14/09/12
Passar a palavra: "Lutas precisam-se, lutadores também"
por
Miguel Serras Pereira
Lutas precisam-se, lutadores também. Amanhã, estarei na manifestação, embora consciente das lutas e lutadores que continuarão a faltar, ainda que a jornada seja um êxito, para a organização de acções que abram caminhos de democratização efectiva do poder político da economia e da economia do poder político, mobilizando desempregados, precários e trabalhadores em dificuldades, o conjunto, enfim, da gente comum que somos e queremos continuar a ser, assumindo o nosso próprio governo, sem necessidade de outros governantes. E, passando as palavras do Passa Palavra que citei no início, endereço àqueles que fazem suas razões solidárias das razões que ditam as palavras em causa — e/ou solidárias das que mas fazem passá-las aqui — o meu apelo a que, manifestando-se amanhã, continuem a passá-las também.
Reflexão à margem de um congresso anunciado
por
Miguel Serras Pereira
Nas vésperas do anunciado Congresso Democrático das Alternativas, passando os olhos por mais um post de um dos seus mais representativos promotores, ocorre-me que talvez não seja inoportuno lembrar que, mais democrática e alternativa do que a tentativa de demonstrar pela enésima vez que os políticos não são todos iguais e que esta ideia é politicamente perigosa, seria a explicitação da ideia de que é condição de possibilidade da democracia que os "iguais" sejam todos políticos e que a diferença da política democrática é ser uma actividade não-profissional exercida através da participação igualitária e directa dos seus destinatários, que justamente exclui a divisão hierárquica e o princípio classista da distinção entre governantes e governados.
13/09/12
O paradoxo da Política e da História
por
Miguel Madeira
Acerca deste post do Zé Neves, noto o paradoxo que, normalmente, as pessoas que, quando falam do presente, mais falam em "libertar a sociedade civil do Estado", são as que, quando se trata do passado, mais preferem a "História" como a descrição dos feitos dos reis e ministros (em vez da história económica ou social).
Mísero e reles cobarde
por
Pedro Viana
O primeiro-pinóquio está com cagufa de sair à rua. Ou então teme uma "demasiado" calorosa recepção nas instalações da RTP. E que tal o pessoal pegar nuns utensílios de cozinha, e ir ensaiar para o "concerto de rua" do próximo sábado, lá para os lados do Palácio de São Bento por volta das 21h?... Dava uma linda banda sonora para as mentiras que o primeiro-pinóquio vai debitar.
12/09/12
Da "Grande Transformação" de Karl Polanyi à reiteração de uma "reivindicação razoável" e unitária para os dias que correm
por
Miguel Serras Pereira
A publicação pelas Edições 70, na justamente prestigiada colecção "História e Sociedade" dirigida por Diogo Ramada Curto, de uma minha tradução de A Grande Transformção. As Origens Políticas e Económicas do Nosso Tempo de Karl Polanyi é para mim motivo de satisfação, sobretudo porque, tal como alguns outros, entre os quais é justo destacar vários ladrões de bicicletas, por várias vezes, ao longo dos últimos dez ou quinze anos, me esforcei por chamar a atenção para a importância histórica e política da obra e para as razões que recomendavam torná-la mais acessível na região portuguesa.
Aproveitando a ocasião para agradecer ao José Maria Castro Caldas o apoio que me deu generosamente sempre que o confrontei com alguma dificuldade surgida ao longo da minha tarefa de tradutor (agradecimento que, de facto, constava de uma nota prévia do tradutor que, infelizmente, por lapso editorial, não chegou a ser incluída no volume agora posto a circular), gostaria de levantar aqui uma questão politicamente decisiva, que insiste, digamos assim, ao dobrar da esquina da tese central do ensaio de Karl Polanyi.
Pois bem, como se sabe, segundo Polanyi, a novidade e a excepção históricas do capitalismo remetem para a autonomização, ou "desincrustação", "desincorporação", da economia que deixa de ser governada ou de se integrar na arquitectónica institucional e política da sociedade para se assumir como instância de direcção ou regulação de si própria. Ora, esta emancipação da economia só é possível através da subordinação das outras esferas e finalidades da vida social à direcção hierárquica da economia como instituição central. A economia não passa a ser regulada pelo mercado - ninguém mais do que Polanyi insiste no carácter ideológico ou utópico do mercado auto-regulado: é a sua direcção que tendencialmente se transforma na direcção política do governo e das instituições da sociedade. Assim, poderíamos dizer — mais explicitamente do que o faz o próprio autor de A Grande Transformação — que a desincrustação da economia acarreta a regulação política do conjunto da vida social pelas instâncias governantes da actividade económica. A "infraestrutura" continua a ser institucional e a regulação institucional continua a ser política, mas é a nova economia que reivindica o lugar de instituição central e as suas prerrogativas governantes.
É por isso que a reincrustação ou reincorporação da economia como meio e produção dos meios necessários ou, antes, implicados pelos fins e valores resultantes da deliberação e decisão dos cidadãos organizados de uma sociedade democrática — ou, se se quiser, autónoma —, quer dizer, a redefinição do lugar da economia na arquitectura de uma sociedade de iguais, não pode, pelo menos depois da "grande transformação" estudada por Polanyi, deixar de começar pela democratização das relações de poder politicamente decisivas de que ela é lugar.
Com efeito, na medida em que a economia é a instância dominante ou o campo de relações de poder que decide do governo das nossas vidas de homens e mulheres comuns, não há democratização possível do exercício do poder, que não tenha desde o início de começar pela sua democratização. Esta democratização da economia tem vários níveis, em cuja consideração detalhada não vou aqui entrar, mas é indispensável esclarecer que implica, nomeadamente, a democratização dos rendimentos e do mercado; a democratização das relações de poder no interior das empresas ou organizações; a democratização da decisão dos objectivos gerais e planeamento da actividade económica.
Como escrevi há tempos noutro lugar: "Trata-se, na realidade, de um ponto de importância capital, uma vez que, embora não saibamos talvez o que seria a democratização da economia, sabemos que sem ela não há democratização efectiva do poder político, pois boa parte deste é hoje exercido na esfera económica, e, mais ainda, a componente "direcção da economia" tende a primar cada vez mais no governo efectivo da sociedade sobre a parte que cabe ao aparelho de Estado propriamente dito". Assim, retomando noutros termos uma tese fundamental do João Bernardo,"deveríamos falar não tanto do poder político e do poder económico da oligarquia governante, como de um poder político oligárquico que se exerce ora sob a forma da organização hierárquica da economia, ora sob a forma de controle dos aparelhos do Estado".
A regulação democrática da actividade económica exige, não o "Estado Estratego" de que fala um economista como João Rodrigues, mas bem mais do que isso o tipo de "reivindicação razoável" que, há um pouco mais de dois anos, ilustrei nos seguintes termos: "A resposta democrática à precariedade, à expropriação e à subordinação hierárquica do trabalho e do conjunto da actividade económica parece, em todo o caso, bastante simples, e pode traduzir-se numa reivindicação razoável, que não pressupõe descobertas científicas novas no campo da economia, da sociedade ou da história, não depende de soluções tecnológicas milagrosas, não implica a construção de direcções políticas qualificadas, nem a assunção de competências extraordinárias por agentes privilegiados e profissionais do governo dos outros. Bastaria que, em contrapartida de um determinado montante de trabalho - estabelecido pelo poder democrático igualitariamente exercido pelos cidadãos -, fosse garantido a todos um rendimento igualitário e condições de igualdade perante o mercado. Precise-se somente que esta política de igualização dos rendimentos não poderia deixar de ser acompanhada da democratização das condições de exercício da actividade económica e da divisão (política) do trabalho em vigor - consequência óbvia da transformação democrática da actual divisão hierárquica do trabalho político.
Tal seria o resultado da adopção de uma proposta do tipo da reiteradamente apresentada nesta matéria por Castoriadis, em termos que poderiam unir numa mesma plataforma tanto os precários rebeldes como os restantes trabalhadores cada vez mais precarizados. E poderia acrescentar-se que essa plataforma seria também uma via de saída para a crise global que a ordem estabelecida não para de reproduzir e agravar a todos os níveis e à escala planetária".
No fundo, é da prioridade da democracia e da política sobre a economia que se trata. Como escreve Castoriadis (Fait et à faire. Les carrefours du labyrinthe V, Seuil, Paris, 1997): "Devemos dizê-lo mais claramente ainda: o preço a pagar pela liberdade é a destruição do económico como valor central e, de facto, único […] abolindo o papel monstruoso da economia como fim e voltando a pô-la no seu lugar adequado, de simples meio da vida humana. Independentemente de muitas outras considerações […], é nesta perspectiva, e como momento desta transformação de valores, que a igualdade dos salários e dos rendimentos surge como um aspecto essencial".
Adenda & Emenda: 1. O Pedro Bernardo — das Edições 70 — chama-me a atenção para o facto de o agradecimento ao José M. Castro Caldas não ter sido, afinal, omitido. Aparece, com efeito, na página 117 da obra, em nota de pé de página — e acontece que eu esperava encontrá-lo como nota à parte, destacada, ou de página inteira. Aqui fica, pois, a rectificação. 2. O Diogo Ramada Curto e, de novo, sempre atento, o Pedro Bernardo pedem-me também que rectifique outro lapso, mais grave, e no qual eu incorri pela precipitação carcaterística que preside à redacção/publicação de um post. Na realidade, a colecção em que aparece a obra de Polanyi é dirigida, não só pelo Diogo Ramada Curto, mas também, e com iguais responsabilidades, por Nuno Domingos e por Miguel Bandeira Jerónimo. Rectificado o erro, aos dois últimos deixo aqui a expressão da minha simpatia e as minhas mais sinceras desculpas.
Políticas da História
por
Zé Neves
Deixo aqui o meu contributo em torno da actual polémica historiográfica, hoje publicado no "Público".
