08/04/11

Alternativa, já!


Estou cada vez mais convencido que PCP e BE têm uma oportunidade única nas próximas eleições legislativas para re-construir o espaço político em Portugal. É urgente uma Alternativa de governo em Portugal. Uma verdadeira Alternativa às políticas que, com pequenas variantes, têm sido defendidas e colocadas em prática por PS, PSD e CDS, com os desastrosos resultados que se conhecem. O que não evitará que versões ainda mais radicais dessas políticas estejam e venham a ser apresentadas como a solução pelos mesmos do costume.

Há um enorme desespero e desalento perante esta crise, devido à percepção de que não há caminhos alternativos para dela sair. Esta percepção deriva da omnipresença dos profetas e mandantes da desgraça nos media, da incapacidade de PCP e BE ultrapassarem a desconfiança que grande parte do eleitorado lhes devota, não interessa agora porquê, e da descrença na possibilidade de PCP ou BE alguma vez poderem estar em posição de governar. Todos estes problemas podem ser ultrapassados se PCP e BE concorrerem às próximas eleições legislativas em listas conjuntas, nas quais se incluiriam independentes que pudessem adicionar credibilidade à Alternativa. Esta simples palavra sintetiza tudo o que essas listas representariam, deixando claro que PS, PSD e CDS não levam a qualquer mudança nas políticas que foram até agora seguidas, pelo contrário, irão aprofundá-las. Alternativa, sem mais qualificativos. De modo a apelar a muitos portugueses que não se identificam com nenhuma ideologia, e apenas anseiam por uma... Alternativa.

Uma Alternativa fundada num congresso, aberto a todos os que defendem uma via distinta daquela que os profetas e mandantes da desgraça nos apresentam como inevitável. Igualmente importante, seria apresentar um independente, preferencialmente um economista com um currículo inatacável, como candidato a primeiro-ministro. Alguém que permitisse ultrapassar as barreiras sociais e culturais que cercam PCP e BE, algumas por culpa própria, e impedisse a acusação de irrealismo. Por exemplo, José Reis. Uma tal Alternativa, ainda para mais se conseguisse atrair o apoio de militantes conhecidos do PS, teria um potencial eleitoral significativamente maior do que os quase 18% dos votos somados obtidos por BE e CDU nas últimas eleições legislativas.

Como já antes mencionei, o mais importante resultado das próximas eleições legislativas será a diferença relativa de votos entre PS por um lado e PCP+BE por outro. Será esta diferença que vai decidir a atitude do PS perante as medidas sociais gravíssimas que PSD e CDS se preparam para implementar. Um PS ameaçado no seu papel de principal partido de oposição não terá alterativa que não a oposição frontal a essas medidas, o que as tornará inviáveis, como vários estrategas da Direita têm alertado. As direcções de PCP e BE têm assim entre mãos uma enorme responsabilidade perante o povo português, e a oportunidade de remodelar a paisagem política portuguesa através da criação duma Alternativa eleitoral credível.

18 comentários:

heitor da silva disse...

Bem, essa é a proposta que tenho feito desde há tempo...mas supõe alé da unidade referida, tomar posição política pública no senti de conseguir os apoios necessários a inverter as posições relativas no Parlamento que teria que sofrer alterações de fundo e de forma....

heitor da silva disse...

Bem, essa é a proposta que tenho feito desde há tempo...mas supõe alé da unidade referida, tomar posição política pública no senti de conseguir os apoios necessários a inverter as posições relativas no Parlamento que teria que sofrer alterações de fundo e de forma....

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Pedro,

o meu problema é o seguinte: não vejo que qualquer coisa como "Uma Alternativa fundada num congresso, aberto a todos os que defendem uma via distinta daquela que os profetas e mandantes da desgraça nos apresentam como inevitável" possa e deva traduzir-se e ganhar credibilidade com uma coligação PCP-PEV-BE. No mínimo, seria necessário uma sigla nova na qual se pudessem reconhecer sem privilégios todos os que participassem no tal "congresso", fossem ou não militantes dos partidos que citas ou de outros ainda.
Por outro lado, do meu ponto de vista - já formulado em diálogo cntigo, em http://viasfacto.blogspot.com/2011/03/da-queda-do-governo-democratizacao-das.html, e noutros lugares -, a "alternativa" deve visar mais alto e mais fundo do que a intervenção no acto eleitoral, que mais não seja para que essa intervenção tenha um sentido realmente "alternativo". Assim, o importante seria a definição no tal "congresso" ou sucessivos encontros abertos - que teriam de ser convocados sem depender de partidos, embora sem excluir estes últimos da participação - de uma carta ou plataforma mínima, comprometendo-se coma defesa dos pontos que tu e eu, entre outros, temos evocado, e com uma lógica de democracia directa no plano da organização da acção conjunta, contemplando além disso medidas programáticas concretas imediatas no que se refere tanto a Portugal como à UE, na perspectiva da inscrição constante das lutas e propostas à escala europeia.
Assim, ainda que não dando, como é verosímil que não dê, origem à formação pós-eleições de um governo de coligação das forças apostadas na democratização da economia e na derrota da actual direcção financeira da UE e de Portugal, a alternativa de que falas poderia ter pernas para andar e ir abrindo novos caminhos: cf,., resumindo algumas das ideias que temos, entre outros, tu e eu vindo a defender, o post de recapitulação e síntese que aqui publiquei há dias "Da queda do governo à democratização das lutas" (http://viasfacto.blogspot.com/2011/03/da-queda-do-governo-democratizacao-das.html) e as considerações gerais que proponho na breve nota "Ainda sobre a unidade das forças democráticas" (http://viasfacto.blogspot.com/2011/04/ainda-sobre-unidade-das-forcas.html).

