23/07/17

A Cidade levanta-se


A sexta edição da revista do colectivo ROAR foi publicada recentemente. Dedicada à resistência aos sistemas políticos e sócio-económicos vigentes que tem emergido ao nível local, em particular em várias cidades, e à possibilidade de construir uma sociedade mais equalitária através da confederação desses esforços, "The City rises", inclui os artigos:

Radical Municipalism: The Future We Deserve, por Debbie Bookchin
The New Municipal Movements, por Eleanor Finley
This Land Is Whose Land?, por Matt Hern
Pacifying the Neighborhood, Tucker Landesman
Urban Sanctuary: The Promise of Solidarity Cities, por Antje Dieterich
Cities Against the Wall, por Carlos Delclós
The Right to the City in an Age of Austerity, por Theodoros Karyotis
Bakur Rising: Democratic Autonomy in Kurdistan, por Nazan Üstündağ
Municipalism and the Feminization of Politics, por Laura Roth, Kate Shea Baird

Neste momento já estão disponíveis online 2 artigos. Os restantes serão disponibilizados ao longo das próximas semanas.

22/07/17

A Reforma da Floresta. O debate onde ele deve estar, no campo das políticas.

Os últimos dias desta legislatura ficaram marcados pela resolução de várias "magnas questões" que afectam de diferentes formas grupos de cidadãos. O Estado, e a sua acção ou omissão, esteve sempre no centro da divergência ou do confronto.
No entanto, aquele que mais espaço conquistou do ponto de vista do debate público - e ainda bem - foi a tão necessária "Reforma da Floresta". A proposta colocada a debate, que beneficiou de um acordo prévio entre o PS e o BE, não contou com o acordo integral do PCP, que votou contra a criação de um banco de terras e as entidades de gestão florestal. O PCP veio desde o início considerar que estávamos perante "um esbulho dos pequenos proprietários" e uma tentativa de o Estado lhes atribuir uma efectiva responsabilidade pela ocorrência dos incêndios florestais. Esta posição do PCP faz todo o sentido se pensarmos que foi Jerónimo de Sousa o primeiro dirigente politico a  inequivocamente "politizar a tragédia" que ocorreu em Pedrogão. O dirigente comunista não teve dúvidas em associar o que se tinha passado em Pedrogão - e mais tarde em Tancos - a uma errada opção politica de décadas. Resultado da opção do Estado português, anterior à intervenção da Troika, que ajuda a caracterizar o caminho que esse mesmo Estado percorreu no sentido de adoptar um modelo neoliberal.

Depois da votação e de a pretendido banco de terras ter sido chumbado, seguiram-se as acusações entre PCP e BE. Não parece difícil distinguir aquilo que separa os dois partidos. Há um diferente entendimento sobre o papel da propriedade privada e em particular sobre o papel e a importância da pequena e da média propriedade. Esse diferente posicionamento relativamente ao papel da propriedade determina o posicionamento que se tem face ao papel e à missão do Estado.

A leitura dos artigos de opinião que dirigentes do BE e do PCP escreveram no Público ao longo dos últimos dias (aqui, aqui e aqui) mostram bem qual o posicionamento de uns e de outros. Não me parece que alguma acrimónia, que se faz sentir nesse debate, seja minimamente útil mas também não me parece que venha daí mal ao mundo. O debate democrático aberto sobre as políticas não é um adquirido na sociedade portuguesa, sobretudo quando estamos no campo dos que apoiam uma solução governativa. Até por isso a Geringonça é inovadora. Se pecar é por defeito:  por contratualizar em gabinete, sem envolver a sociedade no processo de debate e da construção das soluções politicas. Mas isso deve-se á natureza dos partidos que a compõem.

Defendi sobre este debate que a Floresta tem que ter uma gestão pública mesmo que ela seja essencialmente privada.  Se isso não acontecer continuaremos a esturricar dinheiro público sem qualquer utilidade para a população e para a nossa economia, com excepção dos negócios que se alimentam das politicas erradas. Por isso mesmo parece-me muito importante a posição do PCP. De certa forma ela promove uma mudança na atitude do Estado que já está em parte consagrada na Reforma agora aprovada.  A criação de centenas de equipas de sapadores florestais - 500 equipas, com até 5 elementos, até 2019 - tutelados pelo Ministério da Agricultura que também irá recuperar a tutela dos guarda-florestais.

A adopção de soluções politicas que promovam a alienação de parte do património florestal do Estado e de parte da pequena propriedade é uma solução que não me agrada. Julgo que ela conduzirá no sentido inverso ao desejado.
Defendo, nas politicas públicas com expressão no território, que o Estado deve mudar de politica. Estou absolutamente seguro que a eficácia e a justiça dessas politicas não resultam do facto de a floresta  ser pública ou privada. Resultam acima de tudo da politica florestal que o Estado adopta e de como a concretiza. Os recursos públicos devem ser usados para promover politicas de prevenção e de gestão em vez de servirem apenas e só para ajudar a apagar os fogos que as suas opções politicas atearam. O apoio aos pequenos proprietários, sobretudo aos mais idosos e com menores rendimentos, é uma arma poderosa para apoiar uma mudança na gestão da floresta e para combater a desertificação.

