22/02/11

Líbia, uma batalha decisiva?

Há algo que pode tornar o desfecho líbio decisivo para o futuro próximo do Médio Oriente: ao contrário da Tunisia e do Egipto, aqui a hierarquia militar dispôs-se a reprimir o povo ao lado do ditador.

Assim, em breve teremos resolvida a dúvida "o que acontece se os generais e o poder se mantiverem unidos e mandarem os tanques contra os contestatários?".

Se o resultado for a revolta ser esmagada, os lideres locais sentirão-se mais seguros para ordenar a repressão das manifestações, e os generais e outros oficiais de alta patente terão menos problemas em acatar essas ordens (já que suponho que os generais tunisinos e egípcios tenham recusado a repressão não apenas por razões humanitárias, mas também por recearem o desfecho). Aliás, no braço de ferro silencioso que parece estar a desenhar-se entre a junta militar egipcia e a oposição democrática, os militares iriam sentir-se muito mais confiantes para adiarem eleições e afins (e, na prática, efectivarem a contra-revolução).

Além disso, os oposicionistas iriam ter muito mais receio de enfrentarem tanques na rua, já que teriam o exemplo líbio dizendo-lhes que é impossivel derrotar o exército quando este apoia o regime (todos estes factores iriam gerar também alguma "profecia auto-cumprida" - se as pessoas estão convencidas que a derrota é certa muitas nem se irão dar ao trabalho de ir para as barricadas, e a derrota será mesmo certa).

Ou seja, a derrota de revolução líbia representará provavelmente o fim da vaga revolucionária no mundo árabe, já que tanto os dirigentes como os generais como os contestatários saberiam que bastaria os generais apoiarem o governo para tudo ficar na mesma.

Pelo contrário, se o exército se desagregar (como parece estar a ser o caso) e Kaddafi for derrubado, a lição será outra - que mesmo a violência extrema será incapaz de esmagar a revolta e que, mesmo que a hierarquia militar suporte o poder, as massas de soldados não o farão necessariamente. Nesse caso, será quase o "endgame" para muitos autocratas locais - os governantes irão assumir que, mesmo com o apoio do exército serão derrubados; os generais ainda mais relutância terão em esmagar protestos (já que irão assumir que irão enfrentar civis em armas e a deserção dos soldados); e a oposição irá assumir algo como "desde que tenhamos coragem, a vitória é nossa". Ou seja, teremos uma situação em que, a partir daqui, os líderes locais tenderão a ceder rapidamente aos protestos em vez de se tentarem aguentar (paradoxalmente, talvez isso até seja melhor para o poder a longo prazo das elites dominantes dessas sociedades - uma democratização conseguida sem grandes agitações poderá ser mais confortável para certos sectores do que uma impulsionada por uma ampla luta de massas).

Um ponto adicional - a respeito do massacre líbio tem-se comentado muito "Kaddafi é um louco sanguinário" e coisas parecidas; mas Mubarak também queria fazer o mesmo (ou algo parecido).A grande diferença do caso líbio face aos anteriores está mais, não na atitude do ditador, mas na atitude das chefias militares (não me perguntem qual a causa da hierarquia militar líbia ter-se mantido ao lado do regime, ao contrário do Egipto ou da Tunísia - imagino que algum estudioso das sociedades da zona poderá ter alguma teoria).

3 comentários:

Anónimo disse...

Excelente reflexão, Miguel Madeira. Penso que é importante escrever que se o poder cair rapidamente nas ruas pode vir a prejudicar o andamento da revolução, pois quanto mais o poder se "aguentar", maior será a sensação de conquista e, entretanto, maiores serão os laços criados entre os participantes activos na revolução - apenas daí poderá surgir a ideia da formação de comités. De resto, pouco se tem falado no Egito... não há novidades a nível de organização?

Sinceramente, acho que a blogosfera está um bocado morta, mais não se faz do que propagar "notícias", que acontecem, é certo, a um ritmo muito mais alucinante do que nos últimos anos. Achar que ainda é cedo para conjecturar não deve impedir exercícios deste tipo.

Não esquecer que amanhã há - mais - uma greve geral na Grécia (http://www.occupiedlondon.org/blog/2011/02/22/512-anarchist-group-calls-for-syntagma-to-be-the-new-tahrir-square-everyone-to-the-strike-of-february-23/)

Putah PIDESkA em Férias no 25 de Abril disse...