Abraço

miguel (sp)

josé manuel faria disse...

Num momento social e politicamente crítico, diria desesperante, principalmente para os trabalhadores, esta proposta deveria ser levada em conta.

À primeira vista de fácil concretização.Na prática é pedir o impossível, infelizmente.

Há interesses, muitos outros interesses dos 2 partidos que ultrapassam essa prioridade.

Os partidos são organizações complexas, demasiadamente complexas.

Zé Neves disse...

Pedro,
Não vejo necessidade que um processo desses implicasse a apresentação de um candidato a primeiro-ministro. Mas não era mau que existisse, por exemplo, um mandatário comum às duas campanhas... por exemplo o Carvalho da Silva (embora haja aqui o risco de confundir espaço partidário e espaço de movimentos)
abç

Joana Lopes disse...

Pedro,
Sigla, coligação, etc.? Não me parece: não há tempo, não em número de dias de calendário mas para «ingestão» e «digestão». Como disse hoje o M. Portas: «devagar que temos pressa» (não tenho aqui o link mas pus agora o vídeo no Brumas).

Interessante a sugestão do Zé N., no sentido de terem um mandatário comum.

Anónimo disse...

Apostar mais no B.E. do que no PCP, sim, disso temos falado ciclicamente com mais ou menos teoria...Aliàs,o PCP já parece que deixou de ter uma graminha que seja de teoria.Vaneigem, num texto do ano transacto, " O Estado deixou de ter qualquer importância", bem nos indica, que se por um lado, o " consumismo vulgarizou uma democracia de supermercado ", a " corrupção democrática "- jogos de bastidores e fussanguice pelas sondagens e outras aritméticas eleitoralistas inócuas-só " agrava por todo o lado a pressão das multinacionais e das mafias financeiras ". Sem teoria revolucionária, não existe movimento revolucionário: dêem-se as voltas que se impossibilitam, ou
repitam-se os passos da miragem
unitária mais oportunista ou serôdia. Niet

Pedro Viana disse...

Caro Miguel,

Em tal congresso todos os que o quisessem poderiam lá ir defender a extensão e aprofundamento da aplicação do princípio democrático aos sistemas político e sócio-económico. No entanto, realisticamente não me parece possível no curto intervalo de tempo que medeia até às legislativas que desse congresso saiam conclusões radicalmente distintas das que têm sido defendidas por PCP e BE. Ou seja, não é realista esperar que em 2 meses o programa de tais listas conjuntas fosse para além do mínimo denominador comum do que têm sido as propostas de PCP e BE ao longo dos anos. Forçar mais é invabializar o que é mais importante a curto prazo: aproveitar as próximas eleições e actual situação política para reconfigurar o espaço político em Portugal; e impedir as medidas sociais mais gravosas que se preparam. É preciso agir já. Para mim o congresso serviria para demonstrar que PCP e BE estão dispostos a conversar e ouvir. Sinceramente, muito sinceramente, não importa se esse acto se revelará sincero a médio-longo prazo ou não. O que importa é que seja percepcionado como tal a curto prazo.

Um abraço,

Pedro

Pedro Viana disse...

Olá Zé,

A apresentação dum candidato a primeiro-ministro teria 2 vantagens: primeiro demonstraria que os partidos que constituem a Alternativa se propôem a governar Portugal, assim desmentindo quem os apelida de meros partidos de protesto (o que acredito afasta um número considerável de potenciais eleitores); segundo ajudaria, através da escolha dum independente, a tornar mais aceitável para muitos eleitores um voto efectivo em PCP ou BE, algo que também não é desprezável, principalmente em muitas franjas do PS, que ideologicamente até estão próximas de PCP e BE mas que por razões histórico-culturais reajem visceralmente à possibilidsde de votarem PCP ou BE. Um mandatário não conseguiria produzir o primeiro efeito, e a sua visibilidade é demasiado pequena para ter grande impacto no que de refere ao segundo efeito. Pensei no Carvalho da Silva para candidato a primeiro-ministro, mas temo que ele seria incapaz, devido a estar associado à CGTP e PCP, de ser apelativo a quem foi ensinado a ter medo dos papões da Esquerda. Tem de ser alguém com um apelo social e culturalmente mais transversal, que não utilize uma linguagem obviamente ideológica.

