23/03/15

Carta aos amigos da Unipop

Nos últimos cinco anos, com o objectivo de disseminar o pensamento crítico e a prática militante para lá do circuito académico e da política institucional, a Unipop tem desenvolvido um conjunto variado de actividades, que podem ser acompanhadas no nosso site (unipop.info).

Entre outras iniciativas, veja-se que:
- realizámos já cerca de 12 edições do seminário pensamento crítico contemporâneo, com uma participação total superior a 1500 pessoas;
- editámos e traduzimos 6 livros numa colecção das Edições Unipop e co-editámos, com as Edições 70, o livro Pensamento Crítico Contemporâneo;
- publicamos a revista Imprópria, com edição semestral e a caminho do seu número 5; 
- e iniciamos agora uma nova colecção de livros, para formatos mais longos (extensos).

Envolvendo actualmente um total de 34 membros, que vos escrevem esta carta e que têm assumido a dinamização da associação, através do secretariado e organização dos cursos e seminários ou da tradução e revisão dos textos publicados, a Unipop tem também beneficiado da congregação de centenas de militantes e académicos, bem como do apoio de várias organizações e associações independentes.

Toda esta actividade é desenvolvida sem qualquer fim lucrativo, beneficiando do voluntarismo de muitos e muitas de nós e de vós, mas, de há quatro anos para cá, no quadro da multiplicação de solicitações de que a associação foi sendo alvo, decidimos dar um passo em frente. A fim de garantir a gestão do quotidiano da associação (contacto com livrarias, gráficas, paginação e revisão dos textos, secretariado dos cursos, mailing com leitores, cumprimento de obrigações burocráticas e legais, etc.), necessitámos de contratar um funcionário a tempo parcial. Esta decisão permitiu ampliar significativamente o raio de acção da associação, mas também tem implicado que todos os meses garantamos uma receita capaz de cobrir essa despesa.

Até agora temos conseguido assegurar essa verba por via das receitas que temos obtido no quadro das nossas iniciativas, mesmo se uma parte destas é realizada sem exigir qualquer pagamento a quem participa nelas. No entanto, temos dois novos objectivos: por um lado, pretendemos garantir uma maior segurança financeira ao nosso funcionamento, sem a qual permanecemos num quadro de precariedade dificilmente sustentável a médio prazo; por outro, atendendo às dificuldades económico-financeiras por que a população portuguesa tem passado, pretendemos garantir o acesso gratuito (online) a algumas das nossas publicações.

É neste sentido que vimos desafiá-lo/la, na qualidade de amigo/a da Unipop, e na medida das suas possibilidades, a assumir o seguinte compromisso: contribuir semestralmente com uma verba para o funcionamento da associação, verba que lhe permitirá receber em sua casa, e mediante a sua escolha, uma publicação da Unipop. Tem duas possibilidades:
a) Contribuição semestral de 12 euros: com direito ou a um exemplar da revista Imprópria ou a um dos livros das Edições Unipop (à escolha, de entre os livros de pequeno formato, mediante disponibilidade de stock, enviado por correio sem despesas extra a nível nacional);

b) Contribuição semestral de 30 euros: com direito a um exemplar da revista Imprópria e a um livro das Edições Unipop (à escolha, mediante disponibilidade de stock, enviado por correio sem despesas extra a nível nacional).

Poderá encontrar no final desta carta uma lista dos livros já publicados e a publicar em breve pelas Edições Unipop.

Como proceder à sua contribuição:

Efectue uma transferência para o NIB 0035 0127 00055573730 49, enviando de seguida, para o endereço  cursopcc@gmail.com, um e-mail com o comprovativo, nome, morada e publicações que deseja receber.


Aguardando uma resposta até ao dia 24 de Abril, e ao vosso dispor para mais esclarecimentos, subescrevemo-nos,

Ana Rita Amaral, Andreia Cunha, Bruno Peixe Dias, Catarina Laranjeiro, Cláudia Figueiredo, Diogo Duarte, Elisa Lopes da Silva, Fernando Ramalho, Frederico Ágoas, Golgona Anghel, Gonçalo Zagalo Pereira, Inês Espírito Santo, Inês Galvão, Joana Lucas, João Pedro Cachopo, José Ferreira, José Neves, José Nuno Matos, Luhuna Carvalho, Manuel Bívar, Manuel Deniz Silva, Marcos Cardão, Maria Coutinho, Mariana Goes, Mariana Pinho, Miguel Cardoso, Nuno Rodrigues, Pedro Cerejo, Pedro Feijó, Raquel Carvalheira, Ricardo Noronha, Rita Luís, Rui Lopes, Salomé Coelho

***

Livros já publicados pelas Edições Unipop:
- O passado, modos de usar, de Enzo Traverso (2012, esgotado) | http://unipop.info/edicoes-unipop/o-passado-modos-de-usar.html;
- Direito de fuga, de Sandro Mezzadra (2012) | http://unipop.info/edicoes-unipop/direito-de-fuga.html;
- Quem canta o Estado-nação?, de Judith Butler e Gayatri Spivak (2012) | http://unipop.info/edicoes-unipop/quem-canta-o-estado-nacao.html;
- A morte de Luigi Trastulli e outros ensaios, de Alessandro Portelli (2013) |http://unipop.info/edicoes-unipop/a-morte-de-luigi-trastulli-e-outros-ensaios.html;
- Estranhos corpos políticos, de Diego Palacios Cerezales (2014) | http://unipop.info/edicoes-unipop/estranhos-corpos-politicos.html;
- As palavras da História, de Jacques Rancière (2014) | http://unipop.info/edicoes-unipop/as-palavras-da-historia.html.