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POLÍTICAS DA HISTÓRIA
por José Neves
Público, 12 Set 2012
Os trabalhos de Rui Ramos e de Manuel Loff constituem dois contributos importantes para o conhecimento do Portugal Contemporâneo e a ambos devemos uma crítica despida de elogios fáceis e de insultos gratuitos. Da minha parte, contem com estes cinco pontos.
1. Se é por de mais evidente que um historiador procura conhecer o passado, menos assumido é que nesse processo também conta o presente em que o historiador se situa. Com efeito, o meio político-ideológico em que se move todo e qualquer historiador marca inelutavelmente o seu trabalho científico. Por isso, quando António Barreto elogia a “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos porque a obra teria finalmente permitido vencer «o duopólio fanático estabelecido há muito entre as Histórias ditas “da esquerda” e da “direita”», é a uma ilusão de imparcialidade que estamos a ser atraídos. O primeiro obstáculo ao debate surge aqui, nesta suposição de Ramos como um historiador neutral, que ignora o facto do próprio Ramos ter já assumido – e bem – que o seu olhar historiográfico não é estranho ao seu percurso político.
2. Esta relação entre a agenda historiográfica e os interesses político-ideológicos do historiador desenvolve-se de um modo complexo, pouco directo e nada linear. Desde logo, a relação não é unívoca. Isto é, a agenda historiográfica do historiador é sensível aos interesses políticos do historiador, mas estes também a reflectem. Na sua crítica, Loff observa a afinidade entre a política de Ramos e a historiografia de Ramos, mas, a meu ver, dá um passo abusivo, sugerindo que o trabalho historiográfico de Ramos estaria ao serviço de um propósito político. Nesta sugestão de instrumentalização tem tido origem parte dos equívocos do debate que Loff em boa hora lançou.
3. Uma outra parte dos equívocos tem origem na leitura que Ramos fez das críticas que lhe foram dirigidas. Esta leitura produziu mais do que uma distorção, como expôs Mário Moura. Por exemplo, se Loff escreveu que para Ramos “o salazarismo era ‘uma espécie de uma monarquia constitucional’”, Ramos acusou Loff de ter dito que ele, Ramos, consideraria o Estado Novo “um regime absolutamente idêntico à monarquia constitucional do século XIX”. Se Loff escreveu que o Salazar de Ramos não tem “‘nada de uma personagem ditatorial’ como a dos líderes da Europa fascista do tempo”, Ramos acusou Loff de ter dito que o Salazar de Ramos “não era uma personagem ditatorial”. E se Loff escreveu que o texto de Ramos apresenta “uma ficção sinistra e intelectualmente cínica sobre a ditadura salazarista”, Ramos acusou Loff de o “tachar de fascista “cínico” e “sinistro””. Em suma, Ramos terá que cuidar um pouco melhor da sua própria criatividade hermenêutica.
4. O maior problema que encontro na actual polémica reside, porém, no facto de deixar na sombra um conjunto de questões que não implicam directamente o debate sobre a natureza política do Estado Novo (em que tendo a concordar com a posição de Loff) ou o modo como Ramos dá conta da repressão salazarista (já criticado por Rosas, Costa Pinto ou Lucena) e da Guerra Colonial (desconstruído por Ramada Curto). A primeira destas questões tem que ver com a ideia de política subjacente ao olhar de Ramos. Procurando contrariar o que entende ter sido uma tendência historiográfica para a sobrevalorização do económico, do social e das estruturas, e para a desvalorização do político e da acção, o esforço de Ramos tem acusado dois vícios: tende a circunscrever o poder à esfera da política e, como sublinhou Francisco Bethencourt, a confinar o domínio da acção política às atitudes e comportamentos do que chama de elites. A esta luz, teria sido porventura mais ajustado, no que à parte contemporânea diz respeito, que se tivesse optado por um título como “História Política de Portugal” ou “História Elitista de Portugal”.
5. A segunda questão que não tem sido debatida é a da escrita da história. Existem factos para quase todos os gostos, o que, não querendo dizer que não há risco de um historiador simplesmente inventar acontecimentos que não sucederam, exige que também foquemos não apenas o modo de selecção mas também a forma de enunciação dos factos. A título de exemplo, chamo a atenção para a relação que na escrita de Ramos se tece entre a sua voz de narrador e a fala das fontes por ele citadas. Na negociação destes discursos, essa escrita tende, frequentemente, a criar uma indefinição entre a fala do narrador e a fala dos documentos que cita, deste corpo-a-corpo nutrindo-se, em parte, a ilusão de neutralidade que ampara o entusiasmo pueril de um Barreto. Ora, se é bem verdade que o risco de ilusão jamais poderá ser completamente eliminado, podemos pelo menos exigir que ela não seja objecto de um uso instrumental. Infelizmente, é tal instrumentalização que me parece ocorrer na resposta que Ramos dirige a Loff. Se percebo que critique Loff por este citar partes do seu livro como se fossem fala do próprio Ramos e não, como em alguns casos sucede, fala de terceiros que Ramos teria simplesmente citado (“a expressão não é minha, mas de Massis”, diz Ramos); não posso entender a que propósito, ao defender-se de uma outra crítica de Loff, Ramos opta por citar em seu abono a fala de uma das fontes por ele convocada, agora pedindo-nos que a aceitemos como reveladora do seu próprio ponto de vista (“cito uma carta impressionante de José Marinho, de 1937, que bem revela o peso opressivo da ditadura salazarista”, diz Ramos a Loff). Tal como os que apontei a Loff, estes são erros admissíveis, de que ninguém está a salvo, incluindo nós próprios, é claro. A única coisa inadmissível em toda esta polémica é o apelo de Filomena Mónica ao silenciamento de Manuel Loff.
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POLÍTICAS DA HISTÓRIA
por José Neves
Público, 12 Set 2012
Os trabalhos de Rui Ramos e de Manuel Loff constituem dois contributos importantes para o conhecimento do Portugal Contemporâneo e a ambos devemos uma crítica despida de elogios fáceis e de insultos gratuitos. Da minha parte, contem com estes cinco pontos.
1. Se é por de mais evidente que um historiador procura conhecer o passado, menos assumido é que nesse processo também conta o presente em que o historiador se situa. Com efeito, o meio político-ideológico em que se move todo e qualquer historiador marca inelutavelmente o seu trabalho científico. Por isso, quando António Barreto elogia a “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos porque a obra teria finalmente permitido vencer «o duopólio fanático estabelecido há muito entre as Histórias ditas “da esquerda” e da “direita”», é a uma ilusão de imparcialidade que estamos a ser atraídos. O primeiro obstáculo ao debate surge aqui, nesta suposição de Ramos como um historiador neutral, que ignora o facto do próprio Ramos ter já assumido – e bem – que o seu olhar historiográfico não é estranho ao seu percurso político.
2. Esta relação entre a agenda historiográfica e os interesses político-ideológicos do historiador desenvolve-se de um modo complexo, pouco directo e nada linear. Desde logo, a relação não é unívoca. Isto é, a agenda historiográfica do historiador é sensível aos interesses políticos do historiador, mas estes também a reflectem. Na sua crítica, Loff observa a afinidade entre a política de Ramos e a historiografia de Ramos, mas, a meu ver, dá um passo abusivo, sugerindo que o trabalho historiográfico de Ramos estaria ao serviço de um propósito político. Nesta sugestão de instrumentalização tem tido origem parte dos equívocos do debate que Loff em boa hora lançou.
3. Uma outra parte dos equívocos tem origem na leitura que Ramos fez das críticas que lhe foram dirigidas. Esta leitura produziu mais do que uma distorção, como expôs Mário Moura. Por exemplo, se Loff escreveu que para Ramos “o salazarismo era ‘uma espécie de uma monarquia constitucional’”, Ramos acusou Loff de ter dito que ele, Ramos, consideraria o Estado Novo “um regime absolutamente idêntico à monarquia constitucional do século XIX”. Se Loff escreveu que o Salazar de Ramos não tem “‘nada de uma personagem ditatorial’ como a dos líderes da Europa fascista do tempo”, Ramos acusou Loff de ter dito que o Salazar de Ramos “não era uma personagem ditatorial”. E se Loff escreveu que o texto de Ramos apresenta “uma ficção sinistra e intelectualmente cínica sobre a ditadura salazarista”, Ramos acusou Loff de o “tachar de fascista “cínico” e “sinistro””. Em suma, Ramos terá que cuidar um pouco melhor da sua própria criatividade hermenêutica.
4. O maior problema que encontro na actual polémica reside, porém, no facto de deixar na sombra um conjunto de questões que não implicam directamente o debate sobre a natureza política do Estado Novo (em que tendo a concordar com a posição de Loff) ou o modo como Ramos dá conta da repressão salazarista (já criticado por Rosas, Costa Pinto ou Lucena) e da Guerra Colonial (desconstruído por Ramada Curto). A primeira destas questões tem que ver com a ideia de política subjacente ao olhar de Ramos. Procurando contrariar o que entende ter sido uma tendência historiográfica para a sobrevalorização do económico, do social e das estruturas, e para a desvalorização do político e da acção, o esforço de Ramos tem acusado dois vícios: tende a circunscrever o poder à esfera da política e, como sublinhou Francisco Bethencourt, a confinar o domínio da acção política às atitudes e comportamentos do que chama de elites. A esta luz, teria sido porventura mais ajustado, no que à parte contemporânea diz respeito, que se tivesse optado por um título como “História Política de Portugal” ou “História Elitista de Portugal”.
