24/06/10

Manuel João Vieira é um dos mandatários de Manuel Alegre

As coisas compõem-se.

95 anos plenos de sabedoria



"You know, the World Social Forums began after the Battle of Seattle in 1999. And the slogan, "Another World Is Possible," emerged out of a completely new mentality, when people recognized that essentially those in control are dysfunctional and that the old social democracy dependence on those in power to give you things, that period is over."

Grace Lee Boggs, 95 anos, dos quais as últimas 7 décadas foram dedicadas a inúmeras causas sociais, em entrevista a um dos mais importantes programas altenativos de rádio e televisão nos EUA, Democracy Now!, a propósito da início do Fórum Social nos Estados Unidos que decorre esta semana em Detroit.

23/06/10

A proibição da burka

A minha opinião sobre a burka é a mesma que sobre o consumo de heroína - acho que não tem jeito nenhum, mas se alguém a quer usar/consumir, o que é que eu tenho a ver com isso?

A respeito de alguns argumentos usados para justificar a proibição:

1 - "A burka é um simbolo da discriminação e submissão da mulher"

Como é dito aqui, exactamente, é "um simbolo". Não se devem proibir "simbolos" (apenas actos reais).

2 - "Algumas mulheres usam a burka porque são obrigadas pela família"

E outras não. E assim, vamos passar de uma situação em que há uma hipotética imposição para outra em que há uma imposição clara e explicita. Além disso, não é muito claro o que "obrigadas" quer dizer neste caso. Se estamos a falar de mulheres que sejam agredidas ou mesmo mortas pelos maridos ou familiares por não usarem a burka, isso já são crimes previstos por lei, e o que deve ser feito é fazer cumprir essas leis. Mas e os casos de mulheres que usam a burka porque senão "são marginalizadas pelos familias e pela comunidade, abandonadas pelos maridos, etc."? Será que isso deve contar como "obrigadas"? Sinceramente, acho que não, ainda mais tratando-se de mulheres vivendo num país ocidental, que não teriam dificuldade em arranjarem um circulo social alternativo caso fossem excluidas pela comunidade de origem. A única situação em que o argumento do "obrigadas" faz algum sentido será no caso de menores.

Além disso, a ideia que as mulheres usam burka obrigadas implica admitir que a comunidade muçulmana na Europa está cheia de homens bastante apegados às suas tradições de origem (e que por isso obrigam a mulher a usar a burka) e de mulheres culturalmente ocidentalizadas (e que por isso adorariam sair à rua sem burka) e que foram acabar casadas com esses homens tradicionalistas; como digo, é uma hipótese, mas acho muito mais provável que o grau de tradicionalismo entre homens e mulheres muçulmanas no Ocidente seja mais ou menos o mesmo e que a quantidade de homens que querem que a mulher use burka seja mais ou menos a mesma que a quantidade de mulheres que querem usar burka.

A única situação em que o argumento do "obrigadas" faz algum sentido será no caso de menores, em que podemos considerar que os pais obrigarem as filhas a usarem burkas ou niqabs é claramente "maus tratos a menores" (e se, não as obrigarem, mas as deixarem andar de burka por sua livre vontade, talvez possa ser considerado "negligência paternal" permitirem que as filhas andem com uma coisa dessas).

3 - "A comunicação não-verbal é um aspecto importante da comunicação, e a burka impede isso"

Acho que isso é irrelevante - mesmo que a comunicação não-verbal seja um aspecto importante da comunicação, se alguém não quer "comunicar não-verbalmente" comnosco, está no seu direito.

4- "as nossas jornalistas, quando vão a esses país têm que andar sempre tapadas!" - esse argumento é revelador porque mostra que muitos defensores da ilegalização do véu e afins o são, não por qualquer preocupação com o laicismo ou os direitos das mulheres, mas apenas por uma atitude de "estão cá, têm que seguir as nossas tradições!" - se essas pessoas tivessem nascido num país muçulmano com certeza seriam os maiores defensores da lei islâmica (e, quem sabe, da restauração do califado...). Já agora, diga-se que a analogia não é correcta - na maior parte dos paises muçulmanos não há nenhuma lei obrigando ao uso de véu (e é disso que se fala, de uma lei proibindo o uso da burka).

5 - "Andarem pessoas não identificadas na rua representa um problema de segurança"

Este parece-me ser o ponto mais sólido dos anti-burkistas.

Agora, vamos pensar na implementação da lei - se a polícia encontrar uma mulher usando burka, o que vai fazer? Obrigá-la a tirar a burka? Multá-la? Levá-la para a esquadra? Fazer de conta que não é nada? Algumas dessas opções parecem-me muito susceptíveis de criar choques de sensibilidades (já a última iria fazer o Estado em questão cair no rídiculo) - imagine-se que a policia encontra uma mulher velada na rua e ordena-lhe que retire o véu; para perceber o impacte disso, temos que nos lembrar que, para um(a) muçulmano(a) tradicionalista, isso era o equivalente, a, para um português, a policia barrar uma mulher na rua e ordenar-lhe que levantasse um pouco mais a saia.

Nem ser nem deixar de ser comunista

Um dos nossos leitores mais assíduos é um jovem intelectual do PCP. Trata-se de uma pessoa estimável, pelo que me é dado a ler, mas que por vezes não resiste à tentação de exercer o seu poder vigilante. Neste comentário a um post do João Tunes, e num debate para o qual eu não era chamado, diz o nosso leitor que eu «estou muito longe de ser comunista». A frase é simplesmente idiota. E não por mim. É idiota porque torna o comunismo numa espécie de identidade. Quem fala assim não é gago, por certo, mas quem assim fala é alguém que já desistiu de pensar a transformação. Quer apenas fazer vencer sei lá o quê. E a mim, com efeito, não me parece de todo urgente um debate que procure demarcar quem é e quem não é comunista. (E por isso recuso-me a debater em tais termos se sou ou se não sou comunista). O que sim me parece urgente é encontrar, consolidar, inventar, experimentar, no que é evidente e no que não é evidente, sinais de um princípio comunista. Por exemplo: de que me interessa saber que a Coreia do Norte é comunista? Outro exemplo: por que não nos haverá de interessar saber que existem práticas comunais para as quais a palavra comunismo, todavia, em nada contribuiu?
Na verdade, uma política de identidade comunista não tem como não ser uma política de identificação anticomunista. Em ambos os casos trata-se de rotular, categorizar e classificar o ser, retendo o seu movimento e a sua transformabilidade. Jean-Luc Nancy, num texto recentemente publicado, e brilhantemente traduzido pelo nosso Miguel Serras Pereira, estabelece uma distinção que é talvez importante para um debate destes: diz ele que não nos deverá interessar o ser da comunidade mas sim a comunidade do ser; não a essência da comunidade, mas a existência. É trocar comunidade por comunismo, que eu assino por baixo.

Na leva dos interditos

Em Espanha, não mais será possível fotografar assim para completar o álbum da família:



(publicado também aqui)

Por falar em monárquicos direitosos

Vaga grevista na China? (II)

Reuters - China labour strife silences Toyota, Honda plants:
Japanese auto giants Toyota and Honda said major car factories in south China halted work on Wednesday due to strikes at parts suppliers, as worker discontent continued to jolt the industry and unnerve investors.

The stoppages are the latest in a series of strikes over pay at parts suppliers in Guangdong and other parts of China.


Denso (Guangzhou Nansha) Co Ltd., which is owned by Japan's Denso Corp and supplies fuel injection equipment and other parts, stopped shipping on Monday. Some of its 1,200 workforce sat groups in front a plant warehouse on Wednesday.

"The salary is only 1,300 yuan ($191) a month, including meal subsidies, while my rent costs me 200 yuan a month," a worker surnamed Zhang from Hunan Province told China's official Xinhua news agency.

"I feel not respected by the human resources department. They often say, 'You can leave if you think other plants are better,' when we ask for something," another worker told Xinhua.

As a result of the Denso strike, a Toyota Motor Corp plant in Guangdong province that can make 360,000 vehicles a year has stood idle since Tuesday. Toyota said production would halt at the plant for all of Wednesday and did not know if it could restart on Thursday.

