08/03/18

PONTE 25 DE ABRIL: análise estrutural de um modo de governar

A divulgação de um Relatório elaborado pelo LNEC sobre as condições de segurança estrutural da Ponte 25 de Abril, ocupou rapidamente o espaço mediático que durante (dois?) dias esteve totalmente submergido pela descoberta da relação entre a famosa "estrutura" do Benfica/SAD e o Sistema de Justiça. O caso envolvendo o clube da Luz não ameaçará os alicerces da democracia - mantem-se intocada a separação - ficticia, é verdade, mas uma separação para todos os efeitos formalmente necessários - entre o poder executivo, legislativo e  judicial. Podemos, no limite, afirmar com alívio: ainda bem que o Benfica/SAD não é um orgão de soberania.

Corrupção na sociedade portuguesa é um lugar comum e são clássicos e rotineiros os mecanismos de desvalorização pública da sua importância. À esquerda e à direita.  Estamos sempre no domínio dos comportamentos desviantes, nunca é nada de sistémico. Estamos sempre no domínio da moral e nunca no puro campo da política. O caso do Benfica e o tratamento mediático que merece é disso reflexo. A corrupção como modo de actuação não tinha outro propósito, sobretudo desportivos ou financeiros, era apenas uma tara, um desvio de alguém que, por culpas próprias, um excesso de paixão, uma cegueira afectiva, não seguiu os melhores caminhos. Estaremos no domínio da moral e completamente fora do domínio da política. [Amém.]

Já a ponte 25 de Abril, com a divulgação do Relatório do LNEC, mostra-nos como a democracia evoluiu e como a forma de governar é hoje muito diferente daquela que era comum ... nas democracias. [O Relatório e um dossier dedicado ao tema integram a edição em papel da Visão. Online a informação é escassa, como pode constatar aqui]

Muitos de nós ainda achamos que quem manda no Governo é o primeiro-ministro, seja ele qual for. Teimamos em achar que ao elegermos o primeiro-ministro estamos a escolher quem vai liderar o Governo. Este episódio, como outros milhares com menor importância, mas socialmente relevantes, porque se relacionam com a vida do dia a dia dos Josés e das Marias, que somos todos nós, mostram que quem manda no Governo é o ministro das Finanças, seja ele qual for. Neste caso é Mário Centeno.

Se pensarmos melhor naquilo que aconteceu não encontraremos nenhum motivo para espanto. O que nos pode espantar é a nossa capacidade para fingirmos. Fingirmos que não percebemos que as coisas mudaram e que a "arrumação institucional" que mantemos é apenas uma desfocada fachada. Depois do período fordista, com a ascensão do neoliberalismo e a implosão da social-democracia, as empresas e os negócios ganharam um total ascendente sobre a polítca. Os Governos cederam o lugar ao Mercado. A dimensão económica da gestão anulou a sua dimensão política.

O Governo tem um conjunto de áreas de intervenção que lhe permite gerir todo o país. Cada ministro gere uma área. O primeiro-ministro coordena todos os ministros e decide em último caso, porque não sendo o Governo uma empresa, compete-lhe colocar o interesse público acima dos interesses particulares ou de grupo. Compete-lhe valorizar a dimensão política da governação.

No actual sistema nada funciona assim. O ministro das finanças  tem a última palavra em qualquer processo em discussão dentro do Governo. Deste Governo ou de qualquer outro, desde que submetido a estas regras. Pode o ministro das Obras Públicas, ou do Planeamento ou, não havendo ministro, o secretário de estado com a tutela, receber que Relatório for, elaborado pelos mais qualificados técnicos, a apontar para uma qualquer intervenção urgente num qualquer equipamento público, que se o ministro das finanças estiver com as "contas fora do ponto", o melhor é esperar sentado.

As Finanças não validaram a urgência das obras na Ponte 25 de Abril. Não porque tenham um Relatório alternativo que conteste as análises efectuadas pelo Laboratório e as conclusões por ele tiradas, mas porque não quer gastar esse dinheiro imediatamente. Antes de Dezembro pelas razões conhecidas e depois de Dezembro pelas mesmas razões, aplicadas agora a Dezembro de 2018: controlo do défice. No Governo, e em particular no ministério das finanças, não existem dúvidas sobre a relação que existe entre o Poder e o Saber. Mesmo que o primeiro-ministro ache que o País só avança com uma grande aposta no conhecimento e não se canse de o afirmar.

