11/05/14

Já que falamos em simbólico



Numa ação de campanha para as próximas eleições europeias de dia 25 de maio, o Bloco de Esquerda decidiu, conforme as suas próprias palavras, invadir simbolicamente uma casa na Praça de Alegria fechada há cinco anos, “uma forma de chamar a atenção para a situação da habitação na capital, onde os aumentos das rendas e a incapacidade de pagar os créditos levam a que as casas sejam abandonadas para posteriormente serem vendidas a preços abusivos”. De acordo com o vídeo publicado no esquerda.net, os promotores da inicativa querem que “estes espaços [abandonados] sejam abertos para as pessoas, quer seja para elas poderem viver, quer sejam espaços culturais, espaços de apoio”. Porém, para tal acontecer convém que ações como esta não durem apenas um só dia. Caso contrário, poderá pensar-se que é apenas uma questão puramente eleitoralista, na qual o partido-movimento acaba por lhe dar mais no partido do que no movimento. Afinal, se é possível identificar uma clara carga simbólica numa ação que passa por “invadir”, de forma aparentemente ilegal, uma casa abandonada, limpá-la e organizar atividades no seu interior, que dizer do seu abandono, 24 horas depois? Não terá este ato, igualmente, uma profunda carga simbólica?


19 comentários:

João Valente Aguiar disse...

Não sou militante do Bloco por isso estou à vontade para falar. Por acaso eu acho preferível esta iniciativa do Bloco ao pessoal que faz das ocupações um modo de vida (e não propriamente uma luta por moradia, como o MTST e outros movimentos no Brasil). A iniciativa do BE teve como mérito chamar a atenção para a questão da ausência de acesso à habitação e esse é um ponto relevante.

Na medida em que em Portugal não existem movimentos de luta pela habitação, e se são muito poucos os que à esquerda abordam o tema, quando não o acham irrelevante, não me parece que a iniciativa do Bloco seja eleitoralista. Como o poderia ser se quase ninguém se preocupa com isso?

Zé Nuno Matos disse...

João,

1. Existem ocupações que, de facto, correspondem a um modo de vida. Com todas as contradições que possam ter, constituem um instrumento minimamente eficaz na luta contra a especulação, uma vez que garantem, de facto, uma menor procura face à oferta de habitação existente. Imagina só se estas ocupas baseadas em modos de vida alternativos (alguns até profundamente desinteressantes) se multiplicassem como cogumelos. Quais as consequências em termos de mercado?

2. A ação do Bloco marcou o arranque da campanha eleitoral (basta veres as fotos e confirmares). Podemos assumir, ingenuamente, a compatibilidade entre os dois objetivos: cumprir uma agenda eleitoral e, ao mesmo tempo, iniciar uma luta mais ampla. Face a isso, não posso deixar de questionar: então porque raio é que foram embora da casa?

João Valente Aguiar disse...

Zé Nuno,

sobre o teu ponto 1. Se isso ocorresse verificar-se-ia um movimento social. Não é o que acontece em Portugal. Se assim é, a abordagem da questão da habitação de um ponto de vista de esquerda ganha sempre relevo. Por marcar o arranque da campanha eleitoral é que me parece ser um acto significativo. Não só pela temática em si do acesso à habitação mas porque é um tema que tem estado muito ausente nas lutas em Portugal. Em suma, sendo um tema com pouca visibilidade (paradoxalmente, em 74-75 era exactamente o contrário) e sendo um tema em que não há neste momento um movimento social em torno dessa problemática, parece-me positiva a iniciativa. Não há grandes ganhos eleitorais desta iniciativa (a maioria das pessoas até é bem capaz de contestar estas iniciativas) e, ao mesmo tempo, ela não se está a servir de um movimento social pré-existente para arrebanhar votos.

Aliás, o grande problema da e para a esquerda em Portugal é a pulverização e a quase inexistência de movimentos sociais. Nesse sentido, uma iniciativa deste tipo até é bom que dure um dia. Ela apresenta um pequeno exemplo do que poderia ser um movimento em torno desta questão, ao mesmo tempo que não se substitui a um movimento concreto: esse sim teria de durar mais tempo, partir da base, etc.

Sobre o tema aparte da multiplicação das ocupas como cogumelos. É como disse, se partir de uma real necessidade das pessoas e se colocar a reivindicação da luta pela habitação acima de tudo, óptimo. Aliás, para se multiplicarem, essas ocupas teriam de centrar-se nessa dimensão concreta - que é o que une e impulsiona um movimento de base - e não meramente num estilo de vida que sonha em ruralizar a cidade, plantar alfaces nas varandas e clamar pelo decrescimento e pela implosão das cidades. Repara, se fosse algo como foi o MST ou o MTST até há anos atrás, ou como o MPL em São Paulo no ano passado, fantástico. Eu que li dezenas de textos sobre o MPL e as lutas dos transportes e da questão urbana no Brasil não faço grande ideia do que são os estilos de vida de quem impulsionou aquilo. Posso deduzir que até sejam parecidos, mas o que interessa é a centralidade e prevalência do que define um movimento social (dinamizado e mobilizado em torno de questões concretas pela base; relações horizontais; estabelece pontes entre trabalhadores afectados directamente e outras camadas de trabalhadores) e não o estilo de vida.