Livros com edição prevista em 2015:
- Fado Tropical. O luso-tropicalismo na cultura de massas (1960-1974), de Marcos Cardão | primeiro livro da colecção de maior formato;
- Manifesto contra-sexual, de Paul B. Preciado;
- 24/7. Capitalismo tardio e os fins do sono, de Jonathan Crary;
- A gramática da multidão, de Paolo Virno.

22/03/15

A Islândia e a União Europeia

Há dias, os jornais referiram que a Islândia retirou o pedido de adesão à UE.

O que não sido tão falado é a polémica que tal desencadeou no pequeno país, com a oposição (sociais-democratas, a Esquerda Verde, o Partido Pirata e o liberal Futuro Brilhante) e parte da população considerando que o governo (composto pelo liberal-conservador Partido da Independência e pelo agrário Partido Progressista) não tem autoridade para retirar o pedido de adesão de um processo já iniciado, e exigindo um referendo nacional para decidir se se abando na mesmo o pedido ou não.

Diga-se que há uma certa novidade nisso - o que temos visto muitas vezes é governos assinarem tratados e a oposição exigir um referendo ao tratado, mas não sei se alguma vez ocorreu um governo recusar um (futuro) tratado e a oposição exigir um referendo à recusa.

Diga-se que, ao que me parece, a defesa de um referendo à continuação do processo de adesão não significa necessariamente a defesa do processo (creio que pelo menos a Esquerda Verde é contra a adesão mas a favor do referendo, e o Partido Pirata também tem grandes dúvidas face à adesão).

Cometendo a arrogância de, daqui de Portugal, dar palpites sobre o que seria melhor para a Islândia, eu inclinava-me para o melhor ser mesmo fazerem um referendo, e no referendo decidirem não aderir à UE (a situação na UE neste momento está tão confusa que não me parece boa ideia alguém querer entrar no comboio agora; atenção que isto não significa que ache boa ideia que os países que já estão no comboio saltem pela janela).

Piercings = mutilação?

Piercings vaginais vão ser equiparados a mutilação genital feminina (revista Visão):
 O que dizer disto? Logo à partida é de assinalar que a notícia não começa com "a Câmara dos Comuns aprovou novas leis quanto à aplicação de piercings vaginais", nem sequer com "o governo britânico aprovou novas regras quanto à aplicação de piercings vaginais", mas sim com uma referência às "autoridades de Saúde" - ou seja, decisões que para todos os efeitos equivalem a leis estão a ser aprovadas, não pelo parlamento, nem sequer para um órgão como o governo que ao menos ainda tem legitimidade democrática clara, mas provavelmente por obscuros tecnocratas (é o que me parece pela expressão "autoridades de Saúde", que suspeito seja algo estilo a DGS em Portugal); se a democracia representativa já é criticável, ainda pior é esta tecnocracia só muito indiretamente democrática, em que decisões políticas são aprovadas como se fossem simples procedimentos técnicos.

Deixando a forma, vamos ao conteúdo - esta equiparação faz algum sentido? Acho que não - os piercings vaginais podem ser uma parvoíce, mas são uma decisão livre de que os coloca (mesmo os piercings vaginais possam ser perigosos para terceiros e não apenas para quem os usa,  mesmo aí continuamos a falar de decisões voluntárias); já o problema principal com a mutilação genital feminina é exatamente o ser praticada à força, ou no mínimo contra raparigas ou meninas ainda sem capacidade de auto-decisão

21/03/15

Já que dizem que é Dia Mundial da Poesia…

… aqui fica, aproveitando o pretexto — ou apesar dele —, esta espécie de soneto de há uns anos já (cf. O Mar a Bordo do Último Navio, Lisboa, Fenda, 1998).


Do Castelo de Abrantes


De morrer cedo irei pelas montanhas e
voltarei pelo mar até essa manhã
de lágrimas em armas por que amarei contigo
as mesmas ruas o mesmo rio os mesmos campos

atravessados a cavalo outrora e ao ritmo
deste voo do vazio do tempo no meu sangue
partido ao teu encontro pelas asas da andorinha
que soltasses da torre do castelo de abrantes

Ficarei muito tempo errando ao deus-dará
no silêncio que ondula sem fim o fim do dia
antes de regressar ao chão para entregar
ao que reste de terra a terra do que fiz

Talvez então tu digas que a morte veio chamar-me
mas eu se responder bem vês será a ti


