19/04/12

O Alto da Fontinha visto com lentes gregas...


A situação na Grécia continua a ser marcada por uma intensa conflitualidade social. As próximas eleições vão decerto permitir a expressão, na cena política, de algumas das contradições sociais e da tendência actual de radicalização. Como será também o caso nas eleições francesas, a derrota dos movimentos sociais do passado recente encontra expressão nos votos…ou na abstenção ! Numa situação em que as leis da economia capitalista são interiorizadas como determinismo, como o inevitável histórico, o sentimento de impotência colectiva alimenta a ilusão eleitoral. As alterações no espectro eleitoral e a força do partido da abstenção - que é hoje uma preocupação central dos talibãs da democracia – exprimem esta mesma impotência. A aceitação do processo de delegação de poder nas velhas forças políticas é finalmente uma medida transparente do estado de submissão dos explorados ao sistema. Incapazes de transformar a sua força colectiva em novo poder, eles só têm o poder de legitimar a monopolização do poder por uma minoria. Esta é a democracia realmente existente. Isto é, a sua própria negação, como os recentes movimentos de Indignados têm vindo a sublinhar, de forma mais ou menos radical.
Este texto (extraído de um artigo, «Burdened with Debt Reloaded. The politics of devaluation», www.libcom.org/tags/tptg) do grupo comunista antiautoritário grego Ta Paidia Tis Galarias (TPTG) expõe o estado das lutas sociais na véspera das próximas eleições. Nele, os autores sublinham os limites e as ambiguidades dos meios tradicionais de luta e dos partidos autoritários face ao poderoso ataque capitalista; as greves gerais, em particular, cerimónias de massa «pavlovianas» limitam-se a reclamar o regresso à situação precedente, que foi, precisamente, a causa do estado presente de atonia social. Para além disto, o texto menciona novas iniciativas colectivas que, timidamente e com hesitação, procuram encontrar resposta ao desastre. Elas desenham um projecto de futuro que reivindica a apropriação directa dos meios capazes de assegurar a existência colectiva sem passar pela produção de lucro e pela reprodução das relações sociais mercantis. Iniciativas que vão contra a «constante da economia capitalista que é a baixa tendencial do valor de uso» que mencionava o Guy Debord em 1967. Acções que constituem a principal inquietação dos gestores do sistema, como mais uma vez o demonstra a operação militar de mercenários do Estado português contra a Es.Col.A do Alto da Fontinha (Porto). Eles bem sabem quais são as sementes férteis! O resto é politiquice com a qual os compromissos são sempre possíveis.

Class struggles in a war-like situation

As general strikes have had less and less participation after 2010 at both private and public sector and precisely because of their total failure to halt the wave of institutional measures which has been imposing an unprecedented depreciation of labour power, struggles emerged on the terrain of the implementation of this devastating attack, that is the separate workplaces at both public and private sector.

*

The ‘sovereign debt crisis’ attack unsurprisingly found its immediate target at the public sector. Therefore, the workers at this sector were the first who responded against the wage cuts, the huge slashes in public spending, the dismantling of services and the dissolution of a vast amount of state entities.

Apart from strikes and demos which escalated last October, a wave of sit-in protests at town halls, ministries and public service offices by civil servants in Athens and around the country marked an unusual upgrading of struggle for this particular sector. Workers sealed off the entrance to the social security informatics directorate, as well as the entrance to the housing, interior and development ministries and to the pensions directorate of the General State Accounts Office. These militant practices, which blocked at least temporarily the ‘labor reserve’ plans of the government (whereby 30,000 civil servants were supposed effectively to lose their jobs within months) signaled the awakening of the majority of the chronically lethargic civil servants whose very existence, according to the state propaganda, now constitutes the main ‘structural problem’ of the country.

Municipal workers nationwide occupied local government offices and refuse collectors were on a ten-day protest that included a blockade of the capital’s main landfill site in northwest Athens. The municipalities undergo drastic cuts at the moment, as some of their services (starting with cleaning services) will get privatized and a part of their personnel is going to be dismissed.

On October 12, members of the GENOP union began an occupation of the printing offices of the Public Power Corporation (DEI). As part of new property tax legislation, the DEI billing department was to send homeowners bills for increased property taxes as part of their electricity bills. Although not devoid of populism -they claimed they would not cut off electricity only of those who live in abject poverty, thus undermining the aggressive character of the movement against taxes- and a macho bravado, those unionists’ action slowed down the whole process.

Capitalist crisis proves to be particularly unhealthy for proletarians as the severe cuts in all kinds of health services show: there were about 40% cuts in hospital budgets, understaffing, reported occasional shortage of medical supplies, merges or even closures of hospitals as well as mental institutions and rehabilitation centres. Health workers have responded by continuous strikes or even occupations of the Health Ministry with the last one having lasted for 15 days. An interesting struggle took place in the General Hospital of Kilkis, a town in northern Greece, for some weeks. The general assembly of all health workers (doctors included) decided to occupy the premises and started the retention of work, serving only emergencies until the complete payment for the hours worked, and the rise of their income to the levels it was before the arrival of the troika (EU-ECB-IMF), as they say. They also provided free healthcare declaring that the long-lasting problems of the National Health System (ESY) in the country cannot be solved through limited claims of the health services sector and thus they placed their special interests inside a general framework of political and economic demands against the brutal capitalist attack asking for solidarity from everybody. Though the occupation is over, the unpaid health workers continue the retention of work.

*

A series of defensive and sectional struggles at workplaces at the private sector revealed that the Greek industrial capital has already taken advantage of the new institutional framework of the ‘state of emergency’ now ruling in Greece to prop up its profitability or just transfer its own debts and losses onto the workers.

A TMN e o lixo estão a chamar por nós


Em 2005, a TMN assumiu o difícil pelouro de prozac da nação. Usando os blocos publicitários para nos reconciliar com a vida cinzenta, medíocre, apagada e mansa a que nos dizem condenados. A sua campanha de então rejubilava porque “gostamos da vida como ela é”. Com barrigas, gente triste, diarreias (foi um clássico automático o MUPI com alguém de calças em baixo devido à “comida indiana”...) e uma catrefa de temas deprimentes. Se calhar, era mesmo pelo melhor; quem nutre expectativas rasteiras arrisca-se menos a contrair neuroses quando dá de caras com a realidade. 
Agora, mesmo depois de mudada a voz do dono, continua a TMN a servir de megafone para slogans governamentais. 
A tónica passou para anúncios motivadores, aspiracionais, positivos: “Acreditamos, antes de mais, em nós, portugueses”, reza o folheto. E vai de nos gritar com rostos que supostamente provam que “ficar nos nossos lugares, imóveis, é morrer”. Começando com uma realizadora de reclamos, emigrada, que tem como cartões de visita um disparate com uma chuva de azeitonas e um teledisco em que revisita o Portugal honesto e trabalhadeiro dos pescadores, para desfrute do camone amante do very typical. Depois, seguem-se histórias de sucesso em terrenos tão distantes da vida comum quanto a pintura ou o motociclismo. 
E que dizer do spot televisivo? O colorido hiperestiloso de um país das maravilhas sob a câmara de Tim Burton, povoado por gente de olhos claros (tipicamente tuga, claro) e cenários de postal ilustrado. 

Pior do que isto só mesmo o “Hino Contra o Desperdício” que por aí anda; uma verdadeira ode à mediocridade tuga disfarçada de incentivo canoro à caridadezinha de antanho. Onde a música inenarravelmente pirosa embala os cromos do costume (só faltam o Toy e o Miguel Ângelo) num Live Aid dos pobrezinhos e o Manuel João Vieira é o único a aproveitar o momento pelo que é: uma eucaristia do kitsch salazarengo mais berrante – veja-se o entusiasmo com que ele brande um espeto com um pedaço de carne, enquanto o lindo cartaz passa de mão em mão. Nem consigo comentar a parte do “que eu não aproveito/ ao almoço e ao jantar/ a ti pode dar jeito”, pelo menos sem usar palavrões. Hinos de um lixo de país.

