Mais do que um comentador afirma, à boleia da tese dos «brandos costumes», que aquilo que se está a passar em Inglaterra, na Grécia ou em Itália dificilmente acontecerá em Portugal. O Daniel Oliveira aqui, como o Miguel Portas aqui, são a versão de Esquerda desta banalização da pacatez nacional. E nota-se aqui a emergência de um dispositivo que vem sendo recorrente.
Quando actos de protesto e conflito ilegal, envolvendo confrontos com a polícia, saqueio e destruição de propriedade ocorrem noutro país, eles são uma resposta inevitável, um gesto compreensível, um resultado incontornável da política de austeridade e assim sucessivamente. Mas quando paira sobre Lisboa o espectro do anarquismo, quando os jornais e televisões iniciam campanhas de criminalização preventiva, quando a polícia se desdobra em comunicados intimidatórios, todos esses gestos e actos se tornam irresponsáveis, disparatados, contraproducentes, desprovidos de qualquer intenção política, levados a cabo por maníacos violentos e excitados.
Este não é, note-se, um fenómeno exclusivamente português, ainda que o facto deste ser o país mais pobre e desigual da Europa Ocidental (como não se cansam de repetir) talvez justificasse que a materialização da raiva fosse ainda mais inevitável, compreensível e incontornável. Não falta quem ganhe um brilhozinho nos olhos ao falar maravilhas da insurgência zapatista mas se apresse a condenar qualquer dano cometido contra o Mc Donalds da esquina.