As obras, segundo o LNEC, caso não sejam feitas podem, a  prazo, determinar o colapso da  ponte. Obras urgentes.  Há seis meses que o secretário de estado espera - sentado - pela aprovação das Finanças. A divulgação do Relatório pela Visão irá fazer aquilo que a organização e o funcionamento do Governo não permitiu: as obras vão avançar rapidamente, e ainda bem. O conhecimento quer do LNEC, quer do ISQ, traduzido em Relatórios vale o que vale. Muito pouco se o poder decidir nada fazer.  Depois de ter sido tornado público, pela imprensa, ou por outros meios, esse saber torna-se rapidamente em Poder.

Mário Centeno é hoje o membro mais poderoso do Governo, reforçado pelo cargo que ocupa em Bruxelas. O membro mais poderoso ainda que em partime, já que não goza ainda do dom da ubiquidade. Compreender e analisar Centeno, e a sua actuação política, é também o único critério válido para analisarmos se o actual Governo se afastou ou não da matriz neoliberal e austeritária a que nos tinhamos submetido na última década.

O Relatório da Ponte 25 de ABRIL é mais uma oportunidade para perceber como é que podemos melhorar a "gestão corrente" da democracia. Não será a última.



07/03/18

A greve dos professores da Virgínia Ocidental

Um assunto que só recentemente ouvi falar, mas que é interessante.

Resumo - os professores do estado norte-americano da Virgínia Ocidental entraram em greve ilegalmente, a partir de certa altura em confronto com a própria direção do sindicato, e parece que conseguiram um aumento de 5% (para todos os funcionários do estado da Virgínia Ocidental, não apenas para os professores). Alguns artigos sobre o assunto:

All of West Virginia’s teachers are on strike. Here’s why, por Ryan Connelly Holmes (PBS)

West Virginia: Teachers Rebel as Union Attempts to End Strike (Libcom, comnunicado dos IWW)





Bónus:


O último post chama a atenção que a resistência da classe trabalhadora às politicas de Trump e dos seus aliados locais está a vir de um estado que, na narrativa dominante, é suposto ser o epicentro da Trumpland e da suposta "classe trabalhadora branca" conservadora.

02/03/18

Os Comuns

Perante a privatização e mercantilização crescente, resultado da necessidade, cada vez mais desesperada, do Capital assegurar a sua reprodução e expansão, a resistência tem seguido vias que confluem em torno do conceito dos Comuns. Este tem sido usado de forma cada vez mais frequente para evidenciar as semelhanças subjacentes a múltiplas soluções encontradas para construir alternativas ao paradigma existente, não só no que concerne às relações sócio-económicas mas também em relação à gestão ou governação, em prol do bem comum.

O conceito dos Comuns tem sido trabalhado por muitas pessoas, na prática e na teoria. Por exemplo, David Bollier, cuja recente entrevista é um bom ponto de partida para perceber os aspectos principais dos Comuns e a sua abrangência. Transnational Republics of Commoning é uma das suas mais recentes e interessantes contribuições.

Vale também a pena acompanhar a iniciativa Commons Transition, que agrega investigadores e activistas em prol dos Comuns, muitos dos quais membros da European Commons Assembly. O Green European Journal também tem dado destaque ao conceito, tendo-lhe dedicado uma das suas mais recentes edições Finding Common Ground.

12/02/18

Um possível RBI

Uma das questões acerca do agora na moda Rendimento Básico Incondicional (na minha opinião, provavelmente a mais importante) é como o financiar; até por uma razão: um dos argumentos a favor do RBI é que, como toda a gente o recebe, faça o que fizer, não distorce os preços (exemplo - com ou sem RBI, se eu aceitar um emprego a ganhar 800 euros por mês, vou ganhar mais 800 euros do que se não o aceitar - seja o valor do RBI qual for; já noutros sistemas de proteção social, se eu aceitar esse emprego, vou no fim ganhar menos que 800 euros adicionais, porque provavelmente vou perder apoios e subsídios a que teria direito se não o aceitasse); mas se o RBI for financiado via impostos sobre o rendimento, ou sobre o consumo, ou sobre o conjunto do património, vai à mesma distorcer os preços por essa via - pelos impostos que são necessários para o pagar (e não é certo que no final essa distorção não seja menor que a causada pelos apoios sujeitos a condição de recursos).

