23/12/18

O Paul Krugman deveria ler mais

No seu artigo, The Case for a Mixed Economy, Paul Krugman escreve:
 I’ve had several interviews lately in which I was asked whether capitalism had reached a dead end, and needed to be replaced with something else. I’m never sure what the interviewers have in mind; neither, I suspect, do they. I don’t think they’re talking about central planning, which everyone considers discredited. And I haven’t seen even an implausible proposal for a decentralized system that doesn’t rely on price incentives and self-interest – i.e., a market economy with private property, which most people would consider capitalism.
Coisas que o Krugman poderia ler:
O primeiro é a descrição de uma economia descentralizada, com incentivos de preços, interesse próprio e uma economia de mercado, mas sem propriedade privada dos meios de produção; o segundo até poderá ser visto como uma economia com isso tudo (incluindo a propriedade privada dos meios de produção, com a exceção da terra), mas mesmo assim demasiado diferente daquilo a que normalmente se pensa quando se fala em capitalismo; no terceiro, são apresentadas várias modalidades de organização social, mas o tema dominante é o de uma economia descentralizada sem propriedade privada nem dinheiro.

Poderá dizer-se que tanto o socialista autogestionário como o mutualismo como o anarco-comunismo são absurdos ou impossíveis de realizar, mas Krugman vai mais longe - ele diz que nunca viu mesmo uma proposta implausível para uma economia descentralizada não-capitalista (e parece-me claro que propostas - e até bem pormenorizadas - até existem, independentemente de serem plausíveis ou não).

Estas abaixo não sei se contarão - em rigor, talvez sejam melhor descritas como economias centralizadas mas sem uma autoridade centralizada - mas a título de bónus cá vão:

22/12/18

Poligrafando o Polígrafo

O "Polígrafo" parece ter um padrão - pegar num assunto que é ou está a ser falado, e fazer um artigo, não sobre esse assunto, mas sobre um assunto parecido, e depois dar a sua sentença de "falso" ou "verdadeiro" sobre isso (quando não é sobre isso que se está a falar, e portanto interessa pouco se isso é "falso" ou "verdadeiro").

Agora é com o Pai Natal - hoje decidiram que a prioridade seria desmentir a fake news que o Pai Natal seria uma invenção da Coca-Cola para uma campanha publicitária; mas acho que a história que circula há décadas (acho que a ouvi pela primeira vez em 95 ou 96) não é de que o Pai Natal é uma criação da Coca-Cola, é de que a cor vermelha do Pai Natal é uma criação da Coca-Cola e que antes eles seria verde ou roxo (mesmo hoje ao almoço tive uma conversa sobre isso) - e lendo o artigo dificilmente se chega a alguma conclusão sobre isso.

Sim , eles dizem que "O grande responsável pela imagem de um Pai Natal barbudo, bonacheirão, trajado de vermelho e branco, chama-se Thomas Nast, um cartoonista que nada tinha a ver com a Coca-Cola ", mas a ilustarção que depois mostram é - como seria de esperar num desenho num jornal em 1863 - a preto e branco.


Já antes tiveram um episódio semelhante com o PAN e os provérbios com animais.

Primeiro, publicaram um post com o título "O PAN quer acabar com provérbios como pegar o touro pelos cornos?" e dizendo "Verdadeiro"; pouco depois alteraram o título para "O PAN apoia o fim dos provérbios com animais?", mas mantendo tudo o resto igual (hum..., um site de fact checkers para combater notícias falsas ter que mudar o título dos seus artigos porque o primeiro não era muito rigoroso é mau sinal...).

Mas de qualquer maneira, manteve-se o que me parece o problema principal: sim, é verdade que o PAN e a PETA querem que se deixe de usar provérbios a falar de animais, o que literalmente pode ser interpretado como "O PAN quer acabar com provérbios como...".

