26/09/20

Trump quer sabotar as eleições? Duvido muito.

Nos últimos tempos tem-se tornado quase um dogma da fé em certos meios que Trump, caso perca, se estará a preparar para "roubar" as eleições; como disse aqui, eu duvido muito desses cenários.

Atendendo que toda a carreira de Trump, desde pelo menos os anos 80, tem assentando no primado da imagem sobre o conteúdo (hum, será que acidentalmente acabei também por descrever os anos 80 no geral?), eu suspeito que o grande desejo dele não é tanto permanecer na presidência, mas poder dizer (e ter muita gente a acreditar) que é o presidente, e todas essas conversas dele a pôr em causa o processo eleitoral se destinam, não a preparar o terreno para um "autogolpe", mas a preparar o terreno para, se perder, poder passar 4 anos a apresentar-se aos seus convidados em Mar-a-Lago como "o verdadeiro Presidente dos EUA", vítima das conspirações do "deep state" (em vez de ser um "looser" que não conseguiu a reeleição). Até imagino facilmente daqui a uns anos uma gravação dele dizendo "When you’re the President - the real President-, they let you do it. You can do anything. Grab ’em by by the pussy. You can do anything."

O problema aqui é se parte da base Republicana (incluindo as milícias armadas e grande parte do corpo policial) leva o show dele a sério e tenta por sua iniciativa um "contragolpe" contra os "golpistas" no poder.

Já agora, ver este post de Noah Smith no Twitter e respetiva thread, onde ele sugere um cenário parecido (e muita gente acha que é mesmo o cenário mais provável).

16/09/20

"OK, Boomer"

Esta sequência de posts no twitter de Noah Smith, dizendo que afinal os maiores apoiantes de Trump não são os "boomers" (nascidos algures entre 46 e 64), mas sim a ala conservadora da "Geração X" (nascidos para aí entre 65 e 80), fez-me lembrar algo que há muito tempo estava a pensar escrever (este post estava nos rascunhos desde dezembro, ou seja, comecei a escrevê-lo ainda antes dos "boomers" entrarem na lista de espécies ameaçadas da WWF; depois deixei-o de molho exatamente porque o assunto tinha largamente sido abandonado).

É que desde para aí uns dois anos,  parecia ter havido uma inversão quase total dos estereótipos ideológicos tradicionalmente associados à geração "boomer".
Isto é, de há uns tempos para cá, surgiu a ideia que os "boomers" seriam uma geração particularmente conservadora (exemplo) - quando eu passei toda a minha juventude a ouvir falar que a "geração de 60" (a geração de Gloria Bunker e Michael Stivic, e também a de Steven e Elyse Keaton) era A GERAÇÃO PROGRESSISTA por excelência, não apenas mais progressista que as anteriores (o que é normal) mas até que as posteriores (era esse o ponto da série "Quem sai aos seus..." - o contraponto entre a progressista "geração de 60" e a conservadora "geração de 80").

Já agora, cá em Portugal eu passei a minha adolescência com as escolas secundárias dominadas pela JSD, e na primeira campanha eleitoral que dei nota, o liceu estava a abarrotar de autocolantes "P'rá Frente Portugal" - embora em Portugal houvesse a peculiaridade que a geração "progressista" não era tanto a dos nosso pais, mas sim  mas sim um misto de tios mais novos, primos afastados mais velhos e professores no principio de carreira (o pessoal na casa dos 30 anos, que tinha sido jovem nos nossos "anos 60" - 1974 e 1975; pelo menos uma prima afastada minha, então com 30 e tal anos, consta que ex-simpatante do PRP e típica "progressista nos costumes", era fã de uma série que havia na altura que era "Os Trintões" e dizia que representava bem a geração dela; essa série era por vezes descrita como o contraponto a "Quem sai aos seus...").

Sinais da mitificação da "geraçao de 60": ainda me lembro de há muitos anos (para aí em 1990) ter lido um artigo (penso que do João Martins Pereira, o já falecido ex-marido da Fátima Bonifácio... - ou será que mesmo isto é um exemplo da mudança do que se espera dum boomer?) que algures dizia "todos as pessoas entre os 30 e os 60 anos tendem a descrever-se como da geração de 60, grande abrigo anti-sismico mais seguro que as de 50 e de 70"; e alguém se lembra de por volta de 1973 ter surgido (com o impacto que teve) algum filme similar a "Os amigos de Alex", mas a evocar os anos 50? (o mais parecido seria o American Graffiti, mas muito longe - nem que seja porque o período que evoca é já o principio dos anos 60).

Isto talvez seja uma especificidade da chamada "Geração X", mas nós crescemos a ouvir associar a geração de 60 à geração dos contestatários e dos progressistas (sempre que havia um protesto de estudantes nos anos 80, alguém falava em "regresso aos anos 60?"), pelo que agora me dá alguma dissonância cognitiva a conversa do "OK Boomer"; por outro lado, també é verdade que "boomer" não é sinónimo de "geração de 60" - se adotarmos a definição de "nascido entre 1946 e 1964", isso incluirá também muitos dos então tão atacados yuppies dos anos 80 (mesmo o Alex P. Keaton era suposto, in-universe, ter nascido em 1965, logo só não seria um boomer por um ano).


Nota 1: suspeito que nestas coisa de conservadorsmo versus progressismo por gerações, há também 
uma grande mistura entre a função e a derivada, ou talvez até a segunda derivada...

Nota 2: tenho também uma ainda maior desconfiança face ao conceito de "geração X" (tenho também um post nos rascunhos sobre isso), que em Portugal abrangeria tanto a geração "Prá Frente Portugal" como a "geração rasca", largamente opostas; eu suspeito que há uma diferença marcada entre as pessoas da minha idade ou mais velhas (a típica geração de 80), e as mais novas que eu (a "geração rasca", e também a do grunge e, em Portugal, do rap).

08/09/20

Palavras com e sem género

Porque é que as pessoas que mais se esforçam por arranjar palavras ou expressões sem género (ver a questão do "Cartão de Cidadão" e "Cartão de Cidadania"), o que não é fácil numa língua latina, são normalmente também as que querem pôr género numa das única palavras portuguesas sem género?

06/09/20

Cidadania e Desenvolvimento - Ano 2030

Na sequência da reportagem da CMTV revelando que muitas crianças de famílias imigrantes não frequentam a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, André Ventura, líder da coligação CHEGA/PSD/CDS, exige que essas famílias percam acesso a subsídios (ou que sejam mesmo deportadas nos casos mais graves) e que os candidatos à naturalização tenham que fazer um exame com os conteúdos dessa disciplina, a fim de averiguar o seu grau de integração nos valores da sociedade portuguesa.

Também o Observador e o Expresso publicam vários artigos de opinião sobre o caso, marcando a importância de um chão comum de valores para a manutenção de uma sociedade livre e democrática, e como isso está a ser ameaçado pelo multiculturalismo relativista e pela balcanização identitária (como escreve um dos articulistas do Expresso "são estas situações, que toda a gente conhece mas a imprensa dita de referência e os bem-pensantes do Bairro Alto fingem ignorar, que levam as pessoas comuns, que cumprem as regras mas veem-se abandonadas pelo sistema, a votarem no Ergue-te").

Em contraponto, um investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em entrevista à RTP, apresenta a sua visão de que a filosofia estruturante da disciplina deriva de um paradigma iluminista-mecanicista, que apresenta como factos objetivos fenómenos e mundividências que só existem realmente numa perspetiva de intersubjetividades e de construções identitárias mediatizadas culturalmente, e que como tal é problemática, porque essa ideia de que é possível definir uma verdade objetiva independente das subjetividades e representações sociais é intrinsecamente ocidentalocentrica e (mesmo que alguns conteúdos até possam parecer "feministas") masculinocentrica; assim, considera que seria boa ideia suspender a cadeira (ou pelo menos todos os seus efeitos na avaliação) e repensá-la numa perspetivas de tornar a escola numa multi-escolas, genuinamente aberta aos várias saberes e culturas. No dia seguinte, aparece um post no Blasfémias divulgando todas as ligações entre o investigador e o Bloco de Esquerda.

Entretanto, um grupo de jovens de uma comuna ao pé da Almirante Reis divulgam (tanto por panfletos como por um texto viral na net) um manifesto apelando ao fim da escola ("A forma-valor começa na forma-escola"); do outro lado do espectro político e social, uma feminista de direita ex-NeverTrumper anuncia no Twitter que vai participar num novo projeto, junto com os seus antigos colegas de blogues do principio do século.

04/09/20

Drama e horror nas aulas de Cidadania

A grande devassa da vida privada nas aulas da tal disciplina - um exercício em que se pergunta o que é que os pais faziam nos tempos livres quando eram crianças.

Se a Helena Matos soubesse o exercício que o nosso professor de economia nos mandou fazer no 10º ano (perguntar às nossas mães quantas horas por semana gastavam na lida da casa e depois multiplicar pelo salário/hora de uma mulher a dias para ver quanto dava)…

Já agora, diga-se que eu tenho realmente grandes dúvidas face ao principio geral da obrigatoriedade de assistir a aulas, seja de que disciplina forem (eu tenho alguma simpatia pelo modelo Summerhill), mas quando há uns anos se falou em acabar com os chumbos por faltas isso deu uma enorme polémica e tiveram que voltar atrás.

