10/04/12

Os proibicionistas

Diário da Assembleia da República de 17 de Fevereiro de 2012 [pdf]:


Mas o que é feito dos anti-proibicinistas do BE (é um pouco absurdo, parece-me, ser a favor da legalização de algumas drogas, ao mesmo tempo que se vota a favor de ilegalizar as que eram legais)? E, já agora, das alas "liberais" que parece que há no PSD e no CDS?

A evolução segura na continuidade da luta socratista do PS contra a social-democracia

 A breve crónica de Viriato Soromenho Marques, hoje publicada no DN, tem o mérito de resumir as razões que fazem com que o PS local contribua para que, como diria o João Rodrigues, o lugar da social-democracia continue vazio. E, o que é mais, fá-lo sem  incorrer na adoração fetichista das virtudes do Estado-nação que por vezes limita deploravelmente as intuições e argumentos mais interessantes do ladrão de bicicletas acima citado.

Claro que saber se a metodologia social-democrata é suficiente e verosímil como via de uma democratização efectiva que garanta que sejam os cidadãos a governar, e só por si próprios sejam efectivamente governados, é outra questão (para algumas considerações preliminares sobre o assunto, remeto aqui para um meu post de há meses sobre a democratização como plataforma necessária e suficiente).  Mas, seja como for, aqui fica na íntegra, porque vale a pena, a crónica do Viriato.

Na semana em que o Parlamento vai discutir o Pacto Orçamental, a entrevista de Vital Moreira (VM) ao diário i no sábado é de uma enorme utilidade. Destaco apenas dois aspetos. Depois de confessar que é "amigo" de José Sócrates, e instado a comentar as atuais dificuldades do PS, o eurodeputado que comandou as hostes socialistas às eleições europeias sai-se com uma observação onde mistura superficialidade e arrogância: "Eu encaro tudo isto sem paixão. Tenho idade para saber que estes processos são absolutamente naturais." De facto, a paixão de VM deve ter-se afogado toda no Mondego, nesses anos distantes de fogoso bolchevismo constitucional. Dali já não se espera o fervor turbulento que costuma acompanhar as juvenis éticas da convicção. A VM aplica-se mais a advertência de Max Weber para as extremadas e serôdias éticas da responsabilidade, em que a quebra de paixão é uma mera desculpa para a falta de alma e o abandono de princípios. Depois, sobre a crise europeia, afirma o académico socialista: "Penso que, embora com hesitações e atrasos, a União respondeu bem à crise, e, no caso de Portugal, penso que estamos no bom caminho." É impossível não sentir uma mistura de simpatia e pena por A. J. Seguro. Por duas razões. Primeiro, tem um chefe de bancada no Parlamento Europeu que repete - com um absoluto vazio de pensamento próprio sobre uma crise europeia que manifestamente não compreende - os comunicados de Vítor Gaspar sobre como o País se vai redimir empobrecendo. Segundo, a entrevista de VM é um sintoma claro de que Seguro jamais será o líder da oposição que o País precisaria, enquanto caminhar no campo minado pelo "socratismo" em que o PS se transformou.

09/04/12

Que referendo exigir para a Europa?

Ao que é noticiado, o BE advoga que o novo acordo europeu seja submetido a referendo. É uma medida defensiva que se compreende perante a nova iniciativa oligárquica na Europa. Mas não seria bem mais interessante, mais coerente com uma acção social-democrata digna desse nome e, por isso, talvez mais mobilizador também, que o BE e os movimentos congéneres presentes noutros países europeus —que declaram apostar na acção no interior das instituições como via  privilegiada de democratização através de reformas "participativas" — em vez de se limitarem a exigir um referendo que lhes permita oprem-se ao acordo em vias de constitucionalização na zona-euro, assumissem a iniciativa de reivindicar um referendo tendo em vista a aprovação da eleição uma assembleia constituinte de uma nova União Europeia efectivamente federal — ou federação de regiões autónomas da Europa —  e, por conseguinte, integrada nos planos orçamental, fiscal e das garantias sociais?

Sobre o Novo Acordo Europeu

No momento em que a arrogância e a estupidez da fracção mais poderosa da oligarquia da UE e da zona-euro mostra os seus propósitos explícitos de constitucionalizar na região uma redução radical das matérias políticas sobre a quais a legitimidade das decisões dependia até aqui de uma forma ou de outra de manifestação — insuficiente, condicionada, truncada… mas efectiva, pelo menos em termos defensivos — da vontade popular, importa que a oposição democrática a essas medidas não se confunda com a dos pescadores de águas turvas que tentam canalizar o descontentamento e a revolta contra elas para uma agitação nacionalista e soberanista que só pode favorecer alternativas não menos radicalmente antidemocráticas e restritivas da expressão da mesma vontade popular. O novo acordo europeu — digam o que disserem os João Galamba de serviço, o secretário-geral do PCP, ou estas e aquelas destacadas vozes do BE — não é mau nem deve ser rejeitado por limitar a soberania nacional ou as prerrogativas de cada um dos Estados-nação da região europeia, mas sim por ser antidemocrático e antipopular e corresponder a uma consagração e explicitação institucional agravada e inédita do poder político de uma organização da economia que se confunde, a todos os níveis, com o modo de funcionamento e exercício da dominação oligárquica.

Assim, é precisamente por pensar que JM Correia Pinto acerta quando escreve:

"É cada vez mais generalizada a convicção de que o pior está para vir. Não apenas na Grécia, em Portugal, na Itália e na Espanha, mas em toda a Europa, nomeadamente em França e, por último, na Alemanha. Do outro lado do Atlântico há a convicção de que Portugal vai cair e que a relativa acalmia dos mercados depois das massivas injecções de capital do BCE é um efeito de curto prazo. Quando a crise do euro voltar a agudizar-se – e isso acontecerá em breve – a Itália e a Espanha cairão na mesma situação que Portugal.
E neste contexto ninguém se salvará: nem a Alemanha!
"

que quem está com ele concorda aqui, terá de discordar das posições insolitamente soberanistas que ele, como alguns dos Ladrões de Bicicletas, defende noutros textos recentemente publicados na sua Politeia. Com efeito, opor ao quadro descrito, e que é tão anti-europeísta como antidemocrático, a solução de uma saída unilateral da UE e da zona-euro faz tão pouco sentido e é tão insuficiente como a tese que sustentasse um adversário da utilização industrial da indústria nuclear, defendendo que o seu concelho de residência deveria declarar unilateralmente a independência no caso de o governo do seu país assumir essa opção.