5. A segunda questão que não tem sido debatida é a da escrita da história. Existem factos para quase todos os gostos, o que, não querendo dizer que não há risco de um historiador simplesmente inventar acontecimentos que não sucederam, exige que também foquemos não apenas o modo de selecção mas também a forma de enunciação dos factos. A título de exemplo, chamo a atenção para a relação que na escrita de Ramos se tece entre a sua voz de narrador e a fala das fontes por ele citadas. Na negociação destes discursos, essa escrita tende, frequentemente, a criar uma indefinição entre a fala do narrador e a fala dos documentos que cita, deste corpo-a-corpo nutrindo-se, em parte, a ilusão de neutralidade que ampara o entusiasmo pueril de um Barreto. Ora, se é bem verdade que o risco de ilusão jamais poderá ser completamente eliminado, podemos pelo menos exigir que ela não seja objecto de um uso instrumental. Infelizmente, é tal instrumentalização que me parece ocorrer na resposta que Ramos dirige a Loff. Se percebo que critique Loff por este citar partes do seu livro como se fossem fala do próprio Ramos e não, como em alguns casos sucede, fala de terceiros que Ramos teria simplesmente citado (“a expressão não é minha, mas de Massis”, diz Ramos); não posso entender a que propósito, ao defender-se de uma outra crítica de Loff, Ramos opta por citar em seu abono a fala de uma das fontes por ele convocada, agora pedindo-nos que a aceitemos como reveladora do seu próprio ponto de vista (“cito uma carta impressionante de José Marinho, de 1937, que bem revela o peso opressivo da ditadura salazarista”, diz Ramos a Loff). Tal como os que apontei a Loff, estes são erros admissíveis, de que ninguém está a salvo, incluindo nós próprios, é claro. A única coisa inadmissível em toda esta polémica é o apelo de Filomena Mónica ao silenciamento de Manuel Loff.
11/09/12
Ui, doeu mesmo!...
por
Pedro Viana
A antecipação era grande. O que é que este (des)governo iria anunciar, no seguimento da "promessa" do primeiro-pinóquio, feita na última sexta-feira, de que quem usufrui de rendimentos do capital também conheceria sacrifícios? Agora sabemos:
os dividendos e as mais valias mobiliárias passarão a ser taxadas a 26,5%, em vez dos 25% actuais, em 2012 e 2013.
Mais 1,5%! É terrível, quantos iates é que deixarão de ser comprados?!... Comparado com isto, é insignificante o roubo permanente de 7% do salário a todos os trabalhadores por conta de outrem do sector privado, 14% do que recebiam os reformados e pensionistas do sector privado, 17,5% a 24% do salário a todos os funcionários públicos e ao que os reformados e pensionistas do sector público têm direito a receber. É óbvio que o Tribunal Constitucional só terá de concordar que passou a haver uma repartição equitativa dos sacrifícios entre os que vivem do seu trabalho e os que gozam os rendimentos de capital. Aliás, note-se que enquanto o pinóquio-das-finanças anunciava a "terrível machadada" nos rendimentos do capital, também fez saber que os reformados e pensionistas do sector público vão passar a ter em 2013 o mesmo corte nas suas reformas e pensões mensais, 3,5% a 10%, que os funcionários públicos sofrem nos seus salários mensais desde 2011. Assim, sim, levam todos por "igual".
10/09/12
08/09/12
07/09/12
Assalto aos trabalhadores
por
Pedro Viana
Hoje, pouco depois das 19h, foi anunciada pelo governo a maior transferência de riqueza, de que há memória, dos 99% que vivem do seu trabalho para os 1% que vivem de rendimentos de capital. São cerca de 2 mil milhões de euros que em 2013, e em todos os anos subsequentes, serão tirados aos trabalhadores por conta de outrem (que passam a descontar mais 7% do seu salário para a Segurança Social) e dados aos proprietários dos meios de produção (cujas empresas passam a pagar menos 5.5% do salário de cada trabalhador para a Segurança Social). Sem quaisquer condições associadas. Podiam, por exemplo, exigir que tal apenas ocorresse se uma dada empresa mantivesse o mesmo número de postos de trabalho no final do ano em causa. Isto se a intenção do governo fosse realmente tentar diminuir a progressão do desemprego, como tentou argumentar (pensando que os portugueses são idiotas chapados). Mas não. O dono da fábrica vai poder pegar no dinheiro que o governo tirou aos que para ele trabalham, e "investir" num novo Ferrari. Sem espinhas. Os filhos dos operários que asseguram o rendimento do capital passam a ir para a escola com a barriga um pouco mais vazia, mas o senhor dono vai poder finalmente experimentar o último modelo da sua marca de automóveis preferida.
Gravíssimo é ainda o facto desta transferência de recursos para os detentores de capital, ocorrer com a mesma proporcionalidade (7% do salário) para todos os que trabalham por conta de outrem - tanto o operário fabril que ganha o salário mínimo, como o executivo de topo que ganha cem vezes mais, contribuem com a mesma proporção do seu rendimento (e os executivos de topo quase sempre são também detentores de capital investido, em ações por exemplo), sendo óbvio que o primeiro sofrerá bem mais do que o segundo com tal roubo - e excluir categorias profissionais com rendimentos elevados, como advogados e médicos por conta própria, que descontam o que querem para a Segurança Social. Inadmissível.
Ainda, enquanto que sempre foi dito (acreditava quem queria...) que os subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos e reformados estavam suspensos provisoriamente, é claro que as alterações hoje anunciadas nos descontos para a Segurança Social serão permanentes. É óbvio que o governo quer que haja em Portugal uma redução substancial e permanente de todos os salários. Sempre foi esse o objectivo central do poder económico que sustenta este governo.
Finalmente, o que foi hoje enunciado é um autêntico pontapé na cara dos juízes do Tribunal Constitucional. Relembro aqui as palavras do seu Presidente, que até votou contra a declaração de ilegalidade do corte dos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos e reformados:
"O acórdão não se baseia na comparação entre titulares de rendimentos de origem pública ou privada. Quando se está a chamar a atenção para a comparação entre público e privado está-se a fazer uma leitura redutora do acórdão. O acórdão fala de titulares de rendimento. Ora os rendimentos não são só públicos ou privados, porque antes de mais, esses são os rendimentos do trabalho e há outros rendimentos que estão em causa também, como os rendimentos do capital”
Ora, o que o governo anunciou, declaradamente em resposta ao acordão acima mencionado, foi efectivamente um aumento de impostos sobre os titulares de rendimentos do trabalho (por conta de outrém) e uma diminuição de impostos sobre os titulares de rendimentos do capital. Fez exactamente o contrário do que o Tribunal Constitucional considerou ser a atitude correcta. É óbvio que, a não ser que o Tribunal Constitucional queira tornar-se alvo de chacota generalizada, este terá de declarar, de vez e sem reservas, como inconstitucional o roubo de subsídios de férias e Natal seja a quem fôr, obrigando à sua reposição integral em 2013.
04/09/12
03/09/12
"Ça, c’est du meuble ! "
por
Ana Cristina Leonardo
"Le cinéma c'est un art, la télé c'est un meuble". A frase é de Godard, ilustre cineasta que, como qualquer francófono que se preze, gosta de dizer coisas.
António Borges, pelos vistos, também gosta. Foi assim que, chegado directamente de algures e com o Ministro nenhures,veio a público apresentar um modelo de privatização da radiotelevisão a que chamarei sui generis, entendendo sui generis como uma variante latina do nome próprio Al Capone.
Resumindo: propõe-se o Estado, despachada a arte, aviar o móvel, continuando nós a financiar os compradores da mobília e não se pense que a preços do Ikea: 140 milhões por ano e sem rebajas à vista!
Isto, como depressa se percebe, é o maior negócio da China, pelo menos desde que a Inglaterra obrigou o imperador Daoguang a assinar o Tratado de Nanquim em 1842.
A especificidade dos liberais nacionais, já notada em outros “negócios interessantes”, continua, pois, a surpreender-nos: passa-se a RTP1 aos privados (fechada a 2 e umas quantas rádios…), mantém-se a taxazinha inserida na conta da luz, e continua-se a garantir um cheque de seis zeros e mais uns trocos à empresa que ficar encarregue de cumprir o “serviço público” a que a Constituição obriga.
Golpe de mestre! Golpada de génio! Cavalgada heroica! Crazy horses! A adjetivação tanto faz, mas assinale-se que Twain se precipitou ao escrever: “Suppose you were an idiot and suppose you were a member of Congress. But I repeat myself!”; pelo menos em Portugal, não há idiotas, só adiantados mentais.
E porque o tema era televison, segui o conselho de Groucho; fui ler um book. Aliás, dois. "Da Treta”, Harry G. Frankfurt, e "Não me F**** o Juízo”, Colin McGinn.
Melhorei consideravelmente.
António Borges, pelos vistos, também gosta. Foi assim que, chegado directamente de algures e com o Ministro nenhures,veio a público apresentar um modelo de privatização da radiotelevisão a que chamarei sui generis, entendendo sui generis como uma variante latina do nome próprio Al Capone.
Resumindo: propõe-se o Estado, despachada a arte, aviar o móvel, continuando nós a financiar os compradores da mobília e não se pense que a preços do Ikea: 140 milhões por ano e sem rebajas à vista!
Isto, como depressa se percebe, é o maior negócio da China, pelo menos desde que a Inglaterra obrigou o imperador Daoguang a assinar o Tratado de Nanquim em 1842.
A especificidade dos liberais nacionais, já notada em outros “negócios interessantes”, continua, pois, a surpreender-nos: passa-se a RTP1 aos privados (fechada a 2 e umas quantas rádios…), mantém-se a taxazinha inserida na conta da luz, e continua-se a garantir um cheque de seis zeros e mais uns trocos à empresa que ficar encarregue de cumprir o “serviço público” a que a Constituição obriga.
Golpe de mestre! Golpada de génio! Cavalgada heroica! Crazy horses! A adjetivação tanto faz, mas assinale-se que Twain se precipitou ao escrever: “Suppose you were an idiot and suppose you were a member of Congress. But I repeat myself!”; pelo menos em Portugal, não há idiotas, só adiantados mentais.
E porque o tema era televison, segui o conselho de Groucho; fui ler um book. Aliás, dois. "Da Treta”, Harry G. Frankfurt, e "Não me F**** o Juízo”, Colin McGinn.