(...)

The strikes have exposed the vulnerability of tight "just-in-time" supply chains to restive rural migrant workers impatient with wage levels they say lag far behind booming economic growth and company profits.


"The automotive sector in China, especially for foreign companies, is highly profitable, but there hasn't been an appropriate scaling of company profits and workers' earnings," said Chang Kai, a labour law professor at Renmin University in Beijing who earlier advised workers striking at another Honda parts plant.

"Strikes in an industry like this can have a copy-cat effect. Workers think, 'If you can settle your problems by striking, why can't I?'," he said.

21 horas


O Miguel Serras Pereira tem toda a razão. Por exemplo, um estudo da new economics foundation sugere ser perfeitamente exequível a redução da duração da semana de trabalho para 21 horas. Claro que este tipo de conclusões não merece a mesma atenção que a discussão sobre feriados, pois coloca em causa o sacrossanto objectivo do contínuo crescimento económico.

"There is nothing natural or inevitable about what’s considered ‘normal’ today. Time, like work, has become commodified – a recent legacy of industrial capitalism. Yet the logic of industrial time is out of step with today’s conditions, where instant communications and mobile technologies bring new risks and pressures, as well as opportunities. The challenge is to break the power of the old industrial clock without adding new pressures, and to free up time to live sustainable lives." - 21 hours

22/06/10

Jovens Resistentes da Faixa de Gaza contra o Hamas

Estos jóvenes forman parte de la veintena de raperos que circulan por la franja de Gaza de forma más o menos underground como les gusta decir a ellos. Con las letras de sus canciones se enfrentan al ejército israelí en una suerte de intifada verbal, pero también desafían al todo poderoso Gobierno de Hamás en la franja y a una cultura conservadora que no les acaba de aceptar. Sus canciones hablan sobre todo de la "jodida situación", de los soldados israelíes y de la "complicidad" de los países occidentales. Pero también de "los de verde", en alusión a la gente de Hamás, y de George W. Bush y Osama Bin Laden, "unos locos que matan a gente en nombre de la religión".

Ler o resto aqui.

«Primeiro levaram os comunistas...»

Foi através da Shyznogud, que o respigara da Inês Meneses, que cheguei a um texto sobre a vigilância que a União Europeia pretende fazer a «cidadãos com opiniões radicais». Um caso a divulgar e a acompanhar com atenção crítica.

Cada vez menos postos de trabalho com cargas horárias de tempo de trabalho cada vez maiores

A profusa discussão sobre os feriados laicos versus religiosos, a sua calendarização e temas afins levou-me há dias a levantar na caixa de comentários de um post do meu camarada e distinto blogger libertário Miguel Madeira dois ou três pontos prévios que aqui retomo, ligeiramente reformulados.

Com efeito, o que começo a perguntar-me, acerca de tanta discussão sobre a necessidade de tanto reengineering do calendário,  é se essa discussão não funciona como uma cortina de fumo ou de ruído para silenciar e prevenir um debate político fundamental sobre o tempo de trabalho, a "partilha" do trabalho, a redução dos seus horários, a igualização das condições de exercício das actividades remuneradas ou que engendram rendimentos.
No quadro da economia política actual e do seu regime de repartiçãao de rendimentos teoricamente indexado à contribuição de cada um para a criação de riqueza - e tanto a determinação da contribuição de cada um como a fixação das condições óptimas da criação da riqueza e os termos de uma definição não-arbitrária da mesma riqueza são incalculáveis -, há e continuará a haver, cada vez menos postos de trabalho com cargas horárias de tempo de trabalho cada vez maiores. Para assegurar as mesmas tarefas e produzir os mesmos bens e serviços, é necessário, apesar de tudo, cada vez menos tempo de trabalho, e tanto este tempo de trabalho como os empregos correspondentes são desigualmente repartidos e em termos que engendram cada vez mais desigualdades, ao mesmo tempo que uma expansão irracional da mercadoria alastrando a domínios outrora públicos ou comuns e relevando de outras esferas que não a das transacções monetárias ou monetarizáveis.
Como outros - e estou a pensar no José M. Castro Caldas, por exemplo - têm, a partir das aoprias internas da teoria económica mostrado melhor do que eu, este lado da questão económica é uma questão política maior e pelas respostas que lhe soubermos ir dando dependerá o tipo de sociedade, de condições de existência em comum, que teremos e faremos. E é por isso que não posso deixar politicamente suspeita e mentalmente redutora - para não dizer imbecilizante - esta insistência nos feriados e pontes, nas questões de calendário, relevando em parte da manobra política e da manipulação propagandística, mas sendo em parte, também e talvez mais gravemente, sintoma da naturalização da economia política dominante, erigida em última palavra da história ou seu horizonte último insuperável.

Assim, gostaria de concluir esta nota perguntando ao Miguel Madeira, aos outros tripulantes da casa e aos seus frequentadores se não acham que vai sendo tempo de abrirmos mais decididamente esta frente de debate ou combate.

21/06/10

O camarada Galileu

Mesmo o que parece fixo se move. Admirou-me, aprendi e gostei ao ver aqueles militantes de antes quebrar que torcer a chamarem-lhe camarada no adeus a Saramago. O mesmo camarada que, pouco antes de 89, proclamou publicamente, numa Feira do Livro de Frankfurt, a necessidade da ditadura checoslovaca de então libertar Vaclav Havel da prisão; que foi empurrado para fora da presidência da Assembleia Municipal de Lisboa quando dissidiu; que disse a Fidel, perante a sua orgia senil de repressão, que deixava de ser seu companheiro de jornadas; que repudiou a fraternidade com as FARC; que apoiou Zapatero e António Costa nas suas apostas eleitorais; que foi solidário com Garzón. Ali, um camarada Nobel não sofre a erosão do carinho militante, enquanto fôr património. Saramago foi uma espécie de camarada Galileu. Portanto: “contudo, move-se”.

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Sete-zero justifica uma purga, camarada Bernardino. Nem em pleno fascismo, em 66, se claudicou assim.



(publicado também aqui)

Não, Saramago não foi para o céu

Li por inteiro “Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “Levantados do Chão” e “Ensaio sobre a Cegueira”. Acho que não li quatro livros de nenhum outro autor. À excepção da ministra da educação e dos neo-realistas portugueses, é claro, mas estes últimos por ossos do ofício, mesmo se – fique sublinhado – não dei o tempo por mal empregue.

Gostei bastante de todos os livros que li de Saramago. Mas sobretudo quero dizer isto: tenho admiração política por Saramago. Como tenho por muita gente, é certo, e apesar de nem saber definir bem o que é isso de admiração política.

Nos dias que correm, o mais importante é dizer que tenho admiração política por Saramago. Não tenho admiração política por Saramago por ele ser comunista, embora também por isso, mas sobretudo porque o seu comunismo era intempestivo. E especifico: Saramago tinha tudo para se tornar um vulto da “cultura portuguesa” e, quero crer, soube fugir a esse destino. Um destino que lhe era imposto por ministros, academias, partido e até pelo líder de um partido que em tempos se reclamava orgulhosamente (embora, acho, sem necessidade ou piada que o valha) como a ovelha negra do rebanho. O cerimonial destes dias indicia que Saramago sobrevive a tudo isto.

Tendo tido o azar de receber o Nobel, e num país em que o feito é raro, Saramago tinha tudo para ter direito a estátua na avenida principal, qual Marquês, mais o nome posto por aí, a enfeitar palácios, estádios ou outras coisas. No mínimo, teria direito a um presidente da república no seu funeral. O seu percurso, todavia, manteve sempre a ferocidade, a inconstância e a imprevisibilidade que resistem a qualquer tipo de patrimonialização. Estes traços de intempestividade, politicamente, sobrevieram em várias ocasiões, entre elas a sua luta contra a religião.

