13/02/19

Ler os Outros: Acerca das lamentáveis hesitações de Corbyn sobre o Brexit.


O líder do Labour tem estado tolhido pelas suas próprias contradições e fantasmas. O seu posicionamento na crise do Brexit - crise imaginada e realizada por Cameron e Boris Johnson - tem sido muitas vezes traduzido em complicados calculismos eleitorais que visam tentar ao mesmo tempo manter as simpatias dos trabalhistas apoiantes do Brexit e daqueles - largamente maioritários - que apoiaram a campanha por si liderada a favor do Remain. Tarefa impossível e pouco digna, diga-se.

As coisas não se passarão bem assim. O que levará o Corbyn que defende para os britânicos uma política radical "for the many not for the fews" a desistir de a defender na Europa? Será que ele pensa que a Europa não precisa dessa mesma política? Ou será que ele acha que pode concretizar essa política mais facilmente isoladamente fora da alçada das instituições Europeias?

É aqui, nesta não confessada convicção, que radicam todas as hesitações e fraquezas que o líder trabalhista tem acumulado ao longo dos  últimos penosos meses. 

É essa a leitura que aqui é feita e que eu em grande parte subscrevo. Na verdade Corbyn resolveu emular o comportamento de muitos dos seus camaradas - que ele próprio criticara na reunião dos socialistas europeus realizada em Praga em 2017 (ver aqui e aqui)- que uma vez eleitos para as instituições europeias se limitam a aplicar a cartilha austeritária - imposta pela direita conservadora europeia - como se a orientação política e económica conferida à Europa resultasse de uma Constituição Europeia sufragada pelo povo europeu. Camaradas esses que em termos globais caminham para a extinção com as excepções de Portugal e do Reino Unido, cujo crescimento foi enorme antes do seu líder se deixar tolher  pelas suas lamentáveis hesitações. 

Vitória para o patronato?

Plataforma do crowdfunding dos enfermeiros admite suspender financiamento de greves:
Futuras iniciativas de crowdfunding para financiamento de greves estão agora dependentes do que vier a ser concluído nas investigações e pareceres pedidos no âmbito das greves cirúrgicas dos enfermeiros — pelo menos na plataforma portuguesa PPL Crowdfunding. Os cofundadores da empresa não querem “alimentar a fogueira” do braço de ferro entre estes profissionais de saúde e o Governo, sobretudo se não for totalmente claro que o método de angariação de fundos é legítimo para aquele fim.
E não, não é apenas o "patrão-Estado" que ganha com isto - se as empresas de crowdfunding deixarem de recolher donativos para fundos de greve isso afeta a força dos sindicatos em todas as empresas, não apenas no Estado (mesmo naquelas em que nunca tenha havido nem fosse haver uma greve apoiada por crowdfunding, a própria existência teórica dessa possibilidade daria força aos sindicatos nas negociações com os patrões).

12/02/19

Posts que quase por acaso reli esta manhã

Esta manhã, como estava a ver se encontrava um link antigo, ao fazer uma busca no Vento Sueste acabei por reler alguns posts antigos que tinha escrito - dois foram estes: A saída do "Fórum Manifesto" do BE (sobre a saída da Ana Drago e mais uns quantos do BE)  e  Aliança PS/BE? (neste o relevante não é post em si, totalmente desatualizado, mas sobretudo a pergunta nos comentários feita pela "Tárique", sobre «o que é que a facção "revolucionária" ainda anda a fazer atrelada ao bloco.»). Quando ao fim da tarde fui ao facebook e vi as notícias, lembrei-me dos posts que tinha estado a ler mesmo de manhã.

10/02/19

A crise venezuelana e o ditador Maduro.

Sinceramente não percebo qual é a relação entre a necessidade de denunciar as consequências da luta pela hegemonia mundial que as diferentes potências travam e a obrigatoriedade de defender  Maduro, o ditador que desgoverna a Venezuela como se se tratasse de coisa sua.
Maduro é um  ditador. Não é um governante progressista ou socialista ou seja lá qual for o adjectivo que possamos escolher. É um ditador sangrento, que não treme perante o sofrimento que inflige aos seu povo, em particular aos mais desfavorecidos.
Há sempre uma espécie de superioridade moral e intelectual de uma certa burguesia, solidamente ancorada na universidade capitalista, para usar uma terminologia que lhes é cara -  de que Boaventura Sousa Santos é o mais afamado exemplo - que nos vem explicar que tudo aquilo que se está a passar nada tem a ver com a defesa da democracia na Venezuela mas, apenas e só, com uma corrida pelo controlo do petróleo venezuelano. 
O que se passa na Venezuela, não tem nada que saber, é fruto da acção do imperialismo americano. A relativização da ditadura de Maduro é assim compensada pela mais importante denuncia do imperialismo americano. É tudo uma questão de escala e de se recorrer a uma visão global que não estará ao alcance de todos.

O Socialismo XXI jaz e arrefece esmagado pela pulsão ditatorial do regime liderado por Maduro. A correção das desigualdades, a grande bandeira que vinha dos tempos de Chavez, a fazer-se, é pela expansão da pobreza: estão todos a ficar cada vez mais pobres.

Como é possível defender um governante como este? Como é possível valorizar a acção das forças armadas enquanto suporte deste regime despótico? Apenas e só porque estamos perante uma agressão dos americanos no contexto da guerra mundial pela dominação dos recursos naturais que travam EUA, Rússia e China?
Quem atirou a Venezuela para as mãos do império americano, do execrável Trump e dos seus aliados locais? E se for para as mãos do império chinês, o que ganharão os milhões de venezuelanos sufocados pela pobreza extrema com isso?

09/02/19

A ASAE e a greve dos enfermeiros

Pelos vistos, acha-se normal que a ASAE esteja a dedicar atenção especial a investigar uma greve contra a política do governo (e que tal até seja anunciado em letras garrafais pelo seu inspetor-geral).

08/02/19

Os saltos na definição de "socialismo"

Trump Versus the Socialist Menace, por Paul Krugman:
What do Trump’s people, or conservatives in general, mean by “socialism”? The answer is, it depends.

Sometimes it means any kind of economic [interventionism]. Thus after the SOTU, Steven Mnuchin, the Treasury secretary, lauded the Trump economy and declared that “we’re not going back to socialism” — i.e., apparently America itself was a socialist hellhole as recently as 2016. Who knew?

Other times, however, it means Soviet-style central planning, or Venezuela-style nationalization of industry, never mind the reality that there is essentially nobody in American political life who advocates such things.

The trick — and “trick” is the right word — involves shuttling between these utterly different meanings, and hoping that people don’t notice. You say you want free college tuition? Think of all the people who died in the Ukraine famine!
Eu até acho que AMBAS as definições estão erradas (e há algum tempo que penso fazer um post sobre isso...), mas de qualquer maneira há anos que me passeio por fóruns e caixas de comentários de blogues liberais e há muito que noto essa ambiguidade: por um lado, chamam a qualquer intervenção estatal na economia de "socialismo" (exceção - quando querem negar que os países nórdicos sejam socialistas), e depois dizem que Mises já demonstrou que o socialismo não funciona (quando me parece que o argumento de Mises sobre a "impossibilidade do cálculo económico num regime socialista" só se aplica a um sistema económico em que os preços sejam fixados pelo Estado, ou em que nem haja preços).

07/02/19

Prioridades venezuelanas

Muita gente parece mais preocupada com uma até agora hipotética invasão da Venezuela (que eu até acho mais provável que não aconteça do que aconteça) do que com a real e presente ditadura venezuelana.

Ainda que largamente opostos no espaço ideológico, fazem-me lembrar aqueles que, numa diferente longitude, estão mais preocupados com uma hipotética "destruição de Israel" do que com a real e presente ocupação israelita.

06/02/19

A viragem autoritária da burguesia

Ou pelo menos anti-parlamentar.

Exemplo A (Reino Unido):
Jacob Rees-Mogg has claimed that Theresa May must suspend – or prorogue – Parliament if the so-called Cooper-Boles amendment passes. (...)