01/09/20

As aulas de Cidadania e Desenvolvimento

Palpita-me que a questão da objeção de consciência às aulas de Cidadania e Desenvolvimento ainda vai dar muitas voltas (sobretudo se conjugada com a imigração) - ainda vamos ver os que são a favor serem contra e os que são contra serem a favor.

22/08/20

"Trabalho comunitário" versus "emprego garantido"

Uma coisa que tenho pensado é até que ponto aquelas ideias à André Ventura de "trabalho comunitário para quem está no RSI" e a ideia do "job guarantee" ("emprego garantido") que tem entrado na moda na esquerda anglo-saxónica (defendido, p.ex., pela Alexandra Ocasio-Cortez) não serão mais parecidos do que ambos os lados gostariam de admitir.

Para quem não sabe, o "job guarantee" consiste em o estado disponibilizar empregos a quem os queira, o que significa que ninguém ficaria involuntariamente desempregado, e por outro lado alguém que estivesse descontente com o seu emprego no sector privado teria sempre a hipótese de ir para um desses "empregos garantidos", o que aumentaria o poder negocial dos trabalhadores face aos patrões.

A grande diferença, claro, é o valor da remuneração - um subsidio mínimo na proposta de "trabalho comunitário", e um salário provavelmente ao nível do salário mínimo no "emprego garantido", mas mesmo isso talvez não seja assim tão líquido: imagino facilmente um governo de direita a baixar os salários e/ou agravar as condições de trabalho dos "empregos garantidos" para os tornar em algo parecido com o "trabalho comunitário"; e também imagino muito facilmente um governo de esquerda a equiparar o subsidio do trabalho comunitário ao salário de uma profissão equivalente na admnistração pública, com o argumento "trabalho igual, salário igual" (diga-se que também imagino um governo de esquerda a chegar ao poder e a integrar extraordinariamente essas pessoas na função pública, talvez naquelas vagas a "extinguir quando vagar").

Ainda sobre o "emprego garantido" (e sem concordar com tudo o que ele diz), recomendo esta perspetiva crítica de Scott Alexender, Basic Income, Not Basic Jobs: Against Hijacking Utopia.

10/08/20

E, para quem já esteja farto de simbolos matemáticos, um questão em linguagem verbal

Quanto é metade de um bilião?

Já agora, quanto é que é 2,343 + 5.777 ?

2+2=5?

Parece que anda por aí uma polémica sobre se é possível 2+2=5.

Bem, desde pequeno que eu sei que 1+1 pode ser igual a 10 (em código binário). Da mesma forma, num sistema de numeração de base 3, teremos que 2+2=11, e num sistema de base 4 será 2+2=10.

Mas 2+2=5 já é mais complicado; no entanto é possível - aí implica alterar não apenas a base usada para representar os números, mas o significado dos algarismos - afinal, não é por alguns magrebinos medievais terem convencionado que o símbolo "2" representa a quantidade que em português é representada pela palavra "2" e que o simbolo "5" representa a quantidade que em português é representada pela palavra "cinco", não é obrigatório que assim o seja  - afinal, os árabes do Médio Oriente usam um símbolo muito parecido com "7" para representar aquilo a que chamamos "seis", e um símbolo parecido com "0" para representar aquilo a que chamamos "cinco" ; e há povos que usam a vírgula para separar os milhares e o ponto para separar a parte inteira da parte decimal, ao contrário do que nós fazemos (e quem não se lembra do ZX Spectrum, em que "zero" era representando pelo simbolo "Ø", que na linguagem matemática convencional singifica o conjunto vazio? Já agora, o uso de "*" para multiplicação só não causa estranheza porque já está interiorizado) . Se usarmos o simbolo "5" para designar a quantidade "quatro" (e continuarmos a usar o símbolo "2" para designar a quantidade "dois"), 2 + 2 passa efetivamente a ser igual a 5.

Claro que se poderá dizer que isso é jogar com os números, e que quando se pergunta se é possível "2+2=5", o que se está a perguntar é se a adição de dois com dois pode dar cinco (ou seja, assumindo que "2", "+", "=" e "5" têm o significado que lhe é atribuído na matemática convencional); possivelmente, mas quase que aposto que 90% das pessoas que acham que não há dúvida que 2+2=5, não é por terem rejeitado a hipótese alternativa (de se estar a atribuir diferentes significados aos símbolos matemáticos) mas porque nem pensaram nela.

29/07/20

O abate de animais em canis

Agora é moda atacar a lei de 2016 que proíbe o abate de animais saudáveis em canis - mas uma coisa que noto é que as pessoas que criticam essa lei (normalmente dizendo "é preciso primeiro criar condições") só começaram a reclamar em 2018, quando ela entrou em vigor - como exemplo temos o João Miguel Tavares, que pelos vistos se orgulha de em 2018 ter falado do assunto (se estava tão preocupado, porque é que não falou logo em 2016?); este post da Helena Matos também parece confirmar isso (dizendo que "quando da aprovação da legislação urbano-fofinha sobre a proibição do abate de animais nos canis  foram vários os veterinários e associações do sector que explicaram a inviabilidade da aplicação desta lei", mas depois linkando para artigos de... 2018).

Ora, se numa lei aprovada em 2016 mas com um prazo de 2 anos de preparação para entrar em vigor, só quando acabou o prazo é que toda a gente se lembrou que afinal não podia ser, isso quer dizer que na altura ninguém se preocupou realmente em adaptar os canis para deixarem de funcionar numa lógica de abate, porque se o tivessem das duas uma:

a) Iam pensar que adaptações teriam que fazer nos canis, concluído que não as conseguiam fazer em 2 anos e reclamado logo na altura

b) Ou então teriam concluído que se conseguiria mesmo por os canis a funcionar em 2 anos e não haveria problema nenhum

Claro que há  a hipótese de ter havido um erro generalizado de perceção, em 2016 os responsáveis locais terem todos ficado convencidos que 2 anos seria suficiente para reestruturar os canis e afinal não terem sido; é possível - mas quase que aposto que o que aconteceu foi nessa altura toda a gente ter pensado "ah, isso é daquelas coisas que fazem lá em cima em Lisboa mas depois não é para se aplicar" e só quando chegou o ano de 2018 é que perceberam realmente que a lei era suposto ser aplicada - ou seja, se a lei tivesse dado um prazo de 50 anos para entrar em vigor, em 2066 teríamos à mesma toda a gente a dizer "ainda não há condições!" .

O problema da conversa de que só se pode acabar com os abates de animais em canis quando "houver condições" é que o "houver condições" é em parte endógeno, não exógeno - isto é, se os canis poderem abater animais para não ficarem sobrelotados, claro que o incentivo para ampliar canis ou arranjar donos para os animais que lá estão é menor do que se não os poderem abater.

Um exemplo simples - há tempos, no Algarve, alguns imbecis tiveram a ideia de acabar com os canis municipais e fazer um mega-canil regional em Alcoutim; creio que esse projeto foi abandonado, mas no novo quadro legal não faria sentido nenhum (por isso é que digo que os seus autores são imbecis): se o destino dos animais em canis já não é o abate mas sim a adoção, os canis têm que estar relativamente ao pé das localidades; ora, alguém está a ver este diálogo numa família de Faro ou Portimão?

Filho - "Quero um cão pelos anos";

Pai - "Está bem; no fim de semana, vamos fazer uma viagem de duzentos ou mais quilómetros, ida e volta, por uma estradas sinuosas na serra algarvia, para irmos ao canil de Alcoutim buscar um cão."

Claro que não - se já hoje em dia são raras as pessoas que vão buscar cães e gatos a canis, ainda menos as seriam assim (declaração de interesses - nem o Pantufa nem a Íris vieram de algum gatil; foram-me dados por pessoas que os acharam na rua); isso é indicativo que os decisores até há muito pouco tempo não pensavam nos canis como locais de adoção mas de abate, o que significa que sem uma lei ou algo parecido proibindo os abates, os canis continuariam a ser construídos a pensar no abate, e ficaríamos num ciclo vicioso sem solução (em que nunca se poderia acabar com os abates porque ainda não havia condições).

[Eu digo "uma lei ou algo parecido" porque poderá haver aqui efetivamente uma questão sobre se isto deverá ser decidido por uma lei da Assembleia da República para o país todo ou por regulamentos aprovados pelas Assembleias Municipais; o meu ponto é que, sem alguma decisão política de acabar com os abates - independentemente do nivel a que seja tomada - dificilmente haverá condições técnicas para isso]

Quanto há conversa do "é por causa desta lei que aqueles cães em Santo Tirso morreram", é um bocado aquela conversa do "tivemos que a destruir para a salvar" (a respeito da destruição de aldeias na Guerra do Vietname); basicamente o que essas pessoas estão a dizer é que, se aqueles cães (ou outros no lugar deles) tivessem antes sido abatidos, não teriam morrido agora no incêndio - é discutível que essa seja uma grande vantagem; eu imagino que o raciocínio implícito é que é melhor morrer eutanasiado do que queimado, e até é verdade, mas a alternativa não é entre 73 animais serem eutanasiados ou queimados vivos; é entre 73 animais queimados vivos e uns 10.000 eutanasiados por ano.

