14/10/15

Porque a coligação PaF ficou em primeiro lugar

No Destreza das Dúvidas, Fernando Alexandre escreve que está "convencido que (...) uma das razões da vitória da coligação [foi que] os portugueses, apesar de saturados de cortes, perceberam que Portugal não pode pôr em risco a recuperação económica com medidas que não sejam sustentáveis do ponto de vista orçamental."

Ainda antes das eleições, Pedro Magalhães analisava a hipótese de a coligação ficar em primeiro lugar, e atribuiu tal eventualmente aos sinais de recuperação económica e a não ter havido medidas adicionais de austeridade.

Mas, nos motivos da coligação ter sido a lista mais votada, parece haver um elefante no meio da sala que parece estar a ser ignorado (já que atrás falei do Pedro Magalhães, seria injusto não referir que ele parece ser dos poucos que não o está a ignorar) - que o PSD e o CDS "ganharam" estas eleições com uma votação igual ou pior à que tiveram nas eleições em que foram "derrotados":

1983 - PSD+CDS: 39,8%
1995 - PSD+CDS: 43,17%
1999 - PSD+CDS: 40,66%
2005 - PSD+CDS: 36,01%
2009 - PSD+CDS: 39,54%
2015- PSD/CDS+PSD+CDS+CDS/PPM: 38,55%

Ou seja, os votos que o PaF teve nestas eleições foram os votos que a direita tem tido sempre (pelo menos em eleições legislativas - nas europeias é outra história), aconteça o que acontecer (pior só 2005), pelo que não há aqui grande "vitória" a explicar.

Mas então, como é que nestas eleições o PaF foi o mais votado? Para perceber melhor, convém vermos a evolução dos resultados dos outros partidos:
1983
PS: 36,11%
APU+UDP/PSR+UDP+PSR: 19,22%
Outros: 2,19%

1995
PS: 43,76%
CDU+PSR+UDP: 9,78%
Outros: 1,37%

1999
PS: 44,06%
CDU+BE: 11,43%
Outros: 1,86%

2005
PS: 45,03%
CDU+BE: 13,89%
Outros: 2,13%

2009
PS: 36,56%
BE+CDU: 17,67%
Outros: 3,15%

2015
PS: 32,38%
BE+CDU: 18,49%
Outros: 6,88%

O que houve aqui, então foram duas coisas: o efeito aritmético dos votos do PSD e do CDS virem logo somados (o que ajuda a ficar em primeiro lugar); e a subida do BE, CDU e sobretudo dos "pequenos partidos" (quando fui ver estes números, estava à espera de encontrar também um grande aumento dos votos brancos e nulos, mas foi pequeno).

Em suma, o aspeto principal destas eleições foi os descontentes terem largamente escolhido votar fora do "arco da governação", em vez de, como era usual, no PS; mas não houve nada que possa ser visto como um "voto de confiança" no governo ou coisa do género (talvez muito pelo contrário - até certo ponto o PSD/CDS "ganhou" exatamente porque muito eleitores preferiram votar em partidos ainda mais afastados da politica do governo do que o PS; curiosos paradoxos da aritmética eleitoral...).

1 comentários:

jose guinote disse...

Miguel, julgo que os números que mostras não ajudam muito a defender essa tese de que foi o aumento dos partidos fora do arco da governação que explica o que pretendes explicar. Entre 2005 e 2015 o PS perdeu cerca de 850 mil votos e a abstenção aumentou mais ou menos do mesmo valor. Nesse período o BE e o PCP não aumentaram mais de 200 mil votos. O Ricardo Paes Mamede explicou isto muito bem nos Ladrões de Bicicletas e eu próprio fiz referência ao facto aqui no Vias.