17/10/18

A Península Arábica e desaparecimentos

O caso do desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi fez-me lembrar que também desde 4 março de 2018 ninguém viu mais a sheika Latifa bint Mohammed Al Maktoum, filha do emir do Dubai. Nesse dia, o iate onde ela estava aparentemente a tentar fugir para os Estados Unidos foi abordado ao largo da Índia por uma operação conjunta das marinhas indiana e dos Emirados Árabes Unidos, e ela e os seus acompanhantes (uma amiga finlandesa e o dono do iate, um ex-espião francês com um passado algo agitado) foram levados para o Dubai. Os outros foram libertados, mas, ao que sei, nunca mais se soube nada dela.



A tirania do socialmente correto

As pessoas que costumam reclamar que "não se pode dizer nada que fica logo tudo ofendido" estão em polvorosa com o que alguém disse no Prós e Contras sobre não obrigar as crianças a beijar os avós.

10/10/18

A "normalização" do fascismo pela via eleitoral

A vitória de Balsonaro na primeira volta das eleições presidenciais no Brasil é, para dizer as coisas como elas são, a vitória de um candidato fascista numas eleições democráticas realizadas num país-continente que, até 1985, esteve sob o domínio de uma implacável ditadura militar.
Trinta anos depois da liberdade os Brasileiros, na sua maioria, parecem dispostos a apoiar um fascista, adepto confesso da ditadura e de personagens como Hitler.
Isto depois de em 2003 o PT ter chegado ao poder e Lula da Silva, o mais famoso operário metalúrgico, ter chegado à Presidência. Lula que viu Dilma Rousseff, uma antiga guerrilheira do tempo da ditadura militar, suceder-lhe na Presidência até ter sido destituída pela justiça militante que hoje domina o Brasil de braço dado com os militares.

Assistimos por estes tempos à ascensão do fascismo em várias regiões do mundo. Não através de golpes militares mas apenas e só através de vitórias eleitorais. Tal como Hitler, que chegou ao poder através das eleições, Orban, e agora Bolsonaro,  utilizaram  a via eleitoral para triunfar sobre os poderes decrépitos e corruptos que se especializaram em defraudar as expectativas da maioria da população.

A corrupção endémica, que o PT não apenas não combateu como até reforçou, não é um mal menor. É o caminho mais curto para a ascensão dos poderes ditatoriais. É um pretexto para que figuras menores, como Bolsonaro, ascendam ao poder, deixando as rédeas livres aos juízes - como Moro - e aos militares, que estão loucos por voltarem a dispor do poder e que aproveitam a degradação da democracia petista para violarem, no caso dos juízes, a separação dos poderes. O "povo" que vota Bolsonaro parece juntar sob o mesmo conjunto de interesses, aqueles que aspiram pelo regresso aos tempos em que os seus privilégios eram a lei e aqueles que se queixam - justamente - por o PT não ter promovido o fim da desigualdade extrema, que no Brasil é ainda mais chocante do que deste lado do Atlântico. O que torna ainda mais terrível a opção de voto que estes últimos fizeram, já que parece terem escolhido o caminho mais curto para regressarem ao passado tenebroso.

A via eleitoral tem um potencial enorme para todos os fascistas deste mundo. As políticas da responsabilidade social e da confiança, que não são mais do que políticas austeritárias, deixam  a maioria de fora da distribuição da riqueza e constituem a mais eficaz madrassa de recrutamento dos novos fascistas. Aumentos dos funcionários públicos em 5, 10 ou 15 euros, incapacidade para redistribuir de forma justa a riqueza produzida, como tem sido a regra por cá, com as esquerdas reunidas, criam condições para mais cedo do que tarde também irmos por aí. Até porque, como disse Cravinho recentemente, a corrupção é um mal endémico e um grande problema nacional relativamente ao qual existe um alargado consenso [isto digo eu]; não existe corrupção, apenas prácticas menos avisadas.

PS - dou como adquirido o facto de na segunda volta se verificar o triunfo do candidato fascista. O candidato do PT, o senhor Haddad, que aparece em campanha com o ar festivo de quem está a assistir a um enterro - o seu - teve a peregrina ideia de, logo após a confirmação da passagem à segunda volta, ter ido visitar Lula à prisão.


08/10/18

A CIDADE EM RECONSTRUÇÃO

Junto com a edição de Outubro do Le Monde Diplomatique pode ser adquirido o livro "A Cidade em Reconstrução. Leituras Críticas, 2008-2018" cuja edição é da responsabilidade da Outro Modo - Cooperativa Cultural. Esta obra recolhe contribuições de vários autores que durante este último decénio reflectiram sobre temas que vão da "Produção Social do Espaço Urbano Português - Tendências e Desafios", ao "Turismo,Gentrificação e Expulsão", passando pelas "Vulnerabilidades e Resistências em Contextos Urbanos Informais", pela "Habitação Pública. Políticas e Dinâmicas" e pela "Cidade Vivida". Os investigadores do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa e membros da Habita - Associação pelo Direito à Habitação e à Cidade, André Carmo, Eduardo Ascensão e Ana Estevens, organizaram a obra para a qual contribuem com textos da sua autoria.

Realizou-se, entretanto, no passado sábado, na Casa da Achada, a apresentação do livro, para a qual fizeram o favor de me convidar - tive a companhia da Professora Isabel Raposo, da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e da Rita Silva, dirigente e fundadora da Habita, figura destacada da luta pelo direito à habitação na cidade de Lisboa - a que se seguiu uma conversa sobre a magna questão da habitação na cidade com a participação da Maria de Lurdes Pinheiro, dirigente da Associação do Património e População de Alfama, do António Brito Guterres, investigador do DINAMIA/CET -ISCTE, e da arquitecta e cenógrafa, Ana Jara, entretanto empossada como vereadora substituta na Câmara de Lisboa, em representação do PCP.

Um bom debate, com casa cheia, com intervenções que nos mostram uma realidade que, como dizia o Chico Buarque a propósito da "dor da gente", não sai nos jornais. Histórias de luta e de resistência em curso na cidade de Lisboa, contra o exercício do poder autocrático dos que são eleitos para, como autarcas, exercerem o poder em defesa dos seus concidadãos, e optam por os ignorar.
 A velha história, já ressequida e requentada, dos que, para lá das proclamações mais ou menos retóricas,  apostaram todos os trunfos em ceder o passo ao Mercado, anulando ao limite a intervenção pública, demitindo a Administração de exercer a sua função de garante dos direitos sociais, mesmo aqueles que estão, supostamente, protegidos pela Constituição, como acontece com o direito à Habitação.

Volta a ser tempo de escutar Sérgio Godinho a recordar-nos que só há Liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Entretanto, vale a pena ler o livro já que, apesar da passagem do tempo, como tive oportunidade de dizer na minha intervenção, a actualidade de cada um dos textos não foi erodida. Talvez porque a cidade que está a ser "reabilitada" não seja aquela cidade que todos os diferentes autores gostariam de ver reconstruída. Uma cidade para todos.

05/10/18

Coerência entre a teoria e a prática

Os apoiantes ou militantes do  PSD e do CDS aproveitarem o feriado do 5 de outubro para, no fim de semana prolongado, irem viajar (ficando num alojamento local propriedade de um bloquista).

04/10/18

É pá Mário, não abuses, pá! Não deites tudo a perder, tem calma pá. Olha o Novo Banco, o dinheiro não dá para tudo, pá!

Governo avalia aumentos de 10 euros para todos os funcionários públicos

Mário Centeno descobriu a Quadratura do Círculo. A explicação, aguardada pela comunidade cientifica, vai ser apresentada junto com o Orçamento para 2019. Centeno vai financiar o aumento de 10 euros - ou outra enormidade da mesma ordem de grandeza - para todos os funcionários públicos com a continuidade de facto do congelamento das carreiras dos mesmos ... funcionários públicos. Com destaque para os professores, que são as vitimas mais conhecidas da paixão que o PS alimenta, há décadas, pela educação. A isso acresce o downgrade nas carreiras dos funcionários públicos licenciados antes de Bolonha. Sobra muito dinheiro para aplicar no Novo Banco ou noutro qualquer elemento sistémico da nossa desigualdade estrutural.


03/10/18

Ler os Outros: "Corrigir a desvalorização das ‘licenciaturas pré-Bolonha""

Um artigo do Engenheiro Sebastião Feyo de Azevedo sobre a "desvalorização das licenciaturas pré-Bolonha",  que foi concretizada pelo Governo Português.

Desvalorização é a opção do articulista, que se entende, dadas as regras de urbanidade que caracterizam a intervenção pública da Ordem dos Engenheiros e dos seus dirigentes. Eu acho, no entanto, que aquilo que o Estado Português fez tem outro nome: GAMANÇO. 

É disso que se trata. O Estado, como se fosse um Estado totalitário - e em muitas situações é-o, de facto -, resolve, ditactorialmente, desqualificar centenas de milhares de licenciados - cujas licenciaturas foram obtidas em universidades públicas, em cursos reconhecidos como de elevada qualidade e com provas dadas no exercício das suas profissões - transformando as suas licenciaturas em bacharelatos.

Um Estado que resolve apagar dois anos da formação universitária de centenas de milhares de pessoas - e mesmo assim favorecendo algumas formações em detrimento de outras, caso das engenharias - pode ser considerado um Estado democrático?

Há coisas que se fazem em Portugual que deixam qualquer um arrepiado. Suspeito que este tipo de violências não provocam qualuer arrepio a António Costa.

Declaração de Interesses: Sou licenciado em Engenharia Civil, ramo de Estruturas, pelo IST, desde 1981. Sou por isso Licenciado  em Engenharia Civil, pré-Bolonha. Sou  Mestre em Planeamento Regional e Urbano pela Universidade Técnica de Lisboa, desde 2005, isto é pré-Bolonha.

