09/04/11

Bastante trabalho


Vasco Pulido Valente resolveu hoje fazer de historiador, a propósito da reunião entre o PCP e o Bloco de Esquerda. Chamou à sua crónica, nem mais nem menos, "Facto Histórico", para referir o carácter inédito do acontecimento. O Nuno já referiu aqui exemplos recentes de reuniões e convergências entre o PCP e a "extrema-esquerda". 
Mas dá-se ainda o caso de, em pleno Verão Quente de 1975, o PCP ter tomado a iniciativa de fundar a Frente de Unidade Popular, que incluía a LCI (antepassado histórico do PSR), bem como o MES, o PRP, a LUAR e o MDP. A UDP participou ena reunião fundadora, acabando por não integrar a estrutura, que considerava demasiado colada ao apoio a Vasco Gonçalves. Ao fim de três dias, o PCP saiu da estrutura e foi negociar com o PS e os "nove" a formação do VI Governo Provisório.
Dá.-se o caso de, ainda há poucos anos, Pulido Valente ter publicado um ensaio no seu livro, presumivelmente a propósito do PREC e presumivelmente na condição de historiador. Eis o que então soprou à Caras: "Foram precisos muitos anos de trabalho para escrever este livro. Deu-me bastante trabalho. A minha profissão é ser historiador. Quando comecei a escrever, era praticamente proibido escrever na universidade sobre os séculos XIX e XX, de maneira que as pessoas da minha geração concentraram-se, muitas vezes por curiosidade, sobre esses temas, para tentar perceber como é que tínhamos chegado onde chegámos".
É um facto incontestável que  percebemos muita coisa acerca da forma como aqui chegámos sempre que lemos Vasco Pulido Valente e constatamos a  solidez dos seus "factos históricos", que estão, como se vê, ao nível dos de Miguel Sousa Tavares. Combinarão eles entre si, numa mesa do Gambrinus, o próximo disparate com que irão entreter a plebe?

12 comentários:

Miguel Serras Pereira disse...

Sim, Ricardo, é como dizes: "a Frente de Unidade Popular […] incluía a LCI (antepassado histórico do PSR), bem como o MES, o PRP, a LUAR e o MDP. A UDP participou na reunião fundadora, acabando por não integrar a estrutura, que considerava demasiado colada ao apoio a Vasco Gonçalves. Ao fim de três dias, o PCP saiu da estrutura e foi negociar com o PS e os "nove" a formação do VI Governo Provisório" - enquanto a FUP se transformava em FUR (Frente de Unidade Revolucionária), despojando-se da terminologia evocativa da "Frente Popular" e dos seus pressupostos ideológicos (quanto às etapas "leninistas" a cumprir pelo processo revolucionário).
De qualquer modo, o episódio da FUP continua bastante obscuro, sobretudo no que se refere à presença inicial logo seguida da ruptura por parte do PCP - o que indicia por certo a existência de posições contrárias, nesse momento, ao mais alto nível do PCP. Tudo o que possas esclarecer sobre este ponto será, sem dúvida, do maior interesse. Estás em condições de o fazer?

Abraço para ti

miguel(sp)

Anónimo disse...

Miguel Pulhas Pereira,

fala-nos também do teu apoio aos monárquicos "rebeldes" comandados pela Nato, pode ser? É sempre estimulante ouvir-te, meu estupor reaccionário.

Um muito grande abraço falangista para ti,

Rui Manuel Pereira Gonçalves

Wegie disse...

Foi o Miguel Urbano Rodrigues o negociador por parte do PCP. Ele sabe a história toda.

Miguel Serras Pereira disse...

Rui Manuel G.P.,

abraço falangista? Deve ter-se enganado no destinatário. Se já sabe, porque é que não pergunta?

msp

J. disse...

E é verdade que essa Frente de Unidade Popular foi criada durante uma ausência de Cunhal? Que, ao chegar de Leste com as suas orientações, acabou logo com aquilo?

VÍTOR DIAS disse...

È um completo disparate que o negociador tenha sido o Miguel Urbano Rodrigues e que ÁLVARO CUNHAL ESTIVESSE AUSENTE DO PAÍS.

É público, até porque está no seu livro, que foi Carlos Brito que dirigiu a delegação do PCP.

E a delegação do MDP era integrada por mim e pelo Lino de Carvalho.

Conheço a história (não na parte do PCP) desde o primeiro minuto mas sobre ela só quero afirmar que é uma pura caricatura a ideia de que o PCP abandonou a FUR para ir negociar o VI Governo Provisório.

O importante para o PCP e o MDP era a manifestação conjunta que se realizou e não tanto o projecto FUR que nasceu, segundo a minha opinião actual, na base de uma «golpada» do otelismo e do PRP/Carlos Antunes- Isabel do Carmo.

E, por mim, ainda não é tempo de contar o resto.

Ricardo Noronha disse...