Um aparte - espero que os canis não andem a recolher gatos vadios; se estão assim tão cheios, não faz sentido recolherem um animal que (ao contrário dos cães) praticamente não representa perigo para os humanos e cuja população pode ser controlado pela método de captura-esterilização-libertação.

Finalmente, algumas pessoas dirão que é uma incoerência ser contra a eutanásia de animais saudáveis mas a favor da legalização da eutanásia em humanos; a respeito disso, eu pessoalmente nem me incomodaria se voltasse a haver abates em canis se feitos de acordo com os trâmites dos projetos de eutanásia que foram apresentados no parlamento (como este-pdf): p.ex., se o cão fizesse um pedido por escrito (revogável a qualquer momento), fosse avaliado por um médico que confirmasse que ele estava consciente no momento do pedido (e eventualmente também por um psiquiatra animal), depois fosse a uma comissão que confirmasse que se verificavam todas as condições previstas na lei, e só depois disso o cão fosse eutanasiado (podendo o cão, como já disse, desistir do processo a qualquer momento). Ok, isto que eu estou a dizer neste parágrafo não faz grande sentido, mas é só para mostrar que a analogia que alguns tentam fazer entre a eutanásia em humanos e a eutanásia em animais também não faz sentido (são duas coisas bastante diferente com o mesmo nome, um pouco como "com o empréstimo que pedi ao Novo Banco, comprei um novo banco para a cozinha").

25/07/20

A crise política na Guiana

Um país que pouco se fala mas parece estar à beira do abismo (culpa de se ter descoberto petróleo?):
David Granger lost his bid to be reelected as president of Guyana. The ruling party appeared to manipulate the initial vote counting process. The recount monitored by observers showed an opposition victory. The president lost the appeal to the Caribbean Court of Justice. All of this comes after Granger manipulated the system to delay the election for over a year following a no-confidence vote that should have forced swift new elections.

The OAS, which had an observer mission in the country for the election, declared that the incumbent party lost and a power transition to President-elect Irfan Ali of the PPP/C should begin. Caricom has called for Granger to step down. The US has imposed sanctions on the Granger administration to pressure the president to accept his loss.

The international community’s willingness to turn against Granger is a sign of how unquestionable the loss is. Granger was clearly the preferred candidate for foreign businesses that want to invest in the country. Prior to this year, Granger had been an ally of the Lima Group and the US on Venezuela - the region’s biggest democracy challenge. If there was any question over the validity of the election, Granger would have allies supporting his effort to remain in power. He does not. [Latin America Risk Report, por James Bosworth]
Financial Times - Guyana’s long election deadlock stirs fears of civil war:
Four months after the most important election in Guyana’s history, there is still no officially recognised winner. The paralysis is hitting the country’s fledgling oil industry and there are worries the tiny South American country might slide into a racially charged civil war.
Para terem uma ideia da política da Guiana, podem ter uma olhada nos artigos da Wikipedia sobre o atual partido do governo e sobre o partido da oposição (que tudo indica ganhou as eleições, mas o presidente aparentemente derrotado recusa-se a deixar o cargo) - não me parece haver grandes diferenças ideológicas entre os dois (embora durante a Guerra Fria o primeiro tivesse uma reputação de mais pró-ocidental e o segundo de mais pró-soviético), mas sobretudo uma divisão étnica (um mais assente na comunidade negra, outra na de origem indiana).

18/07/20

Trump começa a preparar a lei marcial?

Pelo menos em Portland (Oregon), onde agentes não-identificados em carrinhas descaracterizadas andam a prender manifestantes nas ruas:
Aparentemente, a combinação entre as leis aprovadas contra o terrorismo após o 11 de setembro e as leis recentemente aprovadas para combater a pandemia Covid-19 tornam isso possível.

A respeito disso, Noah Smith (um economista de centro-esquerda) escreve "Ironically, all the 1990s right-wing libertarians who were paranoid about the power of federal agents turned out to be right. They were just 25 years too early, and wrong about who would be targeted!".

15/07/20

As criticas às criticas a Riccardo Marchi

Eu não gostei de parte do tom daquele misto de artigo e abaixo-assinado a criticar uma entrevista televisiva de Riccardo Marchi (e implicitamente o seu livro sobre o CHEGA) - um tom demasiado normativo (e no último parágrafo muito para o pós-modernista); mas de qualquer maneira fazem criticas fundamentadas, ponto por ponto, ao que Marchi disse (e não disse).

Já a maré de artigos que têm sido escritos nestes últimos dias a criticar esse artigo são ainda piores: do que tenho lido, aí é que são críticas mesmo 100% normativas, ignorando completamente os pontos que são levantados (sem sequer os tentar refutar), e limitando-se a dizer algo como "os subscritores do artigo são maus!".

02/07/20

Monitorizar o "discurso de ódio"

Vigiar o "discurso de ódio" na internet implica puder-se vigiar TUDO o que é dito na internet, já que só se sabe se o que alguém publicou é "discurso de ódio" depois de se ler o que foi publicado.

O fim do CHOP/CHAZ

Algo que mereceria uma reflexão: porque será que enquanto Christiania (Copenhaga), as squatts de Amsterdão ou Berlim, ou até mesmo de certa maneira Exárquia (Atenas) duram ou duraram décadas, o CHOP/CHAZ de Seattle acabou em poucas semanas (e mesmo antes de ter sido desmantelado pela polícia, parece que já era uma grande confusão, pelas notícias que surgiam)?

Será que os Boomers eram mesmo melhores do que os Zoomers a criar e manter "zonas autónomas"?

[Diga-se que em muitos aspetos, o CHOP/CHAZ era mais uma manifestação glorificada, à maneira da "acampada do Rossio", do que uma verdadeira zona autónoma, estilo Christiania - mas, se alguma coisa, acho que isso até a tornaria mais fácil de funcionar]

01/07/20

Re: Verdade inconveniente sobre o racismo e sexismo dos Democratas nos EUA (II)

No post anterior, em resposta a Cristina Miranda, argumentei que durante grande parte do século passado havia grandes diferenças ideológicas entre o Partido Democrático do Sul dos EUA e o Partido Democrático do "resto", e que o moderno Partido Democrático deriva largamente do "resto" (enquanto muitos Democratas sulistas tradicionais se passaram para os Republicanos).

Mas nos EUA é díficil (e no século passado ainda mais dificil era) associar partidos a ideologias; como um Republicano disse em 1923, "Any man who can carry a Republican primary is a Republican. He might believe in free trade, in unconditional membership in the League of Nations, in states' rights, and in every policy that the Democratic Party ever advocated; yet, if he carried his Republican primary, he would be a Republican." Talvez mais relevante do que ver as posições dos partidos (que nos EUA pouco mais são que linhas num boletim de voto, sem grande estrutura real por detrás), é ver a de movimentos ideológicos mais homogéneos; nomeadamente do chamado "conservadorismo", que quase que se pode dizer que foi inventado nos anos 50 para nas décadas seguintes ter tomado o controlo do Partido Republicano (de tal forma que hoje em dia os dois conceitos às vezes são usados quase como sinónimos). E qual era a posição do movimento conservador que se desenvolveu a partir dos anos 50 sobre a questão sulista?

Re: Verdade inconveniente sobre o racismo e sexismo dos Democratas nos EUA (I)

No Blasfémias, a Cristina Miranda descobriu a pólvora e refere que nos EUA o Partido Democrático foi quem mais defendeu a escravatura, e, depois da Guerra da Secessão, a segregação racial nos estados do Sul.

Em primeiro lugar, esclareço desde já que se fosse norte-americano (com as mesmas ideias que tenho, o que provavelmente não seria o caso) seria provavelmente apoiante dos Verdes, ou talvez do Libertarian Socialist Caucus dos Democratic Socialists of America.

Regressando ao post da Cristina Miranda, o que ela diz é verdade (como imagino que toda a gente saiba, mas talvez esteja enganado; por outro lado, se tradicionalmente o racismo vinha mais dos Democratas, a xenofobia vinha mais dos Republicanos e dos seus antecessores), mas esqueceu-se de falar de muitas coisas - a principal que muitos Democratas sulistas, a partir dos anos 60, passaram para o Partido Republicano.


A "prova A" é o senador Strom Thurmond, um segregacionista do Sul, governador Democrata da Carolina do Sul de 1947 a 1951, candidato presidencial em 1948 (pela ala sulista do Partido Democrata, que nesse ano apresentou uma candidatura autónoma em vez de apoiar Truman, descontentes com a sua política de acabar com a segregação racial no exército), senador da  Carolina do Sul, pelo Partido Democrata de 1956 até 1964 e pelo Partido Republicano de 1964 até 2003 (até agora, o único senador que exerceu o cargo até aos 100 anos de idade); em 2002, na festa do seu 100º aniversário, o então líder de bancada Republicano, o senador do Mississipi Trent Lott, declarou "I want to say this about my state: when Strom Thurmond ran for president, we voted for him. We're proud of it. And if the rest of the country had followed our lead, we wouldn't have had all these problems over the years, either".

