Como se sabe, a clivagem entre esquerda e direita tem origem na disposição
dos deputados na assembleia constituinte francesa em 1789, durante os debates
sobre o veto do rei. Os deputados sentados à direita da mesa, entre os quais os
representantes do clero e da nobreza, eram favoráveis ao veto absoluto,
enquanto os deputados sentados à esquerda, representantes do terceiro-estado,
pugnavam por um veto relativo, que deixasse à assembleia um verdadeiro poder de
decisão em última instância. A divisão fez-se por conseguinte a propósito da questão
da efectividade do poder legislativo
da assembleia e, por tabela, do exercício real (e não apenas simbólico) da
soberania pelos representantes do povo. Dito de outra forma : à direita do
hemiciclo, estavam os reaccionários que procuravam ludibriar o povo com
direitos e liberdades de papel ; à esquerda,
encontravam-se os revolucionários empenhados em transformar esses direitos e
liberdades em autênticas realidades.
A linha de separação das águas coincide com a velha dicotomia grega, hoje um
pouco esquecida, que opõe onoma (o
nome) e pragma (a coisa que interessa)[1]. Aos que enchem a
boca com palavras e se satisfazem com discursos ocos, contrapõem-se aqueles que
se preocupam com as realidades efectivas e com o funcionamento prático das
coisas. Vemos muito bem como o programa político da esquerda se identifica com
os segundos. Com efeito, queremos liberdade,igualdade
e fraternidade não apenas na forma, no papel ou em teoria, mas de maneira
palpável, concreta, mensurável. A liberdade da galinha livre no galinheiro aberto
à raposa livre, é uma liberdade apenas de nome. Não serve. Idem para a igualdade
de direitos se os meios de produção tendem a acumular-se nas mãos de alguns, pois
nesse caso trata-se de uma igualdade de papel. Ou ainda para a fraternidade que
só se realiza no paraíso, que não passa de um logro.
Podemos assim associar à esquerda um realismo em
perfeita sintonia com a máxima pragmática que aconselha a sempre “considerar quais são os efeitos práticos que
pensamos podem ser produzidos pelo objecto da nossa concepção”[2][3].
Correlativamente, é legítimo afirmar que, quando a esquerda perde a realidade
de vista e se deixa encurralar nas esperanças quiméricas ou enjaular num
discurso fantasioso que todos julgam inexequível, a começar por aqueles que o
proferem em altos gritos, então a esquerda perde a alma, e perde também o que a
distingue das histerias milenaristas e dos lúgubres vaticínios do pânico. Isto
é particularmente saliente numa época como a nossa em que, mercê de uma lamentável
capitulação intelectual, muita gente parece convencer-se da inapetência da esquerda
para a governação ou para o exercício de responsabilidades políticas.
Por todas estas razões, na minha modesta opinião, uma
das prioridades mais urgentes para a construção de uma proposta política de esquerda
credível e coerente, consiste em favorecer a plena reconciliação da esquerda
com o pragmatismo. Esta preocupação não
é apenas teórica. Em Portugal, por exemplo, temos hoje um governo formado por
forças políticas que se reclamam da esquerda. Esta construção só conseguirá
manter-se com pragmatismo. E, se ela vier rapidamente a soçobrar, quem ignora
que o desastre terá um custo elevado para todas as forças que a compõem ? Por
outro lado, o futuro do governo português está estreitamente dependente da
evolução política da União europeia. Se conseguirmos alcançar uma dinâmica que
dê peso político às forças progressistas que em muitos países, nomeadamente do
sul (mas não apenas), protestam contra as políticas de austeridade em
detrimento da protecção das zonas mais pobres e vulneráveis, a esquerda passará
a existir no plano europeu, contrariamente ao que tem sucedido nas últimas
décadas. Neste campo também, o pragmatismo é a chave para alcançar resultados
concretos.
Não vou dar aqui receitas milagrosas, nem sei se
elas existem. No entanto, julgo oportuno indicar sumariamente quais são as
principais implicações do pragmatismo[4], uma vez que já
tive ocasião de verificar que muita boa gente as ignora. Aclarar as ideias não
chega, como é óbvio. Mas também não pode fazer mal…
Relativismo
A primeira implicação do pragmatismo é o relativsmo. A consideração dos efeitos
práticos das nossas concepções na realidade exterior obriga-nos a sair de nós
mesmos, a encarar a realidade a partir dos diversos ângulos de onde é possível
apreendê-la, compreendê-la e, se necessário ou oportuno, modificá-la.
