20/02/15

Uma reflexão sobre os acontecimentos de hoje sobre a Grécia

Pelos vistos haverá um acordo entre o governo grego e o Eurogrupo. Não se conhecendo muitos detalhes, sabe-se que haverá pelo menos quatro tópicos relativamente interessantes em favor do governo grego, se bem que ainda insuficientes para reverter a austeridade:

1) revisão das metas para os superavit's primários (actualmente estavam nos 4,5% ao ano até 2022), sendo que o de 3% para este ano de 2015 deverá ser revisto em baixa. Aparentemente está será uma medida muito positiva, dadas as circunstâncias que discutirei mais abaixo. Digamos que, de um modo grosseiro mas com um impacto assinalável nas vidas concretas dos trabalhadores, isto significa que serão menos uns largos milhares de milhões de euros de cortes em prestações sociais, salários e empregos. Se esta orientação se confirmar isso significa que o Syriza levará a cabo uma leitura do Tratado Orçamental que congregue controlo das contas públicas e uma travagem relativa da austeridade.

2) não serão legisladas novas medidas de corte nas pensões ou de aumento de impostos. Isto significa que algumas das exigências do Ministro das Finanças da Alemanha não avançarão.

3) o BCE admite aceitar a dívida grega como garantia para as operações de financiamento regulares. Basicamente os bancos gregos continuam a flutuar à tona e, no curto prazo, não haverá uma ruptura do sistema bancário daquele país.

4) Na sequência do primeiro ponto um jornalista terá perguntado a Varoufakis sobre qual seria o nível de aperto orçamental exigido à Grécia, ao que este terá dito algo do género: o governo grego terá de propor um nível e medidas para o cumprir, naturalmente com o acordo das instituições da UE e do FMI. Isto aparenta querer dizer que se o governo grego conseguir um equilíbrio orçamental sem corte de salários, de pensões e de emprego público e pela maior eficiência na colecta fiscal e no relançamento do crescimento económico real (que, por sua vez, atrairia uma maior colecta fiscal, sem aumentar as respectivas taxas), poderão estar criadas algumas condições para uma vida um pouco mais decente na Grécia.
Tudo o mais será negociado nos próximos 4 meses, período da extensão do actual empréstimo.

Em termos políticos, estas semanas demonstraram outros aspectos que deveriam merecer uma reflexão.

Em primeiro lugar, a obstinação de Estados como o alemão, o espanhol, o eslovaco ou o português para com as propostas gregas demonstra o instalar de interesses nacionais e estatais no coração da UE e estão a ser um factor de inércia na evolução da integração política, orçamental e fiscal do espaço europeu. A corrente mais conservadora e mais nacionalocêntrica da UE chegou a levar as negociações a um ponto que poderia ter ido ao caso extremo, apesar de improvável como sempre defendi, de expulsar a Grécia da zona euro. Se esta corrente conseguiu demonstrar que detém um peso muito relevante nas decisões da UE, também me parece que o facto de se vir a firmar um possível acordo demonstra que esta corrente tem um peso fundamentalmente político e ancorado na influência multilateral de sectores do Estado alemão sobre outros Estados-membros. Se o acordo entre o governo grego e as instituições europeias se concretizar nos moldes que apresentei nos pontos 1 a 4, então atrevo-me a dizer que Schauble e o Eurogrupo terão sofrido uma pequena derrota, sem que se possa dizer que o governo grego tenha propriamente ganho. Por outras palavras, a pequena derrota dos conservadores evidenciar-se-ia no facto de não terem conseguido implementar medidas altamente restritivas como os saldos primários orçamentais absolutamente inviáveis, ou unicamente viáveis à custa de uma austeridade criadora de um sofrimento social ainda mais atroz, e por mais uma década. Nesse sentido, esta pedra de toque do programa anterior, e a que Schauble se agarrou, ao ser redefinida representa uma pequena vitória sobre esta corrente conservadora. Neste plano, o que a imprensa internacional chamou de trabalho de intermediação entre os Estados grego e alemão por parte do BCE, do FMI e da Comissão Europeia parece demonstrar uma eventual papel de gradual supremacia da corrente tecnocrática mais europeísta sobre a conservadora. Se esta detém um poder de decisão relevante, parece-me que, perante o que se foi ouvido e lendo nos últimos quinze dias, se esta fosse hegemónica creio que, num caso extremo, a esta hora o Banco Central da Grécia estaria a imprimir dracmas. Mesmo que esta posição mais extrema não fosse tomada, como sempre fui dizendo nas caixas de comentários deste blog, o facto de se ter quebrado um dos pilares do programa de Novembro de 2012 (os saldos orçamentais primários incomportáveis) demonstra que a corrente conservadora não conseguiu o seu objectivo central desta ronda negocial: manter todas as características do programa da Troika vigente e impedir qualquer concessão ao governo grego.

Em segundo lugar, é interessante verificar que as dificuldades colossais para que o governo grego conseguisse pequenas concessões são demonstrativas de algo que os defensores de uma saída "negociada" do euro esquecem. Se, por causa de algumas pequenas concessões totalmente inscritas dentro do quadro do euro e da UE, o governo grego viu-se e desejou-se, como é que um governo de um país europeu periférico, fosse ele Portugal ou a Grécia, conseguiria negociar o que quer que fosse? Claro que há sempre os "anacletos" que acham que não é preciso negociar nada, seja em que situação for, mas desses nada interessa, já que nem se lembram que o próprio Lénine negociou acordos comerciais sem os quais o capitalismo de Estado soviético - a que chamam de socialismo - nunca teria sobrevivido. Em suma, o argumento  nacionalista de romper unilateralmente um país periférico com a Eurozona não passa de "conversa de garganta", como se diz na gíria popular, pois na hora de tentarem minorar as medidas de retaliação não conseguiriam nada.

Em terceiro lugar, se o isolamento grego no conjunto dos Estados da zona euro demonstra que o unilateralismo nacional não consegue  provocar mudanças estruturais na UE, também me parece verdade que se houvesse mais um ou dois Estados com uma postura similar ao Syriza, estou a pensar em Espanha, as concessões conseguidas não teriam sido pequenas mas bastante mais consideráveis. Assim, a esquerda portuguesa que oportunisticamente redescobriu uma mais aberta ou mais surda solidariedade com o Syriza faria bem em reflectir sobre os modos institucionais com que tal pode ou não ser feito. Ou seja, sem movimentações autónomas da classe trabalhadora no plano europeu, a esquerda só conseguirá melhorar alguma coisa dentro das instituições europeias, de um modo articulado e tendo em mente uma crescente integração política, orçamental e fiscal da UE - aspecto central das reivindicações e da prática do Syriza.

