26/03/13

A esquerda mansa, a esquerda forte e o euro

Leio no 5 Dias que um «discurso de esquerda manso» implicaria uma defesa do euro e que uma força política e social para romper com a troika teria de rejeitar o euro e de nacionalizar a banca. Analisemos estas duas variáveis na actual conjuntura, começando com pequenos apontamentos sobre a saída do euro.

Para o Tiago Mota Saraiva e para os economistas nacionalistas que cita na caixa de comentários do seu artigo, uma desvalorização da moeda seria tão boa, tão boa que todos eles se esquecem que no dia a seguir a uma saída do euro passaríamos todos a pagar mais 30, 40 ou 50% (dependendo do grau de desvalorização cambial) em produtos tão inócuos para a economia como combustíveis, maquinaria e matérias-primas... Mas como os economistas nacionalistas nos garantem a pés juntos que a desvalorização cambial no final do primeiro ano resultaria num aumento de competitividade de 30 ou 40%, então cabe perguntar o seguinte. Tendo em conta que os custos que referi acima naqueles produtos e bens importados iriam aumentar necessariamente em dois dígitos, e tendo em conta que a competitividade iria pretensamente aumentar no valor que referem, então resta-me concluir que os ganhos de competitividade seriam feitos à conta e à custa dos salários e do emprego dos trabalhadores. Sabendo todos nós desde o Marx que só existem meios de produção (objectos de trabalho e instrumentos de trabalho) e força de trabalho para determinar a relação económica fundamental do capitalismo, então se os custos iriam aumentar em parte significativa dos objectos de trabalho (combustíveis, matérias-primas, bens de origem agrícola para transformação, etc.) e dos instrumentos de trabalho (maquinaria) importados, e se a competitividade ainda assim iria aumentar, então os efeitos só poderiam ocorrer fundamentalmente sobre a força de trabalho... Ou então não vão gastar um chavo em maquinaria moderna o que é um raciocínio muito elegante, mas que não aumenta em nada a produtividade do trabalho. Se calhar a ideia até é essa... Poupar nos salários, apostar em indústrias intensivas em trabalho e exportar barato... Tenho muitas dúvidas que fosse uma alternativa muito consistente e, na melhor das hipóteses, sequer diferente do actual modelo económico imposto pela troika... Próximo do modelo económico salazarista do pé-de-meia sê-lo-ia com certeza.



Entretanto, se Portugal sai do euro é bom lembrar que isso de saída controlada não existe e que em pouco tempo a banca portuguesa ia à falência. Iupiiii, cantariam os nacionalistas. Tudo bem para eles, pois entraria em jogo a nacionalização da banca. Os grandes capitalistas teriam zarpado e a esquerda nacionalista deste país não iria ter qualquer efeito sobre eles e sobre as suas fortunas... Ora, só é pena que os mesmos que criticam a situação actual quase exclusivamente a partir dos gastos do Estado português com o BPN, não tenham a mesma coerência discursiva de dizer aos trabalhadores que se a banca falir, será o Estado - e o dinheiro dos impostos dos trabalhadores (sim, porque, nessa altura, os capitalistas já estarão noutras paragens) - a pagar não apenas o BPN, mas a CGD, o Millenium, o Banif, o BES, o BPI, etc. O que implicaria uma injecção maciça de dinheiro para salvar os depósitos dos trabalhadores e de muitas empresas. O que inevitavelmente elevaria a inflação acima das expectativas actualmente optimistas dos nossos estimados nacionalistas. Ou então, outra possibilidade, deixariam todos os depósitos bancários torrarem. O que seria muito bonito de se ver mas duvido que as empresas que fossem à falência e que os trabalhadores que perdessem as suas poupanças achassem piada à coisa...