20/09/18

Porque será mais fácil a um governo de direita sair do euro

Ultimamente tem se vindo aos poucos a falar de uma possível crise orçamental ou da dívida italiana (via).

Se essa crise ocorrer (e é provável - o programa da coligação extrema-direita/extremo-centro que governa Itália inclui baixar os impostos e aumentar as prestações sociais, o que possivelmente poderá levar a um conflito com a Comissão Europeia ou o Eurogrupo, a uma redução dos ratings, etc.), suspeito que Itália mais facilmente poderá jogar a cartada "sair do euro e/ou lançar uma moeda própria" do que a Grécia ou Portugal.

A minha ideia - sobretudo imediatamente, quem ganha e quem perde se um país sair do euro e passar a usar uma moeda desvalorizada (ou se permanecer nele, mas passar a pagar aos funcionários públicos com uma moeda desvalorizada)?

- Ganha que tem vencimentos facilmente atualizáveis (em que pode subir o valor nominal para compensar a desvalorização da moeda)e perde quem tem vencimentos nominais fixos; ou seja, assim perderá mais serão as pessoas que vivem de receber juros de títulos ou depósitos (cujo rendimento é fixo), depois os assalariados (cujo vencimento só é atualizado de vez em quando), enquanto os empresários e trabalhadores por conta própria (que em principio podem subir os seus preços a qualquer momento) serão os mais beneficiados.

- Ganha que produz sobretudo bens transacionáveis (isto é, bens que são comercializados no mercado internacional), cuja competitividade aumenta com a desvalorização (e cujo preço, de qualquer maneira, é mais afetado pelos preços internacionais), e perde que produz bens não-transacionáveis (e que vai ter que pagar mais caro quando quiserem comprar bens transacionáveis). Assim, eu diria que quem trabalha na agricultura, industria extrativa ou transformadora e no desenvolvimento de alta tecnologia ganhará, e quem trabalha na construção civil e em grande parte do comércio e serviços perderá.

- Os trabalhadores do sector público serão prejudicados face aos do sector privado, já que os primeiros vão passar a receber na nova moeda, enquanto é possível que no sector privado se continue, formal ou informalmente, a usar o euro (assim, assumindo que a nova moeda desvaloriza, os rendimentos dos funcionários públicos desvalorizarão face aos dos privados).

Ou seja, dá-me a ideia que um país trocar o euro por uma moeda mais fraca iria, à partida, beneficiar mais (ou prejudicar menos) os empresários e o sector privado e menos os assalariados e os funcionários públicos; por outras palavras, mais o eleitorado da direita que o da esquerda; assim, a Liga italiana terá mais margem de manobra para, se for enconstada à parede pela UE, abandonar o euro (as empresas exportadoras do Norte de Itália - que suponho, entre empresários e trabalhadores, sejam a sua clientela eleitoral - até agradecerão) do que o Syriza grego.

Já agora, fará também algum sentido que em Portugal o PCP seja o mais anti-euro dos partidos da geringonça (face ao pré-euro PS e ao até há pouco tempo oscilante BE) - já que suspeito que o PCP tem uma maior base social entre os trabalhadores dos sectores transaccionáveis, enquanto o BE e o PS serão partidos mais dos trabalhadores dos serviços (pode-se contrapor que no Algarve - a região onde tradicionalmente tanto o PS como o BE têm a sua maior implantação eleitoral - grande parte do comércio e serviços é transacionável, devido ao turismo, mas duvido que a nível global isso afete muito).

19/09/18

Ler os Outros:" O alojamento local é o responsável pelo despovoamento da cidade de Lisboa?"

Hoje, no Público, Raul Lopes, professor universitário e economista, responde à pergunta, por ele formulada no título do artigo de opinião que assina, com um rotundo não.
O despovoamento verificado em Lisboa, em particular no seu centro histórico, não se deve ao aumento do turismo, nem tão pouco ao acréscimo de alojamento local (AL). [ o AL e o aumento tão acentuado do turismo são fenómenos recentes, pelo menos em Lisboa, pelo contrário o despovoamento da cidade é um processo que se iniciou no final da década de setenta do século passado]
A conclusão da reflexão do autor é, do meu ponto de vista, absolutamente correcta: "os problemas da falta de habitação resolvem-se com políticas de habitação (que aqui não abordámos), não se resolvem combatendo o AL".

Políticas de habitação que olhem para todo o tipo de necessidades dos diferents grupos sociais, isto é,  que procurem dar resposta a todos os segmentos da procura. Uma política de habitação que não ignore a geração dos recursos necessários para a financiar, digo eu, sob pena de, fazendo-o, ser apenas um inútil exercício retórico.

Voltando ao artigo - que, como o autor esclareceu, não pretendeu discutir as políticas de habitação - há uma conclusão que os dados apresentados igualmente legitimam: se o AL e o turismo não contribuiram para o despovoamento do centro histórico, também não constituíram uma oportunidade para inverter essa dinâmica. Ora esse deve ser um forte motivo de preocupação, e de debate, por parte dos responsáveis políticos: como é possível num contexto de crescimento tão acentuado do turismo e da procura do AL, com aumento exponencial do investimento na reabilitação urbana orientada para esse tipo de uso, continuarmos a assitir ao despovoamento da cidade?

Colocando esta questão estamos a questionar a política de reabilitação urbana que o Estado Português, em termos gerais, e o Munícipio de Lisboa, em particular, estão a concretizar. Que política é esta e a quem serve? Quem ganha e quem perde com esta política de reabilitação urbana?

17/09/18

Teletrabalho

Nos Ladrões de Bicicletas e no Esquerda.net, João Ramos de Almeida escreve (a propósito de uma recente proposta do CDS) sobre o teletrabalho. A preocupação de JRA parece-me ser sobretudo que a "flexibilização" do regime de teletrabalho leve a uma maior opressão dos trabalhadores pelos patrões.

No entanto, não me espantaria que no mundo real o maior problema com o teletrabalho fosse o oposto (e uma das causas de haver tão pouca gente nesse regime?) - os patrões desconfiarem dele, mesmo em situações que tal até pudesse ser mais vantajoso para eles em termos de maiores lucros e menos despesas.

Para começar, vou fazer um desvio por um tema que à primeira vista parece só remotamente relacionado - o clássico de Michael Kalecki, Political Aspects of Full Employment [pdf], onde o autor sugere que o patronato tende a ser contra políticas de pleno emprego, mesmo que tal leve a maiores lucros, já que o pleno emprego reduz a sua dominação social sobre os trabalhadores, que ficam com menos medo de ser despedidos:
We have considered the political reasons for the opposition to the policy of creating employment by government spending. But even if this opposition were overcome—as it may well be under the pressure of the masses—the maintenance of full employment would cause social and political changes which would give a new impetus to the opposition of the business leaders. Indeed, under a regime of permanent full employment, the 'sack' would cease to play its role as a disciplinary measure. The social position of the boss would be undermined, and the self-assurance and class-consciousness of the working class would grow. Strikes for wage increases and improvements in conditions of work would create political tension. It is true that profits would be higher under a regime of full employment than they are on the average under laissez-faire; and even the rise in wage rates resulting from the stronger bargaining power of the workers is less likely to reduce profits than to increase prices, and thus adversely affects only the rentier interests. But 'discipline in the factories' and 'political stability' are more appreciated than profits by business leaders. Their class instinct tells them that lasting full employment is unsound from their point of view, and that unemployment is an integral part of the 'normal' capitalist system.
Será que o mesmo raciocinio não poderá ser aplicado ao teletrabalho? Isto é, se os patrões (ou pelo menos parte deles) valorizarem mais o poder (a "disciplina nas fábricas") do que propriamente o dinheiro, terão alguma relutância em deixar os seus empregados trabalhar a partir de casa (onde ele não sabe bem o que eles estão fazendo nem como), mesmo que isso até possa parecer mais lucrativo; e se formos para as chefias intermédias, suspeito que a relutância ainda será maior - afinal, quase por definição pessoas que gostam de controlar outras (talvez uma combinação de "extroversão" e "conscienciosidade" no modelo dos big five?) tendem a estar sobre-representadas nas chefias intermédias (já que esses pessoas sentem-se mais motivadas para assumirem esses cargos), logo tenderão a desconfiar de quem peça para trabalhar a partir de casa.

Aliás, nos comentários ao seu post, JRA refere que em tempos esteve envolvido numa negociação laboral em que a administração da empresa se opôs ao alargamento do teletrabalho (os trabalhadores também se opuseram, mas num sistema - o que provavelmente significaria uma sociedade diferente - em que o teletrabalho fosse verdadeiramente opcional, não me parece que se verificassem as razões que ele apresenta para os trabalhadores se oporem: das duas uma, ou apenas uma minoria quereria teletrabalhar, e nesse caso quem não quisesse continuaria a ter muita gente no escritório para interagir, e se calhar até é de esperar - ou não? - que fossem os mais chatos que preferissem ficar em casa; ou a maioria preferiria teletrabalhar e aí... a maioria preferiria teletrabalhar).

Ainda a respeito disto - um artigo de há quase 15 anos de Chris Dillow, Capitalism and Presenteism (o link para os "two fantastic papers" já não funciona, mas creio que são estes: What Do Bosses Do? The origins and functions of hierarchy in capitalist production, Part I e Part II).

12/09/18

Os professores estão lixados.