AC disse...

Pelo menos um movimento pelo direito à habitação existe...www.habita.info

..mas é verdade que não são muitos aqueles que se interessam pelo tema.

Zé Nuno Matos disse...

João,

Embora com pouco peso, existem várias experiências de ocupações de casas em Lisboa nos últimos anos. Encarares esta iniciativa como algo minimamente fundacional é, a meu ver, algo completamente errado.

Pouco me preocupa que o BE venha a «servir-se de um movimento pré-existente». Não se trata de purismos, mas sim não encontrar sinais do começo de nada. Podemos esperar para ver e confirmar daqui a uns meses...espero estar errado e serei o primeiro a querer frequentar os workshops ou outras iniciativas «a partir da base» organizadas pela Marisa Matias.

O estilo de vida que falas - ruralização da cidade, plantar alfaces - não corresponde de todo às experiências com que contactei ao longo dos últimos anos. É importante criticar o ecologismo, mas nunca por via da sua sobrerepresentação. Deste modo, corre-se o risco de produzir o efeito exatamente contrário.

João Valente Aguiar disse...

Eu não falei de "workshops ou outras iniciativas «a partir da base» organizadas pela Marisa Matias". Também não disse que era fundacional, algo que certamente nem os promotores consideram isso. A questão é que as ocupações são tão poucas que não se podem considerar parte de um amplo movimento social. Daí que o levantamento da questão, focando sobretudo a dimensão da propriedade e da habitação, me parece ser algo positivo.

Cibele disse...

Não sendo o Bloco de Esquerda e a Red Bull claramente a mesma coisa, há momentos em que é difícil distinguí-los.

Ricardo Noronha disse...

Até porque no parlamento europeu se irá resolver o problema da habitação, o que não deixará de ser excelente. A sério JVA: a postura de entrar num edifício devoluto, chamar a imprensa, fazer uns concertos, dizer umas palavras de ocasião sobre o problema da habitação e depois arrumar tudo e seguir para a próxima iniciativa eleitoral, não tem qualquer problema, já o pessoal que ocupa casas é isto e aquilo por não haver mais pessoal a ocupar casas?

João Valente Aguiar disse...

RN,

a maioria das ocupações de casas na Europa degenerou quase sempre em microcosmos de propagação de permaculturas e coisas desse género, defesa de uma ruralização urbana (hortinhas, agricultura biológica, etc.), no fundo transformar a política num modo de vida. Nesses casos, a luta pela habitação passa para segundo plano. Nesse sentido, antes uma iniciativa eleitoral do que a difusão do irracionalismo. E como infelizmente não existe um movimento social amplo em torno desta questão (que acabaria por diluir as tendências de guetização anti-moderna), até é positivo que alguém à esquerda fale na questão da habitação e da falta de acesso à mesma. Como poderá o BE apropriar-se de um movimento que praticamente não existe?

Grave é a esquerda que faz campanha pela saída do euro, que alimenta ódios nacionais, que defende a fusão do social no nacional. Curiosamente sobre essa esquerda (que, descontando as questões da imigração, em nada se distingue dos discursos da extrema-direita) quase ninguém abre o bico.

Libertário disse...

"Antes uma iniciativa eleitoral do que a difusão do irracionalismo."
João Valente Aguiar

Há gente na esquerda, que se imagina até radical, que ainda não entendeu que o único "irracionalismo" é a ilusão eleitoral...
Nem sequer entendem que "irracionalismo" é a sua fé no Progresso e a sua psicose anti-ecologista.

Miguel Serras Pereira disse...

Caro João (VA),

se concordo ineiramente com o que dizes da Europa — pois toda a gente sabe (até Le Monde diplomatique já deu por isso) e devia não fingir ignorar que a vaga da extrema-direita ascendente comporta uma agenda imediata cujos pontos principais são a saida do euro e a destruição da UE —, já sobre o modo como pões a questão da luta política e dos modos de vida, creio que a tua formulação deixa a desejar.
Parece-me que o ardor polémico te fez adoptar termos que não ressalvam o suficiente que a crítica do (des)urbanismo dominante não é monopólio de nostálgicos do galho ou vingadores do cãomarada Zico. E lembro-te que Henri Lefebvre, por exemplo, para não falar em toda uma série de projectos e ou experiências de cidades-jardim com ligações umbilicais ao movimento operário, reivindicava para o "direito à cidade" aquilo a que chamava a "simultaneidade de natureza e cultura". Criticar a insalubridade das condições de vida, os transportes colectivos, a ausência de espaços verdes ou de flânerie, a proliferação de não-lugares e redução das vias e ruas a traçados unidireccionais administrativamente defindios, e por aí fora, não é necessariamente um desvio "ecologista": aliás, o misticismo ecologista é uma falsa resposta a um problema real, e não se pode combatê-lo negando o mal-estar que está na sua origem.
Em segundo lugar, nas melhores tradições do movimento operário, no núcleo do que na sua história é ainda (e cada vez mais) pertinente para nós, o empenhamento na acção política (em sentido amplo) foi acompanhado da introdução de transformações imediatas nos modos de vida, de uma prática transformadora dos usos e costumes dos "dominados" — transformações e prática solidárias da contestação das relações de opressão e da dominação classista e hierárquica.
Estamos de acordo, não estamos?