Em resumo, a solidariedade para com o Syriza não se prende com qualquer apoio irrestrito a essa força política, como não deve acontecer com nenhuma, mas com medidas específicas e concretas que, no plano do curto e médio prazo, possam auxiliar a um abrandamento da austeridade e que, no plano mais estratégico, auxiliem a uma eventual unificação futura dos trabalhadores europeus. Só no mundo irreal e voluntarista é que se acha que se resolve o que quer que seja com apelos ao irracionalismo, às medidas por decreto e à máquina de impressão de notas. Neste plano os resultados do Syriza, apesar de naturalmente curtos demonstram que uma mais forte e coesa organização da esquerda no e pelo espaço europeu poderia conseguir ganhos muito maiores. Aqui chegados é pena que a esquerda que até há dois ou três anos defendia o primado do nível europeu sobre o nacional hoje esteja perdida e não perceba que o modo de prestar a solidariedade possível e necessária ao Syriza é actuar para uma Europa mais coesa e menos dependente dos Estados nacionais. Os que apoiavam oportunisticamente o Syriza, sempre à espera que a Grécia fosse expulsa ou saísse pelo seu pé do euro, levaram hoje uma bofetada de luva branca. Nunca o Syriza actuou para conduzir a Grécia para o desastre nacionalista, bem pelo contrário, nem a UE expulsou ninguém, tal como sempre se previu. Quem à esquerda quiser uma Europa retalhada em nações independentes que se junte ao senhor Schauble e aos conservadores, como o governo português que hoje terá até sido mais veemente contrário a concessões ao Estado grego do que o próprio Ministro das Finanças alemão. Da austeridade dos neoliberais à austeridade ao cubo que resultaria das acções de certa esquerda defensora da dissolução da União Económica e Monetária, une-os um mesmo impulso autoritário e nacionalista. Hoje perderam uma pequena batalha.

36 comentários:

nunocastro disse...

É fantástico, só você conseguiu ver uma vitória para a Grécia neste acordo!!!
É pena que o seu artigo não mostre o que a Grécia terá que engolir. E quanto às medidas que diz não serem mais necessárias, isso está tudo por negociar ainda, como bem sabe (julgo...

João Valente Aguiar disse...

Bom, claro que não é muito e isso está explícito, até quando escrevo "atrevo-me a dizer que Schauble e o Eurogrupo terão sofrido uma pequena derrota, sem que se possa dizer que o governo grego tenha propriamente ganho". Mas conseguiram mais do que o anterior governo grego (que simplesmente assinou de cruz o que o Ministro das Finanças alemão definiu na altura) e num contexto de grande isolamento internacional do Syriza. Dentro das circunstâncias, como referi, é relativamente positivo.
Por exemplo, o simples facto de ter baixado o saldo orçamental primário - o que representa não ter de cortar não sei quantos mil milhões de euros já é relativamente positivo, tendo em atenção o contexto grego. Em suma, em termos absolutos claro que não é vitória nenhuma, mas em termos relativos é como marcar um golo fora para as competições europeias contra um adversário imensamente muito mais poderoso. Relembro que só o Estado alemão detém 65 mil milhões de euros em dívida pública grega, o que por si só equivale a um processo negocial tremendamente difícil. O que se poderá criticar no Syriza é o facto de terem prometido coisas que nunca neste contexto conseguiriam atingir. Mas quem esperava grandes conquistas nesse campo ou não tem noção das correlações de força e de poder, ou então andava a dizer que a dissolução da zona euro estaria por dias ou semanas...

Libertário disse...

Uma longa análise para nos conformarmos com o velho princípio: «sejamos realistas, exijámos o possível»...
A chamada esquerda anti-capitalista está, como diz o povo, a andar de cavalo para burro.

Sérgio Pinto disse...

Joao Valente Aguiar,

Parece-me extraordinario que, depois de todo este tempo, ainda insista na dicotomia simplista (e enganadora) entre nacionalistas e europeistas, como se essa fosse a unica dimensao existente e tudo encaixasse de forma perfeita nessa visao.

Simultaneamente, continua, de forma bastante clara, a insinuar que quem quer que defenda a saida do Euro se define automaticamente como nacionalista, como se apenas essa pulsao pudesse levar alguem a defender essa opcao. Isto e' obviamente falso e, sinceramente, constitui uma forma desonesta de argumentacao. Da mesma forma, apesar de tanto o facto de tanto o JVA como o actual governo PSD/PP defenderem a permanencia no Euro, seria extremamente desonesto da minha parte dizer que isso faz do JVA um defensor da austeridade.

Posto isto, penso que deveria tambem ser claro que proclamacoes categoricas do estilo "saida do euro levaria a austeridade ao cubo", "a unica alternativa e' a manutencao do Euro", ou "sair do Euro teria ainda maiores custos para a classe trabalhadora do que a via austeritaria" sao absolutamente desadequadas, dado o grau de incerteza existente. E, convenhamos que o facto de reservar a maior dose de agressividade para com quem, 'a esquerda, considera opcoes diferentes das suas, dificilmente lhe trara' muitos aliados.

A via 'europeista' de maior integracao na UE pode levar a solucoes que sejam melhores para as classes trabalhadoras de todos os paises. Mas tal acontecimento esta' longe de ser inevitavel e, certamente, nada de incondicional existe na afirmacao de que a via do Euro e' preferivel 'a saida. Basta, para isso, ter em conta que uma maior integracao pode perfeitamente ser acompanhada por (1) mais austeridade, (2) menos democracia interna, e (3) maior subserviencia aos interesses das elites europeias. Eu espero que o JVA esteja certo mas acho dificil de tolerar a enorme arrogancia e desdem por ideias nao-alinhadas; principalmente, o pretenso grau de certeza sobre algo que manifesta ser tao claramente incerto, parece-me ser um caminho bastante perigoso.

Sérgio Pinto disse...

Relembro que só o Estado alemão detém 65 mil milhões de euros em dívida pública grega, o que por si só equivale a um processo negocial tremendamente difícil.

Parece-me exactamente o contrario: este seria, precisamente, o principal argumento negocial do governo grego. Ou seja, a principal arma de que dispunham seria a ameaca de incumprimento imediato para com a divida publica emitida, caso fossem empurrados para fora do Euro ou obrigados a engolir a continuacao do plano da troika.

João Valente Aguiar disse...

Libertário,

sem lutas autónomas a que podem almejar os trabalhadores? Qual o melhor contexto para futuras lutas dos trabalhadores: se vencerem as tendências nacionalistas ou num quadro europeu integrado?

Sérgio Pinto,

nacionalista é todo o que confere um primado ao factor nacional na determinação dos processos políticos e, por essa via, congregar os trabalhadores com sectores nacionais e arcaicos dos capitalistas. Mas mesmo que apenas se considere a questão do primado nacional, esse é exactamente o critério para que nos estudos historiográficos da especialidade se incluam sob a categoria de nacionalismo. A esquerda é que acha que nacionalistas são só os outros ou que é uma categoria pejorativa quando, de facto, se trata de uma categoria que remete para a formação de culturas políticas nacionais.

Sérgio Pinto disse...

JVA,

Compreendo o que diz. Mas quando cola o rotulo de nacionalista a alguem que cujas ideias levam, de forma absolutamente certa, a um agravamento das condicoes de vida dos trabalhadores, parece-me evidente que existe uma nocao pejorativa associada ao conceito (neste contexto, e na forma como voce o usa).

Por outro lado, naturalmente concordo consigo quanto ao facto de ser preferivel resolver os problemas europeus no ambito da Zona Euro e da UE. Mas nao vejo como e' que essa preferencia pode ser incondicional e parece-me um erro nao estabelecer limites a partir dos quais a situacao muda e tentar mudar algo a partir de fora (da zona Euro) se torna preferivel.

Miguel Madeira disse...

http://fortune.com/2015/02/20/greece-germany-yanis-varoufakis/

«“The institutional players—the IMF, European Community, and ECB—have been constructive,” says Galbraith. “But the creditors, the active players, are the finance ministers, and they are divided and hostile.”»

