27/03/13

As lições de Chipre

O desenvolvimento da situação cipriota permite retirar, desde já, várias conclusões. E duas delas são particularmente pertinentes do ponto de vista da discussão em curso sobre a permanência (ou não) de Portugal na zona euro: (1) a União Europeia estava disposta a deixar falir os bancos e o Estado cipriota (o que muito provavelmente levaria à saída deste da zona euro), caso este último não tivesse aceite a solução proposta pela troika CE/BCE/FMI (com a benção do governo alemão), como se tornou claro pelas ameaças vindas do BCE, durante a semana passada, e as duríssimas negociações que tiveram lugar no último domingo entre a troika e o governo cipriota; (2) o resto da população europeia assistiu o tudo no mais absoluto silêncio, ciente de que estamos perante a completa aniquilação da economia cipriota, e do bem-estar da população local (o que se está a passar, a um nível macro, na Grécia e um Portugal será um piquenique perante o que espera os cipriotas). Portanto, da constatação (1) se deduz que a ideia de que amanhã um governo de Esquerda pode ir ter com a troika e exigir o que quer que seja é pura fantasia. Mesmo que se argumente que Portugal tem associado um "risco sistémico" para a zona euro mais elevado do que Chipre, donde o Estado português teria maior capacidade negocial, tal ignora que as acções da troika não se regem apenas por considerações estritamente "racionais" (de maximização do seu interesse próprio), mas são também (ou mesmo principalmente) guiadas por estados emocionais (ou seja, mesmo que a troika reconheça que a eventual falência do Estado português e/ou saída da zona euro poderá ter consequências graves para a integridade desta última, não aceitará ceder - substancialmente, e em pontos fulcrais, "perdendo a face", perante o que seria efectivamente visto como uma chantagem). Igualmente inverosímel, como se deduz da constatação (2), é a crença de que a situação cada vez mais dramática em vários países da periferia europeia vai gerar um movimento de indignação e solidariedade trans-europeu, com a inclusão das classes trabalhadoras dos Estados que até agora menos têm sentido o impacto da crise. Onde estão as manifestações, as greves de solidariedade? Se acontecerem apenas quando também a crise atingir esses Estados com a magnitude com que está a atingir os "Estados sob assistência", então muito antes já terão ocorrido revoltas populares nestes últimos, efectivamente tornando inviável a sua permanência no seio das actuais estruturas europeias. Admitindo que serão inevitáveis revoltas populares (mesmo que apenas através do voto, como já esteve prestes a acontecer na Grécia) se as "condições de ajustamento" impostas aos "Estados sob assistência" não forem fortemente aliviadas; revoltas essas que poderão desembocar em regimes de características autoritárias, independentemente de se caracterizarem como de Esquerda ou de Direita; uma das questões que se deveria então colocar é se a probabilidade de tal nefasto desfecho não aumenta quanto mais forem adiadas, por exemplo em nome duma putativa transformação federal das estruturas europeias, tentativas locais de abordar o problema com que os estados europeus periféricos se defrontam. Nomeadamente, e sem tomar partido por essa via, interrogo-me se o adiamento da saída do Estado português da zona euro não estará a aumentar a probabilidade de instauração dum Estado autoritário após tal saída ocorrer, devido à continua degradação da situação económica e social, que retira margem de manobra a uma recuperação económica pós-euro sem uma forte atitude proactiva por parte do Estado e radicaliza mais e cada vez em maior número sectores da população, fazendo crescer o anseio por soluções vistas como capazes de instaurar a estabilidade e previsibilidade cada vez mais ausente das vidas duma parte crescente da população. Dito por outras palavras, o apreço dos portugueses pela conceito de Democracia degradada-se a "olhos vistos". Neste momento talvez ainda seja suficientemente forte para constituir um obstáculo considerável a qualquer tentativa de instauração dum regime autoritário pós-euro. Mas não acredito que tal predisposição (para a defesa da Democracia, mesmo que na sua limitada versão actual) dure muito mais tempo.

10 comentários:

João Valente Aguiar disse...

Apesar de não concordar com vários pontos, dou-te os meus parabéns pelo tom sério com que discutes questões absolutamente fulcrais. Amanhã verei se arranjo um furo para comentar alguns pontos.

