20/01/20

Os ovos da Engª Isabel dos Santos. O papel de Portugal como galinha poedeira.

Em Junho do ano passado o actual Presidente de Angola, João Lourenço,  denunciou um facto que qualquer cidadão medianamente informado poderia concluir por si só: a dívida pública angolana financiara o enriquecimento de uma elite repleta de ávidos ladrões. Demos conta dessa denúncia e estabelecemos a inevitável comparação com aquilo que se passou em Portugal.

A relação entre a cleptocracia angolana - com enorme destaque para a relação entre o univrso "empresarial" de Isabel dos Santos - e a classe dominante em Portugal é uma relação sólida, antiga e profunda. A engenheira, conhecedora que é da actividade da avicultura, mostrou sempre ter perfeita consciência que Portugal seria a sua poedeira ideal. E assim foi espalhando os seus ovos da Galp ao BPI, da NOS à Efacec, sem parar. Recorde-se que essa relação inclui o seu poderoso marido, Sindika Dokolo, que escolheu o Porto para estabelecer a fundação com o seu nome, tendo adquirido para esse fim a Casa Manuel Oliveira - projectada por Souto Moura e recusada pelo cineasta - facto apontado como exemplo do reforço da relação entre o Porto e Luanda. Não podemos esquecer que o BPN - uma organização de malfeitores composta por parte da superestrutura financeira e empresarial da sociedade portuguesa - foi "comprado" pela Engª Isabel dos Santos, por uns míseros 40 milhões de euros, enquanto os portugueses contribuíram com 5 mil milhões dos seus salários não recebidos, das suas reformas não recebidas, para tapar o corrupto desfalque aí concretizado. Comprado pelo BIC mais tarde rebaptizado EuroBic e gerido pelo ex-ministro das Finanças de Portugal, Teixeira dos Santos.

Chegados à denúncia do Luanda Leaks pelo consórcio internacional de jornalistas, ICJ, essa relação e os seus protagonistas emergem com nitidez aos nossos olhos.

A nossa elite - os tais que não prestam aos olhos do actual Secretário Geral da ONU - não é capaz de gerir o País e retirar Portugal do subdesenvovlvimento crónico em que se encontra mergulhado há décadas. Isso é um facto constatável por todos nós. No entanto, tem um apurado sentido de oportunidade e de negócio. Sentido tão desenvolvido quanto a total falta de escrúpulos e de ética que os caracteriza. Da mesma forma que são incapazes de trazer uma réstia de esperança ao povo português - cujo empobrecimento é a contrapartida para o seu colossal enriquecimento pessoal ou de grupo - aceitaram com a maior naturalidade a gatunagem que a abarrotar com o produto do saque feito aos milhões de angolanos remetidos à pobreza, à miséria e à morte, aqui vieram com eles comerciar. Abastecidos com o seu dinheiro a escorrer o sangue dos angolanos, como denunciou então o jornalista Rafael Marques. Aceitando com enorme satisfação assumirem um papel simétrico daquele que tinham tido durante o período colonial. Essa nova relação colonialista que Isabel dos Santos - mas não só -  conferiu aos seus negócios com Portugal não escapou ao escrutínio da imprensa estrangeira, como aqui referimos.

O escândalo rebentou. O saque aos recursos do Estado angolano atingiu dimensões assustadoras. A divulgação feita pelo Expresso e pela SIC Noticias é acompanhada pelos grandes orgãos de informação internacional. Como é o caso deste vídeo do Le Monde que mostra a relação entre Luanda/Isabel dos Santos e Portugal. Ou deste outro trabalho divulgado pelo The Guardian.

Em Portugal não haverá consequências. É o costume. É necessário aguentar a pé firme, fingir que não foi nada connosco e escolher os novos parceiros em novos negócios que assegurem o costume: enriquecimento rápido de um pequeno grupo, de preferência os mesmos.

O que se passou em Angola é a uma outra escala o que se tem passado em Portugal. A extremamente desigual distribuição do rendimento disponível condena os portugueses na sua maioria à pobreza ao longo da sua vida. Em Angola as empresas públicas foram usadas para assegurar a transferência do património dos angolanos para os bolsos dos ladrões que constituíam a chamada elite. Em Portugal é a necessidade de desviar recursos - numa dinâmica imparável, em que os buracos se sucedem consecutivamente - para evitar males sistémicos, a corrupção constante e nunca combatida - a menos que com ineficazes medidas de "papel" - que justifica a condenação à pobreza de largas camadas da população. São os mesmos protagonistas, afinal.

PS - Ana Gomes tem sido uma das raras, senão a única, pessoas que fazem desta denúncia um dever de todos os dias. Merece o nosso apoio e aplauso.

17/01/20

"Escola a Tempo Inteiro"

um projeto para os alunos até ao 6º ano passarem a estar na escola das 9 às 17 horas (ah, no meu tempo... do 1º ao 4º ano só tínhamos aulas de manhã; no 5º e 6º havia dias em que tínhamos aulas à tarde, mas era para aí 2 ou 3 dias com aulas de manhã e de tarde e 2 ou 3 dias com aulas só de manhã; claro que em paralelo havia outro lote de crianças que tinha as aulas ao contrário); os diretores das escolas dizem que isso só será possível com mais professores.

Sugestão - se é necessário manter as crianças ocupadas até às 5 da tarde, em vez de "atividade de enriquecimento curricular" e de contratarem mais professores ou especialistas, poderiam simplesmente providenciar um recreio, uma sala com jogos e uma biblioteca para as crianças depois das aulas se entreterem de forma largamente auto-gerida (note-se as 3 diferentes categorias de possivel entretenha propostas - atividade física exterior, jogos de sala e ler - para atender às várias possíveis inclinações do público-alvo), e contratar alguns auxiliares de ação educativa para os vigiar.