20/03/15

VIDAS NEGRAS IMPORTAM – 21 de Março no Largo de São Domingos



O Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial assinala-se em memória do massacre de Sharpeville, cometido pela polícia do regime do apartheid sul-africano, no dia 21 de Março de 1960. Neste dia, 20.000 negros protestavam pacificamente contra a lei do passe em Joanesburgo, quando a manifestação foi violentamente reprimida pelas autoridades, que assassinaram 69 pessoas e feriram 180.
Meio século depois, continuamos a resistir à criminalização e ao extermínio da juventude pobre e negra, que não escolhe nacionalidade. Em Ferguson, São Paulo, Soweto, Aguablanca ou Lisboa, pessoas negras desarmadas, são as principais vítimas da violência de estado através da ação das suas polícias, com a conivência da sociedade civil que não reconhece esta tragédia.
Neste dia de luta, 21 de Março 2015, lembramos as vítimas mortais de racismo e violência policial em Portugal – KUKU, PTB, Musso, Teti, Angoi,Tony, Snake – e recordamos a injustiça da justiça portuguesa, que ao invés de honrar as suas memórias e proteger as suas famílias ilibou os agentes perpetuadores destes crimes.
Também, estamos na rua, para exigir justiça para com os nossos irmãos torturados na esquadra de Alfragide, no passado dia 5 de Fevereiro. Não admitimos que os bairros onde vivemos sejam territórios de exceção do Estado de Direito, onde a polícia espanca e dispara contra pessoas indefesas.
Por tudo isso, reivindicamos:
- o fim imediato das operações policiais do C.I.R. (Corpo de Intervenção Rápida) nos bairros;
- criminalização dos atos de tortura e de ódio racial, tornando-os crime público com as penas tipificadas no Código Penal.
- a demissão do comandante e agentes envolvidos nos atos de tortura ocorridos na esquadra de Alfragide; que violaram claramente os direitos de liberdades e garantias dos cidadãos e cidadãs que vivem nesta comunidade.
21 de Março de 2015, a partir das 16.00
no centro de Lisboa, Largo de São Domingos,
contra o racismo institucional
Porque as Vidas Negras importam,
seguimos lutando contra as estruturas que
produzem e favorecem o racismo e a discriminação racial

Uma outra visão das eleições israelitas

O resultado das eleições em Israel parece à primeira vista uma vitória esmagadora da direita; mas em termos de votação propriamente dita terá sido isso?

Segundo o cientista político norte-americano Matthew Shugart, nem tanto - o que terá ocorrido fui sobretudo transferências de votos e de lugares entre partidos do mesmo "bloco".

Seats by bloc: Israel 2015 vs. 2013

An important lesson from this week’s Israeli election: in complex multi-bloc political systems, the government that forms really is at least as much about the inter-party bargaining between elections as it is about the elections themselves.

Yesterday I noted the (small) changes in votes for the right, Here I will look at all the blocs. Note: blocs, plural–point being, there is no single left or center-left bloc to oppose the right or replace it as government. Caution: the 2015 results are not yet official. (...)

Toting things up by bloc, from winners to losers:

Arab +2
Left +2
Right +1
Center +/- 0
Haredi -5

Not much change, but the smallest gainer and biggest loser have enough to form a government, when combined with the centrist (or soft right) Kulanu.

The real difference in government outcomes will be less the voting patterns having shifted than shifts since 2013 in inter-party relations. In 2013, the election outcome would have allowed a right-Haredi coalition with the absolute bare majority of seats, 61. For various reasons, Likud leader and PM Benjamin Netanyahu preferred to bring into the coalition the election’s biggest seat gainer, Yair Lapid’s Yesh Atid (...). Netanyahu never wanted this coalition, and seized upon various (largely manufactured) policy disagreements in late 2014 to un-do the government and force an early election. And now he can form a coalition with his natural partners, and with a likely more pliant centrist force in Kulanu. (...)

Bottom line: There is no big shift to the right whatsoever in this election. But, with Shas and UTJ replacing Lapid and Livni, there will be a shift in both a right and religiously Orthodox direction to the governing coalition.

15/03/15

Chamem a aviação

A respeito das destruições no museu de Mossul e das cidades históricas de Nimrud e Hatra, o Expresso pergunta "Porque não intervieram os aviões americanos ou as tropas terrestres curdas ou iraquianas?".

Excelente ideia - os aviões americanos deveriam ter lançado um ataque aéreo contra as forças do Estado Islâmico que estavam a destrui o museus e as cidades arqueológicas. What could possibly go wrong?

Os padrões de consumo de "esquerdistas"

De vez em quando surgem uma espécie de "mini-escandalos" a respeito de pessoas de esquerda que até terão um padrão de consumo de "gama alta", como o caso agora da casa do Varoufakis, ou há tempos os jantares da Raquel Varela e da Isabel Moreira; às vezes também se fala no barco do Francisco Louçã (pegando numa definição mais alargada de "esquerda", teríamos também o corte de cabelo do John Edwards).

Essas polémicas teriam alguma lógica se estivéssemos a falar de rendimentos - realmente pode ser feito um argumento de que alguém que defende uma distribuição mais igualitária da riqueza deveria dar o exemplo e começar por redistribuir o que tem "a mais" (no fundo, aplicar o imperativo categórico kantiano).

Diga-se que mesmo isso é discutível - também pode ser feito o contra-argumento que, enquanto um dado sistema existir, com as suas vantagens e desvantagens, não há razão para alguém renunciar às vantagens (continuando as desvantagens a existir); p.ex., alguém que defenda que deve haver mais impostos e mais apoios sociais deverá pagar voluntariamente a taxa de impostos que acha que deveria existir em vez da que existe realmente? Afinal, se um dia tiver um azar e baixar de classe social, vai receber os apoios sociais que existem e não os que ele acha que deveriam existir.

Eu, à partida, tendo a concordar com esta segunda posição, mas, sendo um desses esquerdistas que ganha mais que a média, isso provavelmente também é a minha condição social objetiva a afetar a minha consciência.