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Libertário,

se bem o li, e creio que sim, o que o Joãp diz não é que devamos abandonar a luta pela autogestão generalizada, a participação igualitária nas decisões, etc., etc. Diz antes que isso não o pode dar o governo de nenhum partido, mas apenas a auto-organização dos trabalhadores e cidadãos comuns. O que não quer dizer que não haja condições mais ou menos favoráveis a essa democratização radical. É ao nível da análise das relações de força existentes, num quado em que as lutas autónomas ou os seus prenúncios são muito ténues quando não continuam em regressão, que a reflexão do João se situa, E, a meu ver, é fundamental termos em conta os aspectos que ele sublinha.

Um abraço

msp

Anónimo disse...

Há uma entrevista de Giscard D´Estaing ao diário económico francês, " Les Échos ",de 19 do corrente, em que preconiza o " friendly exit " da Grécia por causa do racio impossivel da divida soberana grega, a rondar os 175%, que só com a moeda desvalorizada se conseguirá endireitar, frisa. E, sem o apontar, fala de um outro país- Portugal ou a Itália ?- que se encaminha para o mesmo patamar. A solução do ex-PR gaulês favorece a posição do Governo alemão,como é evidente.O " caso " dramático da Grécia pode gerar um " efeito de dominó " incontrolável e agravar os terriveis sintomas de " deflação da divida ", analisados por Irvin Fischer e traduzidos pelo mitico Martin Wolf do Financial Times, há pouco tempo. Completamente de acordo com JV. Aguiar: " O que se poderá criticar no Syriza é o facto de terem prometido coisas que nunca neste contexto conseguiriam atingir ". O compasso de espera alimentado agora por Bruxelas e o FMI pode ser fatal para o projecto de reescalonamento da divida helénica e um ténue abrandar da austeridade implacável dos últimos cinco anos. Será isso possivel? Aos economistas e politológos a palavra, pois! Niet

Antonio Cristovao disse...

A construção da UE como bem lembra é um edifício em construção e sem planta fixa definida. Pena é que uns países por mau governo fiquem tão dependentes do dinheiro dos outros, perdendo a necessária autonomia para se construir uma UE autosustentavel.
As palhaçadas das novas autoridades gregas vão fazer mudar a atitude dos países excedentários; a partir de agora arranjar dinheiro para estoirar vai ser mais dificel, dentro da UE; nos mercados mantêm a liberade desde que paguem os juros.

João Valente Aguiar disse...

Miguel,

Um relativo aparte.

Os meninos que andam tristes - dizem os próprios que com suspiros - relativamente aos resultados das negociações do governo grego andam sempre a falar em povo, soberania popular e decisões nacionais, e não sei que mais. Ora, na linha do programa sufragado pelo Syriza nas eleições de manter a Grécia na zona euro e de tentar reverter a austeridade, uma sondagem publicada hoje na Grécia diz o seguinte: «Concernant l'euro et le scénario de sortie de la Grèce de la zone, 76% restent positif au sujet de la monnaie unique, 20% sont négatifs et 75% considèrent que la sortie de la Grèce n'est pas possible. 63% considèrent que la situation empirerait en cas de retour à la drachme, contre 18% qui estiment que cela serait positif» (http://www.okeanews.fr/20150222-81-des-grecs-soutiennent-syriza-dans-les-negociations). Espero que esta sondagem provoque mais alguns suspiros nos que querem impor uma solução política que nem o próprio "povo" soberano quer. Quando esta esquerda só sabe suspirar com esse "povo" que, muito felizmente, não lhes liga nenhuma ou desenhar cenários fantasiosos do euro em suposta fase terminal, de que serve esta esquerda? Esse deverá ser o grande foco de problematização para uma eventual reformulação da esquerda portuguesa e europeia nos próximos anos.

Das duas uma. Ou ocorrem lutas autónomas e espontâneas dos trabalhadores numa escala alargada que ponha em causa o poder das classes dominantes nas empresas, o que necessariamente colocaria a reflexão e a prática política num âmbito anticapitalista. Ou então, com maior probabilidade, a esquerda luta por conseguir ampliar níveis de democraticidade para a vida dos trabalhadores, dentro do quadro capitalista existente.

Aqui chegados, ou a esquerda é capaz de começar a esboçar contornos de integrar elementos numa base transnacional, começando finalmente a pensar-se como uma classe social economicamente inserida em relações sociais de base global se pode projectar politicamente também nesse nível transnacional. Ou então vai continuar a limitar-se em suspirar por um mundo inexistente e de uma mirífica soberania nacional.

Em suma, a esquerda terá de ser capaz de responder à evolução real do contexto ao qual quer dar resposta, ou vai-se limitar a propagar suspiros.

Um abraço soberano e sem suspiros,
João

Miguel Serras Pereira disse...

João,
só mais um pequeno aparte sobre uma observação do teu.
Como é natural, a esquerda soberanista e nacionalista a que te referes é também "estatista", e é incapaz de conceber outras formas de poder político ou de governo da sociedade, que não passem pela divisão estrutural e permanente entre governantes e governados — essa forma classista, por excelência. É por isso que não sai da lógica profunda do capitalismo, limitando-se a propor para ele uma maior intervenção ou gestão estatal. Nós, pelo contrário não podemos deixar de defender que a direcção política da economia só através da afirmação de formas de (contra)poder político não-estatais, assentes na participação igualitária e numa democratização radical, poderá enfrentar o capitalismo e o poder de Estado (no sentido restrito) que lhe é consubstancial. E isto, tanto ao nível das lutas nas empresas e no campo laboral como dos movimentos que façam emergir e alargar-se um espaço público alternativo de deliberação e decisão pelos implicados do conjunto das medidas que moldam ou organizam a vida em sociedade.

Um abraço internacionalista e anti-estatal

miguel(sp)

João Valente Aguiar disse...

António Cristovão,

A zona euro construiu-se com uma moeda e 17 ou 18 dívidas nacionais... E a distribuição de fundos estruturais (por exemplo, o QREN) é fundamentalmente operacionalizada pelos Estados nacionais. Ora, isto permitiu endereçar fundos europeus para aspectos muito positivos (ciência, investimento tecnológico, formação profissional) mas também foi utilizado para clientelas (obras públicas faraónicas, etc.). Do mesmo modo, não é culpa da UE que uma boa parte dos empresários portugueses não tivesse aproveitado os juros baixos desde a adesão ao euro para modernizar as empresas. Ao contrário, a Irlanda, que nos anos 80 tinha um ponto de partida pouco superior ao caso português, aproveitou o que alguns chamam de "moeda forte ou sobrevalorizada" para se modernizar e vender produtos com elevado valor acrescentado, em vez de muita quinquilharia que a economia portuguesa exporta. Em vinte anos a Irlanda passou de um PIB per capita igual à média europeia para 30% acima dessa mesma média e hoje é o segundo ou terceiro mais elevado da UE. Quantas grandes empresas portuguesas foram capazes de integrar contributos tecnológicos e criativos provenientes das universidades?
A grande questão para a sobrevivência da UE está no plano político (necessidade de uma supranacionalização dos processos de decisão política ao nível orçamental e fiscal), no plano financeiro (caminhar para uma gradual mutualização de parte das dívidas) e no plano produtivo (incrementar a produtividade nos países periféricos).

Para terminar. Hoje está na moda dar pancada na UE. Mas é bom lembrar que antes de Portugal aderir à CEE o PIB per capita rondaria os 50% da média europeia, e hoje está nos 70 e poucos por cento.

Cumprimentos

João Valente Aguiar disse...