06/04/12

As crianças dão bons iscos

As visões idílicas da natureza, mais baseadas em fábulas do que na biologia, apreciam os animaizinhos enquanto pais extremosos, capazes de proezas mil em prol das crias. Que por vezes as comam em tempos famélicos é coisa demasiado bruta para quem quer ver ordem moral no mundo. Nós, bichos humanos, até somos simpáticos; em dias de crise não seguimos a modesta proposta de Swift. Pelo contrário: desistimos de comer, se preciso for, para poupar os nossos filhos ao horror que vai desabrochando neste mundo entregue à ganância cega dos poderosos. 
Mas claro que uma tal fraqueza tinha de atrair o apetite dos predadores. Somos débeis quando pomos o bem-estar das crianças acima de tudo, vulneráveis quando nos sentimos dispostos a qualquer sacrifício. E é dos fracos que os carnívoros gostam, por mais gordos que já estejam. 
Hoje basta ligar a TV para saber como as feras nos engodam aproveitando esta fraqueza. Quem não viu já as criancinhas da EDP a descrever o bem que os seus pais fazem ao mundo por trabalharem nessa empresa? Ou a menina do Intermarché a jurar ao mundo que os pais cuidam muito bem dela mesmo sem dinheiro? Que tal pareça contrariar o Código da Publicidade – “os menores só podem ser intervenientes principais nas mensagens publicitárias em que se verifique existir uma relação directa entre eles e o produto ou serviço veiculado” – não é importante. 
Na selva qualquer armadilha vale, desde que atraia presas.

05/04/12

Por uma política democrática contra a polícia da economia

"Os valores da solidariedade e da inclusão são eixos do modelo social europeu, mas [este] tal como existe hoje, não é sustentável a prazo, defende o presidente do Banco Central Europeu (BCE). “O modelo social europeu está morto” e cabe aos Governos da zona euro avançar com reformas que sejam sustentáveis, observa Mario Draghi" — lemos numa notícia na edição de ontem do Público (4.04.2012), que dá conta de uma conferência de Imprensa em que o presidente do BCE participou.

Não é seria fácil dizer mais chãmente que o poder político efectivo é hoje exercido pela oligarquia que dirige a esfera económica e os seus aparelhos burocráticos de Estado. De resto, esta situação de facto, que permite a Draghi marcar as agendas governamentais e as tarefas da governação encontra-se já em vias já de constitucionalização, através da inscrição em curso nos textos fundamentais de cláusulas que consagram formalmente a soberania da economia acima da vontade popular, como quer que esta seja definida, e deixando nós aqui de parte o facto de essa definição ser, ela própria, uma questão política maior, que o novo curso do capitalismo torna assim mais fácil escamotear e furtar à deliberação dos interessados.

Com efeito, é no mesmo momento em que a expansão da área da economia se afirma cada vez mais como, de direito, ilimitada (tudo deve poder ser posto a render, tudo deve poder ser objecto de transacção e apropriação monetária), que vemos expandir-se também o projecto de redução da política ao político, ou, se se quiser, da política à polícia, como garantia superior da governabilidade. À política — e por maioria de razão nos casos em que as suas decisões passem pela consulta da vontade popular, ainda que indirectamente e a título sobretudo preventivo da ameaça que seria a instauração de processos de participação democrática efectiva dos cidadãos comuns nas decisões que os governam — fica reduzida a uma intendência ancilar da organização económica estabelecida, e, para além disso, poderá quando muito ocupar-se — ouvindo mais ou menos consultivamente os cidadãos para esse efeito — das margens residuais e de fronteira ainda não colonizadas pela economia.

Assim, num primeiro - e sempre actual, sempre reiterado - momento do processo, furta-se a economia à esfera da deliberação e da decisão políticas explícitas. O passo seguinte é a subordinação a essa economia despolitizada da esfera política explícita ou "oficial" transferindo para a primeira o exercício do governo.

Mas se a política — enquanto distinta do político ou da polícia — é a actividade instituinte da deliberação e da decisão explícitas das leis e medidas pelas quais uma sociedade se governa, e se a democracia é a universalização da participação igualitária na autonomia dessa actividade instituinte de deliberação e de decisão governantes, então, a democratização da economia, a sua repolitização explícita e a reivindicação da cidadania económica governante, é a condição necessária e o ponto de partida fundamental da defesa e extensão do que ainda persiste ou insiste em ressurgir, embora sob a pressão crescente de uma ameaça mortal, da ideia de democracia.

Dança Macabra

O plano é lógico e transparece claramente de toda uma série de medidas governamentais emblemáticas, entre as quais se destacam o encerramento anunciado da Maternidade Alfredo da Costa, passo de monta na liquidação do SNS, e a caça à fraude e à poupança nas "prestaçções sociais". Trata-se de procurar o relançamento e as bases da recuperação a partir da expansão e modernização no sector dos cemitérios e equipamentos mortuários, que, de resto, medidas como as referidas tornam objectivos prioritários. Mas deve haver aqui um problema de comunicação que me ultrapassa, pois não se compreende bem porque insiste o governo em fazer deste seu programa de dança macabra em benefício da salvação da economia nacional um segredo de Polichinelo — em vez de o proclamar com o mesmo ardor que já põe na sua execução prática.

04/04/12

Mais um Herói do Mar

O João Rodrigues já não diz internacional mas inter-nacional. Acha que a esquerda tem sido demasiado internacionalista e que deverá passar a ser mais inter-nacionalista. Dá vivas à Marselhesa, esquecendo os argelinos de ontem e os ilegais de hoje. Falta ouvi-lo cantar os heróis do mar nobre povo, afinal de contas um hino bem anti-imperialista.

In memoriam memoriae

A Salgueiro Maia

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse


Pirataria informática = roubo ?