Melhorei consideravelmente.
29/08/12
Como não promover o ensino profissional
por
Miguel Madeira
Dando a ideia que é um ensino para "burros".
28/08/12
A minha homenagem à RTP2
por
Miguel Madeira
Algumas séries que eu vi na RTP2, ao longo da minha vida (é verdade que algumas também dão/derem em canais do cabo, mas esses não estão abertos a toda a gente).
Uma nota acerca da minha descoberta da RTP2 - quando eu tinha uns 6 anos, ouvia a minha irmã contar umas histórias de que existia um segundo canal. Um dia, não me lembro bem se o meu pai comprou uma televisão nova ou se se pôs a fazer sincronizações na que já tínhamos; o certo é que, após uns minutos de trabalho, lá nos aparece o tal famoso 2º canal - estava a dar o Sitio do Picapau Amarelo (a sub-série dos piratas).
Touradas de morte
por
Miguel Madeira
Eu não consigo perceber qual o grande problema que a associação "Animal" tem com as touradas de morte em Barrancos. Isto é, eu percebo (e tendo a concordar) com a sua oposição às touradas, mas, havendo touradas, não percebo muito bem que diferença faz o touro ser morto em público ou umas horas depois.
Acho que os opositores das touradas, em vez de lutarem contra a excepção barranquenha (já agora, ainda alguém vai ver as touradas de Barrancos, ou isso perdeu toda a publicidade com a institucionalização da excepção?), fariam melhor em fazerem o caminho inverso e defenderem a excepção viana-castelense, propondo uma lei que tornasse a tourada algo a ser decidido a nível municipal.
Acho que os opositores das touradas, em vez de lutarem contra a excepção barranquenha (já agora, ainda alguém vai ver as touradas de Barrancos, ou isso perdeu toda a publicidade com a institucionalização da excepção?), fariam melhor em fazerem o caminho inverso e defenderem a excepção viana-castelense, propondo uma lei que tornasse a tourada algo a ser decidido a nível municipal.
27/08/12
Da "tradução como actividade democrática"
por
Miguel Serras Pereira
No seu comentário, que muito me honra e responsabiliza, a um meu post anterior sobre George Steiner, um leitor, que se identifica como Conservador e pelas iniciais GVRCS, elogia com excessiva generosidade a minha oficina, ao mesmo tempo que se declara adversário das minhas propostas políticas, sem adiantar, na circunstância, outras razões.
Ora, parece-me que a melhor maneira de corresponder à interpelação de GVRCS, é tentar explicitar aquilo a que poderia chamar, invocando o exemplo da leitura que João Barrento faz da produção de tradutor de Paulo Quintela, a minha própria concepção da "tradução como actividade democrática".
Assim retomo aqui os parágrafos finais de um breve ensaio publicado originalmente na Trajectos (nº3, Outono de 2003, Lisboa, Fim de Século, 2003), em resposta a um convite do seu director, e meu amigo, José Rebelo: texto no qual, ao fio de uma leitura de O Poço de Babel, de João Barrento, procuro elucidar algumas razões da democracia à luz de uma tradição "anti-nacionalista" da tradução, bem como as razões políticas da minha adesão a essa tradição —"estranhante" e "identificativa" —, na qual, a seu modo, se inscreve também a poética do pensamento de George Steiner.
Não precisarei de acrescentar grande coisa às razões que assistem à tradução estranhante ou identificativa, uma vez que implicitamente elas têm vindo a ser adiantadas desde o início destas linhas. No entanto, e na perspectiva da solidariedade entre a sua ideia e a da construção de um paradigma ou de uma poética democráticos no domínio das relações entre mundos culturais diferentes e no que se refere à ideia da mundialização de uma cidadania democrática governante, há alguns aspectos em que devo ainda insistir.
Uma reflexão de Antoine Berman descreve bem a operação paradoxal que a tradução identificativa ou estranhante leva a cabo. Com a leitura de uma tradução capaz de acolher a estranheza ou a alteridade essencial e singular do que o texto noutra língua fez, “encontramo-nos na presença não só de passagens visivelmente acabadas, mas também de uma escrita que é uma escrita-de-tradução (…), uma escrita de estrangeiro que se torna harmoniosamente francês sem choque algum (ou, se choque houver, será um choque benéfico). Estas ‘zonas textuais’ em que o tradutor escreveu-estrangeiro em francês, e, assim, produziu um francês novo, são as zonas de graça e de riqueza do texto traduzido” (A. Berman, Pour une critique des traductions: John Donne, Paris, Gallimard, 1995). Pois bem, há aqui dois níveis da “tarefa do tradutor”, em que vale a pena atentar para compreendermos melhor que “estranhamento” entra em jogo no diálogo sui generis que é a tradução que se propõe refazer noutra língua a não-equivalência do original, e a que aqui chamarei a não-equivalência da língua a traduzir e a não-equivalência nessa língua da voz única do original que — dentro dela e recorrendo ao sem-fundo metamórfico do seu fundo metafórico — o torna, como dizia Proust, “estrangeiro na sua própria língua.
Temos, em primeiro lugar, a não-equivalência das línguas ou culturas que se encontram, línguas ou culturas que não são pretendentes rivais ou termos de uma alternativa, mas criações singulares animadas igualmente pela potência de metamorfose ontológica da invenção da linguagem e/ou pela imaginação radical da actividade instituinte. Ora, será retomando a sua própria língua em estado nascente, retomando nela essa potência de metamorfose que habita a sua dimensão simbólica e metafórica em acto, que o tradutor poderá acolher, no seu fazer, o fazer(-se) da outra língua. Deparamos aqui com essa dimensão de uma “terceira voz” ou de uma “língua de ninguém” enquanto origem e estado nascente da linguagem através dos quais é em línguas que a espécie fala cada uma das suas línguas, e as línguas comunicam. Mas importa acrescentar, por um lado, que a origem não significa apenas nem privilegiadamente o passado, enquanto, por outro, embora a tradução tenda a revelar uma origem comum em que todas as línguas participam, este último horizonte não pressupõe necessariamente, nem atrás de nós nem à nossa frente, uma língua única. O alvo da “tarefa do tradutor” não é tanto a construção de uma língua única, que de resto falaria em línguas como todas as outras, como a intensificação em cada língua da potência de criação ontológica, comum a todas, que se revela na “invenção da linguagem”. E deparamos aqui com qualquer coisa que pode ajudar-nos a pensar melhor como se põe questão da multiplicidade cultural na perspectiva da mundialização da democracia. Com efeito, se esta pressupõe um horizonte comum e um movimento de unificação, estes serão previsivelmente inseparáveis de um movimento de pluralização no interior de cada matriz cultural e nas relações entre elas, que só poderá ser potenciado pelo reconhecimento explícito da auto-instituição da sociedade e pela afirmação da cidadania enquanto exercício da “política como actividade autónoma que interpela [e, em sendo caso disso, antecipa] a autonomia dos outros” (Castoriadis).
Para concluir, e a partir agora tanto do primeiro nível do reconhecimento e da tradução da não-equivalência como do segundo — a tradução da não-equivalência, ou singularidade dentro da singularidade, da voz única do original —, gostaria de sublinhar qualquer coisa que é da ordem das suas condições de possibilidade, ao mesmo tempo que incita a uma reflexão sobre o papel do reconhecimento da singularidade irredutível da voz do sujeito individual pressuposto pela figura cultural emblemática da cidadania.
Pois bem, para poder acolher a estranheza do fazer e fazer-se da outra língua ou da outra cultura — tal como para poder reconhecer plenamente a singularidade que instila no acto da palavra o fazer(-se) de cada voz, irredutível à língua comum, ainda que quase indefinidamente silenciável pela sua situação de palavra instituída, ou do núcleo psíquico, irredutível à instituição, ainda que quase indefinidamente moldável por ela, a partir do qual o indivíduo é formado por uma cultura e, no caso de uma cultura democrática, formado como indivíduo autónomo e capaz de cidadania —, é necessário que o tradutor e a sua tradição cultural tenham dessacralizado a sua língua e instituições e aceitem investir e recriar na “arena do sentido” o que lhes é “próprio”. Estamos, de facto, perante uma exigência que, referindo-se tanto ao interior do espaço literário propriamente dito como a esse seu montante e sua foz que é a linguagem comum, vincula a “tarefa do tradutor” do mesmo modo que vincula também o exercício da cidadania, não a pressupondo esta última menos — ao mesmo tempo no espaço público da deliberação e decisão políticas formais como aos diversos níveis da existência partilhada e na representação/relação que cada indivíduo mantém tanto dos outros e com os outros, como de si e consigo próprio. Tanto a tradução igualitária — que remete para a igualdade de direito do não-idêntico — entre duas línguas como a convivência democrática entre matrizes culturais diferentes, como ainda o reconhecimento da não-equivalência e singularidade última de cada ser humano individual que é ao mesmo tempo um dos pressupostos e fins distintivos do projecto de autonomia, implicam esta dessacralização pelas partes envolvidas das línguas e das significações encarnadas na instituição, tal sendo de resto a condição de possibilidade de um diálogo performativamente instituinte, isto é que faz qualquer coisa que nenhum dos participantes poderia fazer por si só e que transforma ou recria o fazer/ser dos participantes sem resolver a sua identidade em qualquer síntese ou momento superior, mas confirmando antes na transformação daquela a potência de criação do mais “próprio” de cada um deles.
24/08/12
Derrame sobre a RTP e que se lixe a etiqueta que eu não sou candidata ao corpo diplomático
por
Ana Cristina Leonardo
Há duas coisas que me deixam doente: a estupidez é uma, que me tomem por estúpida é outra. A minha relativa saúde deve-se, obviamente, não à escassez no mercado dos itens referidos mas ao facto de passar largos períodos em hibernação.
