogia a sugestão isenta de preconceitos ideológicos de um defensor das praxes,  legalizar essa prática, ou quiçá promovê-la, mediante incentivos devidamente regulamentados, em datas — como, por exemplo, o Natal — mais acrisoladamente associadas aos valores desse mesmo agregado enquanto agente de integração social e afectiva dos seus membros?

Para que serve a obediência



"(…)Ignorando os seus pedidos de ajuda, os oficiais ainda escorraçavam os refugiados de volta para o mar, quando estes se agarravam à embarcação temendo pela sua vida. Um sobrevivente, que tentou salvar a mulher e o filho de se afogarem, afirma que os guardas puxaram das suas armas e dispararam para o ar para impedi-lo de arrastá-los para bordo.(…)"

Aconteceu há pouco mais de uma semana. Ao largo duma ilha não tão distante como isso.

A obediência precisa de ser cultivada e interiorizada, para que se torne útil para as estruturas de Poder.

A conversa da praxe


A minha última crónica no jornal “i” acertou num nervo que não adivinhei na anatomia desse corpo estranho que são os leitores. Entre likes, partilhas e tweets, deu azo a mais de 36 mil reacções online. Só os comentários ultrapassaram o milhar e meio.
Percebo que não foi culpa (nem inspiração) minha. Muitas pessoas com certezas sobre as praxes resolveram pousar no texto e conversar um pouco. Entre si, mas também comigo; apareceu malta angustiada com o paradeiro do meu cérebro (“será possível que este acéfalo é pago para escrever coisas destas?”) e quem até já tinha solução para a maleita: “Sr. Luis Rainha, vá é tomar uns supositorios pelo anus acima, a ver se lhe passa a diarreia mental”. Isto sem esquecer os 15 prestáveis comentadores que me verberaram pelo uso da palavra "prontos". Enfim, longe de mim fazer coro com quem por ali decretou que “há pessoas que nem direito a opinião deviam ter”...
Após um esforço valente, li todos os palpites, mais ou menos partidos a meio entre a defesa e a rejeição das praxes. Cedo reparei que os “prós” se agregavam em três grandes temas: 1- a praxe é tradição; 2- trata-se de um ritual que integra o caloiro; 3- só participa quem quer.
Vamos por partes. Apesar de antepassados que remontam ao “foro acad, que instaurava um regime especial para  tudo)rovinham de entusiastas das praxes acadsoas com ideias fortes sobre o tema da praémico” de Coimbra, de 1408, certo é que o termo “praxe” só começou a ser usado nesta acepção há século e meio. Como o Miguel Cardina nota, os sedimentos de passado em que os praxistas actuais julgam ancorar-se resultam de uma “invenção da tradição”, para usar a fórmula de Hobsbawm: cada etnia com manias emancipatórias, cada nação que nasce, tende a ficcionar um passado glorioso e ininterrupto, raiz imaginária de onde só podem crescer grandes feitos. Surgem assim símbolos como os kilts e os tartans, emblemas nacionais dos escoceses que, afinal, datam dos séculos XVIII e XIX (obras de ingleses, ainda por cima). À escala nossa, percebemos por que é que os clubes de futebol se empenham em “descobrir” datas de fundação cada vez mais recuadas e estapafúrdias: a Tradição é património tão valioso que não pode ser confiado aos caprichos da História.

28/01/14

Pete Seeger

Compreender para onde vamos - II

Um dos temas centrais da filosofia da História é constituído pela reflexão sobre a inteligibilidade dos acontecimentos que possuem o humano como sujeito da acção. Podemos realmente compreender o que acontece quando os seres humanos interagem? Caso a resposta seja positiva, uma outra possível questão se coloca: será passível de compreensão o nexo de causalidade entre os eventos que resultam dessa interacção? Note-se que estas questões podem ser colocadas a diferentes níveis, dependendo do objecto sobre o qual incide a análise Histórica, do indivíduo à humanidade.