However, Mr Rees-Mogg, who has repeatedly argued that the country does not need to fear the disruption of “no deal”, said that the amendment must be stopped – even if that means shutting down Parliament entirely. (...)

Prorogation simply means the end of a parliamentary session. It happens when an election is called, and is not necessarily a drastic constitutional move. (...)

However, in this particular case, Mr Rees-Mogg is referring to a situation where Parliament would be prorogued, but the Government would continue to press its agenda. Historically, this method has been used by monarchs to stop Parliament from interfering with their plans.

Exemplo B (EUA):
Lindsey Graham is telling his fellow Republicans that they better back the President if he decides to declare a national emergency to get funding for his border wall. (...)

Graham’s warning comes as President Trump has speculated more and more openly about the idea of using the power granted by the National Emergencies Act to declare a “national emergency” at the southern border and then, pursuant to that authority, use funds allocated for the Department of Defense as well as military personnel such as, one assumes, the Army Corps of Engineers, to build the wall and contract with federal contractors who would assist in the project.

29/01/19

"Ele tem autorização de residência?"

Em várias situações em que dirigentes ou ativistas do Bloco de Esquerda disseram ou fizeram coisas mais polémicas, nunca se viu ninguém perguntar se, p.ex., o Francisco Louçã ou a Miguel Portas tinham autorização de residência; mas, por qualquer razão misteriosa, nos comentários nos blogues e redes sociais vê-se muita gente a perguntar se a "autorização de residência" do Mamadou Ba estaria em ordem (por vezes pergunta a essas pessoas se a autorização de residência delas está em ordem, mas não me respondem). Porque será?

[Uma possível interpretação será que hoje em dia as pessoas passam mais tempo nas redes sociais, mas interrogo-me se será só isso...]

28/01/19

Uma coisa preocupante que noto acerca do "caso Jamaica"

A maior parte das pessoas com quem falo não faz uma real distinção entre "violência policial em auto-defesa ou para impedir a prática de crimes" e "violência policial para punir informalmente crimes já realizados".

26/01/19

Recebi 275 mil euros do hospital de Portimão

Mais coisa menos coisa, até agora, desde que lá trabalho.

[Contexto]

25/01/19

Brutalidade policial e racismo

Em questões como a das agressões na "Jamaica" surge frequentemente uma polémica com um dos lados a dizer que foi racismo e o outro lado a dizer variantes de "se a polícia lhes bateu, alguma razão terá tido".

E parece-me ser quase completamente ignorada uma terceira hipótese - a de parte da polícia ser mesmo dada à brutalidade se tiver uma ocasião, independentemente da raça das vítimas (o que é discutível se será um cenário muito melhor do que o do racismo...).

Erik Olin Wright (1947-2019) e a sua teoria das classes sociais

A respeito da morte de Erik Olin Wright, lembro aqui um texto que li dele há uns anos: "O que é neo e o que é marxista na análise neo-marxista das classes" [pdf], onde ele analisa a várias tentativas de  adaptar o modelo marxista das classes sociais ao mundo atual (mesmo que fosse o mundo "atual" de há quase 50 anos...), incluindo a sua (a dos "lugares contraditórios de classe"). E dessas tentativas, a dele pareceu-me exatamente a mais bem sucedida.

Mais ou menos, é assim:

- burguesia: patrões de médias e grandes empresas
- pequena burguesia: trabalhadores por conta própria, sem ou quase sem empregados
- classe operária: assalariados não-autónomos sem funções de chefia
- lugar contraditório entre a burguesia e a pequena burguesia: patrões de pequenas empresas
- lugar contraditório entre a burguesia e a classe operária: assalariados com funções de chefia
- lugar contraditório entre a pequena burguesia e a classe operária: assalariados sem funções de chefia mas com alguma autonomia

Se fôssemos aplicar isso a um centro comercial, imagino que fosse assim:

- os funcionários que estão na caixa serão "classe operária"
- os supervisores e gerentes serão "lugar contraditório entre a burguesia e classe operária"
- um técnico de marketing (se não tiver subordinados) será "lugar contraditório entre a pequena burguesia e a classe operária"
- um senhor que tem a exploração da tabacaria à entrada do centro e trabalha lá sozinho, será "pequena burguesia"
- uma senhora que tem a exploração de uma loja de roupa com 8 empregados será "lugar contraditório entre a burguesia e a pequena burguesia"
- os donos do hipermercado e do centro comercial (e, já agora, também os donos da cadeia do franchising da loja de roupa) serão "burguesia"

Já agora, eu acho que sou "lugar contraditório entre a pequena burguesa e a classe operária"

[Post feito largamente copiando este de 2008]

24/01/19

Guaido é o mais parecido com o que a Venezuela tem com um presidente legítimo (II)

Se se aceitar, por um lado, que Maduro é ilegítimo e, por outro, que a constituição venezuelana é legítima*, então decorre que Guaido será, de acordo com o artigo 233 da referida constituição, quem deve assumir os poderes presidenciais, até uma nova eleição - "Cuando se produzca la falta absoluta del Presidente electo o Presidenta electa antes de tomar posesión, se procederá a una nueva elección universal, directa y secreto dentro de los treinta días consecutivos siguientes. Mientras se elige y toma posesión el nuevo Presidente o Presidenta, se encargará de la Presidencia de la República el Presidente o Presidenta de la Asamblea Nacional.": se se considerar que Maduro é ilegítimo, então a sua posse há uns dias também foi ilegítima e temos exatamente a situação descrita nesta passagem (em que deixa de haver presidente antes da tomada de posse e o presidente da Assembleia Nacional assume provisoriamente as funções).

* e não é obrigatório considerar-se isso (até se pode achar que todas as formas de governo são ilegítimas).

O "Observador" em modo ultra-esquerdista

Para que servem o BE e o PCP?, por André Abrantes Amaral:
No entanto, tanto o PCP como o BE têm servido para muito mais que dar emprego e gritar mentiras. Têm servido para direccionar o sentimento de frustração social que, com certa ironia, é explorado por ambos. É que ao tirarem proveito deste sentimento, PCP e BE também o controlam, canalizando-o para as lutas sindicais e para os protestos partidários. Um jogo de cintura que já não será possível com um PCP enfraquecido ou com um BE descredibilizado. E ao não ser possível, há o risco do eleitorado de esquerda procurar outros agentes políticos onde desabafar as suas frustrações. Outras forças políticas não domesticadas e, porque aparentemente mais livres que o PCP e que o Bloco para alterarem o ‘status quo’ que os atrofia, mais violentas também. O que sucedeu esta semana na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e em Odivelas e Setúbal, como protesto contra a violência policial no Bairro Jamaica, no Seixal, pode ser um sinal disso mesmo. Um primeiro sinal da incapacidade destes dois partidos representarem convenientemente quem até ao presente neles se revia. O país anda à procura de onde surgirão os ‘coletes amarelos’ à francesa (...) mas a revolta pode surgir onde menos se espera: entre o próprio eleitorado da esquerda.
[Sugestão - ler o artigo com o browser em modo seguro]

A intervenção policial no bairro Jamaica

Tirado daqui.



É verdade que os vídeos podem ser sempre manipulados, mas olhando para o vídeo em questão é dificil ver o que possa ter sido ocultado para alterar muito a história, como a polícia parece alegar - mesmo que antes do vídeo ter sido filmado tenha havido as tais pedradas, os minutos anteriores à polícia ter começada a bater nas pessoas parecem-me pacificos: está um individuo de blusa azul a andar (nem sequer está a correr, em fuga), a policia aproxima-se dele e começam à porrada com ele; depois familiares aproximam-se e levam também.