Acordada para a realidade, vejo-me submergida (como os submarinos do Portas) pelo caso RTP, que o Borges — o mesmo Borges que há uns tempos tinha como urgência baixar salários (os dos outros, suponho, mas posso estar enganada…) — veio anunciar ir ser vendida aos privados: fechadas a RTP 2 e várias rádios, e o Estado a manter-se como parceiro contribuindo através da taxa que todos os meses nos aparece na conta da Luz.
Ora bem. Como no tempo do parisiense José Sócrates (a propaganda, desde Joseph Goebbels que não progride grande coisa…), as tropas já foram instruídas para fazer a defesa da solução proposta.
O argumentário é simples: a Constituição exige serviço público, mas não diz como concretizá-lo nem se é à borla ou a pagantes; o negócio assegura o serviço público delegando-o num privado; ficamos todos a ganhar porque o Estado poupa imenso dinheiro, já que a participação se resumirá à taxa do audiovisual.
Para que conste, eu não tenho televisão. Acho a televisão generalista uma merda e chateia-me andar a pagar o Baião, a Furtado, aquela senhora inenarrável que dá pelo nome de Fátima Campos Ferreira (que, agora reparo, também dará aulas na Lusófona…) e etc., como me chatearia, note-se, pagar pelo Slavoj Žižek.
Mas, também para que conste, enquanto pagar ao Estado um serviço da treta me chateia, pagar directamente para os bolsos dos privados não me chateia apenas: transforma-me numa espécie de Dexter de saias.
O mais demagógico de tudo, porém, é quererem-nos convencer que, agora sim, é que vamos ter um serviço público… de qualidade.
Façam-me o favor de ir foder longe, e pardon my french.
Acordada para a realidade, vejo-me submergida (como os submarinos do Portas) pelo caso RTP, que o Borges — o mesmo Borges que há uns tempos tinha como urgência baixar salários (os dos outros, suponho, mas posso estar enganada…) — veio anunciar ir ser vendida aos privados: fechadas a RTP 2 e várias rádios, e o Estado a manter-se como parceiro contribuindo através da taxa que todos os meses nos aparece na conta da Luz.
Ora bem. Como no tempo do parisiense José Sócrates (a propaganda, desde Joseph Goebbels que não progride grande coisa…), as tropas já foram instruídas para fazer a defesa da solução proposta.
O argumentário é simples: a Constituição exige serviço público, mas não diz como concretizá-lo nem se é à borla ou a pagantes; o negócio assegura o serviço público delegando-o num privado; ficamos todos a ganhar porque o Estado poupa imenso dinheiro, já que a participação se resumirá à taxa do audiovisual.
Para que conste, eu não tenho televisão. Acho a televisão generalista uma merda e chateia-me andar a pagar o Baião, a Furtado, aquela senhora inenarrável que dá pelo nome de Fátima Campos Ferreira (que, agora reparo, também dará aulas na Lusófona…) e etc., como me chatearia, note-se, pagar pelo Slavoj Žižek.
Mas, também para que conste, enquanto pagar ao Estado um serviço da treta me chateia, pagar directamente para os bolsos dos privados não me chateia apenas: transforma-me numa espécie de Dexter de saias.
O mais demagógico de tudo, porém, é quererem-nos convencer que, agora sim, é que vamos ter um serviço público… de qualidade.
Façam-me o favor de ir foder longe, e pardon my french.
O futuro da televisão
por
Miguel Madeira
Portanto, pelo que percebo, a ideia é passar a haver menos um canal de televisão em sinal aberto, é isso?
Há uns tempo, quando foi implementada a "tevesião digital terrestre" eu pensei "só vale a pena fazer as pessoas terem que gastar dinheiro numa caixa, e por uma carrada de gente sem televisão se viesse algum beneficio daí, como mais canais disponiveis" (e creio que realmente a TDT tornaria tecnicamente possivel haver mais canais - se houvesse público, claro). Mas afinal o caminho (se estou a perceber a bem a ideia do não-ministro com pasta) é exactamente ao contrário - menos canais.
Há uns tempo, quando foi implementada a "tevesião digital terrestre" eu pensei "só vale a pena fazer as pessoas terem que gastar dinheiro numa caixa, e por uma carrada de gente sem televisão se viesse algum beneficio daí, como mais canais disponiveis" (e creio que realmente a TDT tornaria tecnicamente possivel haver mais canais - se houvesse público, claro). Mas afinal o caminho (se estou a perceber a bem a ideia do não-ministro com pasta) é exactamente ao contrário - menos canais.
23/08/12
Aborto e violação
por
Miguel Madeira
Entre os cléricos sauditos discute-se se as mulheres sírias violadas por soldados de Assad poderão ser autorizadas a abortar - a opinião dominante parece tender para o "sim".
Mas ao contrário dessa ilha de rebaldaria, libertinagem e permissividade moral que é a Arábia Saudita, o Partido Republicano dos EUA não vai em modernices.
Mas ao contrário dessa ilha de rebaldaria, libertinagem e permissividade moral que é a Arábia Saudita, o Partido Republicano dos EUA não vai em modernices.
22/08/12
George Steiner: A Poesia do Pensamento
por
Miguel Serras Pereira
Na linha de saída — revisão, retoques finais e últimos sobressaltos, impaciência ainda e nostalgia já — da minha tarefa impossível, apraz-me anunciar a esperança de ver a Relógio d'Água dentro em breve dar à estampa a minha tradução de The Poetry of Thought de George Steiner. E, já agora, também a esperança de, uma vez mais, poder ler a nossa camarada Ana on Steiner, navegando, de concerto com ele, no pensamento da poesia, a poesia do pensamento.
Aqui fica um excerto do início da coda:
O ponto que tentei elucidar é simples: a literatura e a filosofia, como as conhecemos, são produtos da linguagem. É esse, inalteravelmente, o seu solo comum, ontológico e substantivo. O pensamento na poesia, a poética do pensamento, são obras da gramática, da linguagem em movimento. Os seus meios, as imposições que os constrangem, são os do estilo. O indizível, no sentido imediato da palavra, circunscreve-os a ambos. A poesia visa reinventar a linguagem, fazê-la de novo. A filosofia esforça-se por tornar a linguagem rigorosamente transparente, purgá-la de ambiguidade e de confusão. Por vezes, esforça-se por superar as limitações lexicais e sintácticas e o conjunto das atrofias herdadas, recorrendo à lógica formal e aos algoritmos metamatemáticos, como no caso de Frege. Mas a matriz total continua a ser o discurso humano. Este aspecto tem uma ilustração soberba no Zibaldone de Leopardi. A seu ver, não havia poesia válida sem filosofia; nem, sem poesia, filosofia que valesse a pena aprender. O acesso generativo a uma e outra é uma filologia apaixonada. Leopardi examina, com uma erudição muitas vezes microscópica, as unidades lexicais, as ordens gramaticais e as aplicações pragmáticas. Deus — ou, por outras palavras, o milagre do sentido comunicável — reside no detalhe linguístico. Como vemos no cabalista que deriva da simples letra os próprios impulso e magia da criação. As letras estão escritas no fogo primordial. Da incandescência deste, vêm toda a filosofia, toda a poesia — e os paradoxos do seu uníssono autónomo.
21/08/12
Mais uma estalinada de Francisco Louçã
por
Miguel Serras Pereira
Já dei a entender — mas explicito-o agora — que considero as tomadas de posição de Daniel Oliveira acerca da liderança do BE tão confrangedoramente conformistas, e alinhadas pela lógica classista e hierárquica da divisão estrutural e permanente entre representantes e representados, como a tese "bicéfala" defendida por Francisco Louçã sobre a mesma questão.
Mas tal não me impede de dar razão a DO quando denuncia os métodos de intriga política do actual coordenador do BE. Esta nova estalinada de FL e a quase naturalidade com que é aceite, ignorada ou menorizada como questão política nas hostes bloquistas são indícios de uma degenerescência profunda ou, talvez e pior, a confirmação da incapacidade de democratização (interna e, logo, por maioria de razão, "externa") que, desde o início, ameaçou prevalecer no BE.
O BE na sua cortina de fumo — densa mas pouco idea(c)tiva
por
Miguel Serras Pereira
"Assim me inspire o Fado e Satanas me deixe (…) fumando, perseguir a nebulosa ideia", se tanta e tanta discussão em curso no BE sobre as vantagens, desvantagens, qualidades e defeitos da "direcção bicéfala" versus a monárquica, mas independente dos votos da comunicação social, não tem por efeito recalcar — ou mesmo "forcluir" — por meio de uma cortina de fumo, densa mas pouco idea(c)tiva, o debate que seria politicamente imperativo travar sobre o modo de organização de um movimento político que tem por objectivo final ou fim primeiro a democracia de uma sociedade de iguais, ou também sobre o modo como esse objectivo final ou fim primeiro deve informar desde o início os meios e as formas de organização que o visam — sendo que só, através da sua actualização permanente, o poderão visar com um mínimo de verdade e eficácia.
20/08/12
Cristo Rei
por
Miguel Serras Pereira
O Cristo Rei — a concepção da realeza de Cristo e de Cristo como rei, da divindade como poder soberano do alto comando e do comando do alto — não glorifica Deus, senão na medida em que consagra primeiro a ordem "monárquica", a legitimidade de chefes e legítimos superiores. Do mesmo modo, o propósito da condenação à evolução na continuidade do gulag de uma banda de garinas russas, é a criminalização do desrespeito que a blasfémia acarreta pela legitimidade das relações de poder vigentes e pelos seus representantes e aparelhos institucionais. A criminalização da blasfémia é a sacralização ou divinização da hierarquia e da sua necessidade. É por isso, sem dúvida, que também as oligarquias ocidentais tentam reinstaurar o dever infame do respeito pelas "ideias dos outros" e pelo bom nome dos deuses contra a impiedade do livre-exame e da liberdade da sua expressão.
