10/04/11

Boaventura

Fiquei muito surpreendido por ver o nome de Boaventura Sousa Santos entre os assinantes do tal compromisso nacional lançado pelo Expresso. E acho que é um erro grave e que me custa a perceber. Mas tal facto assusta-me mais pelo que diz do estado a que isto chegou do que por Boaventura em si mesmo. Quando vemos Boaventura ao lado de quem vemos há, com efeito, uma certa sensação de irrespirabilidade dentro desta latrina, como dizia o outro: as opções estreitam-se, tudo se fecha e ao fundo do túnel já só vemos o início de uma noite escura. É importante, porém, ver que essa é apenas uma das possibilidades. Não temo que Boaventura tenha passado do lado de cá para o lado de lá. Foi um erro grave, mas só um erro. Boaventura Sousa Santos é um dos poucos pensadores originais da esquerda em Portugal e não o deixou de ser. E nessa originalidade há muitas questões importantes e e outras ainda que mais valia estar quieto. Mas não é assim com todos? De um ponto de vista político, Boaventura é uma peça inclassificável no panorama da esquerda portuguesa. É dos críticos mais agudos dos limites da democracia representativa, dos cientistas sociais mais empenhados em pensar as desigualdades de poder e um dos académicos mais comprometidos com a política para lá da academia, seja enquanto intelectual público, seja enquanto militante e activista. O seu percurso é o de quem não deixou de pensar a classe para passar a pensar a etnicidade ou o género ou a orientação sexual. E ó de quem não deixou de pensar as desigualdades de poder tanto do lado das estruturas opressoras como das estruturas representantes dos oprimidos. Soube travar as lutas todas ao mesmo tempo. A minha maior discordância está em relação a algumas das questões que o Miguel Serras Pereira (de um modo que me parece demasiado agressivo, miguel?) levantou, a saber: o terceiro-mundismo, o nacional, etc. Ainda assim, convém não esquecer que no plano internacional Boaventura é um dos mais lúcidos apoiantes dos processos de transformação em curso na América do Sul. Apoiante mas apoiante crítico tanto de Chavez como de Lula, até porque o seu compromisso é muito mais manifesto a nível dos movimentos sociais do que das cúpulas do Estado. Talvez se encontre mais próximo, especulo, das transformações em curso na Bolívia. Não sei ao certo. Enfim, acompanho todas as críticas que se fazem ao facto de Boaventura ter assinado o compromisso do Expresso. As mesmas que podemos dirigir a um apoiante do PCP, como Siza Vieira. Mas, tanto num caso como no outro, não creio que haja lugar para conclusões muito categóricas como as que tenho lido. Ao assinar o texto do Expresso, Boaventura passou-se? Certo. Mas é seguro que não se passou. E que estará ao nosso lado em muitas das lutas que se seguem.

4 comentários:

Zé_Lucas disse...

A posição expressa neste post parece-me lúcida e equilibrada, trazendo para esta discussão alguma inteligência.
Mais, talvez só dizer que gostaria de ler a justificação dada pelo próprio, embora me pareça evidente ser apenas controversa a companhia e não o teor do texto. Creio que o dogmatismo não será nunca uma virtude.

Anónimo disse...

vanitas?

Anónimo disse...

A minha "teoria" é que provavelmente alguns só deram uma vista de olhos pela coisa, ou leram-lhe aquilo ao telefone.
A coisa é mesmo muito má, com aspectos como o que se chama a atenção aqui:
RECEITA DAS 47 "PERSONALIDADES" Primeiro tomam-se as decisões, depois fazem-se as eleições.

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Anónimo que adopta a hipótese da distracção:

infelizmente, a sua teoria não resiste à prova dos factos. Leia, por favor, este post que a Joana Lopes publicou no Brumas:

"«Este PEC IV podia ser o tal sinal de que a linha vermelha estava traçada à porta de Portugal: “vocês aqui não entram”. Se não houvesses crise política, nós provavelmente tínhamos ganho tempo. Portugal precisava só de tempo até se negociar mais força da comunidade europeia para se defender dos ataques especulativos do euro».

(…)

Teixeira dos Santos e Sócrates não diriam melhor. Embora sejam abordados outros temas na conversa com João Marcelino, fica explicada a adesão de BSS ao documento dos 47, que alguns (nos quais me incluo, em parte...) ainda esperaram que fosse resultado de algum equívoco ou de momentânea distracção". (Cf. http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2011/04/boaventurancas-la-carte-2.html)

Outros há que se sentem tentados pela hipótese da "distracção" para explicar a assinatura de Siza Vieira. O problema é que, ainda que a teoria fosse certa, assinar sem ler ou distraidamente um texto como o do Um Compromisso Nacional seria uma irresponsabilidade política ainda mais grave.

Saudações democráticas

msp