30/12/16

O novo conflito EUA-Rússia

Os EUA e a Rússia estão numa maré de expulsão mútua de diplomatas, na sequência de alegações de que a Rússia teria interferido nas eleições norte-americanas.

Primeiro, uma questão terminológica - a linguagem utilizada (p.ex., "election hacking") parece destinada a criar subconscientemente a ideia de que a Rússia terá manipulado mesmo a votação ou o escrutínio (um pouco como aqueles discursos da administração Bush em que frequentemente falava do 11 de setembro e de Saddam Hussein na mesma frase), talvez entrando nas máquinas de voto eletrónico, ou coisa assim. Claro que não é nada disso que se fala - a acusação é de que a Rússia teria estado por detrás do roubo dos emails da Comissão Nacional Democrata (que revelaram que o aparelho institucional Democrata terá nas primárias apoiado Hillary contra Sanders, violando o seu suposto dever de neutralidade - estou chocado, chocado!) e depois dos de John Podesta, diretor de campanha de Hillary, onde estaria alguma informação indicativa de ligações menos claras entre Hillary e algumas das personalidades e empresas que contribuiam para a sua campanha ou para a sua fundação, e que a revelação dessa informação terá contribuído para virar alguns eleitores, levando à vitória de Trump.

Em primeiro lugar é discutível que a Rússia esteja mesmo por detrás do suposto "hacking" - há fortes razões para pensar que foram mesmo insiders do Partido Democrata (possivelmente pró-Sanders) que passaram os ficheiros à Wikileaks, não nenhum cenário de pirataria informática. Note-se que os relatórios da CIA que atribuem a fuga de informação a hackers russos baseiam-se em "causa provável" ("quem teria a ganhar com isto?"), não em provas tangíveis que teriam sido mesmo eles os autores.

Mas vamos admitir que essa história é verdadeira - portanto o crime (ou a agressão) cometido pelos russos foi exatamente o quê? Divulgar informação que contribuiu para alguns eleitores decidirem em que vão votar? Mas para que é que serve a Voice of America ou a Rádio Free Europe? Também não é para divulgar informações que gerem em que, no estrangeiro, as ouça atitudes mais favoráveis às políticas norte-americanas? Andar a espiar comunicações eletrónicas nos EUA? Mas para que serve a NSA e toda a rede denunciada por Snowden senão para espiar as comunicações eletrónicas por esse mundo fora (e que frequentemente são defendidas com o argumento "se não tens nada a esconder, não tens nada a recear")? Aqui parece-me, a acreditar na versão oficial das coisas, que a grande diferença entre essa suposta espionagem russa e a espionagem que todos os países poderosos fazem foi, em vez de guardarem segredo entre eles sobre o que descobrem, terem divulgado ao mundo o resultado dessa espionagem (nomeadamente às pessoas para quem pelos vistos essa informação seria relevante - os próprios cidadãos norte-americanos, que pelos vistos pelo menos alguns acharam que essa informação era importante para decidirem em quem votar).

[Instituição cultural destinada a divulgar o folclore dos EUA além-fronteiras]


[Versão para adultos das Olimpíadas da Matemática, em que grupos de amigos solucionam problemas com algoritmos matemáticos para ocupar os tempos livres]

Amanhã

O documentário Amanhã (Demain, no original) foi exibido na passada segunda-feira, dia 26 de Dezembro, na RTP1, com início às 21h54m. Pode ainda ser visionado através do RTPplay no prazo duma semana a contar da sua exibição. É um excelente documentário, muito bem construído, que procura informar sobre múltiplas ameaças à humanidade, e em particular aos sistemas sociais e económicos em vigor no designado "mundo desenvolvido", ao mesmo tempo que tenta demonstrar que existem meios para evitar essas ameaças, através da implementação de sistemas políticos, sociais e económicos alternativos.

28/12/16

Podemos. Lutas intestinas.

São já recorrentes os problemas no Podemos entre  Pablo Iglesias e outros dirigentes. Desta vez o "inimigo" é o líder parlamentar, e segunda figura mais destacada do Podemos, Íñigo Errejón, a entrar em colisão com Iglesias. Esta clivagem está a provocar divisões internas e o afastamento de dirigentes numa lógica que enfraquece o projecto politico. Parece que a proximidade do poder faz mal a Iglesias. Ou será que a proximidade do poder apenas permite deixar mais a nu quais são afinal as verdadeiras convicções democráticas do líder do Podemos? Iglesias veio a público demarcar-se de uma campanha que nas redes sociais elegia o seu opositor como alvo.
Parece indiscutível que a lógica do debate democrático e do combate politico está a ser secundarizada pela cultura dos egos. Rajoy pode dormir descansado.

27/12/16

Liberdade, leis e opressão social

Ainda a respeito da polémica desencadeada por Ricardo Araújo Pereira, André Azevedo Alves argumenta no Observador que "[n]os dias que correm, defender a liberdade implica, cada vez mais, resistir à ofensiva do poderoso lobby LGBT. (...) Um bom exemplo desse ódio foram as reacções contra declarações do insuspeito Ricardo Araújo Pereira, em que este se terá queixado da crescente opressão do politicamente correcto nestes domínios".

Mas vamos lá ver - ao que me parece, o RAP não se queixou que fosse proibido (legalmente) fazer piadas a falar de mariconços (ou de coxos), mas sim que haveria um ambiente de pressão social que tornaria impossível ou muito difícil fazer isso. Da mesma maneira, nenhum dos comentadores (dos que eu li) que criticou RAP disse que deveria ser ilegal fazer anedotas que pudessem ser vistas como homofóbicas, apenas que os humoristas deveriam abster-se de o fazer (mesmo a Isabel Moreira, abertamente, foi isso que disse,  apesar das implicações mais ambíguas que se possam ver no texto dela).

Na mesma linha, a maior parte dos comentários feitos no post do Facebook de Miguel Vale de Almeida criticando o artigo de AAA (que AAA recomenda a leitura como ilustração prática da sua tese) são bastante violentos (inclusive dizendo que o Observador não devia publicar aqueles artigos), mas parece-me que só dois ou três falam em fazer queixa às autoridades.

Claro que isso levanta uma questão (que, na minha opinião, deveria ser mais discutida do que tem sido nestas polémicas sobre o "politicamente correto") - até que ponto um ambiente de pressão social generalizada não poderá ser quase tão opressivo como as leis do Estado (ou talvez até mais - afinal, não é raro que quando uma coisa seja proibida por lei mas não seja alvo de sanção social, a lei acabe na prática por ser ignorada: como aquela taxa que nos anos 80 se pagava pela televisão ou conduzir a mais 10 kms que o limite de velocidade; mesmo a proibição do aborto ou do consumo de haxixe - quando eram crimes - andavam perto disso, só ocasionalmente dando origem a processos)?

A respeito disso, Henry David Thoreau escrevia, n'A Vida sem Principio:
Mesmo admitindo que o norte-americano tenha se livrado do tirano político, ele ainda é escravo de um tirano económico e moral (...). Não consideramos este país a terra dos homens livres? Que significa ser livre do poder do rei Jorge e continuar escravo do rei Preconceito ?
Ou John Stuart Mill, em On Liberty:
Like other tyrannies, the tyranny of the majority was at first, and is still vulgarly, held in dread, chiefly as operating through the acts of the public authorities. But reflecting persons perceived that when society is itself the tyrant — society collectively over the separate individuals who compose it — its means of tyrannizing are not restricted to the acts which it may do by the hands of its political functionaries. Society can and does execute its own mandates; and if it issues wrong mandates instead of right, or any mandates at all in things with which it ought not to meddle, it practices a social tyranny more formidable than many kinds of political oppression, since, though not usually upheld by such extreme penalties, it leaves fewer means of escape, penetrating much more deeply into the details of life, and enslaving the soul itself. Protection, therefore, against the tyranny of the magistrate is not enough; there needs protection also against the tyranny of the prevailing opinion and feeling, against the tendency of society to impose, by other means than civil penalties, its own ideas and practices as rules of conduct on those who dissent from them; to fetter the development and, if possible, prevent the formation of any individuality not in harmony with its ways, and compel all characters to fashion themselves upon the model of its own. There is a limit to the legitimate interference of collective opinion with individual independence; and to find that limit, and maintain it against encroachment, is as indispensable to a good condition of human affairs as protection against political despotism.
Mas, a ser assim, acho que temos uma curiosa inversão dos alinhamentos tradicionais: usualmente era a esquerda que dizia que, mesmo que possa haver liberdade legal, o peso das tradições sociais e/ou da dependência económica (p.ex., o risco de ser despedido) pode limitar grandemente essa suposta liberdade (creio que era isso que consistiam as teses da Escola de Frankfurt e afins sobre "personalidade autoritária", "tolerância repressiva", "unidimensionalidade", etc.); já à direita é que era mais frequente dizer-se que desde que o Estado não te proíba, és livre (à partida diria que essa posição vinha acima de tudo dos liberais socialmente conservadores - que pretendem uma combinação de Estado não-intervencionista com uma sociedade em que os "valores tradicionais" sejam predominantes; já entre liberais socialmente "progressistas" - a começar talvez pelo Thoreau e o Mill e a acabar em muitos auto-proclamados "liberais espessos" - é mais comum a ideia de que as convenções sociais também podem ser opressivas; quanto a conservadores não-liberais, penso que não perdem muito tempo a discutir sobre se as convenções sociais são ou não restritivas da liberdade - suponho que o raciocinio deles seja algo "e se forem?"). Mas nas polémicas sobre o "politicamente correto" parece-me ser mais frequente ser a direita (e/ou os conservadores culturais, o que não é exatamente a mesma coisa) a queixar-se da alegada "tirania do politicamente correto" (mesmo, parece-me, em situações em que essa suposta "tirania" não vem do Estado), e cada vez mais se vê a esquerda a argumentar que desde que não haja nenhuma proibição oficial de dizer isto ou aquilo, não há problema nenhum (ou será que é exatamente por isso que esta questão da "pressão social" não é tão discutida como eu acho que deveria ser? Porque nenhum dos lados se sente confortável em evidenciar esta contradição?)