[Via A Destreza das Dúvidas]

03/04/12

Uma campanha "alvarinha" da Conferência Episcopal Espanhola

Não é indispensável saber hebraico ou aramaico, ou sequer grego, para conjecturar que um cristão concluirá que melhor teria sido para a Conferência Epicospal Espanhola pendurar ao pescoço uma pedra de mó e atirar-se ao mar (Mateus, 18, 6), ou pelo menos automutilar-se e ficar coxa e maneta (Mateus, 18, 8), do que empreender a campanha de captação de seminaristas e promoção das vocações sacerdotais, de que se dá notícia a seguir, em termos que retomam tão obviamente a leitura pioneira que o ministro Álvaro Santos Pereira propôs há alguns anos do declínio do dinamismo apostólico de Braga ( aqui fica para quem não se recorde o essencial da sua tese: "Hoje em dia, a indústria de produção de sacerdotes bracarenses está em declínio”. (…) Porquê? (…) A grande causa do declínio da Igreja Católica em Portugal é simplesmente a falta de competitividade. A indústria de produção de padres perdeu competitividade, pois os custos de produção de novos sacerdotes são demasiado altos e o preço do sacerdócio é extremamente elevado" ). Dito isto, resta-nos esperar que, recordando, entre outras da "Palavra", as passagens de Mateus atrás citadas, os fiéis remedeiem, agindo evangelicamente em conformidade,  o esquecimento a que, em aras da razão económica, as votou a conferência dos seus pastores.

A Conferência Episcopal Espanhola tem uma nova campanha para captar seminaristas, promovendo o sacerdócio como um "trabalho fixo" que não promete "um bom ordenado" mas garante "riqueza eterna". O vídeo já foi visto por mais de 160 mil pessoas.

"Somos a única classe social que não tem desemprego. No ministério sacerdotal não há desemprego, temos muito trabalho e a paga está no Evangelho e depois na vida eterna", disse o bispo Juan José Asenjo ao jornal espanhol ABC.

No vídeo intitulado "Prometo-te uma vida apaixonante", o narrador começa por perguntar: "Quantas promessas te fizeram que nunca se cumpriram?". Depois surgem vários padres (apesar de tal só ser visível na parte final) com as suas próprias promessas. "Não te prometo um bom salário, prometo um trabalho fixo", diz um deles. "Não te prometo uma decisão fácil, prometo que nunca te arrependerás", diz outro.

A verdade é que, após nove anos em queda, o número de seminaristas aumentou em Espanha, chegando aos 1278. Aqueles que escolhem estudar num seminário têm direito a alojamento, comida, formação e estabilidade durante os seis anos do curso e depois um salário seguro. Em Espanha, o desemprego atinge mais de cinco milhões de pessoas.

O vídeo foi lançado por ocasião do Dia do Seminário, em meados de março. "Queriamos chegar às redes sociais, aos adolescentes e jovens que não vão à igreja e não leem os cartazes sobre os seminários", disse à BBC Mundo o presidente da Comissão Episcopal de Seminários e Universidades, Josep Ángel Sáiz.

Areia para os olhos

Parece que o PS insurgiu-se contra os recentes comentários de alguém na Comissão Europeia, dando a entender que o roubo dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos poderá tornar-se permanente, e exige que o governo esclareça a sua posição sobre tal matéria. Pois eu estou-me a borrifar para a opinião do governo. Pois sem o apoio do PS não conseguirá efectivar tal medida. Gostava portanto era de conhecer a posição do PS sobre a questão. Mais concretamente: Acha o PS que a Constituição proíbe tal? Em caso afirmativo, em algum caso, por exemplo no contexto dum segundo acto de subjugação (aka. pedido de resgate), estaria disposto a aceitá-lo? Em caso de formar governo após as próximas eleições legislativas, em 2014 se não ocorrerem antes, compromete-se a não renovar o roubo? Não que vá acreditar em qualquer coisa que digam, mas pelo menos ajudaria a desmontar este joguinho politiqueiro entre partidos gémeos que fazem de conta que discordam entre si.

A natalidade no mundo islâmico

The Myth Of Soaring Muslim Fertility Rates:
This story starts with a myth. It is the myth that the Muslim world is uniformly dedicated to making many (too many) babies, and that this has gone on for centuries.


This mythology also has its very own Bible: “Factors Affecting Muslim Natality,” by Dudley Kirk, an American professor of Population Studies. Published in 1965, this study embodied, scientifically speaking, the notion of a demography unique to Muslim countries that won’t transition to a family model with two children, as it did in the Western world. (...)

However, today Kirk’s point of view has been spectacularly disproved by science. In recent decades, the Muslim world has experienced a demographic transition that was as acute as it was late: in 30 years, the number of children per woman has dropped by more than 50%. In Iran, the drop represents 75%; in North Africa it is 70%. Once you realize that it took Europe two centuries to go from 5 to 2 children per woman, you can appreciate the severity of this collapse in birth rates.

Seminário Pensamento Crítico Contemporâneo Abril-Maio 2012


A Unipop e a Associação de Estudantes do ISCTE-IUL organizam um seminário que pretende promover o debate sobre um conjunto de propostas teóricas que, posicionando-se criticamente face ao estado do mundo, têm procurado pensar as circunstâncias presentes e as alternativas que têm sido desenvolvidas no quadro da actual crise económica, mas também do ciclo de revoltas que, do Cairo a Wall Street, passando por Madrid, têm vindo a marcar o ritmo dos tempos que correm. Ao longo de cinco sessões, o seminário colocará em confronto sensibilidades teórica e politicamente diversas que, organizando-se em torno de autores ou correntes, têm contribuído para a renovação do pensamento contemporâneo a nível da acção dos movimentos sociais, da pesquisa e investigação científicas ou ainda das práticas artísticas e culturais.

01/04/12

Especialistas em Portugueses

o meu artigo no i da última quinta-feira

Há um tipo de pessoa que tem vindo a ganhar protagonismo no espaço mediático. É o especialista em portugueses. O especialista em portugueses tanto pode ser especialista em portugueses na variante corpo como na variante alma. O primeiro é generoso na hora de avolumar estatística e mais estatística sobre o chamado comportamento dos portugueses, lançando-se na grande aventura dos dados, dos números e das contas que lhe permitirão produzir largas séries que registam, por exemplo, a poupança e o consumo dos portugueses. O segundo, o especialista em portugueses na variante alma, dedica-se a trabalho mais minucioso, tricotando conceitos, ideias e teses, quando não parábolas, que lhe permitirão aceder de modo singular e único – assim julga… – ao famigerado enigma português.

Um e outro especialista têm um problema fundamental com a democracia. O especialista em portugueses na variante corpo tende a classificar qualquer alternativa ao que quer que seja como cientificamente inviável, independentemente do que sobre isso tem a dizer a vontade da maioria. Para ele não se trata de querer ou não consultar o povo, mas da irrelevância de tal exercício perante o que considera ser a força da realidade. Por isso ele diz-nos que não é contra a democracia mas que simplesmente não pode ser a seu favor. É a moral da breve história do actual governo: foi eleito com base num programa que já não é compatível com a realidade tal como esta passou a ser por ele entendida a partir do momento que tomou posse.

