31/03/13

O que é nacional é bom? Para quem?


«Tomando em consideração a austeridade que tem sido aplicada e tomando em consideração a via de saída do euro, importa referir que não se trata simplesmente de escolher entre dois modelos capitalistas, apesar de ser inegável qual o mais nefasto para os trabalhadores. Trata-se, também e acima de tudo, de perspectivar politicamente qual é o que permite melhores condições para que os trabalhadores se libertem dos espartilhos do nacionalismo e da fragmentação das lutas. Assim sendo, a via nacionalista preconizada pela esquerda, de um rompimento com o euro, não representa nenhum tipo de avanço das lutas sociais contra o capitalismo e muito menos qualquer tipo de articulação internacional das reivindicações dos trabalhadores.
A federalização da União Europeia não está isenta de equívocos e de problemas para os trabalhadores. Mas ela é, no quadro actualmente existente, a única via que, pressionada pelas lutas dos trabalhadores, pode desarmar o nacionalismo. A derrota da austeridade não ocorrerá pela saída do euro. Pelo contrário, só as lutas dos trabalhadores poderão dar outro rumo à federalização europeia. Tal federalização, mesmo nas condições de austeridade, tem consequências económicas menos negativas para os trabalhadores (apesar de, por si só, já serem devastadoras o suficiente) do que teria uma saída do euro (vd. aqui). E politicamente, num plano temporal mais vasto, abre possibilidades para colocar mais facilmente em cima da mesa os ataques transversais que os trabalhadores europeus têm sofrido. Portanto, dando um escopo internacional às reivindicações dos trabalhadores em todo o continente e, ao mesmo tempo, diluindo os sentimentos nacionais e nacionalistas que têm percorrido a Europa.
A esquerda nacionalista tem colocado as contradições sociais no plano ideológico da luta das nações e, portanto, mobilizando os trabalhadores contra a invasão dos “países ricos” e contra a Alemanha. Pelo contrário, a esquerda anticapitalista deverá colocar no centro da luta política a transversalidade dos ataques a que todos os trabalhadores europeus têm sido sujeitos. Portanto, colocando de modo muito nítido em cima da mesa o antagonismo dos trabalhadores relativamente às classes exploradoras de toda a Europa. A primeira perspectiva coloca a tónica numa luta entre nações ricas e nações pobres (ponto de contacto entre todos os nacionalismos) e transforma a dialéctica antagónica da constituição de um eventual «modo de produção comunista» (Bernardo 1974) contra o capitalismo, numa luta da nação portuguesa contra a supranacionalidade europeia. Assim, para a esquerda nacionalista o capitalismo seria sinónimo de uma condição apátrida e internacional, ao passo que o socialismo seria uma realidade política de matriz nacional. Inversamente, a segunda perspectiva coloca a solidariedade internacional dos trabalhadores em primeiro plano e como objectivo político crucial. Que a maioria da esquerda tenha derivado para a primeira perspectiva, isso só demonstra o sucesso que as classes dominantes têm tido. Enquanto os capitalistas aumentam o seu poder e a sua capacidade de actuação se expande em todas as escalas, a maioria da esquerda quer acantonar os trabalhadores na nação.
No caso de uma saída portuguesa do euro, acantonando os trabalhadores numa nação em condições de vida miseráveis e desarticulando os interesses globais de todos os trabalhadores europeus em nome da defesa do interesse nacional. Tomem o nome que tomarem, não é daqui que surgem os fascismos?»
O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

9 comentários:

Anónimo disse...



Como já vi dito anteriormente, este debate torna-se uma repetição constante dos mesmos argumentos que quem for alheio a estes dois lados da barricada poderá perguntar a ambos os lados: de que forma vós que defendem uma saída do euro vão conseguir uma maioria da sociedade civil portuguesa que consiga contrariar aquilo que todos aqueles que escrevem neste blogue profetizam, isto é, que a haver um regresso a uma moeda nacional, e a todos os mecanismos de controlo da economia que vós reivindicais, este controlo da economia que vós exigis não exerça a austeridade de uma outra forma, que continue, agora a nível nacional, a acentuar as desigualdades sociais. Para que tal não seja assim será necessário (e é no fundo a esperança de quem for de esquerda e simultaneamente não acredite na reforma da UE tal como ela existe hoje em dia) que seja uma maioria da população que quer através do voto, quer pela luta diária, retire o poder aos partidos do bloco central, e consiga fazer o que até hoje nunca vimos no espaço português ou de qualquer país da união europeia: até agora, o mais que a esquerda parlamentar conseguiu foi alcançar 20% dos votos (nos seus melhores momentos, na altura da AD através do PCP (APU), e em 2009, quando BE e CDU juntos alcançaram cerca de 20% dos votos. Ora, seria necessário que a mobilização social fosse ainda mais elevada e que ela não se traduzisse apenas através do voto nestes partidos. Sem este contexto a mudança de escala (da UE para Portugal) não alteraria o conteúdo das políticas de austeridade mas apenas a sua forma.
Por outro lado, o que esta esquerda, que defende a saída do euro, procura é uma solução que permita intervir mais rapidamente (mais imediatamente) e procurar uma solução que permita inverter as políticas de austeridade. Ora, e encurtando o raciocínio, ainda não encontrei nos vossos textos nenhuma reflexão sobre uma estratégia de curto e médio prazo que a esquerda possa ter e que vá além de todo o tipo de raciocínio quase idealista sobre o "dever ser" de uma forma de combate à hegemonia liberal e austeritária. Numa frase, que objetivos de curto prazo e de médio prazo uma esquerda anticapitalista pode desenvolver, e que estratégias de ação para esses objetivos? A ficarem sem resposta estas perguntas uma vez mais a esquerda continuará a ser derrotada.
Rui Santos

Anónimo disse...