[Já agora, a respeito de aparentes trocas de posição, recomendo o texto Brendan Eich and the New Moral Majority, por William Saleton, na Slate, sobre a demissão mais ou menos forçada de Brendan Eich de CEO da Mozilla, depois de se saber que ele tinha doado dinheiro para uma campanha para abolir o casamento homossexual; o autor afirma que os argumentos usados para pressionar Eich a se demitir foram os mesmos que durante décadas foram usados para justificar o despedimento de homossexuais: "ele não se integra", "os clientes e os outros empregados não se sentem à vontade", etc.]

Agora, acho que há duas questões (pelo menos) que se podem levantar acerca disso:

Primeiro, será possível uma situação em que há censura social mas não restrições legais? Ou será que, a partir do momento em que, numa dada sociedade, um dado comportamento (como a homossexualidade ou a homofobia) é socialmente repudiado, é uma questão de tempo até surgirem leis contra esse comportamento?

Segundo, será possível uma situação sem censura social, ou será que a diminuição da censura social sobre uma coisa está forçosamente ligada a mais censura social sobre outra (isto é, combater a censura social contra X implica praticar censura social contra Z)?

Para explicar melhor o que quero dizer, vamos pensar num exemplo que não corresponda a divisão ideológica no mundo real (para pudermos refletir objetivamente no assunto, sem sermos influenciados por clubismos políticos) - p.ex., usar óculos modelo aviador (ou então, para referir algo que foi realmente atacado há uns meses, cargo shorts - como é que isto se diz em português?).

Vamos imaginar que existia um ambiente de censura social generalizada contra o uso de óculos modelo aviador, que era opinião generalizada, frequentemente repetida em todo o sítio, que eram uns foleiros, que viviam mentalmente no princípio dos anos 80, que eram serial killers em potência, que nos lugares que que é "reservado o direito de admissão" eram impedidos de entrar, que nas entrevistas de emprego quem usasse esses óculos era imediatamente posto de parte, etc. e que era frequente alguém que usasse esses óculos, quando finalmente arranjasse um emprego, ser praticamente obrigado pelas colegas de trabalho (via sessões diárias de "quando é que mudas de óculos?") a mudar de óculos.

Agora vamos imaginar que, finalmente, um grupo de utilizadores desses óculos e de "aliados" decidem que é tempo de contra-atacar - consistindo esse contra ataque em artigos indignados nas redes sociais sempre que alguém escreve ou diz qualquer coisa contra os óculos modelo aviador, boicotes e listas negras contra as empresas que discriminam pessoas por usarem óculos modelo aviador, e provavelmente criando as palavras "oculosdeaviadorofóbico" e "imagengista" para designar os seus adversários (e, já que estamos numa de boicotes, boicotando os meios de comunicação que propagam a oculosdeaviadorofobia).

Face a esse contra-ataque, alguns poderiam queixar-se "já não se pode dizer nada"; mas essa perseguição (e repito que estou falando apenas de perseguição ao nível da sociedade civil, não de leis) aos oculosdeaviadorofóbicos teria por objetivo, exatamente, contrariar uma situação em que "já não se pode usar os óculos de que se gosta".

O Estado Controlador


A quarta edição da revista do colectivo ROAR foi recentemente publicada. Dedicada ao crescente reforço do autoritarismo exercido pelo Estado, bem como às formas de resistência que se lhe opôem, "State of Control", inclui os artigos:

Managing Disorder, Jerome Roos
Authoritarian Neoliberalism and the Myth of Free Markets, Ian Bruff
The Concept of the Wall, Elliot Sperber
The Drone Assassination Assault on Democracy, Laurie Calhoun
The New Merchants of Death, Jeremy Kuzmarov
The Dog-Whistle Racism of the Neoliberal State, Adam Elliot-Cooper
Mass Surveillance and “Smart Totalitarianism”, Chris Spannos
Algorithmic Control and the Revolution of Desire, Alfie Bown
Neoliberalism’s Crumbling Democratic Façade, Joris Leverink
Black Awakening, Class Rebellion, Keeanga-Yamahtta Taylor and George Ciccariello-Maher

Neste momento já estão disponíveis online 2 artigos. Os restantes serão disponibilizados ao longo das próximas semanas.

25/12/16

Uma pontada de radicalismo natalício?

O cardeal Patriarca veio chamar a atenção do seu povo para as condições do acesso à habitação. Mas, mais do que um simples alerta, o cardeal defendeu a necessidade de uma verdadeira politica de habitação. Que outro sentido poderemos atribuir à declaração de que são necessárias politicas consequentes que garantam habitação para todos?
O senhor cardeal patriarca saberá as razões porque fez este apelo e neste tom. Bastar-lhe-ia apelar ao cumprimento da Constituição, ao cumprimento do desgraçado e ignorado artigo 65º. Mas, saberá ele, melhor do que muitos, que a Constituição existe, infelizmente, para ser muitas vezes violada e ignorada e, no caso específico do direito à habitação, para ser desde quase sempre tratada como letra morta. Ou talvez optar por  pedir uma Lei de Bases da Habitação, que parece estar a entrar na ordem do dia. Coisa para demorar anos e não aborrecer ninguém assim de imediato.
Podemos talvez admitir que este apelo poderá ser entendido como uma cedência do cardeal a uma visão radical do papel do Estado na economia e do Estado como garante do respeito pelos direitos humanos - urbanos e sociais  - dos cidadãos. Uma pontada de radicalismo natalício.
Talvez não seja bem assim. Talvez o apelo se destine a conquistar um conjunto alargado de boas vontades, que todas juntas, daqui para a frente, possam ajudar a melhorar a situação dos que não tem habitação. No Natal há sempre apelos destes, a propósito disto e daquilo, e mesmo sem que pareça existir algum pretexto que os justifique.
Bom, mas o Cardeal disse o que disse e como falou de politicas, será caso para dizer que falou no tom acertado, já que isto não vai com boas vontades e espírito natalício, necessita de politicas e da intervenção do Estado.
Há uma correlação evidente entre a pobreza e o acesso à habitação, sobretudo em sociedades como a portuguesa, marcada por um liberalismo radical no que se refere às politicas sociais. Sobretudo os jovens e os mais idosos são vitimas violentas dessa correlação. Apesar das mudanças politicas verificadas recentemente  os anos da Troika aumentaram muito a desigualdade e fizeram muitos milhares ficarem sem casa. Há hoje  mais gente a viver em condições degradantes de habitação, se compararmos com o que se passava em 2011. Muitas casas vazias e muitos milhares de famílias sem casa. Mas isso só saberemos no Censo de 2021. Temos tempo.
O cardeal fala, por isso, com o sentido da urgência e terá informação sobre a dimensão real do problema. A pobreza é uma situação muito instável, agrava-se de forma muito repentina. Infelizmente atenuá-la exige muito mais meios e vontades, sobretudo vontade politica, e leva mais tempo.
A politica que tem sido seguida em Portugal e em parte considerável da União Europeia - embora aí existam substanciais diferenças entre países, normalmente não reconhecidas - é contrária ao apelo que D.Manuel Clemente faz. Assumiu-se desde  meados dos anos oitenta - com o advento do neoliberalismo - que o Mercado resolvia o problema do direito à habitação e que o Estado devia não só afastar-se de qualquer iniciativa nesse sentido, como poupar o dinheiro que nessa politica social quisesse investir.
O Mercado - quer dizer os promotores e a banca e os especuladores financeiros - iria tratar do problema e no final - no famigerado longo prazo que, como sabemos desde Keynes, nunca chega -  todos seriam não só proprietários das suas casas, como muito mais prósperos e felizes. Viveríamos todos melhor.
As coisas não se passaram assim. Mas para perceber como esta mudança na intervenção do Estado foi defendida utilizando até a  terminologia dos que são a favor de maior justiça social e espacial, nada melhor do que recorrer a um pequeno excerto de um texto de David Harvey, publicado no seu livro de 2012, "Rebel Cities", mais exactamente no capítulo cujo título é " The Urban Roots of Capitalist Crisis". Cheira-me que o senhor Cardeal iria gostar de o ler.

 "(...)Since the mid 1980´s, neoliberal urban policy (applied, for example, across the European Union) concluded that redistributing wealth to less advantaged neighborhoods, cities and regions was futile, and that resources should instead be channeled to dynamic “entrepreneurial” growth poles.(...)"


(Desde meados dos anos 80, a política urbana neoliberal (aplicada, por exemplo, em toda a União Europeia) concluiu que a redistribuição da riqueza em bairros, cidades e regiões menos favorecidas era fútil e que os recursos deveriam alternativamente ser canalizados para pólos de crescimento dinâmicos  e "empreendedores")



 "(...(A spatial version of “trickle-down” would then, in the proverbial long run (which never comes), take care of all those pesky regional, spatial and urban inequalities. Turning the city over to the developers and speculative financiers redounds to the benefit of all.(...)"

(Uma versão espacial do "trickle-down" deveria, então, no proverbial longo prazo (que nunca chega), cuidar de todas essas desagradáveis desigualdades regionais, espaciais e urbanas. Entregar a cidade aos promotores e especuladores financeiros reverte em benefício de todos).

23/12/16

A liberdade de expressão é de esquerda?

A Isabel Moreira e a Maria João Marques parecem concordar que a liberdade de expressão não é de esquerda.

Será verdade (e deixando de lado a peculiar definição, ou de "liberdade", ou de "autocontenção" da Isabel Moreira)?

Em Portugal não sei se há estudos sobre o assunto, mas a respeito dos EUA, onde essas questões são regularmente estudadas (através de inquéritos como o General Social Survey), parece que os inquiridos que se declaram "liberals" são sistematicamente mais pró-liberdade expressão (medida desta maneira - não defenderem que nenhum destes livros sejam excluidos duma biblioteca pública ou escolar: um livro de um religioso muçulmano atacando os EUA, um livro defendendo a implantação de uma ditadura militar, um livro a favor da homossexualidade, um livro contra a religião e um livro dizendo que os negros são inferiores) do que os que se declaram "conservatives"):

22/12/16

O Google e o Holocausto

Na ultima semana, eclodiu uma espécie de micro-escândalo porque clicar no Google "Did the Holocaut Happen" dava uma lista de links que tinha em primeiro lugar um link para um site neo-nazi dizendo que o Holocausto não tinha existido (digo "micro" porque ninguém ligou a isso, mas os que ligaram trataram o assunto como um escândalo).