PS - parece que o facto de o Governo não ter conseguido aprovar o pacote na totalidade terá provocado mal-estar na Geringonça. Como se sabe a pressa é muitas vezes inimiga de uma boa reflexão e de boas propostas. Não será mais fácil apurar o que realmente aconteceu do ponto de vista operacional do que construir uma nova politica florestal para Portugal?

18/07/17

Ler os Outros: Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas.

O artigo de opinião de André Freire, do passado dia 15  no Público, é um artigo corajoso. Corajoso, porque quem rema contra a corrente cada vez mais maioritária  - à custa de engolir pequenas franjas que depois vai digerindo como pode, até as suprimir , como aconteceu com os CPL - mais tarde ou mais cedo paga a sua factura.
Mas além de corajoso há muito de lúcido, do ponto de vista da esquerda democrática e socialista e do ponto de vista do direito à cidade, naquilo que André Freire escreve.

Vale a pena voltar a esta discussão. Curiosamente, ou talvez não, décadas após o 25 de Abril, gerações após gerações de autarcas, as questões das autarquias reutilizam sempre a velha e sinistra forma da despolitização do debate e teimam em retirar o exercício do poder do puro campo da politica.

14/07/17

A morte de Liu Xiaobo. Qual foi a posição de Portugal? (Actualizado)


Morreu Liu Xiaobo. A China tinha detido Liu Xiaobo por actividades subversivas. Todos sabemos que o dissidente chinês lutava por democracia contra um dos estados mais poderosos do planeta e um dos mais cruéis. A China impediu Liu de receber o Prémio Nobel da Paz, considerando essa atribuição uma blasfémia. Colocou-se dessa forma no mesmo plano que o regime nazi que em 1938 tinha prendido o Nobel da Paz, Carl von Ossietzky. Foram os dois únicos galardoados que morreram privados da liberdade.
É legitimo pensar que se tivesse tido acesso ao melhor tratamento possível, se não tivesse sido privado da sua liberdade, se não vivesse numa ditadura anti-democrática, Liu Xiaobo ainda estaria vivo. Podia na mesma ter adoecido mas mesmo que isso tivesse acontecido não teria morrido tão cedo.
O regime chinês mostrou a sua feroz implacabilidade e intransigência.
Vários países manifestaram o seu descontentamento com a actuação do estado chinês e do partido comunista que o lidera.
E Portugal, qual foi a posição do nosso país, do seu Governo e dos partidos que o apoiam? Como reagiu Portugal perante este seu parceiro de negócios que, passo a passo, tem vindo a controlar sectores estratégicos da nossa economia?
Até agora parece que a única reacção foi um silêncio ensurdecedor.

20.07.2007 - O Parlamento aprovou um voto de pesar pela morte do Nobel da Paz, Liu Xiaobo. A iniciativa foi do deputado do PAN. O Parlamento votou maioritariamente o voto de pesar com a excepção do PCP que votou contra.





11/07/17

Dialéctica policial

Recordo uma célebre formulação de Sophia, denunciando a injustiça e a opressão como "pecado organizado". Mas vejo, agora, ao ler no Expresso que  o "Presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia diz que para manter a ordem pública é sempre necessário cometer excessos", que as forças da ordem consideram o "pecado organizado" critério da virtude e superior correcção. Assim,  uma vez que "a actuação dos agentes da PSP de Alfragide (…) foi correcta", só resta acrescentar, explicitando um pouco mais a dialéctica policial do militante sindical António Ramos, que as sevícias e torturas praticadas nas esquadras são, justamente na medida em que organizam e tornam ordem o pecado, obras afinal de misericórdia e expressões afinal de amor ao próximo.

02/07/17

Do que é que falamos quando falamos de "proprietários absentistas"?

Raimond Carver perdoar-me-ia o recurso ao título de um dos seus livros mais conhecidos.
Mas talvez não faça mal trazer alguma literatura para o debate. Diz o Pedro Viana, num comentário ao post do Miguel Madeira, que o BE - com base nas reservas do Miguel, quanto a uma integração forçada nas matas nacionais - defende o arrendamento forçado das terras dos proprietários absentistas.

Aqui é que eu julgo que devemos parar um pouco e tentar começar pelos conceitos. Afinal do que é que falamos quando falamos de proprietários absentistas? A questão não pode ser discutida sem que se reflicta sobre a estrutura da propriedade e sobre a forma como se concretiza a  relação entre o Estado e a propriedade rústica em Portugal.

Não tenho visto no debate público quem olhe para o problema a partir desta perspectiva. Não será aqui que a questão será "escalpelizada", mas ficam algumas questões que podem ser úteis para debates futuros.

Num incêndio de grandes proporções ardem grandes propriedades e propriedades muito mais pequenas, sendo que isso varia em função das tipologias de propriedade característico de cada região do nosso País.