10/01/20

A laicidade é ilusória?

Há uns dias, o Esquerda.Net publicou "Laicidade: a ilusão de uma solução", de João Ferreira Dias; eu confesso que não percebi muito bem o que o autor queria dizer com o seu texto (mas não gosto do que suspeito* que ele quer dizer...), e estava há algum tempo a pensar em escrever um post sobre isso.

Talvez ainda escreva mais qualquer coisa, mas para já foco-me neste ponto, que me parece central à tese:
Uma das consequências do positivismo e das teorias da secularização, enquanto programa de “evolução civilizacional”, foi a crença no fim da religião. Há que dar razão a Glasner e Stark, autores que, com um intervalo de duas décadas, confluem afirmando a secularização como um mito de natureza sociológica e uma profecia falhada. A estes autores podemos juntar outros, como Fischter e Hadden que observam a secularização como uma ideologia da própria ciência, um dogma da disciplina sociológica. Lechner vai ao ponto de a considerar uma tese etnocêntrica ocidental. Enfim, apesar de ter sido criada como uma proposta académica, a secularização era e é, em rigor, uma espécie de aspiração filosófica do racionalismo ocidental.
Entretanto, no mundo real:


New survey reveals drop-off in religiosity across Arab world, especially North Africa - BBC Arabic attitudes survey reveals 46 percent of young Tunisians identify as 'not religious'

Uma coisa que noto é que quase toda a bibliografia de João Ferreira Dias, argumentado que a secularização é um mito, é do século passado - Glasner é de 1977, Stark de 1999, Fishter de 1981 e Hadden de 1987; mesmo há algumas semanas tinha lido um artigo sobre o abandono da religião pelos "millenials" (isto é, as pessoas na casa dos 30 e tais), que contrastaria com as previsões que tinha sido feitas no principio do século sobre o regresso da religião - mas o artigo era sobre os EUA, pelo que usá-lo como referencia poderia ser sempre o exemplo do tal "etnocentrismo ocidental"; mas pelos vistos também o mundo árabe (ou pelo menos o norte de África) está em maré secularizadora.

Editado às 18:05 de 2020/01/10: poderá argumentar-se que nada do que falo aqui tem seja o que for a ver com laicidade (o Estado não ser religioso), mas sim com secularização (os indivíduos não serem religiosos); mas como o argumento de João Ferreira Dias parece-me ser que não era possível a laicidade sem secularização, a secularização crescente é relevante para pôr em questão a sua tese de que a laicidade seria uma ilusão.

*posso estar completamente enganado, mas tenho o palpite que a ideia do João Ferreira Dias será algo como substituir a "laicidade" pela "multiconfessionalidade" - em vez de se exigir que deixem de haver padres católicos a benzer a inauguração de edifícios públicos, passar a exigir que sejam convidados também um pastor da IURD, um imã muçulmano, um xamã animista ou talvez um médium espírita.

09/01/20

O novo Governo de Espanha. Afinal, Podemos.

A investidura do novo Governo de Espanha consagra pela primeira vez na Península Ibérica a chegada ao Governo dos sectores à esquerda dos partidos socialistas.
Contrariamente ao caso português em que os socialistas governaram quatro anos com base num acordo parlamentar feito com o PCP e com o BE, neste caso o PSOE estabeleceu uma coligação de Governo com o Podemos, contando ainda com um leque variado de apoios parlamentares.

Este acordo de Governo não se constrói em torno de um programa mínimo, como no caso português em 2015, mas tem por base um programa progressista que os protagonistas classificaram como "valiente e histórico".

O novo Governo vai revogar a Lei Laboral que o PP tinha aprovado em 2012 e que se traduziu na retirada de importantes direitos aos trabalhadores. Vai revogar a fórmula de cálculo das pensões aprovada em 2013 pelo PP acabando com o factor de sustentabilidade -que condiciona negativamente o cálculo das pensões em função da evolução da esperança média de vida - e com o índice de revalorização - que condiciona o aumento do valor da pensão à evolução da economia. Desta forma milhões de pensionistas verão as suas reformas significativamente actualizadas.

Vai além disso aumentar o salário mínimo para 1200 euros. Recorde-se que em Dezembro de 2018 o PSOE aumentou o salário mínimo de 735 para 900 euros, já com base num entendimento orçamental para 2019 estabelecido com o Podemos. Depois desse aumento de 22% a coligação que vai governar Espanha procede a um novo aumento de mais 33%. Os espanhóis vão ver o seu salário mínimo aumentar - no espaço de um ano - 465 euros. Nada que se compare com a pobreza que impera do lado de cá da fronteira com o salário mínimo a situar-se em confrangedores 635 euros e a chegar aos 750 euros em 2023. Não há registo que estas medidas levem ao colapso da economia espanhola, antes pelo contrário.

Vai, além disso, aumentar os impostos sobre os mais ricos, aqueles que ganham mais e detêm mais património. Vai intervir na fixação do valor das rendas habitacionais, visando controlar os preços especulativos determinados pela acção do Mercado livre.

O PSOE foi o partido mais votado nas últimas eleições mas esteve longe de conseguir uma maioria absoluta. Comparativamente com os resultados das eleições de 2015 em Portugal o PSOE teve, no entanto, um resultado melhor do que o seu congénere português.

A diferença entre a solução política agora encontrada e aquela que ficou conhecida como Geringonça, entretanto falecida, radica na atitude dos parceiros. A principal razão para o BE e o PCP não integrarem o Governo - recorde-se que caso tivessem colocado essa condição o PS ou aceitava ou ia para novas eleições num quadro muitíssimo desfarovável - foi a questão europeia. Curiosamente, no caso espanhol, não há registo que esta "condição" tenha atrapalhado o Podemos. O PS português limitou-se a aproveitar.