Várias propostas têm sido apresentadas para financiamentos "eficientes" do RBI: impostos sobre a poluição, direitos de exploração de recursos naturais (é o que se passa, indiretamente, com o RBI do Alasca, financiado pelos lucros dos investimentos realizados com os direitos sobre o petróleo que o Estado recebe), leilões de frequências hertzianas, distribuição do crescimento da massa monetária (isto é, os bancos centrais porem dinheiro em circulação dando-o às pessoas, em vez de comprado títulos ou emprestando aos bancos), a taxa Tobin (isto, do ponto de vista de quem considere que as transações cambiais internacionais têm externalidades negativas, e que portanto essa taxa vai aumentar e não diminuir a eficiência económica), etc.

Mas uma das ideias mais antigas para algo equivalente a um RBI é a proposta georgista, teorizada por Henry George no século XIX: comprar um imposto sobre o valor da terra, usá-lo para financiar a despesa do Estado e o que sobrar distribuir igualitariamente por toda a gente; atenção que o imposto era mesmo só sobre o valor da terra (ou, mais exatamente, sobre a renda da terra), não sobre o valor da terra + valor do que lá estivesse construido ou plantado.

O acesso ao ensino superior (de novo)

Fala-se em acabar com os exames nacionais de acesso ao ensino superior (ou, o que talvez não seja a mesma coisa, em os exames nacionais deixarem de contar para o acesso ao ensino superior). O problema é o que se vai por no seu lugar.

Algumas noticias apontam no sentido de que haverá propostas no sentido de cada universidade fazer os seus próprios exames - à partida, isto parece-me uma trabalheira sem grande vantagem; então, eu em vez de ter feito umas 3 ou 4 provas especificas (isto já foi há muito anos, em 1991, mas acho que fiz a prova especifica de matemática do 12º, e duas de economia, e talvez outra de matemática), além da defunda PGA, iria ter que fazer umas 10 (já que concorri ao ISEG, Universidade Nova, Universidade do Porto, Universidade de Coimbra e Universidade do Algarve, e de certeza que cada uma deveria ter uma prova de matemática e outra de economia)? E andar a passear pelo país para fazer provas? Isso parece-me saído das mesmas cabeças que defendem a contratação descentralizada dos professores.

Até porque penso que as universidade já têm autonomia para decidirem que provas vão contabilizar para o acesso e com que ponderações (pelo menos no meu tempo era assim - cada universidade tinha a sua própria fórmula para escolher os alunos, com diferentes ponderações para cada prova,para a PGA e para média do secundário - aliás, foi por isso que eu fiz várias provas para a mesma disciplina: umas universidades usavam a nota da prova do 12º ano e outras a do 10º/11º), logo cada univesidade já pode escolher quais as qualificações que quer nos alunos que a vão frequentar.

E ontem, no Correio da Manhã, li um artigo assustador de um dirigente da Confederação das Associações de Pais, em que me dá a ideia que ele pretende abrir a porta às universidades escolherem os alunos com base em critérios como "vocação", o que me parece só pode significar as universidades começarem a escolher os alunos com base na sua personalidade (o que na prática significa escolher alunos com um perfil psicológico similar aos dos professores, diretores e reitores, já que quase por definição esses acharão que é o perfil mais adequado a pessoas nessa área - afinal, dificilmente alguém reconhece que o seu perfil psicológico não é o mais indicado para a área onde está).

Essas avaliações subjetivas ("holísticas", penso que é como lhes chamam nos EUA - curiosamente o mesmo adjetivo aplicado às medicinas banha-da-cobra), que normalmente implicam coisas como entrevistas, avaliações curriculares, cartas de recomendação de professores, etc. têm também o problema que facilmente podem ser usadas para meter cunhas, mas mesmo que sejam honestas são intrinsecamente problemáticas, já que assentam na ideia de que haverá tipos de personalidade mais adequados que outros, e, sobretudo, que é possivel saber antecipadamente que tipos de personalidade são esses.