Essa luta deixa uma marca profunda na cultura política em Portugal. Não por ser uma luta contra a religião. Mas pelo modo como foi travada. O desespero de uma série de intelectuais católicos que se limitam a dizer que o ódio de Saramago a Deus era uma forma negada de amar esse Deus, e que por isso respeitam Saramago mesmo dele discordando e que o que importa é a sua obra e o seu legado e a cultura portuguesa e o futuro da humanidade e os passarinhos e as mães e os filhos e a terra, o desespero de quem segue essa rota é o desespero de quem percebe o perigo da crítica saramaguiana ao divino (mas também ao Estado, ao património, à obra): não se tratou nunca de uma crítica simplesmente baseada no racional contra o irracional, mas sim, e por um lado, no bom senso (que não se limite à razão), por outro, numa vontade de transformação desmesurada. Tomar o céu de assalto. Saramago tomou o céu de assalto. E fê-lo durante a sua vida. E não, não foi para o céu. Era só o que faltava que por deixarmos de acreditar no paraíso celeste, deixássemos de lutar por ele em terra.

Sobre a política e os seus aproveitamentos

A ausência de Cavaco (e de Jaime Gama) do funeral de Saramago, sendo um pormenor, não me parece tão irrelevante quanto isso. Aqui nesta casa e em outros tegúrios, o assunto tem sido discutido com alguma animação. Reconheço que a grandeza de Saramago e a comoção popular que a sua morte causou são bem superiores à recusa do PR em interromper as suas férias nos Açores. Sou sensível ao argumento daqueles que acham que Saramago esteve muito bem acompanhado pelos seus e que Cavaco (e Gama) não fizeram falta. Só que a questão não está na falta que Gama e Cavaco possam ter feito, mas na ausência que Saramago fará ao país e à literatura. E se os dois dias de luto nacional são a expressão disso mesmo, o normal seria que as duas mais altas figuras da nação estivessem presentes e não se fizessem representar por coroas de flores, Guilherme Silva e homens da Casa Civil. As declarações com que Cavaco justificou a sua ausência - «nunca o conheci publicamente, só dos livros» - roçam o insulto e são típicas da figura quando apanhada sem guião. Como lembra o Daniel Oliveira, «se Aníbal Cavaco Silva tivesse comparecido no funeral de José Saramago muitos diriam que se tratava de hipocrisia. Mas, ainda assim, o Presidente da República tinha de ir e aguentar com dignidade essa acusação. Porque as críticas que lhe fariam, pondo em causa o homem, deixariam intacta a instituição que ele representa. Porque quem lá estaria não seria Cavaco Silva. Seria o Presidente da República Portuguesa». Assim, ao contrário do meu companheiro Miguel Serras Pereira, que aponta armas a Louçã e Soares, acho que neste caso o «aproveitamento político» (coisas de difícil e subjectiva aferição quando os assuntos são políticos, como é o caso), está sobretudo do lado do transitório presidente, que pisca os olhos aos seus naturais sectores católicos e conservadores, desgostosos com a sua promulgação do casamento gay e esquecidos da apertada e familiar companhia que proporcionou a Ratzinger na sua visita a Portugal. A ausência do sr. Aníbal ofusca a última despedida a Saramago? Nem por isso. Mas lembra-nos o presidente que ainda temos.

L'inquisitore romano

20/06/10

"Né quelque part" por MAXIME LE FORESTIER (para não dizerem que me esqueci da mundialização… nem da globalização, também - mas são coisas diferentes)



Maxime Le Forestier : Né quelque part
Paroles et musique : Maxime Le Forestier

On choisit pas ses parents,
On choisit pas sa famille
On choisit pas non plus
Les trottoirs de Manille
De Paris ou d'Alger
Pour apprendre à marcher
Etre né quelque part
Etre né quelque part
Pour celui qui est né
C'est toujours un hasard
Nom'inqwando yes qxag iqwahasa


Y a des oiseaux de basse cour et des oiseaux de passage
Ils savent où sont leur nids, quand ils rentrent de voyage
Ou qu'ils restent chez eux
Ils savent où sont leurs œufs


Etre né quelque part
Etre né quelque part
C'est partir quand on veut,
Revenir quand on part


Est-ce que les gens naissent
Egaux en droits
A l'endroit
Où ils naissent


Nom'inqwando yes qxag iqwahasa


Est-ce que les gens naissent égaux en droits
A l'endroit
Où ils naissent
Que les gens naissent
Pareils ou pas


On choisit pas ses parents,
On choisit pas sa famille
On choisit pas non plus
Les trottoirs de Manille
De Paris ou d'Alger
Pour apprendre à marcher


Je suis né quelque part
Je suis né quelque part
Laissez-moi ce repère
Ou je perds la mémoire
Nom'inqwando yes qxag iqwaha.sa
Est-ce que les gens naissent...

Já e amanhã

Tendo lidado e muito com jornais, por dentro e por fora, não sou nem nunca fui jornalista (pena minha). Gosto de jornalistas mas tento topá-los porque sei que têm um poder muito poderoso que, vezes demais, é mal utilizado segundo a bitola altíssima que associa a classe à dos padres e à dos juízes. Percebo, pois, que têm objectivos a atingir e, aí, o impacto vale muito, tanto que é recorrente ser obsessão. E o pior que lhes pode acontecer é um período arrastado em que as notícias, por mais que se esprema, simplesmente não existem.

Para o jornalismo e os jornalistas, Saramago foi perfeito no timing do seu passamento ao “escolher” a sua (má) data em intervalo prolongado da prestação dos “navegadores” no Mundial, numa altura de tédio e impaciência na espera do próximo jogo contra a alegria de Kim Jong-Il, o decisivo. E a depressão gerada por esta triste selecção, com a ideia adquirida de que “com estes gajos não vamos longe”, até criou um ambiente propício ao de luto vaidoso e grandiloquente com as cerimónias fúnebres que raiou a obscenidade papalva. Depois, o nosso escritor que foi o mais polémico enquanto escritor e cidadão, já deitado e sem vida, ainda deu pano para mangas à polémica e às paixões. Incluindo, pasme-se, com apostas, conjunturas e mudanças de propósitos quanto à eventual repartição e destino das suas cinzas. Saramago, que foi um experimentado jornalista, sabia tanto da poda que não quis, mesmo deixando de respirar, de dar matéria farta para os seus colegas mais jovens e a procurarem sobreviver na selva do trabalho precário. Oxalá o Sindicato dos Jornalistas, esquecendo a cansada e velha questão do DN, lho reconheçam de forma apropriada.

Entretanto, Sócrates, esse tão mal amado pelos jornalistas, vá-se lá saber porquê, não quis estragar o banquete jornalístico deixado como herança funerária por Saramago. Pois se amanhã temos os apaniguados de Kim Jong-Il pela frente, volta a vez de Cristiano Ronaldo e o sortilégio da tômbola que nos ditará esperança ou desespero. E Saramago volta aos seus livros, de onde, se calhar, nunca devia ter saído. Sócrates foi sábio e amigo dos jornalistas, permitindo-lhes engrenar as agendas e as notícias. O luto nacional foi, assim, bem estudado, nem menos nem mais que os dois dias deste fim-de-semana. Porque amanhã há futebol, tempo de arrumar os livros e esquecer os escritores e a literatura. Tinha algum jeito Portugal enfrentar os coreanos do norte, esses budistas marxistas-leninistas, carregados com o luto deprimido pela perda de Saramago? Sabendo-se, como se sabe que os livros não marcam penalties e fintas só as sabem fazer com os sonhos, os nossos sonhos. E esses não foram à África do Sul. Ou se foram, voltaram cedo com e como a clavícula do Nani.

