07/07/10

Futebol, Kissinger e Maradona

Anda para aí uma azáfama em torno das relações entre esquerda, política e futebol, mas, como a coisa não é simples, nós vamos por partes. Em relação a isto e a isto, a ver se nos entendemos: sim, a competição é má e deve ser eliminada da face da terra em todo e qualquer domínio. Mais ainda, diríamos nós: os eliasianos primários, por exemplo, talvez leiam um pouco apressadamente o velho Norbert quando dizem que o futebol é bom porque leva a guerra para um território inofensivo e permite conter a famigerada agressividade humana dentro de quatro linhas. Ora isto é tão estúpido que nem os tipos do Comité Olímpico Internacional compram a coisa (só a vendem). Nós, as pessoas normais, sabemos todas que não há territórios inofensivos e outros ofensivos e que o que se leva para um sítio não tem problemas em mais tarde ir passear para outro sítio. É aliás evidente que nada do que está vivo se contém dentro de quatro linhas que sejam. Erro semelhante, este de arrumar as coisas por gavetas, é o que cometem os mourinhistas que passam a vida a dizer ao povo que o homem está cheio de virtudes privadas (não bate na mulher e é um pai carinhoso) e que por isso não devemos sobrevalorizar os seus vícios públicos (desanca em tudo o que mexe à sua frente, basicamente). Tudo isto é uma treta se não existir nenhuma muralha da babilónia a separar nem público e privado nem paz e guerra. Se existir, digam-me onde está.

06/07/10

É crime denunciar crimes de guerra?

Esta notícia do Público.es dá-nos conta do modo como o Exército dos EUA pretende criminalizar e punir a denúncia dos crimes de guerra, ou seja: dos atentados à legalidade e às convenções internacionais que um soldado que não deixe de ser cidadão tem o dever ético e político de denunciar:


El ejército de Estados Unidos ha presentado cargos criminales contra un soldado acusado de filtrar las imágenes de un ataque desde un helicóptero en el que murieron 12 civiles en Irak en 2007, entre ellos el fotógrafo de Reuters Namir Noor-Eldeen y su conductor, Saeed Chmagh.
El soldado Bradley Manning, ha sido procesado por transferir datos clasificados como secretos a su ordenador personal y transmitirlos sin ningún permiso a una tercera parte.
En el vídeo, los soldados se mofan diciendo: "mira esos bastardos muertos"
En las imágenes del vídeo se podía escuchar como los tripulantes del helicóptero estadounidense pedían permiso a su superior: "Vamos, déjanos disparar". También se reían a carcajadas tras disparar contra el grupo y se mofaban diciendo: "mira esos bastardos muertos".

Não seria caso de reivindicarmos para Bradley Manning o Nobel da Paz, ou outro prémio mais credível do que o Nobel? E de exigirmos que seja declarada fora da lei a justiça militar?

Uma breve apologia do fora-de-jogo


Eu não anatematizaria o Homo Ludens, nem considero que a política deve ser cartesiana – muito pelo contrário –, mas, na esteira das dúvidas aqui expostas acerca do potencial emancipatório do futebol – instalo-me de imediato no plano imanente do jogo, da sua “metapolítica” –, i.e., de um desporto que não pode prescindir da dualidade entre vencedores e derrotados, cujo sentido é, inevitavelmente, o da lógica teleológica do golo e que sanciona o “fora-de-jogo” (essa quase sempre subtil transgressão de uma linha virtual, esse ser excessivo no ímpeto atacante ao ponto de se encontrar numa posição irregular) – não posso evitar interrogar-me – numa assumida e amigável provocação – se não veiculará o futebol, mantendo a analogia metapolítica com o pensamento de esquerda, uma concepção demasiado ortodoxa do “antagonismo”.

Alguns Toureiros (um poema de João Cabral de Melo Neto, aqui postado como quem alvitra o mote de mais uma faena ao camarada João Tunes)


Alguns Toureiros
A Antônio Houaiss

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.

Não sabia que o Daniel era um contra-revolucionário tão tão importante

O Daniel Oliveira é um emissor de soundbytes cuja aparição diária nos meios de comunicação mais influentes não resulta senão no enfraquecimento ideológico de quem quer combater a ordem dominante.

Ai vais ao paredón, vais, renegado Daniel.

Conversa entre um roto e um nu

O Renato Teixeira, que devia andar de bibe na época…




... mais friamente o próprio Vítor Dias achará pouco ético se em resposta eu o atacar adivinhando a sua incontinência...