Abraço para ti

miguel(sp)

João Valente Aguiar disse...

Miguel,

Claro que ninguém quer cidades sujas, com fracos transportes públicos, com lixo no chão, sem espaços verdes, etc. A questão é que a maioria das organizações ecologistas apresenta como alternativa o miserabilismo, a proliferação das hortinhas, as propagandas anti-vacinas, etc. Como podem essas iniciativas (felizmente conduzidas em Portugal por núcleos residuais) transformar positivamente o que quer que seja no imediato?

A solução para os problemas da modernização capitalista é expandir a modernização num sentido em que os dominados controlem e determinem colectiva e democraticamente os princípios da racionalidade técnica. A solução para os problemas da urbanização não é aspirar ao regresso da idade da pedra. Nem vou desenvolver muito mais esta questão que está mais do que exposta em polémicas passadas.

Abraço,
João

Miguel Serras Pereira disse...

João,
não ignoras decerto que subscrevo as tuas críticas ao primitivismo e ao naturalismo.
Mas a tua resposta, no que se refere à "racionalidade técnica", é insuficiente e unilateral. A técnica não é neutra — as oligarquias de burgueses e gestores mobilizaram-na para optimizar a exploração e racionalizar a expropriação tecnológica reforçando e reproduzindo a exploração "económica". Assim, não pode deixar de ser criticada pela racionalidade democrática, e, como dizia Castoriadis, após uma revolução digna desse nome, a transformação consciente da técnica não poderia deixar de ocupar um lugar primeiro na ordem do dia.
Mas também eu não quero estar aqui a abrir portas abertas…

Abraço

miguel(sp)

Zé Nuno Matos disse...

João,

«a maioria das ocupações de casas na Europa degenerou quase sempre em microcosmos de propagação de permaculturas e coisas desse género, defesa de uma ruralização urbana (hortinhas, agricultura biológica, etc.), no fundo transformar a política num modo de vida». Esta frase, por e simplesmente, não tem sentido. Repito o que disse há pouco: vês fantasmas ecologistas onde eles não existem...

João Valente Aguiar disse...

Miguel,

concordo plenamente com as tuas observações e eu não acho que a racionalidade técnica seria a mesma no capitalismo e numa outra sociedade mais democrática. Mas vejo como um upgrade e não como um recuo.

Abraço

Pedro Viana disse...

Tudo está impregnado de ideologia. Todos os nossos actos, atitudes, discursos, crenças resultam dum conjunto de ideias, de preconceitos, sobre o que julgamos ser a realidade (e, em particular, sobre o modo como esta se desenrola). Constituem portanto uma ideologia pessoal (conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade - in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Em particular, como o Miguel mencionou, não existe racionalidade nem técnica neutra, isenta de ideologia. Todos os procedimentos empregues na execução de qualquer técnica resultam duma ideologia. É possível utilizar uma técnica sem partilhar a ideologia subjacente. Mas não o fazendo, torna-se impossível desenvolver essa técnica.

Por exemplo, existe racionalidade técnica quer nos procedimentos da agricultura de carácter industrial, quer nos que se encontram na agricultura dita biológica. Mas a ideologia subjacente às técnicas utilizadas é substancialmente diferente.

As ideologias não são igualmente compatíveis. E, em particular, as ideologias subjacentes a diferentes técnicas não são igualmente compatíveis com todas as ideologias políticas. Ou seja, entre as primeiras, devido a um maior grau de compatibilidade, encontram-se algumas que facilitam a implementação de certas ideologias políticas.

Anónimo disse...

Grande iniciativa do bloco. Aliás, certeira até na saída. Os partidos não devem se substituir aos movimentos sociais. Caso hajam movimentos sociais interessados, ou pessoas interessadas, já sabem o caminho: abrir um sítio e ocupar.

Anónimo disse...

por outro lado, mesmo que "incompleta" o bloco foi o único - e será o único - a ocupar uma casa, nem que seja por um dia, nem que fosse só por 30 segundos. não verão qualquer outro partido a fazer o mesmo. o livre por exemplo, iria perguntar ao schulz o que ele acharia disso.

Francisca Carvalhas disse...

Já que se fala em simbólico e como o nosso anónimo diz independentemente do óptimo que seria esta casa ser de facto ocupada por mil uma razões que todos sabemos, o bloco enquanto partido, foi e será sempre o único a invadir e ocupar nem que por 30 segundos.