Mas a lista de Democratas conservadores sulistas que passaram para o Partido Republicano é longa: para começar, temos logo o referido Trent Lott, que até 1972 era Democrata. Mais:

[atenção que esta lista não pretende implicar que qualquer das pessoas abaixo tenha sido segregacionista; muitos até são relativamente novos  - nomeadamente os que mudaram de partido já neste século - e nem passaram por essa época; o meu ponto em que grande parte do Partido Republicano do Sul veio do Partido Democrático]

30/06/20

Propriedade privada versus liberdade de expressão e manifestação

De certa forma isto



é o equivalente virtual disto



(casal tentando impedir uma manifestação de atravessar a rua privada onde vivem)

25/06/20

Jogos de tabuleiro

Para quem ache que os mais tradicionais glorificam o capitalismo ou o imperialismo:

- Trot Wars (o site oficial do jogo já não está a funcionar, mas não parece difícil fazer-se o download das instruções e das cartas e fazer uma versão DIY)

- Commonspoly (outro que também se pode fazer simplesmente o download e imprimir)

- Anti-Monopoly (um clássico na verdade ainda mais antigo que o clássico)

- Bolo'Bolo

- A versão "Revolta Camponesa" do  xadrez (possíveis objecções a este - além dos rebeldes continuarem a ter um rei, provavelmente só ganham se alguns camponeses se tornarem nobres, pelo que no fundo pode ter um espírito de "meet the new boss, same as the old boss"; por outro lado, é muito provável que uma vitória rebelde agrade ao sector anti-JK Rowling)

15/06/20

"Racismo sistémico" e "discriminação estatística"

Uma coisa que tenho pensado é que aquilo que os anti-racistas chamam "racismo sistémico" e os anti-anti-racistas chamam de "não é racismo, é discriminação estatística" se calhar são dois nomes diferentes para a mesma coisa: um processo emergente em que os indivíduos, sem serem pessoalmente racistas, são levadas a tomar decisões que, no agregado da sociedade, produzem resultados que beneficiam uma raça face a outra.

[Sobre formas como o funcionamento da sociedade pode ser racista sem os indivíduos serem pessoalmente racistas, há dias Chris Dillow fez um post sobre o assunto - Racism as Emergence]

13/06/20

Sugestão para história de ficção científica

Há uns tempos que penso num possível enredo para uma história de ficção científica - um físico (politicamente de direita) desenha uma máquina do tempo e vai fazer uma viagem ao passado acompanhado de um historiador; no entanto, o historiador à ultima hora não pode ir, mas no departamento de ciências sociais, embora não haja historiadores disponíveis, arranja-se um sociólogo (politicamente de esquerda, como aliás o historiador) com alguns conhecimentos de história para o acompanhar na viagem.

Chegados ao passado,  o sociólogo passa grande parte do tempo criticando as instituições e costumes opressivos que encontram e o físico dizendo que não se pode julgar o passado pelas regras do presente; a dada altura começam a desconfiar que alguma coisa não bate certo e acabam por descobrir que a máquina não funciona como planeado: em vez de terem ido para o passado, foram para outro planeta (que por qualquer razão tem habitantes muito parecidos aos terrestres...). A partir dessa revelação, o físico passa a dizer que os habitantes desse planeta são uns selvagens e o sociólogo que não podemos julgar os outros povos e culturas pelos padrões ocidentalocentricos ou mesmo geocêntricos.

[A minha grande dúvida: se a máquina levasse as pessoas, não para outro lugar nem para outro época, mas sim para outra dimensão, numa espécie de universo paralelo, quem é que iria dizer "não podemos julgar outras dimensões pelos padrões da nossa"? O de direita (como a respeito de outra época) ou o de esquerda (como a respeito de outro lugar)?]

12/06/20

Fomes


["Proved by science: Winston Churchill, not nature, caused 1943 Bengal famine"]

A "neutralidade" das redes sociais

Há uns dias, o presidente dos EUA fez um decreto com a intenção de limitir a possibilidade das redes sociais bloquarem posts ou membros (ou, no caso dele, meterem um link para um factcheck abaixo do post).

Na sequência disso, em certos meios começou a circular a teoria de que as redes sociais, serviços de alojamento de blogs/sites, fóruns, etc. etc. só teriam imunidade legal face ao que é lá postado pelos utilizadores se não exercessem nenhum controlo editorial sobre isso (vi várias pessoas escrevendo isso).

No que diz respeito ao EUA (que é o país que deu origem a essa conversa) estão redondamente enganados.

Vejam a lei dos EUA sobre o assunto:
47 U.S. Code § 230. Protection for private blocking and screening of offensive material

(a) FindingsThe Congress finds the following:

(1) The rapidly developing array of Internet and other interactive computer services available to individual Americans represent an extraordinary advance in the availability of educational and informational resources to our citizens.

(2) These services offer users a great degree of control over the information that they receive, as well as the potential for even greater control in the future as technology develops.

(3) The Internet and other interactive computer services offer a forum for a true diversity of political discourse, unique opportunities for cultural development, and myriad avenues for intellectual activity.

(4) The Internet and other interactive computer services have flourished, to the benefit of all Americans, with a minimum of government regulation.

(5) Increasingly Americans are relying on interactive media for a variety of political, educational, cultural, and entertainment services.

(b) Policy It is the policy of the United States—

(1) to promote the continued development of the Internet and other interactive computer services and other interactive media;

(2) to preserve the vibrant and competitive free market that presently exists for the Internet and other interactive computer services, unfettered by Federal or State regulation;

(3) to encourage the development of technologies which maximize user control over what information is received by individuals, families, and schools who use the Internet and other interactive computer services;

(4) to remove disincentives for the development and utilization of blocking and filtering technologies that empower parents to restrict their children’s access to objectionable or inappropriate online material; and

(5) to ensure vigorous enforcement of Federal criminal laws to deter and punish trafficking in obscenity, stalking, and harassment by means of computer.

(c) Protection for “Good Samaritan” blocking and screening of offensive material

(1) Treatment of publisher or speaker

No provider or user of an interactive computer service shall be treated as the publisher or speaker of any information provided by another information content provider.

(2) Civil liability No provider or user of an interactive computer service shall be held liable on account of—

(A) any action voluntarily taken in good faith to restrict access to or availability of material that the provider or user considers to be obscene, lewd, lascivious, filthy, excessively violent, harassing, or otherwise objectionable, whether or not such material is constitutionally protected; or

(B) any action taken to enable or make available to information content providers or others the technical means to restrict access to material described in paragraph (1).[1]

(d) Obligations of interactive computer service

A provider of interactive computer service shall, at the time of entering an agreement with a customer for the provision of interactive computer service and in a manner deemed appropriate by the provider, notify such customer that parental control protections (such as computer hardware, software, or filtering services) are commercially available that may assist the customer in limiting access to material that is harmful to minors. Such notice shall identify, or provide the customer with access to information identifying, current providers of such protections.

(e) Effect on other laws

(1) No effect on criminal law

Nothing in this section shall be construed to impair the enforcement of section 223 or 231 of this title, chapter 71 (relating to obscenity) or 110 (relating to sexual exploitation of children) of title 18, or any other Federal criminal statute.

(2) No effect on intellectual property law

Nothing in this section shall be construed to limit or expand any law pertaining to intellectual property.

(3) State law

Nothing in this section shall be construed to prevent any State from enforcing any State law that is consistent with this section. No cause of action may be brought and no liability may be imposed under any State or local law that is inconsistent with this section.

(4) No effect on communications privacy law

Nothing in this section shall be construed to limit the application of the Electronic Communications Privacy Act of 1986 or any of the amendments made by such Act, or any similar State law.

(5) No effect on sex trafficking lawNothing in this section (other than subsection (c)(2)(A)) shall be construed to impair or limit—

(A) any claim in a civil action brought under section 1595 of title 18, if the conduct underlying the claim constitutes a violation of section 1591 of that title;

(B) any charge in a criminal prosecution brought under State law if the conduct underlying the charge would constitute a violation of section 1591 of title 18; or

(C) any charge in a criminal prosecution brought under State law if the conduct underlying the charge would constitute a violation of section 2421A of title 18, and promotion or facilitation of prostitution is illegal in the jurisdiction where the defendant’s promotion or facilitation of prostitution was targeted.

(f) Definitions As used in this section:

(1) Internet

The term “Internet” means the international computer network of both Federal and non-Federal interoperable packet switched data networks.

(2) Interactive computer service

The term “interactive computer service” means any information service, system, or access software provider that provides or enables computer access by multiple users to a computer server, including specifically a service or system that provides access to the Internet and such systems operated or services offered by libraries or educational institutions.

(3) Information content provider

The term “information content provider” means any person or entity that is responsible, in whole or in part, for the creation or development of information provided through the Internet or any other interactive computer service.

(4) Access software providerThe term “access software provider” means a provider of software (including client or server software), or enabling tools that do any one or more of the following:

(A) filter, screen, allow, or disallow content;

(B) pick, choose, analyze, or digest content; or

(C) transmit, receive, display, forward, cache, search, subset, organize, reorganize, or translate content.
Digam-me lá onde aí diz que, para estarem abrangidas pela tal regra do "No provider or user of an interactive computer service shall be treated as the publisher or speaker of any information provided by another information content provider.", as redes sociais, etc não podem execer controlo editorial; e ainda por cima o titulo da secção é "Protection for private blocking and screening of offensive material" e o título do da sub-secção é «Protection for “Good Samaritan” blocking and screening of offensive material».