E sobretudo acabam sempre valorizando um traço especifico de personalidade - conformismo; porque sejam quais forem os traços de personalidade que estejam à procura, pessoas com uma personalidade mais conformista (ou, se quisermos dar um spin mais favorável, "flexível" ou "adaptável") têm mais facilidade em suprimir a sua verdadeira personalidade e adotar (nem que seja só até serem aceites na universidade) uma persona de acordo com o que é exigido (exemplos - meter-se nas atividades extra-curriculares mais bem vistas, conseguir impressionar os professores que fazem cartas de recomendação, vestir-se apropriadamente para a entrevista de seleção, etc., etc.)

05/02/18

Estado do Poder 2018



O relatório elaborado anualmente pelo Transnational Institute foi recentemente publicado, State of Power 2018.

"Ao mesmo tempo que movimentos populares aparecem por todo o lado, enfrentamos uma impunidade corporativa cada vez maior e uma violência crescente por parte do Estado. No Estado do Poder 2018, examinamos os movimentos sociais de hoje e o seu potencial para construir contra-poder, como podemos resistir melhor às injustiças e erguer bases para a transformação a longo prazo."

04/02/18

Leros Outros: Philip Roth e o Bufão Gabarolas.

No Expresso podemos [devemos] ler uma entrevista a Philip Roth originalmente publicada no New York Times. [O semanário publica um texto de Clara Ferreira Alves, justificado pela publicação desta entrevista, cuja leitura é igualmente obrigatória.]
Philip Roth é o meu romancista preferido. Tenho tido a sorte de poder ler os seus livros, depois da forte impressão que me causou a experiência inicial de ler A Pastoral Americana logo seguido de   A Mancha Humana.

Mas o que importa nesta entrevista, que o Expresso em boa hora publica, são as opiniões de Roth na sua actual condição de reformado, escritor reformado, sobre a política e os grandes temas que abalam a sociedade americana.
O escritor tantas vezes acusado de misoginia, um entre muitos argumentos utilizados pela  pudibunda Academia Nobel para recusar reconhecer e premiar a sua genialidade, aborda o tema do assédio sexual, que recentemente abalou os alicerces da indústria do espectáculo,  e a situação política na América após a eleição de Trump.
Estabelece uma comparação entre o cenário por si idealizado, no seu romance "A Conspiração contra a América",  para os anos quarenta do século passado, com a vitória presidencial de Charles Lindbergh, um herói americano com simpatias pelo fascismo e defensor confesso da supremacia da raça branca, e a presidência de Trump.
Trump é, diz Roth, "uma fraude maciça, a soma maligna das suas deficiências, destituído de tudo exceto a ideologia oca de um megalomaníaco".

O escritor mostra o seu cepticismo sobre a democracia americana, citando o maior dos cépticos, o cínico H.L.Mencken, que classificava a democracia americana como " a adoração de chacais por idiotas". No entanto, nem isso lhe permitia antever que "o mais rebaixante dos desastres, surgiria não sob, digamos, o aspecto aterrador de um Big Brother orwelliano, mas sob a ameaçadoramente ridícula figura de commedia dell´arte de um bufão gabarolas".

30/01/18

Ainda sobre o assédio sexual

No i, André Abrantes Amaral escreve, a respeito das recentes denúncias de assédio sexual, que "uma mulher que foi violada não se encontra na mesma situação da que ouviu um piropo ou da que, por livre vontade, se sujeitou a algo para conseguir um papel num filme ou subir na carreira."

Eu até concordo que não é mesma situação (e por alguma razão "violação" e "assédio sexual" são palavras diferentes) - já agora (até atendendo que o ponto de partida do artigo de AAAmaral é o apoio de Samantha Geimer ao "manifesto Catherine Deneuve") é um bocado um contrassenso a atual vaga de "desaparecimento" de figuras acusadas de assédio (o caso extremo talvez seja o de Kevin Spacey, em que voltaram a rodar um filme já feito substituindo-o por outro ator), enquanto o violador de menores Roman Polanski continua a fazer a sua carreira sem problemas (ou apenas com o problema de não poder ir a sítios de onde possa ser extraditado).

Mas a parte onde eu quero chegar é à da "sujeitou a algo para conseguir um papel num filme ou subir na carreira", e aí o meu ponto até não é tanto com o artigo do AAAmaral, mas sobretudo com comentários que frequentemente se leiem nas abaixos das noticias "Fulano acusado de assédio", estilo "dormiram com este e aquele para subir na carreira, e agora que já não precisam vem com essas denúncias".