Mas o que se discute nestes "pseudo-escândalos" nem é isso - o que está em causa não é eles ganharem muito, é o fazerem despesas aparentemente sumptuárias. Ora, a partir do momento em que se aceita que alguém tenha um dado rendimento (e a critica nunca costuma ser dirigida ao rendimento em si, mas a um suposto estilo de vida), não se vê muito bem que objeção poderão ter às despesas que depois essa pessoa decida fazer - afinal, se se gasta 200 euros num jantar, isso apenas quer dizer deixou de gastar 200 euros noutra coisa qualquer, ou que poupou menos 200 euros; não se percebe muito bem qual o grande problema ou a suposta "hipocrisia" que vêm nisso, ainda mais que a esquerda tradicional nem sequer é grande defensora da poupança (tanto na versão social-democrata keynesiana como na versão marxista, um dos problemas apontados à desigualdade económica é, exatamente, que os ricos poupam muito, causando assim crises de super-produção).

Claro que se poderia argumentar que aqui o que se está a fazer é usar o padrão de consumo como proxy para o rendimento, e que a indignação não é pelo consumo em si, mas porque isso prova que essas pessoas têm rendimentos elevados - mas isso seria uma parvoíce: toda a gente sabe que deputados, professores ou investigadores universitários ou advogados famosos têm rendimentos acima (nalguns casos talvez mesmo muita acima) da média; veja-se o caso do Varoufakis, professor numa universidade norte-americana e ao mesmo tempo "ministro da economia" da plataforma de trocas virtuais de uma empresa de jogos de computador - é alguma novidade que ele teve rendimentos muito maiores que o grego típico? Ou seja, os que se indignaram com a casa dele e com o vinho branco e o piano, foi mesmo com a casa, com o vinho e o piano, não com os rendimentos que ele auferiu (que não seriam novidade para ninguém).

Resumo do post - a posição "pessoas de esquerda não deveriam ganhar muito" é discutível mas tem a sua lógica; já a posição "pessoas de esquerda até podem ganhar muito, mas mesmo assim deveriam consumir como se ganhassem pouco" não faz sentido nenhum.

13/03/15

As aventuras do faquir Varoufakis ou quando um pós-modernista chega ao poder para “salvar o capitalismo”…



Um texto do meu amigo José A. Tapia sobre as pretensões teóricas folclóricas do actual ministro das finanças do governo grego. O texto fala por si e não há muito a acrescentar. Só há que relembrar que temos de nos salvar nós próprios e não delegar a esta ou outra gente a nossa salvação. Eu sei, é fácil de dizer e parece difícil de o fazer. Não obstante, mais difícil ainda vai ser encarar as consequências dos projectos confusos e desastrosos destes reformistas pós-modernistas de meia tijela que parecem náufragos no mar agitado do capitalismo. Ao desastre do capitalismo vai juntar-se a desilusão provocada pela falência dessas falsas alternativas. Evidentemente, a fauna de bandidos profissionais que compõe as organizações do capitalismo internacional está perfeitamente consciente destas fraquezas. Sabe como lhes dar a volta e recuperar a iniciativa. Eles não precisam do faquir Varoufakis para «salvar» o capitalismo, vão tentar salvá-lo sem ele e à custa de nós todos. Como de costume.
O texto foi publicado na revista Rebelión.
Boa leitura e fiquemos atentos ao que der e vier.