Sobre o massacre dos grevistas sul-africanos, uma "grande educadora" e a concepção leninista do partido e suas correias de transmissão
por
Miguel Serras Pereira
Aqui fica, só para chamar a atenção para dois importantes comentários — do Libertário e do João Valente Aguiar — ao post do Miguel Madeira sobre os acontecimentos na África do Sul, uma lança que fui tentar quebrar em defesa de posições solidárias das deles à caixa de comentários de um post da grande educadora Raquel Varela no 5dias , mas que a ilustre discípula do algoz de Cronstadt e ao tempo defensor da tese da prioridade do partido dos trabalhadores sobre os mesmos, não sei se por esquecimento, se por razões pedagógicas, ainda não publicou.
miguel serras pereira says:
Your comment is awaiting moderation.
Ou seja: “novos ratos mostram a avidez antiga”, como no poema de Sophia.
O problema é que o investimento político num partido (e suas organizações adjacentes) que se institui como portador da legitimidade histórica de dirigir superiormente aqueles que diz representar é, na linha do que o JVA lucidamente sugere num comentário anterior, o investimento numa estrutura, forma e/ou aparelho classista que só pode reproduzir ou reciclar a exploração e a dominação hierárquica, perpetuar a sociedade de classes ao perpetuar a sua própria legitimidade acima da democracia.
O problema é que o investimento político num partido (e suas organizações adjacentes) que se institui como portador da legitimidade histórica de dirigir superiormente aqueles que diz representar é, na linha do que o JVA lucidamente sugere num comentário anterior, o investimento numa estrutura, forma e/ou aparelho classista que só pode reproduzir ou reciclar a exploração e a dominação hierárquica, perpetuar a sociedade de classes ao perpetuar a sua própria legitimidade acima da democracia.
Claro que isto está longe de ser tudo — mas talvez chegue, só para começar…
19/08/12
Ex-marine "9/11 truther" preso por post no Facebook?
por
Miguel Madeira
Business Insider:
E, já agora, o perfil dele no Facebook (com os posts que terão levado à sua detenção).
[Diga-se que eu acho que as teorias que dizem que o 9/11 foi um inside job não fazem grande sentido - sobre isso deixo-vos este artigo de 2006 do falecido Alexander Cockburn]
Leituras complementares:
A former U.S. Marine who accused the government of lying about 9/11 and spoke of "The Revolution" on Facebook was detained on Friday night, reports Renee Nal of Gather.
According to Brandon Raub's mother, authorities from the FBI, Secret Service and Chesterfield County PD came to their door, questioned Raub about his Facebook posts – which are critical of the official story regarding 9/11 and refer to "starting a revolution" – then handcuffed him and placed him in a Chesterfield PD squad car before taking him directly to John Randolph Psychiatric Hospital in Hopewell, Va.
Raub's mother said he returned about a year ago after serving in Afghanistan (after serving in Iraq) and did not suffer from PTSD.
The Chesterfield PD told us that the situation "was an FBI matter and we were just there to assist them" so it could not provide us with an official reason why Raub was detained.
Raub's mother said that an FBI agent told her Raub was "arrested by the Chesterfield police department" because he "assaulted an officer and resisted arrest," then asked her if Raub "was having any issues relating to people" and told her that "the threats he was making were terrorist in nature."
When asked the Chesterfield PD said Raub has not been charged with resisting arrest and assaulting an officer.
The FBI and Secret Service will not be available for comment until Monday morning.
Here is the video of the arrest:
E, já agora, o perfil dele no Facebook (com os posts que terão levado à sua detenção).
[Diga-se que eu acho que as teorias que dizem que o 9/11 foi um inside job não fazem grande sentido - sobre isso deixo-vos este artigo de 2006 do falecido Alexander Cockburn]
Leituras complementares:
- A "detenção indefinida" nos EUA
- Obama assina a "detenção indefinida"
- Political abuse of psychiatry in the Soviet Union
17/08/12
18[*] mineiros mortos pela polícia na África do Sul
por
Miguel Madeira
Publico - Presidente da África do Sul chocado com morte de mineiros pela polícia (via O Insurgente).
Alguns artigos (do blog Why Nations Fail) sobre a evolução da África do Sul:
- South Africa: Struggling Beyond Apartheid
- South Africa: The Fear of Collapse
- South Africa: The Fear of Oligarchy
- South Africa: The Fear of Populism
- South Africa: The Fear of Becoming Colombia
16/08/12
15/08/12
Os nossos buracos negros
por
Luis Rainha
Um buraco negro é uma estrela que se torna tão pesada que implode, passando a sua tremenda gravidade a impedir até a saída de luz. Assim, não pode ser observado directamente, tornando-se notório apenas pelo efeito das suas acções na vizinhança. Cada objecto que traga some-se num breve fogo-de-artifício. Para nunca mais ser visto.
Também há pessoas assim. Gente em cuja órbita os fenómenos abundam: coisas desaparecem; portentos medram às escondidas; processos mergulham na escuridão; nem um raio de sol ilumina os seus subterrâneos.
Sócrates, por exemplo, cresceu no lado negro. Desde a juventude, é acompanhado por uma densa sombra: obras esquisitas, projectos apócrifos, licenciatura inexplicada. Depois, quando amealhou mais massa, o buraco negro deu no que se sabe. Ao menos agora estacionou em galáxia alheia, mais próspera e calma.
Paulo Portas é outra destas nigérrimas maravilhas. Os eventos miraculosos perseguem-no: na sua vida empresarial, no governo. Cada vez que se investe de maior magnitude, esta estrela malsã vê-se no centro de novo festival de bizarrias celestes: casinos, sobreiros, financiamentos partidários, submarinos, fotocópias em quantidades cósmicas... e agora umas resmas de documentos. Tudo desaparece, tudo se eclipsa em murmúrios insubstanciais, fantasmas emigrados algures para lá do universo conhecido.
No nosso espaço próximo, estas anomalias cosmológicas não param de se multiplicar. Como o prova esse astro menor mas prometedor, de nome Relvas, eclodido na nebulosa de S. Bento...
Publicado também aqui.
O crime da Serra do Caldeirão
por
Jorge Valadas
O Filipe Nunes estava a trabalhar na serra algarvia
quando aconteceu o último incêndio. A serra e as gentes da serra, ele
conhece-as bem. Este artigo foi publicado (10 de Agosto) no espaço de opinião
do Diário do Alentejo, para o qual o Filipe Nunes escreve, de vez em quando,
umas crónicas livres. Tão livres como o Gonçalves Correia, o amigo do passado
que dá o nome ao grupo que publica o Alambique. Uma bela e inteligente (o que
vem dar ao mesmo) revista Anarquista, «a partir do Baixo Alentejo», como diz o
pessoal [Apartado 95; 7780 Castro Verde, http://revistaalambique.wordpress.com/],
que aproveitamos para dar a conhecer. Novidades destas são raras e animadoras
no país que vai ardendo enquanto o Zé povinho paga os juros da dívida.
A Arder
No Baixo Alentejo fumegavam no ar, no final do mês
passado, os incêndios vindos dos cerros algarvios do Caldeirão. A serra ardia e
a gente da serra, que não é nem do Algarve, nem do Alentejo, mas da Serra,
sentia que se lhes queimava a alma. Nos dias que foram passando, as chamas
aumentavam na mesma medida criminosa que aumentava a descoordenação ao combate.
Votados ao esquecimento do litoral turístico, as populações da serra colhiam a
prova final de que a desertificação humana que os rodeia no dia a dia, fruto
das mudanças de rumo na vida social e da subsistência económica que décadas
antes as levaram a descer às praias betuminosas do desenvolvimento e do consumo
fácil, resultava agora numa desertificação de terra queimada. Condenando uma
paisagem, tida como desprovida de gente e de outros seres vivos, cuja milenar
dinâmica e interação entre o homem e natureza não encaixa na lógica urgente do
lucro imediato e na reapropriação desse imenso território pelas fileiras
depredadoras da economia, como seja a reincidente indústria do eucalipto.
Da gente da serra, pois não é por ser montanheira
que anda de olhos tapados, aflorava de imediato nas conversas nubladas pelo
fogo e pela mágoa, as coincidências de arderem hectares e hectares de terras
compradas pouco tempo antes pela Portucel, ou como a oportuna faísca que ardera
a serra poderia iluminar o futuro da indústria da celulose perante a acalorada
proposta do Governo que pretende que a área ardida deixe de ter que ser
reflorestada com árvores da mesma espécie, podendo ser replantada com
eucaliptos. Esse decreto-lei permitirá a arborização de pequenas parcelas até 5 hectares e a
rearborização de parcelas até 10 hectares, «com qualquer espécie vegetal»
mediante uma simples comunicação prévia ao Instituto da Conservação da Natureza
e Floresta, cuja falta de resposta em 30 dias implica o seu deferimento tácito.
Neste cenário e em terra queimada, entre a falta de forças em recomeçar tudo de
novo, sentida naturalmente na maioria destas pessoas nos seus finais de vida, e
na ausência dos filhos e herdeiros, a indústria do eucalipto poderá dar por fim
o ultimo golpe onde vier a assentar.
Com este novo passo legislativo, em nome dessa
retoma agrícola e florestal assente no princípio que condenou a paisagem do sul
português – e de ruralidade no seu todo – que é a de servir o proprietário
absentista e as monoproduções industrializadas, cairá por terra a herança e em
boa parte a lição dessa gente da serra. Cairá por terra a evidente riqueza da
cortiça – pé de meia dessas pessoas e da economia nacional – como dos recursos
silvestres característicos do Baixo Alentejo e Serra Algarvia (alfarroba,
cogumelos, ervas silvestres, medronho e plantas aromáticas e medicinais),
anunciados em programas de desenvolvimento local e regional e que continuaremos
a ouvir falar como promessas ou puxando o lustre a um jogo de forças económicas
viciadas à partida. Da mesma forma perderá terreno o contraponto da oferta ao
que chegam de fora em busca de um território natural e humano único, vivido nas
diferentes escalas que oscilam entre o barranco de uma ribeira e a contemplação
dos seus cerros enrugados, face à invasão massificada do turismo algarvio (como
é exemplo a recente investida em Vale do Freixo, Loulé).