As máquinas que nos informam (1)

Em Abril de 2002, surgia, ainda em versão beta, o serviço Google News. Na aparência tratava-se apenas de mais um agregador de notícias; uma página web que acumulava pequenos excertos de notícias sobre os mais diversos temas, fornecendo ao utilizador links para se dirigir à fonte de cada uma. Jornais, rádios, estações de TV, agências noticiosas, blogues, press releases, todos estes media podem contribuir, voluntariamente ou não, ou através do chamado deep linking (afixação de links para conteúdos específicos organizados e publicados em páginas de terceiros), para a acumulação de artigos e fotografias de um site agregador de notícias.
Que o Google, marca que até aí se entrincheirava na pesquisa pura e dura, recusando-se à metamorfose em portal generalista — opção de inúmeros concorrentes, do global Yahoo! ao português SAPO — tenha por fim inaugurado um serviço noticioso, foi uma consequência curiosa do 11 de Setembro. Após os ataques, os acessos de internautas ao serviço de pesquisa do Google inflacionou-se de imediato: nesse dia, a busca de temas noticiosos aumentou 60 vezes em relação à média.
Mas o tráfego gerado na Internet pelos milhões em busca de notícias foi demasiado para os servidores da maioria dos jornais e estações de TV; os erros por congestionamento tornaram-se frequentes.
Mas nada fez vacilar o mastodôntico poder computacional do maior motor de busca do mundo (hoje em dia, conta com mais de 175.000 computadores, quantidade superior à existente em todo o mundo nos finais dos anos 70) Ainda no dia 11, a página inicial do Google integrava uma primeira resposta a esta emergência:
Uma resposta no mínimo curiosa, aceitando a primazia dos media tradicionais e dando-lhes lugar. Mas não deixava de apresentar uma novidade que ainda hoje se mantém polémica: a apresentação de cópias guardadas em cache de conteúdos alheios. Uma novidade que se viu reforçada poucas horas depois, com um novo quadro que já evitava a recomendação da TV e da Rádio...

Que dupla (Serrat – Hernández)!

Em Espanha, hoje, não se levantam muitos pruridos em considerar Miguel Hernández (1910-1942) um dos grandes poetas da cultura hispânica. E se os há é por consideração e nojo porque Hernández combateu contra o franquismo e pela República de armas na mão na guerra civil (1936-39) e pelo seu cativeiro nas prisões do fascismo espanhol onde encontrou a morte aos trinta e um anos de idade, após, perdida a guerra, ter sido aprisionado na fronteira com Portugal por onde tentava fugir, em que os esbirros da PIDE o entregaram aos carrascos de Franco. Miguel Hernández, felizmente, há muito encontrou quem o cantasse e muito bem (referindo-me, é claro, ao enorme Joan Manuel Serrat).

Neste ano em que se comemora o centenário do nascimento de Miguel Hernández, Serrat tem feito uma digressão por Espanha com recitais cujo reportório se compõe exclusivamente de canções com os poemas de Hernández. Começou em 23 de Abril em Elche e termina a 30 de Outubro em Orihuela, terra natal de Hernández. Fica uma amostra de Serrat cantando Hernández:




(publicado também aqui)

O industrial da coisa não gosta de concorrência?

«Talvez tudo fale para o soundbyte porque as pessoas só prestem atenção aou sundobyte. Basta ver o sucesso de Medina Carreira para perceber que é o soundbyte que pega.»
Daniel Oliveira. Imagine-se.

Com dedicatória plena de humildade e contrição, e alguma vergonha, para o camarada e amigo Miguel Serras Pereira

Frases soltas do escritor húngaro Peter Esterházy (Budapeste, 1950):

“Numa ditadura toda a gente procura um caminho de evasão. Quando chega a liberdade não se sabe que fazer com ela, estamos preparados para sobreviver não para viver. O comunismo terminou com as incertezas, isso é asfixiante mas tranquilizador.”

“ O futebol é um ópio, sim. Até que termine o Mundial não falaremos da crise, mas sim se Xavi lidou bem com a bola. Quando derrotaram a revolução de 56 produziu-se uma depressão na Hungria, mas para muitos saber que Puskas jogava no Real Madrid era um sinal de que havia que continuar a lutar-se. Foi um auto-engano, é claro, mas assim funcionam os mitos.”

“Os que dizem mal do futebol têm razão, a sua degradação é um facto, mas eu não vejo os aspectos repugnantes que o rodeiam, só o que acontece dentro de campo, e o jogo de futebol pode ser tão refinado que satisfaça as exigências do intelectual mais pedante. Não me interessa a violência, a corrupção… Poderíamos dizer que fracassei como intelectual: gosto de futebol.”

João César das Neves: os sacerdotes católicos não transmitem civilização

"O casamento é a realização mais espantosa da humanidade. A mais utilizada forma de transmitir a existência e a única eficaz de transmitir a civilização."

05/07/10

Plágio descarado

Compare-se este texto com este outro. E verifique-se o estado de preguiça intelectual e política a que chegou o senhor deputado. Assim é certo que não corre o risco da perigosa heterodoxia mas usar uma coluna de opinião num jornal diário (JN) para plagiar comunicados partidários torna o combate de ideias num enfadonho toque de vuvuzela.