Acreditando na capacidade de compreensão do ser humano, e na nossa em particular, podemos então colocar ainda uma outra questão: existirá um sujeito Histórico? Por este se pretende significar o indivíduo, ou grupo, que compreendendo a realidade que o envolve, actua nessa realidade, transformando-a com vista a atingir um propósito bem definido à priori. Até ao Iluminismo, a noção de sujeito Histórico era praticamente desconhecida, considerando-se antes que a sucessão de acontecimentos que identificamos como História, se devia à Divina Providência ou ao "destino". Uma inversão radical nesta perspectiva ocorreu com o Iluminismo. O ser humano passa a actor principal da História, e nasce a noção de progresso contínuo por via da acção humana intencional. O Marquês de Condorcet é um dos mais conhecidos proponentes desta visão:

"(…)we shall have the strongest reason to believe from past experiences, from the observation of the progress which sciences and the civilization have hitherto made, and from the analysis of the march of the human understanding, and the development of its faculties, that nature has fixed no limits to our hopes(…)" em "Création de Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain

Note-se que este pressuposto não implicava que todos os eventos de importância Histórica resultavam necessariamente da acção humana consciente, ou que o progresso humano fosse inevitável. Apenas que o ser humano tem a capacidade para moldar o futuro à sua vontade, se assim conscientemente quiser. Esta visão ainda é predominante na, por vezes denominada, Esquerda Liberal. Mas também no Nacionalismo, que tem como um dos seus elementos identificadores mais importantes a construção duma narrativa Histórica que enaltece a superioridade da Nação, e a capacidade de moldar o seu próprio futuro.

26/01/14

Ainda não li nada que me parecesse tão inteligente e certeiro acerca do referendo sobre a adopção gay…

…como este post do Filipe Nunes Vicente. O texto deve, é claro, ser lido na íntegra, e levanta de passagem e en creux, questões decisivas, que terei de deixar para outra ocasião (telegraficamente, por exemplo: a exigência de auto-limitação da democracia directa, ou a impossibilidade de uma política puramente "arendtiana" que exclua a deliberação/decisão da ecclesia, entendida como conjunto dos "conselhos" ou assembleia dos cidadãos, sobre "assuntos de natureza social" — ou também, numa medida ou noutra, sobre o que se passa na esfera doméstica e privada, ou oikos). No entanto, e para já, qualquer dos seus poucos parágrafos pode validar razoavelmente o juízo que o título deste meu post formula. Senão veja-se, a título de amostra:

Que fique claro que se queremos  combater a violência organizada do Estado, temos de desenvolver armas poderosas, apropriadas à magnitude da tarefa ( Delo Truda N°17, October 1926, pp. 5-6). Esta pequena declaração de Makhno  descobre o terreno. Se é entendido pelos defensores das causas LGBT que em todo o lado o   Estado  tem exercido violência sobre os homossexuais, então não pode ser o Estado, através  do poder legislativo, emanado  dos mecanismos  de representação  partidária, a libertá-los. Significa isto que referendar a adopção gay é bela e maravilhosa participação popular ? Não. É desnecessário utilizar um possível referendo à adopção gay como bandeira de uma governação participada, porque ela não existe. 

Praxe, obediência e violência

A propósito das praxes e dos acontecimentos recentes que motivaram a discussão em seu redor – assumindo já que abomino praxes (seja qual for a sua forma) e que sou totalmente contra a sua proibição – deixo algumas notas:

1. Parece inegável que o que aconteceu no Meco tem relação com as praxes. No entanto, mesmo não surpreendendo, também parece evidente que foi um caso excepcionalmente extremo. Não deve, por isso, ser linearmente ligado à praxe ou, muito menos, à tradição académica (seja lá o que isso for) como algumas pessoas o têm feito.

2. Também não pactuo com a estupidificação, a infantilização ou a irresponsabilização de quem aprecia, defende ou participa nas praxes académicas (mesmo que muitas vezes se ponham a jeito para tal). Não acho que quem praxe ou seja praxado tenha que ser necessariamente mais ou menos estúpido, mais ou menos ingénuo, mais ou menos fraco ou “maria vai com as outras” do que quem não é praxado. Muito menos consigo ver nisso uma justificação para a sua proibição ou criminalização (se pensasse assim relativamente a tudo o que me desagrada, repugna ou até revolta…). Há muita coisa em jogo na praxe.

3. Posto isto, há divergências fundamentais que me opõem à praxe ou a uma grande parte da tradição académica e me fazem desejar o seu fim. Se é verdade que nem toda a praxe tem que ter consequências tão graves como a do caso do Meco, também é verdade que algo como o que aconteceu não é perceptível sem perceber o que está invariavelmente em jogo na praxe (mesmo que de forma aparentemente inocente) e que, em última instância, enquanto existir algo como a praxe (seja qual for a sua forma e o conteúdo das suas brincadeiras), continuarão a acontecer tragédias semelhantes.

4. O facto de uns rabiscos na cara não serem o mesmo que aceitar rebolar em merda, ouvir parvoíces sexistas e homofóbicas ou obrigar alguém a enfrentar as ondas do Meco, não faz com que o que está por trás disso não seja exactamente o mesmo sistema de subserviência, conformação e obediência acrítica.

