14/12/19

Sobre as eleições britânicas

Atendendo aos resultados foi efetivamente mais uma derrota dos Trabalhistas que uma vitória dos Conservadores; há quem diga que foi uma rejeição do "radicalismo" de Corbyn - faz sentido: o Labour perdeu cerca de 2 milhões e meio de votos face a 2017 porque muito eleitores que até simpatizavam com o centrista que na altura liderava o partido assustaram-se com o radical Corbyn.

Claro que a hipótese do "radicalismo" não faz grande sentido, pelo que parece-me que a razão mais provável para a queda eleitoral dos trabalhistas seja o Brexit (ok, houve também as falsas acusações de anti-semitismo, mas interrogo-me se isso terá influenciado alguém além dos que já estavam previamente convencidos).

Diga-se que quando começaram a sair resultados a minha primeira impressão foi de que as quedas da votação do Labour eram acompanhadas sobretudo por subidas do Brexit Party (claro que o BRX subiria sempre, porque é um novo partido, mas em grande parte desses circulos não tinha havido candidato do UKIP em 2017); veja-se uma das primeiras vitórias conservadoras anunciadas, Blyth Valley:


E a maior parte dos lugares perdidos pelos trabalhistas no nordeste de Inglaterra (uma das regiões onde houve maior perca de deputados) seguiram esse padrão - cerca de metade dos votos perdidos foram para o Brexit Party; e quase todos os círculos perdidos foram círculos que votaram "Leave" no referendo.

É verdade que no conjunto do Reino Unido isso não se verificou, e o principal beneficiário com a descida dos trabalhistas foram os liberais-democratas (e o "aumento" de 2 pontos do Brexit Party ainda é menor do que parece, porque o UKIP desceu 1,8 pontos, pelo que o partido-liderado-pelo-Nigel-Farage teve só mais duas décimas de ponto percentual - mas convém notar que não concorreu em muitos círculos):


Mas no contexto de um sistema eleitoral maioritário, o que foi relevante foi a transferência de votos para o Brexit Party (e para os conservadores, claro) - a transferência para os liberais-democratas parece ter ocorrido sobretudo em circulos que não mudaram de partido.

Muita gente está a dizer que foi um erro os trabalhistas terem, nestes últimos meses, colocado-se de forma praticamente aberta do lado do remain, propondo a realização de um segundo referendo - mas suspeito que se se tivessem posto de forma decisiva ao lado do brexit (e, sobretudo, do brexit conduzido por Boris Johnson) teriam há mesma tido grandes perdas, só que noutros sítios (claro que o sistema eleitoral FPTP tem peculiaridades - se os bastiões tradicionais dos trabalhistas, e agora pró-brexit ,no norte de Inglaterra tiverem sido ganhos em 2017 com uma margem eleitoral mais estreita do que os novos bastiões trabalhistas pró-remain na zonas da "elite metropolitana", isso quer dizer que foi mais grave ter perdido votos nos primeiros do que seria ter perdido nos segundos; aliás, como se viu acima, os trabalhistas perderem com certeza mais votos para os liberais-democratas, mas esse perde de votos pouco impacto teve no resultado em termos de deputados, devido à geografia eleitoral).

Já agora, ocorre-me que nalguns círculos talvez tenha sido bom para os conservadores que o Brexit Party tenha concorrido: se calhar houve eleitores que passaram dos trabalhistas para o BRX  (permitindo que esses círculos passassem para os conservadores) mas que teriam votado trabalhista se a única alternativa fosse o partido dos "posh boys" e da Thatcher.

Mais uns pontos:

N'O Observador, Miguel Pinheiro escreve que "Os opositores do Brexit queriam, portanto, um segundo referendo — e foi isso mesmo que tiveram esta quinta-feira"; na verdade, na quinta-feira passada, se fosse um referendo, teria sido uma DERROTA do Brexit (ou pelo menos do "Brexit realmente existente") - liberais-democratas, verdes, independentistas escoceses e regionalistas galeses (todos defensores do hard remain) mais os trabalhistas (opostos ao Brexit de Boris Johnson e defensores de um segundo referendo) tiveram 50,7% dos votos - claro que não se pode extrapolar totalmente de uma eleição legislativa para um referendo, já que a posição sobre o Brexit não terá sido o único assunto (terá havido remainers a votar conservador e brexiters a votar trabalhista, p.ex.), mas foi neste terreno que o Miguel Pinheiro se decidiu colocar (já agora, se, p.ex.. os liberais democratas tivessem ganho as eleições e cancelado o brexit, sem sequer fazer um novo referendo, como deram a entender, será que a eleição também contaria como um segundo referendo?).

Finalmente, como não poderia deixar de ser, apareceram uns sondagenfóbicos a dizer que "as sondagens voltaram a falhar"; mas que falha houve aqui nas sondagens??? O resultado foi mais ou menos o previsto pela maior parte das sondagens, nomeadamente as mais recentes, mais ponto percentual, menos ponto percentual:

Eu dá-me a ideia que para certas pessoas dizer que as sondagens falharam já é uma parte tão integral da sua rotina diária, como ir tomar o café da manhã, que têm a compulsão de dizer isso, mesmo quando elas acertam.

10/12/19

ELEIÇÕES NO REINO UNIDO - III

Falta apenas um dia para concluir a campanha eleitoral no Reino Unido. No dia 12 o país vai a votos.
As evoluções dos últimos dias não permitem esperar outro resultado que não a vitória dos Conservadores.
Faltará saber qual é a dimensão dessa vitória. Se com maioria absoluta ou se uma maioria relativa reforçada, quando comparada com o resultado da senhora May.
Aos trabalhistas e a Corbyn já só resta uma esperança: o impacto do voto dos novos eleitores. Parece ser nesse movimento de fundo - a existir - que se confinam as esperanças trabalhistas.

Nos últimos textos analisei vários factores que influenciaram decisivamente o resultado destas eleições. Ignorei um desses aspectos mais importantes: a campanha da ortodoxia judaica que elegeu Corbyn como um seu inimigo confesso. O rabino da comunidade judaica assumiu um comportamento nunca antes verificado. Declarou em plena campanha eleitoral que Corbyn não era um homem confiável para ser primeiro-ministro. Nunca na história da democracia britânica um líder religioso tinha tomado uma posição tão claramente política imiscuindo-se na luta partidária.

Corbyn não soube lidar com esta questão. Não foi capaz - e teve tempo para o fazer - de clarificar de forma límpida o seu posicionamento e do partido. Contra atacando aqueles que misturam a posição do governo de Netanyau com a posição dos judeus, como acontece com o rabino.

Mas, insisto, o maior erro de Corbyn foi o seu posicionamento face ao Brexit. A menos de duas semanas do final da campanha o Labour percebeu que estava à beira de perder parte da sua sempre fiel Red Wall, que votara maioritariamente pelo Leave. Optou nessa altura por concentrar aí os seus esforços, sem que se tenham verificado grandes progressos.