Rotinas

Há coisas que vistas uma bocado mais ao longe aparecem de forma provavelmente mais nítida como parte de algo maior. Quem se poderá admirar com notícias como esta? Foram só sete? Quem se poderá, em Janeiro de 2019, espantar com esta re-revelação, e vir agora invocar um descrédito total? Fazê-lo no quadro de uma manobra política contra a Caixa Pública é de uma estupidez total. Apenas meia dúzia de tolos é que ainda acham que a Caixa é Pública. A Caixa é um banco como  os outros que nos tempos do gamanço como modo de vida tratou, e muito bem, de deixar os seus "créditos por bolsos alheios".
A Caixa Geral de Depósitos é gerida desde à décadas como um banco privado. Tal como nos privados somos nós os cidadãos  que somos chamados a pagar os calotes coleccionados pelos seus brilhantes gestores.
Alguém no seu juízo perfeito podia ignorar a forma como a Caixa Geral de Depósitos financiou anos a fio operações especulativas na Bolsa, a comprar empresas cujo valor era menos que zero? Alguém podia ignorar que algumas das maiores fortunas do país eram verdadeiros ídolos com pés de barro? Gente atolada em dívidas, com um endividamento monumental e cuja única fonte de rendimento era encontrar algum amigo influente capaz de autorizar um financiamento de centenas de milhões de euros, garantido pelo obra e graça do Espírito Santo - e não estou a falar do ex-dono disto tudo?

Alguém ignora que a maioria dos empreendimentos imobiliários que serviram de pasto a muitos dos mais poderosos, novos e velhos ricos, da sociedade portuguesa, foram verdadeiras operações de papel, nunca chegando ao terreno?  Alguém duvida dos milhões que  se perderam por essa via?
Será que alguém dúvida dos milhões de luvas que foram recebidos por quem autorizou esses financiamentos, usando o poder que tinha recebido para o fazer?

Há uma leitura hipócrita a partir da "nova revelação" de velhas realidades. Fala-se como se não se soubesses, como se fosse um assunto que permanecia no segredo dos Deuses.

Afinal quanto custou a recuperação das antigas banca privada e pública portuguesa depois da intervenção da Troika ? Dezassete mil milhões de euros, não foi? Será que alguns dos cromos que ocupam tempo de antena no espaço público ainda continuam a cantar a canção do ceguinho, ligando  a origem da crise a uma imoderada propensão para  o consumo e vida fácil que os pobres cidadãos  portugueses sempre revelaram, coitados deles?

Alguém acha que estamos a fazer esforços sérios para mudar aquilo que tendo estado mal para a generalidade foi a razão do farto sucesso de alguns poucos?

Há um lado rotineiro na forma como se escreve a história da pobreza e da desigualdade em Portugal. Há um grande know-how, um savoir-faire que tem sido muito aperfeiçoado. Os resultados são visíveis.

Guaido é o mais parecido com o que a Venezuela tem com um presidente legítimo

Sim, não foi eleito (pelo menos diretamente), mas para todos os efeitos Maduro também não (aquelas eleições do ano passado foram sem dúvida uma farsa, e num ambiente em que não havia praticamente condições para a oposição fazer uma campanha em igualdade de circunstâncias).

Portanto, atendendo a que se pode considerar que a presidência da Venezuela ficou vaga quando acabou o primeiro mandato de Maduro, nada mais natural do que avançar o presidente do parlamento - é a norma em grande parte do mundo (se em Portugal acontecesse alguma coisa ao Marcelo, seria o Ferro Rodrigues a substitui-lo); é verdade que nos regimes presidencialistas há vice-presidentes, que por norma é quem substitui o presidente - mas se considerarmos que não houve uma eleição válida, também o cargo de vice-presidente está vago (de qualquer maneira, penso que o cargo de vice-presidente na Venezuela funciona de forma algo peculiar - penso que o presidente pode nomear e destituir vice-presidentes à vontade).

E, de qualquer maneira Guaido foi eleito - ele foi eleito presidente pela Assembleia Nacional, que por sua vez foi eleita em 2015, no que parece ter sido a última eleição livre e legal na Venezuela.

23/01/19

A tirania do politicamente correto

As pessoas que se estão sempre a queixar da tirania do politicamente correto e que "já não se pode dizer nada que fica logo tudo ofendido" andam pelas redes sociais a dizer que o Mamadou Ba devia levar porrada por ter dito "a bófia da polícia" (ou no mínimo, a insinuar que se isso acontecesse era justificado).

Sugestão que me deram quando andava a procura de emprego

E de pessoas relativamente conservadoras e ligadas ao mundo dos negócios:

Já que eu punha no curriculum "Naturalidade: Moçambique", era melhor juntar uma fotografia.

A extrema-direita é uma reação à extrema-esquerda?

Assim o escreve o Rui Albuquerque, no Blasfémias ("Por que é que não existiu em Portugal, até agora, um partido de extrema-direita forte? Porque nunca tinha existido um partido forte de extrema-esquerda. A extrema-direita é, hoje, na Europa e no Mundo, somente uma reacção.").

Será? Para verificar se isso poderia fazer algum sentido, foi pegar nas eleições europeias de 2014 (que, para este exercício, têm a vantagem de terem sido feitas todas na mesma altura e em todos os países da UE - e sobretudo, de os links para os resultados estarem todos os juntos) e ver se a extrema-direita e a extrema-esquerda têm os melhores resultados nos mesmos países (que é o que seria de esperar se uma for a reação à outra).

Claro que para começar é preciso definir quem é de extrema-esquerda e quem é de extrema-direita. Os critérios que segui:

- Como claramente o Rui Albuquerque não está incluído o PCP na sua definição de extrema-esquerda (eu também não incluo, já agora), mas apenas o BE (e presumivelmente os extra-parlamentares), vou definir como "extrema-esquerda" os partidos que integram o Grupo da Esquerda Unitário Europeia/Esquerda Verde Nórdica no Parlamento Europeu, excluindo os partidos comunistas mais tradicionais (o que pode ter alguma subjetividade - eu pus de fora o PCP, a Esquerda Plural espanhola, o KKE grego, o Partido Comunista da Boêmia-Morávia e o AKEL de Chipre) e os "animalistas" (que têm uma agenda muito própria). Já agora, é interessante o que esse critério (considerar o BE mas não o PCP na extrema-esquerda) pode significar para esta discussão (ver também este meu post de 2008).

Poderá se perguntar se não deveria incluir também os Verdes/Aliança Livre Europeia, que tendem bastante para a esquerda nas "questões fraturantes", mas acho que isso já era uma grande salada, e hoje em dia a maior parte já está muito longe de poderem ser chamados extrema-esquerda (mesmo que efetivamente partilhem muito ADN com os membros não-"comunistas ortodoxos" da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica, na medida em que ambos são muito herdeiros de 1968, mas isso já foi há mais de meio século). Inversamente, poderia só ter incluído partidos ligados à Esquerda AntiCapitalista Europeia, mas aí eram tão poucos (Bloco de Esquerda, Syriza, Esquerda Unida espanhola e a Aliança Vermelha-Verde dinamarquesa) que eram impossível tirar qualquer conclusão.

- Na extrema-direita, inclui todos os partidos que integram o Grupo Europa das Nações e das Liberdades + os que integram o Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus que não sejam partidos tradicionais de governo (ou seja, tirando os Conservadores britânicos, a Lei e Justiça polaca e o Partido Democrata Cívico checo) + os da Europa da Liberdade e da Democracia Direta com a exceção do 5 Estrelas italiano e do Partido dos Cidadãos Livres da República Checa + os não-inscritos que são quase abertamente neonazis ou neofascistas (NPD alemão, Aurora Dourada grega, Jobbik húngaro; se quiséssemos mesmo um critério objetivo para os identificar poderia ser a filiação presente ou passada na Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus ou na Aliança para a Paz e a Liberdade). Depois houve um ou outro que exclui a olho por os achar (pela descrição da wikipedia...) muito longe da extrema-direita.

Aqui poderá haver quem não concorde com a minha decisão de não incluir a Lei e Justiça polaca nem o 5 Estrelas italiano na extrema-direita, ou até quem ache que se deveria incluir também o Fidesz húngaro, mas acho que o Fidesz e a Lei e Justiça estão muito mais integrados no mainstream que os partidos normalmente considerados na extrema-direita, e o 5 Estrelas só recentemente assumiu uma posição claramente de direita em temas como a imigração.

Outra complicação foram coligações envolvendo partidos de várias ideologias, em que me guiei pelo que me pareceu a corrente dominante.