A única obrigação que essa lei parece impor aos fornecedores de serviço é informarem os clientes que existe software e hardware que pode ser usado para controlo parental (o que me parece completamente irrelevante para o que está a ser discutido).

 Já agora, além do título da secção ser "Protection for private blocking and screening of offensive material" e o título do da sub-secção é «Protection for “Good Samaritan” blocking and screening of offensive material», o nome da lei onde isso aparece é Communications Decency Act"; digam lá - parece-lhes o nome de uma lei feita para a dizer que as empresas da internet não podem apagar conteúdos?

Não tenho certeza disto que vou dizer agora, mas até tenho a ideia que toda essa legislação foi feita por impulso conjunto da direita religiosa e da esquerda soccer moms, cheias de medo que a internet ficasse cheia de "sexo e violência" - como a primeira emenda não permite que o estado proibisse o "sexo e violência", fizeram uma lei que ao menos permitisse aos fornecedores de acesso e aos alojadores de conteúdos bloquear/apagar coisas sem perigo de consequências adversas.

Se o decreto de Trump tiver alguma relevância prática (por algumas coisas que tenho lido, é capaz de ter sido mais um exercício daquilo que noutro contexto os seus apoiantes chamariam de sinalização de virtude), o resultado é que só passaria a haver dois tipos de redes sociais:

- redes sociais em que se pode publicar tudo, sem qualquer restrição (além daquelas que vêm das leis gerais)

e

- redes sociais estilo Stasi, em que tudo o que é publicado é esmiuçado pela plataforma (e provavelmente sujeito a uma moderação prévia antes de ser publicado), para evitar qualquer coisa que possa eventualmente ser ilegal.

Redes sociais como as que existem atualmente, em que existe grande liberdade de se publicar o que se quer, mas em que de vez em quando os donos da rede apagam posts ou expulsam/suspendem comentadores seriam provavelmente impossíveis (mesmo a existência do famoso algoritmo seria problemática).

[dito de outra maneira, as redes sociais passariam, umas a ser anómicas, e outras totalitárias, sem espaço para a "ditabranda" que o Facebook ou o Twitter são atualmente]

Não digo que isso fosse necessariamente mau, mas iria provavelmente ser uma grande mudança face à ordem atual

 Sobre a neutralidade de redes sociais e afins: eu consigo imaginar o Facebook ou o Twitter a serem "neutrais" (e até tenho instalada uma extensão que "neutraliza" um pouco o Facebook, obrigando-o a mostrar os posts por ordem cronológica); já o Youtube parece-me impossível de tornar "neutral", sem passar a ser algo bastante diferente do Youtube (já que a existência de um algoritmo a recomendar vídeos é um aspeto importante do Youtube, e duvido muito que um algoritmo seja compatível com "neutralidade", no sentido de que tem que haver um critério qualquer para decidir que vídeos sugerir).

11/06/20

"E Tudo o Vento Levou"

A censura imaginária a "E tudo o vento levou" - uma entre o zilião de empresas que alugam e/ou vendem filmes deixou de o ter em catálogo (se querem um filme - ambientado no mesmo tempo e local - que consta que é mesmo quase impossível de arranjar, faria mais sentido falarem de "censura" a propósito de A Canção do Sul, p.ex.).

A censura real a "E tudo o vento levou" - um filme que era para ter entrado no domínio público em 2014 (75 anos após ter sido feito), o que significaria que qualquer pessoa poderia fazer cópias dele, exibi-lo quando e como quisesse, etc [não é que já não se possa...], continua a estar coberto por direitos de autor devido a alterações retroativas da lei dos direitos de autor (e aí nem vale o argumento que prolongar os direitos de autor incentiva os criadores - isso não funciona para obras que já foram feitas).

07/06/20

A Info Praia - contributo para a obsolescência planeada?

A aplicação Info Praia requer Android 6.0 ou superior - seria muito difícil ter feito uma aplicação que fosse compatível com as versões anteriores do Android?

Eu não percebo nada disso, mas quase que aposto que seria perfeitamente possível fazer uma app nas versões anteriores que desse essa informação (afinal, as apps da meteorologia e das marés correm nas versões antigas do Android, e duvido que uma app a informar se a praia está cheia seja muito mais complexa do que uma app a informar do estado tempo nessa praia ou a que horas a maré enche).

E ainda por cima acho que nem dá para reclamar na secção de críticas/reclamações do Google Play Store (já que só quem tenha a aplicação instalada pode escrever uma "review", logo quem não a consegue instalar por ter uma variante anterior do Android não não consegue fazer uma review a queixar-se disso).

10/05/20

O "isolamento vertical" e "horizontal"

Uma coisa que me parece não ser bem explicitada nas polémicas sobre "isolamento vertical" (pôr só os elementos de grupos de risco em quarentena) vs. "horizontal" (toda a gente de quarentena) é que se se puser só os grupos de risco (p.ex., hipertensos, diabéticos e/ou pessoas com mais de 60 ano) de quarentena, vai ter que ser, para esses, uma quarentena mais rigorosa do que se se puser toda a gente de quarentena.

Explicando melhor: compare-se uma situação em que toda a gente reduz os seus contactos sociais em 90% com uma em que os grupos de risco reduzem os seus contactos em 90% e as outras pessoas continuam a ter uma vida social normal; no segundo cenário, haverá indubitavelmente mais pessoas-não-de-risco a ficar doentes (na realidade, nalgumas estratégias, como a da "imunidade comunitária", a ideia é mesmo essa) - mas como, dos poucos contactos que as pessoas-de-risco continuam a ter, alguns são de pessoa-não-de-risco, assim aumenta também a possibilidade das pessoas-de-risco serem contaminadas. Ou seja, se queremos libertar as pessoas-não-de-risco da quarentena mas não aumentar o perigo para as pessoas-de-risco, estas últimas têm de reduzir ainda mais os seus contactos interpessoais (estilo, em vez de serem 10% do que era antes, passar a ser 1% ou coisa assim).

Na verdade, muita dessa conversa parece feita como se a quarentena/lockdown/o que lhe queiramos chamar consistisse numa redução de 100% dos contactos sociais (e, aí, efetivamente, não faria diferença para os grupos de risco o que os não-de-risco fariam); um exemplo disse é quando, face à objeção "não é possivel isolar completamente os membros dos grupos de risco", os defensores dos "isolamento vertical" respondem "então como é que querem isolar toda a gente?", como se só fosse possível, ou reduzir os contactos sociais a zero ou então mantê-los no seu nível normal.

Mas, provavelmente algures na transição entre uns animais parecidos com as atuais tupaias para uns animais parecidos com os atuais lémures, alguns nossos antepassados desenvolverem um grau de interdependência social dentro de grupos relativamente grandes que torna praticamente impossível agora voltarmos atrás a reduzirmos os nossos contactos sociais (ou pelo menos contactos sociais fora da família nuclear) a zero (e a divisão do trabalho que se desenvolveu ainda mais com a Revolução Industrial ainda torna mais impossível essa quarentena a 100%).

Ainda este respeito,What does 'isolate the vulnerable' even mean?, por Philip Klein, no Washington Examiner.

04/05/20

Calamidades

Primeira calamidade: que o estado de calamidade tenha sido decretado por um período manifestamente excessivo. Demasiado tempo para o Governo - fosse ele qual fosse - poder actuar sem o necessário enquadramento da Assembleia da República. Não me parece que fosse necessário manter qualquer um dos regimes que implicam alguma forma de excepção constitucional.

Segunda calamidade: que na área da saúde não tenha ficado claro, desde já, que irá haver um reforço dos meios materiais e humanos do Serviço Nacional de Saúde. Reforço acompanhado pela melhoria salarial destes profissionais, que tão importantes foram para proteger o povo português. Reforço que devia impedir a situação que se viveu com o adiamento de cirurgias em muitas áreas tendo essa opção determinado, nalguns casos, perdas de vida evitáveis.

Terceira calamidade: que o Governo através dos sinais que está a transmitir à sociedade aponte no sentido de reforçar o negócio privado na saúde - renovação da PP do Hospital de Cascais e canalização de cirurgias que estão em espera no SNS para os privados. Numa altura em que o SNS mostrou que sem a sua actuação não teria havido resposta para a pandemia.

Quarta calamidade - que o Governo pouco ou nada tenha feito para ajudar as famílias em maiores dificuldades. Entregando, por exemplo, aos cidadãos mais pobres, pelo menos a esses, que eram 2 milhões antes do covid mas aumentaram muito com esta crise, um verba suficiente por cada um dos meses em que para eles poderem comer e dar de comer aos seus filhos se tornou uma verdadeira impossibilidade.

Quinta calamidade -  que na sociedade portuguesa a caridade esteja a ganhar espaço, cada vez mais espaço, aos mecanismos de redistribuição da riqueza e sejam eles a compensar a omissão do Governo.  São exemplos as famílias a ocorrerem em número cada vez maior  aos bancos alimentares e às refeições servidas pelas escolas e outras instituições. Gente pressionada pela pobreza extrema e pela fome sua e dos seus.

