A “ecologia” tem sido o objecto central de alguns textos de João Bernardo (JB) no Passa Palavra (só para linkar os mais importantes: 1, 2, 3, 4, 5, 6 - estes últimos três duma série ainda incompleta de 8 artigos). Muitas das suas críticas contribuem para uma reflexão necessária. Desde logo, ao apontar ideias e crenças associadas a certas expressões do pensamento ecológico que não só encerram potenciais consequências políticas perigosas, como são resultado de um pensamento acrítico, confortável no seu facciosismo, que recorre a generalizações, mistificações e deturpações de forma muitas vezes negligente. A importância do exercício de JB deve-se, também, à popularidade do tema. Preocupações ecológicas encontram lugar em praticamente todas as agendas e programas políticos, independentemente das diferenças políticas que os separam e indiferentes a clivagens sociais e identitárias. Essa popularidade ajuda a que muitos dos seus usos públicos sejam no mínimo superficiais, adoptando e reproduzindo chavões e ideias que sem qualquer tipo de problematização ou sustentação encontram a sua legitimação nessa popularidade. O exercício de JB é, além disto, importante porque procura deslocar o foco da análise da natureza e da depredação dos recursos naturais per se para o contexto e para as estruturas de produção e exploração que estão a montante dessas questões.
Mas há vários problemas no exercício de JB que deitam por terra praticamente todo o seu esforço. Para além da caricatura distorcida e pobre que apresenta da ecologia (daí ter colocado ecologia entre aspas na primeira linha do texto), incorre nos mesmos erros, deturpações e exageros em que incorrem muitos dos ecologistas a quem aponta o dedo. Toda a crítica de JB seria muito mais profícua se em vez de se dirigir ao que entende por “ecologia” visasse antes os tipos de argumentação e as formas de pensamento em que se sustentam algumas das ideias ecologistas, até porque estão longe de ser exclusivas de um só tema. O problema não é a ecologia em si. O acriticismo, a condescendência, o essencialismo, o autoritarismo e, em alguns casos, o obscurantismo e a mistificação podem ser encontrados com frequência nos debates que acontecem entre a esquerda. Lamentavelmente, pelo respeito que tenha pela obra de JB, estes textos, ao revelarem algumas dessas tendências, são um exemplo disso mesmo.
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16/09/13
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