27/04/11

JMF, o Blasfémias, Raquel Varela e o 25 de Novembro

Já muita gente dissecou o texto de José Manuel Fernandes, mas há uma passagem que me despertou a atenção, a parte final em que ele refere "[p]ara além de que a dita legenda talvez ajudasse também a perceber por que motivo a historiadora afirma, a dado passo, que o 25 de Novembro terminou sem mortos, quando isso não é verdade (já se esqueceu dos confrontos junto à Polícia Militar?)" (nos comentário um leitor voltou a carregar na questão).

Porque é que isso me despertou a atenção? Porque JMF é colega de blogue de um historiador que cometeu exactamente o mesmo erro (ainda que a respeito de outra data).

Quanto ao post de Helena Matos, fazendo referência ao cerco da Constituinte, penso que é totalmente irrelevante para o que se está a discutir - eu não li o livro de Raquel Varela, mas penso que ninguém contesta que a partir de final de Agosto de 75 o PCP enveredou por uma politica de agitação de rua; o que está em questão era se o objectivo dessa agitação era uma revolução socialista ou apenas reforçar o peso do PC no governo provisório (e o cerco da Constituinte é compatível com ambas as teses).

3 comentários:

Anónimo disse...

"Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado."

VÍTOR DIAS disse...

Sobre a utilização deliberadamente instrumental da expressão «cerco à Constituinte», os leitores interessados podem ler o meu post (de 2007) «a mentira mil vezes repetida» aqui em http://tempodascerejas.blogspot.com/2007/03/mentira-mil-vezes-repetida.html.

Esse texto inclui esta passagem :«Mas esse facto real não pode transformar aquela concentração de trabalhadores nem num suposto “cerco à Constituinte” nem numa acção deliberadamente dirigida contra os trabalhos a que aquela Assembleia estava vinculada por mandato popular, ou seja elaborar uma Constituição para o Portugal libertado do fascismo.
E se não é assim, então que dêem um passo em frente todos os que, com recurso à ampliação das fotografias da concentração, forem capazes de provar que no mar de cartazes e panos, em vez de reivindicações socio-laborais ou de política geral, se encontra sim um oceano de invectivas contra a Assembleia Constituinte e de gritos de ódio contra a elaboração da Constituição.
Que dêem um passo em frente todos quantos forem capazes de contar (só inventando) quais foram então as tenebrosas reivindicações políticas que os manifestantes tenham dirigido aos deputados à Constituinte ou ao seu Presidente. (...)»
E em comentário a esse post escreveu então o dr. José António Barreiros:«Na altura eu era Secretário do Conselho de Ministros, sendo primeiro-Ministro o almirante Pinheiro de Azevedo. Fiquei «cercado».É uma história longa, dará um «post» em qualquer ocasião. Assisti ao ir e vir da comissão negociadora, vi a betoneira que vedada a saída pela Rua da Imprensa, testemunhei por isso, que o alvo era o Governo não a Assembleia, a questão sindical não constitucional. Mais, quando da descida do helicóptero, devemos aos que ainda controlavam o «cerco» do lado dos manifestantes, terem conseguido suster o que poderia ter sido uma tragédia.
Tem pois razão o Vítor Dias. Esta é a verdade. »

Anónimo disse...

O estudo de Raquel Varela comprova que efectivamente a direcção do PCP nunca teve como meta uma Revolução Social, nem sequer de conquista do Poder numa lógica similar ao das chamadas «democracias populares» do Leste europeu só posssível pela presença do exército soviético. Isso não quer dizer que o PCP não tenha disputado o poder nos anos de 74 e 75, ou que tenha tido comportamentos extremamente sectários, mas tendo em vista influenciar a evolução política em Portugal sem alterar o «status quo» de forma radical. Certamente muitos militantes do PCP aspiravam ainda uma revolução de tipo socialista, essa ideia estava presente até em alguns quadros e dirigentes que acreditavam que o PCP tinha condições, e autonomia, para fixar os seus objectivos e estratégias políticas. Mas essa não foi a linha dominante como sabemos. Até porque estava claro depois das definições das zonas de influência, no pós-guerra, que nem os dirigentes da URSS tinham interesse em fazer nenhuma alteração substancial nos países capitalistas da Europa ocidental, nem os americanos o aceitariam.
O que se passou em França, na Itália e na Grécia, no pós-guerra, comprovam isso mesmo. Os Partidos Comunistas, e a URSS, «desarmaram» os sectores mais radicalizados que ainda imaginavam que iam derrubar o sistema capitalista...
O resto, o chamado perigo vermelho, é propaganda conservadora, que vai do CDS/ELP ao PS/MDLP, e sectores militares aliados, para justificar todas as alianças feitas para consolidar o capitalismo em Portugal, e o novo aparelho de Estado, após o susto provocado pelas lutas sociais de 74/75 que tinham uma dinâmica nem totalmente previsível, nem controlável, pelos aparelhos partidários.