Rio, descola da Es.Col.A!


O povo resiste à opressão

Hoje, na Escola da Fontinha. Amanhã, por todo o lado, seremos mais.


A mentira tem resposta.

E mais outra sondagem grega

Publicada hoje na revista Epikaira, feita pela empresa VPRC - para os resultados, ver aqui [pdf, em grego] e ir à pagina 21.

Nova Democracia..............22%
PASOK............................14,5%
SYRIZA............................13%
KKE.................................11,5%
Esquerda Democrática.......10%
Gregos Independentes.........9%
Chrysi Avgi.........................5%
LAOS.................................3,5%

Troika: 36,5%; esquerda anti-troika: 34,5%; direita anti-troika: 17,5%

18/04/12

CISPA


As tentativas de controlo sobre o que passa na Internet sucedem-se. Depois dos pacotes legislativos SOPA, PIPA e ACTA, cujo processo de aprovação foi para já congelado, aparece o CISPA:

"The Cyber Intelligence Sharing and Protection Act (CISPA) would allow companies doing business in the US to collect exact records of all of our online activities and hand them over to the US government, without ever notifying us that we are being watched. No warrant, no legal cause and no due process required. To make matters worse, the bill provides the government and corporations with blanket immunity to protect them from being sued for violation of privacy and other illegal actions."

A assinatura desta petição poderá ajudar a parar também o processo de aprovação do CISPA no Congresso dos EUA.

Outra sondagem grega

Da televisão Alpha TV (artigo original; tradução; artigo no Ekathiremeni):

Nova Democracia....................22,3%.....110 deputados
PASOK..................................17,8%.......48 deputados
Gregos Independentes...............9,9%........26 deputados
SYRIZA...................................9,8%........26 deputados
KKE.........................................9,7%....... 26 deputados
Esquerda Democrática..............8,6%.........23 deputados
Chrysi Avgi...............................5,7%.........15 deputados
LAOS......................................3,9%..........10 deputados
Verdes......................................3,1%...........8 deputados
Aliança Democrática (liberal).....3%..............8 deputados

Troika: 43,1% (166 deputados); esquerda anti-troika: 31,2% (83 deputados); direita anti-troika: 19,5% (51 deputados)

[Via Phantis e Keep Talking Greece]

Segundo o Keep Talking Greece, os indecisos preferem os Gregos Independentes (dissidentes anti-troika da ND), a SYRIZA (o "Bloco de Esquerda" local) e a Esquerda Democrática (mais ou menos algo equivalente a uma "Politica XXI" que tivesse abandonado o BE); não percebi se os números apresentados já levam isso em consideração.

15/04/12

Miséria da Zoofilia

Está tudo muito certo — digo-me eu, que não penso que a caça seja um desporto a proibir ou desencorajar, e antes gostaria de ver o seu exercício democratizado ao mesmo tempo que objecto de uma regulamentação propriamente republicana e razoável. Sim, caçar elefantes, ou outra espécie em vias de extinção, pagando embora — ou ainda por cima — a peso de ouro tão vicioso privilégio, é ser sequaz da bestialidade mais alarve. Dito isto, não posso negar que gostaria de ver reclamar a abdicação do rei de Espanha, ou ilustrar a iniquidade inegociável do regime monárquico, por meio de razões que se esforçassem por ser um pouco mais republicanas, e continuassem a valer no caso de Juan Carlos ser pessoalmente tão austero como Gandhi, ou um protector dos animais tão extremoso como, por exemplo, Heinrich Himmler ou o próprio Hitler.

We are the 99%

Ou os 99,9%:
Some Individuals of our Countrymen, by the Smiles of Providence or some other Means, are enabled to roll in their four–wheel'd Carriages, and can support the Expence of good Houses, rich Furniture, and Luxurious Living. But, is it equitable that 99, or rather 999 should suffer for the Extravagance or Grandeur of one? Especially when it is consider’d, that Men frequently owe their Wealth to the Impoverishment of their Neighbours.
 [Carta publicada no New York Gazette, em 1765]

Resposta ao João Rodrigues

O João Rodrigues ficou chateado com o meu artigo. Mas eu acho que ele não tem razão. Que fazer? Comecemos pelo essencial e deixemos o acessório para o fim. O João Rodrigues acha que exagero na crítica ao seu patriotismo. A mim parece claro que a política defendida pelo João Rodrigues assume um pendor cada vez mais patriótico e cada vez menos internacionalista. Por que entendo as coisas assim? Porque vejo o João a propor uma desglobalização, quando eu sempre pensei que o problema era a globalização mercantil e não simplesmente a globalização. Desmercantilizar a globalização, claro que sim, mas desglobalizar é uma palavra de ordem muito diferente. E é uma palavra que se arrisca a por tudo no mesmo saco, o movimento de mercadorias e o de pessoas, o livre-cambismo e o cosmopolitismo, a globalização neoliberal e o internacionalismo de classe. Infelizmente o internacionalismo do João Rodrigues é cada vez mais uma forma de mediação entre sentimentos nacionais e não uma forma de ler e agir no mundo transversal a esses sentimentos. Ao internacionalismo do João poderíamos chamar um internacionalismo nacionalista. É pelo menos neste sentido que leio a sua proposta para que em vez de internacional passemos a escrever inter-nacional, isto dito entre vivas aos hinos nacionais e à soberania nacional, que me parecem querer continuar em França, via Mélenchon, o ido projecto alegrista que animou o João e os seus colegas de blogue. (Embora deva dizer que a candidatura de Mélenchon é evidentemente bem mais interessante do que a de Alegre, o que ainda assim deveria evitar histerismos personalistas que não têm cabimento em qualquer projecto de esquerda que se preze, ao contrário do que parece querer demonstrar o Nuno Teles).

Há uma outra questão importante no post do João Rodrigues que gostaria de comentar. O título do post é “Nem nada”, em referência ao título do meu artigo “Nem Crise Mundial, nem Solução Patriótica”. É um título, o do João, que é feliz enquanto sound-byte e os títulos também são isso, por certo que o são. Mas enquanto programa de argumento, é mau. É mau, em primeiro lugar, porque revela uma concepção enfraquecida do que possa ser criticar. O João Rodrigues parece exigir que eu, para criticar, tenha uma alternativa concreta a oferecer. Temo que o João esteja a aplicar a mim o tipo de argumento que os Camilos Lourenços tantas vezes aplicam ao próprio João Rodrigues e que no fundo reza assim: “falam mal do capitalismo mas não têm alternativa”. Ora, o que o João parece presumir, tal como o Camilo Lourenço e afins pressupõem em relação ao João, é que criticar é simplesmente dizer mal. Presumem que a crítica não é em si mesmo construtiva. Eu não vejo a crítica como uma simples denúncia e por isso não creio que ela seja menos construtiva do que as alternativas concretas que o João vai propondo. Depois, há aqui um segundo problema, tão grande, se não maior, do que o primeiro. É que o João Rodrigues só pode presumir que eu não procuro alternativas concretas porque ele entende que isso só se faz do modo como ele o faz. E que modo é esse? Intervindo num partido enquanto dirigente ou no espaço publicado enquanto intelectual. Eu também já fui um pouco assim e se calhar ainda sou. Mas já não acredito em alternativas concretas pré-fabricadas e creio que isso é coisa que devemos dispensar liminarmente, pelo menos no quadro de uma política democrática, defina-se como revolucionária ou como reformista. Prefiro mil vezes ouvir o João Rodrigues em detrimento do Camilo Lourenço, mas não reduzo a questão das alternativas concretas ao modo como o João entende o que possam ser lutas contra-hegemónicas.