5. Como todas as instituições, a praxe tanto se deve a como cria e reproduz um certo um tipo de pessoas. Por isso, o que me parece importante quando se fala de “praxe” ou “tradição académica” é o tipo de pessoas que esta, enquanto instituição, tende a gerar. Não está em causa, para mim, se esta é “amizade”, “integração” ou uma “forma de diversão” – não tenho qualquer dúvida de que é tudo isso –, mas sim que formas de amizade, integração ou diversão promove.

6. Ao assentar em formas de relacionamento hierárquicas e autoritárias e ao promover o conformismo existentes para lá de si (tanto na academia, como, mais genericamente, na sociedade), a praxe contribui para naturalizar e perpetuar uma série de mecanismos altamente conservadores e contra-emancipatórios. Também a ideia de que em nome da integração, da festa, da parvoíce ou da tradição vale tudo (ou a simples ideia de que por ser festa e parvoíce entre amigos ou colegas não há nada de importante em jogo e, logo, não temos que ser excessivamente críticos ou "caretas") não é inocente e não deve ser menosprezada, na medida em que é o primeiro sinal do acriticismo que muitas vezes a sustenta e lhe dá força.

7. Tudo isso tem um significado político. E esse significado político cresce em importância quanto mais “neutralizado” parece ser pela banalidade e naturalidade das acções em causa (fruto quer da sua ligação a estruturas de dominação hegemónicas, quer do próprio papel que desempenham no contexto da universidade).

8. A hierarquia e a identidade são, sem dúvida, formas particularmente eficazes de integração e de criação de sentimentos de pertença colectiva, mesmo (ou especialmente) quando recorrem a rituais violentos ou ofensivos ou quando invocam “tradições” assentes na obediência e na subserviência. Não faltam exemplos na história para o demonstrar. Como tal, o que está em causa e deve ser questionado não é a eficácia daquilo que a praxe diz pretender, mas sim a forma e os mecanismos que adopta para o fazer. Para além de banalizar a obediência e a violência, como disse atrás, um sistema que centraliza e concentra poder leva facilmente situações de descontrolo, arbitrariedade e violência. É por isso que o que aconteceu no Meco é indissociável da praxe e não pode ser visto sem considerar o tipo de pessoas que esta, enquanto instituição, cria ou privilegia.

9. A atestar o carácter extremo que pode assumir e como as potenciais consequências envolvidas vão para lá dos excessos de um ou outro indivíduo, está o respeito revelado por um grande número de alunos, mesmo perante um caso tão trágico como este, pelo tal “pacto de silêncio” – uma regra aparentemente tão banalizada pela instituição da praxe que até numa situação com esta gravidade permite que se ignore o que está para lá dela, privilegiando o seu “código” em detrimento de outros factores e valores.

10. A demonstrar, ainda, o grau de obediência e submissão a que a praxe pode chegar, está o voluntarismo de quem é praxado (mesmo quando já não é um "simples" caloiro). Este voluntarismo é o que torna a praxe particularmente complexa, pois não só é o que o expõe a banalidade da obediência e da violência que existem a montante da praxe (o contexto social) como é o que demonstra a sua eficácia na reprodução e consolidação desses elementos, servindo, em última instância, como sua legitimação. A praxe encaixa perfeitamente numa sociedade cheia de pessoas que tanto gostam de mandar como de ser mandadas.

11. Quanto à proibição, é precisamente porque a praxe reflecte o que existe, e é, por isso, indissociável dum contexto mais amplo, que sou contra a sua proibição ou criminalização. Para além de me parecer uma solução ineficaz, a proibição reproduz, por outra via, a subserviência e obediência acríticas que tornam a praxe abominável. Por outras palavras, o seu problema de fundo – aquilo que a torna possível e que supostamente “neutraliza” o seu significado político – fica por resolver. Para quem se opõe apenas à violência (psicológica ou física) envolvida na praxe, a criminalização e proibição desta podem ser suficientes; no entanto, devem reconhecer que ao ignorar as suas causas estruturais estão simplesmente a deslocar para outro “lugar” essa violência. Não se acaba com uma polícia dentro das universidades (ou fora delas) substituindo-a por outra polícia.