(publicado também aqui)

Un hombre llamado Saramago, por Luis Sepùlveda

“Caín”, la última novela de José Saramago me llego un día de lluvia y el sobre que contenía el libro venía medio desecho, pero la tinta de bolígrafo es por fortuna resistente y la dedicatoria no había sufrido daños. También llovía hace dieciocho años en Bad Homburg, un lugar cercano a Frankfurt donde, cada año, empezaba realmente la Feria del Libro, la mítica Buchmesse, durante una cena ofrecida por Ray-Güde Mertin, nuestra agente literaria. Y en esa tarde de lluvia, mientras todos bebíamos estupendos vinos alemanes, mientras escritores y editores de todo el mundo nos encontrábamos, tocábamos, narrábamos lo que en ese momento nos ocupaba, nadie se percató de que el timbre de la casa no funcionaba.
De pronto, uno de los camareros se acercó a la anfitriona y le susurró: “en la puerta hay un hombre llamado Saramago”. Entonces entró ese hombre flaco acompañado de un ángel llamado Pilar, ese hombre que miraba a los ahí reunidos con ademanes de estar perdido, hasta que reconoció al novelista uruguayo Mario Delgado Aparaín y ambos se fundieron en un abrazo. A partir de ese momento se formó el rincón de los latinoamericanos que tratábamos de responder a las mil preguntas que nos hacía José Saramago, que sabía de nuestros países más que muchos de nosotros mismos.
José Saramago entendía la solidaridad como un hecho consustancial a vivir, nadie se jugó tanto por tantas causas justas y en tan poco tiempo. Los que alguna vez lo invitamos a Chiapas, a los campamentos del Tinduf, a la Araucanía, a cualquier territorio del continente americano donde se precisara, no un mensajito esperanzador carente de médula, sino un discurso fuerte sobre los derechos humanos, la justicia y la dignidad de los pobres, sabíamos que lo más probable es que aceptara, poniendo en juego su propia salud y su precioso tiempo de escritor enorme.
José Saramago llegó a todos los lugares a los que creyó que tenía que llegar. Supo definir mejor que nadie lo que significaba ser un comunista en el confuso siglo XXI: es una cuestión de actitud, dijo, una cuestión de ética frente a los acontecimientos y la historia.
Y ahora llueve también en Asturias cuando la radio me informa del deceso de ese hombre llamado Saramago, cuyo ejemplo es un icono de la decencia social, y autor de libros que permanecerán en la memoria de los siglos.
Será dura y difícil la senda de los preocupados por la ética sin la presencia de José Saramago. Será duro saber que no está cuando precisemos de su voz alentadora en las mil batallas pendientes contra un sistema feroz. Pero sé que una voz en nuestras conciencias, en los momentos de dudas o peligros, nos recordará que con nosotros todavía sigue el ejemplo de ese hombre, de ese hombre llamado Saramago.
Do blogue de Sepúlveda.

O que é e o que não é honrar um "homem de convicções e literatura" como José Saramago

Por mais que Francisco Louçã, exibindo a sua escandalizada e sempiterna devoção de catequista perante mais um atentado ao pudor e bons costumes, multiplique, como já qui foi referido pelo João Tunes, os seus apelos a Cavaco Silva "para que se faça representar no funeral de José Saramago, esquecendo a 'perseguição política' contra o escritor protagonizada por um Governo seu", e repita que "o chefe de Estado deve deixar para trás o passado e estar nas cerimónias fúnebres", a verdade é que a ausência do Chefe de Estado enquanto tal, acarretando a de Cavaco Silva enquanto sua expressão acidental particularmente ridícula, só pode honrar um "homem de convicções e literatura" como José Saramago e incentivar ao desejável convívio com a sua obra e com a criação literária em geral todos aqueles que, apostados em mais igual liberdade para todos, gostariam de ver o BE menos dirigente e mais cometido com a democratização efectiva do poder e da acção política comum e com a extensão das capacidades políticas dos cidadãos.

Divagações à Esquerda



Desenvolver o ponto de vista que expressei no comentário que o João Tunes aqui transcreve, requer alguma clarificação prévia. Parece-me inequívoco que falharam as tentativas práticas da Esquerda, pelo menos de quem se reinvidinca de Esquerda, para substituir (através da omnipresença dum Estado centralizado) ou controlar (através da social-democracia) o Capitalismo (entendido como qualquer sistema em que a acumulação de capital é permitida de forma irrestrita). O Capitalismo é um sistema económico-social predador, incapaz de se auto-regular, gerador de instabilidade, e indiferente perante as consequências das acções dos seus agentes. E por isso falhou a social-democracia, mesmo nas suas variantes mais progressistas (implementadas nos países nórdicos), incapaz de resistir à ofensiva neo-liberal nascida na década de 70 do século passado. É uma enorme ilusão pensar que alguma vez será possível voltar às "gloriosas décadas" de 50 e 60, ao auge da social-democracia no Ocidente, até porque então, tal como agora, o sistema económico assentava numa exploração insustentável dos recursos naturais. Não é possível voltar atrás. O apetite dos agentes do sistema capitalista é incontrolável e insaciável, sendo por isso necessário e urgente substituir tal sistema antes que o desastre social e ambiental crescente se torne irreversível. O problema é que a única via até hoje efectivamente tentada (em larga escala), que passa pela omnipresença controladora dum Estado centralizado, implica ter constantemente medo da perseguição arbitrária e uma perda substancial da autonomia individual, condições que obstam ao pleno desenvolvimento pessoal. Novas vias são necessárias.

O que acabei de dizer implica que nem o PS (expoente cada vez mais baço da social-democracia em Portugal) nem o PCP (defensor do Estado centralizado como condutor da sociedade) têm interesse em implementar as políticas necessárias para criar um novo sistema sócio-económico, que na minha opinião deve assentar na extensão dos princípios da democracia participativa a todas as vertentes da vida em sociedade. Nem é previsível que tal mude. Em particular, o PS nunca tentará efectivar, por sua exclusiva vontade, qualquer mudança no sistema sócio-económico que faça perigar as actuais relações de poder. Simplesmente porque o PS há já muito tempo que é controlado por aqueles que entram nos partidos como forma de alcançarem mais poder pessoal, os quais nunca colocarão em causa o sistema político e sócio-económico através do qual ambicionam obter esse poder. O que aconteceu ao PS é um processo inevitável em qualquer movimento/colectivo, e a rapidez com que ocorre é proporcional ao poder que tiver quem o controlar. É por isso que a possibilidade dum movimento/colectivo implementar mudanças radicais após obter o poder para o conseguir está restrita a uma janela temporal muito estreita.

Portanto, o PS nunca será o veículo através do qual a Esquerda que pretende uma mudança radical do sistema sócio-económico conseguirá os seus intentos. Daqui decorre que não interessa a esta Esquerda, na qual me incluo, que o PS admita ser possível alguma vez repetir a maioria absoluta de deputados que obteve nas eleições legislativas de 2005. O PS tem de ficar numa situação de permanente resignação perante a necessidade de fazer alianças à sua Esquerda para poder alcançar o governo, criando-se deste modo a possibilidade (mesmo que ténue) de implementação de políticas de transformação sócio-económica radicais por pressão dos partidos mais à Esquerda com que o PS terá de se coligar. Idealmente seria que um outro partido se tornasse maioritário à Esquerda, sem o lastro daqueles que entram nos partidos para obter poder pessoal.

 

Afinidade

Como eu entendo o Pedro Correia. Não foram poucas as “viagens cá dentro” que programei e concretizei inspirado nesse “manual”. A última das que a memória me regista foi uma longa mas gratificante corrida por terras do Nordeste porque Saramago sentenciava, entre o mais, que ninguém tinha direito a morrer sem antes comer uma posta em Sendim no restaurante da “Tia Gabriela”. Fui, comi e chorei por mais, ficando com uma vontade imensa de ser imortal para não me cansar de repetir. Obviamente que a posta foi um episódio de pretexto. O “Viagem a Portugal” é o melhor que conheço em termos de (re)descoberta das nossas terras e gentes, ainda hoje e apesar das mudanças. Então, a descoberta de Sendim e de todo o Nordeste (só Miranda do Douro vale uma viagem-canseira) foi a forma de apagar, então, a minha vergonha acumulada de, sendo eu um transmontano-duriense “cá de baixo”, a única parte do país que não conhecia era essa zona distante e esquecida. E Saramago foi o alerta-guia que me pôs a caminho. Com todo o proveito.

