Quando há actos de barbaridade, os Estados nunca estão muito longe !
Já há mais de 20 anos que o Estado Francês está em guerra, na África, no médio Oriente, na África do Norte, bombardeamentos, intervenções, operações... Nesta guerra global, que destabilizou zonas enteiras do planeta com as suas trágicas consequências humanas, as acções e as bombas do Estado françês (entre outros) têm tido um papel importante. Que foi reforçado pelo governo socialista. Sabemos, e bém, desde o grande massacre de 1914-1918, que os socialistas gostam da guerra !
Hoje a guerra deles chegou a casa !
De espantar é que só agora tenha chegado.
E como é que se pode ter pensado um só momento que não chegaria um dia ? Que era só uma guerra de televisão ?
As lágrimas do poder sobre os massacres efectuados pelo comando militar inemigo da semana passada são de uma total hipocrisia.
A estas duas acções o Estado francês responde hoje com um
terceiro « atentado ». Um atentado ao espírito humano, mais súbtil, mais ambíguo, mas cujas consequências
serão enormes e nos transportarão para outra situação. A manifestação de « Unidade
nacional », o reconhecimento
oficial da Frente Nacional pelo poder socialista (recebida no Eliseu), o convite aos seus militantes para participarem
na manifestação (que eles fazem com a bandeira nacional), o apelo a desfilar
atraz de Sarkozi, o representante de Putin, o secretario de Mme Tatcher, o
fascista hungaro Orban, o franquista Rajoy, tudo isto é normal na perspectiva
do projecto do poder actual. Que é de mobilisar a sociedade francesa atraz dos
seus chefes responsáveis da situação
actual, dividir ainda mais as classes
populares cuja comunidade está já em decomposição avançada com a crise,
justificar a passagem de um « Patriot Act » versão local, destinado a
aumentar todo o tipo de repressão. A victoria das duas forças que se afrontam é
total. Do lado das forças reacionárias de ideologia religiosa a victoria está
numa maior marginalisação de largos sectores da classe proletária, assimilada
ao territorio dos « barbaros », empurrada para o refúgio do« religioso »,
que eles esperam assim recuperar como « defensores » e « representantes ».
Do lado do poder, francês et europeu, a victoria está no enfraquecimento do
sentimento de resistência às guerras, à guerra doméstica com os seus inemigos infiltrados, oferecer-se um balão de
oxigénio suplementar na gestão social da crise profunda do sistema.
Porque amanhã o desemprego e a precariedade continuarão a aumentar, a miséria
social a crescer, os serviços sociais a ser desmantelados, as intervenções
militares exteriores a alargar-se. Guerras que são aspectos duma mesma guerra. A guerra deles que nao é a nossa. Isto é, nao é a minha e a dos meus amigos.
Claro está que este projecto encontra o apoio total dos
meios ditos de « comunicação » que falam como sargentos do Estado
Maior. No imediato, as vozes opostas são ignoradas. No imediato a maioria
das pessoas que desfilam atraz dos seus « Chefes », pensam exprimir
um sentimento de solidariedade colectivo. Quando de facto estão a
caucionar os valores os mais terríveis
do poder moderno, o patriotismo guerreiro
e a continuação de um mundo de exclusões. Mais horrores para o futuro. Não há, em tudo isto, nada de emancipador e
que nos oriente para um mundo diferente, melhor. Um tímido movimento de oposição
manifesta-se nos meios sindicais à esquerda das burocracias, alargado aos
fracos grupos de origem trostskista ou trotskista (NPA e Lutte ouvrière), aos
meios anarquistas e libertários, radicais, gente independênte que se posiciona na vida, no mundo. Porque este é um destes momentos onde se toma partido. No bom sentido da palavra. Face à recuperação obscena dos cadáveres,
de « Charlie » e do
Supermercado, a palavra de ordem « Eu
sou Charlie » » é sem vergonha
assumida pelo bispo de Notre Dame, políticos de extrema direita e de esquerda, cidadões que nunca leram « Charlie »
e que nunca manifestaram por nada, que saiem hoje de casa para abedecer ao Seu
governo. Face a esta recuperação obscena a palavra desta tímida oposição começa
a ser « Eu sou Remy Fraisse » (o jovem ecologista de 20 anos
assassinado pelo poder socialista numa recente manifestação).