Como tratei do assunto num post recente, não me vou
repetir. No entanto, julgo importante insistir num ponto fulcral. As pessoas
desconfiam frequentemente do relativismo porque o consideram como uma forma de
indiferencialismo e julgam que a comparação ou a mudança de perspectiva são
necessariamente fatais à coerência interna das ideias e à consistência própria
dos valores, impossibilitando qualquer articulação ou hierarquização entre eles.
Procurei demonstrar que isto é um erro total e que, na realidade, é exactamente
ao contrário. Apenas a comparação, ou seja a redução dos pontos de vista a uma
escala comum – a uma ratio no
primeiro sentido da palavra – permite aferir até que ponto as coisas aderem à
realidade objectiva e em que medida podemos contar com elas. Isto devia ser
básico, mas na prática verificamos que está muito longe de o ser.
As consequências do exposto no dominio da
política, tomada no bom sentido da palavra, o da “koinônia” cara a Castoriadis,
são essenciais. A política não é o confronto com posições adversas irredutíveis,
mas antes a arte de conciliar outros pontos de vista, numa síntese que os consiga
exprimir com maior perfeição quando combinados com o nosso. A doutrina da
esquerda foi sempre construída nesse pressuposto. Marx, por exemplo, chegou às
conclusões que sabemos aprofundando os resultados da teoria económica do seu tempo
e levando-os às suas consequências extremas. Foi assim que soube pôr em
evidência as contradições da doutrina económica de David Ricardo, mas não sem
deixar de integrar o que de verdadeiro havia em Ricardo (por exemplo a teoria
do valor-trabalho) na sua própria doutrina. Muitos outros exemplos haveria.
Ia escrever que a política não é a guerra, mas
como receio que o argumento faça sorrir os leitores que consideram o parágrafo
anterior demasiado angélico, vou procurar dizê-lo de outra maneira. A guerra é uma arte completamente política
que consiste essencialmente na inteligência do equilíbrio de forças. Nenhum
general sai a campo contra um exército dez vezes superior e melhor armado.
Portanto, haverá muitas semelhanças entre a política e a guerra, não digo o
contrário, mas a primeira que me ocorre é que ambas se distinguem do suicídio.
Pormenor digno de ser sublinhado, o relativismo tem um corolário com alguma relevância política : o pluralismo.
Pormenor digno de ser sublinhado, o relativismo tem um corolário com alguma relevância política : o pluralismo.
Utilitarismo
Ora aí está um palavrão que fez de certeza cambalear
mais de um leitor ! No entanto, é insofismável que o pragmatismo conduz ao
utilitarismo, na medida em que
recomenda a apreensão das ideias e das coisas a partir dos seus efeitos práticos
na realidade, o que é o mesmo que dizer : a partir daquilo que elas prestam, ou ainda, a partir da medida em
que elas servem. As ideias e as
coisas existem, concretamente, em razão directa da sua utilidade.
Porque é que o utilitarismo nos repugna tanto ? Porque desconfiamos que ele conduz ao atropelo das finalidades que consideramos mais elevadas. As nossas categorias morais, impregnadas de kantismo, condenam o utilitarismo como uma indignidade porque troca os fins com os meios, o que nos parece desembocar inevitavelmente no sacrifício dos primeiros. Daí que vejamos nele um prosaismo, uma vulgaridade, um servilismo.
Porque é que o utilitarismo nos repugna tanto ? Porque desconfiamos que ele conduz ao atropelo das finalidades que consideramos mais elevadas. As nossas categorias morais, impregnadas de kantismo, condenam o utilitarismo como uma indignidade porque troca os fins com os meios, o que nos parece desembocar inevitavelmente no sacrifício dos primeiros. Daí que vejamos nele um prosaismo, uma vulgaridade, um servilismo.
Esta crítica é injusta, mas sobretudo assenta numa
concepção perigosamente inquinada.