Portanto, vamos aos resultados:


País comunista clássico extrema-direita extrema-esquerda
Alemanha
8,07 7,39
Áustria
19,72
Bélgica
4,26
Bulgária
10,66
Chipre 26,98

Croácia
0
Dinamarca
10,3 8,1
Eslováquia
0
Eslovénia
0
Espanha 10,03
10,06
Estónia
0
Finlândia
12,9 9,3
França
18,52 6,61
Grécia 6,11 12,85 26,57
Hungria
14,67
Irlanda

19,5
Itália
6,15 4,03
Letónia
14,3
Lituânia
14,25
Luxemburgo
0
Malta
0
Países Baixos
20,99 9,64
Polónia
7,15
Portugal

4,56
Reino Unido
26,6 1
República Checa 10,98

Roménia
0
Suécia
9,67 6,3

Só inclui os partidos que elegeram deputados (os que não elegeram são tantos e têm tão pouca representatividade que o trabalho de os incluir seria muito maior que a alteração que isso provocaria nos resultados).

Correlação entre as votação da extrema-direita e da extrema-esquerda : 0,1342, um valor praticamente insignificante, e mesmo esse inflacionado por em 9 países (sobretudo pequenos países que elegem poucos deputados, o que torna difícil a grupos "extremistas" serem eleitos) não haver representantes nem da extrema-direita nem da extrema-esquerda (como há muitos países em que ambos têm zero, isso amplifica a correlação); se excluirmos os 9 países em que nenhuma tem representação, a correlação desde para -0,22 (ou seja, a extrema-direita teria mais votos nos sítios onde a extrema-esquerda é mais fraca, e vice-versa). De qualquer maneira, isso parece refutar a tese que a extrema-direita é uma reação contra a extrema-esquerda.

Poderá-se contra-argumentar que a força da extrema-direita nalguns países de Leste é também uma forma de reação ao domínio que a extrema-esquerda terá tido durante décadas nesses países. É uma hipótese que não joga bem com a premissa inicial de excluir os comunistas tradicionais da extrema-esquerda, e de qualquer maneira dá-me a ideia que a força da extrema-direita na Europa de Leste é um fenómeno relativamente recente nalguns países (nos anos 90 do século passado, a bipolarização era entre ex-comunistas e grandes frentes "democráticas" anti-comunistas, sem grande espaço paea uma extrema-direita autónoma). Mas podemos refazer o cálculo excluindo a Europa de Leste - se tirarmos a Bulgária, Croácia, Eslovénia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa e Roménia a correlação baixa para 0,093, ainda mais reduzida.

Partidos e coligações que incluí na extrema-direita:

AfD (Alemanha)
NPD (Alemanha)
FN (França)
UKIP (Reino Unido)
Liga Norte (Itália)
Congresso da Nova Direita (Polónia)
PVV (Países Baixos)
CU-SGP (Países Baixos)
Vlams Belang (Bélgica)
Aurora Dourada (Grécia)
Gregos Independentes (Grécia)
Jobbik (Hungria)
Democratas Suecos (Suécia)
FPO (Áustria)
BBT/VMRO (Bulgária)
Partido Finlandês (Finlândia)
Partido do Povo Dinamarquês (Dinamarca)
Ordem e Justiça (Lituânia)
Aliança Nacional (Letónia)

Partidos e coligações que incluí na extrema-esquerda:

Die Link (Alemanha)
Frente de Esquerda (França)
Sinn Féin (Reino Unido e Irlanda)
Outra Europa (Itália)
Podemos (Espanha)
Os Povos Decidem (Espanha)
Partido Socialista (Países Baixos)
Syriza (Grécia)
Bloco de Esquerda (Portugal)
Esquerda (Suécia)
Aliança de Esquerda (Finlândia)
Movimento Popular Anti-EU (Dinamarca) - na prática, é quase a mesma coisa que a Aliança Vermelha-Verde

19/01/19

Brexit, UE e CEE

Nos últimos dias tem se tornado viral um texto de José Meireles Graça dizendo "O Brexit é um pesadelo, mas é um pesadelo porque a União Europeia é um pesadelo. Não só a saída da CEE nunca levantaria o mesmo tipo de problemas como é improvável que dela algum país quisesse sair. E o que se vislumbra por trás do projecto de acordo derrotado hoje, um ilegível mastodonte com quase 600 páginas, é que é mais difícil sair da UE do que foi, por exemplo, a separação da Eslováquia da República Checa (...).

Mas se depurarmos bem essa conversa, acho que se resume a "é muito mais fácil sair de um emprego em que se ganha o salário mínimo do que de um emprego onde se ganha 10.000 euros por mês" - se a Grã-Bretanha saísse da CEE em 1985, ficaria mais ou menos como ficará em caso de sair sem um acordo agora: os produtos ingleses teriam que pagar taxas para entrar na UE/CEE e ser sujeitos a inspeções na fronteira para ver se estão de acordo, ou com os regulamentos de qualidade da UE, ou com os regulamentos de qualidade de cada um dos países da CEE; a diferença, que torna talvez mais dífiicl sair da UE do que seria sair da CEE é que toda a economia já está "viciada na droga" dos produtos puderem circular de uns países para os outros sem terem que estar sujeitos aos regulamentos de qualidade específicos de cada país e vai ser complicado o "desmame".

Atenção que acima falo da Grã-Bretanha, não do Reino Unido, mas o problema fundamental da saída do Reino Unido é similar - é verdade que, se em 1985 o Reino Unido tivesse saído da CEE, não haveria todos aqueles problemas de "como é que as pessoas vão passar de Armagh para Ballyalbany?" ou "voltaremos a ter combates UVF versus IRA versus exército britânico?"; mas esses problemas não se colocariam pelo simples facto que ainda havia (acho) barreiras na fronteira e o IRA, o exército britânicos e as milícias lealistas continuavam a combater-se; claro que sem acordo da Sexta-Feira Santa e sem processo de paz, não haveria o problema de conciliar o Brexit com os acordos feitos (que foram feitos na premissa que tanto o RU como a Irlanda pertenciam à UE, o que tornava mas fácil a ambas as partes aceitarem um compromisso, já que tornava menos relevante a questão "Londres ou Dublin?"), mas é o mesmo que disse acima - a situação na Irlanda do Norte dificilmente ficará pior do que ficaria em 1985 (p.ex., por mais confusões que haja, duvido que a guerra regresse), só que entretanto toda a gente se habituou a uma situação muito melhor.

Mas deixando de lado a questão da Irlanda do Norte, eu diria que o grande problema do Brexit é que a ideologia de base dos brexiters (uma espécie de liberalismo económico anti-globalismo mas pró-globalização) muito provavelmente não faz sentido (pelo menos na realidade do mundo atual) - um Brexit feito por nacionalistas económicos (fossem de direita à maneira de Trump ou de Le Pen ou de esquerda como possivelmente parte do Labour de Corbyn) talvez pudesse dar algo coerente (gostássemos desse projeto coerente ou não); o Brexit dos liberais económicos do European Research Group ou do Legatum é provavelmente um projeto condenado a não ir dar a lado nenhum.

Para perceber melhor, vamos imaginar só dois países; há várias hipóteses da se processar o comércio entre eles:

a) Fazem em conjunto os regulamentos de qualidade dos produtos, e os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

b) Um dos países compromete-se a ter regulamentos de qualidade decalcados dos do outro, e de novo
os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

c) Cada país têm os seus próprios regulamentos de qualidade, e os produtos de cada país têm que ter alguma espécie de inspeção na fronteira para ver se estão de acordo com os regulamentos do país de destino

d) Nenhum dos países tem regulamentos de qualidade (sendo supostamente a qualidade dos produtos assegurada pelo jogo da oferta e da procura),  e os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

A atual UE é basicamente a situação a); o tratado que havia sido negociado com o governo britânico era uma espéce de b) - o Reino Unido continuava a reger-se pelos regulamentos comunitários, e só deixava de participar nas reuniões da UE (ficando assim uma espécie de protetorado ou de estado-vassalo); c) é o que provavelmente o Brexit irá dar; d) é provavelmente o sonho da ala liberal dos Brexiters, mas isso (deixar de haver regulamentos a dizer que características determinados bens podem ou devem ter), goste-se ou não, não está  em cima da mesa em praticamente nenhum país do mundo desenvolvido.