Num site português que deu azo ao tal "escândalo" até vieram com uma conversa um bocado absurda a queixar-se de que a primeira resposta que o Google dava à pergunta "Did the Holocaut Happen" era um link negando o Holocausto. Eu digo que a conversa é absurda por uma razão - o Google não é o Quora, ou a secção de perguntas do Yahoo; o Google não dá "resposta" a perguntas - o Google é um motor de busca, que indica sites que contenham as palavras indicadas no campo de pesquisa; se o tal site neo-nazi tem efetivamente as palavras pesquisados, os resultados do Google são exatamente o que o utilizador estava a pedir - sites com as palavras "Did", "the", "Holocaust" e "Happen" (talvez o utilizador não tenha consciência do que está a pedir, e julgue que está a obter a resposta a uma pergunta - a mania que noto que alguns utilizadores têm de preencher o campo de pesquisa com uma pergunta formulada em "linguagem natural" levanta efetivamente essa suspeita - mas os utilizadores também têm que ter um mínimo de noção do que estão a fazer - se alguém vai a uma loja de ferramentas comprar pastéis de nata...).

Entretanto, parece que o Google fez qualquer coisa para que esse site deixasse de aparecer em primeiro; para as pessoas que se calhar estejam contentes com isso, pensem nas implicações: quanto mais a ordem dos resultados nas buscas do Google derivar de decisões humanas (vamos por este site para cima, vamos por aquele para baixo...) e menos de um algoritmo matemático funcionando automaticamente, mais poder tem que controle o Google para controlar aquilo que nós lemos ou deixamos de ler.

É verdade que se pode argumentar que o Google já tem esse poder - afinal, nenhum de nós sabe verdadeiramente se o motor de busca realmente segue o tal algoritmo (que é, creio, parcialmente secreto), pelo que já podem estar perfeitamente a dar-nos resultados pré-fabricados às pesquisas que fazemos, nomeadamente sobre assuntos que possam ser considerados sensíveis. Mas creio o Google começar a fazer isso abertamente em certos casos aumenta a possibilidade de uma manipulação generalizada - quando a manipulação é secreta, há sempre um certo cuidado de se evitar que se saiba (inclusive por via de whistleblowers), e portanto uma tendência para a fazer em dose reduzida; a partir do momento em que se admite que há uma ponderação humana na ordenação dos resultados, essa barreira psicológica, chamemos-lhe assim, desaparece.

Já agora, uma coisa que já há muito me irrita no Google: quando eu faço uma pesquisa sobre, digamos, AAAA, BBBB e CCCC, e aparecem-me entre os resultados links que referem só AAAA e CCCC (indicado que BBBB não é referido nesse site), obrigando-me a por BBBB entre aspas para ter mesmo só resultados em que BBBB apareça - vamos lá ver, se eu pesquisei pelas três palavras, é porque quero resultados com essas três palavras, não é? Não têm que me dar resultados só com duas e obrigarem-me a truques para ter os resultados que quero.

19/12/16

O Colégio Eleitoral norte-americano

Hoje o Colégio Eleitoral eleito a 8 de novembro provavelmente (isto é, com para aí 99,999% de probabilidade) irá eleger Donald Trump presidente dos EUA.

Os Democratas poderiam aproveitar para atacar a instituição do Colégio Eleitoral, referir que foi criado com o objetivo explicito de retirar poder ao povo e dá-lo a elites, que historicamente tem sempre beneficiado os Republicanos, e relembrar os "anti-federalistas" que diziam que reduzir os "direitos sagrados" da humanidade ao de serem "eleitores de eleitores" era abrir caminho para o presidente se tornar um ditador.

Em vez disso, preferem (bem, pelo menos alguns) fazer o contrário - elogiar o papel do Colégio Eleitoral como protetor da República contra "demagogos", elogiar a "sabedoria" dos "fundadores" (a começar pelo arqui-reacionário Alexander Hamilton, o inventor do Colégio Eleitoral, e que, entre outras coisas, também queria que o presidente fosse vitalício), dizer que é exatamente para anular o voto dos eleitores que o Colégio existe, e criticar Trump, não por não ter sido eleito democraticamente, mas com argumentos puramente pessoais (de que não é "qualificado" para ser presidente) ou McCarthystas (de que terá tido apoio dos russos).

Não que eu discorde de uma campanha para pressionar o Colégio Eleitoral a dar a vitória a Hillary (embora ache que faria mais sentido se não fosse uma oposição ao Colégio descoberta só no dia 9 de novembro de manhã) - discordo é dos argumentos, que deviam ser ao contrário do que são: em vez de "o Colégio Eleitoral tem a responsabilidade de impedir um demagogo não qualificado de subir ao poder; foi para isso que os Fundadores o criaram" deveria ser "o Colégio Eleitoral não deveria existir e provavelmente nunca seria criado se os Fundadores soubessem como iria funcionar; portanto o melhor que têm a fazer é, enquanto não se acaba com essa instituição dos tempos da escravatura, vocês fazerem de conta que não existem e darem automaticamente a presidência à candidata que o povo preferiu para a presidência".

Mas alguns Democratas parecem empenhados em dar razão ao slogan Republicano dos "liberais elitistas que desprezam as pessoas comuns"...

Nota - antes que alguém me venha dizer que Portugal também é governado por quem ficou em segundo lugar nas eleições, recordo que o governo teve - nas moções sobre o programa  de governo e nos orçamentos - o voto favorável de partidos que representam a maioria do eleitorado português; fazendo uma analogia com as presidenciais norte-americanas, seria como se Trump fosse eleito numa segunda volta (ou num Colégio Eleitoral em que os "grandes eleitores" fossem distribuidos proporcionalmente pelas várias candidaturas) com o apoio dos outros candidatos da direita (Gary Johnson, Ewan McMullin e Darrel Castle), ou pelo menos dos seus eleitores. Até era possível que isso acontecesse se os EUA tivessem um sistema de eleição direta a duas voltas, mas não foi o que aconteceu, logo comparações com o caso português são descabidas.

Stiglitz sobre as propostas de Trump. Da grande mentira nazi à economia voodoo.

Foi hoje publicado no The Guardian um artigo de Joseph Stiglitz sobre aquilo que poderá ser a governação de Trump.
O artigo, como todos os do autor, dispensa explicações, mas tem o mérito suplementar de não ignorar o contexto em que a vitória de Trump aconteceu e de ser suficientemente pormenorizado na análise de algumas medidas que, entretanto, já foram  propagandeadas como exemplos de que "Trump cumpre as promessas que fez".
Em primeiro lugar Trump não ganhou as eleições. Recebeu menos 2,8 milhões de votos do que Hillary. É o segundo Presidente Republicano que beneficia do sistema eleitoral americano para, contra a vontade maioritária da população, ascender à presidência. A economia que Trump recebe, como Stiglitz esclarece, é uma economia muito melhor  do que a que Obama recebeu de Bush. Um desemprego inferior a 5% e uma taxa de crescimento superior a 3,2%, algo que não fornece o quadro social que o voto em Trump representaria, a fazer fé mesmo nalguma esquerda.
As politicas sociais que Obama pretendeu implementar - e o actual presidente ficou muito aquém do que prometeu, sobretudo na forma como não foi capaz de enfrentar a desigualdade crescente - foram sistematicamente barradas pelos republicanos. Trump beneficia do mal que ajudou a semear, através dos seus apoiantes republicanos.
No que se refere às politicas que visam impedir a deslocalização das empresas e por essa via anular os efeitos da globalização, Trump coleciona já uma vitória .... nos média. O caso da Carrier, empresa que fabrica aquecedores e aparelhos de ar-condicionado, que recuou na intenção de se deslocalizar garantindo a manutenção de 800 postos de trabalho. O telejornal da RTP1 exibiu esta acção como o tipo de politicas que ajuda a perceber o voto dos americanos. Stiglitz explica que esta acção de Trump irá ser financiada com 7 milhões de euros dos  impostos dos americanos e que a Carrier ira, apesar disso ,deslocalizar 1300 postos de trabalho para o México.
Stiglitz compara o programa de Trump a economia voodoo, já que pretende investir em infraestruturas, baixar os impostos e reduzir o défice. O problema de Trump é que na sua vida empresarial acumularam-se as falências e os projectos falhados. Desses falhanços poucas consequências lhe advieram, mercê de uma invulgar capacidade para fugir aos fisco e para aligeirar responsabilidades. Mas, nesta altura, a "empresa" é a América, e os americanos são os seus accionistas. Mais cedo do que tarde os seus eleitores do Rust Belt perceberão o logro em que cairam. Afinal Trump, como refere Stiglitz,  limitou-se a recorrer a técnicas propagandísticas que seem worthy of Nazi Germany’s “big lie” propagandists. 
Pois foi.

18/12/16

Isabel Moreira e liberdade de expressão

Isabel Moreira, no Expresso, escreve algo que penso ter a ver com a polémica que surgiu com o Ricardo Araújo Pereira.

Em primeiro lugar, aquela conversa de que "a direita tem no seu património a liberdade como valor absoluto ou, de certeza, como valor que se sobrepõe aos demais, como o da igualdade" parece-me um disparate (e já o achava quando nas aulas de filosofia do 11º ano discutíamos com o nosso professor qual era a diferença entre a esquerda e a direita e a questão da igualdade vs. liberdade) - desde quando Bonald, De Maistre, Maurras, Dostoievski, Bismarck, Le Play, Donoso Cortés, etc., etc. (incluindo nomes que Isabel Moreira até conhecerá melhor que eu) alguma vez defenderam a liberdade como valor absoluto (ou mesmo não-absoluto)? E nem sequer é uma questão de poder haver exceções - os políticos e pensadores que referi foram largamente o mainstream da direita da Europa continental, durante muito tempo, o liberalismo é que é a exceção. Mesmo no mundo anglo-saxónico, em que a direita é supostamente mais "liberal", não penso que digamos, um Alexander Hamilton, um Coleridge, um Thomas Carlyle, um cardeal Newman, um Disraeli, um T.S. Eliot, etc. etc. fossem particularmente "liberais".

É verdade que, sobretudo a partir dos anos 80 do século XX, o discurso liberal começou a ser bastante popular à direita (ainda que frequentemente apenas nas matérias económicas), mas se tem havido algo claro nos últimos anos tem sido uma ressureição de uma direita claramente anti-liberal (veja-se Donald Trump nos EUA, o Fidesz na Hungria, a Lei e Justiça na Polónia... mesmo Theresa May no Reino Unido pode ser vista como uma versão soft dessa vaga), remetendo o liberalismo de volta ao que talvez seja a sua insignificância natural.

