07/06/13

Ocupantes e invasores

Leio no 5 dias que existe quem veja sinais emancipatórios no regime de Bashar Al-Assad. Traduzindo a propaganda contida no texto «A Batalha de Al Qusayr, quando a Resistência derrotou as trevas (II)», a defesa do actual regime ditatorial sírio justificar-se-ia na medida em que a «sobrevivência do regime significaria uma importante derrota para os EUA, França e Reino Unido». Do alto de uma perspectiva sobre o «plano geopolítico global», o texto em causa dedica-se unicamente a considerações geopolíticas e geoestratégicas, como se o facto de um regime ser autoritário e sanguinário poder ser defendido politicamente só porque se opõe ao imperialismo dos EUA...

Neste aspecto, a defesa que certa esquerda faz de Bashar Al-Assad é a típica resposta pavloviana no que diz respeito a qualquer regime que se declare inimigo dos EUA. Assim sendo, a esquerda que se auto-intitula revolucionária, em vez de estender a crítica das práticas imperialistas e militares dos EUA ao regime ditatorial sírio, acaba por tomar partido por um dos lados do conflito em nome da geoestratégia e em resposta à ameaça do integralismo islâmico que estaria aí à porta. O espantoso nisto tudo é que a mesma esquerda que atribui o epíteto do extremismo islâmico ao conjunto da oposição síria, é também a mesma esquerda que no caso do Mali se insurge contra a intervenção militar francesa tomando partido pelos radicais islâmicos que chegaram a instalar a lei da sharia em Timbuktu... Em que ficamos?

Naturalmente, quando a geoestratégia é elevada a principal orientação política e quando a rejeição dos EUA é o único critério definidor, a partir daqui todas as incongruências e todos os apoios a ditadores e a sanguinários se tornam possíveis.

Nesse sentido, gostaria de fazer notar que os argumentos que a esquerda nacionalista utiliza para defender o regime sírio são exactamente os mesmos que a extrema-direita utiliza para apoiar o mesmo regime... Em Fevereiro de 2012 Jean-Marie Le Pen mandou «calar os críticos britânicos de Al-Assad». O patriarca Le Pen chegou ainda a comparar os ataques militares da oposição síria aos raides aéreos da Força Aérea Real britânica a Dresden. Portanto, na cabeça destas almas nacionalistas, o recurso constante ao inimigo americano e britânico justificaria a defesa política de um regime ditatorial... No mesmo registo, Marine Le Pen dizia esperar que «Bashar Al-Assad não fosse substituído por fundamentalistas islâmicos».

Em suma, quando parte significativa da esquerda dita anticapitalista portuguesa partilha vários dos argumentos políticos da extrema-direita cabe perguntar se não haverá algo de errado. Claro que as boas almas revolucionárias vão responder sempre com a mesma ladainha do anti-imperialismo e não sei que mais. Entretanto, se na Síria a população continuará a ser massacrada pelos dois lados e continuará a ser mera carne para canhão, no Sul da Europa a esquerda nacionalista partilha, com a extrema-direita, do mesmo apoio irracional ao regime ditatorial de Bashar Al-Assad.


Cartaz da organização fascista italiana Casa Pound sobre uma iniciativa
em defesa do regime de Bashar Al-Assad
Da defesa da saída do euro à defesa de regimes torcionários, das teses do parasitismo da economia pela finança (judaica para uns, alemã e europeia para outros) até à centralidade das ponderações geopolíticas, não serão estes sinais suficientemente inquietantes?

Não se trata de identificar a esquerda nacionalista com a extrema-direita. Trata-se isso sim de interrogar o porquê da partilha de determinados posicionamentos entre correntes políticas distintas. Se é inquestionável a existência de divergências políticas e de clivagens ideológicas, também é inquestionável que a partilha de princípios políticos relevantes é sempre um passo rumo ao abismo. Curiosamente as divergências ideológicas e políticas entre esta esquerda e a extrema-direita repercute-se cada vez mais e quase exclusivamente no plano ideológico propriamente dito: concepções sobre a vida dos fetos e sobre o destino das células estaminais; concepções sobre a homossexualidade, sobre o papel da mulher, sobre o lugar dos imigrantes nas sociedades ocidentais, etc. Todavia, no plano da compreensão das dinâmicas estruturantes do capitalismo europeu (União Europeia, União Económica e Monetária, papel do sector financeiro, desenvolvimentismo, produtivismo industrial nacional, transnacionalização económica, visão do capitalismo como uma mera decorrência geoterritorial de «ocupantes» e «abutres que se alimentam das carcaças da economia e do desenvolvimento nacionais», etc.), o que se assiste é cada vez uma maior (e perigosa) partilha de princípios políticos.

