04/05/17

Lisboa para todos ? (actualizado)

A CM Lisboa anuncia um parque verde em Marvila. Acontece que esta área, muito marcada pelo uso industrial- portuário obsoleto, foi sempre uma área popular que liga Marvila e o Beato através da rua do Açucar.
Uma área que se foi degradando e perdendo o seu carácter popular e operário ao longo de décadas que importaria revitalizar, sobretudo intervindo nas condições de alojamento.(*)

Com uma reabilitação em curso que não pensa na reabilitação urbanística e que ignora os usos com menor poder de compra, sobretudo dentro do uso urbano, a construção de um parque verde pode ser - acho eu que é -  apenas um excelente negócio de promoção/valorização  do Plano de Pormenor da Matinha e do loteamento dos Jardins de Braço de Prata. Plano que privatiza uma vasta frente de rio através da interrupção da ligação da Avenida Infante D.Henrique com a Rua Cintura do Porto.

Chega a ser chocante que a intervenção na frente ribeirinha se faça apenas e só com um denominador comum: fazer tudo para favorecer os promotores privados, ignorando as populações que ao longo de séculos fizeram de Lisboa aquilo que ela é. Tornar a vista do rio um produto de valorização da oferta imobiliária retirando os cidadãos do usufruto da simples vista do rio da sua cidade. Bom há aqui a necessidade de fazer uma correção: as classes com maior poder aquisitivo ficarão com a frente de rio só para elas. Mas isso não tem nada a ver com a famosa declaração do "Lisboa para todos", pois não?

(*) - Seria necessário para intervir nas condições de alojamento planear o território desde Santa Apolónia à Praça 25 de Abril não apenas a faixa entre a Rua do Açucar  e o rio, mas juntando as áreas contíguas das freguesias de Marvila e do Beato. Um PP que apostasse na revitalização da frente do rio, libertando-a dos usos portuários obsoletos, mas que trabalhasse sobre as condições de habitação e projectasse uma oferta diferenciada e capaz de responder à lógica da "Lisboa para todos". Uma oferta de habitação plural com uma componente de habitação nova e outra intervindo na reabilitação da habitação de cariz marcadamente popular.  O que se está a passar é o futuro de Lisboa e a natureza profunda da cidade futura a ser determinada pelo interesse dos promotores.

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