Entretanto, a maioria dos apoiantes do Remain,  entre os  que votaram Labour nas últimas eleições,  dividiram-se, e uma parte apoia agora os Lib Dem, partido que ao longo de anos apoiou os conservadores e as políticas austeritárias que penalizaram os britânicos. Esse apoio irá traduzir-se numa significativa perda de deputados do Labour a favor dos Tories. Os LIb Dem cumprem mais uma vez o seu papel histórico de aliados dos conservadores. Neste caso foram os trabalhistas que ajudaram à festa. Deveriam ter clarificado a sua posição a favor do Remain - que esvaziava os Lib Dem - e concentrado forças a recuperar o que fosse possível da Red Wall. [defendo esta posição desde sempre e não por razões de pura aritmética eleitoral. A Europa necessita de uma política "for the many not the few" que Corbyn deveria ter liderado. Não partilho da posição cobarde dos iluminados da esquerda que entendem que a política europeia não é reformável e que manifestam simpatia por movimentos como o sinistro Brexit de Johnson e Farage]

Os resultados das eleições só se conhecem depois de todos terem votado. A menos que haja uma vaga de fundo em defesa do SNS, do Direito à Habitação, da Educação Pública e pela redução das desigualdades, o patético líder dos conservadores irá dispor de quatro anos para tornar o Reino Unido uma sociedade ainda mais injusta e governar à imagem do presidente americano.

Não chegam boas notícias do Reino Unido.

08/12/19

O socialismo selvagem por Charles Reeve


Em tempos de neurastenia em que os apóstolos do there is no alternative parecem próximos de conseguir enfiar-nos o colete de forças do come-e-cala, livros como O socialismo selvagem são uma verdadeira lufada de ar fresco. Livros que lembram de forma inteligente, bem documentada e não resignada, que o poder verdadeiro, o poder autêntico, o poder real, apenas jaz provisoriamente nas mãos das autoridades estabelecidas, que o pervertem para servir interesses refastelados nas poltronas do imobilismo. O verdadeiro poder não está no tronco prometido a uma morte grotesca. Está na seiva. Está na vida. Assim imagino que tenha soado o Elogio da loucura de Erasmo para os seus leitores entorpecidos no sórdido comércio da palavra divina transformada em ritual oco e vazio. Da mesma forma, o empolgante ensaio de Charles Reeve (pseudónimo do nosso querido Jorge Valadas) vem lembrar-nos que o socialismo não foi cunhado pelos Doutores da Lei, nem concebido em forma estandardizada, pronto a ser enlatado... ou engavetado.

Tout ça n’empêche pas Nicolas
Qu’la Commune n’est pas morte !

Há quem se borre de medo com a perspectiva de ver o poder cair na rua. Mas, felizmente, há também quem tenha convicções genuinamente democráticas e lembre que a soberania nasce na rua, a quem cabe restitui-la regularmente. Os primeiros costumam pedir socorro a generais peritos em aquartelar a turba nas fortalezas do possível. Os segundos procuram antes desarmar os terratenentes do conformismo e retardar o momento em que a plebe regressará do Aventino.  Estes últimos – e Charles Reeve/Jorge Valadas é incontestávelmente um deles –  sabem que a efervescência do poder revolucionário, indisciplinado, indomável, selvagem, é o fabuloso laboratório do amanhã, porque sabe pintá-lo com as cores vivas e contrastadas do impossível. Percorrendo a história dos movimentos populares, o livro mostra com inteligência e rigor como isso se verificou sempre : em 1789-1795, e outra vez em 1871, em França, em 1917-8 na Rússia, em 1918-21 na Alemanha, em 1936 em Espanha, em 1968 novamente em França, em 1974-75 em Portugal, em 1994-96 no México, etc. Sem nunca ocultar que, em cada uma dessas occorrências, muito cedo se manifestaram as forças reaccionárias que acabaram por abafar ou desvirtuar o movimento.

Se o livro se contentasse com expor essa História, já seria o suficiente para recomendar acaloradamente a sua leitura, no panorama actual de demissão intelectual e de reverência generalizada diante do arcanjo engravatado que combate, supostamente para o nosso bem, o mostrengo da percentagem do défice. Mas o livro faz muito mais. Demonstra que essa História é actual, hoje mais do que nunca. Atento aos movimentos populares que, do Ocupy Wall Street ao Nuit debout, passando por outros, teimam em manter acesa a chama do inconformismo, o autor procura ouvir o que eles dizem em substância, a maneira como as suas reivindicações, longe de serem quimeras utópicas, actualizam e elucidam os anseios mais arcaicos e mais profundos do povo em movimento. Utópicas são as igrejas que nos tentam vender o céu às postas ! Quando o povo se levanta, nunca é para sonhar, mas para realizar, para alcançar, para cumprir. Nesse sentido, vale a pena ler com atenção as páginas dedicadas às reflexões sobre a problemática dos comuns e sobre a crise da representação política. Sem furtar-se à crítica dos inevitáveis disparates, que tantas vezes são por onde o sectarismo escolástico consegue infectar o movimento, Reeve mostra como o pensamento vivo se caracteriza pela propensão para reanimar concepções antigas, quando não ancestrais, e dar-lhes uma insuspeitada e inteligente actualidade. Não sei até que ponto há no Socialismo selvagem uma alusão consciente ao Pensamento selvagem de C. Levi-Strauss, mas o  parentesco parece-me evidente.  Num caso como noutro, vemos como a espontaneidade criativa do homem em sociedade, nas suas manifestações mais genuinas, que tantas vezes são consideradas “toscas” pela corja dos instalados, revela aquilo que ele tem de mais nobre e de mais promissor, que é fatalmente rebelde à instituição estabelecida.

Um livro que ilustra a célebre frase de O. Wilde, ou seria de W. de Faulkner, ja não sei, nem interessa : “a sabedoria é ter sonhos suficientemente grandes para não se perderem de vista quando os perseguimos”.

Escrito em francês e publicado em França em 2018 (por L’échappée), o livro acaba de ser publicado em Portugal pela Antígona (2019), numa tradução de Luís Leitão.

07/12/19

ELEIÇÕES NO REINO UNIDO - II

Como referi no post anterior tenho sérias dúvidas que o Labour consiga evitar uma maioria absoluta por parte dos Conservadores.