Não vejo o meu próprio papel como o de alguém que por escrever num jornal ou ser especialista nisto ou naquilo tem mais responsabilidade em propor alternativas concretas do que os outros cidadãos. Esse papel “responsável” é o que o João Rodrigues vem assumindo, no quadro de uma sua leitura do que será um projecto contra-hegemónico. Que leitura é esta? O João dá grande importância ao confronto entre o que ele considera serem os intelectuais. A sua maneira de ver a ascensão do neoliberalismo é a esse respeito muito clara. Ele concede muita importância ao pensamento de alguns autores que há décadas terão começado a construir um programa ideológico que hoje é finalmente aplicável (a narrativa do João para a ascensão do neoliberalismo é mais complexa do que isto, claro, mas sublinha muito – em demasia, diria eu – este ponto). Eu acho que a história do neoliberalismo, não dispensando essa dimensão intelectual da história do pensamento económico e político, e devendo ser uma história das ideias, deverá sê-lo dirigindo a problemática das ideias não apenas (ou primeiro) aos intelectuais como Hayek e demais. Deverá ser também uma história social das ideias. E em consequência (ou como causa) acho que um projecto contra-hegemónico não passa tanto por criar os futuros Hayeks de esquerda mas por agir e pensar a acção política e o pensamento político aquém e além da “responsabilidade” de dirigentes e "pensadores" (e por isso não tenho simpatia nenhuma pela estratégia educação popular de Mélenchon, que o Nuno Teles tanto aprecia, mesmo se também eu votaria em Mélenchon caso pudesse votar nas eleições francesas).

Finalmente, a questão menor, que, porém, parece ser a única que verdadeiramente empertigou o João Rodrigues. Acha o João que eu deveria ter nomeado individualmente os economistas que dirigem a edição portuguesa do “Le monde diplomatique” e não simplesmente ter referido o grupo de economistas do “Le monde diplomatique”. Tudo bem. Se o João entende que isso é importante para tornar o debate mais interessante, passarei a fazer como ele manda. Seja como for, não creio que esta questão seja motivo para tanto azedume. Depois, bom, depois diz o João Rodrigues que engano os leitores ao afirmar que há uma linha dominante dessa publicação que é determinada por esses economistas quando na verdade existirá uma pluralidade de pontos de vista de esquerda expressos no jornal em questão. Sim, é claro que há outros economistas a escrever no jornal em questão (por regra o jornal tenta ter uma pessoa do PS, uma do PCP e outra do BE, parece-me), mas creio também (de facto, não fui contar) que o João Rodrigues e o Nuno Teles são os autores mais regulares do jornal e que em grande medida (foi a expressão que utilizei no artigo) marcam a linha política da publicação. Não há é qualquer problema nisto, pelo menos para quem não faz parte do jornal. Devo até dizer ao João Rodrigues e ao Nuno Teles que um dos motivos porque continuo a pensar comprar o jornal é justamente o facto de saber que aí encontro publicada, muito provavelmente, a opinião destes meus bons amigos economistas. Com os quais tantas vezes discordo mas que sempre tento acompanhar de perto.

Manuel António Pina e a "sinização"

Manuel António Pina tem sido um dos observadores mais atentos ao processo de "sinização" em que apostam cada vez mais as fracções mais aguerridas da oligarquia europeia — com particular destaque para os seus capatazes políticos e ideólogos da região portuguesa. Sim, o processo de "sinização" remete para a República Popular da China e o seu modelo de "sociedade harmoniosa", bem como para a sua experiência histórica presente, na qual, também neste país, há quem vislumbre um regime empenhado no esforço de construir uma alternativa ao capitalismo.

Vale, sem dúvida, a pema ler estas "Notícias da China na Europa" — a sua mais recente crónica sobre o assunto, no JN:

Um indivíduo não eleito, que ocupa um cargo administrativo nomeado não se sabe (mas imagina-se) por que critérios, impede um autarca eleito de, em representação dos cidadãos de uma determinada cidade, visitar uma instituição pública dessa cidade.

Adivinhe o leitor onde se passou o episódio, exemplar de respeito pela Democracia representativa: na Coreia do Norte (dando crédito à noção de Democracia de Bernardino Soares e admitindo que na Coreia do Norte haja eleitos)?, em Cuba?, no Irão?, no Portugal salazar-marcelista? Não: foi em Portugal, desde há 38 anos "um Estado de Direito democrático", onde "os actos do Estado e (...) outras entidades públicas dependem da sua conformidade com a Constituição".

O que se passou foi que o presidente da Câmara de Lisboa ia já a caminho da Maternidade Alfredo da Costa para a visitar quando recebeu um telefonema da direcção desta instituição informando-o de que o administrador regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo a proibira de receber o autarca, sob pena de processo disciplinar. Mais: segundo a RTP, todos os clínicos da Maternidade estão proibidos de falar com a comunicação social, isto num país cuja Constituição garante que "todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio (...) sem impedimentos nem discriminações".

Pelos vistos não foi só em matéria laboral que já chegamos à China.

Continuando com as sondagens gregas...

Sondagem publicada pelo jornal Tipos tis Kiriaki, realizada pela empresa Pulse RC, aparentemente entre 9 e 11 de Abril :

Nova Democracia..........21,5%
PASOK.........................15,5%
KKE.............................11,5%
SYRIZA........................11,5%
Gregos Independentes.....9,5%
Esquerda Democrática....9%
Chrysi Avgi.....................5%
LAOS............................3%
Verdes...........................3%

[Artigo no referido jornal; tradução do Google]

Troika: 37%; esquerda anti-troika: 35%; direita anti-troika: 17,5%

Neste momento, alguns leitores já se estarão a perguntar qual o porquê desta série de posts, com sondagens gregas quase dia sim, dia não; bem, parte da razão é que eu estou sem energia quase nenhuma para escrever posts que impliquem um esforço mental prolongado; assim, postar resultados de sondagens gregas é a maneira que arranjei de continuar a "produzir" algo para os leitores do Vias enquanto a inspiração não regressa...

13/04/12

Como diria o Quincas Borba "Ao vencedor, as batatas"


Palavras para quê? São artistas portugueses.

12/04/12

Ben Bella

Pontos negativos:

- O regime autoritário que implantou

- A repressão contra a minoria berbere

Pontos positivos:

- O seu papel na solidariedade internacional com vários movimentos de libertação (incluindo portugueses)

- A sua tentativa de criar um socialismo autogestionário

- Creio que, apesar de tudo, era menos autoritário do que o regime seguinte

- A sua "segunda vida politica", depois de ser libertado, que não foi propriamente um caso de sucesso mas que foi, por regra, do "lado bom"

Nem Crise Mundial Nem Solução Patriótica

(o meu artigo no i desta quinta-feira)

Há um pequeno grupo de quatro ou cinco economistas de esquerda cujo trabalho é importante acompanharmos por estes dias de crise. A melhor forma de o fazermos é seguindo a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique, publicação que tem assumido uma linha política em grande medida determinada por aqueles economistas. Hoje em dia essa linha passa sobretudo pela defesa da seguinte ideia: uma saída pela esquerda da actual crise implica uma tomada de posição patriótica.

A hipótese desenvolve-se em cinco passos. 1) A globalização actual é uma máquina de produção de desigualdades nacionais à escala do mundo e de desigualdades sociais no interior de cada nação. 2) Deveremos por isso tomar distância em relação a essa máquina global, deixando o euro e adoptando uma moeda própria, com todas as possibilidades de política financeira e económica que daí resultam. 3) Estas possibilidades podem ser aproveitadas de modo a que, forçados pela privação resultante da desconexão parcial com o sistema mundial, desenvolvamos capacidades novas que julgávamos perdidas, para este efeito adoptando-se uma política industrial activa. 4) Ao mesmo tempo, acrescente-se, será possível irmos combatendo a desigualdade social no interior da nação, combate importante para elevarmos os níveis de confiança interpessoal da comunidade nacional e, também, para a própria regeneração da economia por via do consumo interno. 5) Finalmente, poderemos, atingido um certo nível de crescimento económico, regressar ao sistema mundial, talvez até tornando-o um pouco mais justo.

