06/04/11

Péssimo sinal

Comentando na caixa de um post do Tiago Mota Saraiva o desaparecimento da primeira página do esquerda.net de um artigo de João Teixeira Lopes, que se pronuncia contra a eventualidade de uma coligação pré-eleitoral do BE com o PCP, escreve João:

Bom sinal, o esquerda.net encarregou-se de fazer desaparecer num ápice o artigo do JTL. Não é um bom método mas é por uma boa causa.


Em geral, quando aprovamos os maus métodos em nome da bondade da causa, esta rapidamente tende a degradar-se e a excelência dos fins invocados transforma-se numa justificação ideológica de um poder hierarquicamente exercido e em benefício de interesses hierárquicos.
Calar, no interior de uma das partes, uma voz minoritária — se é que silenciamento houve, do que não estou seguro —, sobretudo quando se discutem questões de fundo, porque isso pode prejudicar um entendimento de cúpula, mina à partida a natureza do acordo em perspectiva entre as outras duas partes. É péssimo sinal que, para facilitar o entendimento com um outro partido, uma força como o BE comece - se é que foi disso que se tratou - a condicionar a liberdade ou visibilidade de expressão dos seus militantes. É o mínimo que pode dizer alguém que sempre esteve bastante distante politicamente de JTL, muito mais distante do que de outros militantes ou simpatizantes do Bloco.

8 comentários:

Anónimo disse...

MSP: Dizes muito bem e a tempo certo:É um péssimo sinal que mostra - atenção também para o audacioso comment do Justiniano no post de Raquel Varela no 5Dias-o estado do " real " oportunismo político e teórico em que se encontra o B.E.Salut! Niet

الرجل ذبح بعضهم البعض ولكن الخيول باهظة الثمن disse...

é um sinal da ilusão dos tempos

há aqueles que aspiram ao poder

e aqueles que simplesmente aspiram

João disse...

João Teixeira Lopes não é um simples militante, é um dirigente do BE (Comissão Política) e é expressamente nessa qualidade que assina o artigo. Quando o Louçã soube mandou enviar a coisa para o purgatório. É assim a política.
Parece-me tão óbvio que ainda estou estonteado com o meu breve comentário promovido a leitmotiv de um post.
Bem hajam :-)

Miguel Serras Pereira disse...

Caro João,

tudo bem, é como diz, mas a sua tese sobre a legitimidade de maus métodos contanto que a causa seja boa mantém-se, bem como a minha oposição a ela.

Não se tratava de discutir a justeza do ponto de vista do JTL. Embora sem subscrever as suas conclusões - mas menos ainda a que me parece ser a do TMS e outros -, posso acrescentar que, do ponto de vista da defesa do BE enquanto força efectiva e organização, o JTL não deixa de ter razão nalguns pontos. Quer dizer, tudo o que equivalha a suspender ou dissimular as diferenças entre os dois partidos por meio de listas conjuntas devidamente filtradas e limadas por negociações de bastidores (ainda que com independentes num papel mais ou menos decorativo) será um passo desastroso para o BE e, acessoriamente, terá por efeito verosímil fazer com que o todo seja menor do que soma das duas partes. Isto parece-me uma verdade elementar e proclamá-lo parece-me ser um reflexo de legítima defesa por parte dos militantes ou simpatizantes do BE que assim entendem. Faço notar, no entanto, que, mantendo ou vincando as diferenças e insistindo no seu carácter não caprichoso ou estético, mas politicamente substantivo, não será impossível estabelecer os pontos concretos de um compromisso comum.

Dito isto, a minha perspectiva não valoriza tanto as lides eleitorais como o JTL, o TMS, o próprio João e muitos outros. A linha passa,a meu ver, e como escrevi há semanas, "entre os que pensam ou agem como se o problema fosse termos um melhor governo e os que apostam — implicando isso, como indico adiante uma extensão urgente da acção à escala da UE, etc.. — numa orientação, a assumir desde já, ainda que a sua plena concretização possa parecer remota, a exigência de outra forma de governo, de poder político, de funcionamento económico, que ponha na ordem do dia uma mudança de regime, a ruptura ou 'reforma revolucionária' (chamem-lhe como quiserem, contanto que a terminologia não sirva só para aumentar a confusão) de uma democratzação consequente, insituinte de novas relações de poder.
A opção pela segunda alternativa implica desde já, não o abandono completo e sumário do chamado 'plano institucional', mas a adopção e extensão de formas organizativas democráticas radicais que efectivamente revolucionem o regime das lutas ou do fazer política dominante".

