29/07/16

O nazi iraniano

Quando saíram as segundas notícias sobre o atentado em Munique, dizendo que o atacante era de origem iraniana, aparentemente desmentindo as primeiras (segundo as quais seria um ataque de neonazis), muita gente comentou "afinal, estava tudo à espera de um skinhead ariano, e afinal saiu-lhes um Ali David Sonboly"; eu ainda estive para responder a alguns desses comentários com um "Bem, tecnicamente era um ariano" (querem país mais "ariano" que o Irão?), mas achei que seria preciosismo demais da minha parte.

Mas não é que afinal a sua auto-identidade "ariana" sempre parece ter sido um elemento importante do ataque?

Munich Gunman Was Obsessed With Hitler, 'Hated Turks and Arabs,' Says Report (Haaretz):
The 17-year-old was obsessed with Adolf Hitler, with whom he shared a birthday, was proud of his "Aryan" heritage and hated and felt superior to Turks and Arabs, the newspaper said in its report. 
Ali David S opened fire outside a McDonald's restaurant in Munich's Olympia shopping center late Friday, killing nine people - most of them teenagers with a non-German heritage - and injuring dozens of other people before turning his semi-automatic pistol on himself.
De qualquer maneira, mesmo que não se saiba bem as motivações do ataque, parece-me pouco provável que faça parte de uma série que inclua também os outras ataques dos últimos 15 dias, ligados ao Estado Islâmico: sendo iraniano, seria muito provavelmente xiita, e o EI não parece gostar mais de xiitas do que gosta de cristãos.

Aliás, há mesmo nazis iranianos (imagino que atualmente quase todos no exílio) - abertamente há (ou houve) o SUMKA, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores do Irão (o nome diz tudo, acho); e, ainda que não-abertamente, o Partido Pan-Iraniano também me parece andar por aí (veja-se a sua estética).

28/07/16

Investigador quer que o ensino superior seja ainda mais selectivo e discriminatório

Investigador diz que ensino superior é “selectivo” e “discriminatório”:
Estudo revela que os casos mais flagrantes acontecem nos cursos de medicina e arquitectura. O especialista defende que a selecção dos alunos deveria ser feita com base não apenas em exames, mas também em entrevistas e exames psicotécnicos. (...)

O sistema de ensino superior português foi criado numa lógica de "massificação e democratização sem igualdade", registando-se uma "sub-representação" das classes mais baixas da sociedade que resulta, em parte, da utilização do numerus clausus como mecanismo único "de selecção", disse à agência Lusa um dos coordenadores do livro "Sucesso e abandono no ensino superior em Portugal" José Manuel Mendes. (...)

Segundo José Manuel Mendes, a selecção dos alunos deveria ser feita com base não apenas em exames, mas também em entrevistas e exames psicotécnicos, "como se faz noutros países", de forma a tentar garantir uma "melhor representação da sociedade" no universo de estudantes que frequenta o ensino superior.
O diagnóstico provavelmente estará certo, mas a solução proposta é absurda - meios de seleção como entrevistas e psicotécnicos, que escolhem os candidatos com base na sua personalidade e não (apenas) com base nas notas, são ainda mais discriminatórios, já que se baseiam abertamente em escolher pessoas com uma dada personalidade, maneira de ser, etc., e não pessoas com outra. E numa altura em que tanto se fala das vantagens da "diversidade", escolher alunos com base na sua personalidade (o que obviamente implica preferir umas personalidades a outras) e não com base nas suas notas parece-me ainda mais um contrasenso.

E mesmo de acordo com o problema específico que o estudo refere, a discriminação com base na classe social de origem, suspeito que isso ainda o iria agravar - se há uma ligação entre as notas no secundário e a classe social de origem, também o há largamente (se calhar ainda mais) entre a personalidade e a classe social de origem, com a agravante que é mais fácil subir as notas com esforço e dedicação do que mudar de personalidade com esforço e dedicação.