A contagem integral do tempo de serviço dos professores - que ficou contemplada no Orçamento de 2018 - nunca será concretizada, a menos que os professores adoptem formas de luta eficazes e consigam mobilizar a classe  de tal forma que o PS possa temer os reflexos dessa mobilização nas próximas eleições.
O PCP e o BE já mostraram que não será por causa dos professores que o Orçamento de Estado para 2019 deixará de ser aprovado. A tomada de posição é surpreendente, mas releva de uma consciência muito nítida da posição frágil em que se colocaram, não apenas pelos disparates do passado recente (BE), mas também pela posição inicial de não integrarem o Governo (BE+PCP), mantendo-se num hibridismo algures entre serem oposição e apoiarem a Geringonça.

António Costa sabe muito bem que pode ignorar e desrespeitar os direitos dos professores. O seu contrato com Mário Centeno a isso obriga, e, pensando apenas em termos meramente eleitorais, ele admite poder minimizar os votos perdidos com a debandada dos professores,  recorrendo aos eleitores do centro e da direita, que  consideram os professores uns malandros que deviam trabalhar o dobro e ganhar metade.

Eleitores esses integrantes do grupo dos que devem aplaudir com mãos ambas o relatório cheio de  erros da OCDE - completado por notícias de jornais com títulos criteriosamente elaborados para conduzir o leitor a uma conclusão prévia, e que não fazem sequer justiça às peças escritas (aqui e aqui). Ou pelos eleitores que leiam editoriais, como aquele que é assinado hoje pelo director do Público, Manuel Carvalho, e concordem com aquilo que ali está escrito.

Os professores e a escola pública são um alvo a abater pelo centro direita, no qual se inscreve a liderança dos socialistas. [Vale a pena ler este artigo de opinião do Paulo Guinote]. A utopia que os anima - ou melhor dizendo a distopia - é um ensino maioritariamente gerido por empresas, com o Estado a fingir que garante a universalidade do acesso,  com uma classe dos professores muito mais mal paga, seja qual for o seu grau de qualificação. Até porque há uma verdade universal, que foi decretada há décadas por pessoas já com uma certa idade e muito poder : os novos professores - sobretudo os que receberem muito menos e tiverem menos direitos - são naturalmente muito  mais "qualificados".

O fim da Internet tal como a conhecemos?

European Parliament endorses upload filters and “link tax”, por Julia Reda:
The Parliament’s version of Article 13 (366 for, 297 against) seeks to make all but the smallest internet platforms liable for any copyright infringements committed by their users. This law leaves sites and apps no choice but to install error-prone upload filters. Anything we want to publish will need to first be approved by these filters, and perfectly legal content like parodies and memes will be caught in the crosshairs.

The adopted version of Article 11 (393 for, 279 against) allows only“individual words” of news articles to be reproduced for free, including in hyperlinks – closely following an existing German law.

08/09/18

Posição da "Esquerda Emancipatória" alemã sobre a "Aufstehen"

Posição da corrente Emanzipatorische Linke do Die Link sobre o movimento "Aufstehen":

Zur Gründung von „Aufstehen!“ „Wir brauchen eine mutige LINKE!“ (tradução via Google Translate):
Novas alianças [de esquerda] contra o pano de fundo da direita na Alemanha e na Europa são desejáveis, e alguns esperam que "[Aufstehen]" seja uma alternativa.
Somos fundamentalmente céticos aqui.

Porque "[Aufstehen]" aprofunda as [barreiras] na esquerda social mais do que ajuda a superá-las. O presente apelo fundador de "[Aufstehen]" [1] [apresenta] o "movimento de cobrança" com um "direito de asilo para os perseguidos" ligado à restrição da lei de asilo de 1993, um [recorte] mais nacional de política sociaias e uma [política anti-UE], também porque os criadores estão honestamente convencidos de que a variedade neoliberal do capitalismo enfraquece o Estado-nação e quer superar as fronteiras e as identidades nacionais. Isso é errado, tanto historicamente quanto analiticamente. A variedade neoliberal do capitalismo não quer "nenhuma fronteira , nenhuma nação ", mas apenas a supressão dos direitos sociais garantidos pelo Estado enquanto promove um [aparelho repressivo] forte (nacional!).

O adversário de "[Aufstehen]" não é o próprio capitalismo, mas o "capitalismo financeiro globalizado que dispensa corporações e pessoas ricas da responsabilidade social" [1]. A separação do capital em capitalismo financeiro globalizado do mal e o bom capital nacional produtivo, que percebe uma "responsabilidade social", torna a exploração, a alienação e a humilhação no capitalismo cotidiano algo bom ou pelo menos normal e enobrece-os Exploração e alienação do homem na produção de mais-valia.

Quando [se lê] na convocação inicial de "[Aufstehen]" [que] "Muitas questões pré-existentes, como a falta de habitação social, escolas sobrecarregadas ou falta de creches, agravaram[-se] ainda mais. No final, especialmente os já desfavorecidos sofrem "[1], então o ônus da imigração para partes da população é enfatizado unilateralmente e, dessa forma, os refugiados são um bode expiatório para as condições sociais. Isso mostra: "[Aufstehen]" quer fortalecer o campo de esquerda fazendo concessões ao clima político de direita dominante.

Se [Aufstehen]" quer "fortalecer o Estado" como um todo, eles são a favor de um projeto socialdemocrata de direita que, enquanto fortalece o aparato da violência, também tem aspectos sociais, mas também pode ser compartilhado por grupos antiliberais e conservadores.

Ao mesmo tempo, os movimentos feministas, não brancos e queer não são mencionados apenas em todo o chamado da fundação; eles não são levados a sério em sua importância para o desenvolvimento social e a negação desses movimentos e suas lutas tornam essa orientação para [a direita] anti-liberal ainda mais clara.

07/09/18

O "Deep State" e Trump

Lendo o tal artigo que alguém da administração Trump* publicou no New York Times, parece-me que o Deep State / Steady State está a tentar sabotar essencialmente o único ponto positivo de Trump (ser aparentemente menos belicista e militarista do que se esperaria de um Republicano), e de resto não têm grandes objeções a ele.

* Não sei porquê, lembrei-me de Franz von Papen

04/09/18

Ainda sobre o antissemitismo no Labour. (Actualizado)

A polémica centrada no antissemitismo do Labour e, em particular, de Jeremy Corbyn, não para. Uma das mais recentes tomadas de posição - provavelmente a mais esclarecedora, entre todas - foi protagonizada pela deputada Margareth Hodge, já aqui referida pelas acusações feitas a Corbyn, acusando-o de ser racista e antissemita.
Para Hodge mesmo a adopção da definição de antissemitismo proposta pelo IHRA - que o Labour irá novamente discutir na próxima quinta-feira - não é suficiente para acalmar os criticios. Disse ela, numa conferência realizada no passado dia 2.09, promovida pelo Jewish Labour Movement, que:

It might have been enough three months ago, it might have just enabled us all to start talking to each other and bring trust again, but I think that moment has passed.(..) The problem is that he [Corbyn] is the problem. (...) Our party has been around for over 100 years, Corbyn has only been for three - three damaging years."


Não há nada como a clareza e a frontalidade. Há um objectivo claro e o antissemitismo é apenas a via mais eficaz para o concretizar. Um claro problema de gestão: depois de um bom diagnóstico, uma estratégia eficaz para concretizar um objectivo claro: afastar Corbyn.

Há quem não tenha a resiliência da senhora Hodge - nascida no Cairo, filha do industrial judeu Hans Oppenheimer, que saira de Estugarda para o Cairo, nos anos 30, para se juntar ao negócio familiar do aço. A família saiu depois do Cairo, temendo o clima de antissemitismo dominante, e fixou-se em Londres criando uma das maiores empresas mundiais de comércio e distribuição de produtos de aço.

Será o caso do deputado trabalhista Frank Field, um dos quatro deputados trabalhistas que possibilitaram a Theresa May a manutenção do seu governo, votando contra a orientação do partido e suportando o hard-brexit que vários deputados conservadores recusaram. Também ele acusou a liderança do Labour de racismo e antissemitismo, sendo por isso alvo de uma moção de desconfiança política da sua estrutura partidária. Em função desses acontecimentos o deputado anunciou que renunciava à reeleição. Trata-se de um deputado que apoiou o Brexit, quando o partido fez campanha pelo Remain, que sustentou com o seu voto a manutenção do Governo Conservador num momento crucial, e que, tem sido um critico,  desde sempre,  da forma branda como os trabalhistas abordam a questão dos migrantes. Defensor de políticas  nacionalistas. A critica ao antissemitismo parece ser, neste caso, apenas e só, uma manifestação de puro oportunismo político.

Do outro lado merece destaque a posição dos deputados do Parlamento de Israel representantes dos cidadãos árabes do Estado de Israel e os judeus que apoiam a paz e a democracia, que suportam políticamente a acção de Corbyn e que criticam a identificação entre ser-se contra a política de Israel e ser-se antissemita. A conflação odiosa a que se refere o Miguel Madeira no seu último post e que a direita extremista, no poder em Israel, promove despudoradamente.

Criticar o Estado de Israel e a sua política não pode ser comparado a qualquer manifestação de antissemitismo. Essa é a questão central do debate que tem sido utilizada pela ala conservadora, até agora dominante na sociedade britânica e no Labour, para desalojar Corbyn da liderança do Labour, ou, pelo menos, diminuir o mais possível as suas possibilidades de ganhar as próximas eleições.

ACTUALIZAÇÃO:  Está a decorrer uma reunião do NEC - uma espécie de Comissão Política do Labour, o Comité Executivo Nacional  - do Labour para proceder a uma clarificação da posição do partido relativamente à adopção ou não da definição de antissemitismo proposta pela IHRA. Será importante perceber se Corbyn mantêm a sua posição - que tem sido a posição oficial do Labour - ou se recua.