Só quem concebe a política como o somatório de compartimentos ideológicos estanques pode continuar a achar ingenuamente que tudo isto não tem relevância. De facto, estas são questões políticas demasiadamente sérias para que se continue a ver tudo isto como se de algo inócuo se tratasse. Como escreveu alguém há precisamente dez anos atrás: «Nenhum fascismo se limitou a ser uma resposta da ordem à revolução. Todos os fascismos foram, antes de mais, uma revolta dentro da ordem, e por isso começaram por procurar na esquerda inspiração que permitisse renovar a direita, ao mesmo tempo que transportaram para a esquerda alguns dos temas característicos da direita» (João Bernardo, Labirintos do fascismo, p.204 - negritos meus).

Se na sua génese o fascismo se apropriou de temas da esquerda de modo a dar um respaldo popular e proletário ao seu nacionalismo, nos dias de hoje não há dúvidas de quem ocupou o território político e ideológico de quem. Enquanto a esquerda achar que pode continuar com o joguinho absurdo de privilegiar determinados invasores em detrimento de outros ocupantes, será ela quem estará efectivamente ocupada por algumas das armas ideológicas e políticas mais reaccionárias dos nossos dias.

7 comentários:

Miguel Serras Pereira disse...

Caríssimo,
El Pais publica hoje uma peça sobre a "política sexual" do Hamas, que, como se sabe, a mesma "esquerda", que defende Assad contra a ameaça do islão, aclama como vanguarda revolucionária em Gaza. Aqui fica o link para o texto intitulado "“Quieren que las mujeres de Gaza vivan en la Edad de Piedra”" - http://sociedad.elpais.com/sociedad/2013/06/06/actualidad/1370546751_660110.html

Abraço

msp

miguel disse...

JVA,

Criticar a defesa de X em parte porque X também é defendido por movimentos Y, não me parece ser um argumento razoável. E não é razoável qualquer que sejam os movimentos Y, e mesmo que uma defesa de X possa levar a um indesejável fortalecimento dos movimentos Y, e mesmo que historicamente, tal se tenha provado catastrófico. Não interessa.

A posição que uma direita nacionalista tem sobre X não deve influenciar a nossa posição sobre X. Temos opiniões e a defesa dessas opiniões deve criar e fortalecer/mudar movimentos políticos; não devem ser os movimentos políticos e a sua luta a definirem as nossas opiniões individuais.

A posição que alguém tem sobre a Síria ou do Mali deve ser independente da posição que tomam outros grupos ou individuais. Se as posições de uma esquerda em parte se baseiam na posição de um outro lado Y (uma noção vaga de um poder ocidental capitalista?), então devem ser denunciadas. Mas se partem de um princípio geral de não interferência em assuntos externos, então são válidas. Mas se o caso é este último, então essa mesma esquerda terá que ser indiferente aos resultados da não-interferência, porque o resultado desejável é o que irá necessariamente resultar (visto que houve não-interferência).

Concluindo, as nossas opiniões sobre as coisas devem ser independentes das posições dos "imperialistas ocidentais", dos "fascistas" , dos "ultra-nacionalistas de esquerda", ou de quem quer que seja. Se o não forem, estamos apenas a contribuir para a sejamos um reflexo da política, e não o contrário.

Anónimo disse...

MS.Pereira: As questões são muito dificeis e complicadas em politica medio-oriental. Independentemente do artigo sobre a pratica sexual do Hamas,o que, realmente se passa agora no terreno das operações militares envolvendo as tropas de Assad e "falanges " de apoio do Hezbollah contra a guerrilha da oposição siria, e´ que, justamente,o Hamas se distanciou da luta que os envolvem. Possivelmente por temer as retaliações dos "falcões " de Israel, a prazo. Salut! Niet

Anónimo disse...