10% das pessoas que divulgam estatísticas falsas na internet são filhas de mães sozinhas?

Para falar a verdade, não faço ideia.

Mas está na moda (pelo menos acerca dos EUA)  alegar factóides como:

- 70% dos presidiários foram criados por mães solteiras
- 70% dos delinquentes juvenis foram criados por mães solteiras
- 70% dos toxicodependentes foram criados por mães solteiras
- 71% dos alunos que não acabam o secundário foram criados por mães solteiras
- 85% das crianças com problemas de comportamento são de famílias sem uma figura paternal(?)
- 71% das adolescentes grávidas são de famílias sem um pai
- 26 dos 27 assassinos em massa mais mortíferos cresceram em famílias sem pai

etc., etc.

Mas isto será verdade?

Há um conjunto de fontes que costumam ser apresentadas como prova dessas afirmações (seguindo o link acima - ou então este, para qual o outro linka -, facilmente as encontrarão - mas atenção que as fontes não são muito fáceis de verificar, já que muitas vezes são apenas "Center for Disease Control" ou "National Principal's Association Report", sem indicar anos, títulos de documentos, etc.).

Mas a mais fácil de refutar é a dos "26 em 27 assassinos em massa" (foi isso que, aliás, me chamou a atenção, porque já tinha há tempos tido essa conversa e chegamos à conclusão que eram fake news) - vamos pegar numa lista deles, e facilmente vemos que pelo menos Charles Whitman, Omar Mateen, Jiverly Antares Wong, Eric Harris, Dylan Klebolde e Seung-Hui Cho parecem (lendo os artigos da wikipedia...) ter sido criados por ambos os pais; o James Oliver Huberty não é muito claro, mas a impressão que me dá é que quem se pôs a andar foi a mãe; os pais do George Hennard divorciaram-se tinha ele uns 26 anos; vi só uns quantos, mas é suficiente para refutar a teoria dos "26 em 27" (mas o que isso adianta? Já se viu que essa conversa recusa-se a morrer...).

A estatística dos 70% de delinquentes juvenis parece vir do Survey of Youth in Custody, 1987 [pdf], divulgado em setembro de 1988 como um "relatório especial" - pelo menos aqui é é dito que "70% of juveniles in state operated institutions have no father. [US Department of Justice, Special Report, Sept. 1988]" e (a respeito das drogas e álcool) que "70% of youths in state-operated institutions come from fatherless homes – 9 times the average.  (U.S. Dept. of Justice, Sept. 1988)".

Isso (que 70% dos internados em casas de correção vêm de famílias sem pai) é quase verdade (são para aí uns 65% - os 70% referem-se a famílias sem um dos país, seja o pai ou a mãe), mas a versão de que "70% dos delinquentes juvenis são filhos de mães sozinhas" é claramente falsa: são cerca de 50% (nem todas os jovens que não vivem com o pai vivem necessariamente com a mãe):




O número dos toxicodependentes é claramente (pelos motivos que já expliquei) copiado daqui; a respeito dos 70% também para os presidiários não se encontram  nem sequer nas supostas fontes apresentadas (onde diz que " A 2002 Department of Justice survey of 7,000 inmates revealed that 39% of jail inmates lived in mother-only households." mas também que "85% of youths in prisons grew up in a fatherless home. [Fulton County Georgia jail populations, Texas Department of Corrections, 1992]" - afinal são 39%, 70% ou 85%?). Tudo indica que os "70% de presos criados por mães sozinhas" são os mesmos 70% internados em casas de correção, que, repetidos de link para link, com cada blogger que escreve sobre o assunto a usar palavras ligeiramente diferentes, passaram de "juveniles in state operated institutions" para "prison inmates" (ou seja, além da estatística ser manhosa, ainda anda a ser reciclada para várias coisas - e, já agora, não se arranja uma estatística mais recente que essa de 1987???)

Já agora, o estudo do Departamento da Justiça dos EUA de 2002 realmente diz que 39% dos presos vêm de famílias só com a mãe [pdf, ver página 9] (no total, 52% vêm de famílias sem pai); quanto ao "Fulton County Georgia jail populations, Texas Department of Corrections, 1992", não o consigo achar (praticamente tudo o que se encontra quando procuro isso no Google são artigos sobre a importância dos pais na educação dos filhos), mesmo restringindo a busca a sites oficiais do governo do Texas (já agora, porque é que o governo do Texas publicou um estudo sobre a população prisional de um concelho na Geórgia? E em 1992 o Departamento de Correções do Texas já não existia, porque em 1989 tinha sido fundido com outros para dar origem ao Departamento de Justiça Criminal do Texas). Procurando no site do Departamento de Correções da Geórgia, encontro um relatório de 2013 dizendo (pdf, página 17) que apenas 37% dos presos que foram presos na Geórgia em 2012 tiveram o pai (sozinho ou com a mãe) como guardião legal (ou seja, 63% seria de "famílias sem pai") - mas apenas 45% tinham uma mãe sozinha como guardiã (a diferença são avôs, famílias de acolhimento, etc.).

Quanto aos "71% dos alunos que não acabam o secundário foram criados por mães solteiras" a fonte é o "National Principals Association Report on the State of High Schools"; mas o problema é que googlando a única coisa que me aparece são sites, artigos e livros a repetir essas estatísticas - o único sinal de existência no mundo desse relatório parece ser o ser referido como a fonte dessa estatística; nem é muito claro o que é sequer o "National Principals Association", será a National Association of Secondary School Principals? Se é, no seu site não há qualquer referência a tal estudo (nem é muito claro em que ano foi feito esse estudo, embora tenha descoberto sites que digam que é de 2001).

Quanto ao "85% of children with behavioral disorders are from homes without a father" - a fonte é o Center for Disease Contro; vamos lá ver o que diz o CDC- Family Structure and Children’s Health in the United States:Findings From the National Health Interview Survey, 2001–2007 (pdf, página 154, tabela 63 - Frequencies of children aged 4–17 with definite or severe emotional or behavioral difficulties, by family structure and by selected characteristics: United States, 2001–2007):

Haverá 2 milhões e 851 mil crianças e jovens nos EUA com severos problemas emocionais ou comportamentais, dos quais 779 mil (27%) vivem em famílias tradicionais e 729 mil (26%) em famílias monoparentais (o resto é adoções, uniões de facto, famílias alargadas, etc.); por estes resultados, no máximo 73% dessas crianças e jovens viverão em famílias sem um pai (e provavelmente será muito menos - algumas das monoparentais terão o pai em vez da mãe, e das 47% de tipos variados - adoções, uniões de facto, etc - haverá algumas também com um pai, biológico ou adotivo). Agora, é verdade que o que se falava era de " behavioral disorders" e eu fui buscar uma estatística para "severe emotional or behavioral difficulties", mas foi o que consegui arranjar (eu nem me admirava que o tipo "agressivo/impulsivo" - " behavioral" - esteja realmente sobre-representando entre os filhos de pais separados em proporção face ao tipo nervoso - "emotional" - mas não há aqui dados sobre isso).

Quanto a "71% of pregnant adolescents do not have their father in the home", a fonte apresentada é 
"[U.S. Department of Health and Human Services press release, Friday, March 26, 1999]", que é de certeza isto.

