Jeremy Corbyn tem tido uma vida penosa desde que foi eleito líder do Labour. Às
sucessivas tentativas de o substituir na liderança do partido tem logrado resistir, mas o Brexit
e as suas consequências políticas internas parecem estar a arrastá-lo, e ao Labour, para um enorme buraco sem fundo.
No entanto, o líder da oposição aos Tories acerta em
muitas das análises que faz e tem um discurso que se revelou mobilizador,
promovendo mesmo o reforço da militância em torno do Labour.
A participação de Jeremy Corbyn na Conferência dos
partidos socialistas europeus que decorreu em Praga, entre os dias 1 e 3 de
Dezembro, permite ilustrar a clareza da sua leitura politica. Nessa
conferência Corbyn teve várias intervenções que mereceram bastante destaque e
que, com excepção aqui do burgo mais à beira mar plantado, foram noticia e
objecto de discussão. Não era para menos. A intervenção de Corbyn constituiu
uma análise rigorosa das razões para o falhanço dos socialistas europeus e um
conjunto de propostas de mudança da actuação politica dos socialistas que
permita alterar as coisas. O homem que Bill Clinton apelidou do
"mais maluco na sala", quer realizar uma conferência em Londres para
discutir uma nova orientação politica para o socialismo europeu e para criar as
condições para um desenvolvimento equitativo.
A primeira razão para a crescente irrelevância
socialista no contexto europeu - recorde-se que Rajoy ganha eleições atrás de
eleições em Espanha, que o PSD só foi retirado do poder com o recurso à
coligação das esquerdas, que Hollande chegou a um tal grau de impopularidade
que o obrigou a desistir da recandidatura presidencial pretendendo ceder o
lugar ao direitista Manuel Valls –as sondagens indicam que o candidato
socialista não irá à segunda volta apesar da vitória de Benoît Hamon sobre Valls-
que Matteo Renzi, um socialista da mesma ala direitista de Valls, foi derrotado
depois de ter tentado, por via
referendária, diminuir drasticamente o carácter representativo da democracia
italiana, que na Alemanha os socialistas não descolam do papel de ajudantes de
campo da senhora Merkell e o recurso ao ex-presidente do PE Martin Schulz, não
os retira desse papel - é o facto de serem vistos como defensores do mesmo
modelo económico falhado, mais do que um veículo para a transformação da
sociedade. O famoso pilar esquerdo que tem suportado o neoliberalismo e que
Blair e outros construíram com tanto desvelo.
Essa adesão efectiva ao neoliberalismo pode
observar-se nas politicas concretas e na forma como a governação é “compatibilizada”
com o modelo dominante de compressão das despesas públicas em sectores onde a
acção do estado é fundamental – saúde, educação, habitação entre outros –
favorecendo a acção do sector privado em nome de um crescimento milagroso.
Milagroso porque, através da adopção de politicas fiscais cada vez mais liberais
favorece a desigual acumulação da riqueza.
Os partidos socialistas - segundo Corbyn - são
vistos como defensores do status quo e dessa forma os cidadãos
viram-lhes as costas já que o status falhou, como eles sentem dolorosamente no
seu dia a dia. Abandonar os princípios apenas porque alguém defendeu - e
defendem ainda hoje, como se vê pela ala direita do PS português - que sem essa
abdicação nunca chegarão ao poder, é - foi ao longo de anos - um erro crasso,
um disparate. A famosa teoria da "importância do centro" que a última
sondagem divulgada em Portugal veio recuperar do bau onde estava conservada com
a adequada dose de bolas de naftalina.
Os seus confrades muitos deles fortemente comprometidos nestas politicas
devem ter deplorado esta companhia. (Podem-se escutar alguns momentos da
intervenção de Corbyn aqui ).
Ora um dos problemas com que Corbyn se depara neste preciso momento resulta da posição que resolveu adoptar face ao Brexit. Uma posição de não oposição com base num reclamado respeito pela decisão popular.
Corbyn que liderou uma campanha pela manutenção na UE e pela sua reforma - Remain and Reform - aparece nesta altura tolhido pelas contradições que o Brexit testemunha e que atravessam a sociedade inglesa dividindo de forma brutal o eleitorado tradicional do Labour.

