24/06/15

No dia em que me retiraram uma licenciatura que eu nunca tive.

Hoje, no âmbito do famoso caso Relvas, o Correio da Manhã noticiou que "151 perdem a Licenciatura de Relvas". Na listagem das personagens atingidas pelo efeito Relvas, aparece citado, entre os dessapossados da licenciatura de Arquitectura, o subscritor deste post e colaborador do Vias, José Carlos dos Santos Guinote, eu próprio. Há um grande problema na notícia: eu não tenho nenhuma licenciatura em Arquitectura, nem obtida na Lusófona nem noutra qualquer Universidade. Sou apenas um engenheiro civil de estruturas, licenciado pelo Instituto Superior Técnico em 1981,  um Mestre em Planeamento Regional e Urbano pela Universidade Técnica de Lisboa, que concluí em 2005 com a defesa da dissertação " A formação do Preço do Imobiliário e o Sistema de Planeamento Territorial" tendo-me sido concedido o grau de Mestre em Planeamento Regional e Urbano com a qualificação de Bom com Distinção. Frequento, neste momemto, o Doutoramento em Urbanismo na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, estando a concluir a tese cujo título é "Desenvolvimento Urbano e Justiça Espacial - A contribuição da Política de Habitação e de Solos na Áea Metropolitana de Lisboa.".    No âmbito deste Doutoramento foi-me emitida em 27 de Junho de 2013, a Certidão da conclusão do Curso de Estudos Avançados em Urbanismo. 
De facto frequentei, num curto período -2011-2012 - o curso de Arquitectura na Lusófona. Como aluno pós-Bolonha, forneci à Universidade os comprovativos da minha Licenciatura e do meu Mestrado, que são da mesma área curricular. Fui instado a apresentar as certificações da minha experiência  profissional. Dos mais de 20 anos de actividade foram-me creditados meia dúzia de créditos nenhum relacionado com a actividade específica de arquitectura. Suportei um ano a descriminação e o corporativismo que imperavam no departamento de arquitectura, relativamente aos que, como eu, tinham uma sólida formação académica e uma já longa experiência profissional.  Um pequeno, mas eficaz, apartheid, dirigido contra os engenheiros civis. "Pus-me ao fresco" no final da discussão de um Plano Urbano que elaborei para a frente ribeirinha entre Santa Apolónia e a estátua do José Guimarães. Cansado de falar para as paredes ocas e vazias,  nunca mais lá voltei, já lá vão três anos. Nunca exibi em qualquer lugar, qualquer diploma - não possuo nenhum - nem fiz qualquer referência a qualquer licenciatura obtida na Lusofona, que nunca obtive. Não tenho no meu currículo - que é público - qualquer referência à Lusófona ou a qualquer curso de arquitectura. Nunca fui contactado pela Universidade - disseram-me hoje que tentaram mas não conseguiram - para esclarecer qualquer situação relacionada com este processo infame.
Mas, hoje o Correio da Manhã "recordou-me" - soube-o por amigos que me alertaram durante a manhã - que me foi retirada uma licenciatura, que eu estou certo nunca ter obtido e que por isso não percebo como ma podem retirar.  Em 2001 acabei a minha passagem pela vereação da Câmara de Sines - vereador da oposição, eleito como independente nas listas do PS ao longo de oito anos - à qual me recandidatei em 2009, numa lista apoiada pelo BE, não tendo sido eleito. Isso foi  suficiente para que o Obsrvador denunciasse ilegalidades que vão da "PJ  à Câmara de Sines", através do caso de  um ex-Vereador, candidato pelo BE, eu próprio. E que escrevesse que "até ao momento, o ex-vereador da Câmara de Sines não se mostrou disponível para regularizar a situação junto da Universidade"   Uma completa e acabada mentira na linha da intenção que o Observador evidencia de "Relvar " todos os processos que tenham alguma coisa a ver com a famigerada universidade.

5 comentários:

joão viegas disse...

Ola,

Bemvindo ao mundo de Kafka !