12. Para concluir, a praxe é só mais uma das coisas que demonstra que a “hierarquia das causas” que muita gente se apressa a esgrimir (“está tudo a discutir as praxes/ a vida de um cão/ o eusébio quando o que interessa são as pensões/ o desemprego/ o capitalismo/ a guerra/ a fome”), especialmente quando os temas em discussão fogem da sua agenda de prioridades, não faz qualquer sentido. Não só pelo ascetismo que tem implícito e que parece sugerir que o que é verdadeiramente importante exige, nas suas vidas, uma dedicação exclusiva de 24 horas, como porque ignora a profunda interrelação entre muitas coisas aparentemente distintas e distantes. A praxe não só merece ser discutida em si, como é excelente para pensar o país e o mundo que temos – até porque nos lembra que os obstáculos a contornar para que outro mundo seja possível assumem muitas formas diferentes no nosso quotidiano.


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Finalmente, tudo isto lembra o Die Welle, um filme que retrata uma experiência feita numa sala de aula por um professor que pretendia provar aos seus alunos cépticos que algo como o nazismo podia perfeitamente voltar a repertir-se. O filme passa-se na Alemanha mas baseia-se numa experiência realizada nos EUA nos anos 60. Não é brilhante, mas vale a pena ver, especialmente com todas estas coisas em mente. Para não me esticar mais, fica um artigo publicado no The Guardian sobre o filme:



23/01/14

Compreender para onde vamos - I

Nestes últimos dias foram publicados alguns textos muito interessantes, e que se complementam no modo como abordam a época em que vivemos, e os caminhos que se nos apresentam.

No Passa Palavra, o texto "A periferia europeia como laboratório político", escrito por Ricardo Campos, descreve com grande minúcia a actual estratégia de apropriação pelas classes dominantes duma parcela cada vez maior da mais-valia criada no continente europeu. Foi também publicado na revista online ROAR. Igualmente nesta revista, o texto "Crises of Imagination, Crises of Power", por Max Haiven, descreve os diferentes modos como o capitalismo tem tentado cercear a imaginação colectiva. Uma das consequências tem sido a manifesta incapacidade para implementar na prática modos de organização comuns a uma escala passível de ter impacto no sistema vigente. Isto constitui um problema muito sério, dado que, independentemente de acreditarmos que o sistema capitalista entrará em colapso por si só, ou com a nossa ajuda, a mera prefiguração das características que desejamos vir a encontrar no sistema que substituirá o capitalismo não será de todo suficiente para assegurar tal. A análise histórica demonstra que, na ausência dum colapso catastrófico, todos os sistemas que emergem de processos de mudança (mesmo que passíveis de serem caracterizados, superficialmente, como revolucionários) assentam em estruturas pré-existentes com amplo alcance social (sendo as mais comuns, e óbvias, as estruturas de cariz estatal). Sem a concretização no terreno, e posterior difusão, de estruturas organizacionais que sejam realmente capazes de substituir as presentemente utilizadas pelas classes dominantes, e de ser percepcionadas como tal por uma fracção muito significativa da população, a resolução de qualquer distúrbio suficientemente grave para colocar em causa o actual sistema irá assentar numa tentativa de reconfiguração das estruturas já existentes. Assim será feito pela oligarquia que as controla, e exigido pelo resto da população que nada verá como alternativa credível.

"(…)the radical imagination and the ability to dream of and build towards different social horizons beyond the fog of capitalist unreason, depends on doing differently; on creating alternatives spaces, times and modes of reproducing ourselves, our communities and our world. This is a process of ‘commoning,’ of building living alternatives not in the sense of future utopias, but in the sense of radical models and zones to reproduce our relationships and our lives based on shared values."

Um dos melhores exemplos desta dialéctica entre teoria e prática, pode ser encontrada nos territórios zapatistas. Apesar do contexto bastante distinto daquele que encontramos em muitas outras regiões do globo, nomeadamente nos territórios mais industrializados, a experiência emancipatória vivida em Chiapas tem servido de modelo para a construção de alternativas concretas ao sistema capitalista vigente.

22/01/14

Diálogos ensurdecedores

Há polémicas que, não sendo propriamente diálogos de surdos, podem tornar-se diálogos cujos efeitos ensurdecedores entaipam a verdade das questões das quais partem. Assim, é curioso que nem o conservadorismo do Pedro Picoito o impeça de fazer sua uma concepção, contra os clássicos, da democracia que a limita a pouco mais que a instituição do princípio aristocrático da eleição dos representantes, despojando de prerrogativas governantes os cidadãos, nem a esquerda da qual se reclama o Luís M. Jorge o faça rejeitar, um tanto expeditivamente, a democracia directa, entendida como a participação em pé de igualdade do conjunto dos cidadãos no governo da cidade, considerando-"a mais demagógica excrescência da democracia representativa" — sem se dar ao trabalho de ponderar a ideia oposta, segundo a qual seria a democracia representativa que poderíamos dizer uma corrupção demagógica do princípio democrático. Resta-nos a esperança de vermos um destes dias o Filipe Nunes Vicente, que não me parece reivindicar qualquer dos títulos — conservador ou progressista — reclamados pelos seus companheiros num dos melhores blogues da esfera dos mesmos, precisar um pouco melhor os termos da questão que dicotomias que tais recalcam, pois que não aparentam ter outra utilidade para lá da de alimentarem esse recalcamento, e, entretanto, desfigurarem o recalcado, a saber: o exercício da cidadania governante como acção instituinte e instituição garante da democracia.