Miguel,

Há duas questões que se deveria colocar em discussão.

Uma é a de que são as classes sociais, e não os partidos ou as organizações sindicais, que determinam a evolução histórica. Isto significa que os casos em que os trabalhadores conseguem transformar positivamente alguma coisa isso decorre unicamente da acção de milhões de cidadãos anónimos e não das vanguardas. Isto significa que qualquer discussão sobre o partido A, B ou C no contexto português, grego ou europeu está sempre a apontar para uma direcção inversa: para a discussão dentro do capitalismo. Por conseguinte, qualquer transformação profunda da ordem vigente depende, acima de tudo, da acção colectiva dos trabalhadores na criação de novas instituições sociais (comités de fábrica, conselhos, etc.). Se este vector - que até hoje nunca conseguiu vencer e perdurar - não estiver presente, é até ridículo falar noutra sociedade ou de uma alternativa a propósito de um qualquer fenómeno político. Se se preferir, ou há um fenómeno prático novo de aspiração colectiva por uma ampla democratização dos processos de tomada de decisão globais e locais, ou o debate por uma outra sociedade não passa disso mesmo, de debate.
(cont.)

João Valente Aguiar disse...

(cont.)
Ora, e aqui entro no segundo ponto, não havendo este vector na actualidade (o que não quer dizer que ele não venha a ocorrer no futuro), isso coloca uma pergunta: qual o contexto que pode beneficiar uma acção futura daquele tipo por parte dos trabalhadores? Dentro da nação, coligando trabalhadores com camadas de burocratas nacionais? Em espaços transnacionais que coloquem as divisões e fronteiras geográficas e sociais em cheque e como tema para reivindicações dos trabalhadores? A primeira opção nunca funcionou. A não ser que se prefira o paraíso venezuelano sem papel higiénico, com inflação de 50% e controlo absoluto dos processos políticos numa burocracia estatal e militar, não estou a ver como as experiências estatistas do século XX podem servir de modelo para a esquerda de hoje. A segunda opção implica calibrar processos que alguns chamam de social-democratizantes, mas dentro do contexto capitalista actual (sublinho, sem lutas autónomas e alargadas internacionalmente dos trabalhadores) não é possível fomentar melhorias salariais, de formação e de emprego para os trabalhadores sem se ter em atenção a integração das reivindicações concretas dos trabalhadores dentro do movimento da transnacionalização das economias. É bom lembrar que dar poder aos Estados nacionais implica coarctar uma das maiores necessidades dos trabalhadores como classe social e economicamente interligada a nível mundial: a sua capacidade para emigrar. Ao contrário do que alguns pensam, as migrações não baixam os salários, mas pelo contrário, é o facto de o mercado mundial de força de trabalho se fragmentar nacionalmente que impede a mobilidade da força de trabalho num plano reivindicativo que elevasse realmente a massa salarial. As migrações de milhões e milhões de trabalhadores decorrem de uma aspiração legítima dos trabalhadores em quererem auferir melhores salários e conseguirem melhores condições de vida. Dar poder aos Estados nacionais só dificulta este processo de mobilidade da força de trabalho por melhores condições de trabalho. Já para não falar da tradição de luta que, até determinada fase do século XX, forjava culturas políticas internacionalistas na base do cruzamento entre trabalhadores imigrantes e "nativos": os IWW "americanos" são um exemplo absolutamente notável a este respeito.

Aliás, o Marx (que até era estatista nos seus fundamentos políticos de fundo - por exemplo nunca concebeu a Comuna de Paris como um movimento de base) chegou a ser bastante explícito quando defendia o comércio livre sobre o proteccionismo. Isto não quer dizer que não há vida para além do capitalismo, mas que, nos momentos em que não há uma auto-organização dos trabalhadores, é sempre preferível uma forma capitalista que melhora as condições de vida dos trabalhadores e que não os reprime ao tiro e à bastonada. Aliás, chegam a ser patéticas as referências que alguns fazem da UE relativamente a ditaduras do passado, quando essa mesma esquerda continua a achar que a repressão dos regimes estatistas da esquerda conseguiram ser, em quase todos os casos, mais repressores e mortíferos do que algumas ditaduras da direita, e muitíssimo mais do que as próprias democracias liberais, que não estão isentas de "porrada" nos trabalhadores.

Um abraço!
João

Sérgio Pinto disse...

Ora, na linha do programa sufragado pelo Syriza nas eleições de manter a Grécia na zona euro e de tentar reverter a austeridade, uma sondagem publicada hoje na Grécia diz o seguinte

JVA, parece bastante curioso o seu argumento de quel se uma sondagem no topico X diz que a maioria da populacao defende Y, o governo deve imediatamente adoptar a medida Y. E' igualmente meritoria de nota os saltos gigantescos que voce da' a partir de uma pergunta que nem sequer sabe como foi formulada e que, mesmo que o tenha sido de forma neutra, em parte alguma diz que essa opiniao positiva e' incondicional. De caminho, podia igualmente ter indicado que a sondagem foi feita antes de o acordo ter sido alcancado.

Decorrente da suposta tirania das sondagens que se aparenta depreender do seu post, o JVA poderia igualmente ter referido que "86% des Grecs interrogés ont un sentiment de fierté nationale". Em paralelo, seria curioso saber se o JVA considera que, nos paises da UE em que a maioria da populacao pretende impor mais controlos 'a imigracao, o governo deveria igualmente adoptar medidas nesse sentido.

João Valente Aguiar disse...

Sérgio Pinto,

não sou que faço análise política na base do que eu acho que deveria ser aplicado ao "povo", mesmo que o "povo" esteja contra. O argumento é endereçado nesse sentido. O curioso disto tudo é que em todas as sondagens, inclusive do Eurostat, o sentimento de desejo de manutenção na zona euro é mais elevado na Grécia do que, por exemplo, em Portugal. Mas a esquerda portuguesa é que sabe o que o "povo" grego quer...

Sérgio Pinto disse...

aproveitou o que alguns chamam de "moeda forte ou sobrevalorizada" para se modernizar e vender produtos com elevado valor acrescentado

Lamento, mas parece-me que o JVA nao percebe (ou nao quer perceber) o que o conceito de moeda sobrevalorizada quer dizer, no contexto da adesao ao euro. Obviamente, a sobrevalorizacao nao se refere ao euro em abstracto, mas sim 'a taxa de conversao que foi adoptada por cada estado membro. Ou seja, o facto de a taxa de cambio final entre o escudo e o euro estar sobrevalorizada nao tem qualquer implicacao sobre o facto de a libra irlandesa poder ter estado (ou nao) subvalorizada.

Ha' 2 outros aspectos surpreendentes (pela negativa) neste seu comentario:

1) A adopcao da Irlanda como modelo para alguem que se auto-intitula como 'esquerdista'. Presumivelmente, o facto de o modelo se basear em competicao fiscal e de ter sido acompanhado por uma enorme concentracao de rendimentos no percentil mais rico da populacao (a % de rendimento total quase duplicou entre 1986 e 2007 - pode consultar a top incomes database da PSE) sao irrelevantes.