Esta é, creio, uma proposta interessante, desde logo porque tenta romper com a tendência em que boa parte da esquerda tem vindo a ser, nas actuais circunstâncias, aceleradamente atolada: a contínua defesa de direitos continuamente perdidos de luta em luta até à perdição final.

Mas é também, ainda assim, uma proposta que deve ser recusada sem qualquer hesitação.

Se me é permitido atalhar caminho, e correndo o risco de estabelecer uma comparação injusta para os nossos economistas de esquerda, diria que devemos recusar a proposta por motivos não muito diversos dos que nos levam a resistir ao argumento do governo de Passos Coelho segundo o qual as actuais políticas de austeridade são apenas medidas sacrificiais que, no futuro, e uma vez saldada a dívida, permitirão ao país recuperar a sua soberania e reactivar a democracia entretanto suspensa por ordens externas.

Em ambos os casos há uma desistência em relação à actualidade política europeia.

Passos Coelho desiste porque despolitiza a Europa obedecendo-lhe caninamente: para Passos Coelho, da Europa surgem apenas ordens que ele terá que cumprir, não se lhe ocorrendo participar politicamente no espaço europeu, por exemplo discordando do que diz ser-lhe imposto, por exemplo.

Já a proposta dos nossos economistas de esquerda acaba também por fazer acreditar que o espaço europeu não é mais susceptível de intervenção política, refugiando-se eles, por isso, no espaço nacional. Não s refugiam, note-se, por terem desistido da política em favor da economia, como Passos Coelho, mas porque querem – e bem – retomar a política como factor que determina a economia. O problema está em que desprezam a possibilidade de uma política económica europeia combater o desemprego, a desigualdade e a pobreza. Dirão os nossos amigos economistas que tal política europeia é uma utopia, mas não há nenhum motivo – pelo menos para quem não tenha uma crença nacionalista que o anime – para julgar que o tamanho dessa utopia seja menor porque a imaginamos apenas aplicável a Portugal. Se o ministro das Finanças de Portugal tem tantos laços de afinidade com o ministro das Finanças alemão, não há nenhum motivo para que os trabalhadores portugueses e as suas organizações não se irmanem com os seus congéneres da Alemanha.

E mais uma sondagem grega

[Em inglês; em grego]

Nova Democracia.............19%
PASOK............................14,5%
SYRIZA...........................13%
Esquerda Democrática......12%
KKE................................11%
Gregos Independentes......11%
Chrysi Avgi........................5%
LAOS................................3%
Verdes...............................3%

Resumo: troika - 33,5%; esquerda anti-troika - 39%; direita anti-troika - 19%.

[Via Phantis]

Como o nosso governo dá razão a Lenine...

É verdade que várias gerações de portugueses viveram à sombra das garantias do Estado. Acreditaram que este seria uma “pessoa de bem”, “de direito”; capaz de administrar a justiça e zelar pelos desvalidos, redistribuindo parte do que exigia aos mais afortunados. Imagine-se que a confiança na providência ia ao ponto de lhe confiarem o bem-estar na doença e na velhice. 
Mas não era para menos: nas suas origens, o Estado existia por graça divina, tendo esta legitimidade sobre-humana dado depois lugar à miragem de uma entidade neutra que velaria pela liberdade de todos, com o “interesse nacional” a tudo justificar. Isso até ao dia em que uma conveniente crise internacional pôs nas mãos de uns poucos a oportunidade de devolver o Estado à sua real condição: a de ferramenta de domínio na luta de classes. 
O Estado português é hoje um dispositivo que retira a maior verba possível a quem trabalha, sacrificando-a no altar na estabilidade dos mercados e das instituições financeiras. Nos estilhaços desta ofensiva jazem os danos colaterais do costume: os doentes, os pobres, os desempregados, os velhos, as crianças. “Custe o que custar” – todo um programa em quatro palavrinhas. 
Bens supérfluos como a noção de dignidade mínima do cidadão... ei-los tragados pela nova configuração do nosso mundo: um gigantesco formigueiro onde só temos é de aceitar cada sacrifício suplementar sem fazer ondas. Quem não suportar esta nova ordem que fuja para o estrangeiro ou para debaixo de um comboio.

11/04/12

Venham mais cinco para a camarada Joana do Brumas!



E obrigado pelos que já cá cantam…

A caminho do autoritarismo

Alguns dias após o Alexandre Abreu concluir no último parágrafo destes três textos publicados no Ladrões de Bicicletas que

"(..)a crise financeira teve lugar em 2007-08 mas a crise económica está ainda em curso – e é uma crise estrutural, a crise terminal do actual regime de acumulação, que tenderá a tornar-se cada vez mais evidente por via da agudização dos conflitos entre as diferentes forças sociais. Conflitos esses cujo palco inicial consiste, como é já bem visível, nas questões em torno da dívida (da questão do (in)cumprimento à questão da migração da dívida do sector privado para o sector público), mas que, inevitavelmente e a prazo, se deslocará para o cerne do problema (a divisão do produto social e a democraticidade da super-estrutura). Para o bem ou para o mal, “mais do mesmo” não resultará. Aquando da crise análoga anterior, na década de ’70, o campo progressista foi derrotado, talvez vítima do seu próprio sucesso anterior. Desta vez, as condições são muito diferentes, mas o embate não será menos decisivo."

aparecem sinais evidentes (via Brumas), e bem próximos de nós, de que o novo regime de acumulação (de Poder, ainda e para já no âmbito do sistema Capitalista), será caracterizado pelo autoritarismo: terminada a ilusão do consumo alimentado a crédito e da "democracia" representativa, deixará de ser possível esconder o aumento da expoliação do produto do trabalho necessário para repôr as taxas de acumulação anteriores à crise e a impossibilidade de mudar o sistema económico-social dentro da "Lei", do que resultará um aumento da conflitualidade social, apenas passível de ser contido pela via do aumento da repressão judicial e policial. Do autoritarismo ao fascismo será apenas um passo, dado quando e onde quem detém o Poder achar necessário colocar uma parte mais significativa da população a vigiar e reprimir a maioria revoltada.

News from the twilight zone

A ninguém passa pela ideia que os insurrectos sírios sejam malta integralmente recomendável ou que não se entretenham também com as suas ocasionais violações de direitos humanos. Mas fazer tábua rasa de tudo o que organizações como a HRW nos relatam do que se vai passando na Síria... já é coisa de malucos: «Depois de terem sido obrigados a bater em retirada pelo exército sírio, os grupos armados responsáveis pela violência no país apostam nos atentados terroristas». Além da Coreia do Norte, não imagino outro local onde um artigo sobre a situação síria pudesse começar assim. Só mesmo no Avante!

10/04/12

Marine Le Pen, a amálgama fascista e a separação das águas

Salir de forma ordenada del euro y volver al franco “para no acabar como Grecia o España”; nacionalizar temporalmente la banca “para garantizar los ahorros de los franceses”; renegociar “todos los tratados europeos para recuperar la soberanía nacional”; prohibir la discriminación positiva que protege a las minorías; restablecer la pena de muerte abolida en 1981 y la cadena perpetua efectiva como símbolos de la tolerancia cero hacia la delincuencia. Estas son algunas de las medidas que propone Marine Le Pen a los electores franceses. La presidenta del Frente Nacional, que marcha tercera en los sondeos y continúa siendo la aspirante favorita entre los jóvenes de 18 a 24 años, se autoproclamó este martes la “candidata antisistema” durante una comparecencia ante la prensa internacional en la sede de su partido, en Nanterre, a las afueras de París.