Por isso a leitura aqui feita por Boaventura Sousa Santos é pouco rigorosa. Não há um álibi espanhol - baseado na natureza do regime e na questão das nacionalidades - que impõe uma solução governamental com estes protagonistas em Espanha. O que aconteceu  em Portugal foi do domínio da cegueira e do sectarismo. Resultou da incapacidade política, e de um espírito marcadamente anti-europeu que impera nos dois partidos, BE e PCP.

Os resultados foram aquilo que se sabe: uma governação capaz de cortar o passo à direita radical mas incapaz de alterar as condições de desigualdade extrema presentes na sociedade portuguesa.  Uma governação muito "controlada" pela necessidade de satisfazer os humores de Bruxelas, agudizada pela eleição de Centeno para Presidente do Eurogrupo, incapaz de inverter a degradação do estado social, com um real agravamento das condições de acesso à saúde, à educação e à habitação por parte dos portugueses. A Geringonça faleceu vitima dos resultados das últimas eleições - que consagraram um aumento da votação à esquerda, paradoxalmente - e hoje, no momento de aprovação do primeiro orçamento da legislatura,  a esquerda parlamentar discute o futuro a partir de um aumento dos salários da função pública de 0,3% imposto pelo PS e com um aumento do paupérrimo salário mínimo de 35 euros. Um outro mundo, bastante pior.

Imagine-se apenas o impacto de um aumento do salário mínimo em 465 euros para cerca de um milhão de portugueses.


Relembrando o passado ||

Na sequência disto, parece que é altura de lembrar também o apoio dos trotskistas do Sri Lanka a um governo burguês nos anos 60/70.

08/01/20

Relembrando o passado - o PC Francês em 1936

Discurso do então líder comunista Maurice Thorez, em junho de 1936, apelando ao fim ("é preciso saber acabar uma greve") da vaga de greves que então assolava a França.


Não encontro uma tradução em português, mas está aqui uma em inglês; o discurso foi largamente em resposta ao artigo do "socialista de esquerda" Marceu Pivert (da facção "Esquerda Revolucionária" da SFIO, uma oposição interna que pouco depois se tornaria um partido autónomo) Tout est possible, publicado a 27 de maio.

30/12/19

Mais noticias bolivianas

Além da notícia do dia, tem havido mais notícias da Bolívia dignas de atenção

- O governo prepara-se para excluir algumas zonas do país das eleições, com o argumento que lá não há polícia - Murillo advierte al trópico: “Cuidado que por ponerse duros no tengan elecciones” (Los Tiempos)

- O governo também redefiniu cortes de estrada como "terrorismo" e está usando isso como base para tentar prender o ex-presidente Morales

- Um ex-ministro, próximo do atual regime, propôs que a amnistia pelos protestos de 2003 fosse retroativamente revogada

- Está mais ou menos assente que o mandato da presidente interina vai ser prolongado, por não haver condições para fazer eleições agora; no entanto, grande parte dos apoiantes da presidente recusa que o mandato dos deputados também seja prolongado, pelo que se levarem a sua avante a presidente interina se tornaria numa espécie de ditadora interina, governando sem parlamento (talvez governando por decreto?)

[Uma fonte para quem queira seguir a situação boliviana - o twitter de Carwil Bjork-James]

26/12/19

Ler os Outros: Sobre a corrupção e o seu combate

Um tema para todas as estações: o combate à corrupção.

Numa época marcada pela emergência das forças reaccionárias, xenófobas e fascistas, que adquirem uma cada vez maior expressão parlamentar, verifica-se que o combate à corrupção tende a ser instrumentalizado por essas forças.

As reacções daqueles que governaram em nome da esquerda - embora muitas vezes a leste do que se poderia considerar uma governação de esquerda - é, muitas vezes, pela singularidade das soluções adoptados, apenas e só a confissão da falta de empenho em combater a corrupção. Há nesta opção uma escolha e uma decisão política claras. Na relação entre o Estado e o Mercado o Governo opta por um lado A corrupção permite ao Estado intervir no processo económico como facilitador definindo quem ganha e quem perde, favorecendo uns em detrimento de outros, actuando por exemplo ao nível das regras do urbanismo e ao nível da contratação pública.

Vale por isso a pena ler este texto de Maria José Morgado publicado no Expresso. Uma boa leitura para a quadra natalícia, para todas as quadras, aliás.


15/12/19

ELEIÇÕES NO REINO UNIDO - IV

O resultado das eleições no Reino Unido deu aos conservadores a vitória anunciada. Já aqui tinhamos, sucessivamente, manifestado o nosso cepticismo quanto a uma possível vitória do Labour e da equipa de Corbyn.
A hipótese do voto táctico revelou-se uma miragem. Os conservadores ganharam muitas circunscrições aproveitando a perda de votos directamente do Labour para os Lib Dem (Warrington South, Delyn, entre outras). Kensigton, que mudou de mãos por 150 votos - replicando o que tinha acontecido em sentido inverso em 2017 - foi uma das circunscrições em que os Lib Dem mais do que duplicaram o número de votos, passando de 4 mil para 9 mil.

Há uma verdade objectiva: os LIB DEM aumentaram o seu número de eleitores em 2.121.810. No entanto perderam 10 deputados.  Os conservadores viram o seu número de eleitores aumentar 1.587.365, o que correspondeu a um aumento de 66 lugares. Com uma perda de 1.094.492 votos os trabalhistas viram o seu grupo parlamentar reduzido em 42 lugares.

Do meu ponto de vista a estratégia de Corbyn revelou-se um desastre que se foi, aliás, consolidando ao longo da agonia da senhora May. Esssa agonia foi também a agonia do projecto do Labour e do que ele significava: mais justiça social, redução das desigualdades, reforço dos serviços públicos.