Sexta calamidade - que o Governo já tenha vindo reforçar a sua decisão de recusar em 2021 aumentos decentes aos funcionários públicos. O Governo bate palmas à GNR, à data do seu aniversário, bate palmas aos profissionais do SNS, elogia os professores, agradece aos trabalhadores dos serviços municipais, que nunca pararam de assegurar a recolha do lixo, o tratamento dos esgotos, o abastecimento de água. Mas depois das palmas ficará a austeridade e a habitual desconsideração destas classes profissionais.

Sétima calamidade - que esta pandemia sanitária esteja já a transformar-se numa enorme pandemia social, numa sociedade em que como cantava o Chico Buarque "a dor da gente não sai no jornal", referindo-se certamente aos mais desfavorecidos da sociedade, que são muitos e ignorados.


26/04/20

Ler os Outros: " Os que aplaudem o SNS são os que vão querer cortar salários depois"

A entrevista ao Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço, publicada no DN, na edição deste sábado, e disponível online para assinantes, é de leitura obrigatória.

Uma análise lúcida e clara sobre a importância do Serviço Nacional de Saúde, o seu estado antes da pandemia, como a crise de 2008 contribuiu para a sua degradação humana e material. Destaco as frases mais importantes.

"O SNS não recuperou da última crise, quer em recursos humanos, quer em investimento. Chega a esta crise muito depauperado. Se reduzirmos o investimento no SNS  vamos agravar os problemas."

"A tentação de cortes no SNS vai ser imensa. Foi preciso haver uma crise destas para o ministério das finanças perceber que tinha de dar autonomia às instituições hospitalares. Para contratar, por exemplo. Mesmo assim foi só quatro meses." 

"Não estamos preparados para o normal funcionamento. Precisamos de equipamentos de proteção individual. Testes para profissionais e doentes. E na prática mais recursos humanos."


"A memória é curta - as mesmas pessoas que criticam o SNS, os profissionais de saúde, são as mesmas que batem palmas e que se sentem muito emocionadas com a resposta dos profissionais de saúde." 


"Costumo dar o exemplo da crise de 2008. No mesmo dia que há a falência do Lehman Brothers em Talin é assinada uma carta entre o Banco Mundial e os vários países da OMS na Europa e que diz que o investimento em saúde é investimento em crescimento económico. A partir da crise financeira, que começa naquele dia, a grande maioria dos países europeus faz uma redução nos seus orçamentos na saúde." 


Não duvido que as coisas se irão passar assim, mais uma vez. Apenas com novos protagonistas será possível esperar uma mudança de políticas. Ora, a austeridade no investimento no SNS não terminou com o Governo de Portas e Passos, ela prolongou-se até aos nossos dias.

PS- sou assinante do DN e comprei o jornal de sábado. Caso não seja possível aos que visitam o Vias de Facto aceder à entrevista na sua totalidade, através deste link, ficam aqui salientadas as mais importantes declarações. Em alternativa podem assinar o jornal.

25/04/20

25 de abril: golpe de estado ou revolução?

A respeito da conversa se o 25 de abril foi um golpe de estado ou uma revolução - o que aconteceu na madrugada de 25 de abril de 1974 era um golpe de estado, mas começou a tornar-se uma revolução ao longo do dia quando a população de Lisboa (e penso que noutros sítios também) começou a sair à rua apesar das ordens do MFA para ficar em casa.

E, pelo que hoje em dia se sabe acerca do 25 de abril (e dos vários momentos ao longo do dia em que se esteve à beira de um banho de sangue), é muito provável que tenham sido as multidões na rua que impediram um violento contra-golpe, contribuindo para os militares das forças leais ao regime não tenham (com a exceção da PIDE/DGS) resistido (seja por não querer matar centenas ou milhares de pessoas, seja pela demonstração que a maioria do povo - ou pelo menos do povo visível na altura - estava contra o regime e portanto seria uma causa perdida a prazo).

VIVA o 25 de ABRIL



Quarenta e seis anos depois de Abril comemoramos a revolução libertadora sob o Estado de Emergência. 
Mesmo assim, com essa condição limitadora das liberdades, em particular do direito à greve, fez bem Ferro Rodrigues ao não ceder às pressões dos populistas, da direita mais reaccionária, de todos aqueles que não perdem uma oportunidade para acertar contas com o 25 de Abril. 

Este 25 de Abril celebra-se numa altura em que centenas de milhares de portugueses estão a ser atingidos nos seus direitos de uma forma brutal. A pandemia tem infernizado a vida a centenas de  milhares de portugueses. Os que perderam salários, os que não puderam ser atendidos no sistema nacional de saúde, os que foram obrigados a permanecer nas suas pobres casas com toda a família e com os seus filhos impedidos de ir à escola e de aprender por falta dos meios e das condições adequadas de habitabilidade. 

O 25 de Abril representou o fim da ditadura fascista e o início de um período de liberdade, de democracia e de progresso.  Neste ano o 25 de Abril deveria ser uma oportunidade para discutir as mudanças que são necessárias para que o nosso País deixe de ser o mais desigual da União Europeia, o quatro País com a maior percentagem da população a viver em deficientes condições de alojamento. Deveríamos estar a discutir a forma como o Estado democrático se relacionou com o Mercado e aquilo que temos de mudar. Infelizmente na televisão pública e nos restantes canais estão todos a discutir a adequação ou não da intervenção de Ferro Rodrigues, quando cortou cerce os desejos dos inimigos confessos ou disfarçados do 25 de Abril.

VIVA o 25 de ABRIL.

23/04/20

As eleições na América. O apoio de Obama e de Bernie Sanders a Joe Biden

Bernie Sanders declarou o seu apoio à candidatura de Joe Biden, colocando um ponto final nas primárias do partido Democrático. Sanders aproveitou uma conversa com Biden para anunciar o seu apoio.

Este apoio de Sanders resulta claramente de um compromisso político. Biden e Sanders acordaram numa estratégia de unidade que será a única forma possível de o partido Democrático derrotar Trump, em Novembro. Este compromisso e esta unidade implicaram, tanto quanto me parece, um acordo político prévio sobre um conjunto de políticas assumidas por Biden, cujo Programa Eleitoral as deverá consagrar.  Algumas das ideias fortes da candidatura de Sanders serão reflectidas na plataforma eleitoral de Biden. Na sua declaração, Sanders faz diversas referências aos grupos de trabalho das duas candidaturas que irão reunir para construir a plataforma política da candidatura.

O artífice deste compromisso foi, acho eu, Barack Obama.  Esta iniciativa de Obama tem como fundamento duas convicções: a primeira é a de que uma plataforma que junte Biden a Sanders representa a mais elevada possibilidade de vitória eleitoral. Manter a clivagem entre os dois e acentuar as divergências políticas em vez de estabelecer compromissos políticos reciprocos seria um passo para o desastre; a segunda tem a ver com a necessidade de mudar a sociedade americana tornando-a mais justa, mais equitativa. Obama mostra, na sua declaração de apoio a Biden, um enorme respeito por Sanders, [no vídeo a partir do min 4.20] destacando a sua luta de sempre pelos direitos dos trabalhadores, por uma sociedade mais justa, mais democrática, em que os servidores públicos e os trabalhadores tenham o direito real a um melhor salário, a melhor educação, a um acesso universal à saúde, a reformas justas, a uma melhor qualidade de vida. Obama declara que sempre coincidiu com Sanders nesses objectivos.

Obama percebe que as mudanças realizadas nos seus mandatos foram insuficientes e que em parte foram revertidas por Trump. Por isso defende uma mudança estrutural que vai obrigar a uma mudança económica sem precedentes. Uma mudança com a dimensão das que foram protagonizadas por Franklin Roosevelt com a sua New Deal no período posterior à grande depressão.



Obama foi o actor por detrás desta unidade. Foi ele que discutiu com Sanders as condições para essa unidade ser possível. Isso é assumido por Sanders embora se tenha recusado a divulgar os pormenores da conversa, quando inquirido pelo jornalista da MSNBC. Vamos ver como irá evoluir a candidatura dos Democratas e como se concretizará a reunião de todos em torno de Biden. Fico com curiosidade de perceber a verdadeira dimensão da plataforma política do candidato democrata. 
Uma última nota: sendo muito importante o apoio de Sanders, será mesmo decisivo dado a sua influência junto do eleitorado mais jovem, mais progressista, ter Obama a manifestar o seu apoio e com um discurso com esta notável qualidade é um privilégio, que já ninguém pode tirar a Joe Biden.  




21/04/20

Ler os Outros: Jorge Sampaio.

Mais algumas leituras importantes nestes tempos de coronavírus. Em vez do linguarejar que entope a bolha mediática - esse caldeirão cheio de curvas, contracurvas, banalidades sem limite e sem pudor, vazio de esperança - as reflexões de quem tem algo para dizer nestes tempos de crise profunda e de pouca esperança. Os que sabem que somos sempre nós que podemos mudar o rumo dos acontecimentos contra todas as TINAS, as de ontem e as que agora, a pretexto das vacas magras, se insinuam todos os dias.