Um abraço

Libertário disse...

Só algumas notas:

- A esquerda, que era anti-capitalista e tinha sempre na boca «os ricos que paguem a crise», ficou indignada com o facto de agora a política da União Europeia seja confiscar uma parte dos depósitos bancários...
Inverteram-se os papeis: os burocratas europeus, perdidos neste confusão generalizada, metem a mão no bolso dos aforradores e a esquerda defende a propriedade privada!

- Há muito está claro que só a luta internacional coordenada dos trabalhadores pode constituir uma barreira à ofensiva capitalista. Desde logo na Europa. A esquerda não tem conseguido dar nenhum passo significativo nessa direcção, pelo contrário parece ser um obstáculo a essa estratégia internacionalista.

- O papão do regime autoritário, algumas vezes dito do novo fascismo, impede-nos de ver que esta «democracia» e este sistema é cada vez mais autoritário e que se está construindo uma sociedade do controle totalitário. Os pequenos passos são dados até pelo nosso simpático António Costa, do PS, e pela Câmara da Amadora, do PS, com a instalação a todo o vapor de mais videovigilância. Neste aspecto da construção de um modelo totalitário todos os partidos do poder, mais uma esquerda estatista, estão de acordo, embora com discursos distintos.

joão viegas disse...

Caros,

Muito bem. Este post e o anterior parecem-me debater o ponto fundamental, mas julgo que ainda podiam eliminar alguma teologia.

1. Pedro Viana : admitindo que a direita europeia esta, como obviamente esta, a atirar os trabalhadores europeus uns contra os outros, aproveitando os resquicios de fronteiras politicas que ela não se resolve a abandonar (precisamente porque isso não lhe interessa tanto), isso é motivo para cair na armadilha ? Sem recusar em absoluto que a situação venha um dia a ser grave a ponto de exigir sacrificios radicalmente inaceitaveis, com um abandono substancial e irreversivel dos direitos efectivos dos trabalhadores dos paises periféricos, estamos realmente num caso destes ? Não estamos antes numa situação em que os "sacrificios" estão ainda muito longe de equivaler ao que os trabalhadores portugueses ganharam, em termos de poder de compra e não so, com a integração de Portugal no espaço Europeu (e àquilo que eles podem razoavelmente aspirar a ganhar ainda, mediante um minimo de organização) ? A meu ver, o post do João Valente Aguiar expõe dados importantes para responder a esta pergunta...

João Valente Aguiar : O que v. diz esta certissimo, mas não permite completamente sair da dificuldade levantada pelos "nacionalistas". Com efeito, que garantias temos, hoje, que o processo de integração é irreversivel, e que não vai ser (como esta um pouco a acontecer) abandonado mal a Europa do capital compreenda que o proximo passo não lhe interessa assim tanto... Como responder aos "nacionalistas" que dizem, com algum bom senso : se as coisas voltam para tras, vai doer muito mais ainda aos paises periféricos, uma vez que a factura tera de ser paga com uma economia completamente desnorteada e estruturalmente dependente do espaço Europeu ? Responder a esta dificuldade é necessariamente mostrar que existe, na dinâmica europeia, uma genuina e essencial procura de atender aos interesses de todos os trabalhadores, incluindo os interesses dos trabalhadores dos paises periféricos. Esta musica tem faltado : onde estão as forças (de esquerda) que deviam estar a velar pelos interesses de TODOS os trabalhadores europeus, e que podiam de facto enviar mensagens inteligiveis sobre a necessidade de ajustar sacrificios entre trabalhadores dos paises periféricos e trabalhadores dos paises motores ? Portanto o Pedro Viana tem alguma razão quando pergunta : onde esta a mobilização, onde estão as manifestações, etc.

A esquerda tem o dever de ser realista e o dever de ser forte. Tão forte como a ideia, profundamente verdadeira hoje como ontem, que as fronteiras nacionais NAO interessam, nem beneficiam, aos trabalhadores. esta verdade, porque não é teologica, tem de ser demonstrada. Mas a realidade encarrega-se de nos dar elementos mais do que suficientes para o fazer.