(publicado também aqui)

Bernard-Henri Lévy e os neokantianos do Paraguai


En su obra De la guerra en filosofía, que amplía un texto que pronunció ante los estudiantes de la Ecole Nationale Supérieure, Bernard-Henri Lévy cita a Botul, un supuesto especialista en Emmanuel Kant autor de ciertas conferencias a los neokantianos de Paraguay.
Bernard-Henri Lévy confesó el lunes que citó varias veces La vida sexual de Emmanuel Kant, libro presentado como una obra de Botul. "Pero hemos visto que se trata de una broma", reconoce en el sitio internet de su revista La Règle du Jeu.
"Una muy brillante y muy creíble patraña salida del cerebro bromista de un periodista del Canard Enchainé, dicho sea de paso, buen filósofo", observa Levy. "Y caí en la trampa, como cayeron los críticos que lo elogiaron en el momento de su salida. De golpe sólo hay una cosa que decir, y de buen corazón: "¡felicitaciones artista!", concluye el filósofo.
Revista Ñ

Jogos Florais

Medram em Portugal os concursos literários. Não há autarquia com um vulto local para polir que não se lembre de lançar a sua competição. Prémios de poesia, de ensaio, de ficção, de melhor receita de cozido. Isto em si nada de mal tem. O pior é quando nos lembramos de ir ver/ler quem é que afinal colhe os louros nestas tão descentralizadas e meritórias iniciativas.
Tomemos por exemplo o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela câmara municipal de Santiago do Cacém. E partamos à descoberta de uma das últimas obras a sofrer a sua distinção: A Sul da Escrita, de Dora Nunes Gago.
Declaradamente uma espécie de «panteão espiritual» de escritores nascidos entre o Alentejo e o Algarve, esta recolha de contos parece apostada em deixar explícitas as suas balizas geográficas, apelando a imagens tão potentes como inovadoras: o «canto trinado das cigarras», o «odor amarelecido do feno aquecido pelo sol quente», o «cheiro forte da terra molhada e criadora». Esta pulsão telúrica, mesmo ao gosto dos centos de júris que pululam por essas províncias literatas, promete coisa boa. Lamentavelmente, só posso contar com excertos encontrados na net, pois não levo a maluquice ao ponto de gastar dinheiro nestas coisas.
A obra arranca com Os últimos dias de Ibn Amar. Na sua cela, o poeta explica-nos que «Corre o ano de 1086», o que não deixa de demonstrar um peculiar apreço pelo calendário juliano. Minudências. O melhor é mesmo a riqueza lexical, a originalidade das imagens, a força das metáforas. Ele há para todos os gostos: «os maduros raios de sol oferecidos ainda vagamente pelo crepúsculo», «o seu calor doce na minha pele», o tempo que é «semelhante ao corpo mole e lânguido de uma serpente», «o corcel de vento que montei em tantas batalhas». Tudo redimido, mesmo a tempo, pela obra do poeta, «depurada de toda a vileza e traição».
Se acham que o pobre Ammar sofreu tratos de polé, olhem que António Aleixo se vê «a caminho do hospital, quase deitado no chão da carroça do seu vizinho, para ver se adormece a dor e a agonia.» Não se alarmem, almas sensíveis, que «quando deixar a vida, é nessas quadras soltas que a sua alma continuará viva, permanecerá de geração em geração, a ensinar a profunda e sincera filosofia da vida». E ainda há um outro desgraçado que, mesmo prestes a fenecer, descobre que as «cores pujantes da natureza se convertiam em poesia». Isto dá arrepios. Dos maus.
Sendo que o referido prémio é bienal, será que isto é mesmo do melhor que em matéria de ficção curta se produziu em Portugal, durante 24 meses? Pondo a questão de forma menos caridosa: mas a que mentes lembrará premiar estas redacções liceais? Parece-me algo obsceno que se gaste bom dinheiro (o tal prémio atribui 5.000€ ao vencedor) na promoção de má literatura infanto-juvenil. Ficam iludidos os vencedores, mais pobres os cofres municipais e à toa os leitores, que são levados a comprar gato (prosinhas sem jeito) por lebre (um prémio tende a ser visto como selo de garantia).
Palpita-me que se a palavra “provincianismo” tiver um significado mesmo negativo é para usar a propósito de coisas assim.

Neo-liberalismo da asneira

Pela mão da sempre atenta Shyznogud, descubro que João César das Neves reincide na tentativa de transformar o mundo num enorme festim nu. Depois de se ter referido ao «totalitarismo do orgasmo», fala agora de «fundamentalismo erótico», essa perversa estratégia social que visa anular o casamento e ridicularizar a procriação. Os próximos artigos já estão escritos e abordarão, por esta ordem, o «comunismo do roço», o «fascismo do beijo» e a «dildização das almas».

