05/01/17

Ainda as "Teses da Urgeiriça"

Voltando às tais "teses" que supostamente estão a dar a volta ao mundo, será que têm realmente alguma grande inovação?

Pelo que percebo a essência das "teses" é:

- A Rússia czarista (e suponho que também a China pré-1949) seria uma sociedade mista, em parte feudal, em parte capitalista

- Dessa forma, a revolução para derrubar o feudalismo acabou por ser feita pela classe operária

- No entanto, devido ao atraso económico da Rússia, mesmo com uma revolução feita pela classe operária, não foi possível implementar o socialismo, tendo o resultado sido o capitalismo monopolista de estado

- Uma revolução proletária num país semi-capitalista/semi-feudal só poderia conduzir ao socialismo se não ficasse limitada a um país isolado

- Finalmente, há a analogia com a Revolução de 1383/1385, que teria sido feita pela burguesa mas que teria mantido o sistema feudal em funcionamento (da mesma forma, a Revolução de Outubro teria sido feita pela proletariado mas mantendo o sistema capitalista)

Os quatro primeiros pontos parecem-me familiares - isso é praticamente a tese de Trotsky sobre a revolução russa; a única diferença é considerar que a URSS e a RPC eram "capitalistas monopolistas de estado", enquanto os trotskistas dizem que eram "estados operários degenerados/deformados", mas mesmo assim há correntes trotskistas que consideram que realmente eram "capitalistas de estado", como a do Socialist Workers Party britânico/Tendência Socialista Internacional, tal como certos grupos dissidentes do trotskismo, como a tendência Johnson-Forest ("Johnson" = C.L.R. James; "Forest" = Raya Dunayevskaya) dos EUA e, nos seus primeiros anos, o grupo Socialisme ou Barbarie de Castoriadis em França (que penso que depois evoluiu para outras caracterizações). E, claro, os maoístas sempre chamaram "capitalismo de estado" à URSS, e de certeza que foi dai que Arnaldo Matos foi buscar o nome.

E outra diferença é que os trotskistas sempre tentaram apresentar a sua tese como sendo "leninista" (até para se defenderem dos ataques estalinistas de que seriam anti-leninistas), argumentando que a partir de certa altura (suponho que a partir das tais "teses de Abril") Lenine essencialmente aceitou a teoria trotskista da "revolução permanente" (que no fundo são os tais quatro primeiros pontos que refiro acima); pelo contrário, parece-me que Arnaldo Matos apresenta a suas teses como sendo algo que nem Lenine teria tido bem consciência (e só teria sido plenamente formalizado por Arnaldo Matos, no principio de novembro de 2016...).

Ou seja, não me parece que estes teses tenham qualquer novidade relevante (quanto muito algumas novidades semânticas).

O lado mais benévolo das "teses" é que suponho que significa que o MRPP está por fim , nem que seja subrepticiamente, a demarcar-se de Estaline e até de Mao (já que parece-me que estão a dizer que a URSS e a RPC sempre foram "capitalismo monopolista de estado").

[Ou será que eu estou a dar demasiada importância a isto?]

3 comentários:

Anónimo disse...

As “novidades” teóricas anunciadas com grande pompa pelo Grande Educador da classe operária Arnaldo de Matos (que a grande revolução socialista proletária, de 1917, na Rússia, foi afinal uma grande revolução democrática burguesa e que tanto ela como a gloriosa revolução da democracia nova, de 1949, na China, não poderiam construir o socialismo e o comunismo) não são novidades, nem mesmo entre nós (o finado Francisco Martins Rodrigues já o dissera há mais de vinte anos), nem se baseiam em qualquer fundamentação séria (apenas na afirmação de que o proletariado não poderia combater simultaneamente dois modos de produção (o modo de produção feudal e o modo de produção capitalista).
A actual reviravolta nas concepções políticas do MRPP sob a direcção unipessoal do Arnaldo de Matos parece-se mais com uma peça de burlesco do que com qualquer reflexão acerca da profecia comunista marxista. As confusões que faz nas suas famosas Teses da Urgeiriça raiam o grotesco (confunde quatro dias com quatro meses, a paz de Brest-Litovsk com a paz de Versalhes, acrónimo com acróstico e eleva a crise política da sucessão dinástica portuguesa de 1383-85 ao estatuto de primeira revolução burguesa na europa, quiçá no mundo), e a solidez da sua formação marxista-leninista (ou apenas marxista, porque o Lenine, assim como o Mao, foi apeado do pedestal dos grandes teóricos e dirigentes revolucionários) parece resumir-se ao Manifesto do Partido Comunista do velho Marx (porque de O Capital o Grande Educador nunca terá pestanejado uma página).
Pelo que tudo indica, o Grande Educador da classe operária estará senil ou acometido por qualquer distúrbio mental. As manifestações de megalomania, a pretensão de grande teórico comunista, o assalto e a apropriação do MRPP e a direcção unipessoal que parece exercer numa seita que dizia reger-se pelos princípios da direcção colectiva indiciam que o caso poderá raiar qualquer paranóia, mais do que a necessidade de não perder o dinheiro com que o Estado tem alimentado aquele simulacro de partido político. Enfim, uma hilariante tristeza!