Nessa altura, quando os trabalhadores completamente depauperados e os pequenos empresários falidos se lançarem conjuntamente em torno de uma grande coligação patriótica e anti-monopolista contra os nossos "revolucionários" nacionalistas, e tendo como líder um militar ou uma personalidade carismática e populista, certamente que uma tragédia macabra como a que ocorreu no Chile de Allende ou na Indonésia de Sukarno voltaria a colocar-se. Depois dos bravos patriotas de esquerda terem salvo a pátria das garras do IV reich alemão, seria a vez da pátria pagar o retorno com a fúria de uma "nação em cólera", condição sine qua non de um qualquer fascismo. Por isso quando falo na possibilidade de uma saída do euro patrocinada pelo PCP e pela restante esquerda nacionalista resultar no seu contrário, podendo mesmo devorar os que hoje rejubilam com a via da saída do euro, não se trata de um mero entretenimento teórico. Se algo existe enquanto potencialidade é porque se pode desenvolver como tal, se determinadas circunstâncias se cumprirem... Na concorrência entre nacionalismos, o de origem mais à esquerda acaba sempre devorado pelo de direita. Ou transforma-se no seu contrário. Que os fautores dessas iniciativas não tenham disso consciência, ou pior, que disso não queiram ter consciência, então é porque a ideologia já afogou totalmente todo o tipo de racionalidade e de razoabilidade que ainda pudesse subsistir.


8 comentários:

miguel disse...

JVA, gosto dessa análise, e acho o cenário que apresentas possível. No entanto, acho que é um cenário que pode ser evitado, se juntamente com a nacionalização da parte da economia ligada ao sistema financeiro, se der também uma verdadeira democratização desta (que tem que passar por instrumentos eficazes, fáceis e atractivos, de decisão via web, abertos a toda a população)

Miguel Serras Pereira disse...

Caros João e Miguel,

a questão de uma saída controlada e em condições favoráveis do euro pressuporia que se desse na zona-euro e na UE uma alteração de relações de forças, que reforçasse os direitos sociais e fizesse recuar a oligarquia. Mas, nesse caso, a saída do euro seria não só inútil, como regressiva e sem sentido.

A democratização da economia - de resto, condição de qualquer democratização política efectiva - a que o Miguel se refere teria condições muito mais favoráveis de arranque num quadro federal do que num campo de batalha entre soberanias e nacionalismos rivais como aquele em que os dirigentes da UE tendem cada vez mais a transformá-la.

Há ainda outro aspecto, que, noutros escritos, o JVA tem referido, e em que eu próprio tenho insistido particularmente. A saída do euro por parte de Portugal e outros países - por iniciativa própria ou por efeito da política de potência e do (pseudo)federalismo austeritário das facções dirigentes da UE - seria politicamente um passo de gigante, talvez irreversível, no sentido da implosão da UE e da sua desagregação, balcanização, militarização e belicização crescentes. As diversas rivalidades nacionais teriam, no entanto, um aspecto em que convergiriam e em torno do qual, ainda que degladiando-se, cerrariam "objectivamente" fileiras: a oposição sumária e automática a quaisquer iniciativas de democratização locais. Então, como já agora é o caso, só a federação e coordenação democráticas, poderiam combater de facto essa frente dos nacionalismos. Não se trata de ficarmos à espera da coordenação e das instâncias de federação da acção para começar a lutar, mas trata-se, sim, da necessidade de imprimirmos a cada acção essa perspectiva ou horizonte mais vasto.

Abraço para ambos

miguel(sp)

joão viegas disse...

Caro João Valente Aguiar,

Ainda so dei uma rapida vista de olhos pelo seu texto e concordo no essencial com o que v. diz (que vem alias na sequência de outro post onde v. fazia a mesma critica à R. Varela).

No entanto, algo me soa mal nesta discussão.