Antes que tudo arda, o que urge resgatar, é antes
de mais a Serra e a milenar vida que a caracterizou, que como descreveu Cláudio
Torres, se enredou em “todo um emaranhado de pequenas comunidades que escapam à
dependência directa desses senhores e que conseguem refugiar-se num velho
sistema autonómico de sobrevivência”.
Filipe Nunes, Agosto 2012
11/08/12
Quarta e última parte dos "Dilemas da Liberdade" de João Bernardo no "Passa Palavra"
por
Miguel Serras Pereira
Nesta quarta parte do seu ensaio, que aqui tenho vindo a seguir, João Bernardo revisita, no Passa Palavra, os "dilemas da liberdade" como Marat os viveu e se esforçou por superar durante a Revolução Francesa. Trata-se de uma leitura a que conferem uma actualidade peculiar as "encruzilhadas do labirinto" (Castoriadis) com que hoje teremos de nos cometer, para além do "já sabido" decretado pelas conclusões dos "homens sábios" evocados por um poema de Sophia, se quisermos seguir, inventando por conta e risco próprios, esta fulgurante reactivação histórico-política de Marat por João Bernardo, bem como a aventura desses outros que a narradora das Navegações nomeia como os que "navegavam sem o mapa que faziam".
10/08/12
Impossibilidade epistemológica do socialismo?
por
Miguel Madeira
Samuel de Paiva Pires argumento que o socialismo é impossível epistologicamente:
Mas em contraponto, vou agora postar um texto do comunista de conselhos Helmut Wagner (ou, mais exactamente, um excerto de um texto - trata-se de passagens do O Anarquismo e a Revolução Espanhola, um texto de 1937 dedicado a criticar a politica dos anarquistas espanhóis a partir do ponto de vista conselhista; no entanto, as passagens que vou postar mal referem esse assunto):
[Uma nota final - há uns anos, no contexto de uma discussão nos comentários d'O Insurgente, o BrainstormZ perguntou-me « como conseguem os “Conselhos Operários” fazer o cálculo económico dada a “propriedade estatal dos meios de produção”»; eu há muito que penso em fazer uma série de posts sobre o assunto - com a ressalva que as minhas simpatias, actualmente, vão mais para o lado dos anarquistas do que para o dos comunistas de conselhos, trotskystas e similares, logo seria em parte desenvolver argumentos que não são exactamente os meus; eu duvido que alguma vez ganhe energia para escrever essa série de posts, mas se alguma vez essa série vir a luz do dia, será uma espécie de versão revista e aumentada deste]
Uma economia socialista, ao acabar com o sistema de preços, impossibilita o processo que permite tornar explícito o conhecimento prático disperso, visto que os preços incorporam um conhecimento holístico, sistémico, “desconhecido e incognoscível por qualquer um dos elementos do sistema do mercado, mas dado a todos estes através da operação do próprio mercado”. Não existe qualquer outra forma de organização da economia que consiga rivalizar com o mercado enquanto gerador de conhecimento, já que é o único mecanismo que consegue utilizar eficazmente o conhecimento prático disperso tornando-o holístico – e é este conhecimento que é destruído quando se tenta planear ou corrigir os processos de funcionamento do mercado.A respeito da parte do "acabar com o sistema de preços", creio que apenas duas ou três facções socialistas pretendem acabar com os preços (e substitui-los por um sistema de "racionamento igualitário para o que for escasso e «tira o que quiseres» para o que não for") - à primeira, só me ocorre os anarco-comunistas (atenção - não confundir com os anarco-colectivistas e os anarco-mutualistas) e e a facção do Socialist Party of Great Britain / Movimento Socialista Mundial; quase todas as outras, mesmo que não lhes chamem "preços" ou "dinheiro", acabam na prática por preconizar (pelo menos a curto/médio prazo) um sistema com preços e dinheiro. Imagino que o argumento do SPP seja a que ter preços sem um mercado para os estabelecer continua a ser, de certa forma, não ter um verdadeiro "sistema de preços" (note-se que há tendências socialistas que pretendem combinar a colectivização dos meios de produção com a manutenção do mercado, mas admito que entrar por aí seria muito um exercício de "splitting hairs").
Mas em contraponto, vou agora postar um texto do comunista de conselhos Helmut Wagner (ou, mais exactamente, um excerto de um texto - trata-se de passagens do O Anarquismo e a Revolução Espanhola, um texto de 1937 dedicado a criticar a politica dos anarquistas espanhóis a partir do ponto de vista conselhista; no entanto, as passagens que vou postar mal referem esse assunto):
Suponhamos que os operários das principais zonas industriais, por exemplo, da Europa, tomam o poder e esmagam, assim, praticamente, o poder militar da burguesia. A ameaça exterior mais grave para a revolução estaria assim afastada. Mas como deveriam os operários, enquanto proprietários colectivos das oficinas, recolocar a produção em marcha a fim de satisfazerem as necessidades da sociedade? Para isso, há necessidade de matérias-primas; mas donde vem elas? Uma vez o produto fabricado, para onde deve ser enviado? E quem tem dele necessidade?E onde é que eu quer chegar com esta citação? É que já temos aqui um exemplo de um sistema não-capitalista e não-mercantil que me parece mais ou menos capaz de unificar o "conhecimento prático disperso" - p.ex., quando as comissões de trabalhadores da pesca estimam o custo médio de produção de 1 kg de sardinhas (usando o seu conhecimento técnico sobre a sua indústria e mais a informação fornecida pelas comissões de trabalhadores dos estaleiros, dos combustíveis, etc., sobre o custo dos consumos intermédios) estão também a pegar em conhecimentos tácitos descentralizados e a traduzi-los num valor conhecível por toda a sociedade. E note-se que o sistema proposto aqui por Helmut Wagner é, com mais ou menos cambiantes, mais ou menos idêntico aos sistemas propostos por quase todos os críticos "pela esquerda" do comunismo soviético (todos eles andam à volta da "substituição do aparelho burocrático do Estado pela planificação democrática da economia pelos Conselhos Operários", mais coisa, menos coisa).
Não se poderia resolver nenhum desses problemas se cada fábrica funcionasse isoladamente. As matérias-primas destinadas às fábricas vêm de todas as partes do Mundo inteiro. Como irão os operários saber onde procurar as matérias-primas? Como encontrarão os consumidores para os seus produtos? Os produtos não podem ser fabricados ao acaso. Os operários não podem entregar produtos e matérias-primas sem saberem se ambos serão utilizados de modo apropriado. Para que a vida económica não pare imediatamente, é preciso utilizar um método para organizar a circulação das mercadorias.
É aí que reside a dificuldade. No capitalismo, esta tarefa é executada pelo mercado livre e através do dinheiro. No mercado, os capitalistas, enquanto que proprietários dos produtos, enfrentam-se; é aí que são determinadas as necessidades da sociedade: o dinheiro é a medida dessas necessidades. Os preços exprimem o valor aproximado dos produtos. No comunismo, essas formas económicas, que deveriam e estão ligadas à propriedade privada, desaparecerão. A questão que se coloca é pois: como se deve fixar, determinar sob o comunismo as necessidades da sociedade? (...)
É agora claro, que as necessidades reais das massas não podem ser determinadas por alguma espécie de aparelho burocrático, mas pelos próprios operários. A primeira pergunta que esta constatação levanta é, não a de saber se os operários são capazes de realizar esta tarefa, mas quem dispõe dos produtos da sociedade. Se se permite a um aparelho burocrático determinar as necessidades das massas, criar-se-á um novo instrumento de dominação da classe operária. Eis porque é essencial que os operários se unam em cooperativas de consumidores e criem assim o organismo que exprimirá as suas necessidades. O mesmo princípio vale para as fábricas; os operários, unidos nas organizações de fábrica, estabelecem a quantidade de matérias-primas de que têm necessidade para os produtos que devem fabricar. Não existe pois senão um meio, no comunismo, para estabelecer as necessidades das massas: a organização dos produtores e dos consumidores em conselhos de fábrica e conselhos de consumidores.
Contudo, não basta aos operários saber de que têm necessidade para a sua subsistência, nem às oficinas de conhecer a quantidade necessária de matérias-primas. As fábricas trocam os seus produtos; estes devem passar por diferentes fases, por várias fábricas, antes de entrarem na esfera do consumo. Para tornar possível esse processo, é necessário, não somente estabelecer quantidades, como também geri-las. Assim chegamos à segunda parte do mecanismo que deve substituir o mercado livre; quer dizer, a "contabilidade" social geral. Esta contabilidade deve incluir a situação de cada fábrica e conselho de consumidores, para dar um quadro claro que permita ter um conhecimento completo das necessidades e possibilidades da sociedade.
Se se não pode reunir e centralizar esses dados, então toda a produção será mergulhada no caos quando for abolida a propriedade privada e, como ela, o mercado livre. Apenas a organização da produção e da distribuição pelos conselhos de produtores e consumidores, e o estabelecimento de uma contabilidade centralizada permitirão abolir o mercado livre. (...)
O comunismo regula a produção segundo as necessidades das grandes massas. O problema do consumo individual e da repartição das matérias-primas e dos produtos semi-acabados entre as diversas empresas não pode ser resolvido graças ao dinheiro, como no sistema capitalista. O dinheiro é a expressão de certas relações de propriedade privada. O dinheiro assegura ao seu possuidor uma certa parte do produto social. Isto é tão válido para os indivíduos como para as empresas. Não existe propriedade privada dos meios de produção no comunismo; contudo cada indivíduo terá direito a uma certa parte da riqueza social para seu consumo, e cada fábrica deverá poder dispor das matérias primas e meios de produção necessários. Como deve isso ser feito? (...) Nós vemos aí um problema muito importante para a revolução proletária. Se os operários simplesmente se fiassem num "serviço estatístico" para determinarem a sua parte, criariam assim um poder que já não poderiam controlar.