Também "não se trata de uma perspectiva maximalista, no sentido de equacionar a cada momento todas as questões em termos de 'tudo ou nada'. E endereça-se não apenas aos que prevêem que os fins propostos tenderão a implicar uma mudança global brusca e discreta, mas aos que, achando pouco verosímil que a mobilização maioritária dos cidadãos inseparável dos objectivos propostos (o autogoverno político, uma economia política democrática, a participação governante igualitária, etc.) possa ser instantânea, nem por isso desistam de organizar de acordo com eles a sua acção e propostas imediatas".

Assim, "espera-nos, em meu entender, um período relativamente prolongado durante o qual a transformação do regime, a instauração de formas alternativas de poder político central, não será imediatamente possível. O que não quer dizer que a influência política do que as defendem tenha de ser menor ainda do que é hoje, ou não possa crescer e produzir efeitos profundos e sensíveis, fazendo recuar a ofensiva oligárquica, num quadro em que o governo seja assumido mais declaradamente pelo chamado bloco central".

(continua)

Miguel Serras Pereira disse...

(continuação)

Do mesmo modo, "é verosímil que a recomposição político-partidária explícita do bloco central permita clarificação e desenvolvimentos significativos:
(…) é possível que a área do PS e o próprio partido conheça algumas convulsões, recomposições, rupturas, libertando energias que terão repercussões na área do BE e imediações. Por outro lado, a oposição ao novo governo sairá reforçada e isso criará condições para que o combate deixe de ser fundamentalmente por outro governo, para reivindicar mudanças de regime - sendo que aqui se terá de jogar a cartada europeia: formular com outras formações e forças da UE uma carta de reivindicações e princípios 'constitucionais', repolitizando explicitamente a economia política vigente contra o neoliberalismo e a oligarquia financeira e promovendo a participação democrática dos cidadãos, etc, etc."

Creio ser "também razoável apostar que, sem governos com cosméticas de 'esquerda', o campo da cidadania democrática possa sair reforçado e exercer uma influência muito maior do que até ao momento no curso das coisas. A oligarquia conservará no imediato o governo, mas poderá ser abalada e forçada a recuar".
(cf. http://viasfacto.blogspot.com/2011/02/ainda-sobre-anunciada-mocao-de-censura.html)

Por fim, é a esta luz que deveremos debater e estabelecer as bases e prioridades de qualquer plataforma política alternativa digna desse nome.

Saudações democráticas

msp

Anónimo disse...

MS.Pereira: Moveste como " peixe na água " no redemoinho da luta de classes em Portugal. De qualquer modo, não " sentes " que há um " poker " político insinuado pela direcção do B.E.?No justo sentido de tentarem uma " abordagem " e um controlo político da Esquerda,pelo menos da que se situa à esquerda do PS, enfim? Depois das grandes e fortes manifs ao longo de 2010- de mais de 250 mil militantes sindicalistas com uma determinação de classe excepcional- o BE só podia tentar um take-over táctico- mas liderante e cientificamente organizado, como reiteraram Lénine e Trotski. E por um processo de luta incessante- dobrando o espirito militante burocrático do PCP- o BE vai tentar a hegemonia e reconquista das posições de força, dentro e fora do parlamento e nos sindicatos. Para mais tarde " negociar " com um novo PS um " acordo político " de governo? Esperemos, sem concessões maiores, que as massas sejam mais revolucionários do que o(s) partido(s), e o(s) partido(s) mais revolucionário(s) que o aparelho desse(s)
mesmo(s) partido(s)...Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Niet, as tuas apreensões são, decerto, motivadas e podem apoiar-se em numerosos indícios. Resta que o BE - para o melhor e para o pior - pouco tem, já não digo de um "bloco", mas de um movimento suficientemente homogéneo… Vamos, portanto, vendo o que fazeem os seus militantes e formular o nosso juízo a partir dos diversos "discursos da acção" a que o BE vai dando origem. Os seus vícios são patentes e não me tenho cansado de os sublinhar…

Bom vento, pois. Salut et liberté

msp

Anónimo disse...

Parece que o B.Esquerda perdeu 50 por cento nas sondagens! Isso quer dizer o quê? E como influencia a sua táctica de " aroximação " ao PCP? Mas continuo a pensar que o B.E, tem outra representatividade política- conquistada palmo-a-palmo - do que o PCP de Jerónimo e Bernardino Soares. Niet