Mas após este aparte, vamos ao meu ponto principal:
Se achas mesmo que a liberdade de expressão não deve ter limites e que não devemos ceder à autocontenção do discurso, és de direita, sabias?

Tens todo o direito a isso. Só não te apresentes como pertencendo a um campo ideológico incompatível com o que dizes (sem freios), pode ser?
O problema de todo este ponto é que, aqui Isabel Moreira, apesar de tudo, parece aceitar a ideia de que autocontenção significa reduzir a liberdade de expressão (o que, aliás, parecia recusar no parágrafo anterior - "Quando decido não perpetuar anedotas sobre deficientes, quando decido parar a cadeia histórica de repetição das palavras que são a tradução dos insultos dirigidos às mulheres ou aos homossexuais, estou a exercer a minha liberdade de expressão negativa, estou a escolher – e aí reside a grandeza da minha liberdade – não contribuir pela linguagem para a desigualdade e para a discriminação.") - ora, é tão liberdade de expressão alguém contar anedotas sobre deficientes como decidir não as contar, e no caso de as decidir contar, também é liberdade de expressão se toda a gente lhe cair em cima a insultá-lo nas "redes sociais".  Ou seja, em vez de discutir esta questão em termos de liberdade de expressão, em muitos aspetos ela seria melhor discutida em termos de "tu tens a tua liberdade de expressão, e eu tenha também a minha".

16/12/16

Sondagens. Crónica de um destino anunciado

O PS reforça paulatinamente a sua influência e aproxima-se da maioria absoluta. Ainda há por aí muita gente que defende que será impossível chegar a esse resultado. Não é, e não vai ser. Está à vista de toda a gente que é o PS que está a capitalizar a maioria dos votos que se devem aos benefícios que os portugueses atribuem ao "governo da geringonça". Não podia ser de outra maneira. Quanto melhor for o resultado obtido pela governação tanto melhor será o resultado do PS e tão mais pequeno será o resultado que juntos PCP e BE somarão.Tal como dois corpos não ocuparão o mesmo espaço ao mesmo tempo, uma pessoa não poderá votar em dois partidos ao mesmo tempo.  Isto podia ser diferente? Podia, caso esses partidos tivessem optado por participar na governação assumindo que as suas posições relativamente à Europa não é impeditiva de o fazer. Neste caso a posição do PCP é compreensível, tão militante tem sido a sua posição relativamente ao projecto europeu e ao euro. Mas, radica nesta posição, o seu progressivo isolamento e a sua perda de influência eleitoral e politica. Que leva tempo mas parece marcada pela inexorabilidade. Infelizmente. No caso do BE tratou-se apenas de uma clara divergência entre a liderança politica e o seu eleitorado. Não foi a primeira vez nem será a última. O BE é no essencial um partido parlamentar e aquilo que se decide nos gabinetes do parlamento é que conta, e aquilo que algumas pessoas possam pensar pelo país fora é uma irrelevância. Infelizmente.
Paradoxalmente esta experiência de governação apoiada pelas esquerdas transforma-se num instrumento que parece representar uma segunda vida para os partidos que, por força do seu comprometimento com a austeridade, estavam a correr o risco de se desintegrarem, como aconteceu e acontece com os partidos socialistas europeus.
Não participar no Governo, ser incapaz de ter um maior peso na definição das politicas do dia a dia, na gestão do quadro comunitário, ser incapaz de mostrar capacidade para exercer a governação nas diversas áreas, conduz inevitavelmente à perda de influência porque traduz uma falta de influência nada proporcional  ao peso eleitoral obtido.
Há um dado novo que jogará a favor do PS. As autárquicas. Contrariamente ao que os comentadores do mainstream estão nesta altura a verbalizar, a história desta vez não será como habitualmente. O PS irá experimentar uma importante vitória nas autárquicas. Porquê? Porque as pessoas estão satisfeitas com a governação e porque desta vez não há razões para penalizar o partido do governo. O PS irá reforçar a sua liderança da Associação dos Municípios, ganhará as principais cidades incluindo Lisboa e Porto, por interposto independente, contando com o apoio do CDS e tudo.
O PS sairá das autárquicas reforçado,  com um PSD esfrangalhado, um CDS pequenino qb e um PCP confinado ao seu universo regional. O BE mais uma vez mostrará que não está virado para essas andanças, sentindo-se mais confortável nos gabinetes de S.Bento.
Dito isto o que irá acontecer à politica do Governo? Irá manter um delicado compromisso entre a sua obediência à Europa e q vontade de aligeirar a pressão sobre os mais desfavorecidos. Irá continuar a cobrar internamente os sacríficios  que a cegueira europeia nos impõe e, caso isso obrigue a dispensar os parceiros, fa-lo-á sem qualquer remorso. Irá continuar a diminuir o investimento público e a canalizar cada vez mais recursos para pagar o serviço da divida. O dinheiro não é elástico, trata-se de um recurso finito e a nossa economia é cronicamente deficitária.  Até que as condições externas se alterem correrá tudo bem. Os portugueses recuperarão parte do rendimento que lhes foi sacado pela Troika e viverão ligeiramente melhor. Na próxima crise recuarão para níveis de décadas atrás. A dinâmica instalada na sciedade portuguesa é esta. Quem está no Governo, se quiser, dificilmente poderá alterar o seu curso mas estando fora ficar-se-á pela retórica.





13/12/16

Habitação. Agora Sim.

A coroar este conjunto de pequenos posts sobre a Habitação e completando um pequeno "tríptico digital" nada melhor do que o "Movimento Perpétuo" dos Deolinda. Trata-se afinal do perpétuo movimento que deixa tudo na mesma.


Habitação. Sai uma Lei de Bases.

A entrevista da relatora da ONU arrastou uma outra noticia relacionada com a habitação. Vai ser elaborada uma Lei de Bases da Habitação. Quem o assegura é a deputada Helena Roseta, que segundo o jornal está a preparar a Lei.
Portugal aprovou em 2014 a  nova Lei de Bases Gerais da Politica Pública de Solos, do Ordenamento do Território e do Urbanismo. Aprovou depois disso o novo Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial. A habitação é um tema omisso em todos eles, particularmente na Lei de Bases Gerais. Optou-se por deixar ao Mercado aquilo que é do Mercado, a hábil e lucrativa gestão do negócio. Atribui-se à Politica aquilo que, pelos vistos, é da Política: nada, apenas retórica.
Tratou-se de uma opção politica. A menos que estas questões sejam técnicas ou cientificas, como alguns pensam e nos querem fazer crer.
Elaborar uma Lei de Bases é optar por dois caminhos convergentes na manutenção das mesmas injustiças social e  espacial (que resulta da oferta de habitação aos mais desfavorecidos ser segregada): adiar a resolução do problema da habitação por alguns anos e insistir na trágica separação entre habitação e urbanismo.

A Habitação. Um desastre politico e social no Portugal de Abril.

É sempre bom que venha alguém de fora, ainda mais sendo da ONU, dizer-nos que cá dentro o rei vai nu. O tema "direito à habitação" ganha assim algum espaço nas noticias. O rei do direito à habitação vai nu e tresanda a falta de respeito pelos direitos humanos e sociais dos cidadãos.
Não há uma politica de habitação de esquerda nem uma politica de habitação de direita. Em Portugal há uma única politica de habitação e tem apenas três parágrafos:

1º - O Estado demite-se de promover e aplicar qualquer politica de habitação, delegando no Mercado a sua concepção e concretização.

2º - Face ao sucesso alcançado pelo Mercado o Estado revoga o artº 65º da Constituição da República Portuguesa.

3º -  O Estado não apoia  a promoção de habitação social ou outra forma de affordable housing já que o Mercado garantiu a todos os cidadãos o acesso em posse plena com um outro patamar de qualidade.

Esta politica tem sido seguida por sucessivos Governos e adoptada pelas diferentes autarquias independentemente da sua filiação partidária.
Este é um dos maiores embustes políticos da história da democracia. 

10/12/16

UBER: regresso às condições de trabalho da época vitoriana.

Trabalho suado, é a designação que os ingleses atribuem às condições de trabalho do período vitoriano. Nesse período os trabalhadores não ganhavam o  suficiente para se sustentarem e às suas famílias,  e eram obrigados a trabalharem incessantemente, colocando em risco a  sua saúde e as suas vidas. Trabalho escravo, mais coisa menos coisa. Foi assim que as condições de trabalho dos motoristas da UBER foi mais uma vez descrita na Inglaterra.

08/12/16

I Daniel Blake. Abatido pelo Estado. Obrigada a prostituir-se pelo Estado.


I Daniel Blake de Ken Loach é um filme extraordinário sobre a vida das pessoas comuns - das  que um dia necessitam do apoio da sociedade -  tal como ela é vivida no mundo ocidental, nas sociedades prósperas. É um filme tocante, violento, de uma enorme humanidade, desesperado, optimista, mas sobretudo é um filme digno, marcado pela dignidade da vida daqueles com cujo sofrimento nos confronta. Sofrimento imposto pelo Estado, pelo chamado Estado Social, pela Segurança Social pública, ou por quem actua, implacavelmente, em seu nome.

Não me recordo de ter visto algo de parecido com este filme. Ken Loach coloca-nos a acompanhar a vida de Daniel Blake - um marceneiro de 59 anos que sofreu um ataque cardíaco e que os médicos consideram incapaz para retomar o trabalho - e Katie, uma mãe solteira e desempregada,  com dois filhos pequenos, que foi despejada da casa que habitava em Londres e que foi relocalizada em Newcastle, numa habitação social, num contexto social que desconhece, longe da escola que era a dos filhos, dos amigos dos filhos, dos seus amigos. Longe. Despejada como algo que é descartável que não tem valor algum, cuja vida pode ser completamente riscada.