Há duas razões - além do posicionamento da imprensa, abordado no post anterior - que contribuem significativamente para esse resultado previsível: em primeiro lugar o facto de o partido do Brexit, liderado por Nigel Farage,  ter declarado que não concorre em todas as circunscrições em que os Conservadores são tradicionalmente a segunda força, nas quais o Labour enfrenta dificuldades com os seus velhos militantes e apoiantes que no referendo de 2016 apoiaram o Leave; em segundo lugar a desastrosa gestão do dossier Brexit por parte de Corbyn e dos seus conselheiros políticos. Corbyn que fez campanha pelo Remain and Reform - uma campanha pouco interessada, diga-se - evoluiu depois para uma posição de pró-Leave ainda que atenuada por um, incompreensível,  processo de negociação das condições de saída. Logo após a apresentação do Manifesto o líder trabalhista teve necessidade de esclarecer (?) que  iria adoptar uma posição neutral no segundo referendo. Quer isto dizer que sendo primeiro ministro - única condição para haver um segundo referendo - ele não tomará posição na mais importante questão política que divide o Reino Unido. Uma ideia bizarra justificada pela pretensão de ter sol na eira e chuva no nabal. Nos dois debates com Johnson, Corbyn foi claramente superior ao seu oponente, com as questões sociais e a discussão sobre a intervenção do Estado na economia a serem áreas em que mostrou a distância colossal que o separa do actual primeiro-ministro. No entanto, quando o tema Brexit vem para a discussão Corbyn fica tolhido pelas suas contradições e compromete o seu desempenho.

Uma sondagem, apenas uma, dá ao partido conservador uma maioria esmagadora nas próximas eleições. No entanto essa sondagem - e a forma como ela foi feita -  foi a única que previu o resultado de 2017. Esse resultado a acontecer será determinado pela perda de um conjunto de circunscrições que constituem a famosa "Red Wall" situada no Norte operário. Estas populações viraram as costas ao Labour e identificam a União Europeia como a principal responsável pela sua situação. Foram severamente afectados pela desindustrialização e pela deslocalização das principais empresas, facto que obedeceu a objectivos de política interna dos conservadores. Nem o plano de reindustrialização de Corbyn, nem a sua revolução verde, nem o reforço dos serviços de saúde e de educação, nem o aumento do salário mínimo para 12 euros por hora, os demove de votarem nos conservadores para garantir o Brexit tão cedo quanto possível.

Esta questão suscita várias reflexões e um aceso debate. O Labour foi obrigado a concentrar a sua campanha nestes territórios tradicionais com o objectivo de tentar minorar as perdas. Há um sentimento de frustração entre estas comunidades abandonadas ao longo de décadas e um descrédito total na democracia. Vimos o mesmo cenário na Grécia com cidadãos a passarem directamente do apoio aos comunistas e socialistas para a Aurora Dourada. Paul Mason, mais uma vez reflecte sobre esta situação.




O Labour sob a liderança de Corbyn tornou-se uma ameaça para a ordem vigente no Reino Unido desde que a senhora Teatcher assumiu a liderança nos idos de 1979.

Nesses longos 40 anos -  em que se inclui um hiato de 13 - 1997-2010 - em que os trabalhistas governaram o Reino Unido, primeiro sob a liderança de Blair - até 2007-  e no tempo restante com  Gordon Brown, sem alterarem no essencial a política dos conservadores - o Reino Unido tornou-se o país mais desigual da Europa e o segundo mais desigual do mundo desenvolvido, logo atrás dos Estados Unidos. Isso apesar de ser a segunda economia da Europa, atrás da Alemanha, e a quinta do mundo. Há hoje no Reino Unido uma pobreza generalizada agudizada pela crise na habitação. As pessoas da classe média e baixa são empurradas para as periferias e vivem em condições degradantes se atendermos ao que se passava vinte anos atrás. Isto apesar da prosperidade do País.

O Manifesto para estas eleições  apresentado por Corbyn sob o título "Is Time for Real Change" foi considerado pela editora de política do  Guardian,  Heather Stewart, como o programa político mais radical dos últimos 35 anos. Na linha, aliás, do que lançara em 2017.

As grandes orientações políticas do Manifesto organizam-se em torno de uma ideia muito simples: devolver ao Estado um papel líder na condução da política económica do País. Para isso o Labour propõe-se  :  reconstruir os Serviços Públicos, com destaque para a educação, a saúde e os transportes, com acesso gratuito à Internet para todos os cidadãos; combater a pobreza e a desigualdade, com a construção de um milhão de novas habitações, à taxa de 100 mil por ano, a surgir como medida mais importante, além do acesso gratuito e universal ao ensino pré-escolar e escolar, o fim dos contratos zero-horas e de elevar o salário mínimo para cerca de 12 euros/hora; concretizar uma revolução verde - com a criação de um milhão de novos postos de trabalho, em que a reindustrialização do país será associada a um compromisso com a defesa do planeta; realizar um novo referendo sobre o Brexit e realizar novas negociações, caso o Brexit seja de novo aprovado; uma nova atitude na cena internacional, balizada pela defesa da justiça e da solidariedade internacional.

O Manifesto implica um investimento de mais de 80 biliões de libras que o Labour se propõe financiar com um valor equivalente de impostos sobre as grandes empresas e as maiores fortunas.

Um programa político desta dimensão no coração do neoliberalismo global é uma ousadia que não podia passar incólume. Choveram as críticas, que foram aliás antecipadas pelo líder trabalhista quando apresentou o Manifesto. Em particular o Instituto dos Estudos Fiscais - IFS - atacou o programa do Labour acusando-o de ir aumentar enormemente a despesa pública e de isso implicar o aumento dos impostos sobre a população em geral. As comparações internacionais mostram no entanto que aplicando o programa do Labour em 2023 o investimento público ainda se situará francamente abaixo do que é hoje a realidade em países como a Suécia, a Bélgica, A França, a Alemanha e a Itália.

Estas críticas suscitaram várias reacções e uma ou outra leitura crítica. Trata-se, no entanto, de uma reacção tradicional de quem percebe uma ameaça ao modo de vida instalado, ao seu modo de vida. Modo de vida que permite aos 10% do topo arrecadarem a maioria esmagadora do rendimento disponível. Quem os poderá convencer a fazerem campanha para perderem os seus escandalosos privilégios?







05/12/19

ELEIÇÕES NO REINO UNIDO - I

Estão próximas as eleições antecipadas no Reino Unido. São já no próximo dia 12 de Dezembro, na próxima quinta-feira.

Confesso que não partilho do optimismo de Ken Loach, embora partilhe a maioria das suas opiniões quanto à situação política no Reino Unido e em toda a Europa, e compreenda as razões pelas quais  ele entende que o Labour irá vencer as eleições.




