22/12/10

Olhar para a Islândia

Daniel Oliveira sobre a Islândia:
Enquanto a por essa Europa fora os contribuintes se esfalfam para salvar os bancos das suas aventuras uma pequena ilha sai do risco da bancarrota. Enquanto a Irlanda impõe medidas de austeridade delirantes aos seus cidadãos para nacionalizar bancos falidos e afunda-se mais a cada dia que passa a Islândia consegue reerguer-se dos escombros.

A razão do desastre da Islândia é semelhante ao da Irlanda: dinheiro quente e fácil, conseguido com boas taxas de juro para os investidores e uma imprudente exposição aos mercados internacionais, depois de um processo de privatização de bancos. Quando tudo desmoronou o primeiro instinto do governo foi o mesmo dos governos europeus: procurar financiamento e enterrar o Pais em dívidas para salvar os bancos. Mas como foi o primeiro não conseguiu ajuda. Felizmente.

O governo mudou e a estratégia passou a ser outra: exactamente a oposta à da Irlanda. Não seriam os cidadãos a pagar as aventuras de uma banca irresponsável.
O que DO escreve é largamente verdade (com um pormenor que não afecta o essencial - houve uma espécie de ajuda para salvar os bancos, ou pelos menos os investidores: os governos britânico e holandês pagaram aos seus nacionais que haviam investido na banca islandesa, e desde então grande parte do debate político islandês tem andando à volta da questão de pagar ou não e em que em condições - prazo, juros, etc. - esse dinheiro a esses governos).

No entanto, se é verdade que "o governo mudou" e "a estratégia passou a ser outra", não passou a ser outra por o governo ter mudado - o novo governo islandês, uma coligação entre a Aliança Social-Democrata e o Movimento Esquerda Verde ("em português", uma espécie de coligação PS/BE) assinou um acordo com o Reino Unido e a Holanda para compensar os investidores (ou melhor, para compensar esses estados por terem compensado os investidores), em condições bastante gravosas para a Islândia; face a uma petição popular, o presidente islandês convocou um referendo sobre o acordo, que foi rejeitado esmagadoramente nas urnas.

Ou seja, o relativo sucesso islandês é mais fruto da mobilização popular do que de "novos governos" (embora o presidente - também da "Esquerda Verde", o mesmo partido do Ministro das Finanças que havia negociado o acordo - também tenha tido o seu mérito).

[Este já deve ser o terceiro post que eu faço a dizer isto, mas acho que é um ponto que importa frisar]

3 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Antes de ler o post todo também fiquei com a impressão de que o M.M. já tinha escrito isso. Lanço mais uma carta para a mesa: não é muito mais fácil referendar algo num país com 300.000 pessoas e que tem o parlamento mais antigo do mundo?

mikael ar canjas disse...

ou seja um país com uma população de uma agualva cacém

que é auto-suficiente em comidinha pode passar sem comprar vinte mil carros novos e 5000 tractores todos os anos



Lógicas vazias, em constante conflito.

Nós e os euros, os euros e nós.

Por trás de cada dívida que quer ser saldada,há uma islândia que renasce das cinzas

também uns 50 países que deixaram de pagar dívidas foram resgatados

mas nenhum devia 100mil milhões
dívidas dessas ninguém eskece


No fim fica o povo,

Em todos povo e élite

há certezas e incertezas

de nada e tudo

e nada nada nada de jeito das bocas das élites sai

só a solidariedade aos que têm muito pouco

que ganham palavras

Fernando Ribeiro disse...

Penso que importa fazer também uma ponte com o excelente post de hoje do Ricardo Noronha.

O referendo da Islândia não nasce de confrontos violentos, precisamente porque NÃO NECESSITOU DE CHEGAR A TAL PONTO. Na Grécia, na Irlanda e em Portugal a classe política não consultou nem consultará os eleitores que representa quando toma decisões tão importantes como recorrer ao fundo europeu. A violência que há nas ruas deve, portanto, mais do que demonstrar o descontentamento com a crise e o desemprego, ser canalizada para requerer abertamente mais democracia na hora das tomadas de decisão fundamentais, e ultrapassar o argumento caduco da democracia liberal em que a democracia representativa funciona assim mesmo.

É por isso que a criação da plataforma que se falou neste blog aquando da criação da aliança de esquerda irlandesa seria importante. Mesmo que se juntassem grupos com objectivos a longo prazo diferentes (o que é patente nas ruas gregas entre os comunistas ortodoxos e os anarquistas) algumas decisões de curto prazo podem coincidir e, acima de tudo, poderiam trazer gente para a rua que normalmente não viria, na altura de reivindicar um referendo à islandesa.