(publicado também aqui)

Evangelho segundo Louçã

Este apelo/exigência de Louçã é uma insanidade e uma tentativa de afronta misericordiosa. Julgo que ninguém que respeite Saramago deseja Cavaco, ou um seu "representante", presente no seu funeral, no mínimo por respeito às identidades na dialéctica, viva na vida e ainda mais imperativa perante a morte. E quem respeita Cavaco deve admitir-lhe o direito à coerência do mundo cultural e político que quis ser inquisidor de obras literárias, apesar da democracia. Acompanhar um morto só deve merecê-la quem o respeitou quando vivo. Cavaco nunca foi capaz, ou simplesmente não o quis, retratar-se perante Saramago, o povo português e a cultura portuguesa da afronta vil e mesquinha que cometeu, cobrindo os actos de “santo ofício” de Santana Lopes e Sousa Lara, perante um escritor que, na altura, ainda não tinha ganho o Nobel (tivesse-o já ganho e seria, provavelmente, “chapa em caixa”). E as distâncias cavaram-se, sobretudo depois: Saramago tornou-se património da cultura do mundo; Cavaco nunca saiu intelectualmente de Boliqueime e só acrescentou as dicas domésticas da sua Maria. Ora, o diferente deve valer na vida e na morte.

O evangelismo de Louçã é a sua grande pecha demagógica. Confirma-se. Sobretudo ao querer ofender a dignidade de um morto com a afrontosa exigência da incoerência de um vivo.

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19/06/10

Blogo-conversando (2)

Comentando este post, o comentador “Fernando” não esteve para modas e lavrou exigência de clarificação:
“Existe uma questão a ser clarificada: qual a posição política dessa "esquerda do PS"? Quais os seus ideais políticos? Porque se temos esse eleitorado com o farol da social-democracia e a sua meia-dúzia de pilares incompatíveis no quadro actual da União Europeia, voltamos ao ponto de partida: porque votam então no PS?”

Tentei desenrascar-me de tamanho aperto e saiu-me assim:
“A análise das motivações de voto do eleitorado, muito menos caso a caso, ultrapassa-me, não lhe chego e nunca chegarei lá. Seja no PS ou onde for. Porque, segundo o princípio "um homem, um voto", não é o processo de decisão mas esta mesma que conta. E, no final, as individualidades votantes perdem-se e contam-se os resultados globais, o que cada partido amealhou. Mais que certo é que as motivações dos votos até num mesmo partido nunca são homogéneas. E, sendo assim, batatas para a genealogia dos votos.

Os vários partidos de esquerda (a "verdadeira" - o BE e o PCP, mais a "falsa", o PS), após os actos eleitorais unem-se sempre, mas sempre, frugal e instantaneamente, no balanço dos resultados, a contabilizar para a ESQUERDA, os votos somados PS-BE-PCP. E a DIREITA concorda e soma para si os votos recolhidos pelo PSD e pelo PP, pedindo meças de comparação ao somatório PS-BE-PCP. Todos, sem nojos nem condicionalismos.

Deixemos a Direita e os seus critérios e interesses. Pela Esquerda, a batota começa, para todos, no dia seguinte ao dia eleitoral (bem perto da meia-noite eleitoral): o PS assume-se como "esquerda responsável" e sacode a "esquerda de protesto"; a "esquerda da esquerda" começa de imediato a debitar a música do "PS com política de direita". E os sectarismos preenchem depois, em condições normais, uma legislatura, baralhando as contabilidades iniciais entre esquerda e direita.

No meu ponto de vista, há aqui demasiadas e demasiadamente manipulações e conveniências (nas quais, o eleitorado é o menos responsável). Correndo o risco de se chegar à conclusão que afinal o "eleitorado de direita" é maioritário em Portugal, e a verdade deve encarar-se mesmo que sob a forma de contrariedade, devia apurar-se uma quota, cientificamente apurada, que permitisse concluir-se qual a percentagem de votos no PS são de "esquerda" e os que são de "direita" para se acabar com as manipulações e enganos. E aceito que, nesta sondagem científica, se siga a sugestão do perspicaz Fernando, obrigando ao eleitor que meta a cruz no PS a que meta uma cruz segunda à pergunta "julga o farol da social-democracia e a sua meia-dúzia de pilares compatíveis ou incompatíveis no quadro actual da União Europeia?". Obviamente que, por coerência, o voto na CDU devia desdobrar-se em votos no PCP e no PEV (o maior "mistério" da esquerda ainda é saber-se quanto vale o PEV e a legitimidade eleitoral em que assenta o seu direito a ter dois deputados na AR). Etc.”


Cheira-me que a conversa não vai ficar por aqui. Oxalá. Porque aqui, neste deslindar, está o que julgo essencial para, em vez dos jogos florais da demagogia interpretativa, se passe à acção política que sirva a esquerda, passando pelo crivo inovador de se separar a “verdadeira” da “falsa”. Mas para, depois, Fazer e Mudar.

Uma crónica de José Saramago e as nostalgias inquisitoriais do reino de Bento XVI. O Vaticano procede à obra de misericórdia da execução em efígie do escritor condenado

O jornal do Vaticano, como que dando graças a Deus pelo alívio que causou a muitos e desvairados hierarcas da Igreja de Roma, a morte de José Saramago, acusa-o, na punitiva recensão necrológica da obra que lhe consagra (e que outros diriam bem pouco evangélica), de ateísmo populista e extremista, materialismo simplista e libertário, que atribui, não se abstendo sequer dos juízos de intenções, a uma opção deliberada e lúcida de Saramago pelo joio contra o trigo - ou seja, à perversidade de uma escolha do mal enquanto mal contra o bem enquanto bem.
Se há quem considere, não sem bons argumentos, que os romances mais explicitamente (a)teológicos de José Saramago simplificam de facto a questão religiosa e não logram exprimir a plenitude da concepção, gradualmente amadurecida pelo autor, que lhes terá servido de ponto de partida, isso não nos dispensa de reconhecer que, noutros momentos e por vezes menos directa, mas mais eficaz e profundamente, o mesmo José Saramago foi capaz de formular o seu ateísmo e a sua concepção da já referida questão religiosa em termos penetrantes e que sugerem pistas indispensáveis. E se é verdade também que José Saramago, nos seus romances "blasfemos", adia ou suspende a extensão da sua leitura da alienação religiosa às metamorfoses, só aparentemente laicas, que a prolongam e reproduzem, e por vezes tanto mais fanaticamente quanto mais puramente materialistas e científicas se pretendem, não é menos instrutivo verificar que o seu interesse crescente e cada vez mais explícito pela "crítica da religião" como princípio (em todos os sentidos) de toda a crítica da alienação, acompanhou o desenvolvimento e a afirmação de uma intervenção política cada vez mais crítica perante todas as formas de sacralização autoritária e consagração hierárquica de teorias, vanguardas históricas, direcções exteriores, que reproduzem, na contestação da ordem estabelecida, a lógica da dominação que essa ordem exerce.
Aqui ficam alguns excertos de um artigo, que o Filipe Moura reeditou já  no Esquerda Republicana e que José Saramago publicou, na Folha de São Paulo, a 19/09/2001, dias depois do 11 de Setembro de 2001. Com efeito, a sua leitura é a mais adequada resposta à sinistra execução em efígie com que o jornal oficial dos domínios de Sua Santidade Bento XVI houve por bem assinalar a morte do autor.

De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. (…) [M]as a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

Blogo-conversando (1)

É mais que evidente a pluralidade política e ideológica entre os autores deste blogue colectivo. Para os autores, isso não é um problema e muito menos um incómodo mas antes um acicate e um prazer. Assim seja também para os visitantes que se saturaram ou dispensam as consultas de expressões consonantes onde se rema no mesmo rio e se passa debaixo das mesmas pontes. Tanto mais que julgo que um blogue está longe de ser (poder ser) um “órgão” político ou partidário ou centro de mobilização de hostes e doutrinas, mas antes espaços que podem úteis e eficazes para se pensar para outros e com outros, em “voz alta”.