Quando leio artigos ou vejo filmes sobre o processo de admissão nas universidades norte-americanas, com aqueles rituais bizarros (as entrevistas, as cartas de recomendação dos professores, os alunos que fazem atividades extracurriculares no secundário porque fica bem no curriculum, etc.), e as polémicas associadas sobre se o sistema beneficia uns grupos ou outros, eu costumo pensar "mas porque é que eles não fazem como os países civilizados e não escolhem os alunos de acordo com as notas num exame, sem dar hipótese aos responsáveis das universidades de - mesmo inconscientemente - discriminarem de acordo com as suas preferências subjetivas?"; mas pelos visto há quem ache o contrário e pretenda americanizar o ensino superior português (no caso dos EUA, penso que está mais ou menos provado que o motivo original de terem adotado esse sistema foi como uma forma de limitar o acesso às universidades de grupos étnicos cujo desempenho académico era largamente superior ao seu prestígio social na altura - leia-se "judeus" - e manteve-se depois por inércia, e também porque é mais fácil com um sistema desses meter pela "porta do cavalo" filhos de pessoas que dão grandes doações à universidade, ou de antigos alunos famosos).

Mas, já que se pretende copiar americanices, se o objetivo é limitar a discriminação por classe social, seria melhor ideia copiar o sistema de admissão da Universidade do Texas, em que (com alguns limites) os 10% melhores alunos de cada escola secundária têm automaticamente entrada assegurada na universidade (em termos portugueses, isso quereria dizer que entravam tanto os 10% melhores alunos da Escola Secundária do Restelo como os 10% melhores alunos da Escola Secundária da Baixa da Banheira).

27/07/16

A tentativa de golpe no Labour. Militantes levam partido a tribunal.(actualizado)

Como se viu recentemente, com as eleições americanas, as oligarquias partidárias, mesmo dos partidos situados na ala esquerda, olham para os militantes como um constrangimento. De preferência organizam estruturas e procedimentos que visam "aliviar" os militantes de base, da cansativa necessidade de tomar decisões. Basta-lhes abanar a cabeça regularmente e submeterem-se a rituais de obediência aos poderes instituídos. A unidade é a palavra mágica que legitima o exercício do poder das oligarquias sobre as bases. Na práctica tratou-se de internalizar, no funcionamento dos partidos, a receita que a social-democracia europeia adoptou para promover a sua própria decadência e irrelevância: despolitizar o dia a dia dos cidadãos, deixando-os completamente "livres" para se dedicarem, com todas as suas energias, ao consumo. No caso dos partidos os cidadãos são substituídos por militantes.

Quando os militantes se revoltam e decidem apoiar um improvável candidato, a coisa pode complicar-se. Foi o que aconteceu com Bernie Sanders nos Estados Unidos. É aquilo que está a acontecer com Jeremy Corbyn no Labour.
Como aqui referi o golpe pelo controlo do Labour, a partir do grupo parlamentar maioritariamente hostil a Corbyn, arrancou logo após a vitória do Brexit. Num primeiro round o sector afecto ao Partido Parlamentar perdeu. Mas, como se costuma dizer, derrotados mas não convencidos. Inconformados com o apoio manifestado ao líder em todas as sondagens divulgadas, reuniram e tomaram medidas. Em primeiro lugar acharam Angela Eagle, a que primeiro se perfilou para desafiar o líder, demasiado conotada com as politicas que os militantes e simpatizantes detestam. Resolveram promover um outro candidato mais à esquerda, mais eficaz a invadir o eleitorado que apoia Corbyn. Alguém que pode até copiar, sem rebuço, o programa que o líder tem estado a defender e, ao mesmo tempo, com uma imagem mais jovem, eventualmente mais sedutora. O pequeno senão de ser um lobysta da indústria farmacêutica, pareceu-lhes coisa resolúvel. O facto de ter sido, até lhe acenarem com o poder, um apoiante de Corbyn, não os deteve.

Owen Smith foi o homem escolhido pelo Partido Parlamentar para derrotar o líder do Partido.
As sondagens continuam negativas para os desafiantes de Corbyn. Porque será?
Mas - nestas coisas de comportamentos partidários desafiadores de regras democráticas e violadoras do dever de tratar todos em pé de igualdade, o Labour parece ter sólidos pregaminhos - o Comité Executivo Nacional (NEC) do Labour decidiu que todos os militantes que aderiram ao partido em 2016 não podem votar. A menos que paguem 25 Libras. As reacções foram violentas já que, desde que Corbyn lidera o partido, sucedem-se as adesões e os regressos dos que até então estavam desiludidos com a liderança neoliberal de Blair e Gordon. Com esta decisão o NEC tenta impedir que 130 mil novos militantes possam participar na votação, ao mesmo tempo, dificulta a regularização da situação pela via do pagamento de uma taxa prevista nos estatutos. Nas últimas eleições essa taxa era de 3 Libras, registe-se. Agora passou a ser de 25 Libras. A coisa adquire tais proporções que muitos militantes decidiram colocar o partido em Tribunal. Assim mesmo. Exigindo que lhe seja reconhecido o direito a participarem. Corbyn defende esse direito e prometeu apoiar os militantes. De Owen Smith nem uma palavra.