Esse comunicado de imprensa não refere diretamente percentagens do tipo "x% das pessoas que têm um dado problema não têm um pai em casa", mas é possivel chegar a esses valores fazendo uns cálculos adicionais - lá é dito que "More than a quarter of American children—nearly 17 million—do not live with their father. Girls without a father in their life are two and a half times as likely to get pregnant" - se uma em cada quatro raparigas viver sem o pai, há 3 vezes mais raparigas em viver em famílias com pai; e as raparigas que vivem em famílias sem pai têm 2,5 vezes mais probabilidade de engravidarem - mas como há 3 vezes mais raparigas a viver em famílias com pai, para cada 25 raparigas sem pai que engravidam, haverá 30 com pai que engravidam

A - total de raparigas que vivem em famílias sem pai
Ai - total de raparigas que vivem em famílias sem pai e ficam grávidas na adolescência
B - total de raparigas que vivem em famílias com pai
Bi - total de raparigas que vivem em famílias com pai e ficam grávidas na adolescência

A/(A+B)=1/4 ↔ B = 3*A

Ai/A = 2,5* Bi/B

Ai/A = 2,5*Bi/(3*A) → A1 = 2,5*Bi/3 ↔ Bi = 3*Ai/2,5

Ai/(Ai+Bi) = Ai/(Ai + 3*A1/2,5) = Ai/(5,5*Ai/2,5) =2,5/5,5 = 45,5%

Ou seja, cerca de 46% das mães adolescentes serão de famílias sem pai (um pouco mais, já que no comunicado diz "mais de um quarto"); de onde é que eles foram buscar os 71%? Tenho uma teoria - 71% era quase exatamente o que resultaria se o "two and a half times as likely to get pregnant" fosse combinado com uma igual quantidade de raparigas de famílias com e sem pai no conjunto da população (para cada rapariga com pai a ficar grávida haveria 2 e meia sem pai a ficarem grávidas , e 2,5 num total de 3,5 é 71%).

Poderá se argumentar que o rácio de um quarto (ou mesmo mais de um quarto) está desatualizado, e que agora 43% das crianças e jovens dos EUA crescem em famílias sem pai (pelo menos é o que também é dito nas tais estatísticas, e já são quase 3 da manhã e não vou conferir essa), o que alterará os resultados, mas:

a) Já é muito arrojado pegar na probabilidade (os tais mais 2 vezes e meia) apresentada no comunicado de 1999 e ir aplicá-la à distribuição demográfica atual (e ainda mais quando a fonte apresentada é apenas o comunicado de 1999, sem indicações de "extrapolado para tendências posteriores")

b) Mesmo que fossemos refazer os cálculos assumindo 43% de jovens vivendo em famílias sem pai, isso daria apenas 65% de mães adolescentes oriundas de famílias sem pai, não os tais 71%

Já agora, nesse comunicado também diz "Both girls and boys are twice as likely to drop out of high school, twice as likely to end up in jail and nearly four times as likely to need help for emotional or behavioral problems". Podemos aplicar exatamente o mesmo cálculo que fizemos acima para estimar as probabilidades para isto tudo, nomeadamente para o abandonar os estudos (o tal valor cuja fonte é um relatório mistério de uma associação talvez misteriosa):

Como os filhos de famílias sem pai têm o dobro da probabilidade de não acabarem o secundário, é só pegar nas contas que fizemos lá acima e substituir "Ai/A = 2,5* Bi/B" por "Ai/A = 2* Bi/B", e assumir que estamos a falar de jovens em geral em vez de raparigas (e que Ai e Bi significa abandonar o secundário) - e o resultado é.... 40% dos alunos que não acabam o secundário são (ou seriam, em 1999) de famílias sem pai (e não os tais fantasmagóricos 71%). [Por outro lado, isso também implicaria que só 40% dos que acabam na prisão fossem de famílias sem pai, o que é um pouco inferior - dos resultados do tal relatório de 2002 (que dizia que 52% dos presos vem de famílias sem pai).]

Quando ao "need help for emotional or behavioral problems" (em que a probabilidade é quatro vezes maior), isso daria que cerca de 57% das crianças e jovens a precisar de ajuda para problemas emocionais ou de comportamento seria de famílias sem pai.

Resumindo - quase nenhuma das estatísticas apresentadas parece corresponder à realidade, de acordo com as próprias fontes referidas (a dos 70% dos delinquentes juvenis estaria correta se fosse a percentagem de "não cresceram com ambos os pais" em vez de "cresceram apenas com a mãe"). Interrogo-me, aliás, se quem divulga essas pseudo-estatísticas vai conferir às fontes, ou se se limita a fazer "copiar-colar" ou "partilhar".

O paradoxal daqui é que mesmo com estatísticas verdadeiras haveria um caso forte para se considerar que é bom as crianças e jovens viverem com o pai (ou pelo menos terem-no como uma presença constante na sua vida) - para quê inventar números alucinados? E para quê essa obsessão com 70% ou 71%? Será algo de esotérico?

Uma nota final - estes números costumam ser apresentados no contexto das discussões sobre a custódia dos filhos de pais separados (a maior parte dos sites que me aparecia quando andava à procura de algum documento eram sites sobre os direitos dos pais divorciados); não se leia a minha crítica a esses números como uma oposição à atribuição de um maior papel aos pais na tutela dos filhos em caso de separação ou divórcio (aliás, se me guiar só pelas notícias dos jornais - ou seja, não estou a invocar nenhuma estatística oficial - dá-me a ideia o típico agressor, tanto físico como sexual, de crianças e jovens é o padrasto, o que poderá indiciar que muitas crianças e jovens até estarão mais seguros na casa do pai do que na da mãe; mas isto é apenas uma especulação da minha parte).

Vagamente sobre isto, ver também este meu post de 2013,Divórcio vs. Viuvez.

15/01/19

Política, poder e dinheiro

Ainda a respeito disto, suspeito que muita coisa é melhor explicada se vista em termos de luta pela poder (ou pelo menos por status) do que por dinheiro em sentido estrito (já agora, ver também este post sobre o teletrabalho, que acaba por andar também à volta disso). Talvez durante grande parte da nossa história evolutiva as diferenças de poder ou status fossem mais relevantes das estritamente materiais - afinal, num clã de caçadores-recoletores provavelmente não há riqueza suficiente para ser possível sequer existir uma classe de ricos, mas já é possível existirem indivíduos muito mais influentes (ou por serem mais fortes, ou mais conhecedores, ou criarem melhores estratégias de caça, ou...) que outros (mas provavelmente já estou a divagar; daqui a pouco começo a fazer teorias envolvendo a dinâmica social de crustáceos marinhos...).

Alguns exemplos:

- Para níveis de rendimento similares, trabalhadores por conta de outrem tendem a ser mais de esquerda do que trabalhadores por conta própria; não haveria grande razão para isso se o único motivo de votar em políticas redistributivas fosse ter mais dinheiro, mas já fará se considerarmos que o verdadeiro problema é mais a submissão hierárquica do que o dinheiro

- Há muito mais polémica com altos ordenados de gestores do que de futebolistas ou celebridades do audiovisual; de novo, faz mais sentido se assumirmos um problema de poder do que propriamente de dinheiro (os gestores são poderosos, podem tomar decisões que - como consumidores dos seus produtos ou trabalhadores das suas empresas - podem afetar as nossas vidas, e por isso os seus altos vencimentos suscitam mais desconfiança)

- A usual oposição da classe patronal a medidas de expansão económica keynesiana, no mecanismo que Kalecki explicou há muitos anos (Political Aspects of Full Employment [pdf]): a economia crescer até pode ser maior para os seus lucros, mas muitos empresários gostam que haja muito desemprego porque isso lhes dá mais poder sobre os seus empregados

- O aparente entusiasmo dos conservadores norte-americanos (cuja ideologia supostamente é o "fusionismo" entre conservadorismo moral e liberalismo económico) por Donald Trump, com uma vida privada muito pouco cristã-evangélica e nem particularmente liberal na economia (protecionista, às vezes a favor de mais investimento público, muito menos anti-"estado social" que o típico Republicano...). Mas se considerarmos que o conservadorismo moral é apenas uma capa para defender a autoridade dos maridos sobre as mulheres e o liberalismo económico uma capa para defender a autoridade dos patrões sobre os empregados, tudo faz sentido: o perfil "machão" de Trump e a imagem de patrão autoritário que ele cultiva (nos seus reality shows - em que a imagem de marca dele era o "you are fired!" - ou na forma como enxovalha publicamente os seus assessores caídos em desgraça) representam ao objetivo final do programa conservador (mulheres e assalariados "no seu lugar"), mesmo que ele não se identifique muito com os meios preferidos dos conservadores ("valores familiares", "governo pequeno") para atingir esses objetivos (estes três artigos de Paul Krugman são interessantes a esse respeito).