Neste caso um ensaio  de Jorge Sampaio publicado pelo Público de que destaco as seguintes frases:

"(...) Para os países do velho continente, é a hora da Europa. Para a Europa, é a hora da defesa do multilateralismo, da democracia e de redescoberta do humanismo. Mas, para todos, creio, é claro que esta é a hora de reconhecer o papel insubstituível da confiança dos cidadãos no Estado e das suas funções essenciais enquanto garante da protecção dos cidadãos e da coesão social e no âmbito da afirmação da independência e soberania nacionais. Parece-me claro que a hiper-globalização tem os dias contados, mas também não será o regresso a um localismo serôdio – ou pior, a nacionalismos de má memória – que permitirá ultrapassar a monumental crise que se avizinha. (...) Estas previsões, que praticamente colocam todos os membros da União Europeia no mesmo barco, deveriam ser suficientes para levar a um plano europeu robusto de reconstrução da economia e do desenvolvimento sustentável na Europa. (...)

 Não é, porém, certo que assim sucederá por razões várias, mas que se prendem basicamente com um enorme e surpreendente défice de sentido partilhado de pertença a uma comunidade de destino que está na base do projecto europeu, mas que nem décadas de história comum alicerçou entre os seus membros…Perante as previsíveis hesitações de uns e resistência de outros, poderá, então, porventura ser o momento de fazer avançar a União Europeia apenas com os que desejem apostar no seu fortalecimento, como aconteceu no passado com a livre circulação de pessoas ou com a moeda única. Desistir não é opção e não podemos deixar que um vírus mate a Europa e nos arraste consigo. Há que fazer do sobressalto civilizacional que estamos a viver uma oportunidade de renovação do pacto europeu. Quero crer que, como a Fénix, haveremos de renascer.(...)"

Vale a pena ler a totalidade do ensaio  ( e não da entrevista como por lapso tinha escrito). 

18/04/20

Austeridade a caminho e depressa.

A mesma conversa, no essencial, da que nos foi servida após a assinatura do memorando de entendimento em 2011 e da imposição de uma austeridade draconiana que empobreceu a maioria dos portugueses. "(...) a nossa saída da crise vai depender muito do grau de confiança que inspirarmos nos investidores estrangeiros, nos mercados, naqueles que querem retomar o contacto com Portugal (...)" afirma António Costa na entrevista ao Expresso.

Compreende-se que o primeiro-ministro questionado sobre a aplicação de austeridade tenha afirmado não poder dar uma resposta que amanhã não possa garantir. Como pode alguém que já decidiu - e se convenceu - que a austeridade é a única solução, fazer promessa diferente. A evolução de António Costa relativamente à austeridade tem sido ao dia e sempre no sentido da ... austeridade. Passos Coelho e Paulo Portas riem-se à farta. Rui Rio, aplaude com o seu apurado sentido patriótico.

Tudo muito claro. Tudo muito igual ao "business as usual" da última década de consolidação de uma desigualdade profunda na sociedade portuguesa. Os que perderam em 2011 vão ser fortemente penalizados outra vez. Se nada fizerem para impedir o que aí vem a vida vai ser muito dura para  a maioria da população.

Para lá das palmas aos profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, auxiliares - que com a sua dedicação disfarçam o estado calamitoso a que o SNS chegou - e aos professores que em suas casas, sacrificando as suas famílias, asseguram, sem qualquer preparação prévia e sem grandes condições, o funcionamento do ano escolar, o que aí vem é mais do mesmo: desinvestimento, continuação do empobrecimento de vastas classes profissionais onde se incluem os professores e os médicos e enfermeiros.

Para lá dos trabalhadores da administração local, sobretudo os da limpeza, os que garantem a água nas nossas torneiras, os que asseguram a drenagem dos nossos esgotos, todos com salários médios miseráveis e a trabalhar sem equipamentos adequados, sem subsídio de risco de qualquer espécie

Por isso faz todo o sentido que alguém se lembre de criticar o despudor daqueles que querem aumentar os funcionários públicos em 2021. Afinal o que estava combinado não era apenas bater palmas?

O ódio aos funcionários públicos e o desprezo pelo seu trabalho são crescentes na sociedade portuguesa. Por isso quando se trata de tomar decisões salariais o caminho mais fácil é cortar ou congelar os salários desses trabalhadores. O mesmo se passa na América, com Trump. A exportação do modelo de sociedade americana para os países da Europa, denunciada por vários autores, avança por essa via. Krugman, num artigo no NYT, denuncia o facto de nos diversos pacotes de apoio económico decididos por Trump, os trabalhadores que desempenham funções públicas, como os trabalhadores dos correios, da saúde, os professores, os trabalhadores da Administração Regional e Local - num total de mais de 25 milhões de trabalhadores - terem ficado de fora. Trump terá pensado que avançar com apoios a estes trabalhadores seria um despudor.

16/04/20

Renovação do Estado de Emergência: aspectos incompreensíveis

Foi mais uma vez renovado o Estado de Emergência. Se já na anterior renovação tinha manifestado discordância relativamente a alguns aspectos, desta vez julgo que se pode considerar incompreensível esta renovação.

As medidas de contenção revelaram-se um sucesso, na limitação da propagação da pandemia. Os portugueses na sua esmagadora maioria merecem aplauso. As boas decisões tomadas pelo Governo - acima de todas o fecho das escolas e a imposição de medidas de contenção social - merecem aplauso.

Sem esse desempenho dos portugueses teria sido impossível limitar as infecções e o depauperado SNS teria sido incapaz de dar uma resposta tão boa como tem estado a dar. Resposta que deve continuar com a contenção social já amplamente acordada na sociedade em geral e entre todas as forças políticas.

Não vou insistir nas debilidades do SNS - que resultam de uma opção política de longo prazo - nem no custo para a economia que a necessidade de adoptar esta estratégia implicou. Podemos mudar o nosso futuro mas à data em que a pandemia se declarou não tínhamos tempo para equipar o SNS com recursos humanos e materiais que se revelaram necessários.

O que quero aqui referir é um facto que julgo ser altamente reprovável: vamos comemorar o 25 de Abril num País sob o Estado de Emergência, com o direito à greve de sectores profissionais ligados aos serviços públicos, impedido.

Não haveria pior maneira de comemorar Abril. Faltou sensibilidade, e respeito pelo 25 de Abril, ao  Governo, aos deputados do PS e aos do BE, para alterarem um aspecto do Decreto Presidencial que nunca fez sentido e que, neste momento concreto, se faz sentido é um triste sentido que faz. Refiro-me à limitação do direito à greve.

O meu aplauso para a posição clara do PCP sobre esta matéria tão sensível, particularmente neste preciso momento histórico.

13/04/20

Ler os Outros.

Um conjunto de excelentes textos publicados no jornal Público e que merecem a atenção de todos.  Em primeiro lugar este texto de Rui Pena Pires sobre o regresso à normalidade sócio-económica dispensando a normalidade e a decência democráticas.

Depois o ensaio de Slavoj Zizeck publicado no Caderno P2 do Público de ontem no qual o filósofo esloveno se mostra muito pessimista com o futuro pós-pandemia, prevendo a emergência de um capitalismo bárbaro.

Por fim o ensaio do filósofo José Gil, também publicado ontem, sobre a incapacidade para aproveitarmos a pandemia para questionarmos o nosso modo de vida, a forma como as nossas sociedades estão organizadas. Diz José Gil que "este período de luta pela sobrevivência física não gerou até agora nenhum sobressalto político ou espiritual, nenhuma tomada de consciência da necessidade de mudar de vida. Não gerou esperança no futuro."

Excelentes reflexões.

10/04/20

Os Coveiros da União Europeia: mais austeridade (Actualizado)

A aprovação de uma pacote de auxilio às economias dos países da Zona Euro foi saudada pelo Presidente do Eurogrupo como uma resposta adequada para esta época e algo impensável há algumas semanas.

Ninguém parece entender o significado das palavras de Mário Centeno, talvez com excepção dos eternos defensores da austeridade e do ministro das Finanças holandês ou do reaparecido senhor Schaubble.

Portugal, e os países que ainda se encontram sob os efeitos da última crise, pouco ou nenhum apoio recebem, cerca de 2% do PIB, uns irrisórios 4,2 mil milhões de euros devidamente embrulhados em medidas austeritárias.  Este compromisso histórico, na peculiar interpretação de Centeno, não irá permitir a Portugal "comprar" mais do que um mês tal o impacto que a pandemia está a ter na nossa economia.

António Costa aproveitou uma visita ao programa de Manuel Luís Goucha para explicar ao povo que é preciso "evitar a todo o custo que a austeridade entre na vida dos portugueses".  O Manuel Luís Goucha, que não é um expert em austeridade e outras pandemias, não se lembrou de perguntar ao primeiro-ministro de que portugueses estava ele a falar. Antonio Costa recebeu já o apoio solidário de Rui Rio que se disponibilizou para apoiar as medidas austeritárias necessárias nos próximos orçamentos. Um conforto.

Para não perder o seu protagonismo o Presidente da República veio anunciar que já tinha formado a convicção de que o estado de emergência deve ser prolongado.

Um cansaço.