03/09/18

Ainda sobre peculiares definições de antissemitismo

Também nos EUA - Anti-Israelism and Anti-Semitism: The Invidious Conflation, por  Sheldon Richman:
I and others have warned that enactment of the Anti-Semitism Awareness Act now before Congress would threaten free speech and free inquiry on America’s college campuses and beyond. As I’ve explained, this bill incorporates a conception – a “definition” plus potential examples – of anti-Semitism that conflates criticism of Israel’s founding and continuing abuse of the Palestinians with anti-Semitism for the purpose inoculating Israel from such criticism. Anti-Zionist Jews and others have objected to this conflation for over 70 years.

What makes us so confident in predicting a threat to free speech?

We are confident in part because Donald Trump’s assistant secretary of education for civil rights, who would enforce the legislation, is Kenneth L. Marcus, whose record makes him the poster boy for the invidious conflation.

Dima Khalidi, founder and director of Palestine Legalwrites in The Nation:

If this definition [of anti-Semitism] were adopted and implemented as Marcus would like, the DOE would be empowered to conclude that universities nurture hostile, anti-Semitic environments by allowing the screening of a documentary critical of Israel’s 50-year military occupation of Palestinian lands such as Occupation 101, a talk critical of Israeli policy by a Holocaust survivor, a mock checkpoint enacted by students to show their peers what Palestinian life under a military occupation is like, a talk on BDS [boycott-divestment-sanctions] campaigns for Palestinian rights, or student resolutions to divest from companies complicit in Israel’s human-rights abuses.

These aren’t hypotheticals. These speech activities were the subject of real legal complaints, filed or promoted by Marcus and his Brandeis Center against Brooklyn College (2013), University of California Berkeley (2012), and University of California Santa Cruz (2009). The complaints were filed to the same DOE office which Marcus has been nominated to head [and to which he has since been confirmed].

31/08/18

A responsabilidade sobre a crise argentina

Em novembro e dezembro de 2015, Antonio Costa e Mauricio Macri substituíram, respectivamente, Cristina Kirchner e  Passos Coelho como governantes dos respetivos países.

Face à atual crise argentina, muita gente diz que ainda é culpa dos governos do casal Kirchner, e ainda do default à dívida em dezembro de 2001 (sob o presidente interino Adolfo Rodriguez Saa). Curiosamente são os mesmos que, perante qualquer problema que exista neste momento em Portugal, recusam visceralmente que ainda possa ser culpa das políticas do governo anterior.

Claro que se pode perguntar se não se pode também dizer exatamente o inverso - em parte, mas creio que não com tanta intensidade (pode ser erro de perceção meu, mas parece-me que até se vê mais gente de direita a falar da crise argentina - e tentando defender o presidente atual - do que de esquerda).

Já agora, a ideia que a crise é culpa dos Kirchner parece muito difícil de conciliar com a "hipótese dos mercados eficientes" - afinal, "os mercados" sabem que políticas o governo argentino seguiu desde 2003 até 2015, logo (já em 2015) todos os efeitos dessas políticas já estariam incorporados no valor do moeda argentina, nos juros da sua dívida, etc. Assim, se em 2018 o peso argentino começou a desvalorizar, só pode ter sido por nessa altura (e não 3 ou 10 anos antes) ter havido alguma mudança de opinião dos investidores sobre as perspetivas da economia argentina.

29/08/18

Grécia. Porque celebra Centeno? Altos cargos e pequenos homens.

A propósito do texto que aqui escrevi sobre a lamentável declaração de Centeno suscitada pelo fim do resgate imposto pela Troika à Grécia, convêm recordar alguns aspectos não referidos no post, já que na data em que o escrevi eram ainda escassas as reacções.

Do lado da esquerda algumas figuras, associadas aos diferentes partidos que suportam a geringonça, manifestaram a sua discordência. Do lado do PS apenas João Galamba foi particularmente duro com a apreciação que fez do lamentável discurso. Numa declaração no Twiter o deputado em três linhas referiu o essencial do discurso de Centeno: "um vídeo lamentável que apaga o desastre que foi o programa de ajustamento grego e branqueia todo o comportamento das instituições europeias".  Claro que Galamba não obteve qualquer apoio explicito por parte de algum dos mais importantes dirigentes do PS. Apanhou, como era de esperar, com as normais acusações de radicalismo burguês proferidas por figuras menores do seu partido, as quais ainda não se recompuseram da traumática experiência da Geringonça. gente que anseia pelo regresso ao passado.

No Bloco coube a Mariana Mortágua e a José Gusmão fazerem as honras da casa. O PCP não se dignou a emitir qualquer opinião específica, já que, para os comunistas, o problema, em última análise, está na UE e, num plano ainda mais geral, na existência do capitalismo. O resto são pequenos detalhes de uma absoluta irrelevância.

Ninguém se lembrou de salientar a incoerência de um discurso político, e de um acordo político centrado na condenação da austeridade, com a declaração de Centeno. Percebe-se o incómodo: como afirmámos no primeiro post não é possível ser-se Presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças de um Governo apostado no combate à austeridade. Sobretudo se no Eurogrupo o nomeado Presidente abdicar do que pensava, ou fingia pensar, quando combatia a austeridade, a nível interno.

Centeno tem mais do que uma face. É um facto. O Centeno que, em 2 de Dezembro de 2015, a propósito da propalada saída limpa, anunciada um ano antes por Pedro Passos Coelho, afirmou : "Hoje, caídas todas as máscaras, e levantados todos os véus, percebemos que a expressão  "saída limpa" foi um resultado pequeno para uma propaganda enorme", é a negação do Centeno que fez a declaração sobre o fim do resgate grego.

Propaganda enorme, disse ele. "Os gregos pagaram caro as más políticas do passado", diz ele agora, atribuindo aos erros próprios dos gregos as consequências da violenta punição que as instituições europeias lhes impuseram.

Apenas pequenos homens podem em cada momento vestir a fatiota que lhes destinam e falar de acordo com o guião de quem manda. Centeno falou como se fosse apenas uma máscara utilizada por wolfgang Schäuble, como fizera antes com Jeroen Dijsselbloem, para veicular a sua mensagem e louvar a sua política.

Isso mesmo referiu Viriato Soromenho Marques, num texto notável no Diário de Notícias. Centeno "o economista português que criticava as limitações estruturais da zona euro e que exibia os erros e os sacríficios inúteis das medidas de austeridade, eclipsou-se completamente". Há hoimens que são demasiado pequenos para os cargos que desempenham e que, por esse facto, são incapazes de assumir o poder de transformar a sociedade em que foram investidos. Homens pequenos que ficam para a história pelo mal que fizeram, quando tiveram a possibilidade de, mudando a política, melhorar a vida de milhões de europeus. Centeno não está para aí virado. Está preparado para subir mais alto na ortodoxia europeia e no sistema financeiro global. De que nos podemos queixar, nós portugueses que o temos como ministro das finanças ?

PS - o discurso de Centeno não "durou" mais do que meia semana na agenda da "Bolha Mediática". Há uma voragem da irrelevância e da vacuidade que tudo trucida à sua volta.

24/08/18

LABOUR. Os objectivos políticos da campanha contra o Labour centrada no suposto antissemitismo de Corbyn (ACTUALIZADO)

O Miguel Madeira faz eco, no post anterior, da campanha contra o Labour com base numa práctica política acusada de antissemitismo. Com base numa estúpida definição do conceito
Esta campanha não se configura como um episódio passageiro destinado a marcar a agenda política britânica por uma ou duas semanas: estamos perante a mais demorada e consistente campanha política contra o Labour desde que, sob a direcção de Jeremy Corbyn, disputou as úlltimas eleições gerais e retirou a maioria absoluta aos Conservadores.
Quando das últimas eleições autárqicas tinhamos tido oportunidade de referir que, apesar da vitória do Labour, a campanha conduzida por vários sectores ligados à comunidade judaíca tinha evitado uma vitória estrondosa dos trabalhistas.Escrevi então que:

Parece que há algumas  conclusões que é necessário retirar destes resultados. Em primeiro lugar  a campanha contra o antissemitismo, que dominaria o Labour, foi muito eficaz. O partido de Jeremy Corbyn não foi capaz de lidar com a questão e a liderança, fortemente conservadora, da comunidade judaíca fez o resto. Os quatros círculos eleitorais com uma maior presença da comunidade são exactamente Barnet, Wandsworth, Westminter e Swindon.


O Miguel refere alguns blogues da direita mas, ainda recentemente, o Público dedicava  duas páginas ao tema na sua edição do passado dia 15.08.2018. "Corbyn sob pressão para agir contra -antissemitismo no Labour", titulava o diário da Sonae. Esta noticia - com uma redacção ligeiramente diferente - está disponível online com o título " Corbyn na corda bamba, entre o apoio à Palestina e o antisemitismo".

A mudança no título não é nada inocente e entronca na questão de fundo que determina a campanha política em curso, que se organiza segundo dois eixos: por um lado promovendo a  identificação das posições dos que sempre apoiaram a causa dos Palestinos,  os que sempre apoiaram a luta da OLP - caso de Corbyn, mas também de gerações de dirigentes do Labour - os que defendem a solução política dos dois estados - Israel e Palestina - com uma posição de anti-semitismo; em segundo lugar colocando aqueles que criticam o estado de Israel - a propósito da sua política de ocupaçãoda Cisjordânia e do bloqueio à Faixa de Gaza,  mas também da criação de um sistema de Apartheid no interior do estado de Israel, como está a acontecer com a polémica lei da Nacionalidade, promovida pela aliança entre Netanyahu e a extrema-direita judaíca - sob a acusação de serem antissemitas.