Loach raramente afasta a objectiva do corpo dos protagonistas. O centro de tudo é a vida do dia a dia, de todas as horas, de todos os minutos, destas pessoas que estão fragilizadas e  necessitadas do apoio do Estado. Trata-se da relação do cidadão doente, ou desempregado, sem meios de sustento para si e para os seus filhos pequenos, ou de tudo isso, com o Estado que o deve apoiar e o hostiliza, o repudia. Dispensa outros enquadramentos e outros contextos. Não há lugar para futilidades.
O filme mostra-nos, através da vida destas pessoas, a forma como o sistema social britânico as agride e como os direitos das pessoas são cruelmente negados numa base diária e sistemática, sem qualquer pinga de humanidade. Mostra-nos a crueldade do atendimento nos serviços ditos de apoio da segurança social, que rivalizam com o carácter igualmente cruel, mas mecânico e irracional, do atendimento online, aquilo que por cá se chama Segurança Social Directa. Uma voz que Loach filma sobre um fundo negro, a mesma cor de que se vai preenchendo a vida destas pessoas. Serviços  privatizados e com um peso decisivo na atribuição ou não de pensões de invalidez e outro tipo de apoios, incluindo a manutenção do subsídio de desemprego.  Como nos mostra uma das cenas qualquer resquício de humanidade por parte de um funcionário é severamente reprimido. "Não podemos abrir excepções", é a regra que nos é então recordada. Nenhuma piedade, nenhum sentimento será tolerado, parece ser a regra. Os principios do neoliberalismo, enunciados por Nozick,  aplicados à vida de cada um, ao seu dia a dia.

Através deste filme o realizador britânico denuncia a desigualdade extrema que caracteriza actualmente a sociedade inglesa e europeia. Através da história destas duas personagens que se cruzam, ele coloca-nos perante duas das politicas públicas em que o Estado  traiu a confiança que os cidadãos nele depositaram e viola implacavelmente os direitos básicos, os direitos humanos dos mais necessitados. A Segurança Social e a Habitação.  A forma como essa desigualdade toca violentamente as pessoas e os seus direitos,  negando-lhes  até a comida para os seus filhos. A humilhação dos mais pobres, dos mais carenciados, parece ser o único objectivo deste sistema que ostenta na lapela os rótulos de "social" e de "público".  Quem quiser sobreviver é forçado a fazer de tudo: vender os haveres, viver sem luz, sem aquecimento, viver na rua, deixar de comer -ou recorrer ao banco alimentar, engrossando as suas longas filas -, prostituir-se e finalmente sucumbir.
Daniel Blake morreu de um novo ataque cardíaco, nas instalações da Segurança Social, quando esperava para  ser novamente submetido a uma avaliação dos técnicos, ditos sociais, para obter a pensão a que tinha direito e que lhe continuavam a negar. Foi abatido pelo Estado. Katie prostituiu-se para poder comprar comida para os filhos. O Estado a isso a obrigou.

Um filme notável, que deveria ser visto por todos os nossos políticos e deputados . Para conhecerem um pouco da vida das pessoas e para saberem que a governação não se organiza à  volta de números e de estatísticas, e que é da vida das pessoas que ela deveria tratar. Da vida das pessoas aqui e agora e não com o alibi do futuro que justifica e legitima todas as atrocidades do presente.
Tony Blair, Gordon Brown e David Cameron - depois de Teatcher - construíram esta Inglaterra que Loach nos mostra e que denuncia.
E por cá como estão a funcionar as coisas? Como são tratadas os nossos Daniel Blake e as nossas Katie, e os seus filhos,que por cá também existem aos milhares? Não temos por cá nenhum Ken Loach, isso é um facto.

Eis um bom debate a levar a cabo pela geringonça. Mais útil que os famosos grupos de trabalho. Como funciona a nossa segurança social? Como está o seu grau de desumanização?
Não é verdade que a modernização da máquina da Segurança Social foi inspirada no modelo britânico, no famoso modelo de Tony Blair? Tem muitas semelhanças isso é um facto que apenas do lado dos poderosos não é visível.

Adenda: O filme de Ken Loach ganhou o prémio de melhor filme britânico do ano atribuído pelo Evening Standard. Trata-se do prémio de maior prestigio do cinema britânico.


07/12/16

"Autonomia"

Nesta resposta de Alexandre Homem Cristo a Nuno Serra a respeito dos testes PISA reparei numa coisa; não tem nada ou quase nada a ver com o cerne da polémica, mas despertou-se a atenção; é a lista de reformas que AHC elenca, feitas por Nuno Crato: "Fez agregações de escolas, (...) procurou aumentar a autonomia de decisão nas escolas"...

Isto fez-me lembrar este meu post de janeiro de 2015.

03/12/16

A escolha de Macedo. Sinal dos tempos.

A escolha de Paulo Macedo para presidente da CGD é um claro sinal dos tempos. Basta dar uma vista de olhos pela imprensa e verificar o contentamento que esta decisão de Costa suscita na generalidade dos comentadores e actores partidários, com excepção do PCP.
Paulo Macedo é o homem que nunca falha dizem uns, enquanto outros acham que ele é apenas o homem que recebe a Caixa com 3000 milhões de prejuízo, ignorando a recapitalização já negociada com Bruxelas, e preparando mais um feito para o seu currículo de grande gestor. Outros, caso do BE, optam por olhar em frente e apontar ao futuro.
Macedo nunca deveria ter sido escolhido. São várias as razões:
1º - Macedo é um dos rostos da politica austeritária que entre 2011 e 2015 ajudou a destruir o imberbe Estado Social e a conduzir o país para a situação que a maioria dos portugueses rejeitou nas urnas:
2º - Macedo, nesse Governo, assumiu a pasta da saúde e foi o primeiro responsável pela grau de destruição do SNS durante esse período. O homem que não falha foi implacável a cortar o acesso e a retirar direitos aos mais frágeis, aos mais desprotegidos. O episódio na Assembleia da República em que um doente com hepatite C reclamou a ajuda a que tinha direito e a humanidade perdida - há muito - ao ministro Paulo Macedo, deveriam, por si só, impedir a sua nomeação por um governo de esquerda;
3º - Macedo foi, antes disso, Director Geral das Finanças, nomeado pela direita, e nesse cargo aumentou a capacidade de cobrança de receita fiscal pela máquina da AT. Mas, através dos mecanismos do "pague primeiro reclame depois" aumentou, em muito, as injustiças associadas à actividade da AT. Uma máquina frágil com os poderosos - apoiados por bons advogados - e implacável com o cidadão comum e com as pequenas e médias empresas. Medidas tomadas por este Governo visaram exactamente anular alguns efeitos mais devastadores dessas decisões. A penhora da casa própria entre outras:
4º - Macedo é um clássico gestor de direita. Um homem que pelas suas convicções politicas e pela sua carreira de gestor privado está nas antipodas daquilo que era suposto este Governo pretender para a Caixa: Um banco público com um projecto de apoio à economia que rompa com a lógica das últimas décadas. Ora da sua carreira no BCP nunca se entendeu ter Paulo Macedo tomado alguma posição que divergisse da orientação tomada pelo Banco - que o levou à bancarrota e à irrelevância - e pela generalidade da banca portuguesa, CGD inclusivé.
5º - Paulo Macedo não tem dificuldades em encontrar quem lhe pague os elevados salários a que ele  entenderá ter direito. O que choca qualquer contribuinte é que ele encontre no Estado e no Governo da geringonça quem lhe pague mais do que alguma vez ganhou no privado.
Para fazer o quê à Caixa Geral de Depósitos?
António Costa faz uma opção ao centro, piscando o olho a um futuro entendimento com um PSD pós Passos, com Marcelo na galeria a aplaudir e Rui Rio a preparar-se para tomar o lugar do homem de Massamá.  A ala direita socialista, anti-geringonça, rejubila e aplaude a mãos ambas. Afinal Costa mantêm-se fiel ao centro, dizem eles. Afinal, no essencial da economia, o governo não renega o modus operandi das últimas décadas.
O BE e o PCP guetizados num limiar de votos cada vez mais baixo e numa disparatada guerra "fraticida", reagem de maneira diferente. O PCP discorda frontalmente. Pelas razões óbvias. O BE, exausto  da sua luta parlamentar contra a monarquia  espanhola, opta por um "nem sim nem sopas". Por este andar a curto prazo o PS não precisará deles para governar e os famosos grupos de trabalho poderão mesmo ser totalmente desactivados.


28/11/16

As alegações de fraude eleitoral nos EUA

Há dias escrevia que "os Democratas - e ainda mais a quase inexistente esquerda - tendem a preocupar-se sobretudo com variantes da fraude eleitoral clássica, feita pelos organizadores da eleição, enquanto os Republicanos preocupam-se mais com fraudes feitas pelos próprios votantes".

As atuais alegações múltiplas de frade, com Jill Stein, a candidata dos Verdes e com a aparente colaboração dos Democratas, a alegar que pode ter havido fraude nas máquinas de voto eletrónico e Donald Trump a dizer que milhões de pessoas votaram ilegalmente, parece cumprir o padrão.

Guerrilha e autoritarismo

Uma questão que casos como Cuba ou a Eritreia me fazem pensar é se a guerra de guerrilha (em detrimento, p.ex., do "levantamento popular de massas") não será uma forma de revolução particularmente propícia a gerar regimes autoritários. Isto é, por mais "estar entre o povo como o peixe na água" que os guerrilheiros sejam, a guerra de guerrilha assenta, quase por definição, na ideia de uma minoria ativista agindo separadamente da massa da população, usualmente de forma clandestina e muitas vezes refugiando-se em zonas pouco povoadas. É verdade que é difícil os guerrilheiros ganharem sem apoio popular, mas isso apenas requer um apoio pouco mais que passivo (não os denunciarem às autoridades, alimentá-los, etc.), sem o grau de participação direta que implica, p.ex., uma greve geral com barricadas na rua.

Aliás, suspeito que parte da razão porque a revolução nicaraguense de 1979 conseguiu, apesar de tudo, manter-se num quadro formalmente democrático (com partidos e imprensa oposicionista, eleições competitivas, várias centrais sindicais, etc.) foi por, nos últimos meses do regime de Somoza, a guerra de guerrilha ter sido complementada por uma quase insurreição urbana, com uma greve geral, motins nas ruas, etc. (note-se que a frente sandinista chegou a ter uma cisão durante os anos 70 largamente sobre isso, com a facção "Guerra Popular Prolongada" a defender a estratégia clássica da guerrilha, e com as facções "Tendência Proletária" e "Tendência Insurrecional" a defenderem, cada qual nos seus moldes, variantes de articulação da guerrilha com a luta de massas - no final foi a Tendência Insurrecional, dos irmãos Ortega e do futuro "contra" Eden Pastora, que predominou).