Não é apenas o Partido Parlamentar que quer derrotar Corbyn. A maioria dos deputados trabalhistas votaram favoravelmente ao rearmamento da frota nuclear de submarinos. Cameron aproveitou a divisão no Labour para passar esta polémica medida ajudando a acentuar as divisões no Labour. Isso ajuda a perceber as declarações do ex-líder da Unite, que acusou o MI5, a CIA dos ingleses, de estar a lançar uma campanha negra para desacreditar Corbyn.

São invios os caminhos da democracia. São perversos os caminhos da partidarite e do tachismo. Por isso mesmo faz cada vez mais sentido defender a qualidade da democracia. Uma democracia de cidadãos em que o compromisso seja com a defesa dos seus direitos sociais e políticos, e não com a defesa dos lugares e das carreiras dos que ascendem aos lugares electivos.

ADENDA: O Supremo decidiu esta tarde -28.07.2016 - que não havia nenhuma ilegalidade na admissão de Corbyn como candidato à sua sucessão. Um membro do partido, em representação dos que se lhe opõem, tinha recorrido da decisão de que demos conta aqui. Uma vontade incontrolável de "banirem" Corbyn da liderança anima esta gente.

26/07/16

Bernie Sanders. A questão do apoio a Hillary Clinton

Hillary Clinton é uma das mais impopulares candidatas democratas da história americana. Há boas razões para essa impopularidade, desde a sua ligação/dependência  aos/dos interesses que fazem lobbyng junto da Administração, aos comportamentos politicos menos defensáveis enquanto Secretária de Estado [caso dos emails], para culminar agora na forma como beneficiou do comportamento parcial, sectário, anti-estatutário, da máquina do Partido Democrata que agiu deliberadamente para afastar Bernie Sanders da hipótese de nomeação. Esse comportamento parcial, deliberadamente parcial, do Partido Democrata tem um nome: Debbie Wasserman, a até agora presidente do partido. Mas o nome que podemos ler por trás, se olharmos com atenção, é Hillary Clinton, a grande beneficiada com a actuação da, agora obrigada a demitir-se, presidente dos democratas.
Neste quadro muitos se interrogam sobre a razão que leva Bernie Sanders a apoiar Clinton. Pode-se discordar do tom, achá-lo exagerado, mas que sentido faria tomar outra atitude? Sanders utilizou o seu enorme capital politico para introduzir mudanças na máquina do partido democrata,  particularmente para impedir que futuramente novas Wasserman possam mandar às malvas os "nossos valores e os nossos principios" e sacrificá-los sem dó nem piedade aos "nossos queridos interesses". Além disso acordou a futura eliminação dos anti-democráticos "super-delegados" que nem no conservador Partido Republicano existem. Mas, mais do que isso, obrigou Hillary Clinton a adoptar um programa politico para a sua candidatura que é o mais à esquerda da história do Partido Democrata. Subida do salário mínimo para 15 dólares/hora, sistema de ensino universal e gratuito, controlo do sistema financeiro, entre outras medidas. Todos os programas valem o que valem e na América, normalmente, valem pouco. Mas de nada valeria se Sanders tivesse adoptado a linha de alguns dos seus apoiantes. Aqueles  que, incapazes de aceitar Clinton, acham  mais valer votar em Trump "porque assim talvez as pessoas vejam a podridão disto tudo". Se Trump ganhar será certo que essa podridão será mais visível, mas sinceramente não será este um caso tipico em que a defesa do "quanto pior melhor" não faz nenhum sentido. Sanders não teve dúvidas e ainda bem. Falta saber se uma candidata tão impopular consegue derrotar o multimilionário xenófobo e hiper-nacionalista que dominou o Partido Republicano. Não vai ser fácil e os riscos são enormes.