O que dá — ou devia dar — que pensar nas medidas emblemáticas do programa presidencial de Marine Le Pen, bem resumidas na peça de El País cujo início acabo de transcrever e cuja leitura na íntegra não deixa de ser aconselhável, é o modo como amalgamam — à semelhança de movimentos e correntes políticas que se situam no extremo oposto do espectro partidário convencional — as reivindicações "sociais" e a crispação nacionalista e soberanista, de modo a fazer passar o conjunto por uma verdadeira alternativa de ruptura com o sistema. Com efeito, tanto os ataques desferidos contra o "federalismo" e a economia desnacionalizada, como a apologia de uma mão pesada na justiça penal a pretexto da repressão da corrupção e da delinquência, são traços que encontramos também numa corrente — ou confluência de correntes — de opinião autoritária e patriótica que se apresenta como voz da verdadeira esquerda, ou da "esquerda revolucionária". O que só demonstra, uma vez mais, que não basta acertar na denúncia dos males do sistema, e que a separação das águas passa também, para qualquer plataforma de acção democraticamente utilizável, pelas alternativas e os princípios que as informam. Tal é, de resto, a condição de necessária de não transformarmos numa mistificação, ou auto-mistificação, perigosa as denúncias rituais do (cada vez mais verosímil) renascimento da ameaça fascista, a celebração beata das virtudes do "povo unido", ou as palavras de ordem do tipo "Fascismo, nunca mais".

Quando as convicções brilham pela ausência em plena coerência com o passado

“Pedi informações ao Governo, ele forneceu-me todas as informações que foram solicitadas e, face às razões de interesse nacional que me apresentou, entendi que não devia obstar à entrada em vigor do diploma”, afirmou o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, em declarações aos jornalistas no final da inauguração da nova sede da Microsoft em Portugal.

Lembrando que já promulgou mais de 200 diplomas do actual executivo, “a quem compete conduzir a política geral do país”, Cavaco Silva notou, contudo, que é reconhecido que o acto da promulgação não significa acordo com todas as normas dos diplomas.

“Todos os constitucionalistas reconhecem que o acto de promulgação não significa o acordo do Presidente em relação a todas as normas de um diploma”, sublinhou
.

Estas declarações de Cavaco sobre a promulgação do diploma que "congela" as reformas antecipadas lembraram-me, e sei porquêo caso de certo fulano, por vezes também  evocado em órgãos da comunicação social, que, embora não concordando com tudo o que a PIDE fazia — mas tendo naturalmente em conta tanto o interesse nacional como os seus próprios interesses pessoais — fez questão de mostrar a extensão do seu zelo e das suas capacidades de iniciativa privada fornecendo, de moto proprio, à filantrópica instituição do regime defunto, informações a respeito de terceiros que a mesma não se dera ao trabalho de lhe solicitar.

Os proibicionistas

Diário da Assembleia da República de 17 de Fevereiro de 2012 [pdf]:


Mas o que é feito dos anti-proibicinistas do BE (é um pouco absurdo, parece-me, ser a favor da legalização de algumas drogas, ao mesmo tempo que se vota a favor de ilegalizar as que eram legais)? E, já agora, das alas "liberais" que parece que há no PSD e no CDS?

A evolução segura na continuidade da luta socratista do PS contra a social-democracia

 A breve crónica de Viriato Soromenho Marques, hoje publicada no DN, tem o mérito de resumir as razões que fazem com que o PS local contribua para que, como diria o João Rodrigues, o lugar da social-democracia continue vazio. E, o que é mais, fá-lo sem  incorrer na adoração fetichista das virtudes do Estado-nação que por vezes limita deploravelmente as intuições e argumentos mais interessantes do ladrão de bicicletas acima citado.

Claro que saber se a metodologia social-democrata é suficiente e verosímil como via de uma democratização efectiva que garanta que sejam os cidadãos a governar, e só por si próprios sejam efectivamente governados, é outra questão (para algumas considerações preliminares sobre o assunto, remeto aqui para um meu post de há meses sobre a democratização como plataforma necessária e suficiente).  Mas, seja como for, aqui fica na íntegra, porque vale a pena, a crónica do Viriato.

Na semana em que o Parlamento vai discutir o Pacto Orçamental, a entrevista de Vital Moreira (VM) ao diário i no sábado é de uma enorme utilidade. Destaco apenas dois aspetos. Depois de confessar que é "amigo" de José Sócrates, e instado a comentar as atuais dificuldades do PS, o eurodeputado que comandou as hostes socialistas às eleições europeias sai-se com uma observação onde mistura superficialidade e arrogância: "Eu encaro tudo isto sem paixão. Tenho idade para saber que estes processos são absolutamente naturais." De facto, a paixão de VM deve ter-se afogado toda no Mondego, nesses anos distantes de fogoso bolchevismo constitucional. Dali já não se espera o fervor turbulento que costuma acompanhar as juvenis éticas da convicção. A VM aplica-se mais a advertência de Max Weber para as extremadas e serôdias éticas da responsabilidade, em que a quebra de paixão é uma mera desculpa para a falta de alma e o abandono de princípios. Depois, sobre a crise europeia, afirma o académico socialista: "Penso que, embora com hesitações e atrasos, a União respondeu bem à crise, e, no caso de Portugal, penso que estamos no bom caminho." É impossível não sentir uma mistura de simpatia e pena por A. J. Seguro. Por duas razões. Primeiro, tem um chefe de bancada no Parlamento Europeu que repete - com um absoluto vazio de pensamento próprio sobre uma crise europeia que manifestamente não compreende - os comunicados de Vítor Gaspar sobre como o País se vai redimir empobrecendo. Segundo, a entrevista de VM é um sintoma claro de que Seguro jamais será o líder da oposição que o País precisaria, enquanto caminhar no campo minado pelo "socratismo" em que o PS se transformou.

09/04/12

Que referendo exigir para a Europa?

Ao que é noticiado, o BE advoga que o novo acordo europeu seja submetido a referendo. É uma medida defensiva que se compreende perante a nova iniciativa oligárquica na Europa. Mas não seria bem mais interessante, mais coerente com uma acção social-democrata digna desse nome e, por isso, talvez mais mobilizador também, que o BE e os movimentos congéneres presentes noutros países europeus —que declaram apostar na acção no interior das instituições como via  privilegiada de democratização através de reformas "participativas" — em vez de se limitarem a exigir um referendo que lhes permita oprem-se ao acordo em vias de constitucionalização na zona-euro, assumissem a iniciativa de reivindicar um referendo tendo em vista a aprovação da eleição uma assembleia constituinte de uma nova União Europeia efectivamente federal — ou federação de regiões autónomas da Europa —  e, por conseguinte, integrada nos planos orçamental, fiscal e das garantias sociais?

Sobre o Novo Acordo Europeu

No momento em que a arrogância e a estupidez da fracção mais poderosa da oligarquia da UE e da zona-euro mostra os seus propósitos explícitos de constitucionalizar na região uma redução radical das matérias políticas sobre a quais a legitimidade das decisões dependia até aqui de uma forma ou de outra de manifestação — insuficiente, condicionada, truncada… mas efectiva, pelo menos em termos defensivos — da vontade popular, importa que a oposição democrática a essas medidas não se confunda com a dos pescadores de águas turvas que tentam canalizar o descontentamento e a revolta contra elas para uma agitação nacionalista e soberanista que só pode favorecer alternativas não menos radicalmente antidemocráticas e restritivas da expressão da mesma vontade popular. O novo acordo europeu — digam o que disserem os João Galamba de serviço, o secretário-geral do PCP, ou estas e aquelas destacadas vozes do BE — não é mau nem deve ser rejeitado por limitar a soberania nacional ou as prerrogativas de cada um dos Estados-nação da região europeia, mas sim por ser antidemocrático e antipopular e corresponder a uma consagração e explicitação institucional agravada e inédita do poder político de uma organização da economia que se confunde, a todos os níveis, com o modo de funcionamento e exercício da dominação oligárquica.

