22/03/19

Vasco Pulido Valente e a greve climática

No sábado passado, Vasco Pulido Valente escrevia, a respeito da greve estudantil sobre o clima, que "Fora meia dúzia de aprendizes de demagogo, que poderiam ir já para o Bloco, o resto repetiu as frases da propaganda que os professores lhes meteram no encéfalo plástico. (...) Isto é um puro abuso de confiança que o Estado permite e encoraja".

A mim parece-me que isso é uma parvoíce - alguém acredita que adolescentes dessa idade fazem seja o que for por os professores lhes dizerem? Muito provavelmente mais fizeram para os "doutrinar" no ambientalismo os bonecos animados que viam e a banda desenhada que liam quando eram mais novos (pelo menos no meu tempo os bonecos animados e a banda desenhada eram totalmente pro-ambientalistas; mesmo o normalmente insuspeito "Tio Patinhas" - incluindo as histórias escritas pelo insuspeitissimo Carl Barks - tornava-se propaganda "SJW/politicamente correta" quando apareciam questões ambientais); e praticamente todos os documentários sobre a natureza que passam em qualquer canal especializado no ramo.

E sobretudo o facto objetivo que há muitos mais estudos científicos indicando que há efetivamente um perigo ambiental do que estudos dizendo o oposto, logo qualquer pessoa (incluindo um adolescente ou um pré-adolescente) que preste atenção a esses assuntos mais facilmente encontra a versão "o ambiente está em perigo" do que a versão "está tudo bem".

15/03/19

Ler os Outros: "Olhe que não, senhor Presidente!"

Um texto do Paulo Guinote, hoje no Público, que desconstrói os argumentos que Marcelo Rebelo de Sousa utilizou para justificar a promulgação do Decreto Lei que fixa em 2 anos, 9 meses e 18 dias o período de recuperação do tempo de serviço dos professores. Do mesmo modo que evidencia mais uma vez a falsidade argumentativa que o Governo utiliza para justificar a sua opção.
Se é verdade que neste Governo todos os ministros são "Centeno", como disse Carlos Fiolhais umas semanas atrás, Tiago Brandão Rodrigues - um clone de Costa para as questões específicas dos "professores" - é duplamente Centeno e,  além disso, alguém que lida muito bem com a falsidade argumentativa e o cinismo que lhe está ssociado.

14/03/19

Ordem do Infante atribuída a Armando Vara?

Hoje é notícia que foi retirada a Ordem do Infante a Armando Vara, em virtude de ter sido condenado a uma pena de prisão superior a 3 anos; o que eu gostava de perceber é porque é que essa condecoração foi inicialmente atribuída - afinal, nem como político nem como bancário ele parece ter sido uma pessoa especialmente destacada (eu até diria que ele só começou a ser mais falado exatamente quando começou a ser suspeito).

09/03/19

Ler os Outros: "Bolha Imobiliária chega à Internet em Portugal?"

No Público de hoje, José Legatheaux Martins, presidente da ISOC PT, capítulo português de uma associação internacional formada pelos fundadores da Internet, reflecte sobre a gestão do domínio.pt.
O autor questiona a posição do Governo, e em particular do MCTES, face à gestão cada vez mais privada de bens públicos objecto de uma taxação. Saliento:

"(...) Visto de fora, até parece que os responsáveis pela gestão do .pt encontraram uma nova forma de usar taxas sobre bens públicos, mas geridos por privados, aparentemente em nome do Estado, para subsidiar programas governamentais. (...)"

Mais uma medida funesta decidida pelo governo anterior que este governo da geringonça não quis ou não soube reverter. Infelizmente, não é caso único.

08/03/19

Sobre o "hiring gap" entre homens e mulheres

A respeito da questão "porque há mais mulheres/homens do que homens/mulheres em certas profissões?" (nomeadamente na segunda variante) costuma haver uma grande discussão sobre se a causa é discriminação ou diferentes inclinações entre homens e mulheres para certas profissões.

À partida, uma forma de testar isso seria comparar o "hiring gap" com o "wage gap" - se o motivo porque há poucas mulheres numa determinada profissão é por via da procura (os empregadores preferirem contratar homens), é de esperar que nessas profissões as mulheres ganhem menos do que os homens (se os empregadores preferirem contratar homens, em principio só contratarão mulheres se puderem pagar-lhes menos); pelo contrário, se for uma questão de haver poucas mulheres a querer ir para essa profissão, é de esperar que as poucas mulheres lá ganhem mais ou menos o mesmo que os homens (suponho que talvez não fosse difícil pegar nos dados deste estudo e fazer um teste - se os setores em que houver menos mulheres a trabalhar forem também os com maior diferença salarial entre homens e mulheres, estará confirmada a hipótese da discriminação).

Independentemente disso, há algo que indicia que alguma discriminação deve existir - o facto de haver muita gente que acha que essas diferenças não tem a ver com discriminação mas com diferenças de interesses e aptidões entre a maior parte das mulheres e a maior parte dos homens; sim, à primeira vista isto parece um bocado alucinado - basicamente, eu estou a dizer que haver muito gente que diz que não há discriminação é um indício de que discriminação; o meu raciocínio - se há muitas pessoas que consideram que há diferenças significativas na distribuição das vocações e aptidões entre homens e mulheres, então também haverá pessoas a pensar assim entre as que são responsáveis pelas contratações; ora, na maior parte dos casos, quem está a contratar um futuro empregado não sabe qual é verdadeiramente o seu potencial profissional, logo tem que se guiar por uma série de pistas que usa como proxy para avaliar a personalidade e capacidades da pessoa que está ali à sua frente - habilitações académicas, "paleio" na entrevista, expressão facil, etc, etc. Ora, se alguém acha que há diferenças relevantes de personalidade entre homens e mulheres, provavelmente também usará o sexo do candidato como uma dessas pistas (estilo "tenho dois candidatos que parecem igualmente qualificados para trabalharem do gabinete de reclamações dos clientes; na dúvida, é mulher contratar esta Patrícia B. em vez deste Miguel R., que as mulheres costumam ser mais simpáticas"), o que conduzirá a alguma discriminação sexual nas contratações (nuns casos a favor dos homens, noutros das mulheres).

Possíveis contra-argumentos:

a) Mesmo que alguém ache que em média as mulheres gostam menos de programar computadores ou mais de atender clientes do que os homens, isso não significa que, num processo de seleção, vá preferir homens ou mulheres por causa disso; afinal, se uma mulher está a concorrer a um trabalho de programadora informática ou um homem ao de atendedor(?) de clientes, isso quer dizer que essa mulher ou esse homem específicos gostam desse trabalho, logo não faz sentido aplicar a eles a regra "pessoas de determinado sexo tendem a não gostar deste trabalho". Mas este contra-argumento não se aplica num mundo em que as pessoas precisam de trabalhar para ganhar dinheiro e em que não há pleno emprego, logo é possível que mesmo alguém que está a concorrer a um emprego não goste verdadeiramente dele (nota - eu já concorri a empregos na área comercial, ramo para o qual sou  e sei que sou manifestamente inadequado), pelo que continua a ser razoável esperar que recrutadores que acreditam em diferenças de personalidade entre os sexos usem essas diferenças como critério de seleção (no mínimo, para "desempate")

b) Em muitos sítios, os departamentos de recursos humanos até são maioritariamente femininos - irrelevante, já que não estamos a falar de uma conspiração intencional para manter as mulheres subordinadas aos homens, mas sim de pessoas simplesmente a contratarem, influenciadas pelas suas premissas prévias, a pessoa que supõem sinceramente que é o melhor candidato.

Uma nota final - grande parte dos campos onde as mulheres têm progredido mais (entrada na universidade, administração pública, justiça - pode não parecer por algumas sentenças, mas penso que grande parte dos juízes e quase todo o Ministério Público são mulheres - etc.) parecem-se ser em áreas em que o ingresso é feito largamente com base em critérios objetivos (como notas de curso) sem grande margem para escolhas subjetivas dos decisores (bem, na Justiça, não faço ideia de como é...);  isso também pode ser visto como um indicio de discriminação - as mulheres estarem mais representadas nos meios em que é mais difícil discriminar à entrada (isto, aliás, deveria dar que pensar aos iluminados que acham diminuir o peso das notas no acesso à universidade iria aumentar a diversidade).



07/03/19

Ler os Outros: "Um Ministério Falhado" de Carlos Fiolhais

Um artigo de Carlos Fiolhais, no Público, que reflecte sobre a actuação do actual ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Uma actuação que se traduz por um rotundo fracasso se o objectivo do ministro fosse, como é admissível e obrigatório, defender e promover a Ciência, a Tecnologia e o Ensino Superior. Talvez não seja sssim a julgar pela Práctica deste ministro e deste Governo. Cito  Fiolhais, que vale a pena ler:

" (...) A razão dos problemas é conhecida: não há dinheiro para a ciência. Heitor, como todos os seus colegas do Governo, é Centeno. Contenta-se com o poucochinho que lhe dão: no seu mandato o sector não passou de 1,3% do PIB, quando em 2009 tinha atingido 1,6% e a média europeia é 2,0% (...)"