O "Projecto Escudo Dourado" entra em acção e confirma "a determinação do PCC em persistir com firmeza no caminho da construção do socialismo com características chinesas"

Mais uma medida de combate ideológico que, como diria Jerónimo de Sousa, mostra bem "a determinação do PCC em persistir com firmeza no caminho da construção do socialismo com características chinesas, que apontam como a via de construção do socialismo na China":


El Gobierno chino ha bloqueado la edición digital de EL PAÍS en su territorio para evitar la difusión de la investigación que revela que familiares directos de los máximos dirigentes, entre ellos el cuñado del presidente, así como grandes magnates, miembros de la Asamblea Popular y empresas estatales mantienen sociedades opacas en paraísos fiscales. El bloqueo de la web afecta también a Le Monde, The Guardian, Süddeutsche Zeitung y otros medios internacionales que han participado en la investigación realizada a partir de una filtración masiva de datos obtenida por el Consorcio Internacional de Periodistas de Investigación (ICIJ, en sus siglas en inglés).  La censura contradice la política de transparencia que oficialmente abandera la nueva presidencia china, que ha anunciado duras medidas contra el enriquecimiento ilícito de sus élites.
(…)
El bloqueo de las ediciones digitales es una práctica que el Gobierno chino ha empleado anteriormente con The New York Times y la agencia de noticias Bloomberg por sus detalladas investigaciones sobre las fortunas ocultas de los parientes de dirigentes chinos, entre ellos, el cuñado del presidente y el hijo del anterior primer ministro. Ambos figuran también en las revelaciones de EL PAÍS.

Esta censura y vigilancia de Internet por parte del Ministerio de Seguridad Pública chino se conoce oficialmente como Proyecto Escudo Dorado, aunque también es llamado el Gran Cortafuegos. Este proyecto, que comenzó sus operaciones en 2003, permite censurar contenidos de sitios web, fuentes de noticias o blogs que el Gobierno chino considera delictivos, subversivos u ofensivos.

O fundamento marxista destas medidas entra pelos olhos dentro. Como se sabe, o capitalismo sós será superado depois de esgotadas todas as suas potencialidades de expansão. Pelo que apressar essa situação, explorando as potencialidades de expansão do capitalismo, é uma tarefa da construção do socialismo. Ora, apesar de inegáveis êxitos nas últimas décadas, não se pode dizer que a situação actual — em que 1 por cento da população mundial detém metade da riqueza existente, ou em que "[o]s 1% mais ricos da China, Portugal e Estados-Unidos mais do que duplicaram os seus rendimentos nacionais desde 1980, e a situação tende a agravar-se"— tenha esgotado as potencialidades em causa, como o faria, sem margem para dúvidas de maior, a concentração da riqueza e do poder de comando da economia mundial nas mãos direcção do PCC, cujo triunfo na "construção do socialismo com caracterósticas chinesas" se consumaria, então, como uma realidade indiscutível.




O Firefox e a NSA

Brendan Eich, director de tecnologia da Mozilla (o organziação que distribui o Firefox), escreve que o governo dos EUA pode obrigar as empresas e organizações que distribuem browers para "navegar" na Internet a instalar dispositivos para vigiar o que os utilizadores fazem e, mais ainda, pode obrigá-las a manter essa informação secreta; assim Eich apela a que os utilizadores do Firefox com mais conhecimentos informáticos verifiquem regularmente o código do programa para descobrirem se há alguma dispositivo de vigilência oculto (via Reason).

É só a mim que isto (um responsável do Firefox dizer "vigiem o código do Firefox que a NSA pode obrigar-nos a instalar sistemas de vigilância e proibir-nos de divulgar isso") soa muito como uma mensagem cifrada dizendo "a NSA obrigou-nos a instalar um sistema de vigilância no Firefox e proibiu-nos de divulgar"? Claro que pode ser também um truque de marketing do Firefox, para dar a entender que, como este é open-source (em que os utilizadores têm acesso ao código do programa), é mais seguro porque é mais fácil aos utilizadores descobrirem sistemas espiões ocultos.