21/07/16

A tolerância cristã

É por vezes afirmado que o cristianismo será uma religião intrinsecamente mais tolerante que outras (nomeadamente o islamismo).

A respeito disso, é interessante comparar com a situação das religiões pré-islâmicas no mundo muçulmano - aí, yazidis, mandeus, zoroastrianos, cristãos coptas e siríacos, etc., são frequentemente vítimas de perseguições, assassínios, violações, conversões forçadas, etc. 

Já na Europa cristã, as religiões pré-cristãs são... o que é que foi feito delas mesmo? 

Tirando duas exceções (os judeus e alguns animistas numa remota região russa), parece-me que foram completamente varridas do mapa; pode-se argumentar que a diferença é que o cristianismo teve mais séculos para converter/exterminar outras religiões, mas mesmo em zonas só recentemente cristianizadas (como a Lituânia, que tem pouco mais de 600 anos de cristianismo) não há qualquer sinal de "paganismo" (tirando revivalistas modernos).

Mas algumas ressalvas:

- Provavelmente, a sobrevivência até a atualidade de comunidades religiosas pré-islamicos não resultou de nenhuma "tolerância" mas de racismo: nos primeiros séculos do Islão (sobretudo durante os califas omíadas), dominava a ideia de que o islamismo seria uma religião para os árabes, pelo que havia pouca preocupação em converter povos "inferiores" (que como infiéis até pagavam mais impostos).

- Creio que ninguém contestará que o cristianismo é provavelmente a religião mais tolerante hoje em dia (excluindo talvez algumas religiões tão minoritárias que não conseguiriam ser intolerantes mesmo que quisessem); o que estou pondo é causa é que essa tolerância seja algo essencial, e não apenas um acidente histórico dos últimos 200 ou 300 anos.

O que é o "ordoliberalismo"?

Francisco Louçã, Vital Moreira e João Rodrigues andam a discutir o que é ou não é o "ordoliberalismo".

A minha opinião (tomando como referência sobretudo o livro A Humane Economy, de Wilhelm Röpke) - o ordoliberalismo parece-me uma teoria que combina posições microeconómicas não muito diferentes das de economistas de centro-esquerda como Paul Samuelson, defendendo a intervenção do estado para combater as falhas de mercado (no caso dos ordoliberais, com uma grande ênfase na defesa da concorrência), com posições macroeconómicas à direita de Milton Friedman, defendendo entusiasticamente orçamentos equilibrados e uma politica monetária restritiva (pelo menos no caso de Röpke, com alguma simpatia pelo padrão-ouro). Talvez seja o mais parecido que existe com o "estatismo não-keynesiano" que falo aqui. E, realmente, a política da UE é capaz de andar perto disso - muitas vezes com aparentemente excessiva microregulação e ao mesmo tempo com politicas macroeconómicas bastante restritivas (o que parece contraditório se vermos numa perspetiva estatismo vs. liberalismo, mas já faz mais sentido numa perspetiva regras vs. flexibilidade).

Eu aliás diria que a visão económica dos ordoliberais não pode ser dissociada de uma visão social mais ampla (aliás, creio que um dos aspetos do ordoliberalismo é considerar que a economia não pode ser vista dissociada do conjunto da sociedade) - creio que a ideia dos ordoliberais é um mundo de pequenas e médias localidades e pequenas e médias empresas, com famílias coesas, trabalhadoras e poupadas (Röpke até criticava as compras a prestações), desconfiando simultaneamente do grande capital, do consumismo e do despesismo estatal.

Isto que vou sugerir agora já é uma hipótese altamente especulativa, mas talvez o ordoliberalismo possa ser considerado como sendo, pela direita, um dos herdeiros do romantismo alemão, sendo o outro, pela esquerda, os Verdes (diga-se que o tal livro de Röpke tem uma série de páginas que se tivessem sido escritas uns 20 anos depois quase que poderiam ser de um "verde", lamentando a destruição da natureza pela industrialização - embora provavelmente o "verde" não concluísse o lamento, como Röpke, escrevendo que o único sítio no mundo moderno em que se podia encontrar tranquilidade era numa igreja).