Todavia, isso é largamente um exemplo do chamado poder do "framing" - compare-se "a atriz X perdeu um papel de destaque no filme Z porque não foi para a cama com o realizador" com "a atriz W foi escolhida para um papel de destaque no filme Z porque foi para a cama com o realizador"; essas (aparentemente) duas situações, expostas assim, provocam quase de certeza reações diferentes: perante a primeira, muita gente reagirá com "assédio sexual"; perante a segunda, a reação será mais "mas qual assédio sexual; são é todas umas p....". Mas, se pensarmos bem, essas duas situações são, fundamentalmente, a mesma situação: se as atrizes (falo de "atrizes" porque tem se falado disso sobretudo a respeito do cinema, mas provavelmente situações similares ocorrerão noutros sectores - já ouvi dizer, p.ex., que também há muito disso nas autarquias locais) que se envolvem com realizadores/produtores/atores principais tem facilidade adicional em conseguir papéis, então (partindo do principio que a quantidade de bons papéis é mais ou menos fixa) as que não se envolvem terão mais dificuldade - para cada papel que vai para uma atriz porque dormiu com o realizador, há um papel que deixa de ir para uma atriz porque não dormiu com o realizador (poderá se questionar a minha premissa de assumir a quantidade de papéis disponíveis como fixa - afinal, em certas situações, um realizador/produtor/etc. poderão criar para uma amante um papel que nem sequer existiria no roteiro de outra maneira, mas no global isso não deve ter grande peso, sobretudo para os papéis principais).

Claro que se pode argumentar que há aqui uma diferença entre as duas situações - identificar quem é a vítima; realmente, se formos por este raciocínio, poderia-se argumentar que as vítimas do assédio sexual (ou lá o que lhe queiramos chamar) serão sobretudo as atrizes que NÃO foram para a cama como realizadores/produtores/etc. e por isso a carreira não avançou tão depressa, e não aquelas em que o assédio sexual foi mesmo às últimas consequências (e, já agora, isso faz-me lembrar de outros comentários que também vi na internet em que - talvez algo deselegantemente... - se sugeria que que muitas das apoiantes do "manifesto Catherine Deneuve" seriam sobretudo as atrizes que estariam a ver o seu "modo de vida" posto em causa pela campanha contra o assédio sexual...).

Mas no fundo, isso não muda muito a questão, até porque me parece (mas confesso que não estou a prestar muita atenção aos detalhes desta catadupa de denúncias, frequentemente envolvendo pessoas - tanto acusadores como acusados - de quem eu nunca tinha ouvido falar....) que a maior parte das acusações vêm de protagonistas de assédio não-consumado - isto é, as histórias que se ouvem são sobretudo "ele chamou-me ao quarto do hotel, pediu-me para me despir e lhe fazer uma massagem, e quando recusei e fui-me embora, disse-me que me iria arrepender", não tanto "dormi com ele regularmente durante seis meses, e só quando tive o contrato assinado para o papel principal naquele filme que tudo indicava que era material-para-Óscar é que ganhei coragem para resistir e acabar com aquilo".

24/01/18

Há coisas que nunca mudam. Sobre os 10 mil milhões que voaram para parte incerta

O Governo português e a administração da Justiça, nunca serão capazes de esclarecer os cidadãos sobre aquilo que esteve na origem do desaparecimento de cerca de 10 mil milhões de euros. Já fomos informados que não se tratava bem de um desaparecimento. Tratou-se antes de um "apagão de dados" que permitiu aos capitais saírem "sãos e salvos" para um offshore, destino mais conveniente para assegurar a necessária e tranquilizante evasão fiscal. Os capitais merecem respeito e tranquilidade.

Este tipo de "apagão de dados" - A AT pode assegurá-lo, para nosso sossego - nunca atingirá trabalhadores por conta de outrem , pequenos e médios empresários, empresários em nome individual ou trabalhadores independentes, a quem a AT, sem falhas, esmifra de todas as formas possíveis e imaginárias.

A construção da desigualdade - um trabalho de longo prazo, muito bem sucedido até agora, na sociedade portuguesa- alimenta-se, também,  deste tipo de "apagões",  habilmente conjugados com uma elevada carga fiscal e prácticas impunes de verdadeiro saque. Afinal há que apoiar o empreendedorismo e apostar na recuperação do poder de compra das famílias. Recorde-se a dualidade fiscal com que se acena aos não residentes, para virem para cá com os seus capitais, que tornam, por exemplo, o acesso à habitação ainda mais difícil para a esmagadora maioria dos residentes

Ninguém no seu juízo perfeito pode esperar que alguém fortemente comprometido com a manutenção desse status quo social se comprometa politicamente a desmontar os mecanismos que o promovem. Apesar da retórica, de toda a retórica,  não há milagres. Apenas com vontade política podem ocorrer mudanças.