Boas

Anónimo disse...

"Portanto, da constatação (1) se deduz que a ideia de que amanhã um governo de Esquerda pode ir ter com a troika e exigir o que quer que seja é pura fantasia."

Há muito tempo que este seu comentário certeiro merece um grande debate, que continua sem ter eco nos partidos que defendem a renegociação. Desde as primeiras vezes que se falou nisto no Vias já não é só o PCP e o BE que defendem a renegociação, agora juntou-se-lhes o inenarrável Partido Socialista. O Syriza continua sem se pronunciar, à espera de tomar o poleiro e provavelmente desiludir toda a gente, ficando de pés e mãos atadas para melhor poder "defender o euro" ao lado da troika, esperando a solidariedade dos povos europeus.

Há contudo uma coisa que não pode ser negada, e que tem sido insistida por parte de Pedro Nuno Santos (Ladrão de Bicicletas & PS): o poder negocial só faz sentido num quadro de união de países intervencionados pela troika. Seguramente que o poder negocial é muito superior pois o risco sistémico da Espanha ou da Itália seriam, por si só, suficientes para arruinar a UE.

Não sei o que o JVA pensa sobre a renegociação partindo do bloco periférico. Espero que também não ache isto uma ideia de variante maoísta terceiro mundista, de nações proletárias vs nações plutocráticas.

Pedro Viana disse...

Os comentários do Libertário e do joão viegas tocam-se, quando o Libertário se interroga sobre a razão da incapacidade da Esquerda criar uma mobilização solidária a nível europeu, e o joão viegas afirma "as fronteiras nacionais NAO interessam, nem beneficiam, aos trabalhadores". Ora, não me parece que esta afirmação seja verdade, em certos aspectos, e é a noção de tal por parte dos trabalhadores em diferentes espaços europeus que explica o problema assinalado pelo Libertário. Quando comparamos a situação na Grécia com o que se passa, por exemplo, na Dinamarca, em termos de direitos e rendimento dos trabalhadores, é óbvio que há uma enorme diferença, que é explicada pelo facto de haver uma fronteira entre as regiões europeias onde actuam (e têm actuado ao longo de muitos anos) os Estados grego e dinamarquês. Os trabalhadores dinamarqueses sentem-se protegidos pela existência dessa fronteira, sentimento que automaticamente impõe aos seus olhos uma diferenciação "nós-eles", que inevitavelmente leva à fraca solidariedade demonstrada.

Com isto não estou a defender a existência de fronteiras per se, mas não acho que deva ser varrido para debaixo do tapete alguma da sua utilidade. Por exemplo, é frequentemente mencionados o fraco crescimento económico de Portugal desde que adoptou o euro como se este último factor fosse o causador da constatação mencionada. Correlação não implica a existência dum nexo causal. Julgo ser bem mais provável, mas deve ser muito difícil de provar, que o fraco crescimento económico de Portuga desde 2000 seja antes de mais ao desaparecimento (ou forte diminuição) de muitas tarifas alfandegárias e quotas impostas a produtos provenientes da China e outros produtores com um perfil de especialização económica semelhante, como resultado da sua integração na OMC. Ou seja, foi o (brusco) desaparecimento de um tipo de fronteira (comercial), entre a UE e esses países, que levou (provavelmente) a muitos dos problemas em que hoje está mergulhada a economia portuguesa.

Anónimo disse...


Há quem defenda, por aqui, medidas de tal modo globais que ignoram completamente a necessidade do trabalho local de concretização e que não é uma transposição imediata da grande abstracção (trabalhadores sem fronteiras ou nada) mas, em geral, de um lado a própria negação da grande abstracção e, de outro lado, a sua recomposição mediante as necessidades do concreto.

Na prática advoga-se que não se faça nada enquanto não emanar do status de abolição subjectiva das fronteiras por todos os trabalhadores de todos os (ex)países, enfim, que os portugueses devem esperar que os trabalhadores do mundo se unam numa organização transnacional e que até lá qualquer política nacional é para deixar caír por ser nacionalista.

Enfim, a meu ver, são ideias que deixam intactas as políticas em curso. São um favor ao governo.

João.