Uma das referências feitas por Loach é ao comportamento da imprensa. Não está sozinho. Há uma campanha de fake news originadas no partido conservador e um tratamento desigual por parte da generalidade da imprensa. Há quem o refira, como é o caso da Universidade de Loughborough que analisa o acompanhamento da campanha pela imprensa   Mas, também Paul Mason, o jornalista e escritor, se refere de forma clara à campanha dos Conservadores e ao posicionamento dos principais orgãos de informação, como se pode ver no vídeo seguinte:



Corbyn, quando as eleições foram marcadas, declarou que estávamos perante uma oportunidade que aparece uma vez numa geração. Subscrevo essa declaração. No entanto, o longo período entre as eleições de 2017 - a culminar um crescimento notável do Labour com a perda da maioria absoluta pelos conservadores - deixou marcas profundas no eleitorado que constituiu a base dessa recuperação sob a liderança de Corbyn. A clivagem entre Remainers e Leavers instalou-se com estrondo no seio do partido trabalhista e esse facto - mas não só - vai decidir o resultado das eleições e permitir aos conservadores uma nova - e catastrófica, sem margem para dúvidas - maioria absoluta, viabilizando uma saída da União Europeia com o único objectivo - como Loach reconhece - de suprimir os escassos direitos que aos trabalhadores ainda são reconhecidos e colocando sectores estratégicos dos serviços públicos - com particular destaque para o Serviço Nacional de Saúde - nas mãos das  multinacionais americanas, além de uma total liberalização das regras de protecção ambiental.

A história ainda não acabou e, apesar das baixas expectativas quanto a uma vitória do Labour, são elevadas as minhas esperanças de que o movimento iniciado por Corbyn, no coração do neoliberalismo global, não seja travado e que mais cedo do que tarde seja possível construir uma sociedade "for the many, not the few."


03/12/19

Em que universo paralelo os engenheiros ganham mais que os médicos?

No twitter, Carlos Guimarães Pinto nota que Portugal é o país da OCDE em que é maior a tendência para os melhores alunos rapazes quererem ir para ciências e engenharia (ele chama-lhe só "engenharia", mas pronto) e as melhores alunas para a área de saúde; a seguir, aparece logo alguém a tentar usar isso como explicação para o wage gap entre homens e mulheres.

Deixando de lado o facto de cerca de metade da diferença salarial entre homens e mulheres ser diferença dentro da mesma profissão, suspeito (isto é, tenho a certeza) que os médicos ganham mais que os engenheiros, portanto, se alguma coisa, essa diferença de preferências poderia originar era uma diferença salarial de sinal contrário à realmente existente. (ok, "saúde" não é apenas médicos - embora provavelmente o seja no grupo que estamos a discutir, dos "alunos de topo").

01/12/19

O estado das Urgências Pediátricas

Num altura em que tanto se fala de urgências pediátricas e blocos de partos fechados por falta de pediatras, de aumento da mortalidade materna, de grávidas a terem que ser transferidas de um lado para outro, etc. há um assunto que ninguém parece discutir e que acho que mereceria ser discutido (agora que se está a ver que os médicos pediatras são um recurso escasso):

Fará sentido a política que tem sido adotada nos últimos anos de mandar para as Urgências Pediátricas todos os menores de 18 anos (pondo no mesmo saco os bebés de colo e os bêbados da noitada anterior), em vez de apenas as crianças propriamente ditas, como antigamente?

25/11/19

Houve ou não fraude eleitoral na Bolívia? (II)

Este assunto parece já ter perdido alguma relevância, já que as várias partes envolvidas já estão numa espécie de processo de acordo, mas de qualquer maneira temos aqui um post de um norte-americano perito em estatística e ciência política, Andrew Gellman (famoso pelo livro "Red State, Blue State, Rich State, Poor State Why Americans Vote the Way They Do") , exatamente sobre esses dois documentos com conclusões opostas.

Gellman não se pronuncia muito, dizendo que percebe muito pouco da Bolívia, mas parece-me que acha o estudo do CEPR (que diz que não houve fraude) um bocadinho melhor (pelo menos na parte da análise matemática) que o da OEA.

22/11/19

Houve ou não fraude eleitoral na Bolívia?

Duas leituras sobre o assunto, cada qual com a sua inclinação:

Statement of the Group of Auditors Electoral Process in Bolivia, publicado pela OEA, indicando que provavelmente ouve fraude

No Evidence That Bolivian Election Results Were Affected by Irregularities or Fraud, Statistical Analysis Shows, publicado pelo Center for Economic and Policy Research, indicado que provavelmente não houve fraude

Diga-se que há uma diferença de estilo entre os dois relatórios - o relatório da OEA concentra-se sobretudo na questão "a maneira como os votos foram contados tornou fácil aldrabar os resultados?" (concluindo que sim), e o do CEPR na questão "os resultados finais anunciados são resultados muito diferentes do que seria de esperar numa eleição limpa?" (concluindo que não).

N-ésima prova de que a extrema-direita não se baseia nas redes sociais

Right-Wing Populism, Social Media and Echo Chambers in Western Democracies[pdf], por Shelley Boulianne, Karolina Koc-Michalska, and Bruce Bimber (via Tyler Cowen):
Many observers are concerned that echo chamber effects in digital media are contributing to the polarization of publics and in some places to the rise of right-wing populism. This study employs survey data collected in France, the United Kingdom, and United States (1500 respondents in each country) from April to May 2017. Overall, we do not find evidence that online/social media explain support for right-wing populist candidates and parties. Instead, in the USA, use of online media decreases support for right-wing populism. 
Isto é mais ou menos o que eu já tinha dito aqui;
Vamos puxar um bocadinho pela cabeça - é mais ou menos sabido que Trump, o Brexit, o FPOe austríaco, etc., têm tido as suas maiores votações nas pequenas localidades, entre as pessoas mais velhas e com menos instrução (a parte das localidades é sabido - basta ver os resultados; a parte do "pessoas mais velhas e com menos instrução" pode não ser assim tão linear, mas é o que as sondagens indicam); parecem-lhes mesmo o tipo de pessoa que passa o dia no Facebook, talvez com um intervalinho para jogar no Farmville ou para ver um filme no Netflix? Eu imagino-os mais facilmente no café do bairro a queixarem-se que "os miúdos de hoje estão sempre agarrados à máquina e já não fazem desporto nem convivem".

A policia lançando gás lacrimogénio sobre a marcha com os mortos nos protestos bolivianos

21/11/19

19/11/19

José Mário Branco. Um dia triste

Morreu o José Mário Branco. Morre com ele um pouco de todos aqueles que acreditaram sempre que era possível construir uma sociedade mais justa, realizar a Mudança para um mundo melhor.


18/11/19

Os maiores massacres do século XX

30 Worst Atrocities of the 20th Century (mortos em percentagem da população), por Matthew White (via Noah Smith):



Ajuda a pôr isto em contexto.