Assim, é precisamente por pensar que JM Correia Pinto acerta quando escreve:

"É cada vez mais generalizada a convicção de que o pior está para vir. Não apenas na Grécia, em Portugal, na Itália e na Espanha, mas em toda a Europa, nomeadamente em França e, por último, na Alemanha. Do outro lado do Atlântico há a convicção de que Portugal vai cair e que a relativa acalmia dos mercados depois das massivas injecções de capital do BCE é um efeito de curto prazo. Quando a crise do euro voltar a agudizar-se – e isso acontecerá em breve – a Itália e a Espanha cairão na mesma situação que Portugal.
E neste contexto ninguém se salvará: nem a Alemanha!
"

que quem está com ele concorda aqui, terá de discordar das posições insolitamente soberanistas que ele, como alguns dos Ladrões de Bicicletas, defende noutros textos recentemente publicados na sua Politeia. Com efeito, opor ao quadro descrito, e que é tão anti-europeísta como antidemocrático, a solução de uma saída unilateral da UE e da zona-euro faz tão pouco sentido e é tão insuficiente como a tese que sustentasse um adversário da utilização industrial da indústria nuclear, defendendo que o seu concelho de residência deveria declarar unilateralmente a independência no caso de o governo do seu país assumir essa opção.

06/04/12

As crianças dão bons iscos

As visões idílicas da natureza, mais baseadas em fábulas do que na biologia, apreciam os animaizinhos enquanto pais extremosos, capazes de proezas mil em prol das crias. Que por vezes as comam em tempos famélicos é coisa demasiado bruta para quem quer ver ordem moral no mundo. Nós, bichos humanos, até somos simpáticos; em dias de crise não seguimos a modesta proposta de Swift. Pelo contrário: desistimos de comer, se preciso for, para poupar os nossos filhos ao horror que vai desabrochando neste mundo entregue à ganância cega dos poderosos. 
Mas claro que uma tal fraqueza tinha de atrair o apetite dos predadores. Somos débeis quando pomos o bem-estar das crianças acima de tudo, vulneráveis quando nos sentimos dispostos a qualquer sacrifício. E é dos fracos que os carnívoros gostam, por mais gordos que já estejam. 
Hoje basta ligar a TV para saber como as feras nos engodam aproveitando esta fraqueza. Quem não viu já as criancinhas da EDP a descrever o bem que os seus pais fazem ao mundo por trabalharem nessa empresa? Ou a menina do Intermarché a jurar ao mundo que os pais cuidam muito bem dela mesmo sem dinheiro? Que tal pareça contrariar o Código da Publicidade – “os menores só podem ser intervenientes principais nas mensagens publicitárias em que se verifique existir uma relação directa entre eles e o produto ou serviço veiculado” – não é importante. 
Na selva qualquer armadilha vale, desde que atraia presas.

05/04/12

Por uma política democrática contra a polícia da economia

"Os valores da solidariedade e da inclusão são eixos do modelo social europeu, mas [este] tal como existe hoje, não é sustentável a prazo, defende o presidente do Banco Central Europeu (BCE). “O modelo social europeu está morto” e cabe aos Governos da zona euro avançar com reformas que sejam sustentáveis, observa Mario Draghi" — lemos numa notícia na edição de ontem do Público (4.04.2012), que dá conta de uma conferência de Imprensa em que o presidente do BCE participou.

Não é seria fácil dizer mais chãmente que o poder político efectivo é hoje exercido pela oligarquia que dirige a esfera económica e os seus aparelhos burocráticos de Estado. De resto, esta situação de facto, que permite a Draghi marcar as agendas governamentais e as tarefas da governação encontra-se já em vias já de constitucionalização, através da inscrição em curso nos textos fundamentais de cláusulas que consagram formalmente a soberania da economia acima da vontade popular, como quer que esta seja definida, e deixando nós aqui de parte o facto de essa definição ser, ela própria, uma questão política maior, que o novo curso do capitalismo torna assim mais fácil escamotear e furtar à deliberação dos interessados.

Com efeito, é no mesmo momento em que a expansão da área da economia se afirma cada vez mais como, de direito, ilimitada (tudo deve poder ser posto a render, tudo deve poder ser objecto de transacção e apropriação monetária), que vemos expandir-se também o projecto de redução da política ao político, ou, se se quiser, da política à polícia, como garantia superior da governabilidade. À política — e por maioria de razão nos casos em que as suas decisões passem pela consulta da vontade popular, ainda que indirectamente e a título sobretudo preventivo da ameaça que seria a instauração de processos de participação democrática efectiva dos cidadãos comuns nas decisões que os governam — fica reduzida a uma intendência ancilar da organização económica estabelecida, e, para além disso, poderá quando muito ocupar-se — ouvindo mais ou menos consultivamente os cidadãos para esse efeito — das margens residuais e de fronteira ainda não colonizadas pela economia.

Assim, num primeiro - e sempre actual, sempre reiterado - momento do processo, furta-se a economia à esfera da deliberação e da decisão políticas explícitas. O passo seguinte é a subordinação a essa economia despolitizada da esfera política explícita ou "oficial" transferindo para a primeira o exercício do governo.

Mas se a política — enquanto distinta do político ou da polícia — é a actividade instituinte da deliberação e da decisão explícitas das leis e medidas pelas quais uma sociedade se governa, e se a democracia é a universalização da participação igualitária na autonomia dessa actividade instituinte de deliberação e de decisão governantes, então, a democratização da economia, a sua repolitização explícita e a reivindicação da cidadania económica governante, é a condição necessária e o ponto de partida fundamental da defesa e extensão do que ainda persiste ou insiste em ressurgir, embora sob a pressão crescente de uma ameaça mortal, da ideia de democracia.

Dança Macabra

O plano é lógico e transparece claramente de toda uma série de medidas governamentais emblemáticas, entre as quais se destacam o encerramento anunciado da Maternidade Alfredo da Costa, passo de monta na liquidação do SNS, e a caça à fraude e à poupança nas "prestaçções sociais". Trata-se de procurar o relançamento e as bases da recuperação a partir da expansão e modernização no sector dos cemitérios e equipamentos mortuários, que, de resto, medidas como as referidas tornam objectivos prioritários. Mas deve haver aqui um problema de comunicação que me ultrapassa, pois não se compreende bem porque insiste o governo em fazer deste seu programa de dança macabra em benefício da salvação da economia nacional um segredo de Polichinelo — em vez de o proclamar com o mesmo ardor que já põe na sua execução prática.

04/04/12

Mais um Herói do Mar

O João Rodrigues já não diz internacional mas inter-nacional. Acha que a esquerda tem sido demasiado internacionalista e que deverá passar a ser mais inter-nacionalista. Dá vivas à Marselhesa, esquecendo os argelinos de ontem e os ilegais de hoje. Falta ouvi-lo cantar os heróis do mar nobre povo, afinal de contas um hino bem anti-imperialista.

In memoriam memoriae

A Salgueiro Maia

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse


Pirataria informática = roubo ?