Sobre este meu post, nos “comentários”, o Pedro Viana rebateu:

“Não percebo o que propõe que PCP e BE façam de diferente relativamente ao que têm feito. Concordo que é necessário "(...)novo fôlego estratégico que acelere a inteligência política de esquerda(...)", quer em termos programáticos quer na acção política. Mas não concordo com o que aparenta ser a defesa dum "cessar-fogo" perante o governo PS, centrando o "ataque" na Direita. Isso seria um suicídio político a curto-prazo, porque acima de tudo a população está farta deste governo e votará em quem dele se demarcar, seja de Direita ou de Esquerda. PCP e BE perderão votos para a Direita (e para a abstenção) se fôr perceptível um alinhamento com o governo, e entregarão a maioria absoluta de mão-beijada ao PSD. Ainda, a longo-prazo, a Esquerda em Portugal só terá hipótese de "impôr" o seu programa se aproveitar esta janela de oportunidade para destruir qualquer hipótese do PS conseguir nova maioria absoluta no futuro, obrigando-o a virar à Esquerda e a necessitar de se coligar à Esquerda para governar.”

Para ajudar a clarificar o que pretendi dizer com o meu post (e que sublinha uma enorme diferença de apreciação política relativamente à posição expressa pelo Pedro Viana), trago para aqui a resposta que lhe dediquei na "caixa de comentários", deixando ao Pedro a liberdade de decidir se, pela sua parte, entende desenvolver os seus pontos de vista:

“Sei que o meu texto é "arriscado" mas, já bastando o que basta, não me acrescente o que não disse. Eu não propus tréguas algumas relativamente ao governo e às suas medidas. Nem sequer as pratico ou praticarei. O que disse, sujeitando-me ao contraditório, é que o "perigo principal de direita" se deslocou e que isso, para desgraça nossa mas enfrentável, deve levar a uma reelaboração estratégica na esquerda que passa pela "recuperação política" do eleitorado de esquerda que vota PS. Em vez da fixação anti-PS (metendo-o todo no mesmo saco) e do "quanto pior, melhor". Naturalmente, esta perspectiva não casa com a obsessão em "destruir qualquer hipótese do PS conseguir nova maioria absoluta no futuro", até porque, em condições normais, as legislativas não são as próximas eleições. Antes, há as presidenciais e Manuel Alegre é um dos candidatos.”

18/06/10

Verdades verdadinhas

Manuel António Pina no JN:

Os empresários estão preocupados com a situação do país (os empresários nunca estão preocupados consigo, mas com o país) e querem "rever as bases da competitividade, nomeadamente os custos da mão-de-obra" e correr menos riscos para "contratar e despedir pessoas". Que empresários são estes que querem ter lucro sem correr riscos? E ser "competitivos" pagando menos e exigindo mais aos seus trabalhadores? É sabido que Portugal é um dos países da Europa onde se trabalha mais e onde os custos laborais são mais baixos. E sucessivos estudos internacionais demonstram que a baixa produtividade das empresas portuguesas resulta sobretudo da má qualidade da gestão e do deficiente planeamento e organização do trabalho. Aqui, porém, os nossos empresários assobiam patrioticamente para o lado.

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Cavaco Literato a tentar esquecer o Cavaco de Estado

"Escritor de projecção mundial, justamente galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, José Saramago será sempre uma figura de referência da nossa cultura.
Em nome dos Portugueses e em meu nome pessoal, presto homenagem à memória de José Saramago, cuja vasta obra literária deve ser lida e conhecida pelas gerações futuras.
À Família do escritor, endereço as minhas mais sentidas condolências.
Aníbal Cavaco Silva"


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3-1

O impossível é possível: Portugal está ainda mais desigual. Agora por causa da lei da vida que emergiu em salto de convergência exibicionista mas redundante entre os labores porfiados e aliados da exploração e da mediocridade. Saramago deixou-nos, o terceto Cavaco-Santana-Sousa Lara continua por aí.

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"Pontes" e "Tolerâncias de Ponto" (outra vez)

Acho que ainda para aí uma enorma confusão entre os conceitos de "ponte" e "tolerância de ponto" (provavelmente devido à semelhança fonética), p.ex., na discussão sobre este post do Gabriel Silva.

- "Ponte" é o hábito de meter um dia de féria entre um feriado e um fim-de-semana

- "Tolerância de ponto" é o governo (no caso da Administração Pública; poderão existir situações equivalentes nas empresas privadas) dizer que num determinado dia não é preciso vir trabalhar (normalmente tal ocorre no 24 de Dezembro, 31 de Dezembro, Carnaval e tarde de Quinta Feira Santa)

A lei que se anda a falar agora tem a ver com as "pontes", não com as "tolerâncias de ponto".

É verdade que até pode acontecer o governo decidir dar "tolerância de ponto" num dia de "ponte", mas é relativamente raro (essa tolerância de ponto/ponte só costuma ocorrer quando o Natal e o Ano Novo calham a um 5º feira; no entanto, aí normalmente a regra é "só 50% dos funcionários podem gozar cada uma das tolerâncias").

Para finalizar, eu, que sou uma espécie de funcionario público (mais exactamente, trabalhador com "Contrato Individual de Trabalho" de um "Estabelecimento Público Empresarial"), quando marco as minhas férias tento sempre apanhar o mais possível de feriados dentro delas (para ter o maior periodo seguido de férias com o mínimo de dias); se fosse como me parece que algumas pessoas julgam que é, faria exactamente ao contrário – não marcar férias em semanas em que haja feriados (para não desperdiçar um dia de férias para uma data em que teria "tolerância de ponto" de qualquer maneira.

José Saramago (1922-2010)

E então chegou a república. Ganhavam os homens doze ou treze vinténs, e as mulheres menos de metade, como de costume. Comiam ambos o mesmo pão de bagaço, os mesmos farrapos de couve, os mesmos talos. A república veio despachada de Lisboa, andou de terra em terra pelo telégrafo, se o havia, recomendou-se pela imprensa, se a sabiam ler, pelo passar de bolca em boca, que sempre foi o mais fácil. O trono caíra, o altar dizia que por ora não era este reino o seu mundo, o latifúndio percebeu tudo e deixou-se estar, e um litro de azeite custava mais de dois mil réis, dez vezes a jorna de um homem. Viva a república, Viva.[...]
Por todas as herdades corria um vento mau de insurreição, um rosnar de lobo acuado e faminto que grande dano lhe causaria se viesse a transformar-se em exercício de dentes. Havia pois que dar um exemplo, uma lição.[...]
Já lá vai adiante o esquadrão da guarda, amorosa filha desta república, ainda os cavalos tremem e a espuma fica pelo ar em flocos repartida, e agora passa-se à segunda fase do plano da batalha, é ir por montes e montados em rusga e caça aos trabalhadores que andam incitando os outros à rebelião e à greve, deixando os trabalhadores agrícolas parados e o gado sem pastores, e assim foram presos trinta e três deles, com os principais instigadores, que deram entrada nas prisões militares. Assim os levaram, como a récua de burros albardados de açoites, pancadas e dichotes vários, filhos da puta, vê lá onde é que vais dar com os cornos, viva a guarda da república, viva a república da guarda."
José Saramago, Levantado do chão

O homem sem qualidades

Brassens vs. os Filhos da Mãe-Pátria: ´La ballade des gens qui sont nés quelque part´

Ou de como, parafraseando uma frase célebre, a mundialização da cidadania democrática é inversamente proporcional às independências nacionais e à fé em deus dos filhos da mãe-pátria. Convém tê-lo presente quando lembramos Weimar.