17/11/19

Protesto psicadélico no Chile


16/11/19

A liberdade de imprensa na nova Bolívia


15/11/19

O Gulag era diferente de Auschwitz

Anne Applebaun, em Gulag - Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos, (páginas 23-25):
Nada  disso  significa  que  os  campos  soviéticos  e  nazistas  fossem  idênticos. Conforme   qualquer   leitor   com   algum   conhecimento   geral   do   Holocausto  descobrirá  no  decorrer  deste  livro,  a  vida  no  sistema  de  campos  soviético  diferia  de  muitas  maneiras  (quer  sutis,  quer  óbvias) da  vida  no  sistema  de  campos  nazista.  Havia  diferenças  na  organização  do  cotidiano  e  do  trabalho,  diferentes  tipos  de  guardas  e  punições,  diferentes  tipos  de  propaganda.  O Gulag  durou  muitíssimo  mais  e  passou  por  ciclos  de  relativa  crueldade  e  relativa humanidade. A história dos campos nazistas é mais curta e apresenta  menos  variações:  eles  simplesmente  se  tornaram  cada vez  mais  cruéis,  até  serem  destruídos  pelos  alemães  em  retirada  ou  libertados  pelos  Aliados.  O Gulag  também  continha  variedade  maior  de  campos,  desde  as  letais  minas  auríferas  da  região  de  Kolyma  até  os "luxuosos"  institutos  secretos  nas  cercanias  de  Moscou,  onde  cientistas  aprisionados  projetavam  armas  para  o Exército  Vermelho.  Embora  existissem  diferentes  espécies  de  campo  no  sistema nazista, a gama era muitíssimo menor.

Sobretudo,  duas  diferenças  entre  os  sistemas  me  parecem  fundamentais.  Em  primeiro  lugar,  a  definição  de  "inimigo"  na  URSS  sempre  foi  muito  mais  vaga  que a de "judeu" na Alemanha nazista. Nesta, com número muito pequeno de  exceções  incomuns,  nenhum  judeu  podia  alterar  sua  condição,  nenhum  judeu  preso num campo podia ter esperança racional de escapar à morte, e todos os  judeus  estavam  cientes  disso  o  tempo  todo.  Embora  milhões  de  prisioneiros  soviéticos  temessem  pela  própria  vida  -  e  milhões  deles  tenham  realmente  morrido -,  não  havia  nenhuma  categoria  de  prisioneiro  cuja morte  estivesse  absolutamente  garantida.  Por  vezes,  certos  presos  podiam  melhorar  sua  situação   em postos de trabalho relativamente   confortáveis, como os de engenheiro ou geólogo. Em cada campo, havia uma hierarquia de prisioneiros, na  qual  alguns  eram  capazes  de  subir  à  custa (ou  com a ajuda) de  outros.

Outras vezes - quando o Gulag se via sobrecarregado de mulheres, crianças e  idosos,  ou  quando  se  necessitava  de  soldados  para  a frente  de  batalha  -,  os  presos  era  soltos  graças  a  anistias  maciças.  Em  certos  momentos,  acontecia  que  categorias  inteiras  de  "inimigo"  se  beneficiavam  subitamente  de  uma  mudança de condição. Em 1939, por exemplo, no começo da Segunda Guerra Mundial,  Stalin  prendeu  centenas  de  milhares  de  poloneses  -  e  depois,  em 1941,  ele  os  libertou  de  chofre,  quando  a  Polônia  e a  URSS  se  tornaram  temporariamente aliadas. O oposto também se aplicava: na URSS, os próprios  opressores  podiam  virar  vítimas.  Guardas  e  administradores  do  Gulag  e  até  altos  funcionários  da  polícia  secreta  também  podiam  ser  aprisionados  e  condenados   aos   campos.   Em   outras   palavras,   nem   todas as "víboras"  conseguiam  manter  as  presas  -  e  não  havia  nenhum  grupo  específico  de  prisioneiros soviéticos que vivesse na expectativa  constante da morte.

Em segundo lugar (conforme, mais uma vez, ficará claro no decorrer do livro), o  propósito  primordial  do  Gulag,  segundo  tanto  a  linguagem  privada  quanto  a  propaganda  pública  daqueles  que  o  fundaram,  era  econômico.  Isso  não  significa  que  o  sistema  fosse  humanitário.  Nele,  os prisioneiros  eram  tratados  como  gado,  ou  melhor,  como  pedaços  de  minério  de  ferro.  Os  guardas  os  faziam ir para lá e para cá a seu bel-prazer, embarcando-os e desembarcando- os  de  vagões  de  gado,  pesando-os  e  medindo-os,  alimentando-os  se  parecia  que poderiam vir a ser úteis, deixando-os à míngua  quando não o eram. Para  usarmos  a  linguagem  marxista,  os  prisioneiros  eram  explorados,  reificados  e  mercantilizados. A menos que fossem produtivos, suas vidas não valiam nada  para seus senhores.

Sua  vivência,  porém,  era  muito  diferente  daquela  dos  judeus  e  dos  outros  prisioneiros que os nazistas enviavam para um grupo especial de campos que  se  chamavam  não  Konzentrationslager,  mas  Vernichtungslager  -  campos  que  não  era  realmente  "campos  de  trabalhos  forçados",  e  sim  usinas  da  morte. Havia  quatro  deles:  Belzec,  Chelmno,  Sobibor  e  Treblinka.  Já  Majdanek  e Auschwitz  continham  tanto  campos  de  trabalhos  força dos  quanto  campos  de  extermínio.  Ao  entrarem  nesses  campos,  os  prisioneiros  passavam  por  uma "seleção".   Um   número   ínfimo   era   designado   para   algumas   semanas   de  trabalhos  forçados.  O  restante  era  mandado  direto  para  as  câmaras  de  gás,  onde os assassinavam e então cremavam de imediato.

Até  onde  pude  comprovar,  essa  forma  específica  de  homicídio,  praticada  no  auge do Holocausto, não teve equivalente na URSS. É bem verdade que esse último  país  encontrou  outras  maneiras  de  chacinar  centenas  de  milhares  de  cidadãos.  Geralmente,   eles   eram   conduzidos  à   noite  para   uma  floresta,  alinhados,  baleados  na  nuca  e  enterrados  em  sepulturas  coletivas  antes  mesmo  de  chegarem  perto  de  um  campo  de  concentração -  modalidade  de  homicídio  não menos  "industrializada"  e  anônima  que a usada  pelos  nazistas. Há   mesmo   histórias   de   que   a   polícia   secreta   soviética   usou   gás   de  escapamento  (uma  forma  primitiva  de  gás  venenoso)  para  matar  prisioneiros,  da   mesma   forma   que   os   nazistas   fizeram   no   começo. No   Gulag,   os  prisioneiros também morriam, em geral graças não à  eficiência dos captores, e  sim  à  incompetência  e  à  negligência  crassas. Em  certos  campos  soviéticos em   determinadas   épocas,   a   morte   era   praticamente   certa   no   caso   dos escolhidos  para  cortar  árvores  nas  florestas  hibernais  ou  trabalhar  nas  piores minas  auríferas  de  Kolyma.  Prisioneiros  também  eram trancados  em  celas punitivas  até  morrerem  de  frio  ou  inanição,  largados  sem  tratamento  em hospitais  subaquecidos  ou  simplesmente  baleados  por  "tentativa  de  fuga" quando dava na telha dos guardas. Entretanto, o sistema soviético de campos como um todo não era propositalmente organizado para produzir cadáveres em escala industrial - mesmo que às vezes o resultado fosse esse.