Uma das grandes forças da argumentação da R. Varela ( e presumo que também do Tiago Mota Saraiva) reside no facto de não ser sustentavel uma posição de principio contra a saida do Euro. Com efeito, quando defendemos essa posição por principio, damos a entender que estamos dispostos a pagar o preço de permanecer no Euro sejam quais forem os custos. Esta posição é inaceitavel : em teoria, nada permite excluir que o preço de permanecer no Euro seja alto de mais, por exemplo por hipotecar completamente as nossas forças produtivas e a nossa autonomia sem quaisquer garantias em contrapartida, etc.

Por conseguinte, julgo que ha um erro retorico, e um erro de fundo, na critica a priori a uma saida do Euro. O que devemos dizer é que achamos que permanecer no Euro, hoje, e nas condições que nos oferecem hoje, ainda satisfaz o "interesse nacional".

Mas repare que esta posição é muito mais facil de se defender se soubermos ao mesmo tempo definir a partir de que momento (a partir de que nivel de concessões) considerariamos irracional e perigoso permanecer no Euro.

Ora definir este patamar é também responder às objecções dos "nacionalistas", mostrando que não estamos dispostos a esquecer que a Europa so tem sentido na medida em que se apresenta, como julgo ser ainda o caso, como a melhor forma de salvaguardar os interesses de todos os seus Estados membros, e dos trabalhadores desses Estados membros em particular.

Esse é que devia ser o ponto central da discussão : onde passa a fronteira, para os trabalhadores europeus (entre os quais os Portugueses) entre uma Europa "aceitavel" e uma Europa inaceitavel. Isto é, acreditando, talvez com alguma ingenuidade, que a discussão possa ser construtiva...

Boas

miguel disse...

msp, acho esse cenário de "desagregação, balcanização, militarização e belicização crescentes" francamente improváveis, dada as características de uma parte relevante da faixa etaria europeia dos 15-35 anos - jovens que fazem erasmus, com uma rede de contactos internacional, e acesso a todo o tipo de media e redes sociais. Não estou a ver o típico jovem europeu a pegar numa arma com convicção nacionalista.

dizes ainda:

"As diversas rivalidades nacionais teriam, no entanto, um aspecto em que convergiriam e em torno do qual, ainda que degladiando-se, cerrariam "objectivamente" fileiras: a oposição sumária e automática a quaisquer iniciativas de democratização locais."

dizes que surgiria um regime oposto a iniciativas de democratização local. não vejo porque é que isso iria necessariamente acontecer, se a vontade popular for no sentido de mais democracia local. haveria um crescimento de movimentos semelhantes ao de Beppe Grillo, que defenderiam isso mesmo

João Valente Aguiar disse...

Caros

o objectivo central do texto foi o seguinte e que, até hoje, nenhum dos nacionalistas se dignou a responder é o seguinte: se a competitividade iria aumentar 30 ou 40% segundo as matrizes que eles têm utilizado, e se ocorrerá uma desvalorização de 30 a 50% da moeda, logo a importação de combustíveis, de matérias-primas, de medicamentos, de maquinaria, etc. aumentaria na mesma proporção. Logo para conseguirem tal competitividade isso só poderá ser feito à custa da maior exploração dos trabalhadores, da expansão da mais-valia absoluta e da correspondente edificação de um aparelho de Estado ainda mais repressor... Aliás, um dos economistas nacionalistas chegou ontem a dizer no jornal i que seria necessária «uma liderança forte para que não houvesse turbulência»... Mais palavras para quê?

Portanto, até hoje, tudo o que os nacionalistas têm demonstrado é a aposta nesta via e ainda não apresentaram qualquer dado contrário a isso.

miguel disse...

Caro JVA, com desvalorização da moeda ocorreria uma diminuição do que importamos e um aumento na procura de produtos nacionais, que se tornariam relativamente mais baratos. Se a competitividade é definida como a razão entre a quantidade que se produz, e o seu preço, então naturalmente a competitividade aumenta.

Sim, isto é a custa duma diminuição dos salários, se medidos em euros. Por outro lado, seria uma maneira eficaz de diminuir o desemprego e reavivar a economia. E nada impede que o novo escudo recupere o valor perdido relativo ao euro, a longo prazo.