- A atitude face à "caridade"; se a ideia for redistribuir rendimento, a caridade privada, à partida, seria tão boa como o estado social. Mas em termos de relações de poder social, é completamente diferente - se alguma coisa, pobres que estejam dependentes da caridade de um benfeitor se calhar estão ainda mais num estado de subordinação hierárquica do que pobres que tenham ajuda de ninguém

- A existência de greves: em termos puramente económicos, há uma certa irracionalidade num trabalhador fazer greve - perde um dia de ordenado e, caso a greve resulte, beneficiara de qualquer maneira, mesmo que não tivesse feito greve (nota - esta aparente irracionalidade é menos irracional se existirem fundos de greve); mas se há uma questão de poder pelo meio, a coisa muda de figura: durante a greve, em vez de o trabalhador ser o pau-mandado que faz o que lhe mandam, é o patrão ou o chefe que pode estar desesperado porque precisa do trabalho dele e não o tem ali ao pé, levando quase a uma inversão temporária (e se calhar mais psicológica do que real...) da relação de dependência.

Ora, se vermos a política como tendo a ver mais com relações de subordinação hierárquica do que apenas com economia no sentido mais estrito, faz sentido que muitas vezes as questões "sociais" tenham mais relevância que as "económicas"- pelo menos no ponto em que o debate político está atualmente, grande parte das políticas sobre "costumes" mexem quase diretamente com as relações de poder existentes na sociedade (ao ponto de serem chamadas pelos seus detratores de "engenharia social"); já as políticas económicas afetam não têm um efeito tão direto sobre as relações de poder (seria o caso se estivéssemos a discutir a autogestão ou o controlo operário - bem, nalguns países está-se a discutir a cogestão, e o RBI está a entrar na moda - mas o que se discute hoje em dia são sobretudo impostos e salários mínimos).

14/01/19

É a economia que distingue a esquerda da direita?

No Twitter, Daniel Oliveira escreve que "[o] que define a esquerda e a direita é a economia, o papel do Estado, os direitos laborais e a relação com o privilégio e a riqueza".  Será?

Em tempos escrevi que há uma tendência (...) para os movimentos políticos serem classificados no eixo esquerda-direita com base no assunto em que estiverem mais à direita: p.ex., um liberal económico e progressista nos "costumes" é "de direita"; e um conservador nos costumes defensor da economia mista é também "de direita"; e um defensor da democracia popular de base, da autogestão e de comunidades etnicamente puras (...) seria provavelmente considerado de "extrema-direita".

Mas se fosse preciso escolher mesmo uma das dimensões como a mais importante, eu até diria que a cultura é mais relevante para distinguir a esquerda da direita do que a economia - veja-se que partidos democratas-cristãos (mesmo nas décadas a seguir à II Guerra Mundial, em que eram muito menos liberais na economia do que são agora), que são conservadores nos costumes e quase social-democratas na economia são normalmente classificados como "direita" (e que dizer de partidos como  a Lei e Justiça polaca, o Fidezs húngaro, os Gregos Independentes, ou o Partido do Povo Dinamarquês, que também estão muito longe de serem liberais na economia, mas são frequentemente rotulados de direita ou até de extrema-direita? E ninguém diz que o Tucker Carlson ou a Ann Coulter estão a virar à esquerda); e, inversamente, partidos como os Radicais franceses, liberais na economia (mesmo que por vezes o Partido Radical juntasse "socialista" ao seu nome) mas anticlericais eram frequentemente classificados na "esquerda". Ou seja, mesmo um gráfico como o que eu fiz no fim deste post (em que tanto o eixo "tradicionalista-cosmopolita" como o "liberalismo-intervencionismo" contam para a distinção "direita-esquerda") deveria se calhar ter uma ligeira rotação no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio, para dar ao eixo "tradicionalista-cosmopolita" um pequeno predomínio sobre o eixo "liberalismo-intervencionismo" para distinguir a direita da esquerda.

11/01/19

A Constituição proíbe o fascismo?

Muita gente anda a dizer que a Constituição proíbe o fascismo - é verdade?

Resposta simples: não.

O que a Constituição proíbe são associações de ideologia fascista - não há nada na Constituição que proíba alguém de ser fascista a nível individual, nem de ir à televisão (mesmo que seja para defender o fascismo).

07/01/19

Textos que envelheceram mal

Comecei a ler "To Our Friends"[pdf], do "Comité Invisível" (os autores de "A Insurreição que vem"). Começa com:
The insurrections have come, finally. At such a pace and in so many countries, since 2008, that the whole structure of this world seems to be disintegrating, piece by piece. Ten years ago, predicting an uprising would have exposed you to the snickers of the seated ones; now it’s those who announce a return to order who make themselves look foolish. Nothing more solid, more self-assured, we were told, than the Tunisia of Ben Ali, the busy Turkey of Erdogan, social-democratic Sweden, Ba’athist Syria, Quebec on tranquilizers, or the Brazil of beaches, the Bolsa Familia, and peace-keeping police units. We’ve seen what followed. Stability is finished. In politics, too, they’ve learned to think twice before awarding a triple A.
Sim, a estabilidade terminou, mas a direção em que as coisas se desestabilizaram em quase todos esses países (Brasil, Turquia [onde Erdogan se re-estabilizou logo depois de ter sido desestabilizado], até mesmo a Suécia) é capaz de não ter sido a melhor.

05/01/19

"Greve" da Uber

Motoristas da Uber têm “boicote” marcado para este sábado (Sapo):
Se pedir um Uber amanhã é capaz de demorar mais a ter resposta. No Porto e em Lisboa, a intenção é protestar contra o modelo de tarifa proposto pela plataforma de transportes, “parando” ou dando preferência à concorrência.
A página do Facebook que parece estar a organizar o protesto - https://www.facebook.com/DUROS-Do-PORTO-TVDE-354215942080851/

02/01/19

O "modelo nórdico" da prostituição não pune as prostitutas?

Nalguns sectores e países tem estado na moda o chamado "modelo nórdico" no combate à prostituição - criminalizar os clientes mas não as prostitutas (há dias no Público havia uma crónica sobre isso, em tom crítico). Mesmo recentemente o Congresso dos EUA aprovou normas que vão em parte nesse sentido e Israel provavelmente fará o mesmo.

Mas será que punir os clientes não acaba por prejudicar as prostitutas?

Vamos imaginar um modelo simples de oferta e procura:

A vermelho temos a oferta, a azul a procura, e inicialmente o preço será "P1" e a quantidade "Q1" (o preço está no eixo dos Yx e a quantidade no eixo dos Xs); até este momento não há grande diferença entre estarmos a falar de prostituição ou de ir ao cabeleireiro.

Agora vamos imaginar que começa a haver punições legais para os clientes das prostitutas; isso vai, em principio, reduzir a procura (para alguns poderá aumentar, em busca da emoção de estarem a fazer algo ilegal, mas duvido que esse efeito seja predominante).

A linha azul tracejada é a nova curva da procura, inferior à anterior: assim, o preço baixa de P1 para P2 e a quantidade também baixa de Q1 para Q2. Mas, se o preço dos seus serviços baixa, as prostitutas ficam sem dúvida prejudicadas - no esquema acima, o retângulo rosa corresponde ao prejuízo que as prostitutas têm pela baixa do preço (a área do retângulo corresponde à quantidade de serviços que vendem - Q2 - multiplicada pela redução do preço - a diferença entre P1 e P2). Se estivessemos a falar de outro serviço ou produto qualquer, tanto o retângulo rosa como o triângulo amarelo (este correspondendo ao prejuízo derivado de passarem a ter menos clientes) contariam como perdas de quem vende, mas como aqui reduzir a prostituição é mesmo o objetivo, vamos aceitar as premissas dos defensores do modelo nórdico e considerar que as prostitutas só são prejudicadas por passarem a receber menos por cliente, mas não por passarem a ter menos clientes.