Comunicado da PLATAFORMA DO TEATRO


O anunciado corte de 10% dos apoios do Ministério da Cultura já contratualizados com todos os agentes culturais decorre da cativação de 20% no orçamento do MC. No entanto, o orçamento do MC tem vindo a ser reduzido de forma drástica nos últimos anos e é um dos mais baixos da Europa. Apesar disso, o trabalho dos agentes culturais tem um impacto positivo crescente na economia portuguesa. Os agentes culturais têm criado cada vez mais riqueza, o que torna as estruturas e trabalhadores da cultura num exemplo de solidariedade com as dificuldades económicas do país e de sucesso no esforço de crescimento com que Portugal é hoje confrontado. Neste sentido, os cortes anunciados são profundamente injustos.
A Senhora Ministra Gabriela Canavilhas considera os cortes anunciados “uma redução de uma pequena parte das verbas”. Trata-se, é certo, de uma parcela residual no esforço global que é exigido a todo o país. No entanto, dada a precariedade do meio cultural e artístico, tal como a ausência de protecção social dos trabalhadores desta área, qualquer redução das já parcas verbas atribuídas aos agentes culturais tem um impacto tremendo e fará entrar em recessão uma actividade que está em crescimento. Ou seja, cortar pouco dinheiro numa actividade que já tem muito pouco, tem efeitos mais graves do que cortes iguais em actividades onde os apoios são muito mais significativos. Neste sentido, os cortes anunciados são desproporcionais e desiguais. São também ineficazes, uma vez que causam estragos irreversíveis no tecido cultural e artístico. Diversos projectos serão cancelados sem grandes benefícios no combate ao défice, uma vez que, como a própria titular da pasta assume, são “pequenas” as verbas resgatadas. É, assim, em nosso entender uma medida incorrecta que não defende nem o esforço de redução da despesa pública, nem a população portuguesa nem os agentes culturais.
O corte de 10% de todos os apoios estatais aos agentes culturais de todas as áreas é anunciado pela Senhora Ministra da Cultura como a “única forma” de assumir compromissos anteriores e novos financiamentos para 2010. No entanto, a tutela esquece-se de mencionar a total ausência de informação por parte da Direcção Geral das Artes em relação aos apoios anuais e pontuais já atribuídos e por atribuir. Estes cortes são anunciados num momento em que os atrasos nos concursos e a total ausência de comunicação por parte do MC, tinha já lançado o tecido artístico e cultural num impasse impossível de suportar.
Ainda que se entenda que, num conjunto de medidas de restrição orçamental em todos os sectores, o Governo não queira criar nenhuma situação de excepção que pudesse descredibilizar perante a opinião pública o conjunto dessas medidas, também nos parece inaceitável que os cortes no financiamento se transformem, no caso da produção cultural, em medidas de penalização de um sector que contribui generosamente para uma valorização do país contando apenas com verbas de apoio Estatal extremamente reduzidas. E muito menos aceitável que as medidas possam ter carácter retroactivo, obrigando os produtores culturais a pagar ao Estado verbas que já gastaram e que acreditaram que lhes tinham sido atribuídas, destinadas a viabilizar projectos de utilidade pública. Tais medidas retroactivas viriam a pôr em causa a própria boa fé do Governo aquando da atribuição dos apoios, como se afinal não julgasse essas verbas necessárias.
Também é difícil de aceitar que o próprio Ministério da Cultura desconheça os mecanismos de produção e não entenda como em tantos casos (os mais organizados), baseados nas anunciadas e tantas vezes já contratadas atribuições de apoios, será impossível voltar atrás na programação prevista e cancelar compromissos já assumidos com terceiros.
Dado que no orçamento geral do Estado as verbas destinadas à Cultura pesam afinal tão pouco e que os produtores culturais tanta generosidade têm demonstrado trabalhando com verbas tão escassas para a valorização cultural do país, (e uma breve comparação com os custos de produção de outros países europeus imediatamente o confirmaria), julgamos que seria indispensável uma mais profunda revisão das medidas de restrição anunciadas pela Senhora Ministra da Cultura.

PLATAFORMA DO TEATRO

Ar de Filmes
Artistas Unidos
Barba Azul
Casa Conveniente
Chão de Oliva
Joana Teatro
Mala Voadora
Mundo Perfeito
O Bando
Primeiros Sintomas
Qatrel
Teatro da Comuna
Teatro da Cornucópia
Teatro da Garagem
Teatro da Rainha
Teatro do Vestido
Teatro dos Aloés
Útero

Nota: Amanhã, às 18h30, terá lugar uma reunião de vários profissionais do sector no Teatro Maria Matos 

Os Seres Humanos em geral e o PCP em particular

Se eu fosse cientista político, um dia fazia uma tipologia intitulada “Os Seres Humanos em Geral e o PCP em Particular”. Inventariaria então vários tipos, aqui alinhados de modo algo aleatório: a) os seres humanos que são membros do secretariado do Comité Central do PCP; b) os restantes dirigentes do PCP; c) os militantes do PCP que não são dirigentes; d) os eleitores da CDU que não são militantes do PCP; e) os que não são do PCP mas são comunistas; f) os que não são comunistas mas não são anti-comunistas; g) os ex-militantes do PCP que votam no PCP; h) os ex-militantes do PCP que odeiam o PCP; i) os que votam no PS ou no BE porque o PCP será demasiado provinciano; j) os que votam no PCP porque apesar de tudo no PCP ninguém rouba; k) os que gostam do PCP porque o gajo do sindicato é chato mas mais vale ele existir do que ele não existir; l) o José Pacheco Pereira; m) alguns pequenos negociantes, como um meu ex-vizinho, que era incapaz de não sorrir no dia do funeral do Cunhal; n) o povo anti-comunista em geral, como o gajo que passou por mim num Renault 5 no dia do funeral do Cunhal e começou a chamar nomes a uns camaradas que levavam consigo uma bandeira vermelha; o) os militantes do PCP que não querem uma aliança com o PS mas que não fazem disso uma questão de princípio; p) os militantes do PCP que jamais quererão uma aliança com o PS; q) os militantes brejnevistas; r) os militantes estalinistas; s) os militantes que se estão a cagar para a História da URSS; t) os militantes de Os Verdes; u) o grande capital, mas também o médio e o pequeno; v) os esquerdistas em geral, embora com diferenças importantes entre si; w) os jornalistas em geral, e neste caso digo bem quando digo em geral; x) os dirigentes comunistas chineses (já alguém se perguntou o que eles pensarão acerca do PCP, que lugar lhe reservam no quadro das suas relações internacionais?); y) a direcção do jornal Avante!; z) eu próprio, é claro, que isto de fazer tipologias com a vida dos outros é demasiado fácil.