Tenho para mim que existe uma solução simples, economica, democratica, eficiente, e salutar sob todos os pontos de vista, para acabar de vez com esta palhaçada. Seria impedir que os estabelecimentos de ensino superior, publicos e privados, confiram diplomas. Eles continuariam a existir, com cursos, aulas teoricas e praticas e o resto. Os alunos passariam a frequenta-los conforme achassem bem e proveitoso para eles. Provavelmente continuariamos a ter universidades boas, e menos boas, e também alunos bons e menos bons. Apenas não teriamos diplomas. Na pratica o que é que mudaria ? Para que precisamos de saber se fulano de tal conseguiu obter um canudo ? Que garantia é que isso nos da que ele é mesmo competente em determinada area ? Não existem milhares de outras maneiras, muito mais eficazes, de aferir a questão, desde os concursos, à verificação por experiência propria ? Na vida real não é ja assim que as coisas funcionam ?

Quanto mais penso no assunto, mais virtudes vejo numa reforma destas. Em Portugal, então, representaria um progresso evidente. Ja não teriamos de aturar doutores de meia tigela que se deliciam a ouvir concertos para violino de Chopin, nem teriamos responsaveis politicos a passar pelas vergonhas que sabemos, so porque, a paginas tantas, acharam-se desprovidos de um titulo de doutor ou de engenheiro correspondente ao seu status.

Que me dizem ?

Abraços

PS : Em contrapartida o autor da noticia merece um prémio so pelo achado do titulo ("151 perdem a Licenciatura de Relvas"). Alias, proponho abrir um concurso para encontrarmos um nome para o prémio...

jose guinote disse...

João Viegas, no meu caso o que é absurdo é o facto de terem noticiado que me retiraram um grau académico que nunca obtive. A notícia está construída em torno de um conjunto de vigarices -o efeito ou o padrão Relvas, conforme lhe queiram chamar - em que eu estaria envolvido. Uma infâmia. Independentemente das razões que assistem a cada uma das pessoas envolvidas, no meu caso nada tenho a ver com cursos obtidos por meios ilícitos ou pouco recomendáveis. Não perdi a Licenciatura de Relvas, contrariamente ao que é noticiado. Desisti de frequentar essa instituição em 2012 e nunca mais lá voltarei. Como o Correio da manhã não corrigiu a notícia de forma clara, antes pelo contrário, vou tratar da coisa pelas vias legais. A justiça nestes casos é mole e permissiva, mas isso eu não posso resolver.

joão viegas disse...

Ola,

Claro, eu percebo. O meu comentario não era sobre a sua situação (ou antes, apenas era na medida que se referia a Kafka) mas pretendia antes ser uma reflexão global sobre a histeria que reina em Portugal em volta destas questões de diplomas. Faz-me confusão que as questões das "falsas licenciaturas" se transformem em problemas de Estado. Quando digo isto, costumam responder-me "Mas a questão não é o diploma nem o titulo, mas antes a honestidade, não podemos permitir que um responsavel politico nos minta sobre os seus diplomas". Com o devido respeito, isto é por a questão ao contrario. Os politicos fazem estas merdas, e arriscam-se a fazer estas figuras, PORQUE em Portugal, quem não é doutor não tem voz e é visto como um futrica.

Mas porquê ? Em que outro pais sucede isto ? Quando estou a falar com um bom médico, com um bom economista, com um bom engenheiro, ou alias com um bom canalizador, com um bom pescador ou com um bom marceneiro, quero la saber como é que ele adquiriu o seu saber e a sua arte, se foi frequentando a universidade como fazem os meninos burgueses, se foi como estudante-trabalhador frequentando os cursos nocturnos, se foi pela via profissionalizante, se teve um mestre, se teve varios, etc ?

Dir-me-ão, mas sem o diploma, como é que sabes se estas a falar com um bom médico, com um bom economista, etc. Pois precisamente. O problema esta ai. Que raio de educação ou de cultura é a minha, se nem me permite fazer a diferença entre um bom médico, um bom economista, etc. e um charlatão ?!?

Posto isto, de facto existe o direito de resposta e julgo possivel obter que o jornalista emende uma noticia errada, se necessario accionando as vias legais.

Abraço

jose guinote disse...

João Viegas, assino por baixo.

Francisco Soares disse...

O verdadeiramente preocupante é as calinadas urbanisticas que nos rodeiam, desde o centro de artes, passando pelo elevador e acabando na avenida da praia, esses urbanistas e arquitectos é que deviam ser investigados e quem lhes deu cobertura, e não andarem numa caça ás bruxas levantando suspeições sobre inocentes para encobrir , justificar ou vingar culpados.