28/08/11

A "independência nacional" contra a "soberania popular" (sobre uma tribuna de Luís Leiria no esquerda.net)

Embora nãõ subscreva na íntegra os pressupostos que me parecem ser os de Luís Leiria , o essencial das conclusões da "tribuna" que acaba de publicar no esquerda.net impõe-se a quem quer que defenda que a "soberania popular", com as liberdades e direitos que implica, não é uma palavra inteiramente vã - e prima sobre qualquer apologia da "independência nacional" que se queira invocar contra ela e os seus corolários.

Nos últimos dez anos, Khadafi abriu a exploração de petróleo às grandes empresas petrolíferas estrangeiras como Repsol, Total, Eni, Occidental, PetroCanada. Depois disso, os governantes europeus pareciam fazer fila para visitar o “grande líder”: Schröder, Berlusconi, Blair, mais recentemente Sarkozy, Sócrates... Colaborou activamente com a política “anti-terrorista” de Bush depois do 11 de Setembro. Em 2008, a Líbia assinou com os EUA um acordo de cooperação que abriu o mercado líbio às grandes empresas norte-americanas, para além das companhias de petróleo. Então, o mito de um Khadafi anti-imperialista não passa disso mesmo: um mito.


[…] na argumentação desta esquerda que apoia Khadafi parece que há uma espécie de buraco, negro que isola os regimes de Khadafi e de Bashar al-Assad da Primavera árabe. Não se ouviu esta esquerda dizer que os manifestantes anti-Ben Ali ou anti-Mubarak eram pagos pela CIA. Na Tunísia e no Egipto, viva a oposição, vivam as revoluções, bem como no Iémene ou no Bahrein. Na Líbia e na Síria, não.


Mas, então, porque decidiu a Nato decidiu intervir militarmente? Porque não pode dar-se ao luxo de deixar uma revolução seguir o seu curso sem influenciar os seus líderes e garantir o controlo do futuro governo. Ainda assim, são conhecidas as reservas de Obama e a resistência a que as tropas americanas encabeçassem a força. E as tentativas de negociação que foram promovidas e, ao que tudo indica, só fracassaram porque Khadafi não aceitava qualquer solução que passasse pela sua saída do poder.


Não tenho dúvidas[…] é preciso condenar a intervenção da Nato e (…) deve haver líderes de forças do CNT pagos pela CIA. Mas isso invalida o carácter da mobilização anti-Khadafi? Claro que não. Também o facto de o CNT ter sido felicitado e reconhecido pela Autoridade Palestiniana e pelo Hamas não o transforma em progressista e defensor da causa palestiniana. O que será o próximo regime da Líbia ainda está para se ver e depende sobretudo do curso da revolução.
Mas Khadafi, ao que tudo indica, já é passado. O pior ainda vem pela frente: Bashar al-Assad, o homem que usa tanques e navios de guerra para massacrar a sua própria população. A oposição da Síria continua a usar as mobilizações de massa, e não a luta armada, para o denunciar. E não desiste, apesar dos massacres - pelo menos 2.200 mortos.


Assad já foi denunciado por crimes contra a Humanidade por um dos principais líderes da OLP. Será que a esquerda que o defende não vai abrir os olhos?

A questão que resta pôr é a seguinte: ainda que, como Luís Leiria, nos oponhamos a uma intervenção do tipo da que tem lugar na Líbia, poderemos recusar, por princípio e em todas as circunstâncias, qualquer tipo de intervenção em apoio dos manifestantes de Damasco, sobretudo quando, entre eles, se levantam já vozes que apelam à solidariedade internacional com o seu combate? Não deveremos antes impor aos governos europeus a aplicação de sanções efectivas ao regime de Damasco, e, se as coisas se agravarem e os massacres ganharem maiores proporções, reclamar, não uma intervenção militar da NATO, mas a presença no terreno de forças — por exemplo, das Nações Unidas — que impeçam a chacina e assegurem um papel semelhante ao que deveriam, dir-se-ia, desempenhar intervindo na Palestina? Não vejo como pode negar-se a responder a estas perguntas quem quer que defenda o direito de todos os povos à "soberania popular", sem subordinação desta última ao colete de forças ideológico da dita "independência nacional".

16 comentários:

Anónimo disse...

Algumas notas circunstânciais sobre a evolução da revolução na líbia: Sami Nair defende o processo constitucional democrático para o estabelecimento da vida pluripartidária na Líbia, como forma de defender a independência territorial e a autonomia política do povo, e preconiza o envio de uma força de paz da ONU para garantir a implantação da democracia; o sistema de prospecção petrolífero líbio exige para o seu pleno funcionamento quase um ano de inspecção/reparação a todo o sistema; a Argélia anunciou pública e internacionalmente que só reconhecerá o novo poder, ligado à CNT, se houver uma garantia contra as infiltrações da Al-Queda árabe na estrutura dirigente politico-militar da oposição libia agora vencedora; a Síria e o Hezbollah saudaram a queda do regime de Khadaffi enquanto que a Russia tenta " salvar " os paoís de munições e os serviços de transmissões " montados " nas últimas semanas para tentar fortalecer as tropas fiéis do antigo ditador. Niet

A.Silva disse...