Abordamos aqui a seguinte questão: como será possível unir ou acordar esses dois princípios que parecem à primeira vista contraditórios, a saber: todo o poder aos operários, o que implica um federalismo (concentrado) e a planificação da economia, que conduz a uma extrema centralização? Apenas poderemos resolver esse paradoxo se considerarmos os fundamentos reais da produção social na sua totalidade. Os trabalhadores apenas dão à sociedade a sua força de trabalho. Numa sociedade sem exploração, como a comunista, o único padrão para determinar o consumo individual será a força de trabalho fornecida por cada um à sociedade.
No processo de produção, as matérias primas estão convertidas em bens de consumo pela força de trabalho que se lhe acrescenta.
Um serviço estatístico seria completamente incapaz de determinar a quantidade de trabalho incorporada num dado produto. O produto passou por múltiplos estádios, isto é, um número imenso de máquinas, ferramentas, matérias-primas, e produtos semi-acabados serviram para sua fabricação. Se é possível a um serviço estatístico central reunir todos os dados necessários num quadro claro, compreendendo todos os níveis do processo de produção, as empresas ou as fábricas estão melhor colocadas para determinar a quantidade de trabalho cristalizado nos produtos acabados, calculando os tempos de trabalho incluídos nas matérias primas e o necessário à produção de novos produtos. A partir do momento em que todas as empresas estão ligadas entre si no processo produtivo, é fácil a uma delas determinar a quantidade total de tempo de trabalho necessário para um produto acabado, baseando-se nos dados disponíveis. Melhor ainda, é mais fácil calcular o tempo de trabalho social médio dividindo a quantidade de tempo de trabalho empregue pela quantidade de produtos. Esta média representa o factor final determinante para o consumidor. Para ter direito a um objecto de uso corrente, ele deverá simplesmente provar que deu à sociedade, sob uma forma diferente, a quantidade de tempo de trabalho cristalizado no objecto que deseja. Assim se encontra suprimida a exploração. Cada um recebe o que deu, cada um dá o que recebeu: isto é a mesma quantidade de tempo de trabalho social médio. Na sociedade comunista não há lugar para um serviço central de estatística, tendo o poder de estabelecer "a parte" atribuível às diferentes categorias de assalariados.
O consumo de cada trabalhador não é determinado "de cima"; cada um determina, pelo seu trabalho, quanto pode pedir à sociedade. Não há outra escolha na sociedade comunista, pelo menos durante o primeiro estádio. Os serviços estatísticos apenas podem servir para fins administrativos. Esses serviços podem, por exemplo, calcular os valores sociais médios de acordo com os dados obtidos nas fábricas; mas eles são empresas como as outras. Não detêm privilégios. É absurdo imaginar que uma sociedade comunista poderia tolerar um serviço central dotado de poder executivo; com efeito, em tais condições, apenas pode existir a exploração, opressão e capitalismo.
[Uma nota final - há uns anos, no contexto de uma discussão nos comentários d'O Insurgente, o BrainstormZ perguntou-me « como conseguem os “Conselhos Operários” fazer o cálculo económico dada a “propriedade estatal dos meios de produção”»; eu há muito que penso em fazer uma série de posts sobre o assunto - com a ressalva que as minhas simpatias, actualmente, vão mais para o lado dos anarquistas do que para o dos comunistas de conselhos, trotskystas e similares, logo seria em parte desenvolver argumentos que não são exactamente os meus; eu duvido que alguma vez ganhe energia para escrever essa série de posts, mas se alguma vez essa série vir a luz do dia, será uma espécie de versão revista e aumentada deste]
08/08/12
João Valente Aguiar no Passa Palavra: contra os mitos da "esquerda realista"
por
Miguel Serras Pereira
Aqui fica o link para um breve ensaio do João Valente Aguiar no Passa Palavra: "O especulador e o industrial. A esquerda do lado do mito contra a realidade". Esperemos que dê que falar como merece, e que faça pensar também aqueles que esquecem que a "financierização" da economia governante resulta, não de uma perversão do capitalismo, mas da sua dinâmica peculiar quando as relações de poder, no terreno da luta social e política, lhe são favoráveis. Pelo que a luta contra a financierização em causa tem como condição de avanço, não a consolidação das posições dos "capitalistas industriais" contra a influência dos "especuladores", mas o enfraquecimento da organização capitalista através de uma democratização das relações de poder que a reproduzem.
06/08/12
A "democracia burguesa" a se liquidar aos poucos
por
Miguel Madeira
Mario Monti, o primeiro-ministro (não eleito) de Itália, em entrevista a Der Spiegel:
But one statement in his interview in particular has sparked a contentious debate. Monti said that European leaders needed to defend their freedom to act against parliaments. "If governments allow themselves to be entirely bound to the decisions of their parliament, without protecting their own freedom to act, a break up of Europe would be a more probable outcome than deeper integration."
04/08/12
Um luminoso convite à reflexão sobre a juventude histórica de Marat…
por
Miguel Serras Pereira
… compõe o terceiro e penúltimo capítulo do denso e breve ensaio de João Bernardo, no Passa Palavra sobre os Dilemas da Liberdade com que a Revolução Francesa continua a confrontar-nos. Aqui fica, reiterando o link, um excerto comprovativo:
Em todas as páginas de Les Chaînes de l’esclavage o povo é soberano, mas Marat entendeu a soberania como uso da soberania. Contrariamente aos teóricos seguidores da tradição de Montesquieu, que viam a garantia da liberdade no equilíbrio recíproco que os representantes estabelecem entre eles, Marat radicou a liberdade no exercício do controlo. Da falta de controlo deriva a ascensão lenta do despotismo. É este o tema principal da obra, como foi o tema principal da vida — e da morte — de Marat. O essencial de Les Chaînes… é a descrição das formas lentas e subtis, imperceptíveis, como os representantes se emancipam do controlo popular e fundam a sua tirania; da forma como as instituições evoluem e dão origem ao seu contrário. O processo de evolução do Estado é, pois, o processo da diminuição ou da extinção do controlo. Por isso Marat pôde conceber a opressão como interna e não externa. Nesta perspectiva ele é um anti-Maquiavel, porque em O Príncipe o despotismo é imposto de fora ao povo, enquanto para Marat é o povo quem, pelo seu descuido, gera o Príncipe. São os cidadãos, eles próprios, a produzir os instrumentos da sua opressão. Parece que nesta obra Marat estava a responder às interrogações sobre O Príncipe que Spinoza formulara no § 7 do quinto capítulo do seu Tractatus Politicus.
Em todas as páginas de Les Chaînes de l’esclavage o povo é soberano, mas Marat entendeu a soberania como uso da soberania. Contrariamente aos teóricos seguidores da tradição de Montesquieu, que viam a garantia da liberdade no equilíbrio recíproco que os representantes estabelecem entre eles, Marat radicou a liberdade no exercício do controlo. Da falta de controlo deriva a ascensão lenta do despotismo. É este o tema principal da obra, como foi o tema principal da vida — e da morte — de Marat. O essencial de Les Chaînes… é a descrição das formas lentas e subtis, imperceptíveis, como os representantes se emancipam do controlo popular e fundam a sua tirania; da forma como as instituições evoluem e dão origem ao seu contrário. O processo de evolução do Estado é, pois, o processo da diminuição ou da extinção do controlo. Por isso Marat pôde conceber a opressão como interna e não externa. Nesta perspectiva ele é um anti-Maquiavel, porque em O Príncipe o despotismo é imposto de fora ao povo, enquanto para Marat é o povo quem, pelo seu descuido, gera o Príncipe. São os cidadãos, eles próprios, a produzir os instrumentos da sua opressão. Parece que nesta obra Marat estava a responder às interrogações sobre O Príncipe que Spinoza formulara no § 7 do quinto capítulo do seu Tractatus Politicus.
02/08/12
01/08/12
Ataque ao Irão?
por
Miguel Madeira
Panetta tells Israel force is option on Iran (Al Jazeera):
US Defence Secretary Leon Panetta has warned that Iran must either negotiate acceptable limits on its nuclear programme or face the possibility of US military action to stop it from getting the bomb.
Panetta made his remarks Wednesday outside a city in southern Israel, with an "Iron Dome" anti-rocket defence system as a backdrop.
Panetta said repeatedly that "all options", including military force, are on the table to stop Iran, should sanctions and diplomacy, the preferred means of persuasion, ultimately fail.
Israeli Defence Minister Ehud Barak, standing beside Panetta, said he sees an "extremely low" probability that sanctions will ever compel Iran to give up its nuclear activities.
Gore Vidal (1925-2012)
por
Miguel Madeira
Gore Vidal's United States of fury , em The Independent (2009)
In Russian, the phrase "gore vidal" means "he has seen grief". As Gore Vidal is wheeled towards me across an empty London hotel lobby, it seems for the first time like an apt translation. In the eight years since I saw him last, he has lost his partner of 50 years, most of his friends, most of his enemies, and the use of his legs. The man I met then – bristling with his own brilliance, scattering witticisms around like confetti – has withered. His skin is like parchment, but the famous cheekbones are still sharp beneath the crags. "It is so cold in here," he says, by way of introduction. "So fucking cold."
Gore Vidal is not only grieving for his own dead circle and his fading life, but for his country. At 83, he has lived through one third of the lifespan of the United States. If anyone incarnates the American century that has ended, it is him. He was America's greatest essayist, one of its best-selling novelists and the wit at every party. He holidayed with the Kennedys, cruised for men with Tennessee Williams, was urged to run for Congress by Eleanor Roosevelt, co-wrote some of the most iconic Hollywood films, damned US foreign policy from within, sued Truman Capote, got fellated by Jack Kerouac, watched his cousin Al Gore get elected President and still lose the White House, and – finally, bizarrely – befriended and championed the Oklahoma bomber, Timothy McVeigh.
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