Mas para aí 99% das pessoas interpretou "PAN quer acabar..." (e substituir para "o PAN apoia o fim..." não muda muito) como "PAN quer proibir..." (e foi essa versão que circulou nas redes sociais- exemplo), o que não é o caso - os responsáveis do PAN disseram explicitamente que não querem fazer nenhuma lei sobre o assunto; já agora, ao que parece a campanha da PETA também não é para proibir essa expressões mas é apenas uma campanha sugerindo aos professores que ensinem as expressões alternativas às crianças.

Atendendo à ambiguidade da expressão "quer acabar" (e ainda mais havendo já a circular uma "fake new" que interpreta "quer acabar" como "proibir") ou mesmo "apoia do fim" talvez fizesse mais sentido "Verdadeiro, mas...".

De qualquer forma, parece-me o mesmo padrão - fazer um artigo não a esclarecer a questão em que há a grande polémica ("o PAN quer proibir provérbios?", "a cor vermelha do Pai Natal é uma criação da Coca-Cola?") para uma questão adjacente ("O PAN é contra os provérbios?", "O Pai Natal é uma criação da Coca-Cola?"), o que paradoxalmente até pode criar mais confusões - porque algumas pessoas podem ler o "verdadeiro" ou "falso" a respeito da questão adjacente, e julgarem que também se aplica à questão principal.

21/12/18

A política militar de Trump

A respeito do anúncio da retirada das tropas norte-americanas da Síria (e provavelmente também do Afeganistão) e da demissão do seu "ministro da Defesa", e das reações dos "fazedores de opinião" a isso, repito o que já disse algumas vezes: muita gente o que mais se incomoda com o Trump são as poucas coisas boas que ele faz.

Porque há poucos fundos de greve em Portugal?

Já muito se falou da oposição do PCP à ideia de grevistas receberem enquanto fazem greve (e pelas declarações do Jerónimo de Sousa, parece que o problema não é só com esses fundos serem financiados via internet, ou mesmo com haver qualquer espécie de recolha de fundos que não as quotas sindicais - parece mesmo uma objeção de princípio aos fundos de greves, como uma conversa sado-masoquista de que o sacríficio da greve aumenta a consciência de classe).

Mas isto levanta uma discussão - porquê a raridade dos fundos de greve em Portugal (e, claro está, a raridade das campanhas de recolha de dinheiro, que só fazem sentido se houver fundos de greve)?

Veja-se que esses fundos são algo que existe largamente nos outros países e há quase 200 anos (não é difícil encontrar referências em literatura do século XIX).

Uma hipótese é que seja resultado da baixa sindicalização em Portugal, que faz com que haja pouca gente a descontar para fazer o tal fundo; ainda por cima a lei portuguesa proíbe a "closed shop" (isto, acordos laborais estipulando que a empresa só contrata trabalhadores filiados naquele sindicato), o que se existisse seria um incetivo à existência de fundos de greve (a partir do momento em que todos os trabalhadores da empresa X têm que descontar para o sindicato Z, começa a fazer um certo sentido para o sindicato criar um sistema em que na prática os fura-greves acabam por ser obrigados a subsidiar os grevistas). No entanto, mesmo em setores e/ou épocas com elevados graus de sindicalização não se ouviu falar muito em fundos de greve (e, de qualquer maneira, se é um problema de haver poucos sindicalizados a descontar para fundos, poderia-se criar fundos que também só reembolsariam os sindicalizados - era menos a entrar mas também menos a sair).

Eu suponho que é um subproduto da raridade em Portugal de greves prolongadas ("à americana"?) - aquele tipo de greve que dura até se chegar a um acordo; parece-me que em Portugal a tradição é mais a das "jornadas de luta" - greves de um ou dois dias, para mostrar "vejam como os trabalhadores estão unidos e combativos!" (veja-se aliás a importância que tem a batalha dos números sobre a adesão às greves, que é indicativa do papel de combate ritual-simbólico que a greve tem: interessa menos saber quanto prejuízo real a greve causou e mais quanto gente fez greve; é quase como se a greve fosse uma mega-sondagem)