C'est vrai qu'ils sont plaisants tous ces petits villages
Tous ces bourgs, ces hameaux, ces lieux-dits, ces cités
Avec leurs châteaux forts, leurs églises, leurs plages
Ils n'ont qu'un seul point faible et c'est être habités
Et c'est être habités par des gens qui regardent
Le reste avec mépris du haut de leurs remparts
La race des chauvins, des porteurs de cocardes
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part


Maudits soient ces enfants de leur mère patrie
Empalés une fois pour toutes sur leur clocher
Qui vous montrent leurs tours leurs musées leur mairie
Vous font voir du pays natal jusqu'à loucher
Qu'ils sortent de Paris ou de Rome ou de Sète
Ou du diable vauvert ou bien de Zanzibar
Ou même de Montcuq il s'en flattent mazette
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part


Le sable dans lequel douillettes leurs autruches
Enfouissent la tête on trouve pas plus fin
Quand à l'air qu'ils emploient pour gonfler leurs baudruches
Leurs bulles de savon c'est du souffle divin
Et petit à petit les voilà qui se montent
Le cou jusqu'à penser que le crottin fait par
Leurs chevaux même en bois rend jaloux tout le monde
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part


C'est pas un lieu commun celui de leur connaissance
Ils plaignent de tout cœur les petits malchanceux
Les petits maladroits qui n'eurent pas la présence
La présence d'esprit de voir le jour chez eux
Quand sonne le tocsin sur leur bonheur précaire
Contre les étrangers tous plus ou moins barbares
Ils sortent de leur trou pour mourir à la guerre
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part


Mon dieu qu'il ferait bon sur la terre des hommes
Si on y rencontrait cette race incongrue
Cette race importune et qui partout foisonne
La race des gens du terroir des gens du cru
Que la vie serait belle en toutes circonstances
Si vous n'aviez tiré du néant tous ces jobards
Preuve peut-être bien de votre inexistence
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part
Les imbéciles heureux qui sont nés quelque part

17/06/10

Agarrar-se ao tronco


Um conjunto de católicas reuniu-se ontem e apelou a Bagão Félix para que se candidate à Presidência da República. Acho muito bem e até assino a propositura, se for caso disso. Em caixa, o Público revela ainda que o mesmo grupo de católicas - entre as quais pontifica Isilda Pegado - pretendem fazer frente ao avanço das aulas de Educação Sexual, que como se sabe irão desbraguilhar a juventude. Alexandra Chumbo, presidente da Associação Família e Sociedade, apresentou como alternativa o projecto internacional Protege o teu Coração, que visa promover os métodos naturais de prevenção da gravidez - única via legítima de planeamento familiar, segundo a associação - e ajudar «os adolescentes a cultivarem o amor verdadeiro».

Três notas breves: a primeira para aconselhar a leitura deste texto da Ana Matos Pires, cujo título já é elucidativo: «Aviso: está a falar-se de "educação para a saúde" e não de "berlaitada na escola, e assim, em poucas lições"». A segunda para notar como o conceito de «liberdade de escolha» (dos pais), arma táctica destas franjas conservadoras para limitar a disciplina, a colher, deveria ser estendido à recusa das aulas de Biologia por quem professe o criacionismo e da Educação Física por quem considere que a escola nada deve ter a ver com a saúde e o corpo dos filhos (para não desenvolvermos exemplos mais abstrusos mas que cabem dentro da mesma lógica). Por fim, sublinhar a estratégia linguística usada para legitimar essa estranha visão da «educação sexual» que dispensa a educação e abomina o sexo. O que será o «amor verdadeiro»? O da Floribella falando com um tronco de árvore enquanto espera pelo Príncipe Encantado?

As baionetas e a Brigada Ligeira Apeada

Os horizontes cobrem-se de nuvens negras. Aproxima-se rapidamente uma gigantesca batalha da guerra de classes. Os problemas de fundo foram-se agravando com a mítica «União Europeia», com a instalação da moeda única e com o império das bolsas, das sociedades secretas e semi-secretas e com as sucessivas violações das liberdades, direitos e garantias democráticas. Chamam-lhes desemprego, infame distribuição da riqueza, quebra da moeda, anárquica especulação financeira, deriva dos poderes centrais no sentido de uma direita cada vez mais autocrática… Chamem-lhes o que quiserem. Eles impõem-se e já ninguém se atreve a negá-lo.
O embate está prestes e as baionetas contadas.
(“Avante”, 17/06/2010)

Algumas centenas de pessoas juntaram-se, esta quinta-feira, ao desfile de protesto promovido pelo PCP, em Lisboa, para contestar as medidas de austeridade anunciadas pelo Governo.
(TSF, 17/06/2010)

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Já tínhamos de quase tudo, temos agora um deputado cleptomaníaco


Não deixa de ter a sua graça corajosa que o deputado que rouba gravadores aos jornalistas seja o mesmo que agora dá a cara na tentativa parlamentar de se roubarem feriados. Já sabemos: quando na Assembleia se quiser roubar alguma coisa, Ricardo Rodrigues está lá, à frente da iniciativa.

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Pode-se lembrar Weimar?

Alargar permanentemente, em traço uniforme, o perímetro do desenho da “direita” e da “política de direita” é caminho seguro para embotar o bico do lápis de forma gratuita ou hedonista em termos de representação conflitual. Sócrates e o governo PS cumpriram e pré-esgotaram a sua missão política. São, neste momento, apenas uma ficção útil para os privilegiados na luta de classes e um adiamento para dar tempo à maturação da “alternativa” de direita pura e consistente, brutal tout court. Actualmente, a imediata e gravíssima responsabilidade política do PS, partido que se arrasta no poder, prolongando cargos para os seus funcionários (os altos, os médios, os baixos e os micros), já não é a das políticas demissionistas e classistas que promove(u) e pratica(ou), pois já o faz agora apenas por inércia e decadência, mas sim o de servir, servilmente, de compasso de espera com ingenuidade estúpida e inútil ao patronato e à direita para aproveitarem a crise para a terraplanagem dos direitos sociais fundamentais. Cavaco, o PSD, o PP e o patronato (este recentemente acordado com a excitação enérgica própria do acordar após uma noite bem dormida), neste momento, andam apenas dedicados à tarefa fácil de churrascarem o PS nas brasas que o rating e a Comissão Barroso sopraram e sopram. E contam, naturalmente, com as preciosas ajudas do fogo à esquerda. De facto, o problema principal, neste momento, não está na direita (esta faz, inteligentemente, o que mais lhe convém) mas sim na esquerda, nesta nossa esquerda com um proverbial gosto pelo canibalismo político, sobretudo manifestado em tempo de vacas magras e quando a direita e o patronato se mostram mais arrogantes. E que demonstra que dificilmente aprenderá a lição de Weimar, os tempos do social-fascismo que levou o paranóico de bigodinho ao poder e que, quanto a Thaelman, o melhor que lhe arranjou foi um lugar de martírio e morte em Buchenwald.

Obviamente que não é fácil, vencendo hábitos, nostalgias, fixações e preconceitos fraticidas, recentrar combates e denúncias, objectivos centrais de luta ainda menos. E a preguiça dos que se habituaram a escorregar pelo plano inclinado da inércia dos lugares comuns doutrinários não ajuda. Sim, mas. Porque está na hora de um novo fôlego estratégico que acelere a inteligência política de esquerda. Temos, pela frente, uma direita brutal em espera mas pronta a destruir o que resta do Estado Social e o mais que ainda sobra de Abril. E, se existe, é essa a questão central, agora. O que exige uma contenção sectária de todos e de cada um. Que, numa primeira fase, implica passar-se da estatística (que inclui o eleitorado do PS na contabilidade da esquerda) ao acto político. E, simultaneamente, apalpar-se com realismo e consistência o físico do monstro de direita que, como um Frankenstein construído no laboratório da crise, há que combater antes que se mexa o suficiente para poder descer sobre a noite da cidade. Porque, a alternativa é, qualquer dia, descermos à rua para defendermos o Código Laboral, que há pouco denunciámos, contra as suas degradações, ou defendermos o PEC 1 contra o PEC 2 e depois o PEC 2 contra o PEC 3.