Tem gás a mais e petróleo a menos

Decisiva?

Para quem?

para o próximo que encher as listas do XXIº?

The worst genocides of the 20th century
Mao Ze-Dong (China, 1958-61 and 1966-69, Tibet 1949-50) 49-78,000,000
Jozef Stalin (USSR, 1932-39) 23,000,000 (the purges plus Ukraine's famine)
Adolf Hitler (Germany, 1939-1945) 12,000,000 (concentration camps and civilians WWII)
Leopold II of Belgium (Congo, 1886-1908) ??
Hideki Tojo (Japan, 1941-44) 5,000,000 (civilians in WWII)
Ismail Enver (Turkey, 1915-20) 1,200,000 Armenians (1915) + 350,000 Greek Pontians and 480,000 Anatolian Greeks (1916-22) + 500,000 Assyrians (1915-20)
Pol Pot (Cambodia, 1975-79) 1,700,000
Kim Il Sung (North Korea, 1948-94) 1.6 million (purges and concentration camps)
Menghistu (Ethiopia, 1975-78) 1,500,000
Yakubu Gowon (Biafra, 1967-1970) 1,000,000
Leonid Brezhnev (Afghanistan, 1979-1982) 900,000
Jean Kambanda (Rwanda, 1994) 800,000
Suharto (East Timor, West Papua, Communists, 1966-98) 800,000
Saddam Hussein (Iran 1980-1990 and Kurdistan 1987-88) 600,000
Tito (Yugoslavia, 1945-1987) 570,000
Fumimaro Konoe (Japan, 1937-39) 500,000? (Chinese civilians)
Jonas Savimbi (Angola, 1975-2002) 400,000
Mullah Omar - Taliban (Afghanistan, 1986-2001) 400,000
Idi Amin (Uganda, 1969-1979) 300,000
Yahya Khan (Pakistan, 1970-71) 300,000 (Bangladesh)
Benito Mussolini (Ethiopia, 1936; Libya, 1934-45; Yugoslavia, WWII) 300,000
Mobutu Sese Seko (Zaire, 1965-97) ?
Charles Taylor (Liberia, 1989-1996) 220,000
Foday Sankoh (Sierra Leone, 1991-2000) 200,000
Michel Micombero (Burundi, 1972) 150,000
Slobodan Milosevic (Yugoslavia, 1992-99) 100,000
Hassan Turabi (Sudan, 1989-1999) 100,000
Jean-Bedel Bokassa (Centrafrica, 1966-79) ?
Richard Nixon (Vietnam, 1969-1974) 70,000 (Vietnamese and Cambodian civilians)
Efrain Rios Montt (Guatemala, 1982-83) 70,000
Papa Doc Duvalier (Haiti, 1957-71) 60,000
Hissene Habre (Chad, 1982-1990) 40,000
Chiang Kai-shek (Taiwan, 1947) 30,000 (popular uprising)
Vladimir Ilich Lenin (USSR, 1917-20) 30,000 (dissidents executed)
Francisco Franco (Spain) 30,000 (dissidents executed after the civil war)
Fidel Castro (Cuba, 1959-1999) 30,000
Lyndon Johnson (Vietnam, 1963-1968) 30,000
Hafez Al-Assad (Syria, 1980-2000) 25,000
Khomeini (Iran, 1979-89) 20,000
Robert Mugabe (Zimbabwe, 1982-87, Ndebele minority) 20,000
Rafael Videla (Argentina, 1976-83) 13,000
Guy Mollet (France, 1956-1957) 10,000 (war in Algeria)
Harold McMillans (Britain, 1952-56, Kenya's Mau-Mau rebellion) 10,000
Paul Koroma (Sierra Leone, 1997) 6,000
Osama Bin Laden (worldwide, 1993-2001) 3,500
Augusto Pinochet (Chile, 1973) 3,000

XXIº
Al Zarqawi (Iraq, 2004-06) 2,000
Lybia ???? (2011-20??)

Pedro Viana disse...

Excelente texto. Concordo completamente. Felizmente parece que o exército líbio se está a dividir, tendendo para o apoio à população, estando grande parte da repressão a ser feita pela guarda revolucionária e mercenários estrangeiros.