27/02/19

Corbyn finalmente de mãos livres para apoiar um segundo referendo sobre o Brexit.

Uma proposta de acordo para "um outro Brexit" foi levada hoje ao parlamento pelo partido de Jeremy Corbyn. Foi derrotada pela conjugação de todas as forças políticas incluindo o novo partido formado pelos dissidentes do Labour e dos Tories.

Com esta derrota Corbyn fica com as mãos livres para defender o segundo referendo e para nesse segundo referendo defender a manutenção do Reino Unido na União Europeia.

O líder trabalhista, sobre cujas hesitações já aqui escrevemos, temia que os seus deputados pró-leave - os que foram eleitos em circunscrições muito castigadas pelas políticas austeritárias impostas pela UE, mas fortemente potenciadas pelas opções políticas dos conservadores - abandonassem o partido ou que passassem a votar conjuntamente com os conservadores. Temia sobretudo pela perda dos eleitores que esses deputados representam. Acabou por ser atacado pela saída dos deputados defensores das políticas austeritárias, que sempre estiveram contra a sua liderança, que lutam por um segundo referendo, convencidos de ser a UE  o mais eficaz travão às políticas mais progressistas incluídas no Manifesto do Labour. Nada mais horroriza esses deputados do que viverem num país com Corbyn como primeiro-ministro de um governo do seu antigo partido.

Depois de ter visto a sua proposta rejeitada Corbyn irá pressionar para que o novo referendo se faça, a menos que sejam marcadas eleições gerais antecipadas. Vamos ver como votarão proximamente os deputados de novo partido - formado entre dissidentes das duas bancadas - quando se colocar a questão do novo referendo. Do mesmo modo que iremos verificar a sua evolução política no apoio às posições de Theresa May.

A questão está em saber se existe força no Parlamento para rejeitar a proposta de May - basicamente recorre a todos os pretextos para se manter no cargo - e impor uma nova consulta. Aí chegados a solução passa para a mão dos cidadãos e, não parece haver dúvidas, a maioria parece estar claramente alinhada com a permanência na UE. A mesma maioria que quer uma mudança de política interna. Uma política mais à esquerda, mais progressista, capaz de combater de frente as desigualdades. 

O debate dentro do Labour vai agora fazer o seu caminho. Talvez fique claro que um partido forte como o Labour, como mais de meio milhão de militantes, muitos dos quais jovens militantes, pode impor mudanças na Europa e não se limitar apenas a uma aplicação de uma austeridade soft - seguindo o exemplo português - que no essencial nada muda.

Se é verdade que Corbyn acertou na mouche ao defender uma política "for the many not for the fews" no seu país, ele falhou quando não foi capaz de perceber que essa política era também necessária na Europa e que isoladamente a sua eficácia seria sempre diminuta. Um falhanço estrondoso que ajudou a redimensionar a verdadeira dimensão do líder trabalhista e a retirar-lhe parte do brilho com que se ergueu das últimas filas da bancada do seu partido para liderar uma revolução na liderança trabalhista. Um falhanço que tem permitido aos Conservadores manterem um Governo agonizante enquanto vão promovendo as suas campanhas para desgastar a liderança de Corbyn.




19/02/19

O governo da esquerda contra o direito à greve?

O parecer da Procuradoria Geral da República vai muito mais longe do que simplesmente limitar a atual greve dos enfermeiros.

Na prática vai limitar fortemente greves rotativas e o recurso a fundos de greve, e também abrir caminho a que trabalhadores em greves prolongadas possam ter que pagar à entidade patronal muito mais do que apenas o ordenado dos dias que fizeram greve - no fundo, está-se a caminhar na direção de o único tipo de greve aceitável serem as greves à CGTP ("grande jornada de luta no dia 22!"): greves simbólicas de um dia, eventualmente acompanhadas de uma manifestação.

Sobretudo, a avaliar pelas notícias, o argumento contra o crowdfundig parece-me entre o idiota e o perigoso: « “a ausência de regras no nosso ordenamento jurídico” que regulem a concessão de donativos às associações sindicais e a constituição de fundos de greves»  e «Nesta parte, pode vir ainda a apurar-se que há donativos ilícitos, frisa-se, lembrando que isto pode também provocar a ilicitude da greve.»; o que foi feito do "inocente até prova em contrário" (ou isso é só para ex-primeiros-ministros?) ou até do "o que não é proibido é permitido" (pelos vistos, os sindicatos só poderiam recolher dinheiro via crowdfundig se houve uma lei a dizer mesmo que podem fazer isso), que costumam ser regras numa sociedade livre?

Penso que nunca o governo do Passos Coelho tentou tal coisa - restringir o direito à greve.

Se não fosse o governo já estar no fim, acho que seria motivo para o Bloco retirar o seu apoio (do PCP não há muito a esperar, porque os sindicatos tradicionais, por este largamente controlados, também são contra greves a sério) - alguém imaginaria o Socialist Workers Party ou o Revolutionary Communist Party of Britain (Marxist–Leninist) a apoiarem as políticas anti-liberdade sindical dos governos de Margaret Thatcher?

Não sendo viável deitar abaixo o governo nesta altura do campeonato, ao menos algum partido ou deputado da esquerda que apresentasse uma proposta de lei que acabasse com os "vazios legais" que o governo e a PGR estão a tentar usar (mas não tenho esperanças disso - como disse, isso quase só poderia vir do Bloco de Esquerda, mas pelo menos algumas figuras de topo do BE também se colaram à campanha contra a greve dos enfermeiros).

Adenda: a ideia que eu tenho é que o Ministério Público (de que a Procuradoria-Geral é o topo) é uma espécie de "advogado de acusação" do Estado; que deveria decidir se greves eram ilegais ou legais não deveriam ser os tribunais?

A esperada cisão no Labour. Um serviço prestado aos Conservadores.

Os jornais portugueses noticiam hoje que sete deputados trabalhistas abandonaram o Labour "descontentes com Corbyn". O Expresso é um dos exemplos que se pode citar. Outros seguiram mais ou menos o mesmo padrão noticioso. No caso do Expresso vai-se ao ponto de escrever que 
" A dissidência é fruto de um longo período de agonia por parte dos deputados que sempre se opuseram à estratégia que Corbyn (não) desenhou para o Brexit.
A noticia do Expresso omite o facto de os "dissidentes" terem formado um novo grupo parlamentar a que chamaram "independent group" e de terem, todos eles, decidido manter-se no Parlamento recorrendo a esse "veículo". Mas foi isso que aconteceu. 

Um grupo parlamentar centrista que alinhará com os Conservadores para tentar impedir a vitória dos trabalhistas numa futura eleição. Nem toda a gente concorda com esta actuação, como é o caso de Joseph Harker, o "opinion deputy editor" do Guardian, que assume ter sido um dos eleitores que elegeu Ummuna em 2017, mas que o critica por não se submeter a uma eleição intercalar. 

My Labour MP, Chuka Umunna, who represents the Streatham constituency, and whom I and 38,000 others voted for less than two years ago, has quit the party and set up in centrist alliance with six others. That 38,000 figure is itself 12,000 greater than in 2015: and those extra voters can be attributed directly to the Corbyn effect – the impact of the Labour leader Umunna has always opposed, yet who galvanised support and won an extra 3.5m votes across the country within two years of taking office.


Esta dissidência não tem nada a ver com o Brexit. Ela deve-se apenas e só à viragem à esquerda do partido conduzida por Corbyn. Viragem que aconteceu depois da terceira via de Blair ter tornado o Labour numa anedota política, uma cópia dos partidos da direita austeritária europeia, que conduziu os Conservadores ao poder por um longo período. 

A notícia não recorre sequer à informação disponível online  - recorrendo por exemplo ao The Guardian - para verificar que Chuka Ummuna, o líder deste processo, é uma figura desde sempre na primeira fila da luta contra Corbyn e, sobretudo, contra a viragem à esquerda do Labour. Ummuna, que, como referido atrás, beneficiou da popularidade crescente que o Labour obteve com a nova liderança, para ser folgadamente reeleito no seu círculo eleitoral, com o melhor resultado de sempre. 

Aliás são vários os críticos que vieram desafiar os dissidentes a fazerem aquilo que no Reino Unido é um hábito: submeterem-se a eleições intercalares no círculo pelo qual foram eleitos. Mas não é essa a sua intenção. Têm outras ideias. 