Os aldrabões de certa esquerda (que quer parecer muito educado e bem comportada) continuam a debitar jogos de palavras para justificar o seu apoio à criminosa intervenção da NATO na Líbia.

Oh senhor msp, é capaz de me dizer quem são os tais de esquerda que apoiam o Kadhafi? É capaz de citar aqui algum dos seus argumentos?

Entretanto chafurdem com toda a corja de reaccionários, por entre o espectáculo macabro dos mortos líbios misturados com o cheiro a petróleo!

Miguel Serras Pereira disse...

A. Silva,
encontrará vários apologistas do "progressismo" de Kadhafi entre os comentadores de alguns posts do 5dias - com destaque para o indescritível Leo:
não sei se são de esquerda, mas, pelo menos, dizem que são e sustentam um discurso semelhante ao seu.

Vá lá ver e demore-se. A sua conversa comigo não pega. Ainda não deu por isso?

A.Silva disse...

Eu pedi-lhe para citar um argumento desses supostos defensores de Kadafi a apoiar o dito, mas o msp prefere ficar pela acusação sem provas.

Miguel Serras Pereira disse...

A. Silva,

visite as caixas dos comentários do posts que lhe referi - encontrará coisas como esta, escrita pelo Leo, num comentário a um texto do JVA: "barbárie em curso no país que ocupa o 1º lugar do seu continente em termos de Desenvolvimento Humano. Não descansaram enquanto não o espatifaram. Um crime medonho e medieval" (http://5dias.net/2011/08/27/a-frase-quer-se-lapidar-1/comment-page-1/#comment-205909).

Divirta-se.

Anónimo disse...

Na lista de espera dos "direitos humanos" está o Irão...Só que é um osso duro de roer.
Já a Arábia Saudita e o Paquistão ficam de fora!

Se essa cruzada dos "direitos humanos" tivesse começado nos anos 60/70 outros deveriam ter invadido os Sates.
Coisa que nenhum americano iria compreender. Ainda hoje não sabem porque tanta gente no estrangeiro não gosta deles.

Miguel Serras Pereira disse...

A. Silva,
esqueci-me deste outro comentário, que retoma no essencial a defesa de Kadhafi formulada pelo embaixador português na Líbia - antes da intervenção - quando tiveram lugar as primeiras manifestações contra o ditador:

"Ao contrário do que jornalistas ignorantes vão veiculando como se fosse verdade absoluta, a Líbia não era um país afectado pelo mesmo tipo de males sociais que atingem o Magrebe (Marrocos, Argélia, Tunísia) ou o Chade, o Niger, o Burkina Faso; era uma nação desenvolvida, com um sector financeiro e bancário nacionalizado, com uma importante reserva de ouro, sem dívidas nem pedidos de crédito ao FMI e ao Banco Mundial, era uma nação com um serviço de saúde gratuito, moderno, tecnologicamente avançado (como pudemos apreciar nos diferentes hospitais visitados pelas televisões ocidentais) em nada parecido com a catástrofe sanitária que são os hospitais marroquinos ou egípcios que atendem as populações mais empobrecidas e destituídas". (Cf. http://5dias.net/2011/08/28/na-libia-de-hoje-nao-ha-herois/comment-page-1/#comment-206077)

Se isto não é uma tentativa deesesperada de defender o regime, teremos de arranjar outra língua para nos desentendermos

msp

A.Silva disse...

msp, eu diria que isso são dados concretos sobre a Líbia, que podem ser contestados, rebatidos, postos em causa na sua veracidade, mas o integro, o arguto msp vê aqui uma tese e não rebate a realidade, prefere repetir até à exaustão o enredo que o capital pôs a circular pelos seus amestrados meios de propaganda (vulgo comunicação)

É mentira que a Líbia ocupasse o 1º lugar do seu continente em termos de Desenvolvimento Humano?

É mentira que este crime da NATO vai espatifar essa situação?

É mentira que a Líbia não tinha problemas sociais como Marrocos, Argélia, Tunísia ou o Chade, o Niger, o Burkina Faso? (vamos ver de futuro)

É mentira que a Líbia tivesse um sector financeiro e bancário nacionalizado, com uma importante reserva de ouro, sem dívidas nem pedidos de crédito ao FMI e ao Banco Mundial? (e que vai deixar de ter)

É mentira que a Líbia era uma nação com um serviço de saúde gratuito, moderno, tecnologicamente avançado? (e que vai deixar de ter)

E vamos ver em termos de liberdade religiosa e de emancipação das mulheres o retrocesso que vai ser, a exemplo do Iraque e do Afeganistão.

Mas o arguto msp vê nisto uma tese maquiavélica, mas não rebate a realidade.

Corega Eh Ficse disse...

Pois podem ser da CIA
Podem ser até os que suportaram kadahfi durante décadas

mas isso não muda o facto de serem anti-kadahfi

até podem fazer o mesmo que no Egipto
e distribuirem os fundos da ditadura entre eles

desde que sejam anti-Pinochet são bons tipos

É mentira que num país com receitas disse...