O sistema capitalista têm as sua razões e as sua lógica. A
sua barbaridade que não é de hoje. Hoje como ontêm, é o odor da morte que paira sobre a cidade.
Este odor é o odor deste sistema. Muito
há para dizer e discutir. Sobre « Charlie »,
as suas transformações desde Maio 68 e a
armadilha em que caíu, sobre o papel da religião e do Islão em particular, num
mundo em decomposição. Não nos « momentos
de silêncio », impostos pelos Chefes
do Mundo, mas nos momentos de pensamento
e de palavra, de discussão, criados pelos dominados. Vamos esperar e na nossa espera há outros valores que a
morte e o ódio, há a esperança.
Para já, aqui fica uma das primeiras vozes dignas que
circula, a palavra de Luz, um dos desenhadores de « Charlie » que
escapou à acção de morte e que recusa de caucionar a manipulação política
actual. Fica em Francês, esperando que algum leitor do Vias a passé para
Português… As minhas desculpas pelo frantuguês deste texto, que não tive tempo
de fazer rever por um amigo.
Saudações de Paris e “Eu sou Remy Fraisse”,
Le soutien à
Charlie Hebdo est à "contre-sens" de ses dessins
Luz, l'un des dessinateurs de
Charlie Hebdo "rescapés" de l'attentat meurtrier qui a frappé sa
rédaction mercredi, juge "formidable" le soutien dont bénéficie
l'hebdomadaire satirique aujourd'hui mais à "contre-sens de ce que sont
les dessins de Charlie".
"Tout le monde nous regarde, on
est devenu des symboles, tout comme nos dessins". "On doit porter une
responsabilité symbolique qui n'est pas inscrite dans le dessin de
Charlie", explique Luz dans un entretien diffusé samedi 10 janvier, sur le
site internet des "Inrocks".
"C'est formidable que les gens
nous soutiennent mais on est dans un contre-sens de ce que sont les dessins de
Charlie", ajoute le dessinateur, qui travaille à l'élaboration du numéro
qui paraîtra mercredi à un million d'exemplaires, contre 60.000 habituellement.
"Cet unanimisme est utile à
Hollande pour ressouder la nation. Il est utile à Marine Le Pen pour demander
la peine de mort", note Luz.
"A la différence des
anglo-saxons ou de Plantu, Charlie se bat contre le symbolisme. Les colombes de
la paix et autres métaphores du monde en guerre, ce n'est pas notre truc",
explique-t-il.
"On est un journal, on
l'achète, on l'ouvre et on le referme. Si des gens postent nos dessins sur
Internet, si des médias mettent en avant certains dessins, c'est leur responsabilité.
Pas la nôtre", poursuit le caricaturiste.
"Je n'étais pas à la
manifestation spontanée du 7 janvier. Des gens ont chanté la Marseillaise. On
parle de la mémoire de Charb, Tignous, Cabu, Honoré, Wolinski: ils auraient
conchié ce genre d'attitude".
Selon lui, "Charlie est la
somme de personnes très différentes les unes des autres qui font des petits
dessins. La nature du dessin changeait en fonction de la patte de son
dessinateur, de son style, de son passé politique pour les uns, ou artistique
pour les autres".
"Mais cette humilité et cette
diversité de regards n'existent plus. Chaque dessin est vu comme s'il était
fait par chacun d'entre nous. Au final, la charge symbolique actuelle est tout
ce contre quoi Charlie a toujours travaillé: détruire les symboles, faire
tomber les tabous, mettre à plat les fantasmes", estime-t-il.