Um aparte - além de todas aquelas greves que ouvimos falar, chegam aos serviços de recursos humanos (pelo menos na administração pública) muitos mais pré-avisos de greve da CGTP ou da Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública: sempre que há uma manifestação em Lisboa ou nas principais cidades, esses sindicatos mandam pré-aviso de greve semi-fictícios para justificar a falta de quem for à manifestação (eu em tempos trabalhei em recursos humanos e, na sequência de esse pré-aviso ter chegado, presenciei esta conversa entre uma delegada sindical e uma colega minha que estava a perguntar que greve era aquela: Delegada Sindical: "O pré-aviso é para se quiseres ir a manifestação, vais a Lisboa  coberta pela greve"; Colega: "Não, eu só vou a Lisboa coberta pela meu marido"). Mas dá-me a ideia que não são só estas greves (que ninguém houve falar) que são para fazer manifestações - mesmas as greves para serem mesmo feitas têm mais uma função propagandística que outra coisa qualquer.

E suspeito que isso é o resultado da estratégia dos partidos que controlam grande parte dos aparelhos sindicais, a começar pelo PCP: o objetivo das greves (quando esses partidos estão na oposição) é sobretudo fazer a vida difícil ao governo do momento e criar condições para que os partidos que dominam os sindicatos em questão tenham maior representação parlamentar na eleição seguinte; a vitória em si, no sentido de obrigar o patronato ou o governo a ceder às reivindicações é secundário (e interessa só na medida em que a greve tem que ter alguma probabilidade de sucesso porque senão ninguém a faz) - e reveja-se as declarações do Jerónimo, no momento em que ele diz que a greve com sacrifício contribuiu para desenvolver a sua consciência política. Basicamente, muitas das greves portuguesas não sem nem greves reformistas como nos EUA e nos países da Europa do Norte (em que as greves até podem ser muito mais duras, mas em tornos puramente de objetivos materiais dentro do sistema), nem greves revolucionárias para derrubar o governo ou mesmo toda a ordem estabelecida - são simplesmente ginástica ideológica, feita não para uma vitória imediata (seja reformista ou revolucionária), mas para "acumular forças", "desenvolver a consciência", etc (ou seja, fazer com que depois da greve haja mais pessoas a simpatizar com a ideologia dos promotores da greve do que antes). E para isso, as greves de dois dias servem - mantêm o pessoal agitado sem se emburguesar e até têm as vantagem adicionais de não hostilizarem muito a opinião pública (o que poderia representar votos para a direita na tal eleição seguinte) e também a de não precisarem de ser ganhas: uma greve permanente até haver um acordo normalmente acaba com uma vitória (caso o patronato ceda) ou uma derrota (caso o sindicato decida suspender a greve sem obter as reivindicações). Pelo contrário, uma greve intermitente de um dia ou dois pode não atingir os seus objetivos que ninguém acha isso uma derrota do sindicato, já que dá para o cenário de " a luta continua", com os sindicalistas e os seus partidos a falar do assunto, fazer umas mini-greves e a capitalizar com ele durante anos.

Assim, do ponto de vista da promoção política, greves ocasionais de dois dias fazem mais sentido do que greves permanentes até haver um acordo - no primeiro caso, há quase 100% de hipóteses dos sindicalistas e dos seus partidos ganharem protagonismo e influência (só perdem caso convoquem uma greve e esta tenha visivelmente uma adesão muito reduzida); no segundo, há 50% de hipóteses de perderem essa influência e protagonismo (em caso de derrota de uma greve prolongada, é suficiente para abalar a carreira de um líder sindical), e nem estou certo que os 50% de vitória garantam muito mais protagonismo a longo prazo do que estar à frente de lutas que não atam nem desatam (ironicamente, se vermos a coisa do ponto de vista dos partidos e não dos sindicalistas individuais, até é possível que uma luta que se arrasta durante anos com greves episódicas dê mais votos que uma luta vitoriosa - para quê votar no partido tal nas eleições se o problema já foi resolvido?).

12/12/18

O Plano Nacional de Vacinação - decisão técnica ou política?