Reedição corrigida do post anterior:

Como já vi dito anteriormente, este debate torna-se uma repetição constante dos mesmos argumentos que quem for alheio a estes dois lados da barricada poderá perguntar a ambos os lados: de que forma vós que defendem uma saída do euro vão conseguir uma maioria da sociedade civil portuguesa que consiga contrariar aquilo que todos aqueles que escrevem neste blogue profetizam, isto é, que a haver um regresso a uma moeda nacional, e a todos os mecanismos de controlo da economia que vós reivindicais, este controlo da economia que vós exigis não exerça a austeridade de uma outra forma, que continue, agora a nível nacional, a acentuar as desigualdades sociais. Para que tal não seja assim será necessário (e é no fundo a esperança de quem for de esquerda e simultaneamente não acredite na reforma da UE tal como ela existe hoje em dia) que seja uma maioria da população que quer através do voto, quer pela luta diária, retire o poder aos partidos do bloco central, e consiga fazer o que até hoje nunca vimos no espaço português ou de qualquer país da união europeia: até agora, o mais que a esquerda parlamentar conseguiu foi alcançar 20% dos votos (nos seus melhores momentos, na altura da AD através do PCP (APU), e em 2009, quando BE e CDU juntos alcançaram cerca de 20% dos votos. Ora, seria necessário que a mobilização social fosse ainda mais elevada e que ela não se traduzisse apenas através do voto nestes partidos. Sem este contexto a mudança de escala (da UE para Portugal) não alteraria o conteúdo das políticas de austeridade mas apenas a sua forma.
Por outro lado, o que esta esquerda, que defende a saída do euro, procura é uma solução que permita intervir mais rapidamente (mais imediatamente) e procurar uma solução que permita inverter as políticas de austeridade.
Contudo, se estes parecem ser os problemas mais visíveis da esquerda que defende a saída do euro e da União Europeia, questiono-vos agora a vós JV Aguiar, M Serras Pereira, Miguel Madeira, P Viana, que não não encontrei nos vossos textos nenhuma reflexão sobre uma estratégia de curto e médio prazo que a esquerda possa ter e que vá além de todo o tipo de raciocínio quase idealista sobre o "dever ser" de uma forma de combate à hegemonia liberal e austeritária e simultaneamente por um projeto internacionalista e antinacionalista.
Numa frase, que objetivos de curto prazo e de médio prazo uma esquerda anticapitalista pode desenvolver, e que estratégias de ação para esses objetivos?
A ficarem sem resposta estas perguntas creio que, uma vez mais, a esquerda continuará a ser derrotada.
Rui Santos

in flak são de 88 milimetros disse...

Bom, pressupondo que uma saída fosse feita por etapas, com tempo, com garantias para as pequenas empresas das existências em numerário para compras futuras num paraíso fiscal da CGD...não há problemas numa saída dessas do eurro
até porque mais cedo ou tarde alguém será chutado
desvantagens poucas, uma inflação à marroquina, carências à egípcia e uma notafilia enriquecida à bolivariana em bolívares novos ou em cruzados brasileiros

cá na FEIRA houve notas de 100 cruzeiros de 1974 e de 10 mil de 77 queriam 50 cêntimos por cada uma os ladrões
mim ofereceu dois rolos de tostões de 1943 por cada uma e eles nã quiseram

capitalistas do catano
tive de lhes dar 5 libras do biafra e 10 marcos de 1918 todos esburacados

a inflação em marrocos tá fina?

a da venezuela matou dois marçanos madeirenses esta semana

azares...
aqui só assaltaram um ourives no entroncamento da CP do pinhal novo

e deixaram-lhe 120 euros na carteira
falta de fé no papel

como se compram duas pizzas com cordões de ouro?