Dizer que isto só seria conseguido através de um Estado repressor é achar que a maioria dos portugueses rejeitaria a solução de saída de euro, com a desvalorização salarial que ela traria. Mas e se a maioria a aceitar?

João Valente Aguiar disse...

Miguel,

como você poderá substituir combustíveis? Ou várias das matérias-primas utilizadas? E vai deixar de importar bens com elevada componente tecnológica para que a produtividade continue a ser 40% da que se verifica na Alemanha? Se Portugal até importa bens alimentares e agrícolas num grau considerável, acha mesmo que era em um ou dois anos que conseguiria substituir essas importações?

Por outro lado, em que é que esse modelo se distingue do actual da troika? Se a troika tem fomentado o controlo do crédito dos particulares e se tem levado a cabo uma desvalorização nos salários (e que, em termos nominais, caíram, em média 8-9%), e se o programa de saída do euro, na melhor das hipóteses, proceder no mesmo sentido (baixar importações, reduzindo também com isso o crédito dos particulares; reduzir salários, etc.) então para que serve sair do euro?? Para fomentar mais nacionalismos?

E o que descrevi é a melhor das hipóteses e, do meu ponto de vista, praticamente impossível. A generalidade dos que defendem a saída do euro tratam a "coisa" como se isto fosse uma mera desvalorização monetária e o resto das variáveis seguiriam uma cadeia causal única e invariável. Ora, parece-me que uma saída de um país do euro poderia desencadear uma bola de neve. E que, por exemplo, a probabilidade de falência ou de perdas muito grandes na banca seria muito elevada. Ora, e se a banca for estatizada nessas condições, o estado imprime mais moeda e a inflação acabará por subir acima do esperado nas matrizes todas certinhas de input-output.

João Viegas, amanhã ou na 5f espero colocar um texto sobre os dilemas da via federalista. Lembro só que essa é a via mais provável. Eu sei que muita gente à esquerda, especialmente na esquerda nacionalista, gosta de raciocinar na base do que os media dizem ou, pior ainda, na base dos seus desejos de que isto tudo vá para o galheiro. Mas todos as intervenções dos membros da Comissão Executiva do BCE e a linha que a UE tem vindo a tomar será essa. Poderá demorar bastante tempo mas os capitalistas já perceberam que só essa via lhes permitirá, sublinho a prazo, ultrapassar os actuais problemas da zona euro. Qual o nosso papel nisto tudo? Em muito poucas palavras e só para abrir o debate para o próximo texto, aproveitar a arquitectura supranacional da UE para colocar as reivindicações transversais de todos os trabalhadores europeus (em termos de salários, empregos, etc.) acima dos unilateralismos nacionais.

miguel disse...

Caro JVA:

Claro que não substituiriamos todas as importações, mas o que importa é que importariamos menos. E este menos iria causar um respectivo aumento na procura de produtos nacionais. Que causaria um efeito benefico relativamente ao nivel de emprego. Importariamos menos devido a uma desvalorização da moeda, devido à inflação causada pelo imprimir de moeda para cobrir a divida que o estado assume, como referes. Penso que a tua objecção relativamente à inflação não faz sentido, porque a inflação está implícita, como a causa da desvalorização e da alteração da balança comercial.

no que é que este modelo se distingue da troika? primeiro: acho que concordamos que é consensual que é mais fácil e rápido ganhar competitividade através de uma desvalorização cambial, do que através da redução do consumo interno via austeridade. segundo: o controle monetário é uma ferramenta necessária para o estado aplicar medidas para combater o desemprego e reverter o decrescimento económico que se verifica actualmente.

uma nota sobre a via federalista: seria a via mais desejável, e se ela se concretizar, que seja o mais rapidamente possível. se escrevo a defender as vantagens de uma saída do euro, é porque não vejo como provável uma federação europeia a curto prazo - mas espero estar errado.