É aqui que radica,  na minha modesta opinião, a recusa do Labour de subscrever na totalidade o conceito de antissemitismo promovida pela IHRA - International Holocaust Remenbrance Alliance. Na verdade não se trata de questionar a definição do conceito - por muito estúpida que ela seja como mostra  o Miguel Madeira - mas um dos exemplos que o IHRA utiliza para o ilustrar. Como aqui se explica neste texto da autoria de um dos membros da comité executivo que lidera o Labour:

Afinal, apenas um dos exemplos apontados pelo IHRA é que não foi subscrito pelo Labour e por razões óbvias, já que, dessa forma, qualquer crítica à política de Israel podia ser imediatamente condenada por ser antissemitismo. 
 É interessante olhar para o debate entre os leitores do Guardian, para se perceber a verdadeira dimensão da questão.  Nestas cartas enviadas pelos leitores há quem defenda as duas posições. E há aqueles que questionam quem tem poder para representar a comunidade judaíca, se é que ela existe.

Olhemos agora para alguns factos:  Em 2016 Ken Livingstone, ex-mayor de Londres e apoiante de Corbyn, fez declarações polémicas que suscitaram o repúdio da comunidade judaíca. Na edição online do Público refere-se que " o ex-autarca acabou por ser suspenso por Corbyn, acabando por se demitir em Maio". Na edição impressa esta parte foi omitida.
Podemos ver aqui que o ex-autarca de Londres  - cuja carreira política pode ser parcialmente  revisitada aqui -  foi objecto de um processo disciplinar e suspenso, sendo essa suspensão prorrogada por um ano em 2017. Finalmente, em Maio de 2018, Livingstone decidiu deixar o partido. Essa decisão mereceu um comentário de Corbyn.

Mais recentemente uma deputada da ala conservadora dos trabalhistas, notória apoiante de Tony Blair e opositora desde sempre de Corbyn, acusou-o de ser racista e antissemita.  Foi por esse motivo alvo de um processo disciplinar. Um outro ex-deputado, criticou duramente a comunidade judaíca do partido trabalhista por, segundo ele, estar a tentar minar a liderança de Corbyn aliando-se ao grupo de deputados apoiantes de Blair. Foi objecto de um processo disciplinar.

O Daily Mail, essa expressão máxima do jornalismo independente, desencantou uma imagem de Corbyn num cemitério em Tunes numa  homenagem a quatro dos autores do atentado contra a delegação de Israel nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, que custou a vida a 11 atletas. As coisas não se passaram como o Daily Mail noticiou e Corbyn esteve em Tunes numa cerimónia que visou homenagear a memória das vitimas do bombardeamento efectuado por Israel sobre os escritórios da OLP na capital da Tunísia. Bombardeamentos israelitas que tinham sido repudiados pela senhora Teatcher, na altura primeiro-ministra inglesa. A noticia de que no local estão enterrados quatro operacionais palestinianos que, de acordo com o Público, estiveram envolvidos no atentado de Munique, não corresponde à verdade. Como foi desmentido nos dias seguintes não estão enterrados quatro operacionais no cemitério visitado por Corbyn. Estão lá  dois dirigentes de topo da OLP: Salah Khalaf e Atef Bseiso. O primeiro foi o braço direito de Asser Arafat e foi assassinado pelo grupo Abu Nidal Era um moderado, com ligações ao ocidente. Razão suficiente para ser odiado pelos israelitas.  Quanto a Bseiso, igualmente assassinado nessa altura, negou sempre qualquer ligação ao atentado de Munique.

Owen Jones desmascara a hipocrisia com que se pretende atacar Corbyn a propósito do seu suposto antissemitismo e mesmo de um disparatado racismo. E deixa claro que havendo que denunicar o antissemitismo, que deve ser combatido, isso nunca pode ser um pretexto para que seja abandonada a causa do povo Palestiniano e que as torpes actuações da direita israelita, lideradas pelo tenebroso Netaniahu possam ser aceites. O Labour não pode aceitar que seja adequado manifestar cumplicidade com a violência perpetuada pelo estado de Israel,  ao mesmo tempo que se condena qualquer solidariedade com o povo palestiniano.

Há um facto que resulta desta discussão: o Labour está debaixo de fogo face à proximidade ao poder e, sobretudo, face à notória viragem à esquerda do partido. O Labour de Corbyn é a maior ameaça à ordem internacionalmente estabelecida de que um dos pilares é a União Europeia. Infelizmente Corbyn tem manifestado muitas dificuldades em lidar com o Brexit e com o fracasso dos Tories na gestão do processo de separação. Esse aspecto, junto com esta campanha centrada no suposto antissemitismo estão a abrir algumas brechas no apoio ao partido. Mas, as propostas de Corbyn, de que a última foi a tributação- a cobrança de uma mais-valia - das empresas tecnológicas  teimam em conduzir o debate para as verdadeiras questões (aqui e aqui ).

ACTUALIZAÇÃO.  A polémica do dia acerca da "intima relação" entre "Corbyn e o antissemitismo que grassa no Labour" é apoiada numa declaração de 2013 sobre os sionistas. Declaração que terá estado na origem de uma queixa oficial contra o partido. Imparável este processo de vasculhar na memória recente e passada para encontrar "provas". Entretanto a linha de ataque centrada na "investigação" do Daily Mail foi abandonada por manifesta especulação baseada em mentiras grosseiras. Fez o seu papel a dita investigação.
Por cá, Miguel Esteves Cardoso também dedicou a Corbyn um dos seus, habitualmente excelentes, textos no Público. Diz ele que não dá mais para o Corbyn. E eu que estaria tentado a pensar que ele nunca tinha dado nada para o dito. Há uma frase que me merece destaque, que me perdoe o Miguel esta ousadia de salientar uma pequena frase entre tantas frases que se destacam:

"(...)Por isso é que [Corbyn] falhou como político: é inflexível. Triunfou recentemente por isso mesmo. Não abdica dos princípios. Defende os mais fracos. Não recebe ordens de Washington e blá blá blá(...)"






22/08/18

Uma definição idiota de antissemitismo

Ultimamente têm surgido alegações (que têm sido retransmitidas em Portugal, em blogs como o Blasfémias e O Insurgente) de antissemitismo contra o líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn.

A principal linha de ataque parece ser o Labour não ter adotado a definição de antissemitismo da Aliança Internacional de Recordação do Holocausto. Mas a verdade é que essa definição (ou, mais exatamente, a sua operacionalização) é estúpida.

Vamos lá ver em que consiste:
Adopt the following non-legally binding working definition of antisemitism:

“Antisemitism is a certain perception of Jews, which may be expressed as hatred toward Jews. Rhetorical and physical manifestations of antisemitism are directed toward Jewish or non-Jewish individuals and/or their property, toward Jewish community institutions and religious facilities.”

To guide IHRA in its work, the following examples may serve as illustrations:

Manifestations might include the targeting of the state of Israel, conceived as a Jewish collectivity. However, criticism of Israel similar to that leveled against any other country cannot be regarded as antisemitic. Antisemitism frequently charges Jews with conspiring to harm humanity, and it is often used to blame Jews for “why things go wrong.” It is expressed in speech, writing, visual forms and action, and employs sinister stereotypes and negative character traits.

Contemporary examples of antisemitism in public life, the media, schools, the workplace, and in the religious sphere could, taking into account the overall context, include, but are not limited to:
  • Calling for, aiding, or justifying the killing or harming of Jews in the name of a radical ideology or an extremist view of religion.
     
  • Making mendacious, dehumanizing, demonizing, or stereotypical allegations about Jews as such or the power of Jews as collective — such as, especially but not exclusively, the myth about a world Jewish conspiracy or of Jews controlling the media, economy, government or other societal institutions.
     
  • Accusing Jews as a people of being responsible for real or imagined wrongdoing committed by a single Jewish person or group, or even for acts committed by non-Jews.
     
  • Denying the fact, scope, mechanisms (e.g. gas chambers) or intentionality of the genocide of the Jewish people at the hands of National Socialist Germany and its supporters and accomplices during World War II (the Holocaust).
     
  • Accusing the Jews as a people, or Israel as a state, of inventing or exaggerating the Holocaust.
     
  • Accusing Jewish citizens of being more loyal to Israel, or to the alleged priorities of Jews worldwide, than to the interests of their own nations.
     
  • Denying the Jewish people their right to self-determination, e.g., by claiming that the existence of a State of Israel is a racist endeavor.
     
  • Applying double standards by requiring of it a behavior not expected or demanded of any other democratic nation.
     
  • Using the symbols and images associated with classic antisemitism (e.g., claims of Jews killing Jesus or blood libel) to characterize Israel or Israelis.
     
  • Drawing comparisons of contemporary Israeli policy to that of the Nazis.
     
  • Holding Jews collectively responsible for actions of the state of Israel.
     
Antisemitic acts are criminal when they are so defined by law (for example, denial of the Holocaust or distribution of antisemitic materials in some countries).

Criminal acts are antisemitic when the targets of attacks, whether they are people or property – such as buildings, schools, places of worship and cemeteries – are selected because they are, or are perceived to be, Jewish or linked to Jews.

Antisemitic discrimination is the denial to Jews of opportunities or services available to others and is illegal in many countries.
[Vermelhos meus]

É antissemita "negar ao povo judeu o seu direito à auto-determinação", ou seja negar a legitimidade ao Estado de Israel? Isso faria, p.ex., de grupos judeus ortodoxos como o Neturei Karta (que acham que a existência de um Estado judeu antes da vinda do messias é uma blasfémia) antissemitas; pelo mesmo raciocínio quem fosse contra o Black Power nos EUA seria racista anti-negro, quem seja contra o referendo catalão será anti-catalão, quem se oponha à criação de um país para os ciganos será ciganofóbico, etc. etc. Em ultima instância, alguém que fosse contra a existência de estados nacionais (desde anarquistas que queiram acabar com todos os Estados até ultra-globalistas que queiram apenas um Estado mundial) seria quase automaticamente antissemita por esta definição (a título pessoal, digo desde já que, no contexto atual, sou a favor da existência do Estado de Israel, com fronteiras similares à linha de armistício de 1949; com dois povos que se odeiam, ideias como "Um Estado para dois povos" ou "Palestina Livre, do rio até ao mar" são completamente absurdas - num futuro longinquo talvez possa lá haver uma confederação multi-étnica de cantões autónomos, ms para já isso seria inviável).

