20/12/11

Contra "os alemães" ou pela democracia?

A propósito do post que abaixo refiro, de JM Correia Pinto, publicado no seu Politeia, acabo de deixar o seguinte comentário na respectiva caixa dos mesmos.

JM Correia Pinto,

desta vez, no texto intitulado "As Alternativas com que Portugal Se Defronta", parece-me que V. passou um limite perigoso, levado embora por um sentimento de revolta compreensível.

Ou o li mal, ou V. acaba por postular uma entidade mítica, uma essência a-histórica, a que chama "os alemães", em termos simétricos dos utilizados por alguns governantes ou responsáveis alemães, quando descrevem como uma espécie de tara, semelhante ao alcoolismo, o meu desempenho económico dos povos do Sul.

Este deslize seu tem consequências graves e condena-nos fatalmente a uma perspectiva, falsa e antidemocrática, propriamente mosntruosa. Queira V. ou não, o caminho que este seu post aponta é a luta pela dignidade nacional contra "o alemão" uno, indiviso e irrecuperável, que a sua intervenção hipostasia.

Suponho que não preciso de lhe dizer que a única alternativa - com ou sem saída da moeda única, etc. - que me parece valer a pena é a da luta pela democracia contra o governo da economia política hoje dominante. E acontece que esta luta por mais democracia passa, na realidade, por mais Europa, e não pela resignação perante a sua liquidação pelos interesses da oligarquia económico-administrativa que, neste momento, o governo alemão lidera nesta parte do mundo.

Gostaria de estar enganado na leitura que faço do seu texto e que V. esclarecesse a sua posição, de modo a tornar claro que me equivoquei. Mas receio que seja um desejo vão da minha parte.

Sinceramente

                          msp

5 comentários:

Nuno disse...

O agudizar da crise, tendo ela as condições conhecidas, não deve servir como justificação para análises menos concretas. Algo que é, inclusive, de estranhar em JM Correia Pinto.
Angela Merkel, e os interesses, grupos e ideias que representa, não pode nunca ser vista como um máscara transcendente dos alemães no seu todo. Ao fazê-lo, começa-se a entrar no perigoso jogo - ainda que já tenha sido iniciado por alguns sectores de parte a parte - dos nacionalismos, procurando tomar estes como razão última, algo justificador por si só, ainda que daí nada se possa concluir de facto.
Na minha opinião, é algo a evitar. Ao invés, deverá ser procurado manter o debate político na defesa de valores democráticos - de cariz representativo ou não -, de traço internacionalista, e sem fugir à apresentação de propostas económicas e sociais diferentes, por mais ou menos radicais relativamente ao discurso hegemónico que possam parecer.
Parabéns pelo post Miguel Serras Pereira, por não ir pelo fácil anti-germanismo.

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Nuno,
obrigado pelo seu comentário, que, no essencial, subscrevo.
Saudações cordiais.

msp

Miguel Serras Pereira disse...

No seu blogue, Politeia, JM Correia Pinto respondeu, entretanto, ao comentário que o meu post reproduz, nos seguintes termos.