Já aqui escrevi e julgo que os resultados das eleições confirmam essa análise: a opção pelo Brexit - implicita e explicita na evolução de Corbyn pós eleições de 2017, e durante esta campanha com a sua patética defesa de uma suposta neutralidade face a um segundo referendo - foi um desastre. A maioria dos eleitores do Labour apoiaram o Remain and Reform em 2016, que foi aliás a posição oficial do partido. Muita dessa energia dos apoiantes do Remain inundou e impulsionou a eleição de 2017 e a ascensão do partido. Em 2019 não se viu nada disso.

A perda da Red Wall era inevitável. Há um movimento tipico das zonas mais desfavorecidas, torturadas pela austeridade e pelo desinvestimento, a favor das forças nacionalistas. Não se trata de sair da Europa, trata-se sobretudo de dizer não aos emigrantes e à deslocalização das empresas. Optaram, como acontece um pouco por todo o lado, por se entregarem às mão do melhor carrasco.
Para combater esse movimento há que chegar ao poder e mudar a política.

A falta de coragem de Corbyn em defesa da Europa, uma Europa que o Labour poderia ajudar a mudar, custou-lhe muitos votos dos Remainers, que abandonaram o partido e se juntaram aos Liberais Democratas ou se abstiveram. Com uma estratégia centrada na defesa do Remain, o Labour teria consolidado as zonas ganhas em 2017 aos conservadores e poderia ter expandido a sua influência noutras zonas. Teria evitado o desastre total sofrido na Escócia. Certamente não teria melhores resultados na Red Wall. Mas será que teria pior resultado do que aquele que obteve nestas eleições?

Cada um defende aquilo em que acredita. Corbyn - um homem sério, um democrata, vilipendidado pela imprensa tablóide e pelos poderes económicos que ele aliás desafiou de forma aberta - deixou-se encurralar por uma pequeno grupo com uma visão retrógada anti-europeia. Não se pode liderar quando não se é claro sobre aquilo que se defende. Há uma coisa que a esquerda já devia ter aprendido: não vale a pena querer fazer aquilo que a direita nacionalista e libertarista faz muito bem. O Brexit é a proposta de uma sociedade mais desigual, mais corrupta, mais autoritária, mais xenófoba. Alguém de esquerda tem que ter uma posição clara de oposição a este projecto. O vencedor do Brexit, e seu mentor, chama-se Boris Johnson.

14/12/19

Sobre as eleições britânicas

Atendendo aos resultados foi efetivamente mais uma derrota dos Trabalhistas que uma vitória dos Conservadores; há quem diga que foi uma rejeição do "radicalismo" de Corbyn - faz sentido: o Labour perdeu cerca de 2 milhões e meio de votos face a 2017 porque muito eleitores que até simpatizavam com o centrista que na altura liderava o partido assustaram-se com o radical Corbyn.

Claro que a hipótese do "radicalismo" não faz grande sentido, pelo que parece-me que a razão mais provável para a queda eleitoral dos trabalhistas seja o Brexit (ok, houve também as falsas acusações de anti-semitismo, mas interrogo-me se isso terá influenciado alguém além dos que já estavam previamente convencidos).

Diga-se que quando começaram a sair resultados a minha primeira impressão foi de que as quedas da votação do Labour eram acompanhadas sobretudo por subidas do Brexit Party (claro que o BRX subiria sempre, porque é um novo partido, mas em grande parte desses circulos não tinha havido candidato do UKIP em 2017); veja-se uma das primeiras vitórias conservadoras anunciadas, Blyth Valley:


E a maior parte dos lugares perdidos pelos trabalhistas no nordeste de Inglaterra (uma das regiões onde houve maior perca de deputados) seguiram esse padrão - cerca de metade dos votos perdidos foram para o Brexit Party; e quase todos os círculos perdidos foram círculos que votaram "Leave" no referendo.

É verdade que no conjunto do Reino Unido isso não se verificou, e o principal beneficiário com a descida dos trabalhistas foram os liberais-democratas (e o "aumento" de 2 pontos do Brexit Party ainda é menor do que parece, porque o UKIP desceu 1,8 pontos, pelo que o partido-liderado-pelo-Nigel-Farage teve só mais duas décimas de ponto percentual - mas convém notar que não concorreu em muitos círculos):


Mas no contexto de um sistema eleitoral maioritário, o que foi relevante foi a transferência de votos para o Brexit Party (e para os conservadores, claro) - a transferência para os liberais-democratas parece ter ocorrido sobretudo em circulos que não mudaram de partido.

Muita gente está a dizer que foi um erro os trabalhistas terem, nestes últimos meses, colocado-se de forma praticamente aberta do lado do remain, propondo a realização de um segundo referendo - mas suspeito que se se tivessem posto de forma decisiva ao lado do brexit (e, sobretudo, do brexit conduzido por Boris Johnson) teriam há mesma tido grandes perdas, só que noutros sítios (claro que o sistema eleitoral FPTP tem peculiaridades - se os bastiões tradicionais dos trabalhistas, e agora pró-brexit ,no norte de Inglaterra tiverem sido ganhos em 2017 com uma margem eleitoral mais estreita do que os novos bastiões trabalhistas pró-remain na zonas da "elite metropolitana", isso quer dizer que foi mais grave ter perdido votos nos primeiros do que seria ter perdido nos segundos; aliás, como se viu acima, os trabalhistas perderem com certeza mais votos para os liberais-democratas, mas esse perde de votos pouco impacto teve no resultado em termos de deputados, devido à geografia eleitoral).

Já agora, ocorre-me que nalguns círculos talvez tenha sido bom para os conservadores que o Brexit Party tenha concorrido: se calhar houve eleitores que passaram dos trabalhistas para o BRX  (permitindo que esses círculos passassem para os conservadores) mas que teriam votado trabalhista se a única alternativa fosse o partido dos "posh boys" e da Thatcher.