E é antissemita comparar aspetos da moderna política israelita com a política nazi? Mesmo que essas comparação estejam erradas (e se percebo bem o significado da palavra "comparisons", isso nem significa dizer que são equivalentes), isso torna-as automaticamente antissemitas? Afinal, desde 1945 que fazer comparações com os nazis é quase um passatempo universal - quantos líderes internacionais têm sido o "novo Hitler"? Praticamente quase todos os presidentes dos EUA e também quase todos os presidentes de países posteriormente invadidos pelos EUA (outro clássico, além do "novo Hitler", é o "novo Munique", acerca de qualquer acordo internacional a que alguém se oponha); até há uma "lei" dizendo isso: "À medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou os nazistas tende a 100%". No entanto, quando chega a Israel, essa comparação torna-se proibida: se as pessoas que dizem que Trump, Putin ou Khamenei são o "novo Hitler" disserem isso de Netanyau, passam automaticamente a ser antissemitas; se alguém dizer que os critérios israelitas para decidir quem é judeu são similares aos das leis de Nurumberga, é antissemita; se alguém dizer que, quando dirigentes politicos israelitas, a respeito de alguma guerra, dizem "o exército ganhou mais foi traído pelos políticos", estão a repetir a propaganda nazi da "facada nas costas", é antissemita. etc

E o grande paradoxo disto é que mais à frente a tal definição operacional até dá como exemplo de antissemitismo "Holding Jews collectively responsible for actions of the state of Israel"; ou seja, por um lado reconhecem (bem) que o Estado do Israel é uma coisa e os judeus são outra, mas, por outro, nos pontos anteriores identificam Israel com os judeus, considerando que certas opiniões sobre o Estado de Israel são antissemitas (mesmo que até sejam expressas por judeus).

21/08/18

Relatos da Checoslováquia, há 50 anos

O mais velho dos que ali estávamos, que conhecera muitas coisas, ocupara cargos de grande responsabilidade, quebrou o silêncio para contar a história dum rapaz soviético que parou o seu tanque num arrabalde industrial de Praga, a 28 de Agosto de 1968 pela manhã, quando se lhe deparou a barreira humana que em russo lhe gritava que regressasse a casa. «Da retaguarda da coluna assim bloqueada saiu um oficial que interpelou o rapaz instalado no alto da sua torre; e, como este, para explicar o seu gesto, lhe apontasse a multidão, abateu-o a frio. A coluna avançou. A multidão afastou-se, mas recolheu o corpo do rapaz. As gentes do subúrbio enterraram-no como se fosse um dos seus. É isto o internacionalismo proletário...»

(...)

Uma mulher sem idade explica que a sua filha se correspondia, segundo o costume vigente - costume e regra também - com uma estudante soviética da sua idade. Após a invasão, a soviética não disse mais nada. A jovem checa insiste, afim de saber o que pensava aquela que ela continuava a considerar ainda como sua amiga. Finalmente chega uma carta, mas com uma linguagem que parecia escrita por uma estranha: vós mataste o meu irmão aquartelado em tal sítio. Vós sois contra-revolucionários, verdadeiros fascistas, etc. Ora, justamente, ninguém na Checoslováquia matara soldados soviéticos (...).

A jovem checa e os seus pais quiseram ficar com a consciência tranquila. O endereço do aquartelamento era exacto. E , com grande espanto seu, lá encontraram o irmão de excelente saúde. Começaram a gozar a alegria do happy end e a rapriguinha pensa na alegria da sua amiga soviética quando souber que encontraram o irmão. Mas o rapaz parece não perceber nada. Lê e relê a carta da sua irmã e depois, subitamente, empalidece e vai-se abaixo. «Mas isto significa que nunca mais regressarei a minha casa. Nunca. É por isso que enviaram já à minha familia o aviso da minha morte...»

(...)

A mulher sem idade voltou a tomar a palavra. «Tenho um amigo ginecólogo. Um dia, os Soviéticos vieram requisitá-la ao seu hospital. Julgou que se tratava de um engano, pois o Exército Vermelho é, evidentemente [sic], formado por homens.Mas não era um engano. Teve de ir inspecionar o bordel militar. O meu amigo também é um velho comunista. Então exclama: «Um bordel? Mas que bordel? E para quem?» O oficial responde pausadamente que não se pode deixar a tropa meter-se com as mulheres da terra, pois isso seria politicamente inconveniente. E aí vai o nosso ginecólogo no exercício da sua função, um pouco curioso, apesar de tudo, por saber que espécie de mulheres se prostituem assim oficialmente na União Soviética. Encontra profissionais que foram mudadas da sua zona de trabalho, depois, de repente, encontra-se com estudantes de Leninegrado que foram presas por ocasião das manifestações de 1967 [Nesse ano houve grandes manifestações universitárias tanto na U.R.S.S. como em Varsóvia e em Praga]. Como eram presas de direito comum, foram deportadas para aqui com os outros...»


Perante isto, que se pode dizer que não seja nem imbecil nem cúmplice? Toda a gente sabe, desde Hegel e Marx, que a relação de escravo e senhor infecta toda a vida. Ora o Partido tornou-se o Partido dos senhores (...). Todos nós conhecemos, entre os nossos, pessoas capazes de matar um rapaz que desobedece na torre do seu tanque, ou de deportar um regimento inteiro contaminado por ideias perversas. Mas o caso das estudantes revoltadas e condenadas ao bordel já é menos evidente. Mas há quanto tempo esta desigualdade e esta repressão reinam na U.R.S.S.? Mesmo que tomemos 1930 como o ano da viragem, já faz trinta e nove anos neste Primavera! foi preciso menos tempo para fabricar SS num país que passava por civilizado, com belas maiorias de esquerda antes de 1933.

(...)

O velho homem cala-se. É que ele andou nas viaturas negras de cortinas fechadas que atravessavam todos os semáforos vermelhos, recebeu os sobrescritos secretos e a moeda especial para os armazéns reservados. Ele conhece o anverso feudal do Partido-Estado socialista e do exército de servidores e de policias que lhe impedem os acessos e lhe dissimulam as saídas. Depois excluiram-no do paraíso, mas sem o esmagarem na engrenagem das torturas, sem confissões falsas, sem processo. E ele calou-se até à Primavera. Avaliará ele agora o peso do seu silêncio?
Acreditei na Manhã, Pierre Daix

20/08/18

Grécia. Porque celebra Centeno?

A Grécia viu chegar ao fim a sucessão de resgates que desde 2010 impuseram ao país uma austeridade violenta e muitas vezes criminosa. Os custos sociais desta imposição liderada pela CE, pelo BCE e pelo FMI, foram terríveis e a dimensão do tsunami que varreu a organização social e política gregas apenas será totalmente apercebida ao longo dos próximos anos.

A austeridade imposta aos gregos representou a página mais negra vivida pelo país numa situação de paz. Um página em que os gregos mais pobres e os da classe média suportaram sobre os seus frágeis ombros todos os sacrifícios impostos pela tecnocracia dominante no Eurogrupo e nas instituições europeias.

Coube a um português, Mário Centeno de seu nome, liderar o Eurogrupo no momento em que este procedimento chega ao fim. Mário Centeno mostrou no breve discurso que proferiu para assinalar o momento de que massa é feito. Estamos perante alguém que não fica a perder no confronto com o seu antecessor, o inaceitável Dijsselbloem. Um defensor fervoroso da austeridade e dos seus efeitos benéficos. Diga, a partir deste momento,  Centeno o que disser, diga António Costa o que disser, digam os dirigentes socialistas o que disserem, há uma verdade que emerge: Centeno acredita piamente nas virtudes da austeridade e  no tratamento imposto a países como a Grécia e Portugal.

Fosse o primeiro ministro Pedro Passos Coelho e Centeno o seu ministro das finanças -não há uma única razão política ou ideológica que pudesse impedir esta possibilidade -  e este exacto discurso, neste momento preciso, provocaria uma generalizada repulsa, e a exigência por parte de toda a esquerda - PS incluído - da demissão do ministro. 

Separar Centeno e a sua política interna desta triste figura que agora fez é um exercício de puro cinismo.

O resgate da Grécia foi um colossal fracasso. Inicialmente era suposto serem necessários dois anos para que o país regressasse aos mercados. Precisou de oito e de mais dois resgates. Estamos perante uma trágica história marcada pela incompetência dos burocratas europeus, pelo desprezo dos interesses das populações, pelo desprezo pela democracia no espaço europeu. Uma história em que os interesses do sistema financeiro como um todo prevaleceram como o novo objectivo comum da política europeia. Com o funcionamento da democracia amordaçado pelo dogma austeritário, com os estados remetidos a um papel de meros serventes dos mercados, o resgate da Grécia simboliza, ironicamente, a colocação, pelos centenos da europa, de uma última pedra no túmulo da ideia da Europa dos povos, da solidariedade e do desenvolvimento integrado.

Centeno com o seu breve discurso anunciou de forma festiva o fim da Europa dos cidadãos e a emergência da Europa dos poderosos.  Cada um é para o que presta, como diria o seu padrinho, o poderoso Schäuble. 