Já agora, no seu livro "A nossa luta na Sierra Maestra", Che Guevara falava na divisão do Movimento 26 de Julho em duas facções, a "Sierra" (os guerrilheiros nas montanhas) e a "Planície" (os ativistas urbanos, que se estariam a preparar para desencadear uma insurreição quando chegasse a altura), largamente acusando a "Planície" de não fazer nada (se a revolução cubana tivesse tido mais "Planície" e menos "Sierra", talvez a história tivesse sido diferente?).

[Um aparte: dá-me a ideia que a conflito no MPLA em 1977 entre Agostinho Neto e Nito Alves teve também uma componente de um conflito entre o sector oriundo da guerrilha - do lado de Neto - e o sector mais ligado à mobilização popular nos bairros de Luanda - do lado de Nito; mas, talvez pondo em causa toda a minha teoria, ao que sei - posso estar completamente enganado, já que o que se sabe em Portugal sobre o golpe de 1977 parece-me muito filtrado pelos apologistas de ambas as partes - a facção Nito Alves era ainda mais ditatorial que a facção Agostinho Neto].

Sobre Cuba, Castro e a guerrilha, anteontem o blogger inglês "Phil" escrevia:
As James notes, there will be those who try and portray Castro's authoritarianism as entirely reactive, that the original sin lies with the United States and its repeated attempts at undermining and overthrowing the J26 Movement almost from the get go. While true, these material circumstances cannot be waved away either. (...)

Cuban authoritarianism does have a dynamic of its own though, and these were embedded in the characteristics of the struggle led by Castro. His was not a popular uprising in the conventional sense but a guerilla struggle. Che Guevara's Guerilla Warfare distilled the essence of the J26 Movement as a hyper vanguard of committed communist fighters. The group was the nucleus and repository of the lessons of history, and it would be the active agent that would draw the peasantry behind it. Not dissimilar to Mao's approach to revolution. Here, in Cuba, the masses were conceived of as having a spectator role. The opposition to Batista in the cities, the workers' organisations and the Communist Party (which, bizarrely,supported the dictatorship) were marginal to the revolution rolling in off the countryside. The overthrow was accomplished by military struggle, and the command and control model appropriate to that remained. The absorption of the city-dwelling communists, the transformation of the unions into apparatuses of the state, the clamping down on the media were certainly conditioned by the exigencies of a revolutionary changes, but not determined by them. Effectively, a military movement became a military government, and the trappings of a Stalinist state acquired while consolidating the hold on power was an extension of these governing principles to all aspects of society.
Três sugestões adicionais de leitura sobre o assunto (ou sobre vários assuntos incluindo este): os trotskistas Ted Grant e Nahuel Moreno[pdf] (páginas 55-58) e o liberal Jesse Walker (atenção que o eu estar a recomendar os textos deles não implica necessariamente concordância, até porque seria difícil concordar simultaneamente com os três; sobretudo Walker centra-se sobretudo na questão violento/não-violento, não tanto na questão grupo restrito/amplo movimento popular).

Uma observação final, talvez já demasiado especulativa ou mesmo à beira do delirante: será que uma das razões para a mitificação do regime cubano (ultrapassando, como já disse, as fronteiras do comunismo ortodoxo) não será exatamente a sua ligação à guerrilha (tanto o ter nascido da guerrilha, como o ter fomentado ativamente a guerrilha durante os seus primeiros anos de existência)? É que a guerrilha, a ideia de pequenos grupos lançando ações audazes é algo muito fácil de romantizar (no fundo, com motivações psicológicas talvez não muito diferentes das que levam as pessoas a lerem livros ou verem filmes de piratas, de operações de comandos atrás das linhas inimigas, de assaltos, etc.) - talvez um resquício (esta é a parte à beira do delirante) das centenas de milhares de anos (ou mais, se contarmos, com os nossos antepassados pré-Homo sapiens) em que passamos como nómadas caçadores-recoletores, em que tanto caçar outros animais, como fazer um raid surpresa contra um clã humano vizinho implicava usar faculdades mentais e físicas muito semelhantes às que se usam em ações de guerrilha?

Fidel. Pode alguém ser quem não foi.

Fidel Castro foi um revolucionário que liderou o seu povo numa luta que visava devolver aos cubanos a dignidade perdida e a esperança no futuro  que tinham sido esmagados pelo ditador Fulgêncio Baptista. Cuba era o bordel de luxo dos americanos, ainda por cima logo ali ao pé da porta. 
A revolução cubana foi um dos momentos marcantes do século passado e Fidel, junto com Che e com outros, um dos seus protagonistas. Por razões, sobretudo más razões, Fidel foi ficando sozinho e a esperança em melhores dias foi-se esboroando. O bloqueio americano, imposto pelo democrata Kennedy, foi o alíbi perfeito para o reforço do poder autoritário e para  a transformação da Cuba revolucionária numa Cuba ditactorial. Uma Cuba em que a falta de liberdade politica, a falta de respeito pelas minorias, de que o internamento dos homossexuais em "campos de correção e tratamento" foi um dos mais trágicos exemplos, a completa ausência de qualquer resquicio de democracia politica, foi sempre "compensada" - no discurso dos que ainda agora defendem Fidel - pela excelência da educação pública e pela excelência do acesso aos serviços de saúde. Fidel começou revolucionário e morreu ditador. Morreu opondo-se à ténue abertura que o seu irmão tem liderado e sobretudo claramente contra a normalização das relações com os Estados Unidos que Trump, aliás, se prepara para implodir.
Pode-se utilizar o carisma, a importância da luta revolucionária contra Baptista, o que se quiser. Há no entanto uma realidade que emerge: Fidel foi um dos que ajudou, com o seu exemplo, a desacreditar o socialismo e a mostrar que o socialismo de estado era um dos maiores embustes políticos do último século. 
Não há ditadores bons. 

27/11/16

A fantasia cubana

Uma coisa digna de nota, a respeito da morte de Fidel Castro, é a admiração por Fidel e/ou por Cuba (e, já agora, também pelo "Che"), não apenas entre os comunistas ortodoxos (isso não tem mistério nenhum), mas também entre pessoas que até sempre foram bastante críticas dos regimes da Europa de Leste, que diziam que esses países não eram o "verdadeiros socialismo", etc., etc.

Afinal, Cuba não tinha qualquer diferença relevante face a esses regimes - o modelo era o mesmo: uma economia estatizada, dirigida por quadros dos ministérios do planeamento e afins, e um partido único, sem sequer direito de tendência (tal e qual o Partido Comunista da União Soviética, e ao contrário, p.ex., do Partido Comunista Pan-Russo Bolchevique até 1921). A única coisa que talvez pudesse dar a ilusão de Cuba ser uma sociedade diferente seriam os "Comités de Defesa da Revolução", no fundo milícias de bairro, que poderiam fazer os mais entusiastas ver lá uma espécie de "poder popular de base", mas mesmo isso requeria uma grande auto-ilusão, porque se trata de organizações para por em prática as decisões do governo (e reprimir os dissidentes), não de organizações para tomar decisões.

Mais, Cuba identificava-se abertamente com esses regimes e o Partido Comunista Cubano tinha "relações fraternas" com o PCUS - nem sequer era como a China ou a Albânia, que diziam que eram diferentes (para não falar na Jugoslávia, que, essa sim, tinha mesmo diferenças de monta). É verdade que, logo nos primeiros anos após a revolução, Cuba dizia-se uma "república democrática nacional" e não uma "republica popular", mas creio que até tinha sido o próprio regime soviético a incentivar essa distinção.

Talvez o sinal de "diferença" que levasse alguns anti-Moscovo a ser pró-Havana tenha sido o facto de a revolução não ter sido feita pelo partido comunista "oficial" - o Partido Socialista Popular - mas pelos guerrilheiros do Movimento 26 de Julho (após a revolução o M-26-7 e o PSP dariam origem ao atual Partido Comunista de Cuba), e mais tarde o "processo Escalante", em que o ex-dirigente do PSP e alguns elementos próximos foram destituídos e presos, acusados de conspirar com diplomatas soviéticos para afastar Fidel Castro. Mas tal nunca chegou a dar origem a um afastamento entre Cuba e a URSS, ou a uma critica pelos cubanos da ideologia ou do modelo comunista ortodoxo (quando muito apenas a discordâncias técnicas, como a oportunidade da guerra de guerrilha), limitando-se a ser pouco mais que uma questão de pessoas (Escalante ou Castro?). Ou seria que era sobretudo a ideia de um grupo de jovens mais ou menos intelectuais, agindo independentemente do PC, a fazer uma revolução que era atrativo para muita da esquerda alternativa (nomeadamente da época, em que as universidades ocidentais andavam a pulular de jovens revolucionários em rotura com os PC's tradicionais)?

Tudo computado, mantenho que isto é mesmo algo difícil de compreender (fazendo lembrar aquelas pessoas que se convencem que alguém está apaixonado por elas, mesmo sem esse alguém dar qualquer sinal nesse sentido e muitos em sinal contrário) - pessoas que queriam construir um socialismo "diferente", alternativo tanto ao estalinismo soviético como à social-democracia dos "socialistas" ocidentais andavam (em maior ou menor grau - e muitos parece-me que nunca chegaram mesmo a romper definitivamente) entusiasmadas com um regime igual ao soviético e que se assumia abertamente como sendo do mesmo tipo.

24/11/16

Barcelona. Uma cidade que leva a sério o direito à habitação

Barcelona que ainda hoje tinha sido noticia pelas multas aplicadas à Airbnb, volta  a ser noticia pelas multas aplicadas a instituições bancárias que mantêm apartamentos vazios por períodos superiores a dois anos. Uma medida desse teor constitui-se como um manifesto politico práctico contra a especulação imobiliária. Digamos, de forma resumida, que o banco não arrenda nem vende porque aguarda que o mercado evolua no sentido de maximizar o valor a obter com a renda ou a venda. Ao mesmo tempo, retirando fogos do mercado, coloca pressão sobre os preços de arrendamento e de venda. Trata-se de uma atitude especulativa, pura e dura.
Foi contra a especulação que se manifestou a alcaide de Barcelona, Ada Colau, quando anunciou as multas aplicadas ao Santander, ao BBVA e a uma outra instituição, que ultrapassam o milhão de euros em cada caso. Quando existe vontade politica é possível defender os direitos dos mais fracos e impôr aos poderosos o minimo dos mínimos: o puro respeito pela lei. Cerdá, Gaudi e outros, devem estar orgulhosos desta alcaide e desta politica que governa a cidade.