Os deputados que criaram um novo grupo parlamentar estão em adiantadas negociações com os Tories para uma manobra cujo objectivo é claro: criar todas as condições para evitar que o Labour possa vencer as próximas eleições. As negociações já decorrem com deputados dos  Conservadores que aspiram a formar um partido centrista capaz de funcionar como um parceiro dos Conservadores na governação. Trata-se de actuar de forma a manter a mesma política que transformou o Reino Unido num dos países mais desiguais do mundo. 

Atribuir às hesitações de Corbyn no Brexit este desfecho é um disparate e mostra um profundo desconhecimento da realidade política no Reino Unido. A acção liderada por Chuka Ummuna estava escrita nas estrelas e toda a sua actuação ao longo de anos, desde que Corbyn ascendeu à liderança, apontavam nesse sentido. Unmmuna não traiu as suas convicções, traiu o  seu partido e os eleitores que nele votaram. Veremos que resultados irá conseguir por este grande favor prestado aos Conservadores. 

A ideia de um partido centrista promovido por Ummuna tornou-se um dos sonhos, agora tornado realidade, da extrema direita inglesa, que necessita, para se implantar com cada vez mais força, que as políticas seguidas por Cameron e por May  continuem. Corbyn é uma ameaça a políticas que sejam cada vez mais para alguns poucos e sejam cada vez menos para a maioria dos britânicos. 
Esta dissidência representa na verdade a única possibilidade de os Conservadores não serem humilhados nas próximas eleições legislativas. Mas talvez não seja assim que as coisas se vão passar,  pese embora os primeiros sete sejam rapidamente seguidos por todos aqueles que sabem que não irão ser candidatos a deputados nas próximas eleições. Não serão escolhidos pelos seus constituintes, já que não é o líder do partido quem decide quem são os deputados, como acontece aqui no burgo. Mas não serão escolhidos porque não concordam com a orientação política da maioria dos seus eleitores e camaradas de partido. Uma situação normal numa democracia avançada.

Há quem em Agosto de 2018 tenha escrito e reflectido sobre a inevitabilidade da criação deste partido promovida exactamente  por estes deputados, pelas razões que já então eram óbvias: as ambições políticas dos seus promotores e as ideias políticas que defendem. Ambições porque, naturalmente, não seriam escolhidos  - pelos militantes locais das suas secções para novo mandato de deputados - e ideias políticas porque alguns deles até Ed Miliband acusaram de ser demasiado à esquerda e  a Corbyn acusam-no desde sempre de ser anti-austeridade. Nisso têm razão, como se sabe. 

Hoje, no tempo que escolheram para causar o maior dano possível, deixaram cair a máscara e cumpriram a sua missão. O que é que a posição de Corbyn relativamente ao Brexit tem a ver com esta acção política anti-socialista e anti-democrática deste grupo de deputados? 



13/02/19

Ler os Outros: Acerca das lamentáveis hesitações de Corbyn sobre o Brexit.


O líder do Labour tem estado tolhido pelas suas próprias contradições e fantasmas. O seu posicionamento na crise do Brexit - crise imaginada e realizada por Cameron e Boris Johnson - tem sido muitas vezes traduzido em complicados calculismos eleitorais que visam tentar ao mesmo tempo manter as simpatias dos trabalhistas apoiantes do Brexit e daqueles - largamente maioritários - que apoiaram a campanha por si liderada a favor do Remain. Tarefa impossível e pouco digna, diga-se.

As coisas não se passarão bem assim. O que levará o Corbyn que defende para os britânicos uma política radical "for the many not for the fews" a desistir de a defender na Europa? Será que ele pensa que a Europa não precisa dessa mesma política? Ou será que ele acha que pode concretizar essa política mais facilmente isoladamente fora da alçada das instituições Europeias?

É aqui, nesta não confessada convicção, que radicam todas as hesitações e fraquezas que o líder trabalhista tem acumulado ao longo dos  últimos penosos meses. 

É essa a leitura que aqui é feita e que eu em grande parte subscrevo. Na verdade Corbyn resolveu emular o comportamento de muitos dos seus camaradas - que ele próprio criticara na reunião dos socialistas europeus realizada em Praga em 2017 (ver aqui e aqui)- que uma vez eleitos para as instituições europeias se limitam a aplicar a cartilha austeritária - imposta pela direita conservadora europeia - como se a orientação política e económica conferida à Europa resultasse de uma Constituição Europeia sufragada pelo povo europeu. Camaradas esses que em termos globais caminham para a extinção com as excepções de Portugal e do Reino Unido, cujo crescimento foi enorme antes do seu líder se deixar tolher  pelas suas lamentáveis hesitações. 

Vitória para o patronato?

Plataforma do crowdfunding dos enfermeiros admite suspender financiamento de greves:
Futuras iniciativas de crowdfunding para financiamento de greves estão agora dependentes do que vier a ser concluído nas investigações e pareceres pedidos no âmbito das greves cirúrgicas dos enfermeiros — pelo menos na plataforma portuguesa PPL Crowdfunding. Os cofundadores da empresa não querem “alimentar a fogueira” do braço de ferro entre estes profissionais de saúde e o Governo, sobretudo se não for totalmente claro que o método de angariação de fundos é legítimo para aquele fim.
E não, não é apenas o "patrão-Estado" que ganha com isto - se as empresas de crowdfunding deixarem de recolher donativos para fundos de greve isso afeta a força dos sindicatos em todas as empresas, não apenas no Estado (mesmo naquelas em que nunca tenha havido nem fosse haver uma greve apoiada por crowdfunding, a própria existência teórica dessa possibilidade daria força aos sindicatos nas negociações com os patrões).

12/02/19

Posts que quase por acaso reli esta manhã

Esta manhã, como estava a ver se encontrava um link antigo, ao fazer uma busca no Vento Sueste acabei por reler alguns posts antigos que tinha escrito - dois foram estes: A saída do "Fórum Manifesto" do BE (sobre a saída da Ana Drago e mais uns quantos do BE)  e  Aliança PS/BE? (neste o relevante não é post em si, totalmente desatualizado, mas sobretudo a pergunta nos comentários feita pela "Tárique", sobre «o que é que a facção "revolucionária" ainda anda a fazer atrelada ao bloco.»). Quando ao fim da tarde fui ao facebook e vi as notícias, lembrei-me dos posts que tinha estado a ler mesmo de manhã.

10/02/19

A crise venezuelana e o ditador Maduro.

Sinceramente não percebo qual é a relação entre a necessidade de denunciar as consequências da luta pela hegemonia mundial que as diferentes potências travam e a obrigatoriedade de defender  Maduro, o ditador que desgoverna a Venezuela como se se tratasse de coisa sua.
Maduro é um  ditador. Não é um governante progressista ou socialista ou seja lá qual for o adjectivo que possamos escolher. É um ditador sangrento, que não treme perante o sofrimento que inflige aos seu povo, em particular aos mais desfavorecidos.
Há sempre uma espécie de superioridade moral e intelectual de uma certa burguesia, solidamente ancorada na universidade capitalista, para usar uma terminologia que lhes é cara -  de que Boaventura Sousa Santos é o mais afamado exemplo - que nos vem explicar que tudo aquilo que se está a passar nada tem a ver com a defesa da democracia na Venezuela mas, apenas e só, com uma corrida pelo controlo do petróleo venezuelano. 
O que se passa na Venezuela, não tem nada que saber, é fruto da acção do imperialismo americano. A relativização da ditadura de Maduro é assim compensada pela mais importante denuncia do imperialismo americano. É tudo uma questão de escala e de se recorrer a uma visão global que não estará ao alcance de todos.

O Socialismo XXI jaz e arrefece esmagado pela pulsão ditatorial do regime liderado por Maduro. A correção das desigualdades, a grande bandeira que vinha dos tempos de Chavez, a fazer-se, é pela expansão da pobreza: estão todos a ficar cada vez mais pobres.

Como é possível defender um governante como este? Como é possível valorizar a acção das forças armadas enquanto suporte deste regime despótico? Apenas e só porque estamos perante uma agressão dos americanos no contexto da guerra mundial pela dominação dos recursos naturais que travam EUA, Rússia e China?
Quem atirou a Venezuela para as mãos do império americano, do execrável Trump e dos seus aliados locais? E se for para as mãos do império chinês, o que ganharão os milhões de venezuelanos sufocados pela pobreza extrema com isso?

09/02/19

A ASAE e a greve dos enfermeiros

Pelos vistos, acha-se normal que a ASAE esteja a dedicar atenção especial a investigar uma greve contra a política do governo (e que tal até seja anunciado em letras garrafais pelo seu inspetor-geral).

08/02/19

Os saltos na definição de "socialismo"

Trump Versus the Socialist Menace, por Paul Krugman:
What do Trump’s people, or conservatives in general, mean by “socialism”? The answer is, it depends.

Sometimes it means any kind of economic [interventionism]. Thus after the SOTU, Steven Mnuchin, the Treasury secretary, lauded the Trump economy and declared that “we’re not going back to socialism” — i.e., apparently America itself was a socialist hellhole as recently as 2016. Who knew?

Other times, however, it means Soviet-style central planning, or Venezuela-style nationalization of industry, never mind the reality that there is essentially nobody in American political life who advocates such things.

The trick — and “trick” is the right word — involves shuttling between these utterly different meanings, and hoping that people don’t notice. You say you want free college tuition? Think of all the people who died in the Ukraine famine!
Eu até acho que AMBAS as definições estão erradas (e há algum tempo que penso fazer um post sobre isso...), mas de qualquer maneira há anos que me passeio por fóruns e caixas de comentários de blogues liberais e há muito que noto essa ambiguidade: por um lado, chamam a qualquer intervenção estatal na economia de "socialismo" (exceção - quando querem negar que os países nórdicos sejam socialistas), e depois dizem que Mises já demonstrou que o socialismo não funciona (quando me parece que o argumento de Mises sobre a "impossibilidade do cálculo económico num regime socialista" só se aplica a um sistema económico em que os preços sejam fixados pelo Estado, ou em que nem haja preços).

07/02/19

Prioridades venezuelanas

Muita gente parece mais preocupada com uma até agora hipotética invasão da Venezuela (que eu até acho mais provável que não aconteça do que aconteça) do que com a real e presente ditadura venezuelana.

Ainda que largamente opostos no espaço ideológico, fazem-me lembrar aqueles que, numa diferente longitude, estão mais preocupados com uma hipotética "destruição de Israel" do que com a real e presente ocupação israelita.

06/02/19

A viragem autoritária da burguesia

Ou pelo menos anti-parlamentar.

Exemplo A (Reino Unido):
Jacob Rees-Mogg has claimed that Theresa May must suspend – or prorogue – Parliament if the so-called Cooper-Boles amendment passes. (...)

However, Mr Rees-Mogg, who has repeatedly argued that the country does not need to fear the disruption of “no deal”, said that the amendment must be stopped – even if that means shutting down Parliament entirely. (...)

Prorogation simply means the end of a parliamentary session. It happens when an election is called, and is not necessarily a drastic constitutional move. (...)

However, in this particular case, Mr Rees-Mogg is referring to a situation where Parliament would be prorogued, but the Government would continue to press its agenda. Historically, this method has been used by monarchs to stop Parliament from interfering with their plans.

Exemplo B (EUA):
Lindsey Graham is telling his fellow Republicans that they better back the President if he decides to declare a national emergency to get funding for his border wall. (...)

Graham’s warning comes as President Trump has speculated more and more openly about the idea of using the power granted by the National Emergencies Act to declare a “national emergency” at the southern border and then, pursuant to that authority, use funds allocated for the Department of Defense as well as military personnel such as, one assumes, the Army Corps of Engineers, to build the wall and contract with federal contractors who would assist in the project.

29/01/19

"Ele tem autorização de residência?"

Em várias situações em que dirigentes ou ativistas do Bloco de Esquerda disseram ou fizeram coisas mais polémicas, nunca se viu ninguém perguntar se, p.ex., o Francisco Louçã ou a Miguel Portas tinham autorização de residência; mas, por qualquer razão misteriosa, nos comentários nos blogues e redes sociais vê-se muita gente a perguntar se a "autorização de residência" do Mamadou Ba estaria em ordem (por vezes pergunta a essas pessoas se a autorização de residência delas está em ordem, mas não me respondem). Porque será?

[Uma possível interpretação será que hoje em dia as pessoas passam mais tempo nas redes sociais, mas interrogo-me se será só isso...]

28/01/19

Uma coisa preocupante que noto acerca do "caso Jamaica"

A maior parte das pessoas com quem falo não faz uma real distinção entre "violência policial em auto-defesa ou para impedir a prática de crimes" e "violência policial para punir informalmente crimes já realizados".

26/01/19

Recebi 275 mil euros do hospital de Portimão

Mais coisa menos coisa, até agora, desde que lá trabalho.

[Contexto]

25/01/19

Brutalidade policial e racismo

Em questões como a das agressões na "Jamaica" surge frequentemente uma polémica com um dos lados a dizer que foi racismo e o outro lado a dizer variantes de "se a polícia lhes bateu, alguma razão terá tido".

E parece-me ser quase completamente ignorada uma terceira hipótese - a de parte da polícia ser mesmo dada à brutalidade se tiver uma ocasião, independentemente da raça das vítimas (o que é discutível se será um cenário muito melhor do que o do racismo...).

Erik Olin Wright (1947-2019) e a sua teoria das classes sociais

A respeito da morte de Erik Olin Wright, lembro aqui um texto que li dele há uns anos: "O que é neo e o que é marxista na análise neo-marxista das classes" [pdf], onde ele analisa a várias tentativas de  adaptar o modelo marxista das classes sociais ao mundo atual (mesmo que fosse o mundo "atual" de há quase 50 anos...), incluindo a sua (a dos "lugares contraditórios de classe"). E dessas tentativas, a dele pareceu-me exatamente a mais bem sucedida.

Mais ou menos, é assim:

- burguesia: patrões de médias e grandes empresas
- pequena burguesia: trabalhadores por conta própria, sem ou quase sem empregados
- classe operária: assalariados não-autónomos sem funções de chefia
- lugar contraditório entre a burguesia e a pequena burguesia: patrões de pequenas empresas
- lugar contraditório entre a burguesia e a classe operária: assalariados com funções de chefia
- lugar contraditório entre a pequena burguesia e a classe operária: assalariados sem funções de chefia mas com alguma autonomia

Se fôssemos aplicar isso a um centro comercial, imagino que fosse assim:

- os funcionários que estão na caixa serão "classe operária"
- os supervisores e gerentes serão "lugar contraditório entre a burguesia e classe operária"
- um técnico de marketing (se não tiver subordinados) será "lugar contraditório entre a pequena burguesia e a classe operária"
- um senhor que tem a exploração da tabacaria à entrada do centro e trabalha lá sozinho, será "pequena burguesia"
- uma senhora que tem a exploração de uma loja de roupa com 8 empregados será "lugar contraditório entre a burguesia e a pequena burguesia"
- os donos do hipermercado e do centro comercial (e, já agora, também os donos da cadeia do franchising da loja de roupa) serão "burguesia"

Já agora, eu acho que sou "lugar contraditório entre a pequena burguesa e a classe operária"

[Post feito largamente copiando este de 2008]

24/01/19

Guaido é o mais parecido com o que a Venezuela tem com um presidente legítimo (II)

Se se aceitar, por um lado, que Maduro é ilegítimo e, por outro, que a constituição venezuelana é legítima*, então decorre que Guaido será, de acordo com o artigo 233 da referida constituição, quem deve assumir os poderes presidenciais, até uma nova eleição - "Cuando se produzca la falta absoluta del Presidente electo o Presidenta electa antes de tomar posesión, se procederá a una nueva elección universal, directa y secreto dentro de los treinta días consecutivos siguientes. Mientras se elige y toma posesión el nuevo Presidente o Presidenta, se encargará de la Presidencia de la República el Presidente o Presidenta de la Asamblea Nacional.": se se considerar que Maduro é ilegítimo, então a sua posse há uns dias também foi ilegítima e temos exatamente a situação descrita nesta passagem (em que deixa de haver presidente antes da tomada de posse e o presidente da Assembleia Nacional assume provisoriamente as funções).

* e não é obrigatório considerar-se isso (até se pode achar que todas as formas de governo são ilegítimas).

O "Observador" em modo ultra-esquerdista

Para que servem o BE e o PCP?, por André Abrantes Amaral:
No entanto, tanto o PCP como o BE têm servido para muito mais que dar emprego e gritar mentiras. Têm servido para direccionar o sentimento de frustração social que, com certa ironia, é explorado por ambos. É que ao tirarem proveito deste sentimento, PCP e BE também o controlam, canalizando-o para as lutas sindicais e para os protestos partidários. Um jogo de cintura que já não será possível com um PCP enfraquecido ou com um BE descredibilizado. E ao não ser possível, há o risco do eleitorado de esquerda procurar outros agentes políticos onde desabafar as suas frustrações. Outras forças políticas não domesticadas e, porque aparentemente mais livres que o PCP e que o Bloco para alterarem o ‘status quo’ que os atrofia, mais violentas também. O que sucedeu esta semana na Avenida da Liberdade, em Lisboa, e em Odivelas e Setúbal, como protesto contra a violência policial no Bairro Jamaica, no Seixal, pode ser um sinal disso mesmo. Um primeiro sinal da incapacidade destes dois partidos representarem convenientemente quem até ao presente neles se revia. O país anda à procura de onde surgirão os ‘coletes amarelos’ à francesa (...) mas a revolta pode surgir onde menos se espera: entre o próprio eleitorado da esquerda.
[Sugestão - ler o artigo com o browser em modo seguro]

A intervenção policial no bairro Jamaica

Tirado daqui.



É verdade que os vídeos podem ser sempre manipulados, mas olhando para o vídeo em questão é dificil ver o que possa ter sido ocultado para alterar muito a história, como a polícia parece alegar - mesmo que antes do vídeo ter sido filmado tenha havido as tais pedradas, os minutos anteriores à polícia ter começada a bater nas pessoas parecem-me pacificos: está um individuo de blusa azul a andar (nem sequer está a correr, em fuga), a policia aproxima-se dele e começam à porrada com ele; depois familiares aproximam-se e levam também.

Rotinas

Há coisas que vistas uma bocado mais ao longe aparecem de forma provavelmente mais nítida como parte de algo maior. Quem se poderá admirar com notícias como esta? Foram só sete? Quem se poderá, em Janeiro de 2019, espantar com esta re-revelação, e vir agora invocar um descrédito total? Fazê-lo no quadro de uma manobra política contra a Caixa Pública é de uma estupidez total. Apenas meia dúzia de tolos é que ainda acham que a Caixa é Pública. A Caixa é um banco como  os outros que nos tempos do gamanço como modo de vida tratou, e muito bem, de deixar os seus "créditos por bolsos alheios".
A Caixa Geral de Depósitos é gerida desde à décadas como um banco privado. Tal como nos privados somos nós os cidadãos  que somos chamados a pagar os calotes coleccionados pelos seus brilhantes gestores.
Alguém no seu juízo perfeito podia ignorar a forma como a Caixa Geral de Depósitos financiou anos a fio operações especulativas na Bolsa, a comprar empresas cujo valor era menos que zero? Alguém podia ignorar que algumas das maiores fortunas do país eram verdadeiros ídolos com pés de barro? Gente atolada em dívidas, com um endividamento monumental e cuja única fonte de rendimento era encontrar algum amigo influente capaz de autorizar um financiamento de centenas de milhões de euros, garantido pelo obra e graça do Espírito Santo - e não estou a falar do ex-dono disto tudo?

Alguém ignora que a maioria dos empreendimentos imobiliários que serviram de pasto a muitos dos mais poderosos, novos e velhos ricos, da sociedade portuguesa, foram verdadeiras operações de papel, nunca chegando ao terreno?  Alguém duvida dos milhões que  se perderam por essa via?
Será que alguém dúvida dos milhões de luvas que foram recebidos por quem autorizou esses financiamentos, usando o poder que tinha recebido para o fazer?

Há uma leitura hipócrita a partir da "nova revelação" de velhas realidades. Fala-se como se não se soubesses, como se fosse um assunto que permanecia no segredo dos Deuses.

Afinal quanto custou a recuperação das antigas banca privada e pública portuguesa depois da intervenção da Troika ? Dezassete mil milhões de euros, não foi? Será que alguns dos cromos que ocupam tempo de antena no espaço público ainda continuam a cantar a canção do ceguinho, ligando  a origem da crise a uma imoderada propensão para  o consumo e vida fácil que os pobres cidadãos  portugueses sempre revelaram, coitados deles?

Alguém acha que estamos a fazer esforços sérios para mudar aquilo que tendo estado mal para a generalidade foi a razão do farto sucesso de alguns poucos?

Há um lado rotineiro na forma como se escreve a história da pobreza e da desigualdade em Portugal. Há um grande know-how, um savoir-faire que tem sido muito aperfeiçoado. Os resultados são visíveis.

Guaido é o mais parecido com o que a Venezuela tem com um presidente legítimo

Sim, não foi eleito (pelo menos diretamente), mas para todos os efeitos Maduro também não (aquelas eleições do ano passado foram sem dúvida uma farsa, e num ambiente em que não havia praticamente condições para a oposição fazer uma campanha em igualdade de circunstâncias).

Portanto, atendendo a que se pode considerar que a presidência da Venezuela ficou vaga quando acabou o primeiro mandato de Maduro, nada mais natural do que avançar o presidente do parlamento - é a norma em grande parte do mundo (se em Portugal acontecesse alguma coisa ao Marcelo, seria o Ferro Rodrigues a substitui-lo); é verdade que nos regimes presidencialistas há vice-presidentes, que por norma é quem substitui o presidente - mas se considerarmos que não houve uma eleição válida, também o cargo de vice-presidente está vago (de qualquer maneira, penso que o cargo de vice-presidente na Venezuela funciona de forma algo peculiar - penso que o presidente pode nomear e destituir vice-presidentes à vontade).

E, de qualquer maneira Guaido foi eleito - ele foi eleito presidente pela Assembleia Nacional, que por sua vez foi eleita em 2015, no que parece ter sido a última eleição livre e legal na Venezuela.

23/01/19

A tirania do politicamente correto

As pessoas que se estão sempre a queixar da tirania do politicamente correto e que "já não se pode dizer nada que fica logo tudo ofendido" andam pelas redes sociais a dizer que o Mamadou Ba devia levar porrada por ter dito "a bófia da polícia" (ou no mínimo, a insinuar que se isso acontecesse era justificado).

Sugestão que me deram quando andava a procura de emprego

E de pessoas relativamente conservadoras e ligadas ao mundo dos negócios:

Já que eu punha no curriculum "Naturalidade: Moçambique", era melhor juntar uma fotografia.

A extrema-direita é uma reação à extrema-esquerda?

Assim o escreve o Rui Albuquerque, no Blasfémias ("Por que é que não existiu em Portugal, até agora, um partido de extrema-direita forte? Porque nunca tinha existido um partido forte de extrema-esquerda. A extrema-direita é, hoje, na Europa e no Mundo, somente uma reacção.").

Será? Para verificar se isso poderia fazer algum sentido, foi pegar nas eleições europeias de 2014 (que, para este exercício, têm a vantagem de terem sido feitas todas na mesma altura e em todos os países da UE - e sobretudo, de os links para os resultados estarem todos os juntos) e ver se a extrema-direita e a extrema-esquerda têm os melhores resultados nos mesmos países (que é o que seria de esperar se uma for a reação à outra).

Claro que para começar é preciso definir quem é de extrema-esquerda e quem é de extrema-direita. Os critérios que segui:

- Como claramente o Rui Albuquerque não está incluído o PCP na sua definição de extrema-esquerda (eu também não incluo, já agora), mas apenas o BE (e presumivelmente os extra-parlamentares), vou definir como "extrema-esquerda" os partidos que integram o Grupo da Esquerda Unitário Europeia/Esquerda Verde Nórdica no Parlamento Europeu, excluindo os partidos comunistas mais tradicionais (o que pode ter alguma subjetividade - eu pus de fora o PCP, a Esquerda Plural espanhola, o KKE grego, o Partido Comunista da Boêmia-Morávia e o AKEL de Chipre) e os "animalistas" (que têm uma agenda muito própria). Já agora, é interessante o que esse critério (considerar o BE mas não o PCP na extrema-esquerda) pode significar para esta discussão (ver também este meu post de 2008).

Poderá se perguntar se não deveria incluir também os Verdes/Aliança Livre Europeia, que tendem bastante para a esquerda nas "questões fraturantes", mas acho que isso já era uma grande salada, e hoje em dia a maior parte já está muito longe de poderem ser chamados extrema-esquerda (mesmo que efetivamente partilhem muito ADN com os membros não-"comunistas ortodoxos" da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica, na medida em que ambos são muito herdeiros de 1968, mas isso já foi há mais de meio século). Inversamente, poderia só ter incluído partidos ligados à Esquerda AntiCapitalista Europeia, mas aí eram tão poucos (Bloco de Esquerda, Syriza, Esquerda Unida espanhola e a Aliança Vermelha-Verde dinamarquesa) que eram impossível tirar qualquer conclusão.

- Na extrema-direita, inclui todos os partidos que integram o Grupo Europa das Nações e das Liberdades + os que integram o Grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus que não sejam partidos tradicionais de governo (ou seja, tirando os Conservadores britânicos, a Lei e Justiça polaca e o Partido Democrata Cívico checo) + os da Europa da Liberdade e da Democracia Direta com a exceção do 5 Estrelas italiano e do Partido dos Cidadãos Livres da República Checa + os não-inscritos que são quase abertamente neonazis ou neofascistas (NPD alemão, Aurora Dourada grega, Jobbik húngaro; se quiséssemos mesmo um critério objetivo para os identificar poderia ser a filiação presente ou passada na Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus ou na Aliança para a Paz e a Liberdade). Depois houve um ou outro que exclui a olho por os achar (pela descrição da wikipedia...) muito longe da extrema-direita.

Aqui poderá haver quem não concorde com a minha decisão de não incluir a Lei e Justiça polaca nem o 5 Estrelas italiano na extrema-direita, ou até quem ache que se deveria incluir também o Fidesz húngaro, mas acho que o Fidesz e a Lei e Justiça estão muito mais integrados no mainstream que os partidos normalmente considerados na extrema-direita, e o 5 Estrelas só recentemente assumiu uma posição claramente de direita em temas como a imigração.

Outra complicação foram coligações envolvendo partidos de várias ideologias, em que me guiei pelo que me pareceu a corrente dominante.

Portanto, vamos aos resultados:


País comunista clássico extrema-direita extrema-esquerda
Alemanha
8,07 7,39
Áustria
19,72
Bélgica
4,26
Bulgária
10,66
Chipre 26,98

Croácia
0
Dinamarca
10,3 8,1
Eslováquia
0
Eslovénia
0
Espanha 10,03
10,06
Estónia
0
Finlândia
12,9 9,3
França
18,52 6,61
Grécia 6,11 12,85 26,57
Hungria
14,67
Irlanda

19,5
Itália
6,15 4,03
Letónia
14,3
Lituânia
14,25
Luxemburgo
0
Malta
0
Países Baixos
20,99 9,64
Polónia
7,15
Portugal

4,56
Reino Unido
26,6 1
República Checa 10,98

Roménia
0
Suécia
9,67 6,3

Só inclui os partidos que elegeram deputados (os que não elegeram são tantos e têm tão pouca representatividade que o trabalho de os incluir seria muito maior que a alteração que isso provocaria nos resultados).

Correlação entre as votação da extrema-direita e da extrema-esquerda : 0,1342, um valor praticamente insignificante, e mesmo esse inflacionado por em 9 países (sobretudo pequenos países que elegem poucos deputados, o que torna difícil a grupos "extremistas" serem eleitos) não haver representantes nem da extrema-direita nem da extrema-esquerda (como há muitos países em que ambos têm zero, isso amplifica a correlação); se excluirmos os 9 países em que nenhuma tem representação, a correlação desde para -0,22 (ou seja, a extrema-direita teria mais votos nos sítios onde a extrema-esquerda é mais fraca, e vice-versa). De qualquer maneira, isso parece refutar a tese que a extrema-direita é uma reação contra a extrema-esquerda.

Poderá-se contra-argumentar que a força da extrema-direita nalguns países de Leste é também uma forma de reação ao domínio que a extrema-esquerda terá tido durante décadas nesses países. É uma hipótese que não joga bem com a premissa inicial de excluir os comunistas tradicionais da extrema-esquerda, e de qualquer maneira dá-me a ideia que a força da extrema-direita na Europa de Leste é um fenómeno relativamente recente nalguns países (nos anos 90 do século passado, a bipolarização era entre ex-comunistas e grandes frentes "democráticas" anti-comunistas, sem grande espaço paea uma extrema-direita autónoma). Mas podemos refazer o cálculo excluindo a Europa de Leste - se tirarmos a Bulgária, Croácia, Eslovénia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa e Roménia a correlação baixa para 0,093, ainda mais reduzida.

Partidos e coligações que incluí na extrema-direita:

AfD (Alemanha)
NPD (Alemanha)
FN (França)
UKIP (Reino Unido)
Liga Norte (Itália)
Congresso da Nova Direita (Polónia)
PVV (Países Baixos)
CU-SGP (Países Baixos)
Vlams Belang (Bélgica)
Aurora Dourada (Grécia)
Gregos Independentes (Grécia)
Jobbik (Hungria)
Democratas Suecos (Suécia)
FPO (Áustria)
BBT/VMRO (Bulgária)
Partido Finlandês (Finlândia)
Partido do Povo Dinamarquês (Dinamarca)
Ordem e Justiça (Lituânia)
Aliança Nacional (Letónia)

Partidos e coligações que incluí na extrema-esquerda:

Die Link (Alemanha)
Frente de Esquerda (França)
Sinn Féin (Reino Unido e Irlanda)
Outra Europa (Itália)
Podemos (Espanha)
Os Povos Decidem (Espanha)
Partido Socialista (Países Baixos)
Syriza (Grécia)
Bloco de Esquerda (Portugal)
Esquerda (Suécia)
Aliança de Esquerda (Finlândia)
Movimento Popular Anti-EU (Dinamarca) - na prática, é quase a mesma coisa que a Aliança Vermelha-Verde

19/01/19

Brexit, UE e CEE

Nos últimos dias tem se tornado viral um texto de José Meireles Graça dizendo "O Brexit é um pesadelo, mas é um pesadelo porque a União Europeia é um pesadelo. Não só a saída da CEE nunca levantaria o mesmo tipo de problemas como é improvável que dela algum país quisesse sair. E o que se vislumbra por trás do projecto de acordo derrotado hoje, um ilegível mastodonte com quase 600 páginas, é que é mais difícil sair da UE do que foi, por exemplo, a separação da Eslováquia da República Checa (...).

Mas se depurarmos bem essa conversa, acho que se resume a "é muito mais fácil sair de um emprego em que se ganha o salário mínimo do que de um emprego onde se ganha 10.000 euros por mês" - se a Grã-Bretanha saísse da CEE em 1985, ficaria mais ou menos como ficará em caso de sair sem um acordo agora: os produtos ingleses teriam que pagar taxas para entrar na UE/CEE e ser sujeitos a inspeções na fronteira para ver se estão de acordo, ou com os regulamentos de qualidade da UE, ou com os regulamentos de qualidade de cada um dos países da CEE; a diferença, que torna talvez mais dífiicl sair da UE do que seria sair da CEE é que toda a economia já está "viciada na droga" dos produtos puderem circular de uns países para os outros sem terem que estar sujeitos aos regulamentos de qualidade específicos de cada país e vai ser complicado o "desmame".

Atenção que acima falo da Grã-Bretanha, não do Reino Unido, mas o problema fundamental da saída do Reino Unido é similar - é verdade que, se em 1985 o Reino Unido tivesse saído da CEE, não haveria todos aqueles problemas de "como é que as pessoas vão passar de Armagh para Ballyalbany?" ou "voltaremos a ter combates UVF versus IRA versus exército britânico?"; mas esses problemas não se colocariam pelo simples facto que ainda havia (acho) barreiras na fronteira e o IRA, o exército britânicos e as milícias lealistas continuavam a combater-se; claro que sem acordo da Sexta-Feira Santa e sem processo de paz, não haveria o problema de conciliar o Brexit com os acordos feitos (que foram feitos na premissa que tanto o RU como a Irlanda pertenciam à UE, o que tornava mas fácil a ambas as partes aceitarem um compromisso, já que tornava menos relevante a questão "Londres ou Dublin?"), mas é o mesmo que disse acima - a situação na Irlanda do Norte dificilmente ficará pior do que ficaria em 1985 (p.ex., por mais confusões que haja, duvido que a guerra regresse), só que entretanto toda a gente se habituou a uma situação muito melhor.

Mas deixando de lado a questão da Irlanda do Norte, eu diria que o grande problema do Brexit é que a ideologia de base dos brexiters (uma espécie de liberalismo económico anti-globalismo mas pró-globalização) muito provavelmente não faz sentido (pelo menos na realidade do mundo atual) - um Brexit feito por nacionalistas económicos (fossem de direita à maneira de Trump ou de Le Pen ou de esquerda como possivelmente parte do Labour de Corbyn) talvez pudesse dar algo coerente (gostássemos desse projeto coerente ou não); o Brexit dos liberais económicos do European Research Group ou do Legatum é provavelmente um projeto condenado a não ir dar a lado nenhum.

Para perceber melhor, vamos imaginar só dois países; há várias hipóteses da se processar o comércio entre eles:

a) Fazem em conjunto os regulamentos de qualidade dos produtos, e os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

b) Um dos países compromete-se a ter regulamentos de qualidade decalcados dos do outro, e de novo
os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

c) Cada país têm os seus próprios regulamentos de qualidade, e os produtos de cada país têm que ter alguma espécie de inspeção na fronteira para ver se estão de acordo com os regulamentos do país de destino

d) Nenhum dos países tem regulamentos de qualidade (sendo supostamente a qualidade dos produtos assegurada pelo jogo da oferta e da procura),  e os produtos de cada um dos países podem ser livremente vendidos no outro

A atual UE é basicamente a situação a); o tratado que havia sido negociado com o governo britânico era uma espéce de b) - o Reino Unido continuava a reger-se pelos regulamentos comunitários, e só deixava de participar nas reuniões da UE (ficando assim uma espécie de protetorado ou de estado-vassalo); c) é o que provavelmente o Brexit irá dar; d) é provavelmente o sonho da ala liberal dos Brexiters, mas isso (deixar de haver regulamentos a dizer que características determinados bens podem ou devem ter), goste-se ou não, não está  em cima da mesa em praticamente nenhum país do mundo desenvolvido.

10% das pessoas que divulgam estatísticas falsas na internet são filhas de mães sozinhas?

Para falar a verdade, não faço ideia.

Mas está na moda (pelo menos acerca dos EUA)  alegar factóides como:

- 70% dos presidiários foram criados por mães solteiras
- 70% dos delinquentes juvenis foram criados por mães solteiras
- 70% dos toxicodependentes foram criados por mães solteiras
- 71% dos alunos que não acabam o secundário foram criados por mães solteiras
- 85% das crianças com problemas de comportamento são de famílias sem uma figura paternal(?)
- 71% das adolescentes grávidas são de famílias sem um pai
- 26 dos 27 assassinos em massa mais mortíferos cresceram em famílias sem pai

etc., etc.

Mas isto será verdade?

Há um conjunto de fontes que costumam ser apresentadas como prova dessas afirmações (seguindo o link acima - ou então este, para qual o outro linka -, facilmente as encontrarão - mas atenção que as fontes não são muito fáceis de verificar, já que muitas vezes são apenas "Center for Disease Control" ou "National Principal's Association Report", sem indicar anos, títulos de documentos, etc.).

Mas a mais fácil de refutar é a dos "26 em 27 assassinos em massa" (foi isso que, aliás, me chamou a atenção, porque já tinha há tempos tido essa conversa e chegamos à conclusão que eram fake news) - vamos pegar numa lista deles, e facilmente vemos que pelo menos Charles Whitman, Omar Mateen, Jiverly Antares Wong, Eric Harris, Dylan Klebolde e Seung-Hui Cho parecem (lendo os artigos da wikipedia...) ter sido criados por ambos os pais; o James Oliver Huberty não é muito claro, mas a impressão que me dá é que quem se pôs a andar foi a mãe; os pais do George Hennard divorciaram-se tinha ele uns 26 anos; vi só uns quantos, mas é suficiente para refutar a teoria dos "26 em 27" (mas o que isso adianta? Já se viu que essa conversa recusa-se a morrer...).

A estatística dos 70% de delinquentes juvenis parece vir do Survey of Youth in Custody, 1987 [pdf], divulgado em setembro de 1988 como um "relatório especial" - pelo menos aqui é é dito que "70% of juveniles in state operated institutions have no father. [US Department of Justice, Special Report, Sept. 1988]" e (a respeito das drogas e álcool) que "70% of youths in state-operated institutions come from fatherless homes – 9 times the average.  (U.S. Dept. of Justice, Sept. 1988)".

Isso (que 70% dos internados em casas de correção vêm de famílias sem pai) é quase verdade (são para aí uns 65% - os 70% referem-se a famílias sem um dos país, seja o pai ou a mãe), mas a versão de que "70% dos delinquentes juvenis são filhos de mães sozinhas" é claramente falsa: são cerca de 50% (nem todas os jovens que não vivem com o pai vivem necessariamente com a mãe):




O número dos toxicodependentes é claramente (pelos motivos que já expliquei) copiado daqui; a respeito dos 70% também para os presidiários não se encontram  nem sequer nas supostas fontes apresentadas (onde diz que " A 2002 Department of Justice survey of 7,000 inmates revealed that 39% of jail inmates lived in mother-only households." mas também que "85% of youths in prisons grew up in a fatherless home. [Fulton County Georgia jail populations, Texas Department of Corrections, 1992]" - afinal são 39%, 70% ou 85%?). Tudo indica que os "70% de presos criados por mães sozinhas" são os mesmos 70% internados em casas de correção, que, repetidos de link para link, com cada blogger que escreve sobre o assunto a usar palavras ligeiramente diferentes, passaram de "juveniles in state operated institutions" para "prison inmates" (ou seja, além da estatística ser manhosa, ainda anda a ser reciclada para várias coisas - e, já agora, não se arranja uma estatística mais recente que essa de 1987???)

Já agora, o estudo do Departamento da Justiça dos EUA de 2002 realmente diz que 39% dos presos vêm de famílias só com a mãe [pdf, ver página 9] (no total, 52% vêm de famílias sem pai); quanto ao "Fulton County Georgia jail populations, Texas Department of Corrections, 1992", não o consigo achar (praticamente tudo o que se encontra quando procuro isso no Google são artigos sobre a importância dos pais na educação dos filhos), mesmo restringindo a busca a sites oficiais do governo do Texas (já agora, porque é que o governo do Texas publicou um estudo sobre a população prisional de um concelho na Geórgia? E em 1992 o Departamento de Correções do Texas já não existia, porque em 1989 tinha sido fundido com outros para dar origem ao Departamento de Justiça Criminal do Texas). Procurando no site do Departamento de Correções da Geórgia, encontro um relatório de 2013 dizendo (pdf, página 17) que apenas 37% dos presos que foram presos na Geórgia em 2012 tiveram o pai (sozinho ou com a mãe) como guardião legal (ou seja, 63% seria de "famílias sem pai") - mas apenas 45% tinham uma mãe sozinha como guardiã (a diferença são avôs, famílias de acolhimento, etc.).

Quanto aos "71% dos alunos que não acabam o secundário foram criados por mães solteiras" a fonte é o "National Principals Association Report on the State of High Schools"; mas o problema é que googlando a única coisa que me aparece são sites, artigos e livros a repetir essas estatísticas - o único sinal de existência no mundo desse relatório parece ser o ser referido como a fonte dessa estatística; nem é muito claro o que é sequer o "National Principals Association", será a National Association of Secondary School Principals? Se é, no seu site não há qualquer referência a tal estudo (nem é muito claro em que ano foi feito esse estudo, embora tenha descoberto sites que digam que é de 2001).

Quanto ao "85% of children with behavioral disorders are from homes without a father" - a fonte é o Center for Disease Contro; vamos lá ver o que diz o CDC- Family Structure and Children’s Health in the United States:Findings From the National Health Interview Survey, 2001–2007 (pdf, página 154, tabela 63 - Frequencies of children aged 4–17 with definite or severe emotional or behavioral difficulties, by family structure and by selected characteristics: United States, 2001–2007):

Haverá 2 milhões e 851 mil crianças e jovens nos EUA com severos problemas emocionais ou comportamentais, dos quais 779 mil (27%) vivem em famílias tradicionais e 729 mil (26%) em famílias monoparentais (o resto é adoções, uniões de facto, famílias alargadas, etc.); por estes resultados, no máximo 73% dessas crianças e jovens viverão em famílias sem um pai (e provavelmente será muito menos - algumas das monoparentais terão o pai em vez da mãe, e das 47% de tipos variados - adoções, uniões de facto, etc - haverá algumas também com um pai, biológico ou adotivo). Agora, é verdade que o que se falava era de " behavioral disorders" e eu fui buscar uma estatística para "severe emotional or behavioral difficulties", mas foi o que consegui arranjar (eu nem me admirava que o tipo "agressivo/impulsivo" - " behavioral" - esteja realmente sobre-representando entre os filhos de pais separados em proporção face ao tipo nervoso - "emotional" - mas não há aqui dados sobre isso).

Quanto a "71% of pregnant adolescents do not have their father in the home", a fonte apresentada é 
"[U.S. Department of Health and Human Services press release, Friday, March 26, 1999]", que é de certeza isto.

Esse comunicado de imprensa não refere diretamente percentagens do tipo "x% das pessoas que têm um dado problema não têm um pai em casa", mas é possivel chegar a esses valores fazendo uns cálculos adicionais - lá é dito que "More than a quarter of American children—nearly 17 million—do not live with their father. Girls without a father in their life are two and a half times as likely to get pregnant" - se uma em cada quatro raparigas viver sem o pai, há 3 vezes mais raparigas em viver em famílias com pai; e as raparigas que vivem em famílias sem pai têm 2,5 vezes mais probabilidade de engravidarem - mas como há 3 vezes mais raparigas a viver em famílias com pai, para cada 25 raparigas sem pai que engravidam, haverá 30 com pai que engravidam

A - total de raparigas que vivem em famílias sem pai
Ai - total de raparigas que vivem em famílias sem pai e ficam grávidas na adolescência
B - total de raparigas que vivem em famílias com pai
Bi - total de raparigas que vivem em famílias com pai e ficam grávidas na adolescência

A/(A+B)=1/4 ↔ B = 3*A

Ai/A = 2,5* Bi/B

Ai/A = 2,5*Bi/(3*A) → A1 = 2,5*Bi/3 ↔ Bi = 3*Ai/2,5

Ai/(Ai+Bi) = Ai/(Ai + 3*A1/2,5) = Ai/(5,5*Ai/2,5) =2,5/5,5 = 45,5%

Ou seja, cerca de 46% das mães adolescentes serão de famílias sem pai (um pouco mais, já que no comunicado diz "mais de um quarto"); de onde é que eles foram buscar os 71%? Tenho uma teoria - 71% era quase exatamente o que resultaria se o "two and a half times as likely to get pregnant" fosse combinado com uma igual quantidade de raparigas de famílias com e sem pai no conjunto da população (para cada rapariga com pai a ficar grávida haveria 2 e meia sem pai a ficarem grávidas , e 2,5 num total de 3,5 é 71%).

Poderá se argumentar que o rácio de um quarto (ou mesmo mais de um quarto) está desatualizado, e que agora 43% das crianças e jovens dos EUA crescem em famílias sem pai (pelo menos é o que também é dito nas tais estatísticas, e já são quase 3 da manhã e não vou conferir essa), o que alterará os resultados, mas:

a) Já é muito arrojado pegar na probabilidade (os tais mais 2 vezes e meia) apresentada no comunicado de 1999 e ir aplicá-la à distribuição demográfica atual (e ainda mais quando a fonte apresentada é apenas o comunicado de 1999, sem indicações de "extrapolado para tendências posteriores")

b) Mesmo que fossemos refazer os cálculos assumindo 43% de jovens vivendo em famílias sem pai, isso daria apenas 65% de mães adolescentes oriundas de famílias sem pai, não os tais 71%

Já agora, nesse comunicado também diz "Both girls and boys are twice as likely to drop out of high school, twice as likely to end up in jail and nearly four times as likely to need help for emotional or behavioral problems". Podemos aplicar exatamente o mesmo cálculo que fizemos acima para estimar as probabilidades para isto tudo, nomeadamente para o abandonar os estudos (o tal valor cuja fonte é um relatório mistério de uma associação talvez misteriosa):

Como os filhos de famílias sem pai têm o dobro da probabilidade de não acabarem o secundário, é só pegar nas contas que fizemos lá acima e substituir "Ai/A = 2,5* Bi/B" por "Ai/A = 2* Bi/B", e assumir que estamos a falar de jovens em geral em vez de raparigas (e que Ai e Bi significa abandonar o secundário) - e o resultado é.... 40% dos alunos que não acabam o secundário são (ou seriam, em 1999) de famílias sem pai (e não os tais fantasmagóricos 71%). [Por outro lado, isso também implicaria que só 40% dos que acabam na prisão fossem de famílias sem pai, o que é um pouco inferior - dos resultados do tal relatório de 2002 (que dizia que 52% dos presos vem de famílias sem pai).]

Quando ao "need help for emotional or behavioral problems" (em que a probabilidade é quatro vezes maior), isso daria que cerca de 57% das crianças e jovens a precisar de ajuda para problemas emocionais ou de comportamento seria de famílias sem pai.

Resumindo - quase nenhuma das estatísticas apresentadas parece corresponder à realidade, de acordo com as próprias fontes referidas (a dos 70% dos delinquentes juvenis estaria correta se fosse a percentagem de "não cresceram com ambos os pais" em vez de "cresceram apenas com a mãe"). Interrogo-me, aliás, se quem divulga essas pseudo-estatísticas vai conferir às fontes, ou se se limita a fazer "copiar-colar" ou "partilhar".

O paradoxal daqui é que mesmo com estatísticas verdadeiras haveria um caso forte para se considerar que é bom as crianças e jovens viverem com o pai (ou pelo menos terem-no como uma presença constante na sua vida) - para quê inventar números alucinados? E para quê essa obsessão com 70% ou 71%? Será algo de esotérico?

Uma nota final - estes números costumam ser apresentados no contexto das discussões sobre a custódia dos filhos de pais separados (a maior parte dos sites que me aparecia quando andava à procura de algum documento eram sites sobre os direitos dos pais divorciados); não se leia a minha crítica a esses números como uma oposição à atribuição de um maior papel aos pais na tutela dos filhos em caso de separação ou divórcio (aliás, se me guiar só pelas notícias dos jornais - ou seja, não estou a invocar nenhuma estatística oficial - dá-me a ideia o típico agressor, tanto físico como sexual, de crianças e jovens é o padrasto, o que poderá indiciar que muitas crianças e jovens até estarão mais seguros na casa do pai do que na da mãe; mas isto é apenas uma especulação da minha parte).

Vagamente sobre isto, ver também este meu post de 2013,Divórcio vs. Viuvez.

15/01/19

Política, poder e dinheiro

Ainda a respeito disto, suspeito que muita coisa é melhor explicada se vista em termos de luta pela poder (ou pelo menos por status) do que por dinheiro em sentido estrito (já agora, ver também este post sobre o teletrabalho, que acaba por andar também à volta disso). Talvez durante grande parte da nossa história evolutiva as diferenças de poder ou status fossem mais relevantes das estritamente materiais - afinal, num clã de caçadores-recoletores provavelmente não há riqueza suficiente para ser possível sequer existir uma classe de ricos, mas já é possível existirem indivíduos muito mais influentes (ou por serem mais fortes, ou mais conhecedores, ou criarem melhores estratégias de caça, ou...) que outros (mas provavelmente já estou a divagar; daqui a pouco começo a fazer teorias envolvendo a dinâmica social de crustáceos marinhos...).

Alguns exemplos:

- Para níveis de rendimento similares, trabalhadores por conta de outrem tendem a ser mais de esquerda do que trabalhadores por conta própria; não haveria grande razão para isso se o único motivo de votar em políticas redistributivas fosse ter mais dinheiro, mas já fará se considerarmos que o verdadeiro problema é mais a submissão hierárquica do que o dinheiro

- Há muito mais polémica com altos ordenados de gestores do que de futebolistas ou celebridades do audiovisual; de novo, faz mais sentido se assumirmos um problema de poder do que propriamente de dinheiro (os gestores são poderosos, podem tomar decisões que - como consumidores dos seus produtos ou trabalhadores das suas empresas - podem afetar as nossas vidas, e por isso os seus altos vencimentos suscitam mais desconfiança)

- A usual oposição da classe patronal a medidas de expansão económica keynesiana, no mecanismo que Kalecki explicou há muitos anos (Political Aspects of Full Employment [pdf]): a economia crescer até pode ser maior para os seus lucros, mas muitos empresários gostam que haja muito desemprego porque isso lhes dá mais poder sobre os seus empregados

- O aparente entusiasmo dos conservadores norte-americanos (cuja ideologia supostamente é o "fusionismo" entre conservadorismo moral e liberalismo económico) por Donald Trump, com uma vida privada muito pouco cristã-evangélica e nem particularmente liberal na economia (protecionista, às vezes a favor de mais investimento público, muito menos anti-"estado social" que o típico Republicano...). Mas se considerarmos que o conservadorismo moral é apenas uma capa para defender a autoridade dos maridos sobre as mulheres e o liberalismo económico uma capa para defender a autoridade dos patrões sobre os empregados, tudo faz sentido: o perfil "machão" de Trump e a imagem de patrão autoritário que ele cultiva (nos seus reality shows - em que a imagem de marca dele era o "you are fired!" - ou na forma como enxovalha publicamente os seus assessores caídos em desgraça) representam ao objetivo final do programa conservador (mulheres e assalariados "no seu lugar"), mesmo que ele não se identifique muito com os meios preferidos dos conservadores ("valores familiares", "governo pequeno") para atingir esses objetivos (estes três artigos de Paul Krugman são interessantes a esse respeito).

- A atitude face à "caridade"; se a ideia for redistribuir rendimento, a caridade privada, à partida, seria tão boa como o estado social. Mas em termos de relações de poder social, é completamente diferente - se alguma coisa, pobres que estejam dependentes da caridade de um benfeitor se calhar estão ainda mais num estado de subordinação hierárquica do que pobres que tenham ajuda de ninguém

- A existência de greves: em termos puramente económicos, há uma certa irracionalidade num trabalhador fazer greve - perde um dia de ordenado e, caso a greve resulte, beneficiara de qualquer maneira, mesmo que não tivesse feito greve (nota - esta aparente irracionalidade é menos irracional se existirem fundos de greve); mas se há uma questão de poder pelo meio, a coisa muda de figura: durante a greve, em vez de o trabalhador ser o pau-mandado que faz o que lhe mandam, é o patrão ou o chefe que pode estar desesperado porque precisa do trabalho dele e não o tem ali ao pé, levando quase a uma inversão temporária (e se calhar mais psicológica do que real...) da relação de dependência.

Ora, se vermos a política como tendo a ver mais com relações de subordinação hierárquica do que apenas com economia no sentido mais estrito, faz sentido que muitas vezes as questões "sociais" tenham mais relevância que as "económicas"- pelo menos no ponto em que o debate político está atualmente, grande parte das políticas sobre "costumes" mexem quase diretamente com as relações de poder existentes na sociedade (ao ponto de serem chamadas pelos seus detratores de "engenharia social"); já as políticas económicas afetam não têm um efeito tão direto sobre as relações de poder (seria o caso se estivéssemos a discutir a autogestão ou o controlo operário - bem, nalguns países está-se a discutir a cogestão, e o RBI está a entrar na moda - mas o que se discute hoje em dia são sobretudo impostos e salários mínimos).