15/09/11

Pode um Partido Socialista ter medo do Socialismo?

Aproxima-se o vigésimo aniversário da queda da URSS. Estávamos em 1991 e para muitos esse ano marcou o fim do século XX. Iniciava-se então uma nova era cujo signo seria o da liberdade.




Negada pelos regimes socialistas da Europa de Leste, a liberdade seria agora rainha e senhora. Sem muros nem a meias, o mundo seria livre e seria mundo, a sua superfície aplanada e alisada, disponível para nele circularem tudo e todos, de tal modo que as economias nacionais e regionais se desenvolveriam combinadamente, acumulando-se riqueza, dinheiro, progresso. Depois, mais tarde, num futuro mais ou menos longínquo, tudo acabaria por escorrer, do topo da pirâmide até cá abaixo, a caminho da felicidade e da abundância gerais. Em suma, a liberdade política traria a igualdade económica.




O fim da URSS trouxe mudanças importantes nas esquerdas partidárias europeias. Os partidos comunistas ressentiram-se imediatamente da débacle, alguns de modo fatal, outros conservando ainda hoje uma parte importante das suas forças, caso do PCP. Os partidos social-democratas, por sua vez, reclamaram a queda da URSS como uma vitória sua e beneficiaram eleitoralmente com a crise dos rivais comunistas, conforme testemunha o PS dos anos 90. Finalmente, mais à esquerda, abriu-se um espaço para correntes que, a partir de tradições radicais, e juntando-lhes comunistas e social-democratas desavindos com o seu passado, souberam trilhar um caminho de crítica da globalização capitalista sem guardar nostalgia pelos regimes socialistas do leste – foi o caso do BE.




Este novo cenário acalentou junto de algumas pessoas novas hipóteses de uma aliança entre os partidos de esquerda. Cessando a divisão do mundo entre o capitalismo ocidental e o socialismo de leste, cessava um obstáculo importante entre as esquerdas portuguesas. À nova situação geopolítica, juntava-se ainda a auto-crítica do PCP relativamente às experiências de leste, que o levou a revalorizar a ideia de liberdade política, diminuindo a sua distância face aos valores liberais dominantes. O próprio BE, que em parte alimentara uma ideia de liberdade política mais próxima de uma democracia de cariz basista, inspirada na crítica revolucionária da burocracia e do estatismo dos regimes de leste, rapidamente acabaria por redundar num partido parlamentar convencional.




Em suma, não tem sido o respeito pela liberdade política, nem as divergências – que as há – em relação ao que se entende por democracia política, que tem impedido aproximações entre as esquerdas partidárias. O principal motivo de afastamento reside no respeito pelo princípio da igualdade económica. Com a queda da URSS, e apesar da maior influência do liberalismo, PCP e BE continuaram, porventura de um modo mais tímido, a atribuir relevância significativa à ideia de igualdade económica. Já no campo do PS, essa ideia parece ter sido definitivamente secundarizada. Os socialistas portugueses participaram activamente do argumento segundo o qual todos os que lutam pela igualdade económica acabarão por negar a liberdade política. Propostas no sentido de uma menor liberdade comercial em nome de uma maior igualdade económica foram uma e outra vez indiciadas pelo PS como prova de que a esquerda anticapitalista é refém do mesmo tipo de pulsão totalitária que terá caracterizado os regimes socialistas do Leste.



Para alguns, o rumo liberal do PS é fruto de uma sua rendição aos encantos da terceira via. Para outros, o PS é por definição um partido do centro, que tanto emergiu contra a sua esquerda como contra a sua direita, sem a ligação histórica ao movimento operário que por exemplo caracterizou a social-democracia alemã. E, no entanto, olhando para o último congresso de Sócrates e para este primeiro de Seguro, tudo parece necessariamente mais elementar: na vida do PS sobrelevam os sinais de que em curso está um simples ajuste de contas entre novas, velhas e futuras lideranças. Infelizmente, a desastrosa troca de cadeiras entre Seguro e António Costa é mais do que um simples episódio tragicómico. E o problema que se mantém no meio da sala do congresso, como o elefante que ninguém quer ver, é se pode um partido socialista ter medo do socialismo?

9 comentários:

Dédé disse...

O papel da social-democracia sempre foi o de side kick do capitalismo. Ontem foi keynesiana hoje é neo liberal. O resto são flores de estilo.