A via chinesa e o capitalismo ocidental

Vale a pena ler a informação divulgada por El País e outros jornais acerca do modo como a via chinesa tem vindo a acumular sucessos na aposta, como diria Krutchev (apesar das coisas lhe terem corrido menos bem), de alcançar e ultrapassar o capitalismo ocidental. É, no entanto, verdade que as oligarquias  governantes deste último dão sinais de querer aprender politicamente com os dirigentes chineses a optimizar o capitalismo, e em breve talvez as vejamos invocar Hayek, já não para dizer que o capitalismo é condição da liberdade, mas antes que a "democracia representativa" é apenas um meio, bem vistas as contingente,  de assegurar a "ordem liberal", ou a "liberdade da economia", como princípio de governo da sociedade.

21/01/14

Falta de pachorra, legião global e (re)educação para a cidadania

Notícia em El País:

Dasha Zhukova, pareja del millonario ruso Roman Abramovich, se ha visto envuelta en una polémica por fotografiarse sentada en una silla con la forma de una mujer de raza negra contorsionada y sin apenas ropa. La imagen fue publicada el lunes, justamente el día que se celebra en honor de Martin Luther King, ilustrando una entrevista que la prestigiosa galerista dio a la web Buro 24/7, propiedad de su amiga Miroslava Duma. Las críticas que la acusaban de racismo llegaron enseguida.

Dasha Zhukova é, ao que parece, milionária e companheira de milionário. E, sem dúvida, qualquer incipiente política de igualização de rendimentos e democratização da economia não poderá deixar de a tornar alvo de expropriação, até pôr o seu voto no mercado e o seu poder económico em pé de igualdade com os dos restantes cidadãos. Mas não é racista por se sentar numa "cadeira com a forma de uma mulher de raça negra contorcida e quase sem roupa", como o não seria, por exemplo, por só ter tido de facto — como diria o João Viegas — comércio sexual com não-brancos. Também não seria machista por se sentar numa cadeira com a forma de um falo alado ou não numa pose de aparente submissão aos seus (dele, falo) sortilégios, ou por eventualmente seguir o meu mau exemplo e se dirigir aos participantes numa assembleia de bairro chamando-lhes "cidadãos", sem registar explicitamente o facto de a assembleia em causa ser composta não apenas por homens.  O que não há é pachorra para aturar tanta etiqueta de boas maneiras edificantes, e a dúvida que fica é a de saber como, sem recurso aos métodos "siberianos" que por princípio e imperativo de sobrevivência própria exclui, poderia qualquer empresa de democratização efectiva (re)educar para a cidadania os espíritos censórios, que, ao contrário do escasso punhado de  coronéis da velha censura, tendem a tornar-se legião global.

Brian afinal continua vivo

18/01/14

17/01/14

Democracia burgalesa

Não é uma receita nem um modelo, e os mecanismos e organizações de controle antidemocrático do sistema representativo tentarão recuperar e/ou capitalizar em seu favor a iniciativa dos cidadãos, mas lá que a luta desenvolvida pelos moradores de Gamonal, em Burgos, aqui quase ao lado, é portadora de uma inspiração que tem faltado na região portuguesa e em toda a Europa, isso parece-me difícil de negar. Ver o filme dos acontecimentos em El País e no Público.es. E, já que aqui estamos, aproveitar para reflectir um pouco sobre o facto de tanto um como outro dos dois jornais atribuírem, nos títulos que escolheram para noticiar os acontecimentos, ao alcaide, ainda que derrotado, e não aos cidadãos cuja iniciativa e auto-organização o derrotaram, o estatuto de sujeito da acção.

O futuro da miséria é o futebol


Uma maneira de começar o ano positivamente é saborear a ultima invenção da garotada brasileira de que nos fala este amigo.
Porque, como diz a nova sabedoria popular, "Quando não há futuro, temos o tempo todo !" (ouvido, em dezembro 2013, no mercado de Olhão), variação da máxima do grande pensador algarvio Antonio Aleixo, "A boa vida quer paciência".