2) Aparentemente, o JVA nao se deu ao trabalho de ver o que aconteceu ao PIB per capita (PPP) da Irlanda, em valores constantes, desde a entrada do Euro. Segundo dados do Banco Mundial, o crescimento entre 2001-13 foi de menos de 5% (vs. -2% para Portugal e +1% para Espanha; +14% para a Alemanha e +17% para a Suecia, que esta' fora do Euro). De qualquer forma, e isto deveria ser obvio independentemente da formacao que alguem tenha em economia, o facto de um determinado quadro institucional poder favorecer o pais X nao tem, por si so', QUALQUER implicacao sobre a possibilidade de esse quadro ser tambem adequado para o pais Y. Os problemas com a arquitectura da zona euro ja' eram visiveis em 2000 e houve diversos economistas a alertar para esse facto e para os riscos colocados por choques assimetricos - presume-se que para o JVA nada disse interesse e que os economistas que alertaram para tal (em Portugal, no resto da Europa, e nos EUA) nao devem passar de nacionalistas trogloditas.

(comentario demasiado longo, continua no proximo)

Sérgio Pinto disse...

Hoje está na moda dar pancada na UE. Mas é bom lembrar que antes de Portugal aderir à CEE o PIB per capita rondaria os 50% da média europeia, e hoje está nos 70 e poucos por cento.

E...? Para alem de uma falsa equivalencia entre a UE e a zona Euro, parece-me evidente (e decorrente do senso comum) que o que interessa e' o contrafactual e que os numeros que o JVA apresenta como trunfo, por si so', nada dizem. E tal acontece por duas razoes: primeiro, porque o JVA nao olhou para outros paises; segundo, porque a situacao do pais X nao e' necessariamente transponivel para o pais Y.

Ignorando o segundo factor, fui procurar alguns numeros (PIBpc em valores constantes, PPP; fonte: Banco Mundial) relativos a paises europeus que se mantiveram fora da UE para o periodo em comparacao:

a) Croacia: entre 1995 (primeiro ano com dados) e 2007 houve um crescimento de 71% (vs. 26% para Portugal). Em 1995, a Croacia tinha 58% do PIBpc portugues, em 2007 tinha 78%.

b) Russia: considerando o mesmo periodo, cresceu 78%. De forma semelhante 'a Croacia, em 1995 tinha 55% do PIBpc portugues, que em 2007 tinha passado para 78% (apesar do desastre do periodo de transicao dos anos 90 e do desastre que e' o actual regime).

c) Noruega: considero este pais de forma a recorrer a paises europeus com um ponto inicial muito superior ao de PT. Apesar de ja' em 1995 ter um PICpc correspondente a 231% do portugues, cresceu 30% ate' 2007 (mais que os 26% de PT).

d) Suica: caso semelhante ao da Noruega, cresceu um pouco menos ate' 2007 (22%), apesar de ter 205% do PIBpc portugues em 1995.

Note, caro JVA, que estou a utilizar 2007 apenas para evitar contaminar os resultados com a Grande Recessao - estendendo isto para 2013, a comparacao seria ainda mais desfavoravel. Espero que isto sirva para deixar claro o erro que subjaz 'a utilizacao dos seus numeros como qualquer especie de prova da integracao na EU como motor de desenvolvimento economico, JVA. Note tambem que nao estou a afirmar que a UE e' irrelevante ou prejudicial - estou a afirmar que e' absurdo deduzir a conclusao que voce pretende a partir dos numeros que indicou.

Espero igualmente que sirva para que, de futuro, haja um pouco mais de cuidado antes de efectuar afirmacoes categoricas e triunfalistas. A arrogancia e as certezas absolutas costumam dar mau resultado...

João Valente Aguiar disse...

Sérgio Pinto,
Sérgio Pinto,

nas mesmas condições monetárias, a produtividade irlandesa (medida por hora de trabalho calculada em volume de euros) passou de uma produção horária de 36,6 euros em 1999 (exactamente a mesma que a alemã no mesmo ano), para uma produção horária média em torno dos 51,7 euros, em 2011 (Eurostat 2012). Ora, em Portugal a produtividade aumentou cerca de 11% no mesmo período e, pior ainda, manteve índices muito reduzidos: em 2011 era, em média, de 16,5 euros por hora. Portanto, a produtividade média da economia portuguesa ronda os 30% da irlandesa. Dito de outra forma, a produtividade irlandesa no quadro do euro aumentou cerca de 41%. A inversão da causalidade na relação entre o câmbio e a produtividade por parte dos analistas obscurece que a base do atraso estrutural da economia portuguesa encontra-se na sua baixa produtividade. De facto, o euro foi um empecilho para o desenvolvimento dos mecanismos da mais-valia relativa... (Suspiro)

João Valente Aguiar disse...

Já agora, qual a alternativa que uma economia como a portuguesa teria? Continuar no "orgulhosamente sós"? Juntar-se a esse baluarte da democracia que é a Rússia? Como seria possível um país minúsculo e sem uma estrutura produtiva moderna e assente em indústrias de elevado valor acrescentado sobreviver no contexto da competição global?

Por outro lado, que culpa tem a UE que os empresários e alguns governos portugueses tenham torrado dinheiro europeu em auto-estradas e obras desnecessárias e não tenham modernizado as suas empresas? De facto, o que certa esquerda propõe não se diferenciaria muito do modelo do pé-de-meia do escudinho e do "orgulhosamente sós". Felizmente, o "povo" que essa esquerda quer empurrar para longe da modernidade já não vai em cantigas e a esquerda da mais-valia absoluta é relativamente menos poderosa do que há trinta anos. Com o fenecimento do fordismo, com o falhanço de todas as experiências estatistas e com a supremacia das empresas sobre o Estado, a esquerda estatista ficou circunscrita a um papel puramente ideológico.

Para terminar sejamos pragmáticos. Cada ano que passa, a derrota dos que apostam na dissolução da zona euro aumenta. Cada ano que passa mais uma paisagem apocalíptica é pintada. Por isso é que essa esquerda limita-se a um papel puramente ideológico que consiste em reproduzir junto de camadas legitimamente descontentes os arautos da desgraça, difundir as teses da "ingerência externa", da "finança parasitária", etc. Curiosamente, neste aspecto esta esquerda presta um valoroso serviço à ala tecnocrática mais conservadora: tentar manter o poder nos Estados nacionais europeus, precisamente o que tem impedido a UE de supranacionalizar políticas orçamentais, de emprego, o mercado de trabalho e, em suma, manter os trabalhadores europeus (e não-europeus) divididos.

Sérgio Pinto disse...

Joao Valente Aguiar,

Reparo que passou por cima de todos os problemas levantados pelos numeros que anteriormente utilizou.

E, repito, as condicoes monetarias nao sao as mesmas, dado que o ponto inicial e', naturalmente, relevante. Isto, claro, para alem de outros factores que voce decide ignorar (embora eu nao perceba porque), tais como: educacao/escolaridade da forca de trabalho, competicao fiscal, ingles como lingua nativa, etc.

Quanto 'a medida utilizada em si mesmo, presumo que, por definicao, envolve apenas os trabalhadores empregados. Tendo em conta os dois anos utilizados (1999 e 2011), imagino (sem ter visto os numeros) que se a produtividade tivesse em conta o aumento de desemprego (i.e., trabalhadores cuja produtividade passou a 0), a Irlanda pudesse parecer menos paradisiaca.

Enfim, nao estou com isto a negar o problema da baixa produtividade da economia portuguesa. No entanto, nao vejo nada no seu argumento que indique ou demonstre que a entrada no euro traz qualquer beneficio relativamente a esse aspecto.

