20/07/13

Manifesto Contra o Desastroso Encerramento das Livrarias de Lisboa apresentado hoje, às 21 horas, na Livraria Sá da Costa, Rua Garrett, ao Chiado, em Lisboa

A Letra Livre acaba de editar o Manifesto Contra o Desastroso Encerramento das Livrarias de Lisboa, que, por iniciativa da Casa da Achada / Centro Mário Dionísio, será lido esta noite (20 de Julho de 2013), às 21 horas, na Livraria Sá da Costa — na Rua Garrett, ao Chiado — em protesto contra o seu encerramento, que acaba de ser decidido pelo Tribunal de Comércio de Lisboa, e contra o mal maior e mais geral que esse encerramento significa.

Há poucas semanas, a Letra Livre editara já sobre o mesmo tema "uma obra fundamental de crítica do modelo editorial actual que se impôs em todo o mundo e que por cá vemos em toda a sua miséria esplendorosa": O Negócio do Livros. Como os Grandes Grupos Económicos Decidem o Que Lemos de André Schifrin, com uma introdução de Vítor Silva Tavares (tradução de Octávio Lemos e Rui Lopo, Lisboa, 2012).

Um excerto do Manifesto, que será lido esta noite:


Mercê de nebulosas negociatas que serão caso de polícia mais de o serem de tribunais, a Livraria Sá da Costa só não fechou ainda a porta porque nós, os seus 5 livreiros, a temos mantido aberta — e já lá vão 2 anos — desde que um certo «senhor» se pôs a monte deixando atrás de si todo um cenário de desolação que passa por nós — os porventura mais afectados — mas se estende também à Livraria Buchholz e bem assim às editoras Portugália e Cavalo de Ferro, casas que levaram tempo a honrar um nome e que ele praticamente desmantelou em menos de um fósforo. Que não está sozinho ao proceder assim sabemo-lo bem, como vamos sabendo da impunidade que rodeia os chamados crimes de colarinho branco, esses que engordam causídicos antes que os tribunais decidam de vez quem é que deve o quê e a quem e quanto — caso este da Sá da Costa.

(…)

Senhoras e senhores:

não estamos a acusar a FNAC, não estamos a acusar a Bertrand, mesmo se entendidas elas (e por alguns) como eucaliptos sugando a seiva do mercado de consumidores. Livrarias generalistas, com sua escala de certo modo gigantesca, ocupam o lugar que ocupam, fazem pela vida, propõem mercadorias a públicos necessariamente diversificados. Acusação por acusação, o nosso papel assenta em acusarmos — e para além do banditismo de quem arrastou a Sá da Costa à situação de falência inequivocamente fraudulenta — todo um estado de coisas que faz imperar o consumismo mais ignaro e desenfreado e mais enganadoramente «rentável» (já que não passa de fogo-fátuo sem tempo, pois, de consolidação) como símbolo eleito a soberano da Barbárie que mina, escareia, esvazia a Cidade — o espírito de uma Cidade — como lugar de civilismo civilizado. É esta a nossa acusação primordial.

(…)

4 comentários:

Libertário disse...

Os trabalhadores da Sá da Costa desenvolveram nos últimos anos uma verdadeira prática de auto-gestão, mesmo sem nome, sem que essa esquerda que anda pela vida de forma tonta tivesse conhecimento do facto. Pois é frequentadora de centros comerciais e FNACs.
Longe vão os tempos em que os anti-capitalistas tinham uma (contra)cultura que os distinguia, e opunha, ao Sistema.

Youri Paiva disse...

Miguel, não é uma iniciativa da Casa da Achada. É uma iniciativa da Livraria Sá da Costa - dos seus trabalhadores - com o apoio da Letra Livre. A Casa da Achada apenas está solidária com a Sá da Costa e apela aos fundadores, amigos e frequentadores da CACMD a participarem neste lançamento/apoio.

joão viegas disse...

Muito bem !

As livrarias devem poder continuar a desempenhar o que devia ser a sua função principal : trazer o livro junto das pessoas e, por ele (com provas dadas ha varios séculos) as obras.

Infelizmente, mercê da fantochada que é a democratização papeleira dos pseudo-saberes, as nossas tristes sociedades permitiram que a logica fosse invertida e vemos hoje um negocio frutificar, que consiste em servir-se do prestigio merecido do livro, para vender mais uns adereços electronicos, tais como porta-chaves, sabonetes, telefones-telefonias-e-televisões.

A crise do livreiro-editor é mais do que um sintoma. E' a face mais visivel do desnorteamento provisorio da esquerda (não nos esqueçamos do que representou o sector na historia do movimento operario).

Temos o dever absoluto de lutar contra a bovinidade, voltando a decobrir principios simples, como a leitura de livros, e com eles a tomar consciência de tudo o que é fundamental para dar sentido ao mundo.

Isto passa por gestos simples e imediatos. Estamos no verão e muitos passeiam por ai : vão às livrarias e comprem livros. Não às FNACS e Bertrands que se instalam, feitos cogumelos, nos sordidos centros comerciais que descaracterizam os centros das nossas vilas e cidades, às verdadeiras livrarias, que vão desaparecendo, levando com elas o que a nossa sociedade ainda consegue produzir de inteligente. A Sa da Costa (transformada em livraria de segunda mão, o que é mau sinal), a Ferrin, enquanto resistirem. Algumas novas que se vão criando.

Lutar é preciso.


Abraços

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Youri,

obrigado pela rectificação. Não a incluí como adenda no corpo do post, porque só tomei conhecimento do teu comentário já depois do acontecimento referido. De qualquer modo, é de louvar a iniciativa, essa indiscutível, que CACMD assimiu de "apela[r] aos fundadores, amigos e frequentadores da CACMD a participarem neste lançamento/apoio".

Abraço

msp