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

A liberdade política tal como a igualdade política é inexistente

Há diversidade política é diferente

Igualdade dos cidadãos também nunca existiu política ou económica mente
mesmo na URSS um sistema que tive a infelicidade de conhecer, mesmo categorias salariais iguais tinham nichos ecológicos de previlégios diferenciados

Há sempre o factor humano e biologicamente não somos organismos muito altruistas...e quanto a isso niente a fare.

Nenhum sistema pode prometer igualdade económica, pois mesmo uma aproximação a essa igualdade, estagna uma sociedade, porque é humano querer diferenciar-se, ser "superior" aos restantes
(economicamente, socialmente, sexualmente ou qualquer dos outros mentes

Sem muros nem a meias disse...

As A meias ficaram a meias
Por acaso

socialismo re-identificação, a re-re-identificação, ou mesmo o re-re-re-identificação, eu disse (não em um stadaireacht socialismo rápido),

e eu com a teoria do socialismo (acho que o Oliveira Martins também escreveu um livro com o mesmo título) da minha expressão. "Em matéria de socialismo", minha filha respondeu: "uma boca cheia é silenciosa ."

Corri uma pergunta: mesmo se uma sociedade socialista pudesse ser tudo isso, a necessidade de sair de um sistema é inerente ao homem?

E a teoria resultaria num mundo novo então?

O que seu pensar indica?
(tradução muito mal feita)

mas esse diálogo neo-socialista
é ressuscitado em todas as épocas de crise

Anónimo disse...

Nem por milagre, o " mayor " alfacinha António Costa,chefe-de- fila dos apaniguados de Sócrates no interior do PS, veio colocar as coisas preto-no-branco no programa da SIC ," Quadratura do Círculo ",ao defender o " legado " do antigo PM e ex-líder do seu partido, tudo isso envolvido numa linguagem que provoca muito pavor e nojo, uma forma de arrenegação onde não se detecta o mínimo sinal ideológico de Esquerda democrática, a milhas das " revisões " programáticas da Social Democracia hodierna propostas quer por A. Giddens quer A. Touraine. Costa defende- com subtis e arredondadas ameaças- o legado politico e organizacional inacreditável de Sócrates de sintonia com as teses neo-liberais mais estafadas e, acima de tudo, preconiza que o partido é intangível e deve ser blindado a qualquer sopro reformista na sua estrutura interna piramidal,burocrática e opaca.Niet

Anónimo disse...

Voltamos sempre ao mesmo...Até o José Neves, historiador, parece esquecer a história mais recente. Seja a do chamado «socialismo real», seja a da social-democracia. No caso português a coisa ainda é mais evidente ou já se esqueceram do papel do PS de 74-80, com punho cerrado, cantando a Internacional e uma retórica marxista, a fazer a reconversão capitalista do Estado pós-revolucionário, a devolver as empresas aos capitalistas, a liquidar a incipiente reforma agrária. Recordar as relações desse PS com os americanos, os milhões que aqui entraram para a bolsa do Partido (Por onde anda o livro de Rui Mateus «Contos Proibidos»?), seria suficiente para impedir qualquer ilusão tardia sobre o papel deste PS no contexto do capitalismo nacional. Quanto ao BE, é hoje o que o PS foi no passado na aparência: uma social-democracia de esquerda, e estão a seguir o mesmo caminho, um tanto parecido aos dos Verdes, ou do PT no Brasil...Do pragmatismo ao Poder gerindo o capital.

A.Silva disse...

Ele há coisas esquisitas, porque é que há uns tipos de esquerda que insistem em bater com a cabeça na parede e repetir uma estranha ladainha:
o ps é de esquerda
o ps é de esquerda
o ps é de esquerda
o ps é de esquerda
o ps é de esquerda
.....

Será miopia ou masoquismo?

roskoff disse...

A social democracia alemã não tem raiz Bismarkiana?

perguntar num offende effendi....

Miguel Madeira disse...

Se com social-democracia estivermos a falar do SPD, não - os social-democratas foram perseguidos pelo governo de Bismark.

http://en.wikipedia.org/wiki/Anti-Socialist_Laws

Anónimo disse...

O facto é que já estamos na última trincheira (a destruição do pouca estado social que temos), e parece-me que ainda andamos a discutir quem é de esquerda e quem não é, nesta altura o momento é de luta, e não tem a mínima relevância se o companheiro que luta a meu lado é ideologicamente puro ou não.

Schleibinger