Pedro Viana disse...

Não me parece que seja fácil responder à última questão que o joão viegas coloca. Porque não podemos obviamente simplesmente comparar os direitos e rendimentos dos trabalhadores portugueses hoje com os que tinham antes da integração do Estado português primeiro na CEE, depois na UE, e finalmente na zona euro. Teríamos de poder fazer a comparação com o que Portugal seria hoje se tivesse ficado de fora (de algumas) dessas integrações. Mas tal simulação é obviamente extremamente incerta. Apenas podemos olhar para o percurso que tiveram outros países com uma estrutura económica semelhante. E nesse caso vemos países como a Grécia (na zona euro) com a sua economia em cacos, e ao lado a Turquia (fora da UE) com um dos maiores índices de crescimento do PIB nos anos mais recentes.

Ainda, não percebo bem a primeira interrogação no comentário do joão viegas. Não vejo como a defesa da saída da zona euro pode originar per se um exacerbar de quaisquer tensões entre trabalhadores em diferentes estados europeus. Essa defesa não é feita contra quaisquer trabalhadores (se efectivamente os beneficia ou não é outra história). Aliás, a saída da zona euro de países como a Grécia ou Portugal é aparentemente "bem-vista" por largos sectores das populações dos países que menos têm sido afectados pela actual crise. Parece-me mais provável um exacerbar de tensões entre trabalhadores de diferentes países europeus se se insistir em "exigir" solidariedade (por exemplo, através duma verdadeira união fiscal e orçamental) por parte dos trabalhadores (ie. contribuintes) dos países economicamente mais fortes. Pode-se argumentar que os trabalhadores estão a ser manipulados, e ignoram o seu real interesse. Infelizmente, tal é irrelevante, a não ser que se ache que é possível, no curto horizonte temporal que nos separa do desastre, mudar substancialmente a percepção da realidade a milhões de pessoas que, na verdade, se sentem confortáveis com o modo como vêem percepcionam os acontecimentos a que assistem pela televisão ou sobre os quais lêem.

joão viegas disse...

Ola,

Muito rapidamente : o que eu digo não é que devemos ignorar completamente as fronteiras, ou que devemos sacrificar tudo ao ideal (utopico pelo menos nos proximos anos) de um mundo sem fronteiras politicas. Digo apenas que, numa economia globalizada, as fronteiras são precarias e têm um valor instrumental e relativo. Elas não foram inventadas para proteger os trabalhadores e não ha aparência que elas sirvam principalmente os seus interesses. Alias, lutar pela integração europeia é também, de uma certa maneira, lutar por fronteiras, aceitando que as fronteiras da Europa (que em absoluto são tão justificaveis, ou injustificaveis, como as outras) constituem hoje a melhor protecção dos direitos dos trabalhadores no espaço europeu, inclusivamente nos paises periféricos...

O que penso, é que é falacioso acreditar que os trabalhadores têm algo a ganhar com a inversão do processo de integração economica, ou que é possivel voltarmos a uma Europa de pequenas nações que vivem de costas voltadas umas para as outras. Isto é que é irrealista e, em Portugal, temos a obrigação de saber que o "orgulhosamente sos" não leva a lado nenhum.

Tal não significa que não devamos pugnar pelo respeito dos interesses legitimos dos paises periféricos e dos seus povos. Mas fazê-lo acreditando que o mundo vai andar para tras não me parece muito aconselhavel.

Aprende a nadar compahneiro, que a maré ja se levantou ha muito tempo...

Boas

Um andorinhão não faz le printemps? olha que nã óia ki nã... disse...

Não há uma lição sobre bancos que continuam a persistir na especulação?
Como um banco holandês que foi salvo esta semana pelo presidente do eurogrupo?
Os estados unidos deixaram falir mais de 200 bancos desde 2007 e apesar disso ninguém foge dos grandes especuladores que suportam a bolsa e os 18% do share mundial do US of A na Banca
E os 33% do U.K com a banca de Hong kong HSCBank

Anónimo disse...

Agora a mera defesa de uma ideia de soberania nacional já passou a ser o "orgulhosamente sós"...Enfim, quando não há base resta a hipérbole.

João.