Já para o especialista em portugueses na variante alma, o problema da democracia é outro. Para este especialista o problema é que os portugueses não são susceptíveis de gerar vontades alternativas e ter uma voz crítica. (Com a excepção do próprio especialista, presume-se, pois de outro modo não seria ele mesmo susceptível de denunciar tão atávica situação…). É em muitos elogios e em algumas das críticas a Salazar que esta ideia de que a cultura política dos portugueses é incompatível com a democracia frequentemente se afirma. Entre os elogios, temos quem entenda não haver porque criticar um ditador que mais não terá sido do que a expressão das circunstâncias de um país e de um povo. E entre os críticos do salazarismo há quem, desolado com o que considera ser a actual passividade política do que apoda de povo, não hesite em concluir que tivemos o Salazar que merecíamos.

Assim, sendo, o triste cenário mediático que temos obriga-nos a escolher uma de duas: ou nos embrutecermos com os especialistas na variante corpo olhando para os gráficos que Medina Carreira vai esgrimindo com uma ética da rabugice que nenhum dono de mercearia saberia copiar; ou nos mitificamos a dar ouvidos aos diagnósticos mastigados de José Gil sobre a existência e a portugalidade.

Haverá alternativa a este dilema?

Creio que sim, que existem pelo menos duas alternativas.

A primeira alternativa é ainda mais medonha do que qualquer uma das opções antes colocada. Trata-se da emergência e triunfo de especialistas que versam tanto sobre o corpo como sobre a alma dos portugueses. Juntam-se assim dois males numa só pessoa. Desde que a crise começou, o caso mais revelador deste perigo talvez seja o sucesso mediático de uma figura como António Barreto. Por um lado temos o espectáculo da exibição por Barreto das tabelas, quadros e gráficos do seu Pordata, numa campanha mediática cuja adulação jornalística só fica a dever à bajulação de que em tempos foi alvo o acervo de imagens exposto por Berardo no CCB. Por outro lado temos o tipo de discursos do 10 de Junho a que Barreto se habituou e que parece não querer largar em todo e qualquer dia do ano, oferecendo-nos a enésima sondagem à alma e aos contornos da identidade nacional, sempre redundada por apelos ao brio patriótico dos portugueses.

A segunda alternativa é bem mais interessante. Passa por matar de vez os especialistas em portugueses, de recusar o palco aos especialistas de qualquer espécie, sejam de esquerda ou de direita, versados na variante corpo ou na variante alma, oriundos do mundo académico ou do campo empresarial. Medina Carreira, José Gil e António Barreto poderão continuar a subir ao palco, certamente que sim, mas devidamente desautorizados, destituídos das poses de peritos, pensadores e senadores que garbosamente procuram impingir-nos.

O compromisso histórico da ditadura castrista com a hierarquia eclesiástica romana

A Joana interroga-se com mais do que justificada perplexidade, no seu Brumas, sobre o modo como decorreu a visita de Ratzinger a Cuba, chamando a atenção para o eloquente episódio da negociação de um feriado religioso entre a hierarquia romana e o governo castrista.
Não é necessário subscreverem-se todos os juízos e perspectivas de  Rafael Rojas para comprovarmos, a favor desta visita do chefe de Estado do Vaticano a Cuba, não só a existência como o aprofundamento e o reforço que ele assinala de uma inquietante "cumplicidade entre o castrismo e a Igreja". Aqui ficam alguns excertos e a recomendação da leitura integral do artigo de Rojas, à laia de elementos para uma reflexão cuja  relevância política será difícil negar.

¿Qué tipo de ciudadanía acabará constituyéndose en ese país caribeño, si se normaliza la hegemonía doble del Partido Comunista sobre la sociedad política y de la Iglesia Católica sobre la sociedad civil?
(…)
Existe la equivocada percepción de que Cuba ha sido y es una nación católica, como España o México, Irlanda o Polonia. El proyecto católico de nación nunca predominó en Cuba por muchas razones que podrían resumirse con la idea del antropólogo cubano, Fernando Ortiz, de que allí la nacionalidad se formó tardíamente, entre mediados del siglo XIX y principios del XX, por medio de un proceso de transculturación que incluyó, por supuesto, diversos cultos religiosos. La religión católica fue la más practicada por los cubanos hasta 1958, pero la Iglesia no era la institución hegemónica de la sociedad civil de la isla antes del triunfo de la Revolución.

Hoy los católicos no son mayoría demográfica en Cuba y, sin embargo, la Iglesia es tratada por el gobierno de Raúl Castro como si su feligresía acumulara las bases no representadas por el Partido Comunista. Este último ha concedido al clero católico derechos de asociación y expresión que, por ser negados a la ciudadanía, se convierten en privilegios, que le permiten crecer en condiciones excepcionales.
(…)
Habría entonces que empezar por admitir que el crecimiento del catolicismo cubano en las dos últimas décadas no ha sido meramente “natural” o “espontáneo”, sino que ha respondido a la coyuntura histórica del colapso ideológico del marxismo-leninismo en los 90 y a los privilegios concedidos a la Iglesia a partir de esa década. Todavía en los años previos y posteriores a la visita de Juan Pablo II a la isla podía hablarse de la recuperación de una fe reprimida o amordazada. Hoy habría que hablar ya de una fe ideológicamente sostenida por dos instituciones autoritarias, que encuentran un punto de entendimiento en el discurso y la práctica del nacionalismo excluyente.

El sentido excluyente de ambos nacionalismos comienza con la representación de toda la comunidad cubana como comunista o católica. Un editorial de Granma de mediados de marzo hablaba de la “Nación cubana”, no de la Revolución o el Socialismo, y presentaba a esta al Papa Benedicto XVI, casi, como un pueblo católico. El embajador de la isla ante la Santa Sede fue más allá y declaró que la “Revolución Cubana y la Iglesia Católica hablaban el mismo idioma porque perseguían lo mismo”. La homologación de discursos entre ambas instituciones fue tan clara en los medios oficiales que el Papa se vio obligado a declarar, antes de su viaje a México, que la “ideología marxista ya no responde a la realidad”.

Si lo que el Papa quiso decir era que la ideología oficial cubana no responde a la realidad de la isla, tal vez debió referirse a la ideología “marxista-leninista” o “estalinista” o, incluso, “comunista”. La teoría social e histórica del capitalismo moderno de Marx es, por el contrario, una de las ideologías que más contactos establece con la realidad global del siglo XXI. Lo curioso es que el gobierno tolere el anticomunismo de la Iglesia Católica, mientras subvalora, margina o silencia los marxismos críticos que se posicionan frente a la ausencia de democracia o al avance del capitalismo en Cuba.