P.S. Num comentario anterior voce tinha falado do caso venezuelano. Poderia, claro, ter falado de outros regimes esquerdistas da America Latina com menos tendencias caudilhistas, como a Bolivia, o Ecuador, o Uruguai, ou mesmo o Brazil e a Argentina. Nao compreendo a razao que o levou a ignorar esses casos...

Sérgio Pinto disse...

Já agora, qual a alternativa que uma economia como a portuguesa teria? Continuar no "orgulhosamente sós"? Juntar-se a esse baluarte da democracia que é a Rússia? Como seria possível um país minúsculo e sem uma estrutura produtiva moderna e assente em indústrias de elevado valor acrescentado sobreviver no contexto da competição global?

Joao Valente Aguiar, parece-me que esta' a criar propositadamente homens de palha. Se voltar ao meu comentario, vera' que escrevi que "apesar do desastre do periodo de transicao dos anos 90 e do desastre que e' o actual regime [da Russia]".

Naturalmente, ha' uma multiplicidade de caminhos entre a zona euro e o "orgulhosamente sos". De facto, eu nem sequer defendi qualquer das opcoes. Ao inves, limitei-me a apontar um buraco evidente na argumentacao que voce estava a usar.

Nao tenho uma resposta certa em relacao 'a sua ultima pergunta, embora desconfie que a Croacia, pais mais minusculo que Portugal e (palpite meu) tambem nao assente numa "estrutura produtiva moderna" nem em "indústrias de elevado valor acrescentado". No entanto, aparenta ter conseguido sobreviver bastante bem. Exemplos semelhantes poderiam advir das transicoes de paises nao europeus, como a Coreia do Sul, no pos-guerra. O que parece incompreensivel - e o aspecto que voce nao demonstrou de forma alguma - e' que a entrada na zona euro seja condicao necessaria (ou sequer benefica) para a modernizacao de qualquer economia.


Por outro lado, que culpa tem a UE que os empresários e alguns governos portugueses tenham torrado dinheiro europeu em auto-estradas e obras desnecessárias e não tenham modernizado as suas empresas?

Provavelmente, pouca. Mas o que e' que isto tem a ver com s falhas que eu apontei na sua argumentacao?


Em relacao 'a financa parasitaria, caracterizacao que agora o parece incomodar: http://ftalphaville.ft.com/2015/02/16/2119138/crush-the-financial-sector-end-the-great-stagnation/ e http://equitablegrowth.org/2015/02/17/9307/

Sérgio Pinto disse...

Ja agora, Joao Valente Aguiar, junto uma pequena comparacao entre Islandia (pais europeu nao pertencente 'a zona euro que enfrentou uma crise financeira enormissima) e Portugal (fonte: Banco Mundial) para o periodo 2007-2013:

- PIBpc PPP: Islandes desceu 4,0%, o portugues desceu 6,5%. Tendo em conta o facto de a Islandia estar a crescer desde 2011, presume-se que esta divergencia (e vantagem islandesa) continue a aumentar.

- Taxa de desemprego:
a) Islandia: 2,3% em 2007, pico de 7,6% em 2010, decresce todos os anos desde entao, estando nos 5.6% em 2013

b) Portugal: 8,0% em 2007, aumentou todos os anos ate' 2013 (16,5%). Sim, diminuiu desde entao, mas a diferenca para a Islandia e' gritante.

Duas perguntas simples, Joao Valente Aguiar: qual o pais em que lhe parece que a classe trabalhadora tem melhores condicoes? Qual o pais em que lhe parece que a classe trabalhadora sofreu menos com a crise?

João Valente Aguiar disse...

Sérgio Pinto,

é uma pena que não se tenha lembrado desse caso de "sucesso" que é a Argentina. Há dois anos certa esquerda falava da Argentina e da Islândia, como exemplos de eventuais benefícios de uma saída portuguesa do euro. Hoje só têm a Islândia para amostra.

Por outro lado, quando me pergunta em que países os trabalhadores vivem melhor é uma pena que não tenha evocado exemplos europeus onde se vive com uma qualidade de vida igual ou até melhor do que na Islândia, tal como a Holanda, a Alemanha, a Finlândia, a França, a Áustria, a Irlanda, o Luxemburgo ou a Bélgica. Comparar uma ilha que nem a meio milhão de habitantes chega com uma série de países que ultrapassam, no seu conjunto, os cem milhões de habitantes é um exercício que só serve a demagogia. Perdoe-me a expressão, mas serão os "povos" assim tão parvos para que, neste contexto e apesar de inúmeros e profundos defeitos da construção europeia, prefiram mesmo assim a permanência dos seus países no euro? Só a esquerda anti-euro é que é capaz de comparar uma política que eventualmente terá funcionado num país que tem menos habitantes do que a cidade de Lisboa, com uma grande parte do continente europeu que tem o euro e vive com idênticas ou melhores condições de vida. É quase como comparar a homeopatia com a medicina científica.

Há nos críticos do euro uma constante evocação de que as desvalorizações cambiais seriam uma grande solução. Certamente que têm a sua utilidade, isso é incontestável. A questão é saber se a maior ou menor solidez económica das economias está nesse procedimento ou na própria estrutura de base. Ora, aí o recurso ao exemplo da Islândia demonstra que a "sorte" da Islândia não é meramente a possibilidade de poder proceder a desvalorizações mas a sua estrutura económica e produtiva de base, assente na exportação de produtos de elevado valor acrescentado, precisamente o ponto transversal aos países do euro acima citados por mim. A discussão sobre a questão monetária tem servido, neste âmbito, para obscurecer a discussão sobre as características fundamentais do modelo económico que se quer ou não construir. Daí que eu fale sempre no facto de uma boa parte dos empresários portugueses nunca terem aproveitado os fundos europeus e o crédito barato no euro para modernizarem as empresas. E não fizeram isso no euro, mas também não o fizeram no escudo. E já para não falar que as enésimas desvalorizações cambiais do escudo não resultaram em nada de especial, na medida em que foi o processo de integração à UE que modernizou a economia e não o escudo. A não ser que os que sonham com o regresso ao escudo não se lembrem que com o escudo também houve intervenção do FMI, e por duas vezes. A "sorte" da altura é que o mundo não vivia numa crise económica como a de 2007-08 em diante...
(cont.)

João Valente Aguiar disse...

(cont.)
Tudo isto para dizer que, no meu modo de ver, o problema monetário, apesar de indiscutivelmente importante, só interessa na medida em que insere esta economia de pechisbeque nas redes internacionais de integração económica e tecnológica. Fora do euro a situação ainda seria pior, na medida em que os estímulos à modernização económica ainda seriam menores. Basta pensar que as soluções que alguma esquerda preconiza para uma situação fora do euro seriam na base da desvalorização contínua da moeda, que provaram ser inúteis para modernizar a economia. Ora isto numa economia com baixa produtividade como a portuguesa só iria contribuir para um sector exportador de baixo valor acrescentado e seria um contínuo incentivo para comer os salários com a inflação, reproduzindo e ampliando o modelo de baixos salários de um modo contínuo. Isto claro partindo do pressuposto que não haveria anteriormente uma total quebra do sistema bancário, fuga massiva de capitais do país, uma regressão ainda maior do investimento, instauração de um regime musculado para impedir corralitos, etc. Ah e tal mas, oh João, depois o banco central imprime escudos e não sei que mais... Pois, um sucesso...

Em suma, o que quase ninguém discute à esquerda é a base económica e produtiva que tem uma produtividade em torno dos 60 e poucos por cento da média europeia.