A decisão da Assembleia da República de incluir mais algumas vacinas no Plano Nacional de Vacinação levantou muitas objeções, de que o parlamento não teria nada que se meter em decisões técnicas. Será mesmo assim?

Vamos lá ver -  que razões técnicas poderão haver para não se incluir uma dada vacina no Plano Nacional de Vacinação? À primeira vista, poderá-se imaginar estas:

a) A dita vacina, pura e simplesmente, não fazer efeito

b) A vacina fazer pouco efeito (isto é, muita gente que toma a vacina acaba à mesma por desenvolver a doença)

c) O risco de apanhar a doença que a vacina em causa previne é muito baixo à partida

d) A vacina contra a doença A pode aumentar a probabilidade de contrair a doença B (p.ex., li algures que a vacinação contra a varicela nas crianças pode aumentar a probabilidade de infecções por herpes zoster nos adultos, ou coisa parecida)


Mas, se vermos bem, apenas o motivo a) e talvez o d) são motivos puramente "técnicos" para não incluir uma vacina no PNV - no caso de b) e c), incluir ou não incluir a vacina no PNV já implica fazer um juízo valorativo sobre se a redução de riscos compensa o dinheiro que se vai gastar com as vacinas, o que me parece uma decisão política e não puramente técnica (a função dos técnicos aí será sobretudo informar os decisores políticos - sejam eles o parlamento, o governo ou um hipotético referendo nacional cibernético - dizendo algo como "por um custo de X euros/anos, iremos ter menos Z pessoas doentes  por ano; agora decidam vocês se vale a pena"). Mesmo no caso d), de haver o risco de vacinar contra uma doença aumentar o risco de contrair outra, pode haver situações em que se imponha o tal juízo valorativo e não apenas técnico; p.ex, imagine-se que uma vacina reduzisse em 80% a probabilidade de contrair uma doença de risco mediano e aumenta em 30% a probabilidade de contrair uma doença grave - decidir se o risco ultrapassa o benefício nesse caso já me parece uma decisão mais política nesse caso.

Poderá perguntar-se se nessas questões que implicam fazer um juízo valorativo (vale a pena gastar muito dinheiro para prevenir um pequeno risco? vale a pena evitar a doença A mas aumentar o risco de contrair a doença B?) a decisão, mais do que técnica ou política não deveria ser individual (afinal, esses juízos têm muito de subjetivo) - estilo dar às famílias ou dinheiro que se gastaria com essas vacinas polémicas (p.ex., sob a forma de abono de família) e depois cada um decidiria se valia a pena pagar pela vacina ou gastar o dinheiro noutra coisa qualquer. Isso talvez faça sentido nalgumas situações, mas há pelo menos duas razões que justificam uma componente de decisão coletiva e não apenas individual nas vacinas: a principal é que a decisão de um individuo vacinar-se ou não por regra não o afeta só a ele - uma pessoa não vacinada representa um perigo também para as outras pessoas; e além disso, grande parte das decisões sobre vacinas são feitas numa idade em que o individuo a ser vacinado ainda não é autónomo (ou se calhar ainda nem fala ou anda), sendo tomadas pelos seus pais ou equivalentes e não pelo interessado principal.

01/12/18

Importantes mudanças em curso.

Angola está a mudar a partir do interior do MPLA e da sua liderança. João Lourenço está a fazer uma revolução a partir da Presidência da República. O discurso na abertura da 6ª sessão do comité central do MPLA é uma peça política que sinaliza essa transformação. A sociedade angolana vai democratizar-se e vai progredir. Haverá mais justiça social e menos desigualdade. O combate à corrupção, que durante décadas canibalizou os recursos de todos em favor de alguns influentes "camaradas", é o catalizador dessa mudança. Chegará o tempo em que o MPLA será substituído no poder. Mas, aí chegado, deixará um país mais democrático e mais próspero, melhor governado. Não é coisa menor, antes pelo contrário: João Lourenço meteu mãos a uma tarefa colossal. A sua coragem política parece ser capaz de rivalizar com a sua determinação tranquila e até suave. Um nome para a galeria dos grandes dirigentes africanos.