Claro que o efeito total disto - sobretudo a questão do reduzir preço versus reduzir o número de clientes - depende do formato da oferta da prostituição; se as prostitutas tiveram muitas alternativas e puderem facilmente mudar de profissão se passarem a ganhar menos na prostituição, a oferta será largamente elástica (o que nos quadros acima corresponderá a uma linha perto do horizontal), pelo que uma redução da procura levará sobretudo a uma redução da prostituição, com uma pequena redução dos preços:

Numa situação destas, o prejuízo para as prostitutas é muito reduzido, quer o meçamos apenas pela redução dos preços que recebem (a área rosa), quer incluamos também o prejuízo por terem menos clientes (a área amarela). O que há é uma redução significativa da prostituição - ou seja, um sucesso quase total do "modelo nórdico" face aos objetivos proclamados: reduzir a prostituição sem prejudicar as prostitutas.

Mas esse cenário (em que as prostitutas podem facilmente mudar para outra profissão qualquer) fará sentido? Provavelmente não; aliás, são os próprios defensores do "modelo nórdico" que enfatizam que as prostitutas não o são por sua vontade verdadeiramente livre, mas sim porque frequentemente não têm alternativa, devido a uma combinação de pobreza, baixas qualificações, dependências e exclusões sociais diversas. Nesse caso, será mais realista assumir que a oferta da prostituição será largamente inelástica, e que não é por os preços que os clientes pagam subirem ou descerem muito que a prostituição vai aumentar ou diminuir muito. Nesse caso, os efeitos da criminalização dos clientes serão mais estes:

Ou seja, haver uma redução significativa dos preços, mas não grande redução do número de mulheres a se prostituir (condizente com o facto de não terem outra alternativa realista de vida) - o único resultado significativo será as prostitutas passarem a ganhar menos; ou seja, se as premissas dos defensores do "modelo nórdico" estiverem corretas (e eu suspeito que estão), então o resultado será exatamente o contrário do pretendido: grande prejuízo pessoal para as prostitutas, mas quase nenhuma redução da prostituição.

Mas podemos imaginar um cenário ainda mais radical; vamos supor três hipóteses (nenhuma das quais me parece especialmente irrealista):

a) prostituta mãe solteira/divorciada/abandonada que precisa de se prostituir diariamente até arranjar dinheiro para alimentar os filhos

b) prostituta toxicodependente que precisa de se prostituir diariamente até arranjar dinheiro para a dose

c) prostituta "de luxo" que fixou como objetivo de carreira ter X apartamentos para alugar numa zona turística e viver desses rendimentos  e que pretende prostituir-se até conseguir comprar esses apartamentos (ou outro plano de investimentos qualquer, mas suspeito que comprar apartamentos deve ser o investimento preferido - e mais seguro - das pessoas sem formação na área financeira)

Essa situações podem ser bastante diferentes nalguns aspetos, mas têm um ponto comum: todas estas três prostitutas estão numa situação em que têm que se prostituir até obterem uma dada quantidade de dinheiro; o corolário será uma curva da oferta invertida, em que quanto menor o preço que receberem por cliente, mas terão que trabalhar - no caso a) e b) terão que atender mais clientes por dia até obterem o dinheiro que necessitam (eu diria que esses dois casos são quase idênticos em termos económicos, embora possam ser diferentes a nível de eventuais juízos morais), no caso c), terá que se prostituir por mais anos até conseguir comprar os tais apartamentos.

Assim, se este efeito fosse geral, e a curva da oferta da prostituição tivesse mesmo uma inclinação descendente, o resultado seria este:

A redução da procura, além de reduzir os preços, iria ainda aumentar (em vez de diminuir!) a prostituição, devido ao tal efeito de terem que atender mais clientes para ganharem o dinheiro que precisam ou querem (neste modelo não estou certo que o prejuízo para as prostitutas seja exatamente a área que pintei a rosa, mas se não for anda lá perto) - ou seja, um fracasso total da política face aos objetivos pretendidos (diga-se que, apesar de tudo, não acredito muito neste cenário de uma curva da oferta invertida - mesmo que uma redução dos preços leve cada prostituta individual a ter que atender mais clientes, de certeza que também levará menos mulheres a prostituírem-se, o que provavelmente anulará o efeito anterior).

Uma objeção que poderá ser feita a este modelo é que estou a assumir uma prostituta que fica com o rendimento do seu trabalho - no caso de uma prostituta escrava, a baixa do preço do seu trabalho não a irá prejudicar a ela, mas sim a quem a mantêm aprisionada e a obriga a prostituir-se (ficando com o dinheiro e dando-lhe provavelmente apenas o necessário para não morrer de fome), e até diminuirá o incentivo a raptar mulheres para as obrigar a prostituir; mas é duvidoso que haja (no mundo real, e não no mundo das telenovelas brasileiras ou dos filmes de ação norte-americanos) mesmo uma quantidade significativa de mulheres sequestradas e obrigadas a prostituir-se (alguns artigos sobre o assunto em vários países); parte desse mito é capaz de derivar da ambiguidade da expressão "tráfico de pessoas" (veja-se que essas medidas são invariavelmente apresentadas como um meio de combater o "tráfico de pessoas") - como alguém escreveu, "tráfico de pessoas" é usado sem grande critério para dizer três coisas diferentes:

a) imigração ilegal
b) trabalho escravo
c) prostituição

O estereótipo da "vítima de tráfico" é uma mulher introduzida ilegalmente no país por uma rede de "tráfico" e obrigada a prostituir-se - ou seja, a tripla, combinando os três pontos; esta ambiguidade semântica contribui para criar a ideia de que grande parte das prostitutas são escravas: porque são prostitutas e frequentemente imigrantes ilegais, foram automaticamente "traficadas", de acordo com algumas definições de "tráfico"; e se foram "traficadas", então são escravas, já que outras definições de "tráfico" associam-no a trabalho escravo.

Diga-se que isto tem alguma semelhança com o principio da incidência económica do imposto, que diz que quem paga um imposto não é quem a lei diz que paga o imposto,  mas sim sobretudo que tiver um comportamento menos sensível a variações de preços, e que é indiferente a lei dizer que um dado imposto é pago pelo cliente ou pelo vendedor (ou pelo empregador ou pelo trabalhador) - não é totalmente igual (porque sanções criminais não são exatamente iguais a impostos) mas anda perto.

[Uma nota quase de última hora - recentemente foi divulgado um estudo concluindo que todas as formas de criminalização da prostituição, incluindo a criminalização apenas dos clientes, levam a maior violência contra as prostitutas - Associations between sex work laws and sex workers’ health: A systematic review and meta-analysis of quantitative and qualitative studies (via The Guardian e Richard Stallman)]

23/12/18

O Paul Krugman deveria ler mais

No seu artigo, The Case for a Mixed Economy, Paul Krugman escreve:
 I’ve had several interviews lately in which I was asked whether capitalism had reached a dead end, and needed to be replaced with something else. I’m never sure what the interviewers have in mind; neither, I suspect, do they. I don’t think they’re talking about central planning, which everyone considers discredited. And I haven’t seen even an implausible proposal for a decentralized system that doesn’t rely on price incentives and self-interest – i.e., a market economy with private property, which most people would consider capitalism.
Coisas que o Krugman poderia ler:
O primeiro é a descrição de uma economia descentralizada, com incentivos de preços, interesse próprio e uma economia de mercado, mas sem propriedade privada dos meios de produção; o segundo até poderá ser visto como uma economia com isso tudo (incluindo a propriedade privada dos meios de produção, com a exceção da terra), mas mesmo assim demasiado diferente daquilo a que normalmente se pensa quando se fala em capitalismo; no terceiro, são apresentadas várias modalidades de organização social, mas o tema dominante é o de uma economia descentralizada sem propriedade privada nem dinheiro.

Poderá dizer-se que tanto o socialista autogestionário como o mutualismo como o anarco-comunismo são absurdos ou impossíveis de realizar, mas Krugman vai mais longe - ele diz que nunca viu mesmo uma proposta implausível para uma economia descentralizada não-capitalista (e parece-me claro que propostas - e até bem pormenorizadas - até existem, independentemente de serem plausíveis ou não).

Estas abaixo não sei se contarão - em rigor, talvez sejam melhor descritas como economias centralizadas mas sem uma autoridade centralizada - mas a título de bónus cá vão: