13/02/19

Ler os Outros: Acerca das lamentáveis hesitações de Corbyn sobre o Brexit.


O líder do Labour tem estado tolhido pelas suas próprias contradições e fantasmas. O seu posicionamento na crise do Brexit - crise imaginada e realizada por Cameron e Boris Johnson - tem sido muitas vezes traduzido em complicados calculismos eleitorais que visam tentar ao mesmo tempo manter as simpatias dos trabalhistas apoiantes do Brexit e daqueles - largamente maioritários - que apoiaram a campanha por si liderada a favor do Remain. Tarefa impossível e pouco digna, diga-se.

As coisas não se passarão bem assim. O que levará o Corbyn que defende para os britânicos uma política radical "for the many not for the fews" a desistir de a defender na Europa? Será que ele pensa que a Europa não precisa dessa mesma política? Ou será que ele acha que pode concretizar essa política mais facilmente isoladamente fora da alçada das instituições Europeias?

É aqui, nesta não confessada convicção, que radicam todas as hesitações e fraquezas que o líder trabalhista tem acumulado ao longo dos  últimos penosos meses. 

É essa a leitura que aqui é feita e que eu em grande parte subscrevo. Na verdade Corbyn resolveu emular o comportamento de muitos dos seus camaradas - que ele próprio criticara na reunião dos socialistas europeus realizada em Praga em 2017 (ver aqui e aqui)- que uma vez eleitos para as instituições europeias se limitam a aplicar a cartilha austeritária - imposta pela direita conservadora europeia - como se a orientação política e económica conferida à Europa resultasse de uma Constituição Europeia sufragada pelo povo europeu. Camaradas esses que em termos globais caminham para a extinção com as excepções de Portugal e do Reino Unido, cujo crescimento foi enorme antes do seu líder se deixar tolher  pelas suas lamentáveis hesitações. 

Vitória para o patronato?

Plataforma do crowdfunding dos enfermeiros admite suspender financiamento de greves:
Futuras iniciativas de crowdfunding para financiamento de greves estão agora dependentes do que vier a ser concluído nas investigações e pareceres pedidos no âmbito das greves cirúrgicas dos enfermeiros — pelo menos na plataforma portuguesa PPL Crowdfunding. Os cofundadores da empresa não querem “alimentar a fogueira” do braço de ferro entre estes profissionais de saúde e o Governo, sobretudo se não for totalmente claro que o método de angariação de fundos é legítimo para aquele fim.
E não, não é apenas o "patrão-Estado" que ganha com isto - se as empresas de crowdfunding deixarem de recolher donativos para fundos de greve isso afeta a força dos sindicatos em todas as empresas, não apenas no Estado (mesmo naquelas em que nunca tenha havido nem fosse haver uma greve apoiada por crowdfunding, a própria existência teórica dessa possibilidade daria força aos sindicatos nas negociações com os patrões).

12/02/19

Posts que quase por acaso reli esta manhã

Esta manhã, como estava a ver se encontrava um link antigo, ao fazer uma busca no Vento Sueste acabei por reler alguns posts antigos que tinha escrito - dois foram estes: A saída do "Fórum Manifesto" do BE (sobre a saída da Ana Drago e mais uns quantos do BE)  e  Aliança PS/BE? (neste o relevante não é post em si, totalmente desatualizado, mas sobretudo a pergunta nos comentários feita pela "Tárique", sobre «o que é que a facção "revolucionária" ainda anda a fazer atrelada ao bloco.»). Quando ao fim da tarde fui ao facebook e vi as notícias, lembrei-me dos posts que tinha estado a ler mesmo de manhã.

10/02/19

A crise venezuelana e o ditador Maduro.

Sinceramente não percebo qual é a relação entre a necessidade de denunciar as consequências da luta pela hegemonia mundial que as diferentes potências travam e a obrigatoriedade de defender  Maduro, o ditador que desgoverna a Venezuela como se se tratasse de coisa sua.
Maduro é um  ditador. Não é um governante progressista ou socialista ou seja lá qual for o adjectivo que possamos escolher. É um ditador sangrento, que não treme perante o sofrimento que inflige aos seu povo, em particular aos mais desfavorecidos.
Há sempre uma espécie de superioridade moral e intelectual de uma certa burguesia, solidamente ancorada na universidade capitalista, para usar uma terminologia que lhes é cara -  de que Boaventura Sousa Santos é o mais afamado exemplo - que nos vem explicar que tudo aquilo que se está a passar nada tem a ver com a defesa da democracia na Venezuela mas, apenas e só, com uma corrida pelo controlo do petróleo venezuelano. 
O que se passa na Venezuela, não tem nada que saber, é fruto da acção do imperialismo americano. A relativização da ditadura de Maduro é assim compensada pela mais importante denuncia do imperialismo americano. É tudo uma questão de escala e de se recorrer a uma visão global que não estará ao alcance de todos.

O Socialismo XXI jaz e arrefece esmagado pela pulsão ditatorial do regime liderado por Maduro. A correção das desigualdades, a grande bandeira que vinha dos tempos de Chavez, a fazer-se, é pela expansão da pobreza: estão todos a ficar cada vez mais pobres.

Como é possível defender um governante como este? Como é possível valorizar a acção das forças armadas enquanto suporte deste regime despótico? Apenas e só porque estamos perante uma agressão dos americanos no contexto da guerra mundial pela dominação dos recursos naturais que travam EUA, Rússia e China?
Quem atirou a Venezuela para as mãos do império americano, do execrável Trump e dos seus aliados locais? E se for para as mãos do império chinês, o que ganharão os milhões de venezuelanos sufocados pela pobreza extrema com isso?

09/02/19

A ASAE e a greve dos enfermeiros

Pelos vistos, acha-se normal que a ASAE esteja a dedicar atenção especial a investigar uma greve contra a política do governo (e que tal até seja anunciado em letras garrafais pelo seu inspetor-geral).

08/02/19

Os saltos na definição de "socialismo"

Trump Versus the Socialist Menace, por Paul Krugman:
What do Trump’s people, or conservatives in general, mean by “socialism”? The answer is, it depends.

Sometimes it means any kind of economic [interventionism]. Thus after the SOTU, Steven Mnuchin, the Treasury secretary, lauded the Trump economy and declared that “we’re not going back to socialism” — i.e., apparently America itself was a socialist hellhole as recently as 2016. Who knew?

Other times, however, it means Soviet-style central planning, or Venezuela-style nationalization of industry, never mind the reality that there is essentially nobody in American political life who advocates such things.

The trick — and “trick” is the right word — involves shuttling between these utterly different meanings, and hoping that people don’t notice. You say you want free college tuition? Think of all the people who died in the Ukraine famine!
Eu até acho que AMBAS as definições estão erradas (e há algum tempo que penso fazer um post sobre isso...), mas de qualquer maneira há anos que me passeio por fóruns e caixas de comentários de blogues liberais e há muito que noto essa ambiguidade: por um lado, chamam a qualquer intervenção estatal na economia de "socialismo" (exceção - quando querem negar que os países nórdicos sejam socialistas), e depois dizem que Mises já demonstrou que o socialismo não funciona (quando me parece que o argumento de Mises sobre a "impossibilidade do cálculo económico num regime socialista" só se aplica a um sistema económico em que os preços sejam fixados pelo Estado, ou em que nem haja preços).

07/02/19

Prioridades venezuelanas

Muita gente parece mais preocupada com uma até agora hipotética invasão da Venezuela (que eu até acho mais provável que não aconteça do que aconteça) do que com a real e presente ditadura venezuelana.

Ainda que largamente opostos no espaço ideológico, fazem-me lembrar aqueles que, numa diferente longitude, estão mais preocupados com uma hipotética "destruição de Israel" do que com a real e presente ocupação israelita.

06/02/19

A viragem autoritária da burguesia

Ou pelo menos anti-parlamentar.

Exemplo A (Reino Unido):
Jacob Rees-Mogg has claimed that Theresa May must suspend – or prorogue – Parliament if the so-called Cooper-Boles amendment passes. (...)

However, Mr Rees-Mogg, who has repeatedly argued that the country does not need to fear the disruption of “no deal”, said that the amendment must be stopped – even if that means shutting down Parliament entirely. (...)

Prorogation simply means the end of a parliamentary session. It happens when an election is called, and is not necessarily a drastic constitutional move. (...)

However, in this particular case, Mr Rees-Mogg is referring to a situation where Parliament would be prorogued, but the Government would continue to press its agenda. Historically, this method has been used by monarchs to stop Parliament from interfering with their plans.

Exemplo B (EUA):
Lindsey Graham is telling his fellow Republicans that they better back the President if he decides to declare a national emergency to get funding for his border wall. (...)

Graham’s warning comes as President Trump has speculated more and more openly about the idea of using the power granted by the National Emergencies Act to declare a “national emergency” at the southern border and then, pursuant to that authority, use funds allocated for the Department of Defense as well as military personnel such as, one assumes, the Army Corps of Engineers, to build the wall and contract with federal contractors who would assist in the project.