Os novos feijões mágicos: a venda da Vivo

No Insurgente, o pessoal descobriu por fim a solução para os problemas da nossa economia. Bastava ter vendido a Vivo para que tudo entrasse finalmente nos eixos.
Partindo do princípio que o pilim iria todo para os accionistas (o que deixaria em mistério as razões empresariais, da PT, para a venda), os milagres multiplicar-se-iam: «a tão necessária desalavancagem e melhorar os credit ratings de Portugal e da banca portuguesa (ou seja, mais dinheiro disponível para emprestar às nano-mini-micro empresas portuguesas). Os impostos sobre esta distribuição de dividendos ajudariam a baixar o défice em cerca de 0.8% do PIB».
E, claro está, o negócio era imperdível: só por clara estupidez e cegueira estratégica é que a Telefónica quer pagar tanto por um activo «numa indústria que está em estagnação, ou declínio, um pouco por todo o mundo».
Pronto. As telecomunicações estão afinal a dar o berro e o dinheiro desta venda iria espalhar-se prodigamente pela banca, dissolvendo as ameaças dos ratings e trazendo a todos a felicidade, a saúde e o fim das guerras.
Agora, à pala de malta que não quer perder de vista as «amantes brasileiras», cada português corre o risco de «chegar ao banco» e descobrir «que não pode fazer um crédito à habitação ou, quem sabe, levantar os seus depósitos». Tudo porque uns sacanas gostam de «orgias».
Devia haver um Nobel para o simplismo militante.

Salaam Shalom



Este post do Luís Januário trouxe-me à memória esta velha canção de Brel, que aqui deixo em solidária homenagem ao seu texto. .

04/07/10

Dois aforismos religiosos de Juan Goytisolo

De uma crónica em que cada parágrafo é um aforismo, publica em El País, por Juan Goytisolo - Burbujas de una mente asfixiada - dois exemplos:


Ao imolar-se num atentado suicida do qual foi a única vítima, o terrorista que ascendeu ao paraíso descobriu, contrariado, que as virgens de olhos negros e abundante cabeleira com que sonhara usavam burka.


O meu reino não é deste mundo, disse Jesus. O meu mundo não é deste reino, rectificou Bergamín. Sua Antiguidade Bento reafirma, solene, a sua pertença aos dois.

Deixa-os pousar, Zé

Sobretudo ao António Pedro Vasconcelos. Enquanto estiver entretido a emitir parvoíces sobre o Ronaldo, não escreve disparates como os que rechearam a sua última coluna no Sol. Coisa que fecha com este belo exercício de ressaibo: «entretanto, em Portugal, em que a produção e cinema continua na mão estranguladora do Estado, em que os produtores não têm margem de iniciativa, em que se exporta a ideia de que temos por cá génios caseiros que suscitam a inveja do mundo inteiro, há quem teime em fazer filmes para a Cinemateca e discutir o sexo dos anjos.» Acima de tudo: enquanto o homem discute o sexo do Ronaldo, não está a inventar cagalhões que não passam de mostruários de mamas disfarçados de filmes, como Call Girl ou A Bela e o Paparazzo.

Ao que isto chegou

O Prós e Contras de amanhã tem como tópico "O facto de Cristiano Ronaldo ter sido pai durante o mundial perturbou a sua prestação ao serviço da equipa de Portugal?". Sinceramente, quero ver no que a coisa vai dar, porque ao que isto chegou não há dúvidas. Entre os participantes, diz o anúncio do programa, estarão o Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, o presidente da FPF, Gilberto Madaíl, o historiador Vasco Pulido Valente e o cineasta António Pedro Vasconcelos. É a isto que chegou a televisão pública, com a moderação sempre atenta de Fátima Campos Ferreira.

Sócrates explicado às criancinhas

O quase-engenheiro garante-nos que a decisão de inviabilizar a venda da Vivo foi "racional"; não "política".
Esta antinomia define um governante. A política é coisa de instinto, negócios sérios são para usar a cabeça. Mas isto descreve bem uma certa forma de estar na política: por norma a auto-preservação, a agressividade, a gula e o egoísmo são mesmo domínios do instinto, não da razão.

Europa: uma perspectiva republicana

Independentemente da discussão que outros aspectos das suas formulações, aqui ou noutros lugares, mereçam, esta passagem de uma entrevista de Étienne Balibar ao Público.es, sublinhada pela Joana no Brumas, põe algumas das questões certas, tanto no que se refere à Europa como às oportunidades e actualidade da democracia. À pergunta do entrevistador, Amador Fernández-Savater, sobre se a crise em curso não nos confrontará com o fim do "sonho europeu", a resposta de Balibar põem em cima da mesa os seguintes pontos de partida:
No tengamos miedo de responder: sí, inevitablemente, a mayor o menos plazo y no sin algunas violentas sacudidas, a no ser que consiga reinventarse sobre nuevas bases. Su refundación no garantiza nada, pero le da algunas oportunidades de ejercer una fuerza geopolítica, en su beneficio y en el de los demás, a condición de asumir los inmensos desafíos de una federalismo de nuevo tipo. Este desafío tiene un nombre: potencia pública comunitaria, es decir, algo distinto tanto de un Estado como de una simple “gobernanza” de políticos y expertos; igualdad entre las naciones (frente a la competencia) y renovación de la democracia en el espacio europeo (frente a la “des-democratización actual, favorecida por el neoliberalismo y el “estatismo sin estado” de las administraciones europeas, colonizadas por castas burocráticas).
Será difícil enunciar muitos outros mais urgentes.