Um abraço,

Pedro

Pedro Viana disse...

Olá Joana,

Não propus uma sigla comum. Nem deve haver. Nos boletins de voto teriam de estar presentes as siglas de PCP e BE, de modo a não baralhar eleitores menos atentos que vão à procura de tais siglas na altura em que votam. Mas um nome para a coligação pré-eleitoral, sim, Porque significaria a disponibilidade de PCP e BE em trabalharem em conjunto e com outros, colocando de lado os seus interesses particulares, em prol do país.

Pedro

Miguel Serras Pereira disse...

Mas, Pedro, o problema de fundo mantém-se: em primeiro lugar, não me parece que estejam criadas as condições para a elaboração de uma plataforma - com uma linguagem inovadora, como bem sugeres, isenta dos traços doutrinários e dos fetiches ideológicos que sabemos - comum em cuja definição pudessem participar em pé de igualdade e na qual na qual se pudessem reconhecer sem privilégios os elementos que não se identificam com nenhum dos dois partidos nem se contentam com a condição de "independentes propostos pelo PCP" ou "independentes propostos pelo BE", depois de negociado pelos dois partidos um acordso sobre a composição das listas.
Em segundo lugar, a tua proposta corre o risco de involuntariamente fazer do acesso pouco verosímil ao governo da coligação visada e da batalha eleitoral o principal terreno de luta e a condição - "tudo ou nada" - de travagem da ofensiva oligárquica, da defesa e extensão das liberdades e direitos sociais, de avanços efectivamente democratizadores ainda que operados a partir de um campo de contra-poder.
Ao contrário do que tens mostrado como poucos nos últimos meses, dir-se-ia a quem te ler desprevenido que apostas tudo num governo de frente popular, e, ainda por cima, a partir de uma base demasiado estreita para esse efeito.
Por fim, se o que importa é criar as condições de um movimento democrático em expansão, capaz de unir, antes e depois das eleições, na luta pelas liberdades e direitos todos os que se opõem à direcção do país e da UE por um "governo dos banqueiros" (digamos assim para simplificar), este terá de ter uma abertura muito maior e afirmar em termos mais inequívocos a sua independência em relação ao BE e ao PCP (embora, evidentemente, contando com as suas áreas). Por exemplo, parece-me evidente que há muita gente que habitualmente vota no PS ou até nos partidos à sua direita que poderia reconhecer-se num movimento de recusa do "governo dos banqueiros", na condição de este não ser presidido por uma coligação (eleitoral ou não) do BE e do PCP, integrando a percentagem de independentes que esses dois partidos decidam e apenas em lugares que não os incomodem.
O desafio que temos pela frente exige muito mais que a redistribuição de forças ou votos no interior do espectro partidário estabelecido e terá de quebrar a sua lógica, da qual, salvo erro, a tua proposta não se emancipa o suficiente. E isto, independentemente do facto de me parecer que uma coligação como a que propões corre sérios riscos de não conseguir reunir mais, mas, no conjunto, menos apoiantes que a soma das suas partes. O que me parece uma quase-evidência em termos eleitorais (o que seria o menos), mas não só nesses termos - e também, ou sobretudo, tendo em conta as exigências da construção de um novo movimento efectivamente alternativo.

Abraço

miguel (sp)

anónimo que assina miguel disse...

Pedro Viana, com essa sabedoria estratégico-tático-político-alternativo-governativa devia era fundar um partido em vez de dar lições aos partidos dos outros. Ponha as mãos onde tem a boca e avance que se faz tarde!

LAM disse...

Subscrevo integralmente a proposta de Pedro Viana, bem como os comentários posteriores que fez da sua justificação. Há que começar por algum lado, não deixar mais uma vez escapar a oportunidade e atender a que, qualquer tipo de resposta pré ou pós eleitoral, com as dinâmicas criadas, carecerá e no imediato de estruturas mínimas onde possa assentar. E essas estruturas, apesar dos defeitos conhecidos, são para já os partidos existentes ou algo que deles possa surgir.
A partir daí, as condições de acesso democrático mais amplas, como sugerido por MSP, influenciando o próprio processo, ditarão a sua evolução organizativa o que e logo à partida, não está excluído da proposta de Pedro Viana. Há que começar por algum lado.