La elección oficial del catolicismo como alternativa leal posee, además, el inconveniente de facilitar el arraigo de ideas conservadoras sobre la nueva comunidad multicultural que intenta articularse en la isla a principios del siglo XXI. La visión de la Iglesia sobre las alteridades sexuales, raciales y genéricas, sobre los cultos afrocubanos, el aborto y el matrimonio gay, es tradicionalista, por no decir reaccionaria. El gobierno cubano, que históricamente ha demostrado ser también conservador en esas materias, hace acompañar su cautelosa apertura económica de una reevangelización católica que se propone crear una mayoría moral, “obediente en la fe” y “buscadora de la verdad”.
(…)
El catolicismo, como sostuviera el malogrado profesor de la Universidad de Cambridge, Emile Perreau-Saussine, en su póstumo estudio Catholicism and Democracy (2012), no es incompatible con la democracia. Pero sus mayores contribuciones a esta se han verificado cuando ha sabido renunciar a sus linajes antiliberales y anticomunistas y se ha secularizado por la vía del diálogo ecuménico y la convivencia con otras religiones, cultos e ideologías. Los católicos cubanos deberían ganar conciencia en que el crecimiento de su fe en Cuba sólo podrá consolidarse plenamente bajo un clima de tolerancia religiosa, diversidad ideológica y libertades públicas para todos.

La visita del Papa Benedicto XVI a Cuba ha sido beneficiosa para la democratización, toda vez que el pueblo de la isla entró en contacto con un líder mundial que trasmite ideas y valores diferentes a los del Estado cubano. Lo que no favorece la democratización de Cuba es que el proyecto de nación del catolicismo se presente como extensión o complemento del proyecto oficial. Lo que, definitivamente, no contribuye al creciente pluralismo ideológico de la isla es que la Iglesia Católica comparta con el Partido Comunista la hegemonía sobre la esfera pública cubana, aceptando la limitación de derechos de las demás asociaciones civiles y políticas del país.

Mais outra sondagem grega

Via Phantis e Reuters.

Nova Democracia...........22,5%
PASOK.........................15,5%
SYRIZA........................12,5%
KKE.............................12%
Esquerda Democrática...12%
Gregos Independentes.....8,5%
Chrysi Avgi.....................5%
Verdes............................3%

A sondagem (em grego) está aqui [pdf].

31/03/12

Quem era realmente Mohamed Merah?

Was Toulouse killer a police informant? (The Independent):
Media reports point to close relationship with French security service despite official denial.
 
The head of the French internal security service has denied suggestions that authorities "missed" the Toulouse gunman because he was a police informer. Bernard Squarcini took the unusual step of intervening personally to quash speculation that Mohamed Merah was an indic or "snout" for one of his own agents in Toulouse.
Paradoxically, however, the allegations, including stories in the Italian and French regional press, began with a remark by Mr Squarcini himself. The speculation has since been amplified following comments by a retired head of one of the two French security services merged under Mr Squarcini's control four years ago.

Last Friday, the day after Merah, 23, was shot while resisting arrest, Mr Squarcini told Le Monde that the killer had asked, during his 32-hour siege, to speak to a Toulouse-based officer in his agency, the Direction Centrale du Renseignement Intérieur (DCRI). It was this agent – understood to be a young woman of North African origin – who had interrogated Merah when he returned from a two-month visit to Pakistan in November last year.

The DCRI chief told Le Monde newspaper that Merah shocked the agent by saying: "Actually, I was meaning [before the siege] to call to say I had some tip-offs for you. But, actually, I was going to bump you off." In French, he used the word fumer, which means "to smoke" but in slang translates to "murder" or "waste". He also used tu, the familiar word for "you".

In other words, Merah appeared to have a friendly relationship with the agent and intended to lure her into an ambush by pretending to have information about radical Islamist activities in Toulouse.(...)

 In an interview this week with the Toulouse paper La Dépêche du Midi, a former security chief, Yves Bonnet, said it was "striking" that Merah seemed to have a DCRI "handler". "Having a handler, that is not an innocent thing," he said. "I don't know how far his relationship, or collaboration, with the service went but it is a question worth raising.

28/03/12

Castoriadis sobre as condições e tarefas de uma alternativa ao capitalismo burocrático mundializado

Repesco aqui uma entrevista de Castoriadis, datada de 1993, que põe bem evidência algumas das tarefas atrasadas e das condições requeridas para uma alternativa política democrática ao governo do capitalismo burocrático mundializado - do qual a "financeirização" e a "economia de casino" são sintomas que, ao mesmo tempo, funcionam peculiarmente como "cortinas de fumo" — ocultando, por exemplo, o facto de a ordem capitalista actual não ser um "capitalismo de mercado", mas, justamente, "um capitalismo burocrático, com empresas por vezes mais poderosas do que os próprios Estados"…

A entrevista, sob o título "Cornelius el griego", foi conduzida por Rolando Graña, e publicada no jornal Página 12, de Buenos Aires, a 5 de Setembro de 1993.


Cornelius Castoriadis. —Marx se equivocó en sus vaticinios sobre la economía capitalista. El quiso ser el Newton de la economía capitalista: establecer leyes inmutables. Pero fue des¬mentido por la realidad. El problema es entender por qué y en qué se equivocó. Mi opinión es que había un error de origen que consistía en creer que el capitalismo engendraría cada vez más miseria. No hubo tal pauperización, paradójicamente, por¬que los obreros resistieron, lucharon y pudieron arrancar mejoras casi equivalentes al aumento del nivel de productividad. Por el contrario, entonces, el nivel de vida aumentó considerabl¬mente. Es curioso, pero Marx, que había dicho que la Historia era la historia de la lucha de clases, cuando llegó al análisis del capitalismo moderno olvidó la resistencia de los obreros, o sea, la acción de los seres humanos. Detrás de todo esto hay una especie de determinismo objetivista: la historia de la humani¬dad está regida por la historia de las fuerzas productivas y no le queda ningún lugar a la creación humana, los hombres no importan.