15/01/18

EMEL. Contra o saque como modo de vida

A tomada de posição da provedoria de Justiça deve ser apludida a mãos ambas. A Emel é uma empresa que gere a concessão do estacionamento público na cidade de Lisboa. Empresa que tem a simpática tarefa de gerir uma oferta de 200 mil lugares para uma procura de 600 mil automobilistas. A principal razão pela qual a Emel é conhecida - e odiada - pelos moradores e visitantes da cidade, é o carácter repressivo da sua intervenção, e os valores astronómicos que as coimas aplicadas representam. Num país em que tanta gente ganha o ordenado mínimo como é que ter uma viatura bloqueada pode representar mais de cem euros de custos não previstos?
Hoje em dia na paisagem urbana há uma nova figura que se destaca: a viatura bloqueada e a viatura a ser rebocada para um qualquer depósito de viaturas.

Percebe-se agora que se trata de uma azáfama que é bastante rentável para os próprios, e daí que cause espanto que o Governo e a própria autarquia de Lisboa - com a sua maioria de esquerda - não decida colocar um ponto final neste saque.

Da mesma forma que causa espanto que não seja revista a concessão, de forma a colocar um ponto final em todas as formas de abuso e de excesso, que o provedor de Justiça refere, e que o  comum dos cidadãos já sofreu na pele.

Com um tão grande défice entre a oferta de estacionamento e a procura -fruto de décadas de más políticas públicas de habitação e de mobilidade - apostar todos os trunfos na repressão  é uma forma severa de castigar os que já tinham sido vitimas dos erros políticos e das omissões políticas de décadas, no que à habitação e mobilidade se refere.

12/01/18

A outra polémica do momento na cidade luz



Diz respeito à edição dos três panfletos anti-semitas de L-F Céline, cuja publicação nunca foi proibida, e continua hoje autorizada, o que ninguém põe em causa, mas à qual a família do escritor (a viúva, hoje com 105 anos de idade) se opunha até muito recentemente, tendo mudado de opinião.

Não tenho coisas muito interessantes a dizer sobre a polémica em si, editorialo-comercialona, mas se estiverem interessados em poupar umas horas, posso informar-vos que eu, que sou admirador incondicional do escritor (apesar do filho-da-puta que foi enquanto pessoa), li dois dos três panfletos há mais de vinte anos atrás e achei-os tão insonsos e desprovidos de qualquer relevo que nem procurei ler o terceiro. Portanto se querem um bom conselho, poupem o tempo que poderiam gastar com a polémica e utilizem-no para ler ou para reler o Voyage au bout de la nuit, Mort à crédit, D’un château l’autre ou o magnífico Nord. Se não souberem francês, leiam a impecável tradução de Morte a crédito da grande Luíza Neto Jorge.

A não ser, claro, que se importem de ler escritores que se comportaram em vida como sacanas, ou que considerem que isso é mau de um ponto de vista literário. Nesse caso, não se limitem a ignorar Céline. Sejam coerentes até ao fim e deixem também de ler Curzio Malaparte, André Gide, Bertolt Brecht, Camilo Castelo Branco, Jean-Jacques Rousseau, Santo Agostinho, Horácio, etc.

10/01/18

Quando o suposto "sedutor" detêm autoridade sobre o suposto "seduzido"

Onde começa o assédio e acaba a sedução?, pergunta Patrícia Reis.

A mim, sinceramente, não me parece muito difícil traçar a linha (a luta de classes - mesmo que definidas com base noutra coisa que não o papel no "processo de produção" - continua a ser uma ferramenta muito útil para interpretar o mundo).

Assédio : mensagem para os mais lentos de compreensão



Se eu avistar um jovem na rua, de corpo atlético e dimensões razoavelmente impressionantes, digamos 1 metro e 90, e achar que ele tem uma perna elegante e um rabo jeitoso, vou pensar duas vezes antes de o informar acerca disso, não vou ?

Ora bem, a diferença com uma mulher é ?

Pois.