É injusta, primeiro, porque radica numa leitura
encolhida e superficial dos pais do utilitarismo[5] e da sua pretensão
a reduzir tudo ao princípio da maximalização dos prazeres e da minimalização do
sofrimento. É compreensível que os seus contemporâneos mais atados, sob
influência do beatério, tenham querido ver no princípio uma mera glorificação
do prazer carnal e da concupiscência. Já é mais surpreendente que espíritos
esclarecidos e abertos, como pretendem ser os que se reclamam da esquerda,
continuem hoje a torcer o nariz perante o enaltecimento do prazer, sem ver que
ele não exclui nenhuma espécie de satisfação, seja ela “material” ou
“espiritual”, “baixa” ou “elevada”, e que se filia numa reflexão próxima da de
Aristóteles, procurando enraizar a ética na propensão concreta das coisas para
a sua perfeita realização, chamada felicidade[6].
Mas, sobretudo, a crítica resulta duma total
incompreensão dum dos aspectos mais fecundos e interessantes do utilitarismo (e
também do pragmatismo), que consiste em questionar a nossa mania de sacralizar
os fins e de os contrapor sistematicamente aos meios. Os nossos preconceitos mais
profundamente entranhados estão completamente eivados de dualismo. Em
consequência, colocam-nos numa relação de confrontação
com a natureza, que nos condena irremediavelmente à infelicidade. Quando afirmamos
que os nossos fins são idealidades que não devem ser conspurcadas ao contacto
do trivial, ou que são entidades por essência superiores e soberanas,
comportamo-nos na verdade como pequenos deuses despóticos e birrentos. Por
detrás da nossa aspiração à transcendência, está o pretenciosismo arrogante com
que nos autorizamos a olhar para o mundo que nos rodeia, como se fôssemos os
únicos capazes de dar sentido às coisas. Então sim, torna-se imprescindível
impor limites e, por exemplo, sacralizar a pessoa humana, caso contrário
acabaria tudo rapidamente numa gigantesca carnificina[7].
Bem compreendido, o utilitarismo é um óptimo antídoto,
uma vez que nos obriga a olhar para as virtudes próprias das coisas, deixando
de as conceber apenas como forças de inércia ou de resistência. Tenho para mim,
aliás, que a consideração rigorosa e objectiva do útil, é o primeiro passo para
compreender que o ustensílio é algo mais do que um ser inanimado sujeito ao
nosso capricho. Com efeito, o útil só o é em consideração do bem e, em primeiro
lugar, do bem que se oferece com liberalidade, porque custa menos a cultivar e
a colher. Em contrapartida, noto que as piores desgraças e os males mais terríveis
que o homem foi capaz de produzir à face da terra, sempre foram favorecidos
pela relação ascética, exclusiva e desincarnada que ele pretende ter com o
Ideal puro. Os campos de concentração, as bombas atómicas, os genocídios, a
própria escravatura, tudo isso são realidades que só crescem ao sol da perfeita
Inutilidade…
No fundo, só desconfia do utilitarismo quem desaprendeu
a sabedoria dos antigos, que conheciam perfeitamente que o útil e o bem
convergem. Perder de vista este princípio afigura-se-me como o prenúncio do
pessimismo, senão mesmo do niilismo. É possível ser ao mesmo tempo pessimista e
de esquerda ? Pessoalmente, não vejo como.
Para quem acha que as considerações acima são
demasiado teóricas, vou dar um exemplo que, na nossa sociedade profundamente
clerical, passará por relativamente concreto.
Há uns (largos) anos atrás, nas universidades francesas, surgiu um movimento
anti-utilitarista chamado MAUSS[8], que pretendia lutar
contra a hegemonia do modelo económico inspirado numa visão puramente
instrumental da universidade e das ciências sociais. Compreendo o objectivo, mas
tenho as mais sérias dúvidas acerca do método. Para começar, gostava que me mostrassem
uma análise económica séria que demonstre que a liberdade universitária, nas
ciências sociais e fora dela, é inútil
do ponto de vista da criação de riqueza. Julgo bastante mais provável que a
ciência económica encontre resultados diametralmente opostos… Receio que muitas
vezes, neste particular, capitulemos sobre o essencial. É que se confundirmos
tudo, análises económicas feitas com rigor e baboseiras proferidas em tom de
autoridade por jornalistas reles a soldo de banqueiros[9], então não é da
ciência do útil que nos devemos queixar, mas apenas da nossa impreparação e
ingenuidade...
