25/06/11

Possíveis desfechos da crise grega - revisitado

Há um ano e tal eu escrevia sobre os possíveis desfechos da crise grega:
A) Reina a ordem em Atenas: as medidas de austeridade vão em frente e o governo consegue travar o crescimento da divida grega (o que implica transformar um deficit de 13% num superavit). Tal implicará uma brutal redução das despesas e/ou aumentos de impostos (mais do que os tais 13%, já que como a economia vai retrair-se, a receita também vai diminuir), falências em cadeia e um desemprego altíssimo durante anos.

B) Solução "nacionalista burguesa": a Grécia suspende os pagamentos da divida externa, congela as contas bancárias durante alguns meses e abandona o euro, desvalorizando o "novo dracma" para estimular as exportações. Também irá haver austeridade neste caso mas talvez menos intensa, já que a suspensão do pagamento da dívida reduz logo o deficit orçamental; com a desvalorização da moeda, a crise económica pode ser menor, já que a contração na procura interna será em parte compensada pelo aumento das exportações.

C) Solução social-democrata pan-europeia: a UE assume a dívida e a direcção da politica orçamental grega (e, a média prazo, do conjuntos dos países da zona euro). Pouco provável devido à oposição alemã (mas quando os dominós - Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda, Itálias e uma carrada de bancos comerciais - começarem a cair, pode ser que isso se altere)

D) Solução (mais ou menos) revolucionária: com a crise económica, o poder cai na rua e grande parte das empresas à beira da falência são ocupadas pelos trabalhadores que as repõem a produzir.Haverá também uma contracção da economia, mas compensada por uma melhor distribuição. Este hipótese em estado puro é pouco provável, mas já me parece mais expectável uma mistura entre esta hipótese e a "solução nacionalista burguesa" atrás referida (no fundo, foi o que aconteceu na Argentina).

Após um ano, a re-análise:

- A hipótese A parece posta de parte

- A hipótese B (em maior ou menor grau) continua a ser uma hipótese possivel, sobretudo a partir do momento em que a oposição de direita também já defende a renegociação dos acordos com a UE/FMI e parece inclinada a votar contra novas medidas de austeridade. Aliás, convém dar uma olhada à biografia política do actual lider conservador grego, Antonis Samaras: nos anos 90, fez cair o governo do seu partido e criou outro durante alguns anos (até voltar à "Nova Democracia") porque achava-os muito "brandos" na questão (do nome) da Macedónia; ou seja, parece-me o típico "nacionalista burguês"

- A hipótese C parece avançar dificilmente, mas ao mesmo tempo está a avançar, logo ainda é uma saída possivel

- As perspectivas da hipótese D estão a melhorar: é verdade que parece não haver uma situação pré-revolucionária a nível dos locais de trabalho (como ocupações), mas já há sinais de estar a nascer uma democracia directa paralela à "democracia burguesa"; também é um sinal promissor a existência de movimentos radicais com alguma implantação entre o povo grego (pelo menos dois dignos de nota - o forte movimento anarquista, sobretudo entre os estudantes; e, dentro do jogo parlamentar, a SYRIZA / Synaspismos)

5 comentários:

Anónimo disse...

Corajoso artigo e com belíssima síntese final. O " dossier " é enorme, no entanto. Por exemplo, o Bloco de Esquerda grego- de que faz parte o Synapizm - alberga mais de uma dúzia de organizações. Há uma nítida fractura entre o poder " democrático ", vergado aos diktats da troika, e a espontaneidade das massas em revolta. Forte tensões sociais urbanas e sinais de uma luta social crescente: acções tipo Robin Hood contra Supermercados para " desviar " mantimentos para os deserdados e vitimas sociais da austeridade. O site www.infoshop.org fornece algumas das melhoras análises e referências sobre a guerra social na Grécia! Niet

one hundred trillion dollars disse...

a Grécia suspende os pagamentos da divida externa, e os empréstimos futuros lança a geração dos 700 euros

para os 300 em paridade de poder de compra em semanas

congela as contas bancárias durante alguns meses anos na Argentina tirou-se 100 dólares por mês durante.....


e abandona o euro, desvalorizando o "novo dracma" para estimular as exportações.....e quais exportações

ainda ficou com menos indústria que nós

e os turistas com maior poder de compra não vão por isso gastar mais

eu lembro-me dos supermercados Delta e Pão de Açúcar sem nada nas prateleiras, filas de pessoal para comprar pão e o pão chegar ao fim...

nunca chegámos às filas das 200 gramas de carne por mês da URSS
porque havia muitos talhos muitos gatos e cães e a carne de burro

e menos pombos nas praças

os gregos continuam com muitos pombos

nós idem...e gatos

Chalana disse...

Ó bacano: é só para lembrar que a maior e mais sólida força de esquerda na Grécia é o PC Grego. Tal como em portugal, estás a ver?

Anónimo disse...

... "só para lembrar que a maior e mais sólida força de esquerda na Grécia é o PC Grego."

Bacano,ó: deve ser por isso que os manifestantes estão neste momento a atirar yogurts aos deputados do PC grego...

Anónimo disse...

A grande frente de extrema esquerda - m-l, trotskista, ecologista - parece ser a terceira força política da Grécia. E os autónomos e grupos anarquistas emprestam-lhe uma vitalidade enorme e salutar, sr. Chalana. Os comunistas - muito estalinistas- estão divididos em duas tendências. Niet