Miguel Serras Pereira
Acho que os mitos são muito interessantes e desempenham um papel de relevo em todas as civilizações. Nem sempre pelos melhores motivos. Recorre-se aos mitos para explicar o que de outro modo seria de difícil compreensão, mas também se recorre a eles para tornar difícil a compreensão do que é fácil.
E nesta nossa conversa sobre a Europa, bem como sobre a democracia, há muitos mitos. O primeiro, e mais grave, é o que veicula a ideia de uma Europa solidária. Falso, completamente falso. Por muito que custe a aceitar, o primeiro elo da solidariedade é o nacional. Atenção: não estou a dizer que deva ser; não estou a dizer que me revejo nele; estou apenas a dizer o que é. Bem gostaria que fosse outro, mas não é. E apesar dos avanços, que nunca são lineares – há avanços que parecem consolidados, mas que logo a seguir regridem a patamares nunca antes imaginados – a Europa de hoje é ainda menos solidária que a dos primeiros catorze anos do começo do século passado. Por isso, estar a contar com a solidariedade democrática dos europeus para resolver em conjunto os nossos problemas, é como na Revolução de Outubro ter ficado à espera da Revolução na Alemanha e.,.e…
Depois, a democracia, embora não seja um mito, é algo consensualmente tão vago que também não vai ser pelo seu aprofundamento como palavra de ordem que vamos mudar as coisas. Por uma razão muito simples: quanto mais aprofundamos mais a base de apoio diminui.
Finalmente, a Alemanha. Aí é, porventura, onde historicamente tenho mais certezas. O regime Nazi não foi obra do acaso, nem de um louco. Com aquelas ou com outras características, eventualmente menos vincadas na sua brutalidade, o nazismo tem as suas raízes intelectuais na “essência” do pensamento germânico (no romantismo, no neo-romantismo, na redescoberta dos "antigos alemães", nas utopias germânicas e depois no aproveitamento de tudo isto feito pelas correntes nacionalistas....). Tudo isso está hoje muito estudado, como sabe tão bem como eu.
Ainda um dia destes li um artigo, que vou traduzir e publicar no blogue, de um catedrático alemão que explica com notável singeleza por que razão a política da Alemanha não pode ser outra. Na exposição das razões que lhe assistem nem por um segundo lhe passa pela cabeça considerar, no mínimo que seja, o interesse dos outros. Dos outros a quem está ligado e de quem é sócio.
E para finalizar: a Revolução faz-se em casa…e não na casa dos outros. E a democracia também…

(JM Correia Pinto)

A minha réplica, publicada também no Politeia, foi a seguinte:

JM Correia Pinto,

uma coisa é reconhecer a "eficiência histórica"; outra é dizer que esta funciona como necessidade, ou prescreve esta. Uma coisa é elucidar a história em que se apoia, interpretando-a a seu modo, a hegemonia da oligarquia alemã; outra dizer que, sendo essa história o que é, o que vai ser é como a pescada, e está escrito de antemão.
Aliás, se, em tese geral e para além do caso alemão, a eficiência histórica funcionassem em termos de necessidade, a própria política, como acção dotada e criadora de sentido, seria impossível, e a ideia de autonomia democrática - nós somos aqueles que querem dar-se, sabendo-o, as suas próprias leis - , um absurdo.

Quanto á ideia de que a democracia se faz em casa, muito bem - se por isso se entender que tem de ser feita no tempo e no lugar onde estamos. Mas sem esquecer que a nossa casa não mora apenas em si própria, que nós próprios não moramos apenas nela, que as fronteiras são o mapa que governa um território, que poderia ser governado de outro modo. Além de que, como gosta de lembrar George Steiner, as árvores são, sem dúvida, admiráveis, mas os seres humanos têm pernas…

De momento, talvez já chegue. Embora não tenhamos passado dos pontos prévios. Como fazer de outro modo, no entanto, se são pontos também fundamentais?

msp

Anónimo disse...

O charme e a inteligência teórica e política do autor de Politeia fraquejou nesta sua catalinária contra o " espírito " congénito de dominação do povo alemão. Blague polifónica com múltiplos e inconfessáveis objectivos? O fulcro da operação discriminada de " neutralização " da democracia representativa, alegadamente atribuida ao não-consistente e dividido( na realidade...) directório franco-alemão,é imposto sobremaneira pelo sortilégio letal e surrealista do shadowbanking manipulado pela City e Wall Street, de há anos a esta parte... A ironia involuntária que sustenta a prosa inflamada de JM Correia Pinto vai no sentida da corrente- populista,demagógica e sectária- de argumentações pseudo-extremistas semelhantes, que rapidamente são desvalorizadas em espaços públicos de discussão muito mais exigentes, caso do francês, em especial? Como E. Todd ou D. Baker não cessam de o demonstrar, o mal da Europa tem a ver com a insustentável decrepitude da sua inacabada construção política e os efeitos de uma imensa perda de competitividade tecno-industrial perante a ascensão das grandes economias do Pacífico. Salut! Niet

Anónimo disse...

Depressa e bem, errata: linha dois é fraquejaram, claro; linha 18, em especial- sem ponto de interrogação. Por outro lado, tanto Manuel Maria Carrilho como Marcelo Rebelo de Sousa não se coibem de referir a quota parte de grande importância dos meios económicos e financeiros dos EUA na crise deslizante do Euro, nos diversos patamares da espiral económica e financeira catastrófica que envolve os PIIGS. Niet