Futebolização da Política

Ao ler, no 5dias, este post e mais este - e outros poderia citar, mais antigos, alguns dos quais publicados aqui no Vias, pergunto-me se não seria recomendável assegurar que a salutar análise política do futebol, ou a politização da crónica deste, evitasse, a bem da lucidez democrática e também do lugar político do próprio futebol, a futebolização da política.

02/07/10

Ainda sobre o nacionalismo transnacional tuga

Vou fazer um desenho para me explicar melhor para quem não conseguiu ou não quis entender o que escrevi antes sobre a trapalhada Vivo / PT / Telefónica.
Se “a utilização da Golden Share no chumbo da aquisição pela Telefónica da participação da PT na Vivo, confirma a necessidade de uma política que defenda os interesses e a economia nacional, que garanta um sector das telecomunicações eficiente, moderno e público, com custos acessíveis e como factor de desenvolvimento equilibrado do país”, e o conceito de “nacional”, “público” e “país” for transfronteiriço (isto é, aplicável aqui, no Japão, na Bielorússia e até no Brasil), o que temos, na questão da Vivo, é a disputa entre duas transnacionais (Telefónica, espanhola e PT, portuguesa) - numa típica disputa de rapina do “grande capital transnacional” - pela posse absoluta de uma empresa brasileira actuando no mercado e na economia do Brasil. E foi neste exactíssimo contexto que foi accionada a “golden share” que levantou, para gáudio das almas dos nossos egrégios avós, uma santa aliança nacionalista (tuga) e com passo acertado esquerda-direita. E, sobre a Vivo, o “nacional” e o “país” chama-se Brasil, só. Ou seja, o que esta brincadeira negocieira de neo-colonialismos peninsulares a representarem paródias de Tordesilhas está a pedir é que Lula se chateie e em nome dos “interesses e da economia nacional” (do Brasil), decida nacionalizar a Vivo. Com os adeptos das nacionalizações em todo o mundo a baterem-lhe palmas.

(publicado também aqui)

Parvoíce

O CAA acha que «É tempo de Ronaldo sair da selecção. Só isso favorece a sua carreira. E, sobretudo, é o melhor para todos nós.» Isto é fechar os olhos à realidade: até o jovem madeirense percebeu de imediato a mediocridade inapelável de Queiroz: «Mas assim não ganhamos, Carlos!» berrou ele mal viu o que o teórico no banco preparava, com a saída de Hugo Almeida do jogo fatídico. Mal aqui só está mesmo a confiança excessiva com o treinador; algo que provavelmente não medrou sem a cumplicidade deste.

Da utilidade do anonimato


Tem andado por aí um arremedo de polémica em torno dos anónimos e do seu confortável cobertor. Esta pequena e ridícula guerra, muito a propósito do Abrantes e outros acólitos do quase-engenheiro, já tem um herói, ou, melhor dizendo, um mártir: o Valupi, do Aspirina B. O anónimo mais vaidoso da blogosfera acha que nem se pode linkar um seu post sem lhe referir o nick. Mais: o homem já se imagina – com inegável pundonor, é certo – vítima de um tal «ostracismo», condenado a um fado de adversidades: «Começa por se apagar o nome dos registos oficiais, depois riscam-se os baixos-relevos e acaba a partirem-se as estátuas?» Já imagino os noticiários com novas da demolição de estátuas valupianas no Afeganistão, na Bobadela e no Poço dos Negros.
Mas a estratégia de defesa do forte é simples e carregada de razão: afinal, que diferença faz alguém assinar um post como “Joaquim Silva”, “Valupi”, “Miguel Abrantes”, ou “Maradona”? «O anonimato é a situação em que alguém se furta à identificação, não a situação em que alguém se torna famoso num dado grupo precisamente por ter expressado facetas da sua identidade de forma constante, coerente e acessível à interacção com terceiros», garante-nos o bravo Valupi. Passe a gritante mitomania, o argumento até faz sentido.
Mas não por inteiro: quem escolhe não viver na blogosfera sob o nome por que é conhecido entre familiares, amigos ou colegas, continua a preservar uma cómoda zona de reserva. Não lhe chamaria cobardia; mas é certo que arriscarmo-nos a responder pelo que aqui escrevemos quando interpelados pelos habitantes da nossa esfera pessoal requer um outro tipo de atitude. Requer a coragem de assumir por inteiro as nossas postas: sem medo das reacções de clientes, de patrões, dos sogros.
Não é, de todo, a mesma coisa assinar como somos conhecidos fora deste pequeno mundo ou inventarmos uma personagem que aguenta com a canga da nossa “fama” ou do nosso opróbrio.
Note-se que nada tenho contra anónimos, tendo até cometido muita tropelia, incluindo livros, com outros nomes que não o meu. Mas subscrevo este texto com o nome que me identifica face a toda a gente que me conhece. Aqui, dispo as burqas. Quem prefere ficar dentro da sua, que o faça; mas é escusado armar-se em herói.