Os pequenos proprietários são os mais afectados porque muitos deles perdem as casas e as famílias quando não a própria vida. São regra geral aqueles que construíram a casa onde moram na propriedade que receberam dos país, e que ali praticam uma agricultura de subsistência ou que optaram por plantar espécies florestais que lhes permitem obter um reforço do escasso rendimento. São uma população idosa que regressou ao campo ou que dele nunca se separou.

Outros são pequenos proprietários e por razões associadas à  idade e à situação financeira - sem rendimentos além de míseras pensões de duas ou três centenas de euros mensais, na melhor das hipóteses - não dispõem de condições para tirar qualquer proveito da propriedade tão pouco para as manter limpas.

Estes dois tipos de proprietários são os últimos que desempenham, com sacrífico da própria vida, como alguns descobrem tarde de mais, uma função real de defesa do território. São aqueles que em cada dia da sua vida defendem o território nacional e praticam o povoamento do interior. Recebem como única resposta do Estado uma ajuda ineficaz quando dele precisam. Depois da tragédia consumada assistem chocados, os que sobrevivem, a esta conversa acusatória dos proprietários absentistas, trauteada pelos figurões engravatados que se limitam a aparecer nos directos televisivos com um ar adequadamente consternado.

Há ainda os que abandonaram as freguesias e desde há muito residem nas cidades, afastados da terra. Muitos desses nem são capazes de encontrar a parcela do território de que são proprietários, por heranças partilhadas com irmãos e outros familiares.

A propriedade pode ainda estar na área de uma das reservas nacionais quer seja da Reserva Agrícola Nacional quer seja na Reserva Ecológica Nacional e, por essa via, o direito de propriedade estar severamente limitado pelas razões de interesse público que presidiram à formação das ditas Reservas.

O Estado não pode tratar toda esta gente  como proprietários absentistas. O Estado supõe-se - embora seja apenas isso, uma suposição - é uma pessoa de bem.


A Floresta sendo um recurso estratégico e sendo maioritariamente privada tem que ter uma gestão eminentemente pública. Os terrenos florestais pagam um IMI miserável, o que favorece os grandes proprietários e os propietários especulativos - grupos financeiros, seguradoras - que compram propriedades rústicas nas periferias urbanas à espera da mudança de uso para urbano e da correspondente captura das mais-valias. Esse IMI muito baixo penaliza as receitas do Estado e os impostos pagos pelos proprietários urbanos, que são expoliados fiscalmente. É um prémio pago por todos em benefício dos grandes proprietários especulativos e dos grandes proprietários dos sectores mais rentáveis da fileira florestal.

O Estado que intega por decisão muitas vezes irrracionais, desprovidas da necessária fundamentação técico-cientifica, os terrenos rústicos na REN ou na RAN, não está disponível para pagar aos proprietários a menos-valia que essa reclassificação determinou. Pode-se argumentar que o Estado também não cobra mais-valias quando classifica os terrenos rústicos como urbanos. Pois não. Mas isso é um erro e um erro não justifica o outro.  Acresce o facto de os beneficiários deste duplo equívoco serem, por paradoxal que pareça, os mesmos,  sendo que em nenhum caso são os pequenos proprietários a beneficiar.

Limpar as propriedades cujos proprietários não dispõem de recursos próprios, compensar adequadamente os pequenos proprietários pela plantação de espécies que contribuam para um melhor ordenamento do espaço florestal e limpar as bermas das estradas e dos caminhos cumprindo  legislação  com décadas, é em primeiro lugar dever de um Estado decente, de um Estado de direito.

O Estado que não é capaz de regular e de intervir no sentido de assegurar a gestão do território em defesa do interesse público - sendo indiferente se ele é de posse pública ou privada - mostra-se muito eficiente a mobilizar milhares de milhões de euros dos contribuintes para apagar os fogos que não se cansa de atear com as suas politicas erradas. Ou a financiar o não funcionamento de sistemas de comunicação cuja única função parece ser gerar dividendos aos seus proprietários.

sabemos que este é o estado neoliberal que favorece os negócios, cego pela convicção de que o Mercado resolve. Podemos parar de agir como se estivessemos apenas perante pequenas ou grandes anomalias, incompetências deste ou daquele responsável político, que depois de cada catástrofe ocupam todo o espaço da bolha mediática?

O problema é de outra natureza:  tem a ver coma forma como o Estado se relaciona com a sociedade e com a promoção e defesa do interesse público.

Uma  boa intervenção do Estado - ninguém está a defender esta posição excepto alguns técnicos que reclamaram contra a extinção dos serviços florestais  - passa em primeiro lugar por voltar a adquirir essa capacidade de gestão do território. Capacidade de fazer bem. Capacidade de fazer de forma preventiva. Capacidade que perdeu por opção politica concretizada ao longo de décadas. Uma capacidade de exercer a sua função de defesa da floresta e do correcto ordenamento do território. Uma capacidade que num estado de direito deveria ser inalienável.

Se o Estado quer copiar bons exemplos eles não faltam por todo o mundo. Nesta matéria a nossa incompetência é líder, e, apesar de não ser muito divulgada pela nossa bolha mediática sempre ávida dos "nossos melhores do mundo", ela vê-se bem  assim como as suas devastadoras consequências.