Miguel Madeira disse...

A respeito do escudo vs. euro, o que por veze esquece-se (talvez de ambos os lados, mas acho que mais dos "escudistas") que a moeda própria não é a alternativa às politicas de austeridade, mas uma das suas ferramentas:

a receita clássica do FMI é aumentar impostos, cortar despesas e desvalorizar a moeda; a desvalorização da moeda neste contexto até tem a sua lógica: como a austeridade orçamental contrai a procura interna, é preciso desvalorizar a moeda para aumentar a procura externa; até se pode argumentar que, exatamente por não ter sido possível aplicar a receita completa do FMI, se calhar a nossa austeridade foi pior do que teria sido com o escudo (os salários reais teriam descido mais mas o desemprego teria aumentado menos, e admito que esse trade-off talvez compensasse), mas no máximo o escudo seria um airbag num acidente de automóvel (o pacote de austeridade), não uma alternativa ao acidente.

Sérgio Pinto disse...

mas no máximo o escudo seria um airbag num acidente de automóvel (o pacote de austeridade), não uma alternativa ao acidente.

Miguel Madeira,

Nao creio que haja muitos economistas de esquerda a defender que ter moeda propria resolveria todos os problemas de Portugal. Em todo o caso, em parte alguma eu afirmei isso nesta caixa de comentarios.

O que parece evidente e' que ter moeda propria (e assumindo que nao esta fixa a outra moeda) permite ter um instrumento de ajustamento a choques que a economia sofra. Principalmente, permite que parte do ajustamento seja feito por via cambial, em vez de o ser por via de desemprego macico e desvalorizacao interna (i.e., reducao de salarios).

O que eu referi nao me parece minimamente controverso. Creio que o Miguel Madeira nao discordara' da afirmacao feita, mas por favor corrija-me se eu estiver errado ou o tiver interpretado mal.

De qualquer forma, o que me parece que muitos economistas de esquerda dizem e' que, independentemente de ser uma boa ou ma' ideia a saida do euro depois de o ter adoptado, o facto de ter moeda propria permite realizar ajustamentos de forma muito menos dolorosa do que a que subjaz a uma uniao monetaria disfuncional. De resto, parece-me que e' precisamente o mesmo que Krugman refere em inumeros textos, incluindo o mais recente (http://krugman.blogs.nytimes.com/2015/02/22/austerity-and-the-costs-of-internal-devaluation/?smid=tw-NytimesKrugman&seid=auto):

So Greece could have avoided the bulk of its nightmare if it had had its own currency; but it could have had a much less terrible nightmare even given the euro if austerity had been less extreme and adjustment slower.

Sérgio Pinto disse...

Miguel Madeira,

As minhas desculpas, mas esqueci-me do que voce refere em relacao a descida salarios reais. Nao percebo exactamente o porque de achar que seria pior - pode desenvolver mais?

Eu sei que isto ja' foi tema de debate ha' uns anos, mas parece-me que o texto do Joao Rodrigues clarifica esse ponto (http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2012/12/minhoquices.html) ao referir-se a um erro evidente do Joao Valente Aguiar.

Sérgio Pinto disse...

é uma pena que não se tenha lembrado desse caso de "sucesso" que é a Argentina. Há dois anos certa esquerda falava da Argentina e da Islândia, como exemplos de eventuais benefícios de uma saída portuguesa do euro. Hoje só têm a Islândia para amostra.

Joao Valente Aguiar,

Eu percebo que voce esteja pouco habituado a ter contraditorio e que a sua formacao nao e' em economia. Mas isso nao e' desculpa para continuar a dar erros deste calibre (sem nunca os admitir) e para se recusar a informar-se sobre o estado de qualquer economia antes de fazer afirmacoes evidentemente absurdas.

No post do Ricardo Noronha ja' tinha feito reference a este relatorio (http://www.cepr.net/index.php/publications/reports/the-argentine-success-story-and-its-implications). A mensagem e' clara:
The Argentine economy has grown 94 percent for the years 2002-2011, using International Monetary Fund projections for the end of this year. This is the fastest growth in the Western Hemisphere for this period, (...) Poverty has fallen by over two-thirds from its peak (...) Unemployment has fallen by over half from its peak, to 8.0 percent. And employment, by early 2010, had risen to 55.7 percent, the highest on record, as social spending nearly tripled in real terms. Income inequality has also fallen dramatically.
(...) In December of 2001, the government defaulted on its debt, and a few weeks later it abandoned the currency peg to the dollar. Recovery began after one quarter of contraction and continued until the world economic slowdown and recession of 2008-2009.


De resto, sugiro tambem esta fonte: http://krugman.blogs.nytimes.com/?s=argentina

De forma mais especifica, para ser ainda mais evidente o absurdo da sua afirmacao:
http://krugman.blogs.nytimes.com/2012/05/03/down-argentina-way/
Matt Yglesias, who just spent time in Argentina, writes about the lessons of that country’s recovery following its exit from the one-peso-one-dollar “convertibility law”. As he says, it’s a remarkable success story, one that arguably holds lessons for the euro zone.

I’d just add something else: press coverage of Argentina is another one of those examples of how conventional wisdom can apparently make it impossible to get basic facts right. We keep getting stories about Ireland’s recovery when there is, in fact, no recovery — but there should be, darn it, because they’ve done the “right” thing, so that’s what we’ll report.



http://krugman.blogs.nytimes.com/2011/06/23/dont-cry-for-argentina/
Argentina suffered terribly from 1998 through 2001, as it tried to be orthodox and do the right thing. After it defaulted at the end of 2001, it went through a brief severe downturn, but soon began a rapid recovery that continued for a long time. Surely the Argentine example suggests that default is a great idea; the case against Greek default must be that this country is different (which, to be fair, is arguable).


http://krugman.blogs.nytimes.com/2014/02/01/macroeconomic-populism-returns/
Matthew Yglesias says what needs to be said about Argentina: there’s no contradiction at all between saying that Argentina was right to follow heterodox policies in 2002, but it is wrong to be rejecting advice to curb deficits and control inflation now. I know some people find this hard to grasp, but the effects of economic policies, and the appropriate policies to follow, depend on circumstances.

João Valente Aguiar disse...

Sérgio Pinto,

para economista você cita muito os outros e tem pouco pensamento próprio.

Sobre o meu suposto erro em 2012. Notável é um economista como o João Rodrigues ter dito que «não há qualquer desvalorização adicional de 30% dos salários por via da desvalorização cambial. A não ser que se assuma que os trabalhadores portugueses vão pegar no seu salário e trocá-lo por euros, se ainda existir moeda única, ou por qualquer outra moeda forte, para comprar caramelos no estrangeiro, em turismo». Ora, isto é notável por dois motivos. Primeiro, porque toma os salários como matéria nominal e consegue achar que um aumento do preço das importações de bens e serviços (sei lá, de coisas negligenciáveis como medicamentos, comida e combustíveis) não iria contar para o cálculo real dos salários. Muito bem conseguido para um economista... Vá lá que um não-economista como eu nem se lembra de relacionar o aumento do preço de bens daquele tipo com um impacto subsequente no preço da força de trabalho. Mas em segundo lugar, e aqui passamos para as consequências políticas desse tipo de pensamento, o que é advogado pelos defensores da saída do euro é que os trabalhadores façam a sua "vidinha" em Portugal, e não precisam de comprar nada do estrangeiro, salvo caramelos ou uma viagem turística. É uma bela imagem essa, a do subconsumo, a da frugalidade aplicada aos outros... Já agora, esse texto teve uma resposta minha: http://passapalavra.info/2012/12/69495

Já agora, é pena que você e os economistas não tenham formação em História. Se calhar iam ver que algumas coisas que defendem - proteccionismo, fusão da nação com o social, teses do "declínio nacional", da "financeirização" e da ingerência externa, a luta das nações proletárias contra as nações plutocráticas, etc. - são temas defendidos historicamente por outro pólo do espectro político. Mas claro que isso não tem importância nenhuma, partilhar inconscientemente coisas entre correntes políticas diferentes até fica bem...