Rolando Graña.—Algo que en Lenin se volvió autoritarismo.
C.C.— Pero ya en Marx había algo que en manos de Lenin se volvió un arma criminal: la idea de la ortodoxia. Una teoría es verdadera, las otras falsas: "Nosotros los marxistas poseemos la única concepción verdadera y esta única concepción corresponde a los intereses de clase del proletariado y por ende no¬sotros y sólo nosotros somos los representantes del proletariado. Los otros son enemigos de la clase obrera y por ende hay derecho a fusilarlos". Marx no fusiló a nadie pero Lenin sí.

R.G.— Usted suele decir que este tiempo se caracteriza por el triunfo del imaginario capitalista. ¿Cuáles son sus características y sus consecuencias?
C.C.— Asistimos a la dominación integral del imaginario ca¬pitalista, que consiste en la centralidad de lo económico, la expansión indefinida y pretendidamente racional de la produc¬ción, del consumo y del ocio, que cada vez es más planificado y manipulado. Los rasgos del imaginario capitalista son bastante difíciles de precisar y tanto Marx como Weber vislumbraron algunos de ellos pero ni uno ni el otro (precisamente porque ambos eran racionalistas) pudieron calificarlo de "imaginario capitalista''. Marx hablaba de la expansión de las fuerzas productivas. Hay una frase muy bella en El Capital: "Acumular, acumular, esa es la ley y el profeta". Pero como Marx no tuvo en cuenta el deseo de los hombres no vio que había una segunda parte para su proverbio. Que no era solamente "acumular, acumular", sino también "consumir, consumir". La ley es "acumular", pero el profeta se llama ''consumir". Y esto ni él ni Weber lo vieron. El tercer imperativo del capitalismo es "racionalizar, racionalizar": la producción, la educación, todo. Y hay un cuarto imperativo que es ''dominar, dominar": todo puede ser dominado, la naturaleza, la sociedad, hasta la muerte.

26/03/12

Vergonhoso

Estes pseudo-sindicalistas gostaram tanto de ajudar o governo a tramar os trabalhadores, que agora decidiram tornar-se seus porta-vozes, desvalorizando a última greve geral. Para tentar limpar as mãos de tanta porcaria, queixam-se de que o governo não começou ainda a implementar "as prometidas políticas de emprego". Mas alguma vez acreditaram nisso?! Têm algum problema cognitivo, ou acham que nós é que somos estúpidos? Se os tivessem no sítio, ameaçavam com a denúncia do acordo de rendição que assinaram, em vez de se lamentarem a jornalistas.

24/03/12

Aprendiz de Salazar

“defesa da democracia é garantir a paz pública, segurança para que os portugueses possam viver tranquilamente”

Podia ter sido proferido por António de Oliveira Salazar. Mas quem o disse foi um seu aprendiz, Miguel Macedo, ministro da Administração Interna. Também aproveitou o momento para elogiar o comportamento da CGTP, incluindo a sua intolerância perante movimentos que não controla:

"Aquilo que aconteceu no Chiado não tem nada a ver com a manifestação da CGTP, que decorreu tranquilamente, com sentido cívico e de tranquilidade. Quero sublinhar também que em frente à Assembleia da República há imagens em que elementos da CGTP não permitiram que fosse confundida a sua manifestação com aqueles elementos que provocaram a situação no Chiado.”

Quando é que a CGTP se cansará de tantos elogios daqueles que pretensamente combate?...

O resultado imprevisto do Acordo Ortográfico

Os defensores do AO apresentaram-no como uma forma de uniformizar a escrita da língua portuguesa; alguns dos seus críticos dizem que é uma tirania estatista, com o Estado a querer mudar a maneira como as pessoas escrevem.

Mas, atendendo à carrada de comentadores que terminam as suas crónicas dizendo "Fulano escreve de acordo com a antiga ortografia", e aos correctores ortográficos que agora vêm em duas versões (pré- e pós-AO), parece-me que o resultado prático acabou por ser que, agora, o "Português de Portugal" tem duas normas ortográficas socialmente válidas (note-se que não digo legalmente válidas), e cada um pode escolher qual quer seguir sem se considerar que está a escrever "mal" - no fundo, entramos numa situação parecida com a da Galiza, em que há duas normas concorrentes sobre qual a forma "correcta" de escrever galego.

Ou seja, contrariamente aos objectivos do acordo, não se uniformizou nada (muito pelo contrário); por outro, inversamente ao que diziam alguns críticos, não há nenhuma estatização da língua: muito pelo contrário - neste momento, na prática, há muito mais liberdade para escrever de forma diferente da ortografia "estatal".

23/03/12

Um desprezo histórico democraticamente desprezível

Anda por aí um post que — partindo o seu autor do pressuposto de que a violência e a força bruta são as figuras por excelência da razão e tanto o mais perfeito meio como o fim último de toda a acção política — apresenta a prática dos piquetes de segurança da CGTP que espancam manifestantes dos Precários Inflexíveis como uma expressão superior de unitarismo. Na caixa de comentários do mesmo post, um correligionário do autor, denuncia os espancados e as vozes que se levantaram em sua defesa como divisionistas, cavadores de fossos anti-unitários.

O mais curioso é que todo este alarido vem a propósito de um certeiro texto de Carlos Guedes, cuja importância a Joana Lopes já assinalou na rubrica "Leituras" do seu Brumas, do qual se podem - devem - reter as seguintes palavras: É histórico o desprezo com que a CGTP trata os movimentos sociais que vão surgindo e não há, infelizmente, nada de novo aqui — ou seja, nas equívocas e ventríloquas declarações de repúdio por "actos de vandalismo" que Arménio Carlos houve por bem proferir — assim fazendo, como sublinha também Carlos Guedes, a «figurinha» de parecer estar a defender a brutalidade policial e a esquecer o que os seguranças da CGTP fizeram.

Conclusões imediatas:

1. o desprezo histórico com que a CGTP trata os movimentos sociais é politicamente desprezível e, como tal, só pode ser combatido sem reservas por qualquer democrata.

2. Igualmente desprezíveis são as considerações e as concepções orgânicas — tácticas, mas não só — que a levam a não combater e denunciar a infiltração nas fileiras dos seus apoiantes de ruidosos apologistas de métodos e ideias de inspiração caracterizadamente fascista, como é o caso do reincidente autor do post que aqui comecei por referir e de alguns daqueles que, na respectiva caixa de comentários, o aplaudem.