Iliteracia ilustre

Um humilde excerto do último livro do "maestro" Victorino d'Almeida (só esta forma de escrever o nome é um tratado de pretensiosismo): «Mas a vida dessa borboleta azul eram apenas duas horas...» E claro que não haveria mesmo melhor jornal para reproduzir o erro de concordância como exemplo de «um jogo de ironia e surpresa» do que o analfabeto "Sol".

Flamenco para Queiroz

Queiroz só costuma escolher música anglo-saxónica. Agora, tem obrigação de aprender a gostar de flamenco. Dou-lhe, aqui, um cheirinho do melhor da última geração: Miguel Poveda. Se gostar, apanhe rápido um avião para Madrid, hoje à noite, o espectáculo de Miguel Poveda promete.

(publicado também aqui)

Em mais um aniversário da morte de Sophia (Porto, 6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)

Retomo aqui o texto de uma comunicação intitulada As Condições da Poesia, que apresentei, na Universidade de Salamanca, numa sessão de homenagem a Sophia, nos finais de Junho de 2004, ou seja: poucos dias antes da sua morte, a 2 de Julho, desse mesmo ano.

Como consta do programa deste encontro em torno da obra de Sophia, a minha intervenção propunha-se por tema uma reflexão sobre as condições da poesia. Era uma maneira de tentar tornar digna da exigência reflexiva, da exigência de dar conta e razão que atravessa toda a obra poética que aqui nos reúne, a homenagem que aqui me proponho prestar-lhe. Com efeito, reflectir sobre as condições da poesia é falar daquilo que o facto de haver qualquer coisa como a poesia nos pode dizer sobre a nossa condição e sobre a condição do real de que somos parte, e é explicitar também que, a partir daí, se trata de, como nos diz Sophia, recomeçar “a busca/ De um país liberto/ De uma vida limpa/ E de um tempo justo”.
Não posso, por razões de economia horária, retomar aqui a reflexão a partir da poesia como repetição/celebração da criação humana da linguagem, a partir da imaginação metafórica e simbólica como prova ou testemunho da metamorfose ontológica que a criação da linguagem e a dimensão instituinte de cada língua consuma, a partir de cada poema e da singularidade da voz de cada poeta como ocasião - que é o tempo, no interior do tempo sem exterior, em que “o tempo apaixonadamente/ Encontra a própria liberdade” - do começo de um “mar novo”, que transforma o que somos e transforma o que é o mar, fazendo ser uma navegação que navega sem o mapa que vai fazendo, uma navegação nunca sabida ou já sida por nada antes do seu navegar. E optarei por me limitar a umas quantas questões, seguindo “o fio de linha da palavra” de Sophia, sobre as condições em que o encontro com o tempo se transforma, transformando a paisagem de que somos parte activa, nesse encontro com a liberdade, que só ele pode prestar justiça à verdade da poesia, quando a libertamos das funções ancilares ou do estatuto das excepções carnavalescas que confirmam a dominação como regra e do regime censório de restrição a priori do sentido a que a sacralização de qualquer lei heterónoma a condena. É, com efeito, o encontro do tempo com a liberdade que torna possível a Sophia fazer do poema “a minha explicação com o universo”, numa palavra cuja justeza, na minha voz, “reconheço por não ser já minha”. E, do mesmo modo, é neste encontro, assumido como “explicação com o universo”, que começa o “mar novo” da acção cuja busca é a de um “tempo justo”. Mas esta acção só é possível mediante aquilo a que Sophia chama “a atenta invenção do que foi dado”, recriando o tempo e o universo com que nos explicamos, depois, sempre depois, de “o rei (…) morto e o reino dividido”, quer dizer, quando reconhecemos que “o tempo/ Como um monstro a si próprio se devora”, que as rosas “morreram com o tempo que as abria” e que, finalmente, “Tudo quanto acontece é solitário/ Fora de saber fora das leis/ Dentro de um ritmo cego inumerável/ Onde nunca foi dito nenhum nome”, acrescendo, apesar de o tempo ser também inicial e nascente, que, como lemos noutro poema, “o instante não pára de morrer”.

01/07/10

L'attendrai-je encor' longtemps? (A pedido do João Viegas)

Q
Mais uma canção da Comuna, com palavras de um dos seus combatentes, Eugène Pottier (música de Pierre Forest).

Os comunas e centralistas do costume

Para o imarcescível João Miranda, Louçã, Jerónimo e Paulo Portas são os grandes «amigos da Golden Share». Claro que Passos Coelho fica fora do retrato de família destes meliantes. Sempre conseguiu o prodígio de ser contra esta acção do Estado e, em simultâneo, recomendar que fossem dadas ordens à CGD para se opor ao negócio. Ser ou não ser contra a ingerência estatal em empresas privadas; eis uma questão a que o líder do PSD responde, com igual entusiasmo, «sim» e «não».

