28/01/11

Não comer o pão que o diabo amassou

Não tencionava escrever sobre as eleições presidenciais, mas há muito tempo que não discordava tanto do Daniel Oliveira. (Por quem, digo desde já, em jeito de aviso ao anti-oliveirismo primário, tenho bastante respeito - seja lá isto o que for - político e não apenas em razão da amizade). Este seu post dá a sensação, porventura errada mas fica aqui a provocação, que ao Daniel assusta que a máquina institucional-mediática processa a política dominante nos dias de hoje deixe simplesmente de funcionar.

Ao Daniel assustará a improdutividade, ora aí está. Tal como alguns se especializam a classificar economicamente quem não faz como sendo um simples parasita - é ver os discursos em torno do rendimento mínimo e do desemprego -, outros fazem-no politicamente. Como se uma certa esquerda estivesse destinada a fazer cumprir na política o moralismo e a disciplina que a direita procura impor na economia. Como se a produção fosse apenas o que sucede no emprego, neste post do Daniel a política apenas pode ser o que se institui como lugar oficial da política, assim sendo objecto da análise e do comentário do comentarista e analista político e sujeito da acção do dirigente e do governante.

Construir as cidades para os outros? Não, mas tão importante como dizer não é dizer que isto tanto uma afirmação de índole económica como política.

Ricardo Araújo Pereira justificou o seu voto no Alegre dizendo que não simpatizava com o tipo mas que um gajo come o que lhe põem no prato. Este artigo do Daniel é o artigo de quem se limita a colocar o prato à nossa frente. A malta que confecciona o prato tem que deixar de achar que os eleitores comem tudo e mais alguma coisa. E, sobretudo, que só quem está de barriga cheia é que não vem à nossa mesa. Os motins (termo rude e tosco, disse alguém com acerto) não se fazem apenas e só porque não há pão, mas também porque o pão é mau. Havendo, até, quem prefira meter as mãos na massa e fazer o seu próprio pão.

Posto isto, diga-se que não só votei no Domingo (no Francisco Lopes), como entendo que, nestas eleições, faltou um projecto de apelo ao voto nulo/branco. Em relação a estas eleições, estou como presumo que estivesse agora José Saramago. Triste com a vitória de Cavaco, inquieto (preocupado, aflito, sim, mas inquieto também como se está na música "cá dentro inquietação, inquietação...sei é que não sei ainda") com a abstenção, os brancos, os nulos.

2 comentários:

Luis M disse...

Acredito que existem muitos tipos de abstenções diferentes (a do tipo que tem mais que fazer do que ir votar a um Domingo; a de quem não acredita em nenhum dos candidatos; a de quem não acredita simplesmente na democracia; a de quem se está nas tintas; a de quem acredita está a fazer um gesto de protesto contra um sistema eleitoral/partidário caduco, etc.). No final de contas (e é de contas que aqui, em última análise se trata) as diferenças estão unicamente na cabeça de quem se abstém, não têm expressão porque se diluem num vazio comum, numa vala comum.
Nós podemos achar que somos muitas coisas na nossa cabeça, mas são as nossas acções que nos definem. Parece-me que em matéria de vida pública a abstenção é a absoluta ausência de acção, sem expressão, indiferente, vazia.

Anónimo disse...

As abstenções devem-se a diversas, e talvez contraditórias razões...
O mesmo se pode dizer do voto: há quem vote por ser crédulo, fanático, estúpido, por gostar da conversa do candidato, por o achar simpático, porque um amigo o convenceu a votar etc e tal...
Ou seja: a realidade é a mesma.
A diferença é a acção quotidiana, a todos os níveis contra as injustiças e pela mudança social. Em resumo a luta social na base, nas ruas, nos locais de trabalho!