08/12/19

O socialismo selvagem por Charles Reeve


Em tempos de neurastenia em que os apóstolos do there is no alternative parecem próximos de conseguir enfiar-nos o colete de forças do come-e-cala, livros como O socialismo selvagem são uma verdadeira lufada de ar fresco. Livros que lembram de forma inteligente, bem documentada e não resignada, que o poder verdadeiro, o poder autêntico, o poder real, apenas jaz provisoriamente nas mãos das autoridades estabelecidas, que o pervertem para servir interesses refastelados nas poltronas do imobilismo. O verdadeiro poder não está no tronco prometido a uma morte grotesca. Está na seiva. Está na vida. Assim imagino que tenha soado o Elogio da loucura de Erasmo para os seus leitores entorpecidos no sórdido comércio da palavra divina transformada em ritual oco e vazio. Da mesma forma, o empolgante ensaio de Charles Reeve (pseudónimo do nosso querido Jorge Valadas) vem lembrar-nos que o socialismo não foi cunhado pelos Doutores da Lei, nem concebido em forma estandardizada, pronto a ser enlatado... ou engavetado.

Tout ça n’empêche pas Nicolas
Qu’la Commune n’est pas morte !

Há quem se borre de medo com a perspectiva de ver o poder cair na rua. Mas, felizmente, há também quem tenha convicções genuinamente democráticas e lembre que a soberania nasce na rua, a quem cabe restitui-la regularmente. Os primeiros costumam pedir socorro a generais peritos em aquartelar a turba nas fortalezas do possível. Os segundos procuram antes desarmar os terratenentes do conformismo e retardar o momento em que a plebe regressará do Aventino.  Estes últimos – e Charles Reeve/Jorge Valadas é incontestávelmente um deles –  sabem que a efervescência do poder revolucionário, indisciplinado, indomável, selvagem, é o fabuloso laboratório do amanhã, porque sabe pintá-lo com as cores vivas e contrastadas do impossível. Percorrendo a história dos movimentos populares, o livro mostra com inteligência e rigor como isso se verificou sempre : em 1789-1795, e outra vez em 1871, em França, em 1917-8 na Rússia, em 1918-21 na Alemanha, em 1936 em Espanha, em 1968 novamente em França, em 1974-75 em Portugal, em 1994-96 no México, etc. Sem nunca ocultar que, em cada uma dessas occorrências, muito cedo se manifestaram as forças reaccionárias que acabaram por abafar ou desvirtuar o movimento.

Se o livro se contentasse com expor essa História, já seria o suficiente para recomendar acaloradamente a sua leitura, no panorama actual de demissão intelectual e de reverência generalizada diante do arcanjo engravatado que combate, supostamente para o nosso bem, o mostrengo da percentagem do défice. Mas o livro faz muito mais. Demonstra que essa História é actual, hoje mais do que nunca. Atento aos movimentos populares que, do Ocupy Wall Street ao Nuit debout, passando por outros, teimam em manter acesa a chama do inconformismo, o autor procura ouvir o que eles dizem em substância, a maneira como as suas reivindicações, longe de serem quimeras utópicas, actualizam e elucidam os anseios mais arcaicos e mais profundos do povo em movimento. Utópicas são as igrejas que nos tentam vender o céu às postas ! Quando o povo se levanta, nunca é para sonhar, mas para realizar, para alcançar, para cumprir. Nesse sentido, vale a pena ler com atenção as páginas dedicadas às reflexões sobre a problemática dos comuns e sobre a crise da representação política. Sem furtar-se à crítica dos inevitáveis disparates, que tantas vezes são por onde o sectarismo escolástico consegue infectar o movimento, Reeve mostra como o pensamento vivo se caracteriza pela propensão para reanimar concepções antigas, quando não ancestrais, e dar-lhes uma insuspeitada e inteligente actualidade. Não sei até que ponto há no Socialismo selvagem uma alusão consciente ao Pensamento selvagem de C. Levi-Strauss, mas o  parentesco parece-me evidente.  Num caso como noutro, vemos como a espontaneidade criativa do homem em sociedade, nas suas manifestações mais genuinas, que tantas vezes são consideradas “toscas” pela corja dos instalados, revela aquilo que ele tem de mais nobre e de mais promissor, que é fatalmente rebelde à instituição estabelecida.

Um livro que ilustra a célebre frase de O. Wilde, ou seria de W. de Faulkner, ja não sei, nem interessa : “a sabedoria é ter sonhos suficientemente grandes para não se perderem de vista quando os perseguimos”.

Escrito em francês e publicado em França em 2018 (por L’échappée), o livro acaba de ser publicado em Portugal pela Antígona (2019), numa tradução de Luís Leitão.

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