Mais uns pontos:

N'O Observador, Miguel Pinheiro escreve que "Os opositores do Brexit queriam, portanto, um segundo referendo — e foi isso mesmo que tiveram esta quinta-feira"; na verdade, na quinta-feira passada, se fosse um referendo, teria sido uma DERROTA do Brexit (ou pelo menos do "Brexit realmente existente") - liberais-democratas, verdes, independentistas escoceses e regionalistas galeses (todos defensores do hard remain) mais os trabalhistas (opostos ao Brexit de Boris Johnson e defensores de um segundo referendo) tiveram 50,7% dos votos - claro que não se pode extrapolar totalmente de uma eleição legislativa para um referendo, já que a posição sobre o Brexit não terá sido o único assunto (terá havido remainers a votar conservador e brexiters a votar trabalhista, p.ex.), mas foi neste terreno que o Miguel Pinheiro se decidiu colocar (já agora, se, p.ex.. os liberais democratas tivessem ganho as eleições e cancelado o brexit, sem sequer fazer um novo referendo, como deram a entender, será que a eleição também contaria como um segundo referendo?).

Finalmente, como não poderia deixar de ser, apareceram uns sondagenfóbicos a dizer que "as sondagens voltaram a falhar"; mas que falha houve aqui nas sondagens??? O resultado foi mais ou menos o previsto pela maior parte das sondagens, nomeadamente as mais recentes, mais ponto percentual, menos ponto percentual:

Eu dá-me a ideia que para certas pessoas dizer que as sondagens falharam já é uma parte tão integral da sua rotina diária, como ir tomar o café da manhã, que têm a compulsão de dizer isso, mesmo quando elas acertam.

10/12/19

ELEIÇÕES NO REINO UNIDO - III

Falta apenas um dia para concluir a campanha eleitoral no Reino Unido. No dia 12 o país vai a votos.
As evoluções dos últimos dias não permitem esperar outro resultado que não a vitória dos Conservadores.
Faltará saber qual é a dimensão dessa vitória. Se com maioria absoluta ou se uma maioria relativa reforçada, quando comparada com o resultado da senhora May.
Aos trabalhistas e a Corbyn já só resta uma esperança: o impacto do voto dos novos eleitores. Parece ser nesse movimento de fundo - a existir - que se confinam as esperanças trabalhistas.

Nos últimos textos analisei vários factores que influenciaram decisivamente o resultado destas eleições. Ignorei um desses aspectos mais importantes: a campanha da ortodoxia judaica que elegeu Corbyn como um seu inimigo confesso. O rabino da comunidade judaica assumiu um comportamento nunca antes verificado. Declarou em plena campanha eleitoral que Corbyn não era um homem confiável para ser primeiro-ministro. Nunca na história da democracia britânica um líder religioso tinha tomado uma posição tão claramente política imiscuindo-se na luta partidária.

Corbyn não soube lidar com esta questão. Não foi capaz - e teve tempo para o fazer - de clarificar de forma límpida o seu posicionamento e do partido. Contra atacando aqueles que misturam a posição do governo de Netanyau com a posição dos judeus, como acontece com o rabino.

Mas, insisto, o maior erro de Corbyn foi o seu posicionamento face ao Brexit. A menos de duas semanas do final da campanha o Labour percebeu que estava à beira de perder parte da sua sempre fiel Red Wall, que votara maioritariamente pelo Leave. Optou nessa altura por concentrar aí os seus esforços, sem que se tenham verificado grandes progressos.

Entretanto, a maioria dos apoiantes do Remain,  entre os  que votaram Labour nas últimas eleições,  dividiram-se, e uma parte apoia agora os Lib Dem, partido que ao longo de anos apoiou os conservadores e as políticas austeritárias que penalizaram os britânicos. Esse apoio irá traduzir-se numa significativa perda de deputados do Labour a favor dos Tories. Os LIb Dem cumprem mais uma vez o seu papel histórico de aliados dos conservadores. Neste caso foram os trabalhistas que ajudaram à festa. Deveriam ter clarificado a sua posição a favor do Remain - que esvaziava os Lib Dem - e concentrado forças a recuperar o que fosse possível da Red Wall. [defendo esta posição desde sempre e não por razões de pura aritmética eleitoral. A Europa necessita de uma política "for the many not the few" que Corbyn deveria ter liderado. Não partilho da posição cobarde dos iluminados da esquerda que entendem que a política europeia não é reformável e que manifestam simpatia por movimentos como o sinistro Brexit de Johnson e Farage]

Os resultados das eleições só se conhecem depois de todos terem votado. A menos que haja uma vaga de fundo em defesa do SNS, do Direito à Habitação, da Educação Pública e pela redução das desigualdades, o patético líder dos conservadores irá dispor de quatro anos para tornar o Reino Unido uma sociedade ainda mais injusta e governar à imagem do presidente americano.

Não chegam boas notícias do Reino Unido.

08/12/19

O socialismo selvagem por Charles Reeve


Em tempos de neurastenia em que os apóstolos do there is no alternative parecem próximos de conseguir enfiar-nos o colete de forças do come-e-cala, livros como O socialismo selvagem são uma verdadeira lufada de ar fresco. Livros que lembram de forma inteligente, bem documentada e não resignada, que o poder verdadeiro, o poder autêntico, o poder real, apenas jaz provisoriamente nas mãos das autoridades estabelecidas, que o pervertem para servir interesses refastelados nas poltronas do imobilismo. O verdadeiro poder não está no tronco prometido a uma morte grotesca. Está na seiva. Está na vida. Assim imagino que tenha soado o Elogio da loucura de Erasmo para os seus leitores entorpecidos no sórdido comércio da palavra divina transformada em ritual oco e vazio. Da mesma forma, o empolgante ensaio de Charles Reeve (pseudónimo do nosso querido Jorge Valadas) vem lembrar-nos que o socialismo não foi cunhado pelos Doutores da Lei, nem concebido em forma estandardizada, pronto a ser enlatado... ou engavetado.