16/07/16

Divulgadas as páginas "secretas" do relatório sobre o 11 de setembro

As 28 páginas que eram secretas até hoje (apenas congressistas dos EUA as podiam ler, numa sala fechada, acompanhados por um agente dos serviços de informação, e sem poder tirar apontamentos). Muita informação continua rasurada

http://intelligence.house.gov/sites/intelligence.house.gov/files/documents/declasspart4.pdf

Aparentemente, a parte mais relevante serão as revelações de que o embaixador saudita (e sobrinho do atual e de quase todos os anteriores reis da Arábia Saudita) terá dado dinheiro a alguém eventualmente próximo dos terroristas.

15/07/16

A Coerência tem um nome: Goldman Sachs.

Fiel aos seus princípios e aos seus valores a Goldman Sachs contratou Durão Barroso para ser o seu chairman. Este simples facto tem permitido um conjunto de reacções que tendem a evidenciar uma censura que vai do Bloco, em Portugal, ao senhor Hollande em França. Não fora a tradicional politica dos afectos do nosso Presidente, e uma militante defesa dos valores lusitanos emergentes na cena global, aqueles que se vão da lei da vida libertando, na versão pós-camoniana do PSD, e tinha sido a semana inteira toda a gente a malhar no pobre do Cherne, que, por esta altura, já estaria  com a sua cabeça robusta, a grande boca e a proeminente mandíbula, a fina serrilha da borda do propérculo, tudo escavacado, de tanta mocada, fundada, pasme-se, numa convergência  critica que resiste mesmo às fronteiras entre europeistas ditos bons e ditos maus.
Mas, julgo eu, a mais importante de todas as leituras a fazer é a seguinte, desculpem-me a imodéstia: a Goldman Sachs (doravante tratada por GS) é, no conjunto das grandes instituições financeiras globais, a mais coerente entre todas elas. Apenas à luz dessa coerência, irrevogável e inegociável, digamos assim,  podemos apreciar, em todo a sua plenitude, o sentido que faz a contratação do nosso patrício.

Durão Barroso chegou a Bruxelas e à presidência da Comissão Europeia, sem ter beneficiado de uma carta de recomendação da GS. Apesar desse handicap executou uma politica cujos resultados ultrapassaram as melhores expectativas daqueles que se lhe juntaram ou o precederam, enviados das madrassas globais. Para a veneranda instituição não existem dúvidas sobre os méritos de Durão. Ele é o homem. O The Special One, da austeridade.  A orientação que conferiu à politica europeia, e o lamaçal para o qual arrastou as ideias fundadoras da União Europeia, mostram a verdadeira capacidade e determinação de que é feito. A GS sabe muito bem que aldrabou as contas da Grécia e conduziu o povo grego para a beira do precipicio. Mas, sabe ainda melhor, que, sem o empurrão firme e implacável de Durão os gregos não teriam dado o passo em frente. E veja-se todo o sofrimento que essa pequena contribuição gerou. E os ensinamentos que daí se retiraram.

É dum homem assim, com esta visão e esta determinação, que a GS precisava. Alguém que possa agora internalizar novas prácticas, novos métodos de fazer mais rapidamente o sofrimento  chegar a mais pessoas e a mais lugares,  e tudo isso conjugado com mais lucros para a GS e os seus accionistas. Um pioneiro, um descobridor, que, em vez de ter transitado dos bancos da Universidade para a Madrassa Nova Iorquina da GS, como o lusitano Moedas e outros que tais aplicados discipulos, andou, pelo contrário, a completar estudos superiores na cultura chinesa, no velho MRPP, lutando pela pureza ideológica, pela preservação da linha vermelha, pela derrota de todos os revisionistas e social-fascistas. O mesmo que, depois de ter perdido os livros de Mao e de ter mesmo chegado a pensar que nunca os terá lido, prosseguiu incansável na procura da luz e a encontrou no PSD. E que, depois de ter pensado que essa luz já não o favorecia, abandonou essa incubadora de jovens talentos, muitos deles em trânsito para a madrassa que agora vai chefiar. E que arrancou determinado para Bruxelas para mandar na Europa e ajudar a escavacar um continente e todos os restantes. Um homem que ajudou a fazer a guerra e mostra resiliência a escapar a toda e qualquer denúncia. Um especialista "a estar" quando é a hora de colher  e "à invisibilidade" quando se trata de prestar contas. Um chefe, é isso que Durão é. Um verdadeiro chefe que trata de si o melhor que sabe, depois de ter toda a vida feito exactamente o mesmo: tratar de si e dos seus interesses.