[Via A Destreza das Dúvidas]

03/04/12

Uma campanha "alvarinha" da Conferência Episcopal Espanhola

Não é indispensável saber hebraico ou aramaico, ou sequer grego, para conjecturar que um cristão concluirá que melhor teria sido para a Conferência Epicospal Espanhola pendurar ao pescoço uma pedra de mó e atirar-se ao mar (Mateus, 18, 6), ou pelo menos automutilar-se e ficar coxa e maneta (Mateus, 18, 8), do que empreender a campanha de captação de seminaristas e promoção das vocações sacerdotais, de que se dá notícia a seguir, em termos que retomam tão obviamente a leitura pioneira que o ministro Álvaro Santos Pereira propôs há alguns anos do declínio do dinamismo apostólico de Braga ( aqui fica para quem não se recorde o essencial da sua tese: "Hoje em dia, a indústria de produção de sacerdotes bracarenses está em declínio”. (…) Porquê? (…) A grande causa do declínio da Igreja Católica em Portugal é simplesmente a falta de competitividade. A indústria de produção de padres perdeu competitividade, pois os custos de produção de novos sacerdotes são demasiado altos e o preço do sacerdócio é extremamente elevado" ). Dito isto, resta-nos esperar que, recordando, entre outras da "Palavra", as passagens de Mateus atrás citadas, os fiéis remedeiem, agindo evangelicamente em conformidade,  o esquecimento a que, em aras da razão económica, as votou a conferência dos seus pastores.

A Conferência Episcopal Espanhola tem uma nova campanha para captar seminaristas, promovendo o sacerdócio como um "trabalho fixo" que não promete "um bom ordenado" mas garante "riqueza eterna". O vídeo já foi visto por mais de 160 mil pessoas.

"Somos a única classe social que não tem desemprego. No ministério sacerdotal não há desemprego, temos muito trabalho e a paga está no Evangelho e depois na vida eterna", disse o bispo Juan José Asenjo ao jornal espanhol ABC.

No vídeo intitulado "Prometo-te uma vida apaixonante", o narrador começa por perguntar: "Quantas promessas te fizeram que nunca se cumpriram?". Depois surgem vários padres (apesar de tal só ser visível na parte final) com as suas próprias promessas. "Não te prometo um bom salário, prometo um trabalho fixo", diz um deles. "Não te prometo uma decisão fácil, prometo que nunca te arrependerás", diz outro.

A verdade é que, após nove anos em queda, o número de seminaristas aumentou em Espanha, chegando aos 1278. Aqueles que escolhem estudar num seminário têm direito a alojamento, comida, formação e estabilidade durante os seis anos do curso e depois um salário seguro. Em Espanha, o desemprego atinge mais de cinco milhões de pessoas.

O vídeo foi lançado por ocasião do Dia do Seminário, em meados de março. "Queriamos chegar às redes sociais, aos adolescentes e jovens que não vão à igreja e não leem os cartazes sobre os seminários", disse à BBC Mundo o presidente da Comissão Episcopal de Seminários e Universidades, Josep Ángel Sáiz.

Areia para os olhos

Parece que o PS insurgiu-se contra os recentes comentários de alguém na Comissão Europeia, dando a entender que o roubo dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos poderá tornar-se permanente, e exige que o governo esclareça a sua posição sobre tal matéria. Pois eu estou-me a borrifar para a opinião do governo. Pois sem o apoio do PS não conseguirá efectivar tal medida. Gostava portanto era de conhecer a posição do PS sobre a questão. Mais concretamente: Acha o PS que a Constituição proíbe tal? Em caso afirmativo, em algum caso, por exemplo no contexto dum segundo acto de subjugação (aka. pedido de resgate), estaria disposto a aceitá-lo? Em caso de formar governo após as próximas eleições legislativas, em 2014 se não ocorrerem antes, compromete-se a não renovar o roubo? Não que vá acreditar em qualquer coisa que digam, mas pelo menos ajudaria a desmontar este joguinho politiqueiro entre partidos gémeos que fazem de conta que discordam entre si.

A natalidade no mundo islâmico

The Myth Of Soaring Muslim Fertility Rates:
This story starts with a myth. It is the myth that the Muslim world is uniformly dedicated to making many (too many) babies, and that this has gone on for centuries.


This mythology also has its very own Bible: “Factors Affecting Muslim Natality,” by Dudley Kirk, an American professor of Population Studies. Published in 1965, this study embodied, scientifically speaking, the notion of a demography unique to Muslim countries that won’t transition to a family model with two children, as it did in the Western world. (...)

However, today Kirk’s point of view has been spectacularly disproved by science. In recent decades, the Muslim world has experienced a demographic transition that was as acute as it was late: in 30 years, the number of children per woman has dropped by more than 50%. In Iran, the drop represents 75%; in North Africa it is 70%. Once you realize that it took Europe two centuries to go from 5 to 2 children per woman, you can appreciate the severity of this collapse in birth rates.

Seminário Pensamento Crítico Contemporâneo Abril-Maio 2012


A Unipop e a Associação de Estudantes do ISCTE-IUL organizam um seminário que pretende promover o debate sobre um conjunto de propostas teóricas que, posicionando-se criticamente face ao estado do mundo, têm procurado pensar as circunstâncias presentes e as alternativas que têm sido desenvolvidas no quadro da actual crise económica, mas também do ciclo de revoltas que, do Cairo a Wall Street, passando por Madrid, têm vindo a marcar o ritmo dos tempos que correm. Ao longo de cinco sessões, o seminário colocará em confronto sensibilidades teórica e politicamente diversas que, organizando-se em torno de autores ou correntes, têm contribuído para a renovação do pensamento contemporâneo a nível da acção dos movimentos sociais, da pesquisa e investigação científicas ou ainda das práticas artísticas e culturais.

01/04/12

Especialistas em Portugueses

o meu artigo no i da última quinta-feira

Há um tipo de pessoa que tem vindo a ganhar protagonismo no espaço mediático. É o especialista em portugueses. O especialista em portugueses tanto pode ser especialista em portugueses na variante corpo como na variante alma. O primeiro é generoso na hora de avolumar estatística e mais estatística sobre o chamado comportamento dos portugueses, lançando-se na grande aventura dos dados, dos números e das contas que lhe permitirão produzir largas séries que registam, por exemplo, a poupança e o consumo dos portugueses. O segundo, o especialista em portugueses na variante alma, dedica-se a trabalho mais minucioso, tricotando conceitos, ideias e teses, quando não parábolas, que lhe permitirão aceder de modo singular e único – assim julga… – ao famigerado enigma português.

Um e outro especialista têm um problema fundamental com a democracia. O especialista em portugueses na variante corpo tende a classificar qualquer alternativa ao que quer que seja como cientificamente inviável, independentemente do que sobre isso tem a dizer a vontade da maioria. Para ele não se trata de querer ou não consultar o povo, mas da irrelevância de tal exercício perante o que considera ser a força da realidade. Por isso ele diz-nos que não é contra a democracia mas que simplesmente não pode ser a seu favor. É a moral da breve história do actual governo: foi eleito com base num programa que já não é compatível com a realidade tal como esta passou a ser por ele entendida a partir do momento que tomou posse.

Já para o especialista em portugueses na variante alma, o problema da democracia é outro. Para este especialista o problema é que os portugueses não são susceptíveis de gerar vontades alternativas e ter uma voz crítica. (Com a excepção do próprio especialista, presume-se, pois de outro modo não seria ele mesmo susceptível de denunciar tão atávica situação…). É em muitos elogios e em algumas das críticas a Salazar que esta ideia de que a cultura política dos portugueses é incompatível com a democracia frequentemente se afirma. Entre os elogios, temos quem entenda não haver porque criticar um ditador que mais não terá sido do que a expressão das circunstâncias de um país e de um povo. E entre os críticos do salazarismo há quem, desolado com o que considera ser a actual passividade política do que apoda de povo, não hesite em concluir que tivemos o Salazar que merecíamos.

Assim, sendo, o triste cenário mediático que temos obriga-nos a escolher uma de duas: ou nos embrutecermos com os especialistas na variante corpo olhando para os gráficos que Medina Carreira vai esgrimindo com uma ética da rabugice que nenhum dono de mercearia saberia copiar; ou nos mitificamos a dar ouvidos aos diagnósticos mastigados de José Gil sobre a existência e a portugalidade.