Tout ça n’empêche pas Nicolas
Qu’la Commune n’est pas morte !

Há quem se borre de medo com a perspectiva de ver o poder cair na rua. Mas, felizmente, há também quem tenha convicções genuinamente democráticas e lembre que a soberania nasce na rua, a quem cabe restitui-la regularmente. Os primeiros costumam pedir socorro a generais peritos em aquartelar a turba nas fortalezas do possível. Os segundos procuram antes desarmar os terratenentes do conformismo e retardar o momento em que a plebe regressará do Aventino.  Estes últimos – e Charles Reeve/Jorge Valadas é incontestávelmente um deles –  sabem que a efervescência do poder revolucionário, indisciplinado, indomável, selvagem, é o fabuloso laboratório do amanhã, porque sabe pintá-lo com as cores vivas e contrastadas do impossível. Percorrendo a história dos movimentos populares, o livro mostra com inteligência e rigor como isso se verificou sempre : em 1789-1795, e outra vez em 1871, em França, em 1917-8 na Rússia, em 1918-21 na Alemanha, em 1936 em Espanha, em 1968 novamente em França, em 1974-75 em Portugal, em 1994-96 no México, etc. Sem nunca ocultar que, em cada uma dessas occorrências, muito cedo se manifestaram as forças reaccionárias que acabaram por abafar ou desvirtuar o movimento.

Se o livro se contentasse com expor essa História, já seria o suficiente para recomendar acaloradamente a sua leitura, no panorama actual de demissão intelectual e de reverência generalizada diante do arcanjo engravatado que combate, supostamente para o nosso bem, o mostrengo da percentagem do défice. Mas o livro faz muito mais. Demonstra que essa História é actual, hoje mais do que nunca. Atento aos movimentos populares que, do Ocupy Wall Street ao Nuit debout, passando por outros, teimam em manter acesa a chama do inconformismo, o autor procura ouvir o que eles dizem em substância, a maneira como as suas reivindicações, longe de serem quimeras utópicas, actualizam e elucidam os anseios mais arcaicos e mais profundos do povo em movimento. Utópicas são as igrejas que nos tentam vender o céu às postas ! Quando o povo se levanta, nunca é para sonhar, mas para realizar, para alcançar, para cumprir. Nesse sentido, vale a pena ler com atenção as páginas dedicadas às reflexões sobre a problemática dos comuns e sobre a crise da representação política. Sem furtar-se à crítica dos inevitáveis disparates, que tantas vezes são por onde o sectarismo escolástico consegue infectar o movimento, Reeve mostra como o pensamento vivo se caracteriza pela propensão para reanimar concepções antigas, quando não ancestrais, e dar-lhes uma insuspeitada e inteligente actualidade. Não sei até que ponto há no Socialismo selvagem uma alusão consciente ao Pensamento selvagem de C. Levi-Strauss, mas o  parentesco parece-me evidente.  Num caso como noutro, vemos como a espontaneidade criativa do homem em sociedade, nas suas manifestações mais genuinas, que tantas vezes são consideradas “toscas” pela corja dos instalados, revela aquilo que ele tem de mais nobre e de mais promissor, que é fatalmente rebelde à instituição estabelecida.

Um livro que ilustra a célebre frase de O. Wilde, ou seria de W. de Faulkner, ja não sei, nem interessa : “a sabedoria é ter sonhos suficientemente grandes para não se perderem de vista quando os perseguimos”.

Escrito em francês e publicado em França em 2018 (por L’échappée), o livro acaba de ser publicado em Portugal pela Antígona (2019), numa tradução de Luís Leitão.

07/12/19

ELEIÇÕES NO REINO UNIDO - II

Como referi no post anterior tenho sérias dúvidas que o Labour consiga evitar uma maioria absoluta por parte dos Conservadores.

Há duas razões - além do posicionamento da imprensa, abordado no post anterior - que contribuem significativamente para esse resultado previsível: em primeiro lugar o facto de o partido do Brexit, liderado por Nigel Farage,  ter declarado que não concorre em todas as circunscrições em que os Conservadores são tradicionalmente a segunda força, nas quais o Labour enfrenta dificuldades com os seus velhos militantes e apoiantes que no referendo de 2016 apoiaram o Leave; em segundo lugar a desastrosa gestão do dossier Brexit por parte de Corbyn e dos seus conselheiros políticos. Corbyn que fez campanha pelo Remain and Reform - uma campanha pouco interessada, diga-se - evoluiu depois para uma posição de pró-Leave ainda que atenuada por um, incompreensível,  processo de negociação das condições de saída. Logo após a apresentação do Manifesto o líder trabalhista teve necessidade de esclarecer (?) que  iria adoptar uma posição neutral no segundo referendo. Quer isto dizer que sendo primeiro ministro - única condição para haver um segundo referendo - ele não tomará posição na mais importante questão política que divide o Reino Unido. Uma ideia bizarra justificada pela pretensão de ter sol na eira e chuva no nabal. Nos dois debates com Johnson, Corbyn foi claramente superior ao seu oponente, com as questões sociais e a discussão sobre a intervenção do Estado na economia a serem áreas em que mostrou a distância colossal que o separa do actual primeiro-ministro. No entanto, quando o tema Brexit vem para a discussão Corbyn fica tolhido pelas suas contradições e compromete o seu desempenho.