Salvar el capitalismo, o las confesiones del ministro de finanzas griego


En mayo de 2013 el que era entonces solo un economista más o menos conocido en medios de izquierda, Yanis Varoufakis, hizo una larga presentación en el 6o Festival Subversivo de Zagreb, Croacia. El Festival Subversivo, que celebrará este año su 8a edición, ha sido lugar de encuentro de luminarias de la izquierda como Slavoj Žižek, Alexis Tsipras, Oliver Stone, Antonio Negri, Gianni Vattimo o David Harvey. En la edición de 2013, Varoufakis, hoy ministro en el gobierno de Syriza, habló cerca de una hora y luego contestó a preguntas. Varoufakis es greco-australiano, fue docente por muchos años en Australia, Inglaterra y EEUU y su presentación en Zagreb, en inglés, se ha difundido también en una versión transcrita, titulada ”Confessions of an erratic Marxist in the midst of a repugnant European crisis”. Se entiende fácilmente que en castellano eso sería algo así como “Confesiones de un marxista excéntrico” (o quizá fuera mejor traducción “descarriado”) “en medio de una repugnante crisis europea”.
Lo que dijo Varoufakis en esa ocasión en Zagreb puede resumirse en lo que sigue. Europa está experimentando un “batacazo” que difiere sustancialmente de una recesión capitalista normal, de la que se saldría mediante una contracción salarial que restaura la rentabilidad. La crisis actual es prolongada, representa un deslizamiento hacia la depresión y la desintegración monetaria y pone a los radicales en un terrible dilema: ¿Debe utilizarse esta crisis capitalista, única en un siglo, como oportunidad para hacer campaña para desmantelar la Unión Europea, dado el entusiasmo de dicha Unión por las políticas y el credo neoliberales? ¿O más bien debe aceptarse que la izquierda no está lista para el cambio radical y hacer campaña para estabilizar el capitalismo europeo? Varoufakis sostuvo en su presentación que por mucho que repugne a los radicales, el deber histórico de la izquierda en esta coyuntura particular es estabilizar el capitalismo, salvarlo de sí mismo y de los inútiles gestores de la crisis en la eurozona. Explayándose sobre su propia trayectoria intelectual, Varoufakis explicó que a su juicio Marx ”debe seguir siendo fundamental para nuestro análisis del capitalismo” y también que hay que seguir siendo “marxistas descarriados”. Varoufakis explicó también por qué un análisis marxista del capitalismo europeo y de la condición actual de la izquierda obliga a trabajar en pro de una amplia coalición, incluso con partidos de derecha, para resolver la crisis de la eurozona y estabilizar la Unión Europea. En resumen, Varoufakis afirmaba en mayo de 2013 que lo que los radicales han de hacer en el calamitoso contexto europeo es concentrarse en minimizar el sufrimiento de la gente, para lo cual hay que fortalecer las instituciones públicas de Europa y “comprar” tiempo y espacio para desarrollar una alternativa genuinamente humanista.
Todo eso que Varoufakis dijo en mayo del 2013 parece casi al pie de la letra el programa que Syriza está siguiendo desde que con sus 149 actas de diputado ganó las elecciones a finales de enero pasado. De hecho, el nuevo gobierno griego es una coalición de Syriza con Anexartitoi Ellines, el partido de los Independientes Griegos, un grupo de derecha nacionalista pro Iglesia Ortodoxa que obtuvo 13 diputados y que ahora cuenta con el Ministerio de Defensa en el gobierno de coalición.
Resulta así que los radicales han de hacer todo lo posible por estabilizar y salvar el capitalismo. Varoufakis basa su posición en una compleja disquisición sobre la teoría económica de Marx, a quien acusa de ser determinista. Según Varoufakis, Marx considera que su modelo matemático implica que el capitalismo no es viable. Pero, dice Varoukakis, ¿no fue el mismo Marx quien demostró que la fuerza de trabajo no es susceptible de conversión completa en mera mercancía, lo cual introduce una indeterminación radical en el sistema económico? Varoufakis ve una contradicción clara entre el pensamiento innovador y liberador de los Manuscritos económico-filosóficos de 1844 y el Marx enconsertado por un modelo económico “cerrado” que surge veintitantos años después en El capital y que niega que el futuro es impredecible.
La lectura de Marx que hace Varoufakis es sin duda idiosincrásica. A juicio de quien esto escribe, el Marx de los Manuscritos económico-filosóficos de 1844 en temas económicos era un aprendiz, un aprendiz eso sí con mucho genio, pero un aprendiz al fin y cabo. Frente a él hallamos al Marx que en 1867 publica el primer tomo del El capital, donde presenta lo fundamental de su teoría económica, de su modelo económico del capitalismo que ya se bosqueja con una estructura incompleta, pero acabada en muchos aspectos fundamentales. Pero ese Marx sigue evolucionando y pasa los dieciséis años que le quedan de vida intentando acabar el modelo general del capitalismo, es decir, el manuscrito de la obra que había bosquejado en la década de 1860. Todo indica que Marx no solo no se obceca en sus ideas de los años sesenta, sino que estudia sin cesar y las reelabora. A la vez se enzarza en las actividades de la Internacional y de los partidos socialistas que van creciendo en Europa, y reescribe sus manuscritos. Lamentablemente, esa labor, probablemente obsesiva, le lleva a morir dejando un enorme volumen de manuscritos inacabados. Solo el trabajo de Engels, que edita los tomos segundo y tercero de El capital, y más tarde Kautski, que edita los tres volúmenes de las Teorías sobre la plusvalía, consigue salvar del olvido y quizá de la destrucción, toda esa enorme obra inacabada.
Pero, ¿a qué viene hablar de Marx y de sus manuscritos, cuando de lo que se trata es de hablar de política y de economía, de la política y de la economía de Grecia, de España, de la Unión Europea… ? ¿Qué importa si Marx era o no determinista cuando de lo que se trata hoy, en el invierno de 2015, es de hacer historia, de sacar de la miseria a quien la sufre? ¿Es que no es impecable el razonamiento de Varoufakis, que parte de la obvia premisa de que la izquierda no está lista ni para acabar con el capitalismo ni para romper con la Unión Europea y, por lo tanto, lo que ha de hacer es buscar alianzas amplias y desprejuiciadas para sacar a Grecia de la miseria?
Desde que Syriza formó gobierno, Varoufakis ha desplegado una enorme actividad. Al poco de asumir el cargo de ministro, Varoufakis afirmó que Grecia no sufriría un “accidente financiero” ni sería forzada a abandonar la eurozona. Aunque Grecia no debería haber entrado nunca en la eurozona, ahora no puede salir, dice Varoufakis, que también insiste en que Grecia no dejará de hacer frente a los pagos de la deuda al Fondo Monetario Internacional o a los propietarios privados de bonos y certificados del Tesoro griegos. Según Varoufakis, no habrá reducción unilateral de la deuda al sector privado. En cuanto a si la economía de Grecia puede crecer suficientemente rápido para salir del agujero de la deuda, Varoufakis dice que el crecimiento es cuestión que ha de manejarse a nivel pan-europeo y que habría que lanzar bajo hegemonía alemana un programa de reactivación de toda la economía europea similar al New Deal de Roosevelt y al plan Marshall de los años cincuenta. Varoufakis opina, sin embargo, que la recuperación griega no ocurrirá mediante un programa keynesiano a la vieja usanza, sino que dependerá sobre todo de la inversión privada, que volverá cuando el peso de la deuda se reduzca. En cuanto a los bancos griegos, Varoufakis no muestra preocupación por su seguridad financiera, a pesar de los informes que dicen que miles de millones de euros de depósitos en esos bancos han salido del país. Para Varoufakis es obvio que el comienzo del gobierno de Syriza será turbulento, pero una vez que se vea que lo que propone es razonable, que se busca la cooperación y lo que sea realmente terapéutico, los mercados se recuperarán y las acciones en bolsa volverán a subir. Varoufakis afirmó también que el nuevo gobierno no alterará las privatizaciones en curso y que Grecia ha de ser un destino atractivo para la inversión extranjera.
