16/06/14

Trabalhadores e capitalistas, alemães e portugueses

Na discussão ali em baixo, alguém argumenta que "o trabalhador alemão não explora directamente o trabalhador português, apenas recolhe algumas benesses providenciadas pela burguesia alemã decorrentes dos ganhos dessa burguesia sobre o sul".

Creio que até se poderia argumentar quase o contrário - que uma das razões que permite à burguesia alemã explorar mais os "seus" trabalhadores é exatamente os seus ganhos sobre o "sul". Mais exatamente, a razão porque a distribuição do rendimento na Alemanha pode ser, em termos relativos, enviesado a favor do capital em detrimento do trabalho sem provocar uma crise de subconsumo é exatamente porque, no contexto da zona euro, o euro é mais fraco do que seria um marco independente, levando a que as exportações alemãs sejam maiores do que seriam sem euro (e por outro lado, leva os países do "sul" a terem um saldo comercial mais desfavorável do que sem o euro), tornando assim desnecessário à burguesia alemã fazer politicas de estimulo à procura interna.

Aliás, em larga medida uma das piores coisas que os paises do "norte" da Europa estão a fazer aos do "sul" é a austeridade... no norte (que não permite aos paises do "sul" compensarem a redução da procura interna com o tão propagandeado aumento das exportações). Ou seja, eu diria que há espaço para uma larga confluência objetiva de interesses entre os trabalhadores do "norte" e do "sul" da Europa, que são todos prejudicados pela política de austeridade.

É um facto que essa confluência objectiva não parece estar a dar origem a uma confluência subjectiva, muito pelo contrário - as classes populares acima da linha dos Pireneus/Apeninos estão a aderir de forma crescente a formas de direita xenófoba e/ou eurocética; isso é em parte o resultado do proletariado nórdico estar a acreditar no que a sua burguesia diz - "temos que praticar a austeridade, porque senão acabamos como aqueles desgraçados dos do sul, falidos e a viver à nossa custa" - e deduzir "bem, se eles estão falidos porque andaram a gastar à grande enquanto nós poupávamos, então temos é que nos livrar desses parasitas"; claro que isto põe também a burguesia europeia numa linha delicada - por exemplo, o governo alemão precisa de uma AfD suficientemente forte para poder dizer nas reuniões da UE "não podemos dar mais dinheiro ao sul, nem alterar prazos de pagamento de dívidas, porque já há muita oposição na Alemanha" mas não suficientemente forte para pôr em perigo o euro e a própria UE.

1 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Duas ou tres discordancias:
-Na Alemanha a gestão é mesmo competente, seja publica ou privada.
-A frequencia de greves é muito inferior ao dos paises do sul onde a derrota do grande capital é um facto apregoado.
-A gestão publica é muito mais profissional-na Finlandia a maioria dos cargos politicos não recebemordenados e são acessorados em camaras e ministerios por gestores profissionais(daí a cultura de não achar que a eleição politica é umtrampolimpara benesses não escrutibaveis). Todas as outras explicações podem saber bem ao ego de passa as culpas para o lado,mas enfermam da linguagem de grande vitoria da reforma agraria e dos trabalhadores na defesa das empresas publicas que passadotres ou quatro anos estão extintas ou vendidads a chineses e angolanos.tinha-se poupadoo trabalho das roubarem aosdonos se era para estes "sucessos"