São distinções sutis, mas importantes. Embora o Gulag e Auschwitz realmente  pertençam  à  mesma  tradição  intelectual  e  histórica,  eles  ainda  assim  são  fenômenos separados e diferentes, tanto um do outro quanto dos sistemas de  campos  estabelecidos  por  outros  regimes.  A  idéia  de campo  de  concentração  talvez seja genérica o bastante para que a usem em  culturas e situações muito  diversas,  mas  até um estudo  superficial  da história transcultural  desse  tipo  de  campo revela que os detalhes específicos - como se  organizava a vida, como o  estabelecimento   se   desenvolvia   no   decorrer   do   tempo, quão rígido ou  desorganizado  se  tornava,  quão  cruel  ou  liberal  permanecia  -  dependiam  do  país, do regime político e da cultura. Para quem estava encurralado atrás do arame farpado, esses detalhes eram cruciais para a vida, a saúde e a sobrevivência.

Regressando ao Chile - nova constituição à vista

Chile anuncia plebiscito para nova Constituição em abril de 2020 (Veja):
Congressistas chilenos anunciaram, em coletiva de imprensa nesta sexta-feira 15, que o país realizará um plebiscito em abril de 2022 para estabelecer uma nova Constituição, substituindo a atual que remota ao período de ditadura militar. A medida é uma resposta do governo após quase um mês de protestos pelo país, que deixaram ao menos 22 mortos.

O plebiscito deve questionar primeiramente se a população está de acordo com a formulação de uma nova Constituição. Aos eleitores que responderam que sim, o modelo deve perguntar também quem deve formar a assembleia constituinte: apenas cidadãos eleitos para essa função ou uma comissão mista incluindo congressistas.
A noticia fala em 2020 no título e em 2022 no corpo do artigo, mas lendo o acordo assinado entre os partidos políticos é mesmo 2020:

13/11/19

A nova "presidente" da Bolívia

Jeanine Añez Chavez tomou posse como presidente da Bolívia ("presidente constitucional", como ela se proclama no Twitter); diga-se que a constituição boliviana não é muito clara sobre o que acontece se o presidente, o vice-presidente, o presidente do senado e o presidente da câmara dos deputados se demitirem[pdf] (e de qualquer maneira a reunião do parlamento em que ela assumiu o cargo não tinha quorom porque os deputados do MAS não participaram):
En caso de impedimento o ausencia definitiva de la Presidenta o del Presidente del Estado, será reemplazada o reemplazado en el cargo por la Vicepresidenta o el Vicepresidente y, a falta de ésta o éste, por la Presidenta o el Presidente del Senado, y a falta de ésta o éste por la Presidente o el Presidente de la Cámara de Diputados. En este último caso, se convocarán nuevas elecciones en el plazo máximo de noventa días (artº 169º, ponto 1).

Parece que o tribunal constitucional da Bolívia disse que a posse dela era legítima, mas a esse respeito já alguém escreveu "A constitutional court also said Morales could run again in spite of an obvious constitutional prohibition against it. I'm not sure Bolivia's constitutional court is doing the best job checking the power of the presidency."

Alguns comentários que li por aí à sua posse:
Além disso, consta que ela terá publicado isto no Twitter (e posteriormente apagado):

É possível que isto seja fake, já que não se encontra o original em lado nenhum; num entanto, usando a Wayback Machine é possivel recuperar este tweet dela, também apagado, onde ela me parece associar o ano novo aymara ao satanismo:

12/11/19

Evo Morales e o golpe na Bolívia

O desempenho dos governos liderados por Evo Morales do ponto de vista da redução da desigualdade foi extraordinário. Sendo a  Bolívia um país muito pobre a redução para metade da população afectada pela pobreza e o aumento do salário mínimo, passando de 54 para 305 dólares, são marcos assinaláveis.

No entanto, Morales e a estrutura partidária que o suporta não foram capazes de quebrar a lógica da pessoalização da política, típica da América Latina. O presidente boliviano é o mais antigo presidente em funções na América Latina e, nas eleições agora realizadas, cometeu vários erros, que os seus adversários aproveitaram. O primeiro foi a sua recandidatura. Faz muita confusão que ao longo de 14 anos não tenho sido possível encontrar alguém com capacidade para continuar a liderar o projecto político de que Morales foi a face visível. Faz muita confusão, por outro lado, que estes dirigentes sejam incapazes de aceitar - e de compreender - os resultados eleitorais, quando estes os penalizam.

Quando falo de adversários refiro-me aos adversários políticos e às grandes corporações que olham para a Bolívia como olham para qualquer outro país: um jazigo de matérias primas e de mão de obra escrava, prontos a serem utilizados.

O que terá ajudado ao golpe de estado, que o Exército concretizou contra Morales, foi a decisão que o Presidente tomou relativamente às reservas de lítio existentes no país, em particular a sua decisão de cancelar um acordo com uma multinacional alemã. Os recursos existentes na Bolívia, ou noutro qualquer país, não são das populações. São das multinacionais, que não olham a meios para atingir os seus fins. Afinal, como aprendemos depois da crise de 2008, o neoliberalismo é a lógica do mercado imposta pela violência, como nos recorda Paul Mason* no seu último livro.

As reacções políticas por cá - com excepção do PCP e do BE - e em geral na União Europeia são nulas.

* - Um futuro Livre e Radioso. Uma defesa apaixonada da Humanidade. Paul Mason. 2019. Objectiva. Grupo Editorial da Penguin Random House.




11/11/19

Ponto de ordem

É possível achar simultaneamente que:

a) Evo Morales violou a constituição (recandidatando-se) e tentou uma fraude eleitoral

b) o que aconteceu ontem ao fim do dia na Bolívia foi um golpe de Estado

10/11/19

Por falar em reações ao muro de Berlim

Monica Crowley, atualmente da Administração Trump:

09/11/19

A reação de um extremista de esquerda de 16 anos à queda do Muro de Berlim

9 de novembro de 1989.