A GS percebeu-o muito bem. Este homem é o homem que lhe faltava. Alguém cuja gula e ambição não conhece limites, capaz de reservar para si, e para os seus, tudo o que puder abocanhar. Alguém que acha que não devem existir limites ao sofrimento dos outros, já que isso resulta, como se sabe, da culpa dos próprios e da clássica incapacidade para distribuírem de uma forma justa a pequena parte que lhes resta a todos. Um homem que  nunca se cansa de combater as ineficiências do sector público e o peso excessivo do Estado na economia, incapaz até de distribuir justamente os restos que escapam às garras da GS.

Que outro homem poderia a GS escolher para continuar a Obra?

13/07/16

O Golpe falhado - para já - no Labour.

O Comité Executivo Nacional (NEC) do Labour decidiu, esta tarde, que o actual líder se pode recandidatar à liderança enfrentando o desafio que lhe foi lançado pela deputada Angela Eagle.
Pelos relatos dos jornais britânicos viveram-se momentos de grande tensão já que tudo apontava no sentido de ser recusada a recandidatura de Corbyn. Eagler obteria assim uma fácil vitória na secretaria.
Imagine-se como a democracia partidária pode ser colocada em questão apenas pela obsessão da chegada ao poder. Recorde-se que a maioria dos deputados trabalhistas votaram uma moção de desconfiança no seu secretário geral, embora essa figura não seja estatutariamente considerada. Mas esse facto teve um enorme impacto politico, passando a suceder-se um conjunto de declarações que punham em causa a legitimidade politica de Corbyn. A mais "altruísta" destas declarações foi de Cameron, que no último debate entre ambos, declarou acintosamente qualquer coisa do estilo: ó homem, por favor vá-se embora.
Recorde-se que esta situação foi despoletada com o resultado do Brexit. A ala direita do Labour passou a difundir uma mensagem politica que atribuía a Corbyn a principal responsabilidade pelo resultado do referendo. Apesar das sucessivas declarações do líder trabalhista de que mais de 2/3 dos eleitores do Labour apoiaram o Remain, e do seu empenho na defesa da proposta de "Remain and Reform", que visava reformar a União Europeia, a propaganda continuou implacável.
Há duas razões politicas que justificam este comportamento do "partido parlamentar", essa aberração que não existe apenas no Labor e não existe apenas no Reino Unido. Por um lado o reforço da liderança de Corbyn significará, a curto prazo, o fim, ou a interrupção, da vida politica da esmagadora maioria destes deputados, quase todos ligados a Blair e a Brown. A impossível defesa do actual status - com a burocrática mudança de primeiro-ministro a ser tratada como um affaire dos Tories - vai levar, inevitavelmente, à antecipação das eleições gerais e à substituição dos Conservadores. Um horror para os inimigos confessos de Corbyn. Por outro lado a  revelação do Relatório Chilcot,  sobre a guerra no Iraque e o papel desempenhado pelo Governo de  Tony Blair, iria provocar  danos consideráveis na ala mais à direita do Labour, como se confirmou. Havia que controlar os danos, elegendo alguém com "outro estilo".  Esta ficção de que a diferença entre Corbyn e Eagle é fundamentalmente uma questão de estilo, não lembraria ao diabo. Angela apoiou a guerra do Iraque. Corbyn esteve sempre contra. Angela apoiou o bombardeamento da Siria. Corbyn esteve contra. Angela absteve-se nos cortes do Estado Social propostos por Cameron-Osborne. Corbyn votou contra. Apoiou o aumento brutal das propinas. Corbyn votou contra. Corbyn está contra o investimento no rearmamento do submarino nuclear. Angela apoia esse investimento. Como é que se pode falar de uma simples mudança de estilo? Mas, dando tudo isto de barato, veja-se como mudou o discurso do Labour com Corbyn. Como o combate à desigualdade, por uma economia mais justa, pelos direitos das pessoas, pelos direitos do trabalho, pela intervenção do Estado na economia, pelo reforço da democracia, contra a austeridade, contra o belicismo, passaram a estar  no primeiro plano do combate politico.
Quem não vai nesta cantiga das diferenças de estilo são os apoiantes do Labour, incluindo os sindicatos e mesmo diversos analistas.
Corbyn e o novo Labour são uma ameaça para os conservadores e, com a mesma intensidade, para os trabalhistas acantonados no "Partido Parlamentar" que, ao longo de décadas, mimetizaram o comportamento politico dos seus rivais, mostrando que eram capazes de fazer pior do que eles.







