23/02/11

Contra a resignação à "Europa realmente existente"

Já me referi aqui, hoje mesmo, da subserviência intelectual e política de uma Europa, que, em vez de intervir eficaz e autonomamente na Líbia, como decerto faria se existisse ou quisesse existir, pondera possibilidade de sanções a aplicar caso a matança prossiga, enquanto Berlusconi parece ser o diplomata ocidental de serviço, encarregado de chamar, apoiando-se nos interesses que com ele compartilha no mundo dos grandes negócios globais, o ditador à "ética da responsabilidade" da Realpolitik.
Na mesma ordem de ideias, não posso deixar de chamar a atenção para o texto que a Joana Lopes divulga no Brumas - sublinhando a seguinte passagem (que não dispensa a leitura atenta do todo). Não se trata aqui de subscrever a totalidade dos pressupostos do artigo, mas de compreender que é por impor aos governos uma redefinição das posições e políticas da UE no que se refere à região do Mediterrâneo que devemos lutar, lutando ao mesmo tempo por uma Europa que exista de outro modo — em vez de nos limitarmos a reivindicar a inacção da "Europa realmente existente" e a continuação, a título de mal menor ou sabe-se lá de quê, da inexistência da UE.

São incontáveis os erros históricos cometidos pelas grandes potências no Magrebe e no Médio Oriente, em nome do dogma de que a ditadura era um mal menor, em comparação com a ameaça do fanatismo religioso islamita. Na realidade, trata-se de dois inimigos que se têm alimentado um ao outro e que deixaram milhões de pessoas presas entre garras que as privavam de liberdade e de qualquer esperança de progresso, em todo o mundo árabe. Agora que esses cidadãos tomaram a iniciativa, com risco das suas vidas, as grandes potências não podem acrescentar mais um erro aos já cometidos, mais uma vez de dimensões planetárias.

Pelo menos, a Europa não pode nem deve fazê-lo, porque isso seria o mesmo que consagrar uma traição definitiva aos grandes princípios com base nos quais quis criar a sua União. Os cidadãos que se ergueram, que estão a erguer-se, contra as respetivas ditaduras, exigindo liberdade e dignidade, precisam de receber do mundo exterior, do mundo desenvolvido e democrático, uma mensagem inequívoca de que as suas reivindicações são legítimas. E a União Europeia não pode permitir-se pronunciar-se em sussurros nem fazer bandeira dos seus medos mesquinhos.

3 comentários:

Franguska Rafaliska disse...

não há democracia na fome

há élites e plutocracias várias

de resto a democracia grega é um verniz que dura o que dura

o império britânico foi tirânico para milhões

as democracias ocidentais existem à custa da miséria mundial e dos baixos custos das matérias primas

democracia real começa pela económica e isso obviamente é...
um mito? uma utopia?

um pesadelo?

Anónimo disse...

Caro Miguel

Seria provavelmente condenado como herege se entrasse no pormenor do que eu penso acerca da questão, mas julgo que é dispensavel fazê-lo.

Com efeito, todos nos, à esquerda,incluindo os mais perigosos deviacionistas da minha laia, estamos profundamente convencidos de que a resignação à Europa realmente existente leva a um impasse, pelo que urge mudar e ja.

A questão é mais como fazê-lo...

joão viegas disse...

So para dizer que o comentario que antecede é meu. Não que interess muito...

Abraços