¿Qué clase de programa es este? La verdad es que es difícil de decir. Lo relativo a la deuda sin duda refleja la inevitable realidad de que la deuda griega es impagable, y por lo tanto los llamamientos griegos a negociarla son mucho más razonables que la terquedad de la Troika reafirmando el “principio universal” de que las deudas se pagan. Varoufakis compara la situación de Grecia a la de un desempleado que no puede pagar los plazos de la hipoteca. ¿Sería lógico darle un préstamo para que pueda hacer frente a los pagos? Todo eso, sin embargo, se da bastante de bruces con las afirmaciones de Varoufakis según las cuales Grecia va a seguir pagando a unos y otros.
Lo demás que dice Varoufakis parece sobre todo una colección de frases para la galería, sin mucha coherencia, por decirlo con buenas palabras. ¿Que el crecimiento ha de manejarse a nivel pan-europeo? ¿Qué ha de lanzarse un programa de inversiones en toda Europa? ¿Va a convencer el gobierno griego a la Merkel, a Hollande y a Rajoy, o va a esperar a que Podemos gane las elecciones para tener un aliado? Varoufakis dice que las inversiones privadas en Grecia se reactivarán en cuanto se alivie el peso de la deuda. ¿Sí? Primero está por ver si ocurre ese alivio pero, suponiendo que ocurra, ¿por qué arte de birlibirloque van a reactivarse esas inversiones? ¿Acaso porque los salarios griegos serán “atractivos” (o sea, cuanto más bajos mejor) para los hoy llamados inversionistas, alias capitalistas de otros tiempos? ¿Va a intentar Syriza que se avance en esa dirección? ¿Acaso van a fluir las inversiones a Grecia porque el nuevo gobierno brindará seguridad y garantía de que el capital será respetado y no sufrirá merma en forma de impuestos, nacionalizaciones o regulaciones? Pero quienes poseen deuda griega, ¿no son precisamente esos capitalistas? ¿No les sonará a rayos cualquier “quita”, cualquier reducción de la deuda, que no sería otra cosa que la pérdida parcial o total de su capital?
Cómo podrá ingeniárselas el gobierno de Syriza para no hundirse en un caos financiero en los próximos meses y a la vez no defraudar a quienes han votado a la coalición radical es casi tan difícil como la cuadratura del círculo. Lo que podría salvar la situación sería una reactivación de la economía mundial, o al menos europea, que permitiera a Grecia aumentar sus ingresos por turismo, exportaciones y servicios de carga marítima. Pero la probabilidad de una reactivación de la economía mundial o europea en los próximos meses parece mucho menor que la probabilidad de lo contrario, y si lo más probable ocurre, Syriza se verá en serios aprietos, ni más ni menos en los mismos aprietos que estaba el gobierno griego anterior. ¿Ocurrirá en Grecia como ocurrió en España en los años ochenta, cuando el PSOE aplicó a grandes dosis lo que no había podido aplicar la UCD, la medicina amarga de aumentar la explotación de los asalariados? Algunas frases de Varoufakis parecen dar a entender que esa es una posibilidad real. Pero en fin, todo eso está por ver. Durante muchas décadas desde los tiempos de Marx hasta la segunda guerra mundial las crisis del capitalismo se resolvían con una combinación de destrucción de capital y aumento de la explotación de los asalariados, pero las cosas cambiaron en tiempos recientes y salvo en naciones de poca monta como Islandia y en el caso de capitales pequeños como los de las empresas medianas y pequeñas que siempre quiebran por centenares en las crisis, el capital internacional se niega a sufrir pérdidas y usa sus recursos políticos para salvar sus corporaciones y sus bancos quebrados. La consecuencia es que las deudas se acumulan por todas partes, sobre todo en los bancos centrales, y el sistema adquiere un lastre cada vez mayor. Consecuencia de las rigideces impuestas por la existencia del euro y de la obcecación del capital mundial por evitar las pérdidas que implicaría la liquidación de esas deudas es que en Europa la recesión ha sido casi continua desde finales de la década pasada.
En una de las respuestas a una pregunta del público tras su presentación en el Festival Subversivo de Zagreb, Varoufakis dijo que en ninguna de sus intervenciones políticas o económicas de años recientes se ha guiado por modelos económicos, que a su juicio son absolutamente irrelevantes para entender el capitalismo real que hoy existe. La frase tiene su meollo, porque si no se tiene algún modelo, es imposible hacerse una idea de por dónde se desenvuelven los fenómenos sobre los que se quiere actuar. ¿Es posible navegar desde Barcelona a Londres sin mapa alguno que muestre los posibles itinerarios? ¿Puede entenderse un circuito eléctrico con diodos, acumuladores y transistores sin tener en la cabeza esquemas de cómo funcionan esas cosas?
“El de las barbas”, como Varoufakis denomina a veces a Marx, se pasó toda su vida bosquejando planos y esquemas de ese tipo para formar con ellos un modelo general de la economía capitalista. El modelo general está ciertamente incompleto, los esquemas no nos permiten predecir por ejemplo que EEUU se convertiría en la segunda mitad del siglo XX en el principal país del sistema capitalista mundial, que revoluciones anticapitalistas tendrían lugar en Rusia y en China (y fracasarían) y que las computadoras y la comunicación internética cambiarían por completo la apariencia del mundo. Pero los esquemas de Marx, abstractos en extremo como son, permiten entender por qué el capitalismo es fuente continua de desigualdad social, por qué está abocado a crisis una y otra vez y por qué los intentos bien o mal intencionados de regularlo o “salvarlo” solo conducen al fracaso o a convertir a quienes los protagonizan en parte de ese grupo de gerentes de alto copete que en España hoy reciben a menudo el apelativo de “la casta”. Eliminar el capitalismo es ciertamente difícil y muchos estarán de acuerdo con Varoufakis en que “la izquierda” no está preparada para ello. Pero afirmar que de lo que se trata hoy es precisamente de salvar el capitalismo, ¿no es negar todo lo importante que estuvo alguna vez tras esa nebulosa idea de “la izquierda”? ¿Es compatible esa idea de salvar el capitalismo con la defensa a corto plazo de los desempleados que pierden sus subsidios, de los empleados que ven deteriorarse sus condiciones de trabajo, de los que son desahuciados porque no pueden pagar la hipoteca? Defender los intereses de quienes son golpeados por la crisis no sustenta al capitalismo, lo debilita. Pero desde John Maynard Keynes muchos economistas se creyeron aquello de que aumentar los salarios es bueno para los capitalistas y para el capitalismo, porque crea más demanda y reactiva los negocios. Y parece que Varoufakis también se lo cree. Y se lo creen muchos de Podemos. Pero no es verdad.
José A. Tapia
Marzo 2015