Miguel Madeira disse...

A parte da revolução de 1383-85 como revolução burguesa talvez não seja assim tão exótica - nas minhas aulas de história do 10º ano, era exatamente essa a versão que estava nos livros pelo qual estudamos esse acontecimento.

E nas aulas de História Económica e Social no ISEG, foi exatamente o exemplo dado para explicar a importância dos contrafactuais (teoria: "os descobrimentos portugueses foram o resultado de ter havido uma revolução burguesa que reduziu o poder da aristocracia e fortaleceu grupos interessados na expansão do comércio"; contrafactual: "na Espanha não houve nenhuma revolução similar e também houve expansão pelo mundo"; diga-se que, quando o professor deu este exemplo, eu até pensei em contra-argumentar que a expansão espanhola foi mais à base de grandes conquistas territoriais, enquanto a portuguesa foi mais à base de fazer pequenas conquistas mas espalhadas pelo mundo inteiro, e que isso poderia ter sido exatamente o resultado do poder da nobreza proprietária de terras em Espanha - que se limitou a reproduzir os seus dominios semifeudais e as suas conquistas militares do outro lado do Atlântico - e da burguesia comercial em Portugal - mais interessada em estabelecer novas rotas de comércio; esta é a primeira vez que estou apresentando ao mundo o argumento que ainda ponderei em apresentar naquela aula).

Anónimo disse...

Miguel Madeira.
A crise dinástica de 1383-85 é um acontecimento longínquo e de pouca importância para que percamos tempo com o assunto. Mas, já que foi tomado como exemplo pelo Grande Educador Arnaldo de Matos, talvez possamos referir que essa versão de “revolução burguesa” não lembraria nem ao diabo.
Lembrou apenas a um pequeno lote de intelectuais do PCP (o Cunhal, o discípulo Borges Coelho e, antes deles, o Cortesão, e depois um ou outro companheiro de jornada). Confundir a defesa dos interesses da burguesia (não apenas a comercial, mas também a que procurava afirmar-se na versão de burguesia artesanal urbana), ameaçados de subalternização perante a possibilidade do deslocamento da Corte e dos negócios para Espanha, com uma revolução política vai a distância entre o camelo e a alpaca.
A tese teve interesse para os marxistas para com ela ilustrarem a existência da luta de classes, mas até nesse aspecto os nossos marxistas de trazer por casa erraram no exemplo, porque no caso tratar-se-ia de luta política entre classes dirigentes de modos de produção diferentes, e não da luta de classes com que fundamentam a sonhada revolução comunista, a luta das classes exploradas contra as classes exploradoras.
É claro, o carácter popular, de massas, mesmo que de massas urbanas açuladas pela emoção do alarido e dos berros de “matam o Mestre”, como acontece em qualquer mobilização política em que o número conte, levou os nossos marxistas de trazer por casa a confundir o apoio da burguesia a uma fracção da nobreza e dos senhores feudais, que de facto lutava, com um João ou com outro, para não perder o poder, com uma revolução burguesa.
O mais grave, por caricato, nas Teses da Urgeiriça do Grande Educador, de facto, não é este triste exemplo da crise dinástica elevada à condição de revolução burguesa, que como se sabe não tem qualquer originalidade. O mais grave é o sujeito passar uma esponja sobre a grande transformação ocorrida com a aprovação do primeiro plano quinquenal (1928-32), que pôs fim à NEP e iniciou a institucionalização da colectivização da economia, dando início, sem margem para qualquer dúvida, à segunda revolução, à verdadeira revolução socialista proletária.
O problema do Grande Educador, tal como o de outros doutos marxistas antes dele, é o socialismo ter sido institucionalizado sob a forma de capitalismo de Estado monopolista, como se os profetas descrevessem ou sequer apontassem outra via, e as suas virtualidades de acumulação acelerada se terem esgotado com os resultados conhecidos. Os comunistas ortodoxos, ao menos, tecem loas aos parcos resultados alcançados; os pós-maoistas, desde o Chico Martins ao Grande Educador Arnaldo de Matos, dão estes tristes espectáculos.
Isto para não falar nas elites historiográficas da nossa academia, que tratam de tecer loas ao velho Marx (está marcado um novo Congresso dedicado ao profeta, que tudo indica será mais um palco para discípulos brilharem) e à revolução socialista proletária de Outubro de 1917 como o faz qualquer militante de causa, em vez de se nortearem pela busca do conhecimento sobre a economia-política e sobre o significado de factos tão marcantes da história contemporânea.