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Rui Santos,
combater a austeridade, como V. parece ver bem, não é "nacionalizá-la". Significa ou pressupõe movimentos capazes de, num primeiro momento, fazerem recuar a direcção austeritária da UE e da ZE, "aproveitando o balanço" da defesa para passar ao ataque numa perspectiva de democratização. O que me parece passar Ora bem, se a saída unilateral do euro tem os problemas que pessoas como Francisco Louçã reconhecem e querem evitar, é preciso dizer, o que Louçã não diz não sei por que cálculos político-partidários tortuosos, embora provavelmente o saiba, que uma moeda única sem integração orçamental e fiscal não o chega a ser - ou se transforma num mecanismo perverso nas mãos das instâncias efectivamente governantes da região. Mas, se vejo bem, a integração orçamental e fiscal, requer a federação política: no mínimo, e para começar, um parlamento da UE responsável, uma constituição, um governo constitucionalmente controlado pelos cidadãos. São, enfim, evidentes as vantagens, do ponto de vista democrático, de um cenário em que estes objectivos sejam completados, potenciados e excedidos por reivindicações igualitárias e participativas, de reforço das liberdades e direitos, através de acções, lutas e plataformas democraticamente organizadas e decididas. Trata-se, pois, de conquistar condições imediatas anti-austeritárias, sem perder de vista a perspectiva de uma democratização radical das instâncias (a construir) e das formas governantes da UE. e da afirmação da Europa como um pólo de resistência e alternativa à globalização neoliberal da precariedade e da "proletarização" da grande maioria de todas as populações do mundo. É, por isso, em suma, que qualquer via soberanista e nacionalista é retrógada - tanto a nível europeu como global.

Cordiais saudações democráticas

msp

Um andorinhão não faz le printemps? olha que nã óia ki nã... disse...

4. forma de ruído arbitrária

acho que a inflação, esse imposto brutal e a desvalorização competitiva

caem na categoria 4

caso de estudo: Supermercados Apolónia

25 milhões a 30 milhões de facturação anual

empresa familiar de um emigrante no canadá

que se baseia na importação de produtos ao gosto da comunidade não algarvia e de sucedâneos locais para os substituir

220 a 250 empregados na fase de pico Junho a Agosto

140 a 150 mil em salários mensais
pagamentos a fornecedores milhão e meio a três milhões de euros mensais

impostos directos e indirectos
cerca de 2 milhões e 800 mil em 2008 hoje provavelmente mais

lucros antes de impostos 400 a 800 mil por ano

ou seja menos de 4% dos 25 milhões médios de facturação bruta

em caso de desvalorização da moeda o número de clientes potenciais de uma europa e da américa do norte aumentará ou buscarão outros destinos caribeños com mais sol?

é que de loulé a vila do bispo foi só gente com saudades do clima britânico

que diga-se de passagem também não passa bem...

podia meter algodão grego em têxtil luso
ou cabedais chineses em sapataria nacional mas para quê...

obviamente eles em escudos aguentam ai aguentam aguentam

é só aumentar 20% os salários numa inflação de 30....vias verdes só em notas de santo antónio

Democratização disse...

E aqueles estados fascistas e nacional socialistas da alemanha federal ahn...
falta de democracia pá...
a maioria é que manda

55 milhões de italianos mandam mais que os polacos claro

o facto de alguns polacos quererem uma moeda forte é parvoeira deles

basta ver como a espanha foi prejudicada quando deixou a fraca peseta e foi invadida por produtos portugueses extremamente competitivos

é ver as filas de nuestros hermanitos a abastecerem-se nas nossas bombas da galp e nos nossos pingos doces e nos franceses auchan's e intermarchés

todas as páscoas é o mesmo
já no resto do ano estranhamente...

Anónimo disse...

19 e 40 já

Anónimo disse...

"combater a austeridade, como V. parece ver bem, não é "nacionalizá-la". Significa ou pressupõe movimentos capazes de, num primeiro momento, fazerem recuar a direcção austeritária da UE e da ZE, "aproveitando o balanço" da defesa para passar ao ataque numa perspectiva de democratização"

Caro Miguel,

Leia de novo esta frase que eu cito da sua resposta ao Rui Santos. Você verá que ela não quer dizer nada. Falta-lhe uma coisa essencial - o sujeito.

Você diz: "movimentos capazes de, num primeiro momento, fazerem recuar a direcção austeritária da UE e da ZE"

- movimentos de quem e sobre o quê? Quem é que move? E o que é que move?

Depois diz: "aproveitando o balanço" da defesa para passar ao ataque numa perspectiva de democratização."

Ora se a perspectiva é de democratização então é porque a base, o ponto de partida não é democrático. Ou seja, isto parece indicar que é necessário criar primeiro uma instância não democrática para depois a começar a roer por dentro para que ela se torne democrática. Mas isto quer dizer apenas uma coisa: você não garante nada além de uma base anti ou não-democrática para o federalismo, porque se ela se tornará democrática ou não isso fica por saber.

Ficando ainda por saber se a passagem do não-democrático ao democrático não implica depois a própria implosão da federação.

João.

Argala disse...

MSP e JVA,

Por favor, acabem com os termos em que estão a encerrar este debate. Isto só serve para lançar a confusão.

Um comunista, revolucionário, seja ele leninista ou não, não vai perder o seu precioso tempo a debater as virtudes desses dois tipos de sociedade capitalista: uma integrada na UE; outra fora.

Há uma Revolução para preparar, deixem o sexo dos anjos e fechemos a merda do debate nos seguintes pontos:

1. Queremos um país, uma península, uma Europa, um mundo socialista - o que só é possível por cima do cadáver deste projecto político nacional, europeu e imperialista em que nos inserimos.

2. Não queremos apenas sair da UE, queremos destruí-la para benefício dos trabalhadores europeus, porque queremos uma Europa socialista.