Anónimo disse...

Com a diplomacia e boa-vontade que nos deve animar, projecta-se no discurso do autor do post uma soma de ideias falsas e contraproducentes. Sejamos realistas. Toda a gente sabe, ou devia saber, que no capitalismo liberal selvagem- como no caso português- o processo eleitoral é uma manobra dilatória,capciosa e instrumental para " ordenar " o registo mínimo de luta de classes...que favoreça o funcionamento e o futuro do sistema desigual, despótico e anti-democrático que aparenta ser a sociedade, onde a propriedade privada e o lucro ditam as leis. Aliàs,mesmo com a miséria crítica que o assoberba,o PCP- e o BE tem outro nivel e profundidade de análise, mesmo que, selectivamente, oportunista e tácticista- não esconde que
os objectivos da luta são a longo prazo...Novamente,conforme sublinha Vaneigem no texto de 17/7/2010, já referido, o que está em jogo no campo da luta política, hoje: " Associando-se às imposturas da emancipação( liberalismo,socialismo, comunismo), o consumismo e o clientelismo dos regimes dito democráticos laminaram a consciência de classe que tinha sacado ao capitalismo uma série de conquistas sociais. O regresso à base, ao bairro ou atelier,é o único radicalismo. Pois, elimina os falsos questionamentos que alimentam o Caos Emocional em detrimento da tomada de consciência ".Niet

VÍTOR DIAS disse...

Lamento intervir sobre amendoins mas há pessoas tão conhecedoras de certas realidades políticas que nem sabem que as siglas e símbolos próprios das coligações estão proibidos por lei.

Se querem saber mais, então eu conto: estão proibidas desde que para aí em 89, PSD e PS decidiram liquidar nos boletins de voto a sigla CDU e o seu símbolo dos três favos de mel.

Ou seja, nas coligações só a denominação é livre, sigla e símbolo tem de incluir os dos partidos coligados.

Pedro Viana disse...

Tempo, Miguel, tempo é o que não temos. Concordo com tudo o que dizes. Mas há momentos, como agora, em que o tempo, o ritmo político, accelera, não se compadecendo com estratégias de médio-longo prazo. Como já antes mencionei, o maior obstáculo à afirmação duma alternativa política de Esquerda é o PS. E a actual situação política permite considerar credível um cenário em que o PS deixa de ser o maior partido da (futura) oposição, na senda do que aconteceu na Iranda. Mas para que esse cenário se concretize, será preciso trabalhar nesse sentido. Por exemplo, apresentando uma alternativa eleitoralmente credível, que para o ser terá necessariamente que assentar nas estruturas de PCP e BE. Não tenho ilusões sobre a capacidade dum tal alternativa conseguir liderar um governo. Mesmo que juntamente com o PS tivesse uma maioria de deputados na AR, o PS nunca aceitaria um papel subalterno. Para mim a Alternativa proposta é antes de mais uma tentativa de abalar o sistema político no curto prazo, enfraquecendo suficientemente o PS para o impedir de dar o aval ao assalto que está a ser preparado. Exactamente por que esta Alternativa seria antes de mais um casamento de conveniência, instável, continuaria a haver tempo e espaço para pugnar por uma nova forma de fazer política quer dentro quer fora de PCP e BE.

Um abraço,

Pedro

Pedro Viana disse...

Caro Vítor Dias,

Não, não sabia disso. É possível que nunca tenha votado em eleições onde o símbolo da CDU fosse ainda aceite, mas lembro-me dele em propaganda e murais. De qualquer modo, como afirmei, seria contraprocedente substituir os símbolos partidários por um símbolo único no âmbito duma coligação.

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Pedro,
começo por sublinhar e fazer minhas estas tuas palavras da resposta que dás a um comentário na caixa do teu post "Golpe de Estado": "A luta deve ser omnipresente, permanentemente visível e incómoda, incluindo durante os rituais em que se tenta legitimizar aos olhos do povo o sistema que o submete".
Mas, dito isto, não vejo que se pode ganhar com uma coligação ou acordo entre duas forças partidárias que reclame a convergência sob a sua direcção de todos os que estejam dispostos a bater-se por um conjunto claro e definido de objectivos imediatos. Deixando de parte todos os outros aspectos que temos vindo a discutir, isso parece-me mais limitativo do que expansivo ou inclusivo, se assim posso falar. E não me refiro apenas nem principalmente a intervenções eleitorais. É tudo isto que tento argumentar no post que aqui publiquei ontem, intitulado "Contra as plataformas redutoras" (http://viasfacto.blogspot.com/2011/04/contra-as-plataformas-redutoras.html).

Abraço

miguel (sp)