Actualização: A entrevista de António Costa à Lusa parece pretender comprometer o BE e o PCP com as dificuldades que aí vêm. Dificuldades que António Costa sabe que têm um nome bem conhecido da maioria dos portugueses: austeridade.  A referência a um tempo de "vacas gordas" por oposição a um tempo futuro de "vacas magras", é um mau momento de António Costa. O que quererá o primeiro ministro dizer com tempo das vacas gordas?
Será que para ele isso significa o tempo em que os portugueses perderam rendimento, perderam as casas que estavam a pagar há muitos anos, perderam o emprego, perderam a possibilidade de assegurarem aos seus filhos uma melhor qualidade de vida, ficaram com serviços de saúde cada vez piores e cada vez mais inacessíveis, ficaram com um cada vez mais difícil acesso à educação superior e sem acesso a uma habitação adequada ao seu nível de rendimento?

Para completar aquilo que acima escrevi recomendo a leitura deste artigo de opinião.

09/04/20

A Holanda e a Repugnante falta de solidariedade Europeia

Num encontro promovido pela  92nd Street Y - disponível na Internet e que foi publicada entre nós pela Relógio D´´Agua - Paul Krugman, Thomas Piketty e Joseph Stiglitz debateram sobre a Desigualdade e o Futuro da Economia. 

O que interessa trazer aqui à citação é a posição de Piketty sobre o futuro do Euro. Entre as reservas que o economista francês colocou ao futuro da moeda única uma das mais importantes referia-se à possibilidade existente de alguns países poderem, literalmente, assaltar a base tributável dos outros. 

O exemplo referido foi o Luxemburgo, a propósito das revelações do "Luxemburgo Leaks" e das patéticas declarações de Jean-Claude Juncker, o então Presidente da Comissão Europeia, depois de ter sido primeiro-ministro do Luxemburgo. Mas o mesmo se podia dizer da Holanda, paraíso fiscal onde estão sediados grandes grupos económicos portugueses que, dessa forma, fogem ao pagamento de impostos sobre os lucros obtidos com a sua actividade em Portugal. 

Alguns desses grupos estão agora muito empenhados em acções de solidariedade, em generosas doações, através das quais devolvem ao País migalhas do muito que, recorrendo aos governantes holandeses e à cumplicidade europeia, gamaram - não há palavra melhor - ao País. 

O Governo da Holanda actua dentro da União Europeia como um seu inimigo confesso. Não é o único, mas é, nos tempos que correm, o mais Repugnante. 

07/04/20

" O Estado de Emergência acentua as Desigualdades".

Uma evidência que não terá sido devidamente ponderadas pelos decisores políticos. Admita-se que estão todos preocupados com a questão.
A desigualdade mata, tal como a pobreza. Matam mais do que a pandemia. Mas, ao contrário da pandemia, a desigualdade e a pobreza matam exclusivamente os mais pobres, os excluídos.

A pandemia ainda não tem cura. A desigualdade extrema e a pobreza têm. Esse é o debate que não está a ser feito na sociedade portuguesa. Nem na Europa, que cava com afinco a sua sepultura.

Importante ler esta entrevista ao sociólogo José Manuel Mendes. Não podemos aceitar impávidos e serenos que nos sejam servidas como normais decisões que põem em causa as regras da organização democrática da sociedade.

Precisamos de uma emergência que sirva para introduzir equidade na nossa vida colectiva, para reduzir significativamente as desigualdades.

04/04/20

Solidariedade Nacional para com todos os desempregados

Roubo o título e a ideia a Paulo Pedroso, que a defende num artigo publicado no DN.

Faço apenas uma ressalva: esta medida não pode excluir todos aqueles que ficam sistematicamente  fora do sistema de protecção social porque são sócios-gerentes de pequenas empresas que se viram obrigadas a fechar, como aconteceu depois da crise de 2008-2010. Refiro-me aos "famigerados" MOE (membros dos órgãos estatutários].

Esta gente - muitas dezenas de milhares - descontaram durante décadas - pagando a parte do trabalhador e a parte da empresa, sobre os seus salários - e, apesar da propaganda feita pelo Governo do PP/PSD, apenas menos de 1% conseguiram ter acesso ao subsídio de desemprego, tão irrealista e impossível de conseguir eram as condições exigidas.

Com a nova crise muitos milhares irão passar - estão já a passar - pelo mesmo trauma. Talvez porque estamos a falar de "empedernidos capitalistas" ninguém dedica uma palavra a estas pessoas. É o que faz termos um parlamento em que a maioria dos deputados nunca criou uma empresa - muitos nunca trabalharam para qualquer empresa, tendo dedicado, com assinalável sucesso, a vida ao partido -  e muitos deles, apesar do conhecimento que gostam de exibir sobre as características do tecido empresarial português, sobre a importância das PME´s e das Micro-empresas, na verdade acham que essas empresas foram criadas por geração espontânea e que os seus sócios-gerentes nunca existiram.

A maioria dos deputados até deve achar graça aos MOE, já que na sua história de vida todos eles devem ter aprendido desde muito cedo - nas escolas de formação de quadros -  que criar uma PME é mesmo um disparate sem sentido, uma manifestação de uma total falta de senso. Algo que uma pessoa com algumas aspirações na vida nunca faria, nem recomendaria aos seus filhos.

Não estou a falar  daquelas magníficas PME´s ou micro-.empresas que são criadas para o ajuste directo que chega logo a seguir. As que depois de "esgotado" o ajuste directo, encerram imediatamente a actividade e serão substituídas por outras para novos "ajustes directos". Aquelas que nunca tiveram trabalhadores permanentes, nem esse tipo de trapalhadas. Referia-me às outras aquelas que não "circulam" neste tipo de "economia".




02/04/20

Balanço do Estado de Emergência

O Parlamento irá hoje renovar o Estado de Emergência. Não se sabe neste momento em que condições. Admite-se que exista uma renovação com o agravamento das restrições à mobilidade dos cidadãos.

Estou em desacordo com mais e maiores medidas à limitação da mobilidade dos cidadãos. Considero que as condições inicialmente definidas eram suficientes, provaram ser eficazes e suficientes. Há o perigo real de "investir" na criminalização dos comportamentos dos cidadãos.
Não concordo com qualquer medida que vise colocar em causa os direitos dos trabalhadores e direitos como o direito à greve. Uma inutilidade que apenas pode resultar de uma pulsão autoritária.

Há um balanço a fazer destes primeiros quinze dias de Estado de Emergência. Em primeiro lugar aquilo que correu muito bem, excepcionalmente bem, foi o comportamento dos portugueses. O recolhimento social foi adoptado de forma generalizada. Há algumas excepções que têm sido aproveitadas numa perspectiva sensacionalista. São excepções que confirmam a regra do bom comportamento.

Em segundo lugar aquilo que correu francamente mal foi a incapacidade do Estado, deste Estado quase mínimo, de dar uma eficaz resposta sobretudo nos Serviços Públicos.

O que esta pandemia mostrou a todos foi que o Estado descurou a níveis inaceitáveis a situação do Serviço Nacional de Saúde.

No momento em que se renova o Estado de Emergência ainda não chegaram os necessários ventiladores que permitiriam aumentar o número de camas de cuidados intensivos. O número de profissionais do SNS continua abaixo do exigido, obriga a períodos muito longos de trabalho e depende do voluntariado de médicos reformados para uma resposta efectiva.
O Estado mostra incapacidade na resposta atempada aos previsíveis focos de infecção e de propagação com destaque para os Lares de Idosos. Haveria uma lista de falhas enorme que a crise veio evidenciar. Saliento apenas o facto inadmissível de ao mesmo tempo que impõe estas medidas aos cidadãos o Estado não ser capaz de realizar em tempo útil os testes necessários aos doentes que tiveram alta. Dessa forma impede que os doentes com alta se transformem em cidadãos curados e previsivelmente com imunidade.

Há uma falha do Estado, e deste Governo, nesta crise e nesta emergência: as medidas anunciadas para proteger os direitos dos trabalhadores e das famílias, das pequenas e médias empresas são insuficientes. O Estado tem sido débil e fraco. Um Estado mínimo.

PS- a Europa continua a afundar-se. A senhora Von der Lyden parece ser perfeitamente capaz de conduzir a Europa para o abismo.


A democracia pode sobreviver a uma epidemia severa?

A Hungria já se tornou uma espécie de ditadura; na Polónia as alterações da lei eleitoral (feitas a pretexto do Covid-19)levaram o principal candidato da oposição a boicotar as próximas presidenciais; na Europa ocidental "democrática" avançam os "estados de emergência", com crescentes restrições aos direitos democráticos; nos EUA, as primárias Democratas foram adiadas em vários estados... Isso levanta uma questão: a democracia pode resistir a uma epidemia deste tipo?

Afinal, numa quarentena, com "distanciamento social", é quase impossível fazer eleições presenciais, já que não se pode amontoar pessoas em cabines de voto (e as alternativas, como o voto postal e o eletrónico, também têm os seus problemas); além disso as formas tradicionais do povo, mesmo entre eleições, influenciar o governo também estão largamente inoperacionais: manifestações, cortes de estrada, etc? Impossível, ficavam todos infetados. Também há muito menos margem para greves (sobretudo greves de massas) - afinal, se já está quase tudo parado, uma greve não muda grande coisa.