Haverá alternativa a este dilema?

Creio que sim, que existem pelo menos duas alternativas.

A primeira alternativa é ainda mais medonha do que qualquer uma das opções antes colocada. Trata-se da emergência e triunfo de especialistas que versam tanto sobre o corpo como sobre a alma dos portugueses. Juntam-se assim dois males numa só pessoa. Desde que a crise começou, o caso mais revelador deste perigo talvez seja o sucesso mediático de uma figura como António Barreto. Por um lado temos o espectáculo da exibição por Barreto das tabelas, quadros e gráficos do seu Pordata, numa campanha mediática cuja adulação jornalística só fica a dever à bajulação de que em tempos foi alvo o acervo de imagens exposto por Berardo no CCB. Por outro lado temos o tipo de discursos do 10 de Junho a que Barreto se habituou e que parece não querer largar em todo e qualquer dia do ano, oferecendo-nos a enésima sondagem à alma e aos contornos da identidade nacional, sempre redundada por apelos ao brio patriótico dos portugueses.

A segunda alternativa é bem mais interessante. Passa por matar de vez os especialistas em portugueses, de recusar o palco aos especialistas de qualquer espécie, sejam de esquerda ou de direita, versados na variante corpo ou na variante alma, oriundos do mundo académico ou do campo empresarial. Medina Carreira, José Gil e António Barreto poderão continuar a subir ao palco, certamente que sim, mas devidamente desautorizados, destituídos das poses de peritos, pensadores e senadores que garbosamente procuram impingir-nos.

O compromisso histórico da ditadura castrista com a hierarquia eclesiástica romana

A Joana interroga-se com mais do que justificada perplexidade, no seu Brumas, sobre o modo como decorreu a visita de Ratzinger a Cuba, chamando a atenção para o eloquente episódio da negociação de um feriado religioso entre a hierarquia romana e o governo castrista.
Não é necessário subscreverem-se todos os juízos e perspectivas de  Rafael Rojas para comprovarmos, a favor desta visita do chefe de Estado do Vaticano a Cuba, não só a existência como o aprofundamento e o reforço que ele assinala de uma inquietante "cumplicidade entre o castrismo e a Igreja". Aqui ficam alguns excertos e a recomendação da leitura integral do artigo de Rojas, à laia de elementos para uma reflexão cuja  relevância política será difícil negar.

¿Qué tipo de ciudadanía acabará constituyéndose en ese país caribeño, si se normaliza la hegemonía doble del Partido Comunista sobre la sociedad política y de la Iglesia Católica sobre la sociedad civil?
(…)
Existe la equivocada percepción de que Cuba ha sido y es una nación católica, como España o México, Irlanda o Polonia. El proyecto católico de nación nunca predominó en Cuba por muchas razones que podrían resumirse con la idea del antropólogo cubano, Fernando Ortiz, de que allí la nacionalidad se formó tardíamente, entre mediados del siglo XIX y principios del XX, por medio de un proceso de transculturación que incluyó, por supuesto, diversos cultos religiosos. La religión católica fue la más practicada por los cubanos hasta 1958, pero la Iglesia no era la institución hegemónica de la sociedad civil de la isla antes del triunfo de la Revolución.

Hoy los católicos no son mayoría demográfica en Cuba y, sin embargo, la Iglesia es tratada por el gobierno de Raúl Castro como si su feligresía acumulara las bases no representadas por el Partido Comunista. Este último ha concedido al clero católico derechos de asociación y expresión que, por ser negados a la ciudadanía, se convierten en privilegios, que le permiten crecer en condiciones excepcionales.
(…)
Habría entonces que empezar por admitir que el crecimiento del catolicismo cubano en las dos últimas décadas no ha sido meramente “natural” o “espontáneo”, sino que ha respondido a la coyuntura histórica del colapso ideológico del marxismo-leninismo en los 90 y a los privilegios concedidos a la Iglesia a partir de esa década. Todavía en los años previos y posteriores a la visita de Juan Pablo II a la isla podía hablarse de la recuperación de una fe reprimida o amordazada. Hoy habría que hablar ya de una fe ideológicamente sostenida por dos instituciones autoritarias, que encuentran un punto de entendimiento en el discurso y la práctica del nacionalismo excluyente.

El sentido excluyente de ambos nacionalismos comienza con la representación de toda la comunidad cubana como comunista o católica. Un editorial de Granma de mediados de marzo hablaba de la “Nación cubana”, no de la Revolución o el Socialismo, y presentaba a esta al Papa Benedicto XVI, casi, como un pueblo católico. El embajador de la isla ante la Santa Sede fue más allá y declaró que la “Revolución Cubana y la Iglesia Católica hablaban el mismo idioma porque perseguían lo mismo”. La homologación de discursos entre ambas instituciones fue tan clara en los medios oficiales que el Papa se vio obligado a declarar, antes de su viaje a México, que la “ideología marxista ya no responde a la realidad”.

Si lo que el Papa quiso decir era que la ideología oficial cubana no responde a la realidad de la isla, tal vez debió referirse a la ideología “marxista-leninista” o “estalinista” o, incluso, “comunista”. La teoría social e histórica del capitalismo moderno de Marx es, por el contrario, una de las ideologías que más contactos establece con la realidad global del siglo XXI. Lo curioso es que el gobierno tolere el anticomunismo de la Iglesia Católica, mientras subvalora, margina o silencia los marxismos críticos que se posicionan frente a la ausencia de democracia o al avance del capitalismo en Cuba.

La elección oficial del catolicismo como alternativa leal posee, además, el inconveniente de facilitar el arraigo de ideas conservadoras sobre la nueva comunidad multicultural que intenta articularse en la isla a principios del siglo XXI. La visión de la Iglesia sobre las alteridades sexuales, raciales y genéricas, sobre los cultos afrocubanos, el aborto y el matrimonio gay, es tradicionalista, por no decir reaccionaria. El gobierno cubano, que históricamente ha demostrado ser también conservador en esas materias, hace acompañar su cautelosa apertura económica de una reevangelización católica que se propone crear una mayoría moral, “obediente en la fe” y “buscadora de la verdad”.
(…)
El catolicismo, como sostuviera el malogrado profesor de la Universidad de Cambridge, Emile Perreau-Saussine, en su póstumo estudio Catholicism and Democracy (2012), no es incompatible con la democracia. Pero sus mayores contribuciones a esta se han verificado cuando ha sabido renunciar a sus linajes antiliberales y anticomunistas y se ha secularizado por la vía del diálogo ecuménico y la convivencia con otras religiones, cultos e ideologías. Los católicos cubanos deberían ganar conciencia en que el crecimiento de su fe en Cuba sólo podrá consolidarse plenamente bajo un clima de tolerancia religiosa, diversidad ideológica y libertades públicas para todos.

La visita del Papa Benedicto XVI a Cuba ha sido beneficiosa para la democratización, toda vez que el pueblo de la isla entró en contacto con un líder mundial que trasmite ideas y valores diferentes a los del Estado cubano. Lo que no favorece la democratización de Cuba es que el proyecto de nación del catolicismo se presente como extensión o complemento del proyecto oficial. Lo que, definitivamente, no contribuye al creciente pluralismo ideológico de la isla es que la Iglesia Católica comparta con el Partido Comunista la hegemonía sobre la esfera pública cubana, aceptando la limitación de derechos de las demás asociaciones civiles y políticas del país.

Mais outra sondagem grega

Via Phantis e Reuters.

Nova Democracia...........22,5%
PASOK.........................15,5%
SYRIZA........................12,5%
KKE.............................12%
Esquerda Democrática...12%
Gregos Independentes.....8,5%
Chrysi Avgi.....................5%
Verdes............................3%

A sondagem (em grego) está aqui [pdf].