De resto, quando olho com atenção para o comité de
redacção da revista do MAUSS, vejo lá uns quantos economistas… Cabe talvez
lembrar que qualquer ciência que se preze começa sempre por ser ciência das
suas limitações. Ora, conheço suficientemente bem os economistas para saber que,
quando são sérios e bons, passam a vida a alertar-nos para que não lhes peçamos
aquilo que eles não sabem dizer. Por conseguinte, até pode ser que exista uma hegemonia
da economia mas, se ela existe, não deve com certeza nada à ciência. A ciência,
a séria, a humilde, a verdadeira – que por sinal é também a verdadeiramente útil – apenas pode conduzir a que a
economia seja cada vez menos nómica e
cada vez mais lógica. Não vejo aqui
nenhuma ameaça para a esquerda, bem pelo contrário…
Melhorismo
A implicação mais subtil do pragmatismo, e talvez também a menos conhecida, ou pelo menos a menos compreendida, é sem duvida nenhuma o melhorismo.
Do que se trata ? Já todos ouvimos a máxima que
reza que o melhor é inimigo do bom.
Em geral, compreendêmo-la como um alerta para os perigos e os inconvenientes do
perfeccionismo. Quem procura a todo o custo alcançar a perfeição acaba muitas
vezes por borrar a pintura e estragar o que estava bem. Admito que possa haver
alguma verdade nesse dito e na maneira tradicional de o entender. No entanto, acho
muito mais verdadeira e significativa a afirmação recíproca. Na realidade o bom (ou o bem) é que é inimigo do melhor.
O que verificamos quase todos os dias, é que a consideração do bom tem um
efeito paralisante que nos cega e nos impede de procurar, mais modestamente,
que as coisas melhorem. Quantas vezes encontramos pessoas altamente preocupadas
com a Saúde em abstrato, mas que acabam por revelar-se incapazes dos gestos
simples que a fariam melhorar concretamente ? Quem nunca viu a sede de Justiça absoluta
tropeçar lamentavelmente nos tribunais por não saber como se reclama um
trivial, mas útil, direito ? E a Educação completa das massas, a que
consagramos tantos recursos, não acaba tantas vezes por funcionar em detrimento
da sua simples emancipação ? Poderia multiplicar os exemplos em que, ao
contemplar embasbacados a Prosperidade que nos apresentam com foguetes, acabamos
por nos distrair e deixar que nos vão ao bolso.
Na verdade, procurar modestamente a melhoria é a
forma mais eficaz e satisfatória de nos aproximarmos do bem. Eis uma máxima que
merece ser subscrita por todos os autênticos realistas. Se repararmos, ela
combina de forma inteligente os dois princípios expostos mais acima. Com
efeito, a procura do melhor obriga-nos a deixar momentâneamente de lado a ideia
pré-concebida que possamos ter do bom, para experimentar a diversidade das
coisas e tentar encontrar, tacteando, a sua utilidade assim como, atravês dela,
a realização harmoniosa duma forma de felicidade mútua.
As consequências politicas não são despiciendas. É
certo que há virtudes nas grandes revoluções e não nego que seja legítimo
aspirar por valentes safanões que ponham cobro à desordem antiga. Mas as revoluções
autenticamente fecundas, pelo menos as que pretendem trazer melhorias
duradouras, devem também saber adquirir um carácter de permanência, o que implica
que sejam capazes de revestir alguma funcionalidade. Quanto a mim, não há
oposição mais falaciosa do que a que distingue os “reformistas” e os “revolucionários”.
Se forem progressistas, ambos realizam muito cedo que precisam uns dos outros.
As revoluções só acontecem quando as reformas estão maduras e as melhores
reformas precisam muitas vezes de um empurrão.
Mas, dir-me-ão, esta apologia das concessões não
nos leva em linha recta para a capitulação ? não se trata da pseudo-filosofia
dos esquerdistas que acordam um belo dia sentados nos concelhos de
administração dos grandes bancos ? Ora aí é que está o ponto. Quem vos diz que os
conselhos de administração da alta finança se preocupam genuinamente com o
útil ? Antes fosse ! Na realidade, as falinhas mansas com que eles
protestam do seu apego ao útil, na esmagadora maioria dos casos, não passam de
um grosseiro travestimento do interesse
(do capital) debaixo do manto do conveniente.