À espera do anúncio da regulação do direito de voto através do livre funcionamento do mercado livre

O Pedro Viana, embora por outras palavras e noutro registo, já chamou aqui a atenção para o projecto governamental de ceder à iniciativa privada a exploração dos direitos do cidadão, integrando as "lojas" ditas dos mesmos no mercado e tornando-as empresas lucrativas. É um passo mais na expropriação da cidadania em benefício da propriedade oligárquica e dos seus aparelhos governantes que constitui o núcleo fundamental e o sentido último das autoridades da nossa região, explicitados em termos que, por uma vez, podem chegar a fazer sombra às demais iniciativas da mesma classe que proliferam por toda a Europa. Mais do que previsivelmente, todavia, a extensão em curso da economia política dominante não se dará por satisfeita com tão pouco, e, um destes dias, veremos que nos será anunciada a integração no mercado e a rentabilização do direito de voto: quer dizer, a restauração, sob uma forma ou outra, do sufrágio censitário, sistema particularmente eficaz do governo colectivo e da concertação organizada da oligarquia. É inevitável — a menos que…

Ex. Sr. Primeiro-ministro Dum Dum Mata-baratas

Que acham? Ou então, Ex. Sr. Primeiro-ministro Dodot Limpa-o-rabinho? Se é para colocar simbologia do Estado à venda, não vale a pena perder tempo com trocos, ponhamos já em leilão o filet mignon, capaz de render um bom carcanhol. E que empresa não gostaria de patrocinar o nosso Ex. Sr. Primeiro-ministro, sempre tão prestável e servil? Conseguem imaginar quantas vezes é nomeado em documentos, recepções, visitas, banquetes e outros actos oficiais? Aposto que o branding no nosso Ex. Sr. Primeiro-ministro renderia milhões, milhões!

22/03/12

O valentão do Chiado deve ter nome, não?



Repórter fotográfica da AFP agredida hoje no Chiado.

Pouco importa a conta contanto que haja luz e o preço da electricidade é o menos

Escola põe alunos a fixar lâmpadas para terem melhores resultados. Perante esta notícia veiculada pela imprensa, é inevitável conjecturar que os nossos governantes acreditam também no fosfenismo e fixam a luz das suas lâmpadas com tanta intensidade e persistência, que sejam quais forem os resultados, não podem deixar de os declarar os melhores que são possíveis — ou os únicos possíveis, o que vem a dar no mesmo — aconselhando a quem não entenda assim que fixe as lâmpadas que os alumiam com a obstinação estóica que baste,  pois pouco importa a conta contanto que haja luz e o preço da electricidade é o menos.

Os cadáveres ainda não arrefeceram a já a caganita histérica chamada Sarkozy os profana apelando à censura e à democracia do músculo

«Toute personne qui consultera de manière habituelle des sites Internet qui font l’apologie du terrorisme ou qui appellent à la haine sera punie pénalement», Nicolas Sarkozy

Mais uma sondagem grega

[Via Reuters e Phantis]

Nova Democracia ........ 22,5%
PASOK........................ 12,5%
KKE ................................12%
SYRIZA...........................12%
Esquerda Democrátia......11,5%
Gregos Independentes........11%
Chrysi Avgi.......................3,5%
LAOS.................................3%
A sondagem completa está aqui [pdf]; está em grego, claro, mas o quadro da página 19 é fácil de perceber (nem que seja pelos símbolos). Para uma descrição dos partidos gregos, é ver neste post sobre uma sondagem de há 15 dias atrás (dá também para ter uma ideia da evolução de cada um - parece-me que a direita pró-troika e a esquerda anti-troika estão a descer e a direita anti-troika subir).

Sobre a racionalidade democrática da greve

Manuel Castro no artigo 58:

Porque é que se faz greve, perguntaram-me ontem várias vezes e bem.

Greve faz-se para mim, por uma simples razão: as massas perceberem que são elas que fazem o país funcionar. Quando paramos todos o País pára e essa é a ideia que alimenta a consciência de que na realidade somos nós que escolhemos o nosso caminho.


Não é a Troika, não é o Passos nem o Aníbal, ou o Relvas e o Seguro, somos nós. Se paramos mostramos aos que ainda não acreditam que é imaginária a corrente que nos prende à miséria e a uma vida sem dignidade. Se paramos hoje, amanhã mais vão dizer para consigo: "Mas porra se eu faço a diferença porque é que continuo vergado a isto?"

20/03/12

O "Observatório da Segurança"

Devia haver mais pesquisa sobre o que é exactamente o "Observatório da Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo", que me parece uma espécie de think-tank privado com uma agenda securitária e um nome escolhido para criar a ideia que é algum organismo oficial.

“REAPRENDER A DEMOCRACIA” — Um Ciclo de Debates Organizado pela Plataforma Outra Democracia (PODe) e o Movimento Internacional Lusófono (MIL)

A PODePlataforma Outra Democracia — e o MIL Movimento Internacional Lusófono — irão promover, em parceria, um Ciclo de Debates, que visa realizar um diagnóstico sobre o estado do país e do mundo, procurando, ao mesmo tempo, encontrar vias de superação para as situações de bloqueio diagnosticadas. Os temas são os seguintes:


I – Ainda vivemos em Democracia?

24 de Março, 18h

Manuel Villaverde Cabral
Miguel Serras Pereira

II – Como seremos um País economicamente viável?

28 de Abril, 16h

Carlos Vargas
Sandro Mendonça

III – Somos mesmo um Estado de Direito?

19 de Maio, 16h

Paulo Ferreira da Cunha
José Preto

IV – Desígnios para um Mundo pós-globalização

16 de Junho, 16h

Fernando da Costa
Sofia Neuparth e Margarida Agostinho (Centro em Movimento)


Os Debates realizar-se-ão na Sede do MIL (Rua Mouzinho da Silveira, 23, 2º - Lisboa), obedecendo ao modelo: alocuções iniciais dos oradores convidados (15 minutos cada, no máximo), seguindo-se debate com os presentes (1 hora). Os Debates serão igualmente gravados e colocados nas plataformas da PODe e do MIL.

PODe: Plataforma Outra Democracia
http://www.podept.blogspot.com/

MIL: Movimento Internacional Lusófono
www.movimentolusofono.org

19/03/12

O sentimento nacional está vivo e mata

Três crianças e um adulto foram abatidos a tiro à porta de uma escola judaica de Toulouse, no Sudoeste de França, por um homem que se pôs em fuga numa "scooter". A análise balística revelou que a arma usada foi a mesma que a utilizada em dois ataques distintos contra quatro homens, três militares e um paramilitar, durante a semana passada, e que fizeram três vítimas mortais.
(…)
As quatro vítimas mortais são um professor de religião, de 30 anos, e seus dois filhos, de seis e três anos, bem como uma outra criança, de dez anos, indicou o procurador da República Michel Valet. Um adolescente de 17 anos ficou também gravemente ferido.