PS. Enquanto os desempregados portugueses choram e riem com as sagas dos magnates da bola, aqui mesmo ao lado, os vizinhos de Burgos opõem-se na rua (e nas escolas) à logica especulativa do capitalismo moderno. Mesmos tempos, lugares proximos, outra energia !

http://www.diagonalperiodico.net/global/21473-pp-burgos-decide-continuar-con-obras-gamonal.html

http://politica.elpais.com/politica/2014/01/11/album/1389399999_055139.html#1389399999_055139_1389529497

Na gíria popular brasileira, "dar um rolê" significa passear por lazer,
flertar com garotas.
Agora, os pobres das periferias criaram um movimento chamado "Rolezinho":
consiste em milhares de jovens de periferias e favelas marcarem pela
internet, pelo facebook e whattsapp, verdadeiros passeios de massas dentro
dos shopping centers. Resultado, eles entram aos milhares nestes lugares
um tanto elitizados (no Brasil apenas a classe média e os abastados
frequentam shopping centers) e isso provoca o pânico da classe média e dos
comerciantes.
O mais engraçado: eles não saqueiam, não depredam, não agridem ninguem.
Ficam a passear, paqueras de moças e rapazes, ouvem música Funk (funk
carioca cheio de palavrões) em celulares e caixinhas, e afugentam a
clientela do shopping. E, claro, desejam sapatos e tenis caros, ficam a
babar nas vitrines.
Agora a justiça tem ordenado e a Policia Militar invade os shoppings,
prende os jovens, bate neles, usa bombas de gás. Uma liminar na justiça
estabelece multa de 10 mil reais para quem for pego fazendo "rolezinho".
Na minha cidade os pobres dum bairro periférico tentaram fazer
um "rolezinho" numa praça pública e levaram sovas e balas de borracha da
polícia.
É claro, os "rolezinhos" surgiram porque os governantes estavam a proibir
o "pancadão" - bailes de rua, que tocam o nada adorniano funk carioca em
alto falantes enormes de carros, bailes com droga, sexo e favelados a
dançar. Com a repressão aos "pancadões" e bailes funk, os pobres começaram
a invadir shopping centers e praças. E agora a violencia e a repressão
correm soltas.
Certamente, nos rolezinhos não há um discurso anticapitalista. Há a
revolta dos jovens pobres, que escutam funks misoginos e funk
"ostentação", ou seja, pseudomusica de péssima qualidade, lixo da
industria cultural, com letras bem pornográficas ou de idolatria do
consumo. Os jovens são impedidos de organizar suas festas, e de consumir.
Logo, invadem os shoppings. Um fenomeno social muito significativo e
surpreendente.
Uma matéria sobre os "rolezinhos".
 
 http://coletivodar.org/2014/01/rolezinhos-o-que-estes-jovens-estao-roubando-da-classe-media-brasileira-por-eliane-brum/

16/01/14

Poetas nascituros

A Biblioteca Municipal do Porto anuncia para o próximo domingo, dia 19 de Janeiro de 1914, o nascimento de Eugénio de Andrade, e, tendo presente que os grandes poetas como os grandes santos se festejam de véspera, anuncia para o dia anterior cerimónias de Advento, cujo fervor religioso será assegurado por José Tolentino de Mendonça. Aguarda-se com expectativa a tomada de posição de alguns ímpios, com destaque para Arnaldo Saraiva, cuja participação no evento é igualmente noticiada.
(daqui)


14/01/14

O Passa Palavra contra um Guião de "estranhas confusões" que "grassam em Portugal"


O colectivo do Passa Palavra assina uma penetrante e detalhada análise crítica das propostas apresentadas por Alexandre Abreu, João Rodrigues e Nuno Teles no seu Um Guião Político para as Europeias de 2014. A pertinência democrática da perspectiva da análise parece-me eminentemente recomendável, pelo que deixo aqui breves excertos do texto sobejamente demonstrativos da necessidade da sua leitura integral (aqui).

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O núcleo do Guião Político, do qual tudo o mais decorre, reside na afirmação de que «estamos a fundir uma questão nacional politicamente potente – a da independência do país, […] com a indeclinável questão social – a da manutenção e reforço de um Estado social […] que não sobrevive sem instituições públicas […] que criam uma comunidade de destino, o cimento de uma primeira pessoa do plural que é sempre o ingrediente de todas as grandes transformações socialistas» (pág. 2). Apesar da roupagem democrática, temos aqui mais uma fusão do social com o nacional, que nunca deixou de produzir resultados trágicos. É deveras assustador que se tenha a tal ponto perdido a noção da dinâmica que levou ao aparecimento e à expansão dos fascismos. Essa dinâmica consistiu na convergência entre a enxertia do nacional no social, operada à esquerda, e a enxertia do social no nacional, operada à direita.

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O Guião Político afirma que «a esquerda que abandone o combate pela fusão destas duas questões», ou seja, a questão nacional e a questão social, «está a condenar-se a uma merecida irrelevância» (pág. 3). Possivelmente, e importaria aqui compreender porque se tornou natural a esquerda debater os efeitos de uma crise económica e financeira sobre a classe trabalhadora como se se tratasse de um debate sobre a soberania nacional. Pela nossa parte, porém, e apesar da «merecida irrelevância», afirmamos que o objectivo mais urgente da esquerda é combater a fusão daquelas duas questões, impedir que o nacional seja uma condição do social.