14/08/18

A entrevista ao Expresso de António Costa. A ideologia algures entre o Roblismo e o temor pró-austeritário da senhora comerciante de Viseu

António Costa deu uma extensa entevista ao Expresso do passado fim de semana. Uma extensa entrevista em pleno estio de que pouco ou nada se aproveitou. António Costa revelou ao mundo a importância que teve a conversa com uma senhora comerciante de Viseu. Essa conversa  permitiu-lhe antecipar a derrota nas eleições de 2015. Conversa que terá sido uma revelação: Costa percebeu a necessidade  de descansar as pessoas, deixar claro que os ganhos obtidos com a austeridade não iriam ser hipotecados por uma governação aventureira. Costa não disse mas todos nós entendemos que Mário Centeno é o alter ego de todas as todas as pessoas que pensam como a senhora comerciante de Viseu. Foi por isso que o chamou para o Governo, para as poder sossegar.

Percebida a mensagem da comerciante viseense, feita a necessária clarificação ideológica, Costa acha estar agora melhor colocado para conseguir a maioria absoluta que lhe fugiu em 2015.

Para que uma Geringonça rejuvenescida se possa afirmar, António Costa apenas identifica uma única condição a satisfazer: um reforço da posição do PS. Nada de novo. Em 2015 Costa recorreu ao BE e ao PCP para criar as condições de viabilização de um Governo do PS. Conseguiu esse objectivo.
Agora, com o reforço do PS -  a que Costa aspira e que de certo irá obter -, uma geringonça full sized será dispensável. Mas, Costa, magnânimo, promete ainda assim uma geringonça que, naturalmente, não assuste a senhora comerciante de Viseu.

Costa mostrou-se impiedoso com Robles e com o "Roblismo", a variante especulativa da actuação autárquica do BE na capital. Costa não esquece que o PS perdeu a maioria absoluta em Lisboa em grande parte devido ao crescimento do BE. O Roblismo é uma oportunidade que Costa não podia perder. Á falta de uma senhora comerciante de Lisboa avisada sobre estas coisas, define ele próprio as condições que lhe permitirão recuperar o precioso eleitorado da capital, que tinha delegado no BE a liderança do combate contra a especulação. Costa já afirmara que recusava o turismo enquanto agente transformador das cidades em parques de diversões. Mais de 2400 milhões de euros para garantir a coisa. Tendo Robles cedido ao vício é Costa, e não Medina - que carece do BE para a gestão corrente - a mostrar como se combate a especulação. Um único parágrafo basta para dizer tudo. Um parágrafo com  a máxima generalidade, com uma defesa intransigente do arrendamento acessível - seja lá isso o que for e acessível a quem- e um irresistível, diz ele, apelo fiscal aos senhorios para arrendarem abaixo do preço do mercado.

Não fosse a momentânea atrapalhação causada pela captura da virtude pelo vício e o BE poderia fazer uma de duas coisas: aplaudir o que Costa disse sobre as políticas públicas urbanas na cidade e o seu compromisso com uma política de habitação que combata a especulação; denunciar a falta de clareza e a falta de ambição de uma política que não responde à liderança do mercado especulativo e ao seu potencial destrutivo das cidades.

Assim, nenhum comerciante, como a senhora de Viseu, poderá ficar preocupado com a falta de clareza nos conceitos utilizados, com a ausência de calendarização e de financiamento da intervenção prevista, com a aparente morosidade na execução das políticas, nestes tempos de velocidade estonteante. Afinal, vai tudo continuar no mesmo caminho, na mesma dinâmica, ou na falta dela, embora possa parecer que os desiquilibrios estão a ser contrariados. Ver-se-á daqui a uns anos, embora se note todos os dias, com ou sem maioria absoluta, isto é, com ou sem geringonça.

13/08/18

Opressão estatal versus social

Uma coisa que noto (por exemplo, aqui) é que, a respeito dos EUA, as mesmas pessoas conseguem simultaneamente dizer que são os "progressistas"/"politicamente corretos"/"guerreiros da justiça social" que dominam (apesar de neste momento os Republicanos controlarem os três ramos do governo  - o raciocínio implícito parece ser que o "poder social" que os "progressistas" têm, via meios de comunicação, universidades e grandes empresas tecnológicas, é mais importante que o poder político que os conservadores têm), e que as minorias étnicas não são vítimas de discriminação, porque as leis que as discriminavam contra foram abolidas e pelo contrário até há políticas públicas discriminando a favor delas (ou seja, só o que interessa são as leis e o que o Estado faz; qualquer discriminação que possa existir a nível da sociedade civil é irrelevante).

Note-se que embora isto tenha a ver com uma questão dos EUA, não é raro encontrar, nos blogs e redes sociais, encontrar portugueses fazendo raciocínios nessa linha.

27/07/18

Empregos mínimos garantidos?

Uma ideia que parece estar a ganhar tracção (p.ex., é umas das propostas de Alexandria Ocasio-Cortez, a autoproclamada socialista que ganhou as primárias Democratas para ser candidata pelo "14º distrito" - parte do Bronx e de Queens - de Nova Iorque, contra um dos supostos líderes do partido) é a do "job guarantee", isto é, um sistema em que qualquer pessoa poderia ter um emprego no Estado se assim o desejasse (significando que quem não conseguisse ou não quisesse arranjar um emprego no sector privado poderia sempre ir trabalhar para o Estado). Neste momento, essa ideia parece-me a grande rival do Rendimento Básico Incondicional na categoria "novas ideias para adaptar o estado social às condições do mundo de hoje".

A respeito dessa ideia, temos aqui um artigo ("Basic Income, not Basic Jobs: Against Hijacking Utopia") de Scott Alexander criticando-a e outro de Paul Krugman mais ou menos a defendê-la.

Mas há uma crítica que vi há uns anos que me parece relevante - do que a "job guarantee" não passa de "glorified workfare",  isto é, apenas uma versão com um título mais positivo daquelas ideias de "pôr os desempregados e os beneficiários do RSI a limpar as matas". E no fundo a diferença parece-me muito de "framing"; e nem precisamos muito de ir mesmo para a questão do "job guarantee" para ver como uma pequena diferença de vocabulário pode alterar quem simpatiza em que discorda de uma proposta: compare-se A) o já referido "deveríamos pôr os desempregados e os beneficiários do RSI a limpar as matas"; e B) "deveríamos fazer um projeto de obras públicas - p.ex., uma grande limpeza de matas - para criar postos de trabalho; e quase se pagaria a sí próprio, já que parte do dinheiro que se gastaria em salários seria poupado em subsídios de desemprego e em RSI" - não me admirava que grande parte dos defensores de B) seja contra A) e vice-versa, mas o conteúdo concreto não é assim tão diferente.

Parece-me que supostamente a principal diferença entre "empregos mínimos garantidos" e "pôr os desempregados a limpar as matas" é que no primeiro as pessoas receberão um ordenado, e no segundo recebem o subsídio de desemprego ou o RSI, eventualmente com uma bonificação, mas na prática ess diferença pode ser muito pequena (até porque nem é certo que o ordenado no primeiro caso seja maior que o subsídio no segundo), sobretudo se o programa de "empregos garantidos" vir a cair nas mãos de um governo hostil (que piore as condições e mantenha os ordenados congelados); outra potencial diferença poderá ser que no sistema "pôr os desempregados a limpar as matas" está implicita um obrigação, com o fim do subsídio se se recusarem, mas nem sei se isso será uma diferença, já que nem me parece muito claro se num sistema de "empregos garantidos" continuariam a haver subsídio de desemprego.

Há muitos anos vi um episódio de uma série de ficção científica (não me lembro qual - tinha a ideia que fosse na Quinta Dimensão, mas tive a ver a lista dos episódios e não o achei) em que as pessoas para receberem subsídios de desemprego tinham que passar a vida a conduzir camiões (penso que vazios) de um lado para outro, e creio que teriam que fazer um mínimo de quilómetros; receio que os "empregos garantidos" (sobretudo, repito, sob um governo hostil ao "estado social") possam facilmente degenerar nisso.

24/07/18

"Intolerância e discriminação" contra os cristãos?

Há dias foi publicado [pdf] um relatório de casos de "intolerância e discriminação contra os cristãos na Europa" (via O Insurgente).

Há lá efetivamente montes de casos graves, como igreja atacadas e incendiadas, mas o relatório mistura e soma esses casos a outros "casos" (uma minoria no conjunto, é verdade, mas talvez potencialmente significativos  nalguns países) que noutro contexto levariam logo uma acusação de "snowflakes" (situações estilo “alguém disse mal da igreja católica” ou “católica praticante perde uma votação numa associação de estudantes”).

