17/07/11

O "Português"

De vez em quando surgem umas obsessões com o "Português" (a disciplina escolar), como a respeito da maioria de negativas nos últimos exames, ou a ideia recorrente de que quem chumbasse a Português (ou a Matemática) não deveria poder passar de ano.

A argumentação costuma ser do género "teve negativa a Português? Quer dizer que passou 12 anos na escola e não aprendeu a ler e a escrever em Português" ou "o Português é fundamental porque é uma disciplina base para se puder* poder perceber tudo o mais".

Convém lembrar que a disciplina a que se convencionou chamar "Português" é, fundamentalmente, uma disciplina de "Literatura Portuguesa" (no meu tempo, sobretudo a partir do 9º ano, inclusive). Ora, será que faz sentido dizer que, por alguém ter negativa num teste sobre, por exemplo, "Os Maias", quer dizer que não sabe ler e/ou escrever em português?

Sim, é verdade que para perceber "Os Maias" é preciso saber ler e interpretar um texto em português, e para conseguir responder às perguntas do teste é preciso saber escrever um texto em português; mas o mesmo se pode dizer, p.ex., do capítulo do livro de Geografia sobre a organização do espaço urbano e do teste correspondente (ou de seja o que for, excluindo talvez Matemática); ou seja, em praticamente todas as disciplinas se aprende a ler e interpretar textos e em todas as notas reflectem essa capacidade (numas, textos sobre Geografia, noutras textos sobre Biologia, e noutras textos literários).

Poderá haver (e até acho que há) muitos argumentos a favor da existência de uma disciplina de "História da Literatura Portuguesa" (designada simplesmente como "Português" para poupar tinta), mas não me parece que faça sentido apresentá-la como uma disciplina "fundamental" (no sentido de ser mais fundamental do que as outras - porque é que saber quantos cantos têm os Lusíadas há-de ser mais importante do que saber o ciclo do azoto?).

*É possivel que isto tenha feito parte do programa de Português do 2º ano do ciclo...

13 comentários:

RBR disse...

Já agora, e a propósito, na penúltima linha do segundo parágrafo, "puder" devia ser "poder".

Miguel Madeira disse...

Creio que o conjuntivo do verbo "poder" escreve-se "puder" (e enquanto estive a escrever o post, fui fazer uma pesquisa sobre isso, para ver se acertava tanto no "poder passar de ano" como no "se puder perceber")

Eurípedes disse...

"para se puder perceber tudo o mais" - lapso evidente do autor. Deve escrever-se, em bom português, "para se PODER perceber tudo o mais".
O verbo poder aqui, na frase em causa, está no INFINITIVO PESSOAL, e não no futuro do conjuntivo (se eu puder, se tu puderes, etc.).

João Vasco disse...

De acordo.

Mas creio que, a partir do 10º ano (inclusive) isso já acontece: o «português» já é tratado como uma disciplina como as outras.

Assim, só no 9º ano haveria um grande divórcio entre a percepção que se tem da importância relativa da disciplina, e a importância que ela de facto tem.

Anónimo disse...

Para quê mandar postas de escada sobre o que se desconhece?

João Vasco disse...

Há sempre mais a saber sobre qualquer assunto, e discuti-los é um bom ponto de partida. Em democracia a regra é pronunciarmos-nos, através do voto, sempre com informação significativamente incompleta (desde o impacto económico de cada medida no orçamento de estado, até ao impacto social, cultural, jurídico, etc. de cada lei aprovada no parlamento por cada partido) e fazer o melhor que se pode, através das mais diversas heurísticas.

Aquilo que não ajuda nenhuma discussão, e sugere falta de argumentos, é uma crítica sem fundamentos.

Se são postas de pescada, porque é que são postas de pescada? Onde é que a análise errou? O que é que o autor não sabe que comprometeu a sua análise?
Se não tem capacidade ou disposição para responder, então porque perder tempo a fazer críticas vazias?

Justifica-se que alguém mude a sua opinião porque um anónimo diz que discorda sem explicar porquê?

Miguel Madeira disse...

Eu frequentei a disciplina de Português do 5º ao 11º ano, logo a única coisa que desconheço é o Português do 12º.

É verdade que, no 10º e 11º, o PortuguÊs que conheço é o da área de Economico-Financeiras, mas imagino que, a haver diferenças, é no sentido de o de Humanisticas ser ainda mais "História da Literatura Portuguesa"

Mário Abrantes disse...