Mas grassam em Portugal estranhas confusões a este respeito, porque embora a esquerda evoque a nação e a soberania com o mesmo empenho com que a extrema-direita o faz, recorre a curiosos artifícios para disfarçar a incómoda vizinhança. Uns baptizam-se de patrióticos, como se isto os absolvesse do nacionalismo. Neste caso, Alexandre Abreu, João Rodrigues e Nuno Teles previnem que o Guião Político «não é uma proposta com objetivos ou princípios nacionalistas de fechamento, uma vez que considera o desmantelamento da UEM [União Económica e Monetária] como uma condição necessária para o progresso das classes populares em toda a Europa — não apenas em Portugal —, podendo e devendo fazer-se acompanhar por novas modalidades progressistas de cooperação entre Estados […]» (pág. 12). O internacionalismo fica assim convertido numa soma de nacionalismos, o que é o seu exacto oposto. Quando Marine Le Pen, presidente do Front National (Frente Nacional), conduz o principal partido da extrema-direita francesa para as eleições europeias deste ano dizendo que «é necessário aguardar que tudo se desmorone, contribuindo para isso se possível, para fazer emergir um projeto de uma Europa de nações livres [...]», como se distinguirá ela do peculiar internacionalismo dos autores do Guião Político? Na mesma ordem de ideias, Geert Wilders, chefe do Partij voor de Vrijheid (Partido da Liberdade), a principal organização da extrema-direita holandesa, declarou: «Efectivamente, penso que a nossa geração de políticos será capaz, pela primeira vez, de se mostrar diferente e recuperar o que nos pertence, isto é, a soberania nacional» (The Economist, 4 de Janeiro de 2014, pág. 18).

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Reivindicar, no plano político, o reforço da soberania nacional não é mais do que, no plano económico, absolver os sectores das classes dominantes que em Portugal menos se interessaram pelos mecanismos da produtividade e da mais-valia relativa. São precisamente estes os sectores que, se o país abandonasse a zona euro, beneficiariam do abaixamento salarial e do aumento da inflação para exportar quinquilharia, continuando a apresentar no mercado estrangeiro bens com baixa componente tecnológica. Para os trabalhadores em Portugal isto significaria uma massa salarial ainda mais comprimida e a contratação de menos mão-de-obra qualificada, com o aumento da emigração dos mais qualificados e o agravamento da espiral de declínio. No âmbito de uma economia debilitada, a saída da zona euro implica o prolongamento indefinido da austeridade sobre os trabalhadores. A substituição de uma política capitalista de austeridade e recessão por outra política, não menos capitalista, de incentivos económicos poderá ser feita no quadro da União Europeia e da zona euro, desde que uma alteração do contexto político e social imponha a mudança das orientações predominantes de política económica. Mas nunca conseguirá efectuar-se no âmbito de um país pequeno e economicamente irrelevante.
Sobre os problemas colocados por uma resposta europeísta, os autores do Guião Político consideram que «dada a história recente da UE – e em particular da Zona Euro –, é uma ilusão política apostar determinada e prioritariamente num programa federal progressista» (pág. 7). Perante tal afirmação, importa perguntar: quais os dados na história recente portuguesa que tornam viável um programa económico nacional? Se o «modelo do mercado único, nos termos da ideologia liberal, constitui um traço matricial da construção europeia» (pág. 7), qual o traço matricial de uma alegada construção portuguesa que conduz ao cenário idílico delineado pelos autores? Na realidade, não só o processo revolucionário em curso (PREC) já ocorreu há 40 anos, como o seu desenlace, entre outros motivos, reflectiu o isolamento, aqui apontado como solução. É precisamente devido à diferença das condições objectivas dos povos (pág. 7) que propomos deixar de falar de povos e passar a falar de uma classe, transfronteiriça e unida por um projecto político comum. Mais do que procurar um traço matricial na história da Europa que nos sirva de guia, preferimos evocar um conjunto de experiências — desde os motins e confraternizações de ambos os lados das linhas de frente na primeira guerra mundial, passando pelos militantes de diferentes nacionalidades que rumaram a Espanha em 1936, até às manifestações antiglobalização nos inícios do século XXI — que comprovam a possibilidade desse projecto político, para lá da dimensão nacional. Não deixamos, contudo, de prestar atenção aos momentos na história da Europa do século XX em que o proletariado, dividido em nações, acabou por se massacrar a si próprio.