Uma sondagem, apenas uma, dá ao partido conservador uma maioria esmagadora nas próximas eleições. No entanto essa sondagem - e a forma como ela foi feita -  foi a única que previu o resultado de 2017. Esse resultado a acontecer será determinado pela perda de um conjunto de circunscrições que constituem a famosa "Red Wall" situada no Norte operário. Estas populações viraram as costas ao Labour e identificam a União Europeia como a principal responsável pela sua situação. Foram severamente afectados pela desindustrialização e pela deslocalização das principais empresas, facto que obedeceu a objectivos de política interna dos conservadores. Nem o plano de reindustrialização de Corbyn, nem a sua revolução verde, nem o reforço dos serviços de saúde e de educação, nem o aumento do salário mínimo para 12 euros por hora, os demove de votarem nos conservadores para garantir o Brexit tão cedo quanto possível.

Esta questão suscita várias reflexões e um aceso debate. O Labour foi obrigado a concentrar a sua campanha nestes territórios tradicionais com o objectivo de tentar minorar as perdas. Há um sentimento de frustração entre estas comunidades abandonadas ao longo de décadas e um descrédito total na democracia. Vimos o mesmo cenário na Grécia com cidadãos a passarem directamente do apoio aos comunistas e socialistas para a Aurora Dourada. Paul Mason, mais uma vez reflecte sobre esta situação.




O Labour sob a liderança de Corbyn tornou-se uma ameaça para a ordem vigente no Reino Unido desde que a senhora Teatcher assumiu a liderança nos idos de 1979.

Nesses longos 40 anos -  em que se inclui um hiato de 13 - 1997-2010 - em que os trabalhistas governaram o Reino Unido, primeiro sob a liderança de Blair - até 2007-  e no tempo restante com  Gordon Brown, sem alterarem no essencial a política dos conservadores - o Reino Unido tornou-se o país mais desigual da Europa e o segundo mais desigual do mundo desenvolvido, logo atrás dos Estados Unidos. Isso apesar de ser a segunda economia da Europa, atrás da Alemanha, e a quinta do mundo. Há hoje no Reino Unido uma pobreza generalizada agudizada pela crise na habitação. As pessoas da classe média e baixa são empurradas para as periferias e vivem em condições degradantes se atendermos ao que se passava vinte anos atrás. Isto apesar da prosperidade do País.

O Manifesto para estas eleições  apresentado por Corbyn sob o título "Is Time for Real Change" foi considerado pela editora de política do  Guardian,  Heather Stewart, como o programa político mais radical dos últimos 35 anos. Na linha, aliás, do que lançara em 2017.

As grandes orientações políticas do Manifesto organizam-se em torno de uma ideia muito simples: devolver ao Estado um papel líder na condução da política económica do País. Para isso o Labour propõe-se  :  reconstruir os Serviços Públicos, com destaque para a educação, a saúde e os transportes, com acesso gratuito à Internet para todos os cidadãos; combater a pobreza e a desigualdade, com a construção de um milhão de novas habitações, à taxa de 100 mil por ano, a surgir como medida mais importante, além do acesso gratuito e universal ao ensino pré-escolar e escolar, o fim dos contratos zero-horas e de elevar o salário mínimo para cerca de 12 euros/hora; concretizar uma revolução verde - com a criação de um milhão de novos postos de trabalho, em que a reindustrialização do país será associada a um compromisso com a defesa do planeta; realizar um novo referendo sobre o Brexit e realizar novas negociações, caso o Brexit seja de novo aprovado; uma nova atitude na cena internacional, balizada pela defesa da justiça e da solidariedade internacional.

O Manifesto implica um investimento de mais de 80 biliões de libras que o Labour se propõe financiar com um valor equivalente de impostos sobre as grandes empresas e as maiores fortunas.

Um programa político desta dimensão no coração do neoliberalismo global é uma ousadia que não podia passar incólume. Choveram as críticas, que foram aliás antecipadas pelo líder trabalhista quando apresentou o Manifesto. Em particular o Instituto dos Estudos Fiscais - IFS - atacou o programa do Labour acusando-o de ir aumentar enormemente a despesa pública e de isso implicar o aumento dos impostos sobre a população em geral. As comparações internacionais mostram no entanto que aplicando o programa do Labour em 2023 o investimento público ainda se situará francamente abaixo do que é hoje a realidade em países como a Suécia, a Bélgica, A França, a Alemanha e a Itália.

Estas críticas suscitaram várias reacções e uma ou outra leitura crítica. Trata-se, no entanto, de uma reacção tradicional de quem percebe uma ameaça ao modo de vida instalado, ao seu modo de vida. Modo de vida que permite aos 10% do topo arrecadarem a maioria esmagadora do rendimento disponível. Quem os poderá convencer a fazerem campanha para perderem os seus escandalosos privilégios?







05/12/19

ELEIÇÕES NO REINO UNIDO - I

Estão próximas as eleições antecipadas no Reino Unido. São já no próximo dia 12 de Dezembro, na próxima quinta-feira.

Confesso que não partilho do optimismo de Ken Loach, embora partilhe a maioria das suas opiniões quanto à situação política no Reino Unido e em toda a Europa, e compreenda as razões pelas quais  ele entende que o Labour irá vencer as eleições.