O ataque ocorreu pouco depois das 8h (menos uma hora em Portugal continental), numa altura em que os alunos daquele colégio-liceu – frequentado por cerca de 200 crianças e adolescentes – e respectivas famílias se concentravam à porta do estabelecimento de ensino, que fica numa zona residencial.

O atirador de Toulouse “disparou contra tudo o que tinha à frente, crianças e adultos, e algumas crianças foram perseguidas no interior da escola”, disse à imprensa o procurador Michel Valet.
(…)
Este ataque acontece dias depois de três militares terem sido mortos a tiro, em dois ataques distintos, perpetrados por um homem montado numa scooter na mesma região de França. Primeiro, um paramilitar de 30 anos foi baleado fatalmente numa área residencial de Toulouse a 11 de Março. Quatro dias depois, a 15 de Março, dois soldados foram mortos e um terceiro ficou ferido quando usavam um multibanco na localidade de Montauban, a cerca de 50 quilómetros de Toulouse.
(…)
A análise às munições revela que a mesma arma foi usada na escola e em Montauban, avança a rádio Europe 1.
(…)
Na ausência de pistas sobre a motivação destes homicídios, é fácil também ver neles uma motivação racista — anti-semita ou anti-islâmica, devido à identidade das vítimas, uma vez que os militares mortos eram de origem magrebina.

O extremismo dos moderados

(o meu artigo no i de quinta-feira passada)

Se a política é a arte do possível, quem determina o que é não é possível?

Em política devemos desconfiar das pessoas moderadas. São as menos atentas ao seu próprio extremismo. Vou restringir-me ao campo político que me é mais familiar, o da esquerda. De quando em vez grassa por estas bandas um surto de apelos à moderação. Um primeiro apelo pega-se a outro apelo. Que depois leva a outro e a outro e a outro, até que ao fim do dia há uma correia de moderação que a todos nos atrela. Se aconteceu a alguém acordar com a certeza de que outro mundo era possível, deitar-se-á provavelmente conformado com o menor dos males.

Nos tempos que correm, a correia dos moderados começa por ganhar a forma à direita. É quando o líder do partido da direita pede ao líder do maior partido da esquerda que modere as suas posições em nome do realismo necessário à salvação nacional. Depois o líder do maior partido da esquerda passa o testemunho aos críticos internos desse mesmo partido apelando a que moderem as suas posições em nome do realismo necessário. Estes críticos internos, por sua vez, apelam ao líder do segundo maior partido de esquerda para que também ele modere as suas posições em nome de um realismo igualmente necessário, receita que o líder do segundo maior partido igualmente prescreverá aos críticos internos do seu próprio partido, que, finalmente, fundarão um novo partido que replicará no seu interior a lógica de que inicialmente pretendia excluir-se.

É certo que há quem simplesmente chame realismo a esta escalada de moderação. Mas o que está em jogo não é tanto uma clivagem entre realistas e irrealistas. E sim entre diferentes formas de ver a realidade. Veja-se o que acontece no debate em torno da questão da violência, que frequentemente serve para que se classifique uma parte da esquerda como moderada e uma outra como não-moderada. Do que neste debate se trata, não é tanto de uma oposição entre moderados não-violentos e imoderados violentos. Se perguntarem a um moderado não-violento – um daqueles que rapidamente se apresta a condenar as pedras atiradas por manifestantes atenienses contra a polícia grega porque encontra aí o gesto que inicia o caminho da sociedade rumo ao totalitarismo –, se lhe perguntarem se é contra a existência de forças policiais, ele muito provavelmente dirá que não. Ou seja, o nosso moderado não-violento não é contra a violência, mas sim a favor do monopólio estatal da violência, no qual surpreendentemente não vislumbra indício de qualquer perigo totalitário.

Um outro debate onde a divisão entre moderados e não-moderados tem feito caminho é o que se dá em torno da unidade ou não entre os partidos de esquerdas. Neste debate há os que, em nome de um realismo que seria necessário a fim de derrotar a direita, apelam à moderação dos que consideram imoderados. Aqui os moderados serão os que falam em nome do interesse geral das esquerdas contra a lógica dos interesses particulares que motivaria o núcleo dirigente dos partidos. Funcionam para a esquerda como os “independentes” funcionam para o todo do sistema partidário. Em ambos os casos é como se alguém, por falar em nome do interesse geral, deixasse de dar voz ao seu interesse particular. Não surpreende, por isso, que os adeptos da unidade de esquerda, do líder Gil Garcia ao politólogo André Freire, não acusem qualquer contradição quando decidem apelar à criação de um novo partido de modo a combater a… fragmentação partidária da esquerda.

Em suma, deveríamos não ter medo de começar a falar de realidade no plural. Existe a realidade tal como a observam os moderados e a realidade tal como a entendem os não-moderados. Tentar descobrir qual é a mais verdadeira não só resulta num exercício de ilusionismo como escamoteia o essencial da democracia: a disputa entre convicções diversas, cada qual implicando uma verdade, cada verdade implicando o seu realismo.

Ah, é verdade, o título desta crónica é uma homenagem ao vereador Nunes da Silva, um um moderado homem de esquerda, eleito nas listas de Helena Roseta e António Costa e que, segundo o jornal Público, pretende impedir taxistas sem boa apresentação (com mangas à cava e calção, exemplifica um bastonário de taxistas) de trabalharem na praça de táxis do aeroporto de Lisboa.

18/03/12

Quand viendra t'elle ?

Cuidado com o que escrevem no Facebook

Pelo menos, se forem ingleses:

Teen Charged Over Dead Soldiers Facebook Post (Sky News):
A teenager will appear in court after being arrested for allegedly making comments on Facebook about the deaths of six British soldiers in Afghanistan last week.

Azhar Ahmed, 19, is said to have posted the comments on his profile page and has been charged with a racially aggravated public order offence.
Pelos vistos, Ahmed escreveu isto no Facebook:

O "caso Borges"

A respeito da acumulação de funções de António Borges (antigo vendedor - ou coisa parecida - da prestigiada Goldman-Sachs), a minha preocupação não é tanto eventuais incompatibilidades ou conflitos de interesses; é mesmo "Não há mais ninguém neste país?".

[Sugestão de tema para algum mestrando ou doutorando em Economia fazer uma tese - "Efeito das pessoas com 30 empregos na taxa de desemprego"]