Lendo os relatórios e soluções de exames de uma boa parte dos alunos do superior, rapidamente se constata que estes manifestam grandes dificuldades em fazer-se entender por via da escrita.

Não falo em erros ortográficos ou outros que não prejudicam a clareza da mensagem (só não os comete quem não escreve). Falo em mensagens escritas que resultam imperceptíveis para quem as lê.

À falta de outra opção, parece-me bastante razoável que os alunos que chumbam Língua Portuguesa reprovem de ano.

Anónimo disse...

Português (como qualquer outra disciplina) nada mais é que a uniformização da cultura. é triste e empobrecedor, saber que todos os alunos de norte a sul devem a determinada altura da sua vida ler um livro, que é destituído de qualquer prazer, de qualquer acto voluntário. Ler torna-se uma obrigação, uma repetição de significados, um papaguear de lugares comuns. Uma visão fordiana da educação, administrada por tecnocratas. fico sinceramente triste de continuarmos a apostar num sistema que ensina a detestar coisas... como eu detestei...

Sem querer deitar mais Madeira para a Fogueira disse...

O Anonimato ganha a partida

Porquê obrigar a ler um livro como uma análise de figuras de estilo

O grau de exigência num teste deve-se aferir pela incapacidade de um aluno do 8º ou 9º desconhecer o pretérito de uma forma verbal

ou de marcar uma cruzinha errada numa escolha múltipla
na frase em causa, está no INFINITIVO PESSOAL, e não no futuro do conjuntivo (se eu puder, se tu puderes, etc.)....

quando formas ortográficas antiquadas ainda eram usadas há 35
anos no pós 25 de Abril

e o Eurico persistiu no seu presbitério durante décadas com as folhas caídas

substitui-los por Saramago ou por Pessoa não levam a uma maior compreensão do português

a disciplina de Lingua Portuguesa ou de Português foi sempre muito centrada

no gramaticalmente correcto
e no ortho graphicamente korrect

e isso é chatinho
hoje muitos jovens capazes de elaborar textos complexos

são incapazes de analisar os textos de outros
ou de compreeender as questões dos testes

a causa não resulta do nível de exigência ou falta dela
tem causas mais profundas

uma delas resulta(m) dos vários Eurípedes de serviço

sim deveria ter escrito

uma destas causas deve-se?

mas uma causa tem dívidas

se é causa como é que pode resultar de algo?

ou phode?

estes labirintos do Portuguesmente
correcto

atafulham muitas mentes

logo o uniformizador da cultura tem uma certa ração

conviene tambien dizere disse...

Que a dita disciplina começa no 1º ano

e a pobreza do vocabulário e a falta de capacidade de redigir

por se continuar a insistir na cópia mecânica

e se transformar o 1º ciclo
numa versão do 2º e 3º ciclos
com múltiplos livros para múltiplas sub-disciplinas

ministradas por uma só professora

e digo professora porque há algures pessoal que responsabiliza essa matriacalização do ensino

como um dos problemas
geralmente são gajos por estarem em minoria

asmodeux disse...

"para se puder perceber tudo o mais" - lapso evidente do autor. Deve escrever-se, em mais ou menos bom português, "para se PODER perceber tudo o mais"
Assim deveria escrever-se assim:

Português mais ou menos aldrabado

Geralmente, os responsáveis por estas atoardas irresponsáveis, são
gajos (inicialmente considerado calão - este termo xenófobo de origem cigana, que se vulgarizou)
que se consideram subalternos do
matriarcado?

Ou em Português Literário:

Mestrados Integrados de Estudos Culturais e Ciências da Comunicação

Mátria é o nome do teu povo

(Referência a Mátria da extinta poetisa Natália.....
complete o(s)
espaço(s) em branco com um objecto de couro fabricado de modo artesanal

percebido?

não?
Descobertas centenas de manuscritos de Guerra Junqueiro

Não sabe o destino que o proprietário irá dar ao espólio
Mas espera que possam ser preservados em Portugal

1º o jornalista pode escrever num óptimo portuga

mas não analisa
para serem vendidos lá fora
é preciso autorização porque têm mais de 100 anos
Só podem ser vendidos:
No Brasil porque Angola não os compra e o Brasil nunca dará uma décima do que a Torre do Tombo via Biblioteca Nacional vai dar por eles

Logo o que falta na análise dos textos
é o sentido crítico

asmodeux disse...

e o Descobertas centenas de manuscritos inéditos

como título de uma secção de jornal

também não diz grande coisa
sobre o ensino universitário Jão Basquista gonçalbista