Trump continua a ser a favor da tortura

Trump Has Not Changed His Mind About Torture (Slate):
There’s a notion out there that, after talking with Gen. James Mattis, who might be the next secretary of defense, President-elect Donald Trump is suddenly opposed to waterboarding. In fact, this isn’t true at all.

The notion arose from a story in the New York Times about Trump’s hourlong meeting on Tuesday with the paper’s editors and reporters. (...)

However, the full transcript of the session, which the Times published on its website, reveals a different bottom line. Trump is quoted as telling the same story about Mattis, adding, “I was surprised [by his answer], because he’s known as being like the toughest guy.”

But Trump then goes on, “And when he said that, I’m not saying it changed my mind.” (Italics added.) Let me repeat that: Contrary to the Times’ own news story, it is not the case that “Mr. Trump suggested he had changed his mind about the value of waterboarding.” In fact, he explicitly said the opposite. Right after that point in the transcript, a Times editor adds the following, inparentheses and italics: “(Earlier, we mistakenly transcribed ‘changed my mind.’)” Hence the misreporting and the as-yet largely unrecognized misunderstanding. (...)

In short, Mattis exposed Trump to a different view of torture—a view, by the way, that most American generals and admirals hold. And, especially if he does appoint Mattis to his Cabinet, he might open himself to that view in making policy. However, Trump has not changed his mind on torture—which, since he enthusiastically supported it during the campaign, means he still supports it now.

Barcelona multa a Airbnb

A plataforma de aluguer de curto prazo Airbnb continua a "fazer amigos" entre os autarcas das principais cidades europeias e mundiais. Depois das medidas adoptadas por Nova Iorque foi hoje divulgada a aplicação de uma multa pela cidade de Barcelona. A Airbnb vai ter quer pagar 600 mil euros de multa por anunciar apartamentos turísticos ilegais.
É velha a guerra entre a cidade condal e a plataforma electrónica de aluguer de curto prazo. São várias as razões - razões profundas de politica pública de habitação - que levam o poder local a prosseguir esta guerra, contra a toda poderosa empresa.

23/11/16

Aceitar os resultados das eleições norte-americanas? (II)

Há dias eu escrevia que não tinha lógica a exigência de que Trump se comprometesse previamente a aceitar os resultados eleitorais:
Veja-se as alegações que frequentemente surgem a seguir a eleições nos EUA (normalmente do lado que perdeu)...


... há suficientes alegações, de parte a parte, de irregularidades; agora conjugue-se isso com o sistema eleitoral norte-americano, em que basta ter mais um voto num estado para ter (com duas exceções insignificantes - Maine e Nebraska) todos os votos desse estado no colégio eleitoral. Não é díficil imaginar (sobretudo numa eleição renhida) uma situação em que haja alegações de irregularidades numa assembleia de voto, que os votos em causa sejam suficientes para decidir quem ganha nesse estado, e que os votos desse estado sejam decisivos para decidir o resultado final - ou seja, é perfeitamente possível que haja razões credíveis para se duvidar que o vencedor designado seja o verdadeiro vencedor.

Portanto que lógica teria, ainda antes das eleições, de se saber se houve ou não situações duvidosas, e de se saber se, a existirem, esses casos poderiam ter impacto no resultado final, um candidato dizer antecipadamente que aceitará como verdadeiro o resultado das eleições?
E agora, temos isto (CNN, via Destreza das Dúvidas):
Hillary Clinton's campaign is being urged by a number of top computer scientists to call for a recount of vote totals in Wisconsin, Michigan and Pennsylvania, according to a source with knowledge of the request.


The group informed John Podesta, Clinton's campaign chairman, and Marc Elias, the campaign's general counsel, that Clinton received 7% fewer votes in counties that relied on electronic voting machines, which the group said could have been hacked.

Adenda: Demographics, Not Hacking, Explain The Election Results (FiveThirtyEight)

Como é que havemos de chamar aos nazis?

Os neonazis americanos, que se organizam no think thank  pomposamente chamado "National Policy Institute", reuniram para festejar a vitória do seu candidato nas eleições presidenciais americanas, Donald Trump.
Um repórter do Guardian acompanhou os "festejos" durante um fim de semana. A impressão que recolheu do evento está bem sintetizada na seguinte frase:
"But to an outsider, the conference merely served as a shocking insight into the racism, sexism and disturbing beliefs of the “alt-right”

Os neonazis americanos acham que chegou a hora de influenciar a politica americana e dessa forma conseguir mudar a sociedade no seu conjunto. O objectivo é mais amplo do que aceder ao poder e ter acesso aos benefícios materiais que esse acesso permite. Trata-se de aproveitar esta oportunidade para promover uma revolução.
Esse objectivo está claramente expresso numa declaração do líder do movimento:

“We want to influence people. We want to be an intellectual vanguard that starts to inflect policy, inflect culture, inflect politics,”. 

A quem manifesta uma tão grande devoção a Hitler e defende os ideais nazis, como devemos chamar? E a Trump que beneficiou deste apoio durante a campanha nunca o renegando? Trump que escolheu um confesso camarada destes nazis para a equipa politica que vai levar para a Casa Branca, Stephen Bannon de seu nome.
Porque raio não devemos chamar às coisas aquilo que elas são.

17/11/16

A oposição a Trump. A pretendida deportação dos imigrantes.

O mayor de Nova York não perdeu tempo a reunir com Trump para lhe dizer que os moradores da cidade estão receosos com ele, isto é com as suas ideias politicas. Trump ouviu o mayor dizer-lhe que a cidade não admite tratar mal os seus cidadãos, sejam ou não imigrantes. Nova York tem um número muito elevado de cidadãos estrangeiros, mais exactamente três vezes a média nacional. Outros presidentes de Câmara de cidades importantes já secundaram Bill de Blasio. A deportação dos imigrantes - ideia fascista que terá promovido o sucesso de Trump junto das vitimas da globalização e do aumento da desigualdade -  poderá ter dificuldade em avançar, apesar da maioria politica que suporta o trumpismo.
Interessante o vídeo, junto da noticia da BBC, em que se dá conta de como a retirada do nome do milionário dos prédios que construiu na cidade, foi resultado de uma posição dos seus moradores/proprietários.

Adenda: igualmente interessante o segundo vídeo que integra a noticia da BBC. Uma reportagem com duas mulheres - mãe e filha -  que apoiaram respectivamente Trump e Clinton, pelas razões que cada uma explica de viva voz. Uma clivagem na classe média americana em que o leit-motiv não é a economia, ou a globalização e os seus horrores, mas tão somente uma diferença fundamental que envolve as questões da diversidade, da inclusão, da raça e da religião. Em resumo a forma como cada um é capaz de viver em democracia, aceitando os outros na sua plenitude com todas as suas diferenças.

15/11/16

Trump e o Syriza

Os comentadores que, antes das eleições norte-americanas, diziam que não havia diferenças entre Trump e o Syriza, o Podemos, etc. (populistas anti-globalização, etc.), agora dizem que não se pode ignorar as preocupações que os eleitores manifestaram. Mas não me parece que tenham dito isso após as eleições gregas.

Ainda acerca de Trump

Acho mais provável que Trump venha a ser um novo George W. Bush (que, recorde-se, quando foi eleito, também tinha a imagem de querer reduzir o envolvimento norte-americano no mundo, e Gore e McCain é que tinham a reputação de serem mais intervencionistas) do que um novo Hitler.

14/11/16

"Equivalência moral"?

Pôr no mesmo plano a tentativa de invasão de uma sede de um partido político e manifestações durante cerimónias públicas.

The Partisan

Uma das poucas canções cantadas por Leonard Cohen que não era da sua autoria. Neste caso uma velha canção da resistência francesa, escrita em Londres em 1943 por Emmanuel d´Astier de La Vigerie e musicado por Anna Marly. Esta canção cujo título original era "La Complainte du Partizan" era difundida pela BBC para a França ocupada. Foi regravada em 1969 por Leonard Cohen e integrava o primeiro LP do poeta e cantor canadiano que eu comprei. Um primeiro contacto que deixou uma impressão que não mais se desvaneceu. 






"The Partisan"

When they poured across the border
I was cautioned to surrender,
this I could not do;
I took my gun and vanished.
I have changed my name so often,
I've lost my wife and children
but I have many friends,
and some of them are with me.

An old woman gave us shelter,
kept us hidden in the garret,
then the soldiers came;
she died without a whisper.

There were three of us this morning
I'm the only one this evening
but I must go on;
the frontiers are my prison.

Oh, the wind, the wind is blowing,
through the graves the wind is blowing,
freedom soon will come;
then we'll come from the shadows.

Les Allemands étaient chez moi (The Germans were at my home)
ils m'ont dit "Résigne-toi" (They said, "Surrender,")
mais je n'ai pas pu (this I could not do)
j'ai repris mon arme (I took my weapon again)

J'ai changé cent fois de nom (I have changed names a hundred times)
j'ai perdu femme et enfants (I have lost wife and children)
mais j'ai tant d'amis (But I have so many friends)
j'ai la France entière (I have all of France)

Un vieil homme dans un grenier (An old man, in an attic)
pour la nuit nous a cachés (Hid us for the night)
les Allemands l'ont pris (The Germans captured him)
il est mort sans surprise (He died without surprise)

Oh, the wind, the wind is blowing,
through the graves the wind is blowing,
freedom soon will come;
then we'll come from the shadows.

13/11/16

Por que revolta e contra que injustiça?

Quando ouço para aí dizer — como Pacheco Pereira, por exemplo: não gosto de Trump, mas gosto da revolta contra a injustiça que levou muita gente a votar nele — fico com a impressão de que me estão a dizer e a toda a gente que a revolta é sempre libertadora e que qualquer ideia de justiça ou injustiça vale o mesmo que qualquer outra. Mas que emancipação potencial se pode descobrir, com efeito, na revolta de quem sente que as mulheres já não são o que eram, de que há muitos engrossou estrangeiros que passam menos mal ou melhor do que quem protesta, de que a verdade revelada é tratada como simples opinião e pode ser negada na praça pública, de que a "preferência nacional" não é aplicada como critério decisivo? E que vontade de igualdade anima quem entende que é uma injustiça ter perdido os privilégios que o tornavam superior e lhe garantiam um lugar hierárquico seguro, visando por isso como restabelecimento da justiça a restauração da — real ou fantasiada — boa e velha divisão entre superiores e inferiores?