09/03/15

Os outros combatentes internacionais na Síria

Alemã de 19 anos morre na frente de batalha contra o Estado Islâmico (Rádio Renascença):
Uma rapariga alemã de 19 anos morreu enquanto lutava contra o Estado Islâmico na Síria. Um grupo comunista turco afirma que a rapariga se tinha alistado nas forças armadas curdas.

Ivana Hoffmann era uma dos cerca de cem estrangeiros que lutam contra os terroristas nesta altura. Foi morta numa aldeia junto da cidade de Tel Tamr, no noroeste do país, de acordo com o oficial curdo Nasir Haj Mansour, citado na agência Reuters. Hoffmann ter-se-á juntado aos militares há dois ou três meses, disse.

Nawaf Khalil, porta-voz do partido curdo PYD, na Europa, confirmou que a rapariga morreu durante o fim-de-semana, enviando uma fotografia de Hoffmann de uniforme frente a uma bandeira do partido comunista turco, o MLKP.

O MLKP descreveu a alemã como uma cidadã de 19 anos, de ascendência africana, que se associou cedo ao partido enquanto ainda vivia na Alemanha.

Hoffmann juntou-se aos militares curdos para defender aldeias cristãs no noroeste da Síria depois de ataques do autoproclamado Estado Islâmico no local. O partido descreve-a como uma lutadora de boa pontaria e anunciou que terá morrido durante os conflitos na frente de batalha.
Uma nota - o MLKP ("Partido Comunista Marxista-Leninista") não é, como é dito na notícia, "o" partido comunista turco (no sentido de ser o equivalente ao PCP); é um dos partidos "EnverHoxha-istas" turcos (e penso que o principal "recrutador" de turcos para combaterem ao lados dos curdos contra o Estado Islâmico).

“O governo grego terá dificuldades para explicar o acordo aos eleitores"


 

Os números mostram uma situação sem paralelo na zona euro: 35,7% dos gregos está em risco de pobreza. A taxa de desemprego é de 25,8% (e chega a cerca de 50% entre os jovens). O desemprego acarreta vários problemas: o primeiro é que o subsídio de desemprego dura apenas um ano, o segundo é que passado pouco tempo acaba a cobertura de saúde e o acesso a cuidados nos estabelecimentos públicos. Muitos jovens que nunca tiveram emprego também nunca tiveram acesso a cuidados de saúde.
Há médicos a ver cancros como nunca tinham visto: estes não são removidos e os tumores crescem até não ser possível fazer nada. Não são considerados os casos urgentes para os quais há tratamento para quem não tem seguro. Mesmo nestes, o responsável pelas contas do hospital irá rapidamente tentar perguntar ao doente ou à família se não há algo que possa ser vendido ou penhorado para pagar a conta. Os cortes na saúde afectam os mais velhos e os mais novos: há doenças que estavam erradicadas a voltar a aparecer porque muitas crianças não são vacinadas.
Depois de histórias de grávidas a correr de hospital em hospital tentando encontrar um em que não tivessem de pagar antes do parto, surgem relatos de exigência do pagamento dos cerca de 300 euros antes que seja dada alta ao bebé. Mas ao mesmo tempo, muitas mães abandonam os recém-nascidos nos hospitais por não terem como os sustentar (o aumento de recém-nascidos abandonados de 2011 a 2014 foi de 300%). Instituições como as Aldeias SOS começaram a receber pedidos para ficarem com crianças de pais que não sentiam conseguir dar-lhes o suficiente. Aceitaram os primeiros, mas rapidamente perceberam que não podiam receber todos e criaram antes apoios para que estas crianças pudessem ficar com as famílias.
Uma família contou, numa reportagem da revista Vice, como tem o filho na escola em aulas nocturnas para que ele possa estudar de dia e não tenha de o fazer à luz de velas. Em casa, todos estão vestidos com sobretudos porque não há aquecimento (o Inverno é rigoroso na Grécia, especialmente na parte continental). A insulina do pai diabético é arrefecida na varanda no Inverno. No Verão, logo se vê.