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As imagens e as coisas


Não foi casual a escolha da imagem do descapotável que percorre as ruas destruídas de Beirute, transportando no seu interior um grupo de jovens aparentemente dedicados a captar fotos para colocar numa rede social. A fotografia de Spencer Platt venceu o world press photo e foi apresentada pelos meios de comunicação internacional como o espelho das várias sociedades existentes no interior do Líbano, cada uma delas lidando à sua maneira com a invasão israelita. A imagem de um Líbano moderno e cosmopolita, sedento de vida e estranho à mobilização político-religiosa xiita, parecia materializar-se na fotografia e encaixar como uma luva na narrativa que nos chegava daquele lado do mediterrâneo, compondo a moldura perfeita para a interpretação que o júri do prémio tinha do conflito - a foto, diziam, exprimia o Líbano em todas as suas contradições.
Simplesmente, as contradições eram muito maiores do que as que cabiam naquelas cabeças. O espaço e o tempo que aquela luz fixou resistiam a uma representação tão superficial de Beirute. E a história das pessoas que ali aparecem, habitantes daquele «pobre bairro xiita da parte oriental da cidade destruído pela aviação israelita», começou a ganhar outra densidade, comprometendo o cliché que vários jornalistas vinham desenvolvendo sobre o país. A fotografia foi captada no primeiro dia do cessar-fogo, quando os e as habitantes daquele bairro que trabalhavam no centro puderam finalmente regressar às suas casas. O carro foi emprestado por um amigo e a cobertura foi recolhida porque estava calor, naquele dia 15 de Agosto de 2006. Uma das jovens teve que se esforçar por explicar "isto é o Líbano e nós vestimos-nos sempre assim", num eco remoto do livro de Edward Saïd, Orientalismo, apenas porque os comentadores encarregues de descortinar o «verdadeiro significado» daquela imagem insistiram bastante no contraste entre a sua aparência e o suposto conservadorismo daquele bairro.
Tudo isto apenas para dizer que a existência de uma mediação, de alguém que inscreve determinada imagem num determinado contexto e que ocupa um lugar privilegiado para lhe conferir um sentido, não resolve todos os problemas. As palavras são importantes, mas não nos colocam a salvo de todos os equívocos, porque elas próprias geram os seus equívocos. O fio que nos guia através do labirinto é muito mais tortuoso.

A imagem do desassossego


Retomando o debate, que atingiu entretanto um elevadíssimo nível, com posts aquém e além mar, gostaria de chamar a atenção para um pormenor que me parece estar a ser desvalorizado. 
Sem dúvida que as imagens não falam por si e é preciso fazê-las falar, dar-lhes profundidade, densidade e contexto, o mesmo é dizer, sentido. Mas a possibilidade de elas possuírem uma força que resiste às palavras deve também ser equacionada e chamar a essa força «totalitarismo» ainda é permanecer numa posição de denúncia que pouco nos ajuda. As palavras que codificam o real possuem, também elas, uma pretensão de o resumir a si mesmas, como se apenas existisse aquilo que cabe no discurso. 
Ora a imagem da criança morta remete  poderosamente para um recanto obscuro das nossas consciências ao qual raramente nos atrevemos a ir. Não sei se existe tal coisa como «o mal absoluto» mas, a existir, ele terá um rosto desta natureza, desfigurado pela irreversibilidade da morte e pelo espaço vazio que a circunda. E se semelhante imagem cala, é precisamente porque aquilo que ela nos transmite dificilmente poderia ser traduzido em palavras. O desconforto que nos transmite resulta  tanto do  excesso que transporta como da insuficiência que exprime. Nenhuma narrativa seria capaz de lidar satisfatoriamente com esse excesso. A força e a fragilidade contidas na fotografia não seriam maiores nem menores por via de uma mediação. E essa mediação, se situada num domínio puramente inteligível e reflexivo, seria sempre feita à custa de um significado que o ultrapassa. 
Gostaria que o nosso debate seguisse outro caminho, ultrapassasse a oposição entre palavras e imagens para chamar a si uma dimensão política de outro tipo.
Aquela criança não foi morta num qualquer cenário solene onde se encena a Grande História. Ela morreu no espaço confinado onde decorria a sua vida quotidiana. A narrativa que ela compõe não possui qualquer final redentor. Confronta-nos simplesmente com a materialidade de uma vida que deixou de o ser, por via de um conflito que ultrapassou há muito as causas que o originaram. Se transformada em símbolo desse conflito para fortalecer as posições de uma das partes (por mais justas que elas sejam), a criança morta estará a ser instrumentalizada abusivamente e a sua imagem será facilmente absorvida pela voracidade dos ecrans. Radicalizar a leitura desta imagem passaria antes pela consideração do que ela nos diz sobre o conflito, sem se resumir a ele. Todas as histórias que não passam de um rodapé noticioso e que não se deixam resumir a episódios da «questão israelo-palestiniana», embora façam parte dela. As nossa posições acerca do fundamentalismo islâmico, da legitimidade do Estado de Israel, do uso da violência, do programa nuclear iraniano ou da expressão da solidariedade não podem dispensar esse mergulho no concreto, sob pena de nos esquecermos de que estamos a falar de pessoas reais e não apenas figuras do Direito Internacional e cálculos geo-estratégicos.
A dor, o sofrimento, a raiva e o ódio são caminhos perigosos? Sem dúvida. Mas uma imagem destas deve levar-nos a considerar que talvez já seja tarde para semelhantes cautelas e que, apesar de todos os perigos, é necessário percorrer semelhante caminho, encarar nos olhos a mulher com cabelos de serpente que o guarda. Porque é bem possível que estejamos já a transformar-nos em pedra, à força de evitar o seu olhar.

Pré-anúncio de redução salarial?

O Governo dá sinais de querer proceder a reduções salariais - medida que, de algum modo, completaria as recentes  reivindicações dos dirigentes de diversos sectores-chave da actividade económica, já aqui referidas pelo João Tunes. O mais curioso é, no entanto, o modo como o faz, negando como supérflua essa decisão, em lugar de a declarar inaceitável, ou de se comprometer a, "se for preciso",  proceder a cortes que sejam suportados por outros agentes económicos, como aqueles, por exemplo, representados pelas confederações já referidas. Com efeito, segundo se pode ler no Público: 


O primeiro-ministro José Sócrates rejeitou hoje em Bruxelas o cenário de redução de salários na função pública, afirmando acreditar que as medidas já adoptadas pelo Governo são suficientes para atingir os objectivos orçamentais em 2010 e 2011.
Sócrates, que falava à entrada para uma reunião do Partido dos Socialistas Europeus, que antecede a cimeira de chefes de Estado e de Governo da União Europeia de quinta-feira, disse que a redução de salários “não foi a opção” do seu executivo para reduzir o défice orçamental e garantiu que “não será preciso” seguir essa medida.
O primeiro-ministro respondia a questões sobre uma eventual redução de salários, depois de, à tarde, o patronato ter proposto ao Governo a adopção de medidas transitórias para melhorar a competitividade das empresas e aumentar o emprego, salientando a necessidade de “liberalizar mais” a contratação e o despedimento.
“Não, não vai ser preciso”, declarou.

Na realidade, o que José Sócrates diz é que não será por sua opção que procederá a medidas semelhantes, ao mesmo tempo que sugere que, se as contas assim o indicarem, não poderá deixar de tomá-las. Pois, caso contrário, seria preciso pôr a vontade do PS acima da dos responsáveis económicos, o que, como toda a gente sabe, seria uma irresponsabilidade. E não é evidente que quem impõe sacrifícios aos outros deve dar o exemplo e saber sacrificar as opções que gostaria de poder manter, se não contrariassem as exigências políticas do regime económico estabelecido, que, como lembra este outro post do João, vai sendo tempo de constitucionalizar?

Não é cedo para passarem à farsa?

Admito que os episódios seguintes tenham um valor meramente simbólico. Mas em política e na ideologia, o valor dos símbolos tem um tamanho do messiânico ao adamastor, dependendo. Estes, os que trato a seguir, eu vi-os, pela televisão, e não consegui logo acreditar. Primeiro, o governo, primeiro-ministro à cabeça, recebeu os sindicatos. Pois quem ladeava Sócrates e declarou depois para a comunicação social como porta-voz governamental? A ministra que foi sindicalista e é agora do trabalho? Não, foi o ministro dos negócios estrangeiros, o mesmo Luís Amado do apoio ao censor egípcio para manda-chuva da Unesco e da defesa do preceito constitucional do limite do défice! Depois, um espanto nunca vem só, um secretário de estado das finanças ou de um qualquer outro dano colateral, num debate parlamentar, também visto na televisão, um sujeito com nome de cantor (Emanuel ou parecido), não conseguiu segurar os óculos de cada vez que tentou ler a cábula de apoio. O ministro dos negócios estrangeiros a negociar com os sindicatos e um secretário das finanças com óculos que fogem do apoio do nariz, representam o quê? Um tradutor de símbolos que me ajude. Por favor.

(publicado também aqui)