Exemplos: "Satirical Publication Deeply Insulted Catholic Church" (página 21), "Belgian Red Cross Branches Ordered to Remove Crucifixes" (página 23 - vai-se ler e foram "ordered" por um órgão dirigente da própria Cruz Vermelha), "Croatian Theatre Festival Included Play with Jesus Christ Rape Scene" (página 23), "Visitors at Estonian National Museum Invited to Kick Image of Virgin Mary" (página 23), "Paris Court Acquits Femen" (página 25), "German Newspaper: Orlando Shooter Could Just as Well Have Been Christian" (página 37), "News Article Used Pro-Life Rally Picture to Illustrate “Religious Extremism”" (página 40), "German Greens Created “Anti-Feminist” Wiki; Targeted Christian Public Figures" (página 40), "Lottery’s Advertisement Featured Model Posing as Crucified Jesus" (página 41), "Pro-Abortion Activist Dressed as Bishop; Handed out Abortion Pills at “Communion”" (página 42), "Catholic Pro-Life Student Union President Ousted" (página 42), "Italian Television Presenter Attacked Online for Wearing Rosary & Holy Medals" (página 43), "Rome Bus Stops the Target of Offensive Images" (página 44), "Columnist Calls Immigration Minister’s Crucifix Necklace a Symbol of Xenophobia" (página 45), "Polish Prosecutors Investigate Play for Offending Religious Sentiments" (página 45), "Mallorca Gay Men’s Chorus Dress as Nuns" (página 46),  "Media Campaign Targets Priest for Upholding Church Doctrine" (página 48), "Spanish Councilman Officiated Wedding Dressed as a Priest" (página 50 - apropriação cultural!), "Las Palmas Prosecutor Investigated Performance of Drag Queen as Christ" (página 51), "Muslims Encouraged to Marry Christians to Spread Islam in Spain" (página 51), "Journalist Called Bishop Sexist and Homophobic" (página 51), "Mongolia Magazine Puts “Transgender Jesus” on Cover" (pagina 52), "Ramadan Prayer in front of Virgin Mary Statue" (página 53), "The Arran Organization Lleida Launches Obscene Campaign Against Bishops" (página 54), "Bilbao: Fair Booth Depicts Jesus Christ as Cuts of Meat" (página 54), "Catalonian Separatists say Church is the Enemy" (página 55), "Television Presenter Calls Christian a “Homophobe”; Receives No Sanctions" (página 58), "Hindu UKIP Member Racially Harassed for Calling Britain a “Christian Country”" (página 60) ou "Church Leaders and Prime Minister Criticized National Trust" (página 61).

Sobretudo diria também que apresentar os casos "procurador investiga alguém por esse alguém ter ofendido a religião" (vejo pelo menos dois) como exemplos de intolerância e discriminação CONTRA os cristãos (presumivelmente intolerância e discriminação por parte da pessoa que está a ser investigada) é algo entre o bizarro e o risível.

Muitos outros (sobretudo em Espanha) casos de "intolerância e discriminação" resumem-se ao Estado deixar de promover o cristianismo ou o catolicismo. Exemplos: "Religion Classes in Belgium Replaced with Citizenship Classes" (página 21), "Court Gave Town Three Months to Remove Statue of Virgin Mary" (página 29), "French Civil Protection Federation Removed Cross from New Logo" (página 31), "Crosses Ordered Removed from District Court in Saarbrücken" (página 37), "Berlin’s Left-Wing Politicians Opposed Cross on City Palace" (página 40), "Humanist Association Urged Vote to Remove “God” from Constitution" (página 42), "Town Council to Remove Cross from Public Square" (página 47),"City Council to Vote on Removal of Religious Symbols from Public Spaces" (página 48), "Government of Rincon Prohibited Nativity Scene in Municipal Courtyard" (página 48), "Easter Poster Depicting Christ Removed from Government Office" (página 49), "School Prohibited Christmas Decorations with Religious Motifs" (pagina 49), "Work Begins to Remove Monumental Cross in Sant Carles de la Ràpita" (página 50), "Parliamentary Group Called for a Ban on Broadcasts of Mass on Public Television" (página 50), "Leftists in Seville Sought to Change the Coat of
Arms" (página 50), "Politicians of Ponferrada Demanded Removal of Holy Week Exhibition in School" (página 51), "Motion Filed for Catholic Church to Pay Property Tax" (página 51), "Secularist Associations Call for Removal of Virgin Mary from Police Medal" (página 55) ou "National Secular Society Proposes Removal of Bishops’ Bench from House of Lords" (página 61).

Há também um conjunto de casos que talvez sejam casos de intolerância ou discriminação, mas que também podem ser simplesmente delitos comuns, que tiveram como alvo instituições religiosas porque era o que estava à mão, como "Offertory Box Stolen from St. Stephan’s Cathedral" (página 20), "L’Abbaye d’Orval Robbed" (página 21), "Theft from Tabernacle in Tintigny" (página 21) ou "Thieves Steal Gold from Sacred Statue of Our Lady of Pilastrello" (página 43).

E sobretudo há uma certa ironia em ambos estes casos sejam considerados "intolerância e discriminação" contra os cristãos - "Order of Nuns Fined for Firing Lesbian Teacher" (página 42) e "Court: Employers May Prohibit Employees from Wearing Religious Symbols" (página 63); ou seja, num mundo sem "intolerância e discriminação" contra os cristãos, as instituições cristãs poderiam despedir pessoas por levarem vidas pessoais contrárias às normas cristãs, mas outros empregadores já teriam que aceitar que os empregados usassem símbolos cristãos durante o trabalho.

Já agora, isto faz-me lembrar uma coisa: por vezes aparecem correntes nas redes sociais dizendo "país A [p.ex., o Canadá] vai institucionalizar a sharia"; depois vai-se ver a lei que está em discussão e é algo proibindo a discriminação religiosa (nomeadamente contra muçulmanos); normalmente essas conversas parecem-me idiotas, mas se calhar começo a perceber melhor porque é que algumas pessoas acham que proibir a discriminação contra muçulmanos significa instituir a sharia: porque pelos vistos também haverá quem ache que não-discriminação contra os cristãos será ter-se um estado confessional cristão.

23/07/18

A menos que o "assunto específico" seja pôr todos os contribuintes a assegurar a "sustentabilidade" do sistema financeiro.

Professores? “Não é possível pôr em causa a sustentabilidade do OE para 2019, só por causa de um assunto específico”, diz Centeno

O relativismo multissecularista politicamente incorreto

Quando se fala de assuntos como a escravatura, massacres coloniais, etc., frequentemente surgem os que contra-argumentam que não podemos julgar o comportamento de pessoas de outras épocas pelos padrões atuais; curiosamente, muitas vezes são os mesmos que, perante comportamentos "problemáticos" associados a outras culturas ou etnias, são os primeiros a atacar o que chamam "relativismo multiculturalista politicamente correto" e a defender o que consideram ser valores universais.

Acho que isso não faz grande sentido (que digo eu? não faz sentido rigorosamente nenhum): se se acha que há coisa que são intrinsecamente boas ou más, e que isso não depende da opinião da "sociedade" sobre o que é o bem ou o mal, isso deveria ser válido tanto no espaço como no tempo (se apedrejar adúlteras até à morte é mau mesmo numa cultura, situada num dado local, que veja isso como bom, então escravizar pessoas é mau mesmo numa cultura, situada numa dada época histórica, que veja isso como bom).

A esse respeito, e para dar um exemplo concreto, aproveito para citar o economista de direita ultra-liberal Bryan Caplan, no seu post "Columbus: The Far Left is Dead Right": "The lamest excuse of all is that we have to judge Columbus by the standards of his time. For this is nothing but the cultural relativism that defenders of Western civilization so often decry. If some cultures and practices are better than others, then we can fairly hold up a mirror to Columbus and the Spanish conquerors, and find theirs to be among the worst."

Basicamente, o que poderemos chamar o "relativismo multissecularista politicamente incorreto" (isto é, a posição que não podemos julgar as outras épocas e séculos pelos padrões atuais) e o "relativismo multiculturalista politicamente correto" são largamente similares (a única diferença é que as culturas que o "multissecularismo" acha que não podemos julgar pelos valores da nossa cultura existiram no passado e não no presente) - eu diria que ambos têm implícito a ideia que o problema da escravatura ou da lapidação não estará no mal que fazem a quem é escravizado ou lapidado, mas em ser uma ofensa à normas da sociedade (algo parecido com os tempos em que crimes como a violação eram classificados como "crimes contra os costumes" em vez de "crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual"), e portanto não serão de condenar se ocorrerem numa sociedade que aceite ou incentive esses comportamentos. Ou dito de outra maneira, os dois "relativismos" (multissecularista e multiculturalista) podem ser vistos como variantes da defesa de Nurumberga - já não "estava apenas cumprindo ordens", mas o ligeiramente diferente "estava apenas cumprindo as normas sociais em vigor nesse momento e lugar".

Mas como explicar esse paradoxo - de frequentemente os maiores defensores do "relativismo multissecularista politicamente incorreto" serem os maiores críticos do "relativismo multiculturalista politicamente correto", e vice-versa? A explicação que me parece mais lógica é que os que defendem o relativismo multissecularista e são contra o multiculturalista o que realmente querem é defender a status de superioridade da "civilização ocidental", e que tanto uma posição como a outra não passam de justificações ad hoc usadas quando dá jeito: quando se trata de comparar culturas diferentes, dá jeito dizer que há valores universais, de preferência equiparados aos ocidentais (e depois dizer que, de acordo com esses valores, o "Ocidente" é melhor que as outras culturas); mas quando se trata de falar de coisas que ocorreram no passado, e em que os "ocidentais" fiquem mal na fotografia, aí já dá mais jeito dizer que não podemos julgar os outros séculos pelos padrões do atual - as duas posições são logicamente incoerentes, mas produzem o mesmo resultado: ambas ajudam a dizer que "Ocidente" é uma maravilha. E claro, o mesmo se poderá dizer, mutatis mutandis, dos que defendem o relativismo multiculturalista e são contra o multissecularista (que o que querem é atacar o status do "Ocidente"). Dito isto, suspeito (mas não andei a fazer nenhuma contagem - pode ser simplesmente uma ilusão derivada de quem costuma mais ler) que os primeiros são mais que os segundos: há montes de gente que critica o papel dos países "ocidentais" na escravatura, imperialismo, etc. sem defender aquelas ideias de "não podemos criticar o que se passa na Arábia Saudita porque é outro cultura" (é a minha posição, p.ex.); já não são tão frequentes, parece-me, os que acham que não podemos condenar acontecimentos dos séculos passados nem os hábitos de outros povos ou culturas.