12/07/16

Sanções por unanimidade?

Ao que parece as sanções a Portugal vão ser aprovadas por unanimidade (isto é, o princípio geral das sanções - depois ainda se vai decidir a sanção concreta, que até pode ser uma multa de zero euros).

Portugal não vota, mas não era suposto haver outro governo na Europa empenhado em combater a austeridade e criar uma nova União Europeia? Sim, Grécia, estou a falar de ti. Já agora, como é que Portugal vai votar nas sanções a Espanha?

04/07/16

Sanções. Uma descarada hipocrisia politica contra o interesse nacional

Passos Coelho e  Maria Luísa Albuquerque andaram uns meses a fingir, mas já não aguentavam mais. Tinham que apoiar as medidas de apoio às sanções a Portugal, embora essas punissem o seu último ano de Governo. Deve ter dado um trabalhão articular a hipocrisia. Passos, hoje no DN, revela ao mundo a descoberta que trasnforma um erro cometido por nós, num dado momento, em responsabilidade de quem no futuro estiver a sofrer as consequências do que nós fazemos agora. Talvez se possa chamar a isto responsabilidades futuras -desde que não assumidas por eles, claro - pelos erros que cometemos agora mesmo. Uma forma de defender a nossa ininputabilidade e a eterna responsabilidade dos outros.
Maria Luísa Albuquerque deixou-nos três bancos de pantanas - o BES, a Caixa e o Banif - e não hesita em afirmar que com ela nada disto aconteceria. Julgo que terá alguma razão, na tresloucada afirmação. Com ela os talibans de Bruxelas estariam seguros que a implosão da economia portuguesa estava muito bem entregue. Ninguém se lhe comparava, como concluiria sem esforço o próprio Vitór Gaspar.
Bruxelas não aguenta que um Governo - apoiado pelas esquerdas - se atreva a mostrar que há uma alternativa ao caminho por  si imposto.  Não olha a meios para atingir os seus fins. Mobiliza a quinta coluna interna para os seus sinistros objectivos.
Claro que clamar contra Passos, Maria Luís, e outros que tais, nada resolve. Sejam eles ou outros, a direita apostará sempre nesta UE, que é hoje a negação do projecto europeu inicial. Importa criar uma corrente politica que junte todos os que são contra a austeridade e que imponha novas regras de funcionamento democrático na União Europeia. O que não faz sentido é os partidos que são capazes de se unir à esquerda para formarem governo, sejam incapazes de criar uma plataforma mínima comum para implodirem os directórios há décadas dominados pela direita neoliberal e neoconservadora. Aí, Costa não o pode ignorar, os partidos socialistas têm muitas  responsabilidades. A pergunta que se irá colocar dentro de algumas semanas é a de saber se se irão vergar às sanções e baixar a pata da austeridade sobre a população portuguesa, ou se vão fazer soar a sua voz e bater o pé ao ditador alemão e aos seus capangas internos e externos?

01/07/16

O futuro do trabalho


A segunda edição da revista do colectivo ROAR foi recentemente publicada. Dedicada ao futuro do trabalho, "Future of Work", inclui os artigos:

The Future Doesn’t Work, Jerome Roos
The Remaking of the Global Working Class, Beverly Silver
Working-Class Militancy in the Global South, Immanuel Ness
Social Reproduction: Between the Wage and the Commons, Silvia Federici e Marina Sitrin
Workers’ Control in the Crisis of Capitalism, Dario Azzellini
The Street Syndicate: Re-organizing Informal Work, Carlos Delclós
Will Robots Take Your Job?, Nick Srnicek e Alex Williams
Socialize the Internet!, Joseph Todd
Basic Income and the Future of Work, Daniel Raventós e Julie Wark
Towards a Post-Work Society, David Frayne

A edição está disponível, por inteiro para os assinantes, e parcialmente para o público em geral. Neste momento já estão disponíveis o editorial de Jerome Roos e o artigo de Beverly Silver. Os outros artigos serão disponibilizados ao longo das próximas semanas.