O país do deixa-arder

Anteontem, a estação do Cais do Sodré viu-se invadida por uma nuvem de fumo. Lá em baixo, os viajantes saídos do metro tossiam, reclamavam, corriam. Cá fora, uma equipa de bombeiros mirava a fonte das chamas, algures entre um par de carris. Longos, longos minutos depois, lá se decidiram a apagar a coisa. É mais ou menos o que se passa com o nosso governo: todos se indignam com o mau cheiro da latrina, mas não há forma de a limparmos de vez. Vamos apertando o nariz e esperando por bombeiros que nunca virão.

Boa vai ela

Sobre a golden share na PT, propriamente dita, depois do que disse aqui, espero para ver. Até porque não vou esperar muito. Mas, normalmente, não há má sem boa notícia agarrada. Pode-se é não se dar por isso quando soltamos o taxista que há em cada um de nós, porque esta classe é, por devoção profissional, obrigatoriamente pessimista e só interrompe as más e péssimas notícias para suspirar pelo regresso de um ou vários salazares.
Ora, a boa - óptima mesmo - notícia, é que, a propósito, se verificou a primeira grande convergência na pré-campanha de Alegre: Sócrates, PS, Bloco e Manuel Alegre uniram-se no apoio ao feito estoicamente nacionalista cometido pelo Estado português na PT. E o PCP também, o que confirma a fatal intenção de estes votarem Alegre na segunda volta. Para quem duvidava das coabitações partidárias à volta de Alegre, ou seja, como é que o azeite do PS e o vinagre do BE se iam misturar, aqui está um exemplo exaltante acerca das possibilidades dos impossíveis.

(publicado também aqui)

Rói-te de inveja Karen Blixen

As golden shares só ficam mal aos pobres?

Freneticamente aplaudido pela malta do costume, há quem na imprensa económica internacional garanta que «Portugal arrisca perder a confiança dos investidores ao vetar o negócio da Vivo», citando a questão angustiada: «Porque iria você investir em grandes empresas portuguesas, se depois tem interferências destas?»
Ora eis aqui uma excelente razão para não investir noutras paragens dominadas pelos comunas centralistas... como os EUA ou a Alemanha.
Basta recordar o recente fiasco do negócio de venda da Opel à Magna: quando a operação estava prestes a ocorrer, a administração da GM, nomeada por Obama, acabou por anular tudo. Isto já depois de outros episódios edificantes no outro lado, como a oferta pelo governo alemão de empréstimos ao comprador, mas apenas se fosse a Magna – não o outro interessado, um fundo de investimento belga – a ganhar a corrida.
É talvez mais um exemplo do direito dos mais fortes à liberdade.

iPorra

 Há uns anos (muitos, para lá de duas dezenas), ter em casa um computador Apple equivalia a um secreto estandarte de distinção. Labutar de olhos vesgos face a um SE, navegando pelos abismos digitais dos seus impressionantes 20MB de disco; cobiçar o supersónico FX; pagar fortunas por maquinetas que se intitulavam Low-Cost... e anda por cima ter acesso a um mundo secreto, incompreendido, longe da vista dos hoi polloi. Que mais poderia um jovem nerd querer?
Era como ter no pulso um calibre El Primero, ou ouvir LPs num Xerxes: formas discretas de exibicionismo, reivindicações codificadas de status e conhecimento. Só outros iniciados reconheciam a insana profundidade do nosso bom gosto; ter um Mac algures no escritório era garante de receber perguntas tontas e emitir sorrisinhos de satisfação armada aos cucos. Pertencia-se a uma espécie de confraria de Jedis da informática.
Depois, chegaram os iPods e os iPhones. Agora, o mercado aguarda ansiosamente a chegada das iToasters e dos iFreezers. Toda a gente tem no Steve Jobs um amigo célebre mas muito lá de casa; mesmo que ignorem o pobre Wozniak e heróis mal queridos como Amelio, a quem coube colar os cacos do primeiro consulado de Jobs (acabando, ironicamente, por lhe comprar o NeXTstep).
Hoje, não há bimbo endinheirado que não exiba o seu iPhone de 5 em 5 minutos. A propósito de mostrar um novo jogo idiota ou a forma interessantíssima como se toca no ecrã e coisas desatam a acontecer. De repente, ter um gadget com a maçãzinha ratada resume-se a uma afirmação de novo-riquismo parolo. Imagino que a Cinha jardim já não dispense o dela; e que a Assembleia da República tenha uma concentração destas engenhocas superior à do n.º 1 de Infinity Loop. Nem aqui no remanso da blogosfera escapamos à infestação: até legendas como “Foto tirada com o meu iPhone” já vi por aí. Num destes dias, ainda tenho de tapar o meu iMac com uma burqa e pintar o MacBook de preto, disfarçando-o de Dell ou coisa que o valha.
Isto tudo porque hoje sonhei que os iPhones tinham apanhado uma maleita qualquer que os levava a explodir nas pochettes e nas Louis Vuitton dos seus donos. Acho que acordei a sorrir.

Contra a cadaverização ideológica da memória da Comuna - e de Durruti, seu continuador - como a que um anónimo que (ab)usa (d)o nome de uma e de outro promove ao serviço da primeira vanguarda antidemocrática que se ofereça nas caixas de comentários deste e de outros posts e neste ou noutros blogues

Elle n'est pas morte - interpretação de Francesca Soleville.