08/03/15

Igualdade?

Se, digamos, no Mississipi de 1850 se chegasse à conclusão que apenas 9% dos donos de escravos eram negros, será que a primeira prioridade dos defensores da igualdade e da justiça social deveria ser aprovar um plano para que no futuro 30% dos donos de escravos fossem negros?

03/03/15

José Guinote passa a navegar também a bordo do Vias

Com a participação de José Guinote no Vias, que tenho o gosto de aqui anunciar, o "direito à cidade" e as lutas em torno dos processos de urbanização — entre outros temas, sem dúvida — prometem marcar uma presença mais viva neste blogue. 
À laia de apresentação, transcrevem-se a seguir dois ou três excertos de um post que ele publicou, em Junho de 2014, no seu Pedra do Homem e que dizem sem margem para dúvidas ao que vem este novo viandante:


Portugal tornou-se um país marcado por uma desigualdade social chocante, sobretudo no contexto europeu, sendo hoje um dos mais desiguais, senão o mais desigual, da União Europeia, seja qual for o critério utilizado para medir essa desigualdade.

Esta realidade que se consolidou na nossa sociedade é o resultado mais relevante de um processo de construção política. Um processo longo e inexorável de transformação iniciado há mais de duas décadas, de cuja génese e evolução a esquerda não se pode excluir.

A corrupção foi o mecanismo que possibilitou ganhar etapas nessa construção. Corrupção promovida através da omissão e da acção do Estado de Direito. Estado que promoveu a transferência de bens públicos para mãos privadas, a um ritmo sempre crescente. Permitiu a captura intensiva da mais-valia gerada no processo de urbanização – transformado que foi o processo industrial num processo de urbanização e de desenvolvimento urbano, como antecipara Henri Lefebvre em 1968 - e apurando, cada vez mais, os mecanismos promotores da corrupção presentes no sistema de contratação pública. Só entre 1985 e 2000 foram geradas mais de 100 mil milhões de mais-valias urbanísticas que foram perdidas pelo País. Mais do que o valor do resgate efectuado pela Troika em 2011.

(…)


Talvez seja uma boa ideia regressar a 2005 e à célebre metáfora “dos meus três filhos igualmente amados” - a Economia, o Ambiente e o Estado Social – utilizada por Durão Barroso, no discurso sobre crescimento e emprego. Barroso anunciou, então, ter optado por dedicar o melhor dos seus esforços à economia, o seu filho em pior estado, apostando no crescimento e na criação do emprego para revitalizar o projecto europeu. Colocou no prego a política de coesão territorial europeia e as preocupações ambientais. Dez anos passados, mais de uma dezena de milhões de desempregados depois, com uma cada vez maior clivagem entre países ricos e pobres, com uma desigualdade crescente dentro de cada país, com a direita nazi a capitalizar o descontentamento e o reforço do espírito nacionalista por quase toda a Europa, não são audíveis sinais de arrependimento. Mas os ecos da crescente desigualdade, esses chegam-nos de todos os cantos do solo europeu.

É esta Europa que os seus dirigentes, equipados com as velhas ideias ressuscitadas do meio do século XVIII, conduzem para o abismo e para a guerra, que temos de mudar. Todos os europeus, sob pena de um destes dias nos encontrarmos algures no interior de um conflito da dimensão daqueles que ensombraram a primeira metade do século passado.

O debate em torno da desigualdade crescente e da sua urgente ultrapassagem é o debate necessário à esquerda e só faz sentido no contexto europeu. As perspectivas nacionalistas e aquela história dos dias que passam sobre “qual será o líder mais fadado para conquistar mais rapidamente o poder”, servem apenas para nos distrair daquilo que é urgente fazer. Quem nos resgata do flagelo da desigualdade? É essa a resposta que a esquerda tem que ser capaz de dar de forma clara.







Primeiro enquanto tragédia e depois enquanto tragédia




Nunca poderemos ser bem sucedidos nas negociações com os alemães se nos recusarmos a compreender a natureza e o desenvolvimento das ideias que os ocupam agora. A teoria de que os alemães são naturalmente corruptos, de modo algum defensável, é muito pouco honrosa para aqueles que a exprimem. [...] O problema não consiste em saber porque é que os alemães são intrinsecamente corruptos pois, na verdade, não o devem ser nem mais nem menos do que os outros povos, mas em determinar as circunstâncias que, nos últimos setenta anos, tornaram possível o gradual desenvolvimento e a consequente vitória de um certo conjunto de ideias e em compreender como é que essa vitória elevou à chefia do Estado precisamente os elementos mais corrompidos. Odiar pura e simplesmente tudo o que é alemão em vez de combater as ideias específicas que dominam agora os alemães é, além do mais, um grave perigo pois acaba por cegar os que se entregam a tal ódio, impedindo-os de ver onde está a verdadeira ameaça. E receamos, com bons motivos, que tal atitude seja, muitas vezes, uma fuga ao reconhecimento de que as ideias que dominam os alemães não se limitam à Alemanha, uma maneira de evitar repensar e, se necessário, renunciar a ideias que recebemos dos alemães e que, como a eles (embora num grau de menor desenvolvimento), nos trazem iludidos.
F.H., 1943