28/11/16

Guerrilha e autoritarismo

Uma questão que casos como Cuba ou a Eritreia me fazem pensar é se a guerra de guerrilha (em detrimento, p.ex., do "levantamento popular de massas") não será uma forma de revolução particularmente propícia a gerar regimes autoritários. Isto é, por mais "estar entre o povo como o peixe na água" que os guerrilheiros sejam, a guerra de guerrilha assenta, quase por definição, na ideia de uma minoria ativista agindo separadamente da massa da população, usualmente de forma clandestina e muitas vezes refugiando-se em zonas pouco povoadas. É verdade que é difícil os guerrilheiros ganharem sem apoio popular, mas isso apenas requer um apoio pouco mais que passivo (não os denunciarem às autoridades, alimentá-los, etc.), sem o grau de participação direta que implica, p.ex., uma greve geral com barricadas na rua.

Aliás, suspeito que parte da razão porque a revolução nicaraguense de 1979 conseguiu, apesar de tudo, manter-se num quadro formalmente democrático (com partidos e imprensa oposicionista, eleições competitivas, várias centrais sindicais, etc.) foi por, nos últimos meses do regime de Somoza, a guerra de guerrilha ter sido complementada por uma quase insurreição urbana, com uma greve geral, motins nas ruas, etc. (note-se que a frente sandinista chegou a ter uma cisão durante os anos 70 largamente sobre isso, com a facção "Guerra Popular Prolongada" a defender a estratégia clássica da guerrilha, e com as facções "Tendência Proletária" e "Tendência Insurrecional" a defenderem, cada qual nos seus moldes, variantes de articulação da guerrilha com a luta de massas - no final foi a Tendência Insurrecional, dos irmãos Ortega e do futuro "contra" Eden Pastora, que predominou).

Já agora, no seu livro "A nossa luta na Sierra Maestra", Che Guevara falava na divisão do Movimento 26 de Julho em duas facções, a "Sierra" (os guerrilheiros nas montanhas) e a "Planície" (os ativistas urbanos, que se estariam a preparar para desencadear uma insurreição quando chegasse a altura), largamente acusando a "Planície" de não fazer nada (se a revolução cubana tivesse tido mais "Planície" e menos "Sierra", talvez a história tivesse sido diferente?).

[Um aparte: dá-me a ideia que a conflito no MPLA em 1977 entre Agostinho Neto e Nito Alves teve também uma componente de um conflito entre o sector oriundo da guerrilha - do lado de Neto - e o sector mais ligado à mobilização popular nos bairros de Luanda - do lado de Nito; mas, talvez pondo em causa toda a minha teoria, ao que sei - posso estar completamente enganado, já que o que se sabe em Portugal sobre o golpe de 1977 parece-me muito filtrado pelos apologistas de ambas as partes - a facção Nito Alves era ainda mais ditatorial que a facção Agostinho Neto].

Sobre Cuba, Castro e a guerrilha, anteontem o blogger inglês "Phil" escrevia:
As James notes, there will be those who try and portray Castro's authoritarianism as entirely reactive, that the original sin lies with the United States and its repeated attempts at undermining and overthrowing the J26 Movement almost from the get go. While true, these material circumstances cannot be waved away either. (...)

Cuban authoritarianism does have a dynamic of its own though, and these were embedded in the characteristics of the struggle led by Castro. His was not a popular uprising in the conventional sense but a guerilla struggle. Che Guevara's Guerilla Warfare distilled the essence of the J26 Movement as a hyper vanguard of committed communist fighters. The group was the nucleus and repository of the lessons of history, and it would be the active agent that would draw the peasantry behind it. Not dissimilar to Mao's approach to revolution. Here, in Cuba, the masses were conceived of as having a spectator role. The opposition to Batista in the cities, the workers' organisations and the Communist Party (which, bizarrely,supported the dictatorship) were marginal to the revolution rolling in off the countryside. The overthrow was accomplished by military struggle, and the command and control model appropriate to that remained. The absorption of the city-dwelling communists, the transformation of the unions into apparatuses of the state, the clamping down on the media were certainly conditioned by the exigencies of a revolutionary changes, but not determined by them. Effectively, a military movement became a military government, and the trappings of a Stalinist state acquired while consolidating the hold on power was an extension of these governing principles to all aspects of society.
Três sugestões adicionais de leitura sobre o assunto (ou sobre vários assuntos incluindo este): os trotskistas Ted Grant e Nahuel Moreno[pdf] (páginas 55-58) e o liberal Jesse Walker (atenção que o eu estar a recomendar os textos deles não implica necessariamente concordância, até porque seria difícil concordar simultaneamente com os três; sobretudo Walker centra-se sobretudo na questão violento/não-violento, não tanto na questão grupo restrito/amplo movimento popular).

Uma observação final, talvez já demasiado especulativa ou mesmo à beira do delirante: será que uma das razões para a mitificação do regime cubano (ultrapassando, como já disse, as fronteiras do comunismo ortodoxo) não será exatamente a sua ligação à guerrilha (tanto o ter nascido da guerrilha, como o ter fomentado ativamente a guerrilha durante os seus primeiros anos de existência)? É que a guerrilha, a ideia de pequenos grupos lançando ações audazes é algo muito fácil de romantizar (no fundo, com motivações psicológicas talvez não muito diferentes das que levam as pessoas a lerem livros ou verem filmes de piratas, de operações de comandos atrás das linhas inimigas, de assaltos, etc.) - talvez um resquício (esta é a parte à beira do delirante) das centenas de milhares de anos (ou mais, se contarmos, com os nossos antepassados pré-Homo sapiens) em que passamos como nómadas caçadores-recoletores, em que tanto caçar outros animais, como fazer um raid surpresa contra um clã humano vizinho implicava usar faculdades mentais e físicas muito semelhantes às que se usam em ações de guerrilha?

1 comentários:

Libertário disse...

O problema a meu ver não está no uso da táctica da guerrilha, mas da forma organizativa e dos objectivos do grupo guerrilheiro. Se em Cuba, na Nicarágua, na Argélia e no Vietnam, ou se quisermos na Guiné, Moçambique e Angola, as guerrilhas vitoriosas degeneraram em regimes autoritários e corruptos, os caminhos da revolução russa e chinesa com uma história distinta deram também origem a regimes de capitalismo burocrático de estado altamente repressivos…

Podemos nos questionar se organizações vanguardistas, dentro do modelo marxista-leninista e de guerrilhas militarizadas, teriam condições de gerar sociedades baseadas na auto-organização e na autogestão generalizada. Até porque essas organizações e partidos marxistas-leninistas, mas também blanquistas, acreditam no papel determinante das vanguardas e reduzem a mudança social à conquista do poder do Estado. Esta análise poderia ser estendida às RAF, BV, PRP-BR e FP25 que acturam na Europa nos anos 70-90.