Cinco meses antes, em março e abril, tinha havido as primeiras eleições na URSS em que, desde o princípio dos anos 20, tinha havido algo parecido com candidatos da oposição; em abril tinham começado protestos na China, na sequência da morte de Hu Yaobang (um dirigente reformista do PC, demitido por alegadamente ter sido muito tolerante com outros protestos em 1986-87) e durante quase dois meses era tema central dos telejornais a enorme manifestação de estudantes na Praça Tienanmen (cantando, note-se, A Internacional). Mas, a 4 de junho, o mundo acordou com duas noticias (ou pelo menos foram as duas noticias que abriram o jornal das 13 da RTP desse domingo) - uma a morte do ayatollah Khomeini do Irão; outra que o exército tinha avançado sobre os manifestante de Pequim, provocando cerca de 4 mil mortos. Ao fim do dia, outra noticia - nas eleições polacas, nos poucos círculos eleitorais em que o governo comunista tinha permitido candidaturas oposicionistas, o Solidariedade teve uma vitória esmagadora e ganhou, penso todos os lugares - no entanto, aparentemente os comunistas (isto é, o Partido Operário Unificado Polaco - em muitos países de Leste, o partido comunista não se chamava Partido Comunista) e os seus dois partidos-fantoches (o ZSL - Partido Popular Unido, camponês, e a SD- Aliança dos Democratas) continuavam a ter a maioria do parlamento.

No entanto, em agosto dá-se uma reviravolta - o ZSL e a SD mudam de campo e aliam-se ao Solidariedade; a nova aliança tem a maioria no parlamento e pela primeira vez o partido comunista é afastado do governo de um país do bloco soviético; em outubro, uma segunda baixa - o Partido Socialista Operário Húngaro muda o nome para Partido Socialista Húngaro, o que é descrito por toda a gente como "os comunistas húngaros passaram a socialistas" (para falar a verdade, se ligarmos só à mudança de nome oficial, não me pareceu uma mudança muito grande, de "Socialista Operário" para "Socialista"); o governo húngaro já havia largamente aberto a fronteira com a Áustria,  e em breve os alemães orientais começam a fazer em massa o percurso RDA-Checoslováquia-Hungria-Áustria-RFA. Em outubro, o líder comunísta da RDA, Erich Honnecker, é substituído por Egon Krenz; no entanto, os cidadãos da RDA acham que é uma mudança cosmética e generalizam-se os protestos contra o regime, que atingem o seu pico na manifestação de 4 de novembro.

Finalmente, na manhã de 9 de novembro o governo da RDA dá ordens para abrir as portas do Muro de Berlim; e o resto é história, como se diz.

Após esta pequena introdução, vamos ao que interessa - o que é que um extremista de esquerda português, um estudante de 16 anos, que pouco antes se tinha convertido ao trotskismo (ou ao que ele considerava "trotskismo" - mais à frente explico), pensou dos acontecimentos.

Para começar, alguns estarão a pensar "trotskista aos 16 anos? Isso não é muito cedo para alguém lhe dar essas pancadas?"; mas penso que não - isto é, a maior parte das pessoas nunca lhes chega a dar para isso, mas os que andam ou andaram por esses caminhos acho que começam quase todos por essa idade, mais ano menos ano.

Em segundo lugar, uma coisa que logo na altura notei, e que continuo a notar hoje em dia, é enorme confusão que quase toda a gente da direita e do centro (e também os apolíticos) fazia e faz entre a extrema-esquerda e os Comunistas-com-C-grande; na verdade, sobretudo até 1989, a divisão era clara: os Comunistas-com-C-grande defendiam a URSS, enquanto a extrema-esquerda (pelo menos no sentido em que a expressão é normalmente usada nos países latinos) consideravam os governos de Moscovo e dos seus satélites como um grupo de contra-revolucionários traidores ao socialismo, que teriam que ser derrubados pela revolução dos trabalhadores. Hoje em dia uma complicação adicional é que a posição "a URSS não é/era o verdadeiro socialismo" deixou de ser uma posição defendida por grupúsculos obscuros que raramente chegavam aos 1% em eleições para passar a ser largamente o mainstream da esquerda, o que obscurece essa diferença de posições; mas já nessa altura acho que quase ninguém percebia essa diferença: alguns dos meus colegas na altura diziam-me "pensei que estivesses desmoralizado", quando eu andava era eufórico com a queda dos regimes "estalinistas", e era difícil tentar explicar-lhes que a queda do "estalinismo" era razão para um trotskista ficar contente, não triste (curiosamente, dos meus amigos da altura, o que mais percebia a lógica interna do meu raciocínio, o Luís A., era provavelmente o mais solidamente de direita e anti-socialista - ainda que achasse que o tal "verdadeiro socialismo" era impossível e condenado ao fracasso, era também quem percebia melhor o argumento que a URSS não era socialista). Para exemplos mais modernos de confusões similares, ver estes meus dois posts de 2006 -Re: A "Esquerda Florida" e Re: A "Esquerda Florida" (II) e o Muro de Berlin.

Bem, e além do meu entusiasmo pela queda do "estalinismo", o que é que eu julgava que ia ser o desfecho da queda do muro e acontecimento concomitantes? Estava (nos primeiros meses, ou pelo menos semanas) convencido que o resultado ia ser a implantação de um sistema económico de tipo autogestionário ou coisa parecida nesses países, e que tal iria servir de inspiração para os paises ocidentais,sendo o primeiro ato da revolução mundial que iria também acabar com o capitalismo (hei, o que é que queriam que alguém que, na altura, era um trotskista pensasse?) - o meu raciocínio: a privatização das empresas estatais iria originar despedimentos e uma quebra do nível de vida dos trabalhadores, logo isso seria impossível de impor a povos acabados de sair de revoluções (afinal, veja-se que, no Ocidente, os defensores do liberalismo económico tendem a ser também os maiores defensores de "governos fortes capazes de tomar medidas impopulares"), ainda mais atendendo o que os prováveis beneficiários dessas privatizações seriam os quadros do regime anterior (que era quem ainda teria algum dinheiro e contactos para conseguir adquirir essas empresas) - assim, o desfecho mais provável seria o que muitas vezes acontece em situações revolucionárias: os trabalhadores a criarem comités de empresas, sanearem os seus chefes e implantarem uma espécie de autogestão ou controle operário (e se isso acontece em revoluções em países capitalistas, ainda mais se esperaria que acontecesse num sistema de economia estatizada, em que por definição os administradores são representantes do regime, logo ainda mais faz sentido a formação de conselhos operários para assumirem a direção dos locais de trabalho, à maneira da Hungria em 1956).

Aliás, uns meses depois, já em 1990, cheguei a escrever um texto prevendo que isso iria acontecer na Polónia - um levantamento operário que oporia de um lado os sindicatos (nomeadamente o Solidariedade) e do outro o exército, os novos capitalistas e o PC (o texto não foi para ser publicado em lado nenhum - era mesmo eu que tinha que treinar a letra e portanto, já que tinha que escrever qualquer coisa, aproveitava para passar para o papel as minhas divagações mentais, mesmo que ninguém as fosse ler).