É desanimador ter de explicar ainda que nem a revolta nem a denúncia da injustiça são critérios políticos suficientes e que a revolta e a denúncia da injustiça podem manifestar-se produzir-se em termos antidemocráticos extremos,  sendo que saudá-los como bons sinais, por traduzirem uma vontade de mudança, é pouco mais ou menos como saudar a peste como sinal de vida. Ou, por outras palavras, se a revolta causada pelas frustrações e opressões das relações de poder dominantes não se traduzir em vontade de democracia e de igualdade, mas reclamar simplesmente superiores mais legítimos e fortes do que os do momento, poderá servir quando muito para reciclar a dominação hierárquica, legitimando-a — em nome dos bons governantes necessários — no seu princípio e tendendo, pior ainda, a desembaraçar o poder hierárquico das garantias e liberdades que, através de lutas seculares, puderam, de uma maneira ou de outra, ser instauradas como meios de limitar a sua acção.

A sociologia do trumpismo

Andam algumas pessoas indignadas pelos artigos e notícias que dizem que Trump ganhou com o votos dos eleitores brancos com poucas qualificações (o que é verdade, embora não seja a história toda).

Mas vamos lá ver: há anos que sectores próximos de Trump, como o Unz Review (ou o American Conservative, que não sendo exatamente a favor da pessoa de Trump, alinha no geral por ideias similares às dele) se fartam de publicar artigos a falar na "white working class" (muitas vezes com "male" associado), e na alegada aliança das "elites" com as minorias e com o feminismo contra a "white working class". Não me parece que depois se possa levar a mal quando finalmente a imprensa mainstream lhes dá razão, e reconhece que a "white working class" (conceito que no vocabulário dessa área tem mais a ver com não ter formação universitária do que propriamente com ser aquilo que em Portugal chamariamos de "operário" ou "trabalhador), e sobretudo os homens, contribuiu para a vitória de Trump.

12/11/16

So Long


O caso Ricardo Hausman

Um economista, a respeito de um país em profunda crise social e económica, escreve um artigo defendendo a reestruturação da dívida pública (dizendo que os credores também têm que partilhar os sacrifícios que estão a ser impostos ao povo); em reação o governo lança-lhe uma perseguição judicial, acusando-o de estar a conspirar para impedir o país de ter acesso aos mercados internacionais de capitais.

Aonde? Venezuela.

Já agora, um artigo que li há tempos sobre as paradoxais posições políticas a respeito da reestruturação da dívida venezuelana.

11/11/16

Da confusão entre a esperança e o pesadelo

Não me apetece escrever sobre a vitória de Trump. Tão pouco me apeteceria escrever sobre a vitória de Clinton. Imagino as loas que se teceriam, caso a primeira mulher tivesse vencido uma eleição presidencial americana.
No entanto causa-me alguma perplexidade o texto que o Pedro Viana aqui divulga da autoria de Richard Heinberg.  Acho o texto de Richard Heinberg uma elaboração tipica de um adiantado mental. Muitas vezes a roçar a mais implacável imbecilidade politica.
Os pesos que ele coloca nos dois pratos da balança, com que, supostamente, avalia a situação, mostram-no em toda a sua crueza. Num dos pratos coloca parte dos aspectos potencialmente sinistros da futura  presidência de Trump - questão ambiental, com a anulação do acordo de Paris, a apologia das teorias negacionistas da ameaça climática, abertura de alguns dos famosos parques naturais ao investimento no imobiliário, disponibilização de todas as terras para a construção e para o atravessamento por infraestruturas destinadas à sobreexploração dos recursos naturais, nomeadamente os fósseis, desinvestimento nas energias renováveis, etc.
Estranhamente Heinberg esquece o anúncio da implosão do sistema de saúde que Obama, apesar da oposição dos republicanos, estava a implementar. Estamos a falar directamente de 30 milhões de pessoas, que pela primeira vez tiveram acesso a cuidados de saúde públicos. Ignora igualmente as anunciadas politicas xenófobas e contra a imigração ou a clara diabolização dos muçulmanos.
Mas, pronto, o homem valoriza muito o fim dessa ameaça que a terrível Clinton simbolizava: a próxima guerra contra a Rússia. Ufa, do que nos livrámos. Ainda assim Trump deve ir agora reforçar as relações com Putin e talvez tomar chá com o líder do  Irão, para falarem de viva voz sobre o programa nuclear iraniano. Ou introduzir no conflito do médio oriente uma posição equilibrada, que não ceda aos falcões israelitas. Nada disso ocorreu ao apóstolo Heinberg.
Notável é que, colocado perante esta balança por ele próprio idealizada, o homem lhe vire costas e se prepare para enfrentar o futuro carregado de optimismo.
Devemos ter como ele uma atitude de grande esperança no futuro? Afinal Trump é, diz ele, o fim do neoliberalismo do partido democrata. Será?  Reagan, afinal, foi um democrata e Carter um Republicano. Isto estava tudo trocado, ainda bem que Heinberg, falou. Com este presidente, com esta maioria no Congresso, com o aparelho politico nas mãos do Partido Republicano,  quem pode ter menos do que muita esperança?
Vamos ver se Trump resiste à pressão dos neocons - seus adversários, é verdade - para implodir o incipiente sistema social americano, para instalar as ideias de Adam Smith em todo o seu esplendor. Vamos a ver se Nozick não ressuscita das trevas em que estes anos de Obama o confinaram, apesar das incapacidades várias da liderança do primeiro afro-americano a presidir à América. Vamos ver como o corte de impostos sobre as empresas vai, outra vez, fazer disparar o défice, como aconteceu com Bush.
Claro que Clinton era uma péssima candidata, por todas as razões já evidenciadas mas que Robert Parry, citado por Heinberg [nem tudo é mau] descreve com rigor. Era necessário um candidato que fosse capaz de representar um corte com o establishment, capaz de renovar as esquerdas e colocar o combate à desigualdade no centro da politica. Isso não tem nada a ver com Trump, nem com os horrores que aí espreitam. Não tem nada a ver com uma expectativa de um futuro progressista. Antes pelo contrário. A extrema direita xenófoba europeia recebe um forte apoio do lado de lá do Atlântico.  Não se trata, como muito bem refere o Miguel, no seu comentário ao post do Pedro Viana, de aplaudir o fim da democracia representativa, porque não é de todo isso que aconteceu. Trump ganhou e ganhou com uma votação disputada taco a taco. Numa América na qual os movimentos sociais -por força da fragilidade do estado Social - são fortíssimos, os mais fortes a nível global. Numa América que é provavelmente o país em que a parte do poder detido pela democracia participativa é maior à escala global. Mas numa América na qual, como denunciava Chomsky no seu último livro, a falta de estruturas partidárias ou sindicais activas em termos nacionais, permite a atomização desses movimentos e o seu sistemático isolamento e contenção.

10/11/16

Um olhar sobre o que realmente importa

Uma análise concisa e que toca em todos os pontos relevantes.

"A América mergulhou no desconhecido. (...) O que é importante agora é avaliar a situação e decidir como seguir em frente.

No lado bom: sob a presidência de Trump, provavelmente não haverá guerra com a Rússia, como bem poderia ter ocorrido se Clinton tivesse prevalecido. O TPP está esperemos morto, e os EUA deverão inclinar-se para pelo menos algumas políticas de comércio pós-globalização. O domínio neoliberal do Partido Democrata sofreu um golpe doloroso e talvez fatal. Milhões de americanos que se sentiram ignorados pelas elites de Washington e Wall Street agora sentem que têm uma voz. Mesmo que provavelmente as relações externas e política comercial fiquem nas mãos de apparatchiks republicanos pró-negócios que, em última instância, deixarão os trabalhadores afogarem-se sem qualquer remorso, o americano típico poderá tranquilizar-se com o facto do "seu homem" estar no comando. Talvez as coisas podessem ser piores; afinal, como o meu amigo Ugo Bardi salientou, a Itália sobreviveu a 20 anos de Berlusconi.

No lado mau: não haverá mais apoio federal para a ação ou pesquisa climática, para proteção ambiental (a EPA será desmantelada) ou para energia alternativa. Todas as terras federais serão abertas à exploração de petróleo, gás e carvão. (...). Com o Poder Executivo, o Congresso e o Supremo Tribunal dominados pelo mesmo partido, não haverá limites aos esforços para retirar fundos a agências governamentais ou derrubar regulamentações de todos os tipos (armas, bancos, segurança no local de trabalho). Tendo testemunhado o sucesso do Trumpismo, uma nova geração de políticos adotará a tática de demonizar completamente os seus oponentes. É difícil ver como a civilidade poderá retornar em breve. Estes serão tempos terríveis para mulheres e minorias.

Os pundits consideram, com razão, a eleição como um repúdio do establishment. Mas quem vai realmente governar nos próximos meses? Principalmente, os mesmos antigos lobistas-oficiais. Quando a próxima crise económica surgir, todo o país enfrentará um rude despertar, e meros discursos duros não farão muito para realmente colocar comida nas mesas de Iowans ou Missourians ansiosos. Em vez de admitir que ele não pode realmente fazer a América grande novamente, Trump irá alinhar os bodes expiatórios. E ao invés de admitir que o "seu homem" é incompetente ou errado, muitos dos adeptos de Trump irão levantar o equivalente moderno da forquilha (para o qual verificações de fundo não serão mais necessárias).

As crises não desaparecerão porque o governo se recusa a reconhecê-las ou a resolvê-las. Mudanças climáticas, esgotamento de recursos e excesso de confiança no endividamento são lobos à porta. (...) Por ora, a ação política nacional sobre o clima e outras questões ambientais é uma porta fechada. Mas as respostas mais promissoras às crises do século XXI estão a aparecer, de qualquer modo, ao nível da comunidade. É em cidades de todo o país, e por todo o mundo, onde as pessoas com sentido prático são forçadas a lidar com o tempo estranho, inundações, uma economia instável, e um tecido social e político nacional desgastado. Quaisquer que sejam as estratégias viáveis ​​que possam ser encontradas, estas surgirão lá.(...)Isto não é sobre vencer; não há linha de chegada, nenhum dia de eleição. Apenas uma nova oportunidade a cada manhã para incentivar, educar e construir."

Richard Heinberg