Houvesse mais pessoas autenticamente de esquerda a pedir para ver e a
morder-lhes as canelas[10], e com
certeza que lhes seria muito mais dificultoso continuarem a ludibriar o povo,
ou aliás a polícia que vela pelo cumprimento da lei do povo…
É certo que o melhorismo
pode revelar-se exigente e mesmo inconfortável. Mais fácil e mais barato é
esperar sentado e contentar-se com a incarnação semanal a acontecer na
televisão ou noutro púlpito qualquer, em que nos mostram o vinho a transformar-se
em sangue. Só que não sei se semelhante atitude pode ser dita de esquerda. Quanto a mim, o que
caracteriza a esquerda, tem mais a ver com a procura de vias de facto que levem, efectivamente, a algum lado.
Como saber onde estão ? “Caminante,
no hay camino, se hace camino al andar”.
[1] Os curiosos podem ler a este respeito o artigo de Pierre Hadot “Sur les
divers sens du mot pragma dans la
tradition philosophique grecque”, reeditado recentemente em Etudes de philosophie ancienne, Paris, Belles
Lettres 2010. Aproveito para
recomendar calorosamente a leitura de Pierre Hadot a todos os leitores que se
interessam por filsofia antiga, ou por filosofia em geral. Algumas das suas
obras estão traduzidas em Português (por exemplo O que é a filosofia antiga, Ed. Loyola 1999)
[2] A máxima foi primeiro formulada por Charles Sanders Peirce em 1878 : “It appears, then, that the rule for attaining the third grade of
clearness of apprehension is as follows: Consider what effects, that might
conceivably have practical bearings, we conceive the object of our conception
to have. Then, our conception of these effects is the whole
of our conception of the object” (conhece-se também uma versão da mesma frase em francês, redigida em
1877, para um artigo destinado a ser publicado na Revue philosophique).
[3] De forma muito esquemática, o pragmatismo é uma corrente filosófica
habitualmente identificada com três grandes nomes : Charles Sanders Peirce (1839-1914),
William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952). Embora tenha despertado
imediatamente muito interesse e algumas adesões, só lentamente lhe foi
reconhecida a importância que merece. Hoje, reclamam-se do pragmatismo
filósofos tão diferentes como Jurgen Habermas, Hilary Putnam ou Richard Rorty.
[4] O que se segue inspira-se directamente dos
3 últimos capítulos do livro de John Dewey, de 1919 (reeditado com novo
prefácio em 1948), Reconstrução em
Filosofia (há tradução portuguesa, publicada no Brasil em 1959, na
Companhia Editora Nacional), pequeno livro sintético, pedagógico, de leitura
agradável, que recomendo sem hesitações. Julgo perfeitamente possível começar
directamente a leitura pelos 3 capítulos finais que contêm o sumo da obra. O
resto tem interesse, mas é mais datado. A personalidade de Dewey é interessante
a todos os títulos. Lembremos, entre outras coisas, que foi um progressista com
intervenções políticas marcadamente de esquerda, pelo menos no contexto
americano.
[6] « Por utilidade, entende-se a
propriedade de qualquer objecto pela qual ele tende a produzir um benefício,
uma vantagem, um prazer, um bem ou uma felicidade (tudo isso, para o que nos
interessa, vai dar ao mesmo)” (Bentham, Introdução
aos princípios da moral e da legislação, I, 3).
[7] O uso do condicional nesta frase é misericordioso.
[8] Referência óbvia ao genial autor do Essai sur le don a sigla significa Mouvement Anti-Utilitariste dans les
Sciences Sociales. A revista editada pelo movimento contou com a
participação de Castoriadis e existe um livro publicado recentemente, que não
li ainda, com os diálogos entre ele e os membros da associação : Démocratie et relativisme. Débat avec le
MAUSS, Paris Mille et Une Nuits, 2010.
[9] Os exemplos são de tal maneira abundantes
que vou deixar o leitor preencher esta nota de rodapé.
[10] E cabe aqui referir que as há, e em muito maior número do que por vezes
imaginamos. Não vou cair na facilidade de lembrar onde é que o próprio
Castoriadis fez carreira, mas lembro que há juízes de esquerda, e também
economistas de esquerda, e altos funcionários de esquerda, etc. Se não se vêem
mais, não é tanto porque não existem, mas
porque não são ouvidos…