Face à complexidade do que se passa no terreno (que política de alianças mais pantanosa e embrulhada não pode haver), seria de aconselhar alguma humildade aos intelectuais dos vários campos da esquerda ao fazerem análises geoestratégicas - desde logo porque é limitadíssimo (para não dizer nulo) o poder de influência da Esquerda ocidental sobre o que se passa na Síria, e sobre os possíveis desfechos da guerra civil em curso.
A meu ver, já não seria mau de todo que se adoptasse pura e simplesmente uma atitude universalista básica e defender quem na Síria, e na região em geral, se posiciona em termos emancipatórios, do ponto de vista económico e político (luta de classes, direitos sociais, etc), ainda que essas forças sejam de tal forma minoritárias que isso se pareça com uma quimera. Porque neste(s) aspecto(s), quer o regime de Assad, quer os fundamentalistas islâmicos que detêm quase por completo as rédeas da oposição, não apresentam qualquer mal menor.
Isto não anula de qualquer forma o facto de que se a correlação de forças a nível internacional fosse outra, os que se opuseram ao regime "a partir de baixo e desde a esquerda" não teriam tido que engolir alianças com forças ultra-reaccionárias para forçar mudanças naquela sociedade: e é evidente que esse tiro lhes poderá vir saindo pela culatra, qualquer que seja o desenlace. Pelo que já li de pensadores da "esquerda árabe", não existem ilusões sobre o risco da situação despoletada, sem que isso de forma alguma belisque a legitimidade do confronto com o regime.
Tudo isto para dizer que qualquer atrevimento geoestratégico, por muito bem documentado e intencionado, vindo da esquerda europeia, não será mais que um exercício académico e que o que se passa na Síria é uma carnificina que não terá nenhum final "progressista": porque isso não interessa nem aos Estados Unidos, nem à Rússia, nem à Arábia Saudita nem ao Qatar, nem à União Europeia, nem a Israel, nem ao Irão, nem, nem, nem...que são os que possuem os meios de produção (régua, esquadro e compasso) da geoestratégia.

Anónimo disse...

João Valente Aguiar;
Aquilo que argumenta em relação ao conflito em curso na Síria,leva-me a concluir que. no caso da Líbia terá também defendido os grupos «rebeldes» apoiados pela Nato, e a consequente intervenção da Nato para derrubar o regime ditatorial de Khadaffi. Não sei se terá ficado satisfeito com o que infelizmente se seguiu naquele país depois da queda do regime. Não vê nenhum paralelo entre as duas situações? Gostaria de saber como relaciona entre si estas duas situações.

João Valente Aguiar disse...

Anónimo das 19:16,

a questão é: porque a esquerda terá de escolher entre dois campos torcionários? Porque a esquerda que aparentemente diz prezar a autonomia política da classe trabalhadora é a mesma que procura atrelar as populações vítimas de carnificinas (perpetradas por ambos os lados) a um determinado sector autoritário e ditatorial das classes dominantes?

Miguel Serras Pereira disse...

Anónimo das 19 e 16,

o facto de a revolta contra o regime estar a ser liderada em grande medida por fundamentalistas islâmicos não invalida a legitimidade da revolta contra Assad - do mesmo modo que aquilo que se passa na Líbia não legitima retrospectivamente a Kadafi, ou que o regime russo actual não justifica a dominação do capitalismo burocrático que o precedeu. De algum modo, o comentário do Anónimo das 16 e 29 responde antecipadamente às suas observações.

Com efeito, se numa primeira fase, o que havia a fazer era apoiar a insurreição e a revolta contra um regime de tipo fascista "normalizado", à medida que, com o prolongamento da guerra civil, o campo insurrecto foi caindo nas mãos das forças que hoje o dominam, ou nele predominam decisivamente, acontece o que diz o JVA e o Anónimo das 16 e 29: nenhum deles representa um "mal menor" que devamos apoiar com mais ou menos cinismo, ou mais ou menos convicção. Restaria, então, a hipótese de uma intervenção das Nações Unidas. Mas, tendo em conta justamente o que se passou na Líbia, essa hipótese parece pouco animadora, além de não ser verosímil que seja adoptada pelas Nações Unidas qualquer resolução nesse sentido.

msp