Se ainda é cedo após 38 anos, Vítor, temo que nunca venha a chegar o momento oportuno. As versões de Brito e de Cunhal não coincidem. O primeiro afirma (nos "Sete fôlegos do combatente", p.177) que o PCP abandonou a frente logo no dia 25 (um dia depois da reunião fundadora), por insistência de Cunhal e decisão da Comissão Política, porque "prejudicava seriamente as pontes estabelecidas com os nove" e contrariava o espírito da resolução do comité central de 10 de Agosto. Cunhal situa o abandono da FUP no momento em que foi divulgada a "Proposta de solução política para a crise", a 29 de Agosto, devido ao seu "assalto pelos esquerdistas" e a sua "utilização numa linha abertamente anti-PCP e aventureirista". Não tem propriamente o mesmo significado, uma vez que na versão de Brito o PCP saiu porque considerava mais profícuo negociar com os "nove" (sob a mediação de Costa Gomes, no processo que levaria, caricaturalmente, ao afastamento de Vasco Gonçalves e à formação do VI Governo Provisório) do que aliar-se à extrema-esquerda, o que implica uma evidente aceitação de um rumo mais moderado para a revolução e de um entendimento tácito com o PS a esse respeito. Na versão de Cunhal, foi o "aventureirismo" da extrema-esquerda a comprometer o sincero esforço unitário do PCP. Tudo indica que o Partido procurou jogar em vários tabuleiros e deixar vários cenários em aberto de maneira a salvaguardar a sua capacidade de manobra num contexto complexo e volátil. Mais do que isto, Miguel, não te saberei dizer. Mas a Raquel Varela talvez saiba mais sobre o assunto. Ainda não cheguei a essa parte do livro dela e detesto saltar páginas...
Já agora Vítor, porque é que o MDP permaneceu na FUR e veio a subscrever os seus textos? Para manter todas as pontes possíveis?

VÍTOR DIAS disse...

Ricardo Noronha:

O MDP permaneceu na FUR porque entendeu que não tinha que acompanhar as decisões do PCP.

E eu que, grande cruz!, aturei aquele pessoal durante meses, não estou arrependido dessa orientação.

Teremos subscrito textos da FUR mas certamente muito diferentes das versões iniciais que foram propostas pelas outras forças.

E posso garantir que a presença do MDP nessas reuniões evitou muito disparate e aventureirismo.

BaSTA DIZER QUE DE CADA VEZ QUE O CÉLEBRE CAPITÃO FERNANDES ENTRAVA PELAS REUNIÕES A DENTRO A FALAR DESCUIDADAMENTE DE ARMAS EU DIZIA LOGO QUE, SE ELE NÃO SE CALASSE, O MDP ABANDONARIA LOGO A REUNIÃO.

APROVEITO PARA LEMBRAR QUE UMA RIDICULA CENA EM QUE ISABEL DO CARMO E OUTROS vão ao Pinheiro de Azevedo exigir não sei o quê ( E ESTE FARTOU-SE DE GOZAR COM ELES)JÁ não foi uma iniciativa da FUR maS APENAS DE ALGUMAS DAS SUAS COMPONENTES.

Ricardo Noronha disse...

Isso responde muito pouco Vítor. Ou seja, isso apenas responde à pergunta "Porque razão o MDP tomou uma posição diferente da do PCP?" (que eu não fiz), mas não à pergunta "porque é que o MDP permaneceu na FUR e veio a subscrever os seus textos?". Ou seja, o que é que justificou o tempo por si perdido (numa situação histórica em que o tempo é precioso...) em reuniões com objectivos insurreccionais que o MDP/CDE não partilhava?
E não é preciso escrever em maiúsculas. Lemos tudo com a mesma atenção.

VÍTOR DIAS disse...

O Ricardo Noronha não reparou mas
eu respondi à sua pergunta, em breve quando escrevi «E posso garantir que a presença do MDP nessas reuniões evitou muito disparate e aventureirismo.»

Estou absolutamente certo que o MDP jamais subscreveu qualquer documento com objectivos que o Ricardo qualifica de «insurrecionais».

Ricardo Noronha disse...

Ficaram lá para moderar os ímpetos da Isabel do Carmo e do Ferro Rodrigues?
"Insurreccionais" é de facto discutível, mas isto é um pouco mais do que defendia o MDP, não?
http://arquivo.sinbad.ua.pt/LocalCache/2005000411.jpg
http://ephemerajpp.files.wordpress.com/2010/10/fur10-2.jpg

Miguel Serras Pereira disse...

Sim, Ricardo, é indubitável para quem viveu como eu esse tempo como delegado à comissão de trabalhadores de O Seculo, acompanhou a actividade sindical e participou em colectivos não-alinhados (o Combate), mantendo ao mesmo tempo contacto permanente com alguns elementos da LUAR e fazendo um ou dois comentários da actualidade política na Vida Mundial (direcção Abelaira, esse "advogado da burguesia" segundo certas prosas "comunistas" publicadas no jornal O Século, nas semanas que precederam o seu saneamento após o 25 de Novembro de 1975 - é evidente que o PCP quis marcar presença em vários tabuleiros ou não descurar vários cenários possíveis. Isso nem sequer é estranho ou criticável em si. O que pode e deve ser discutido é a sua aposta estratégica, as concepções e soluções organizativas que promoveu, o modelo de regime que incompletamente embora e não sem tensões, por assim dizer, preconizava.
E há depois, daí a razão de ser da minha pergunta, uma série de pontos factuais obscuros em torno do período que culminou no 25 de Novembro. Mas, pelos vistos, quanto àqueles que poderia ajudar a esclarecer, o Vítor Dias entende que ainda é prematuro falar do assunto. Aqui a pergunta é "prematuro" ou "cedo" para quem? E de que ponto de vista "adulto"? Bom, mas isto é o que me parece a mim que entendo que a política de segredo é características das oligarquias e dos impérios e incompatível com a auto-organização popular como base e chave de abóbada de um modo alternativo e efectivamente democratizador de exercício do poder.

Abraço

msp