Uma das referências feitas por Loach é ao comportamento da imprensa. Não está sozinho. Há uma campanha de fake news originadas no partido conservador e um tratamento desigual por parte da generalidade da imprensa. Há quem o refira, como é o caso da Universidade de Loughborough que analisa o acompanhamento da campanha pela imprensa   Mas, também Paul Mason, o jornalista e escritor, se refere de forma clara à campanha dos Conservadores e ao posicionamento dos principais orgãos de informação, como se pode ver no vídeo seguinte:



Corbyn, quando as eleições foram marcadas, declarou que estávamos perante uma oportunidade que aparece uma vez numa geração. Subscrevo essa declaração. No entanto, o longo período entre as eleições de 2017 - a culminar um crescimento notável do Labour com a perda da maioria absoluta pelos conservadores - deixou marcas profundas no eleitorado que constituiu a base dessa recuperação sob a liderança de Corbyn. A clivagem entre Remainers e Leavers instalou-se com estrondo no seio do partido trabalhista e esse facto - mas não só - vai decidir o resultado das eleições e permitir aos conservadores uma nova - e catastrófica, sem margem para dúvidas - maioria absoluta, viabilizando uma saída da União Europeia com o único objectivo - como Loach reconhece - de suprimir os escassos direitos que aos trabalhadores ainda são reconhecidos e colocando sectores estratégicos dos serviços públicos - com particular destaque para o Serviço Nacional de Saúde - nas mãos das  multinacionais americanas, além de uma total liberalização das regras de protecção ambiental.

A história ainda não acabou e, apesar das baixas expectativas quanto a uma vitória do Labour, são elevadas as minhas esperanças de que o movimento iniciado por Corbyn, no coração do neoliberalismo global, não seja travado e que mais cedo do que tarde seja possível construir uma sociedade "for the many, not the few."


03/12/19

Em que universo paralelo os engenheiros ganham mais que os médicos?

No twitter, Carlos Guimarães Pinto nota que Portugal é o país da OCDE em que é maior a tendência para os melhores alunos rapazes quererem ir para ciências e engenharia (ele chama-lhe só "engenharia", mas pronto) e as melhores alunas para a área de saúde; a seguir, aparece logo alguém a tentar usar isso como explicação para o wage gap entre homens e mulheres.

Deixando de lado o facto de cerca de metade da diferença salarial entre homens e mulheres ser diferença dentro da mesma profissão, suspeito (isto é, tenho a certeza) que os médicos ganham mais que os engenheiros, portanto, se alguma coisa, essa diferença de preferências poderia originar era uma diferença salarial de sinal contrário à realmente existente. (ok, "saúde" não é apenas médicos - embora provavelmente o seja no grupo que estamos a discutir, dos "alunos de topo").

01/12/19

O estado das Urgências Pediátricas

Num altura em que tanto se fala de urgências pediátricas e blocos de partos fechados por falta de pediatras, de aumento da mortalidade materna, de grávidas a terem que ser transferidas de um lado para outro, etc. há um assunto que ninguém parece discutir e que acho que mereceria ser discutido (agora que se está a ver que os médicos pediatras são um recurso escasso):

Fará sentido a política que tem sido adotada nos últimos anos de mandar para as Urgências Pediátricas todos os menores de 18 anos (pondo no mesmo saco os bebés de colo e os bêbados da noitada anterior), em vez de apenas as crianças propriamente ditas, como antigamente?

25/11/19

Houve ou não fraude eleitoral na Bolívia? (II)

Este assunto parece já ter perdido alguma relevância, já que as várias partes envolvidas já estão numa espécie de processo de acordo, mas de qualquer maneira temos aqui um post de um norte-americano perito em estatística e ciência política, Andrew Gellman (famoso pelo livro "Red State, Blue State, Rich State, Poor State Why Americans Vote the Way They Do") , exatamente sobre esses dois documentos com conclusões opostas.

Gellman não se pronuncia muito, dizendo que percebe muito pouco da Bolívia, mas parece-me que acha o estudo do CEPR (que diz que não houve fraude) um bocadinho melhor (pelo menos na parte da análise matemática) que o da OEA.

22/11/19

Houve ou não fraude eleitoral na Bolívia?

Duas leituras sobre o assunto, cada qual com a sua inclinação:

Statement of the Group of Auditors Electoral Process in Bolivia, publicado pela OEA, indicando que provavelmente ouve fraude

No Evidence That Bolivian Election Results Were Affected by Irregularities or Fraud, Statistical Analysis Shows, publicado pelo Center for Economic and Policy Research, indicado que provavelmente não houve fraude

Diga-se que há uma diferença de estilo entre os dois relatórios - o relatório da OEA concentra-se sobretudo na questão "a maneira como os votos foram contados tornou fácil aldrabar os resultados?" (concluindo que sim), e o do CEPR na questão "os resultados finais anunciados são resultados muito diferentes do que seria de esperar numa eleição limpa?" (concluindo que não).

N-ésima prova de que a extrema-direita não se baseia nas redes sociais

Right-Wing Populism, Social Media and Echo Chambers in Western Democracies[pdf], por Shelley Boulianne, Karolina Koc-Michalska, and Bruce Bimber (via Tyler Cowen):
Many observers are concerned that echo chamber effects in digital media are contributing to the polarization of publics and in some places to the rise of right-wing populism. This study employs survey data collected in France, the United Kingdom, and United States (1500 respondents in each country) from April to May 2017. Overall, we do not find evidence that online/social media explain support for right-wing populist candidates and parties. Instead, in the USA, use of online media decreases support for right-wing populism. 
Isto é mais ou menos o que eu já tinha dito aqui;
Vamos puxar um bocadinho pela cabeça - é mais ou menos sabido que Trump, o Brexit, o FPOe austríaco, etc., têm tido as suas maiores votações nas pequenas localidades, entre as pessoas mais velhas e com menos instrução (a parte das localidades é sabido - basta ver os resultados; a parte do "pessoas mais velhas e com menos instrução" pode não ser assim tão linear, mas é o que as sondagens indicam); parecem-lhes mesmo o tipo de pessoa que passa o dia no Facebook, talvez com um intervalinho para jogar no Farmville ou para ver um filme no Netflix? Eu imagino-os mais facilmente no café do bairro a queixarem-se que "os miúdos de hoje estão sempre agarrados à máquina e já não fazem desporto nem convivem".

A policia lançando gás lacrimogénio sobre a marcha com os mortos nos protestos bolivianos

21/11/19