De 30 mil milhões em Pitroil ao ano

e com gastos em cimento auto-estradas e armamentos afins
de 60% do PIB

se calhar deviam ter reservado umas fatias para a produção

em vez de importarem 2 milhões de trabalhadores para as obras do regime

e materiais associados
e importar gente do Bangla como nós importámos vietnamitas...

a malta invejosa chateia-se

tamém querem ter tendas gigantes

e fundos de 100 mil milhões para gastos pessoais

Anónimo disse...

Foi uma mistura de nacionalismo árabe, pan-nasseriano, com as aterradoras e perversas receitas do marxismo soviético que acalentaram/sustentaram regimes despóticos e monopartidários durante décadas como os de Khadaffi.Quem não percebe isto, ou anda por má-fé ou continua escravo dos mais negros designios da ideologia Joseph Estaline United Colours. A antiga URSS " inventou ", por um lado, uma forma superior de neo-colonialismo que " sugava " os bens alimentares- como no caso das reservas de peixe de Angola em 1975- ou geológicas e minerais; ao mesmo tempo que expandia o fluxo do armamento automático a par da ideologia marxista-leninista de cartilha estaliniana estrita - a exportação de Kalachinofs nos anos sessenta foi um marco essencial - que iriam moldar uma nova forma de actuação política muito mais violenta e totalitária, criando paralelamente modelos de governação sanguinários e dependentes da ajuda tecnica e ideológica dos " paraísos " do socialismo de Estado, como a URSS, China e Cuba. O caso " líbio " foge um pouco à norma por estar inserido num contexto medio-oriental e ser relativamente muito pouco povoado. Mesmo assim, a URSS convenceu o regime de Khadaffi a tentar construir meios atómicos de defesa, que viriam a ser desmantelados no periodo rocambolesco assumido pelo despota libio no pós 11 de Setembro 2001. Niet

A.Silva disse...

Arguto msp, o que está em causa na Líbia, não é o kadafi, nesta história essa personagem é quase irrelevante, o que aqui está em causa é uma questão ética e de princípio, o direito que as nações e os povos têm de decidir o seu futuro (e já agora, as pessoas).

É isso que a esquerda reclama!

E é claro que a cobiça do capital pelos recursos líbios é fundamental

Quanto a si, pode juntar-se ao anónimo das 22.15. Parece que o seu campo político é mais o dessa gente!

Miguel Serras Pereira disse...

A. Silva,

releia o texto do Luís Leiria que cito no meu post.
Quando V. diz que, nisto tudo, o Kadhafi e o seu regime não contam, para dizer a seguir que a insurreição contra eles é uma operação dos serviços secretos e dos agentes do capital, como quer continuar a discutir?
Do texto do LL - pois quero pressupor que V. se reclama da esquerda - sublinho:

"
[…] na argumentação desta esquerda que apoia Khadafi parece que há uma espécie de buraco, negro que isola os regimes de Khadafi e de Bashar al-Assad da Primavera árabe. Não se ouviu esta esquerda dizer que os manifestantes anti-Ben Ali ou anti-Mubarak eram pagos pela CIA. Na Tunísia e no Egipto, viva a oposição, vivam as revoluções, bem como no Iémene ou no Bahrein. Na Líbia e na Síria, não".

msp

A.Silva disse...

Mas qual insurreição contra kadafi qual carapuça, o que assistimos na Líbia é a um ataque CRIMINOSO da NATO contra o povo Líbio e NÃO contra kadafi, com o fito de abucanhar os valiosos recursos libios!

Qualquer pessoa de esquerda, que seja honesta, que tenha memória, ou que pelo menos tenha estudado a história das várias organizações de esquerda/esquerdistas em Portugal, sabe que nunca houve por cá uma organização de esquerda que apoiasse (pelo menos claramente) a “revolução verde”, quanto muito kadafi era respeitado/tolerado pelo apoio (valioso) que prestou aos movimentos de libertação africanos, aos palestinianos à OLP e a Arafat.
Nos últimos anos a separação entre a esquerda e kadafi era clara, a não ser para a “esquerda” moderna do sócrates e cª.

Essa tentativa de certa “esquerda” fofinha, de querer confundir a defesa do direito que os povos têm de resolver os seus problemas sem a ingerência (criminosa) do capital, com o apoio a kadafi, ao mesmo tempo que tornam seu o discurso de diabolização de kadafi, só serve para justificar os crimes de camerom, obama, sarkozi e companhia.

Confundir as revoltas genuínas do povo egípcio e tunisino com esta farsa na líbia é mais um exercício de desonestidade desta “esquerda” fofinha.

Objectiva e mais que claramente, você está do lado do capital.

Anónimo disse...

Uau! O Hamas é progressista?

Anónimo disse...

Os regimes tunisinos e egípcios podem ser contestados pelo povo.
A contestação ao regime líbio só pode mesmo ser uma maquinação imperialista!...
Haja paciência...