Eu sei o que apoquenta certa esquerda. Saber que os projectos que apresenta nunca funcionaram e ainda conseguem ser piores do que o capitalismo liberal. Essa constatação é trágica e até pode ser dolorosa para alguns. Mas vir-me comparar a Islândia de 300 e tal mil habitantes com países inteiros desenvolvidos da zona euro com cento e tal milhões de habitantes, ou a Argentina com o sucesso colossal dos mecanismos da mais-valia relativa nas economias mais avançadas e com a expansão que têm conseguido nos BRICS é um exercício absolutamente dispensável e que só é aqui feito porque certa esquerda anda perdida e só consegue fazer uma crítica para trás a certas formas de capitalismo, e nunca para a frente.

Sérgio Pinto disse...

Joao Valente Aguiar,

Nao insista num erro evidente. Nao tenho esperanca de o conseguir convencer que o que esta' a dizer esta' completamente errado, mas nao acredito que haja economistas, quaisquer que sejam as suas tendencias ideologicas, que discordem do paragrafo do Joao Rodrigues que voce critica, porque se trata meramente de uma questao conceptual e aritmetica. O aumento de precos de bens importados que voce refere e' capturado pelo aumento do nivel geral de precos (capturado pela inflacao, tal como o Joao Rodrigues indica).

Agradeceria imenso ao economista residente do blogue (Miguel Madeira) se ele pudesse dar a sua opiniao sobre o paragrafo do Joao Rodrigues e a sua critica. Talvez isso o convencesse, Joao Valente Aguiar, que esta a insistir num erro basico.

[Joao Rodrigues]: Quando Octávio Teixeira, num excelente contributo sintético a que cheguei via JVA, assume que uma desvalorização cambial do novo escudo de 30% contribuiria para um aumento da taxa de inflação, que passaria para 8%, por via sobretudo do aumento do preço dos bens importados, então essa taxa de inflação reduziria os salários em 8% anualmente, mas só se a taxa de crescimento dos salários nominais fosse nula, hipótese pouco plausível, e ponto final. Isto é bastante claro no texto de Octávio Teixeira.

De facto, não há qualquer desvalorização adicional de 30% dos salários por via da desvalorização cambial. A não ser que se assuma que os trabalhadores portugueses vão pegar no seu salário e trocá-lo por euros, se ainda existir moeda única, ou por qualquer outra moeda forte, para comprar caramelos no estrangeiro, em turismo. As pessoas que aqui vivem compram as coisas por aqui, com o dinheiro daqui, sejam produzidas aqui ou lá fora.

João Valente Aguiar disse...

Para terminar esta discussão transcrevo um comentário meu no então 5 dias a propósito de um assunto similar e a propósito de um artigo que dizia que a competitividade de Portugal iria aumentar 30 a 40% se se enveredasse pela saída do euro.

«O que, até hoje, nenhum dos nacionalistas se dignou a responder é o seguinte: se a competitividade iria aumentar 30 ou 40%, de acordo com as matrizes de input-output que têm utilizado, e se, ao mesmo tempo, ocorrerá uma desvalorização de 30 a 50% da moeda, logo a importação de combustíveis, de matérias-primas, de medicamentos, de maquinaria, etc. aumentaria, pelo menos inicialmente, na mesma proporção. Logo, se os custos com importações dificilmente substituíveis como várias das matérias-primas, combustíveis, maquinaria, medicamentos, etc. iriam aumentar, e se, mesmo assim, os economistas nacionalistas ainda conseguem afirmar que Portugal ganharia competitividade então só vejo uma resposta possível. Para conseguirem tal competitividade isso só poderá ser feito à custa da maior exploração dos trabalhadores, da expansão da mais-valia absoluta e da correspondente edificação de um aparelho de Estado ainda mais repressor para conter as revoltas geradas… Aliás, um dos economistas nacionalistas chegou ontem a dizer no jornal “i” que seria necessária «uma liderança forte para que não houvesse turbulência»… Mais palavras para quê? Se a política que a esquerda nacionalista preconiza é assim tão benéfica para os trabalhadores para que precisariam de uma «liderança forte»?»

Esta é uma das questões centrais que a esquerda nacionalista defensora da saída do euro não responde. E que demonstra onde o seu programa económico se estruturaria: na compressão económica e política da classe trabalhadora num grau ainda superior. Na melhor das hipóteses, seria a reprodução da austeridade que temos vivido e com o prejuízo político de colocar trabalhadores contra trabalhadores europeus de modo muito mais acentuado do que hoje.

Miguel Madeira disse...

O cálculo que eu faria - se o "escudo" desvalorizar 30% face ao euro, o preço das importações iria subir 43% (1/(1-30%))-1).

Em 2013, as importações foram para aí 40% do PIB, pelo que uma subida de 43% do preço das importações iria (se a proporção das importações no PIB se mantivesse constante) dar uma subida dos preços de 17% (ou seja, uma redução dos salários reais de 15%).

Reservas ao que escrevi acima:

- De certeza que a parte das importações no PIB não se iria manter constante (afinal, um dos objetivos de desvalorizar a moeda é exatamente reduzir as importações), e alguns produtos importados iriam ser substituidos por produtos nacionais mais baratos ("mais baratos", isto é, em comparação com o preço pós-desvalorização dos importados), pelo que a inflação seria menor que os 17% (quanto menor não sei; depende de grau de substituibilidade dos produtos que importamos por produtos nacionais - mas não me parece que no curto prazo o nosso perfil produtivo seja capaz de fornecer alternativas a grande parte dos produtos importados)

- A respeito de os salários nominais não se manterem constantes: mas todo o cálculo da desvalorização de 30% e da inflação de 17% (ou de 8%, de acordo com as contas de Octávio Teixeira, que estará a assumir uma maior substituição de importações que eu) é feita assumindo salários nominais constantes. Se o salário nominal subir, então a inflação também será maior (devido ao aumento de custos) e provavelmente a desvalorização também será maior (já que terá que compensar também a "perda de competitividade" das empresas originada pelo aumento do salário)

Sérgio Pinto disse...

Miguel Madeira,

Obrigado pela resposta. Fico curioso relativamente 'a Islandia, no entanto, dado que, usando os pressupostos que refere, a taxa de inflacao em 2008 e 2009 deveria ter andado entre os 16 e os 17% apenas por via das importacoes (em % PIB - curiosamente, essa % manteve-se quase identica ao pre-crise) - ou seja, mesmo ignorando as subidas nominais de salarios que existiram.

Portanto, uma pergunta - uma explicacao possivel para isso nao seria o facto de parte das importacoes ser referente a materiais ou produtos intermedios que sao depois usados em produtos que podem, tambem, ser exportados? De referir que, como expectavel, houve um enorme aumento das exportacoes apos a desvalorizacao.