A partir de 90/91 (à medida que em todas as eleições que iam sendo feitas nesses países, quem ganhava era a direita e não a esquerda anti-estalinista), percebeu-se claramente que não era essa o rumo que as coisas iam levar; mas, mesmo hoje em dia não acho que as minhas previsões/esperanças fossem totalmente descabidas - havia efetivamente muita coisa no "ar do tempo" que levava que a saída autogestionária não parecesse completamente descabida:

a) Em primeiro lugar, era mesmo uma evolução em parte nesse sentido que estava a ser posta em prática na URSS, nos tempos de Gorbachov - entregar a gestão das empresas estatais aos coletivos de trabalhadores

b) Inicialmente, o movimento de protesto na RDA era largamente dinamizado (ou, pelo menos, era o único grupo oposicionista organizado que existia, além das igrejas) pelo Neues Forum, que depois veio a integrar-se com os Verdes da RFA, e que defendia a democracia política (com alguma ênfase a democracia de base) e as liberdades civis, mas sem grande entusiasmo pelo capitalismo - ou seja, praticamente o equivalente daquilo que no ocidente se chama de "esquerda alternativa" ou "esquerda folclórica"; em compensação os partidos de direita, nomeadamente a CDU, até à queda do regime eram partidos-fantoche (estilo PEV) do partido comunista na chamada "Frente Nacional"; claro que quando finalmente foram as eleições a CDU teve 40% e o Novo Fórum e os seus aliados tiveram 3%, apesar do passado colaboracionista da primeira e oposicionista do segundo

c) Na Checoslováquia, a ala trotskista (+ "companheiros de estrada") do Forum Cívico (a aliança oposicionista) até parecia ter alguma influência, já que o seu lider, Petr Uhl, foi um dos deputados mais votados (ou mesmo talvez o mais votado) nas primeiras eleições livres; mas esfumou-se completamente (os votos em Uhl devem ter tido mais a ver com o seu papel de intelectual oposicionista do que com simpatia ideológica por ele)

d) Isto até só soube há pouco tempo (não quando tinha 16, 17 ou 18 anos - nem os jornais que os meus pais compravam nem a revista trotskista - "Combate", que por qualquer razão se vendia no quiosque à frente da escola - que eu comprava falavam disto, ao contrário dos pontos anteriores), mas nalguns grupos oposicionistas soviéticos (ou pelo menos moscovitas) houve realmente mesmo um grande disputa entre liberais e  socialistas democráticos autogestionários

Ou seja, a queda do comunismo, ou do estalinismo, ou do que lhe queiramos chamar, veio acompanhada do aparecimento de movimentos autogestionários, eco-socialistas, trotskistas, etc suficiente para convencer quem quisesse ser convencido de a verdadeira revolução socialista vinha ai.

Agora, 30 anos depois, vamos lá rever isto:

Em primeiro lugar, ali atrás falei em «um estudante de 16 anos, que pouco antes se tinha convertido ao trotskismo (ou ao que ele considerava "trotskismo" - mais à frente explico)»; a verdade é que eu, supostamente um trotskista entusiasta, pouco mais sabia sobre o trotskismo do que tinha visto nalguns tempos de antena do PSR, da POUS e da FER (hei, não é que em 1989 fosse fácil obter informação sobre temas obscuros - não havia a Internet para ir ver à Wikipedia, ao Google ou ao Marxists.org; este tipo de assunto era conhecido lendo livros velhos à venda em quiosques e livrarias com ar decrépito, e normalmente só em Lisboa; mas consegui comprar um exemplar d'A Revolução Traída em Portimão); à medida que, anos mais tarde, foi conhecendo melhor o trotskismo, cheguei à conclusão que eu na verdade estaria mais na linha de dissidentes como Max Shachtman, Bruno Rizzi ou pelo menos Tony Cliff. Ou dito por outras palavras - a minha ideia (que era largamente o "senso comum" nos anos 80) era que a URSS tinha uma sociedade exploradora, em que os dirigentes do partido, do estado e das empresas públicas tinham substituído os capitalistas como uma classe dominante; já a posição trotskista é muito mais complexa e talvez ambígua - é de que esses dirigentes já eram uma casta privilegiada mas ainda não uma classe privilegiada, e portanto a sociedade soviética ainda não era bem uma nova forma de sociedade exploradora, mas uma sociedade a meio-caminho entre o capitalismo e o socialismo (mas isto é melhor explicado aqui e aqui). Mas  a minha evolução ideológica posterior fica para altura.

Em segundo lugar, no meio do falhanço total das minhas expetativas da altura, não deixa de ser verdade que nalguns países foram realmente os ex-comunistas (agora "socialistas") que mais entusiaticamente venderam as suas economias ao capitalismo global, e foi de movimentos com raiz na antiga oposição e grande apoio nas classes populares que ainda veio alguma resistência - só que essa resistência não veio da esquerda, como eu esperava, mas da direita, do nacional-conservadorismo do Fideszs húngaro ou da Lei e Justiça polaca, cuja ideologia combina um profundo nacionalismo e conservadorismo social com pelo menos alguma moderação no capítulo do liberalismo económico.

Em terceiro lugar, eu pertenço à ultima fornada de radicais de esquerda que aderiram a correntes dessa área quando ainda o modelo soviético do socialismo parecia relativamente sólido e para quem a oposição à URSS e ao comunismo ortodoxo era um aspeto quase tão fundamental da sua identidade política como a oposição ao capitalismo; interrogo-me se nas gerações mais novas de pessoas que aderem a ideologias à esquerda do comunismo ortodoxo a atitude não será diferente. P.ex., há dias, face ao abandono por grande parte da esquerda da greve dos camionistas, alguém de direita me dizia "estás a ter tempo de vida suficiente para constatares em directo e pessoalmente a hipocrisia e dualidade da esquerda real."; claro que para alguém cuja formação política ainda foi muito influenciada pela luta contra o estalinismo, isso não tem muito de especial: a ideia de os sindicatos oficiais e grande parte da intelectualidade de esquerda estarem do lado oposto (e provavelmente prontos a se aliarem à burguesia) era quase a ordem natural das coisas; será também assim para os mais novos?

Finalmente, há dias parece que se andou a falar muito de um artigo cujo autor foi descrito como "um beto de 17 anos"; se há 30 anos houvesse a tecnologia atual e se eu já pudesse publicar as minhas teorias na Internet, se calhar seria chamado de "um lunático de 16 anos" ou coisa parecida; já agora, a respeito desse artigo, vi comentários que estaria demasiado elaborado para um adolescente de 17 anos; perfeito disparate - se alguma coisa, até por experiência própria, creio que adolescentes que se interessem por um qualquer tema (sobretudo se for um tema que dependa largamente da reflexão, como filosofia, matemática ou política) provavelmente até têm mais capacidade que adultos para fazerem textos elaborados, já que têm mais disponibilidade para passarem muito tempo a pensar (já os adultos têm que pensar nos problemas da vida deles, e portanto não têm muito tempo para esses raciocínios teórico-abstratos).