03/12/10

De um "segredo de Estado"

Até ao momento, não surgiram entre as revelações do Wikileaks, que eu saiba, informações que facilitem a sabotagem de instalações militares, a execução ou sequestro de responsáveis ou funcionários das "forças da ordem" ou outras acções violentas e formas de bombismo.
É justamente isso que torna curioso o alarme e a veemência dos apelos à censura, quando não ao homicídio, por parte de numerosos responsáveis políticos do mundo ocidental.
Quando, para nos ficarmos pela prata da casa americana, lemos, numa peça publicada por El País, que uma representante republicana declara que "Julian Assange y Wikileaks son criminales cuyas acciones son de gran ayuda para los terroristas y para los regímenes criminales de todo el mundo. Ya es hora de que el Gobierno cierre WikiLeaks" e que o senador independente, Joe Lieberman, responsável pela Comissão de Segurança Nacional do Senado, não lhe fica atrás, vincando que "Con sus acciones ilegales, escandalosas y temerarias, Wikileaks ha puesto en peligro la seguridad nacional de EE UU y la del mundo" -, que devemos, então, concluir?
Não que exageram ou se limitam a declarações propagandísticas e demagógicas, mas que se sentem seriamente ameaçados enquanto membros dos aparelhos políticos de um mundo oligarquicamente governado ao verem divulgados na praça pública os modos e mecanismos do seu exercício do poder. De facto, nem sequer negam que seja verdade o essencial das revelações. Mas consideram criminoso que se dê publicidade às acções da casta governamental a que pertencem. Que se mostre aos cidadãos como funciona a diplomacia e, mais fundamentalmente, que interesses defende e por meio de que medidas e políticas pretende garanti-los.
É difícil imaginar recusa mais cabal da democracia de que se reclamam os EUA e o conjunto do bloco ocidental do que esta vontade de criminalizar e censurar o direito dos cidadãos a saberem o que fazem aqueles que, em princípio, são responsáveis perante eles e a eles devem prestar contas. Mas é verdade que nessa recusa podemos também ler claramente o reconhecimento por parte dos políticos profissionais da oligarquia que assegurar que os cidadãos ignorem o que fazem os seus "representantes" ou lhes possam pedir contas por isso é condição necessária do funcionamento regular da ordem estabelecida nos planos tanto interno como global. Trata-se, com efeito, de um "segredo de Estado" que, numa perspectiva democrática, continua a ser prioritário revelar.

11 comentários:

José Luiz Sarmento disse...

O principal segredo de Estado é para quem o Estado trabalha. Sempre foi assim; e sempre foi um segredo de Polichinelo. Mas uma coisa é toda a gente saber que o Estado trabalha para a oligarquia em detrimento do bem comum, outra coisa é poder circunstanciar esta informação com nomes, lugares, datas e co0nteúdos conhecidos.

Não sei se vão conseguir acabar com a Wikileaks ou prender ou matar o seu autor. Mas sei uma coisa: a Wikileaks foi difícil de inventar, mas se desaparecer não será difícil de reproduzir. Há mo mundo centenas de milhares de pessoas, talvez milhões, com conhecimento e capacidade para isso. E os autores das wikileaks futuras não terão a ingenuidade de se identificar.

A luta de classes está aí. Não foi convocada pela esquerda, mas sim, ironicamente, pelas oligarquias, que julgaram que os povos estavam completamente desarmados e sem qualquer possibilidade de resistir à guerra programada contra eles. Cometeram um erro de cálculo: os povos estão mais bem armados do que se supunha e começam a estão a dar-se conta disso.

O Senador Lieberman não teme pela segurança dos EUA ou da Europa: teme pela sua própria segurança e pela dos seus pares. Teme que os nerds mobilizem os sans-cullotes, tomem as várias Bastilhas do regime e conduzam gente como ele à guilhotina. É um temor saudável, e espero que morigerador.

Anónimo disse...

"For the past several months, the website www.irannazi.ir has been operating in Iran. It
operates on behalf of an organization called the Iranian Association of Nazism and Adolf
Hitler’s Supporters. The website’s homepage states that it operates in accordance with the
laws of the Islamic republic and is monitored by the Ministry of Islamic Guidance. Its operators note that it is a website of “scientific and historic research”; in practice, however, the website encourages the spread of Nazi ideology and Adolf Hitler’s ideas."

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como sabe, caro miguel, no irão a criação de sites é sujeita ao controle e aprovação do regime.

esta foi criada e aprovada pelos próprios.

Z

Ana Cristina Leonardo disse...

Mais jogo sujo
http://twitter.com/wikileaks/status/10567274838622208

Manuel Vilarinho Pires disse...

Caro Miguel,
Parece-me que desta vez tenho de estar de acordo consigo.
A Wikileaks não divulgou informações "que facilitem a sabotagem de instalações militares, a execução ou sequestro de responsáveis ou funcionários das forças da ordem ou outras acções violentas e formas de bombismo", ou seja, informações que coloquem em causa a defesa do Estado, a segurança nacional, ou o que lhe quiser chamar.
Divulgou informações que mostram a prática de actos censuráveis, até de crimes, por estadistas.
De modo que a reacção violenta de alguns governos e a tentativa de a neutralizarem não se deve a motivos de defesa do Estado, mas a motivos de defesa da reputação dos autores desses actos, que utilizam o Estado para se esconderem atrás do segredo e para ampliar a sua capacidade de calar quem o revela.
Significa isto que a Wikileaks está no bom caminho de defender as instituições, como o Estado, de quem as conseguiu capturar, e de as devolver aos seus legítimos proprietários.
Não é uma organização que ataca o sistema, é uma organização que o defende.

Niet disse...

José Luiz Sarmento- Bingo! Mais uma análise cirúrgica e post-moderna da Crise.Óptima tomada de perspectiva, só que as Élites/Oligarquias estão a vencer, meu caro! Olhe para a nossa " velha " Europa- o que vai por aí de demolição estrutural do Estado-Providência...- e a política social de Obama nos USA em harakiri perpétuo... No meio disto tudo as proto-jacqueries incensadas por Kropotkine, adaptadas à Era Digital pelo WikiLeaks?!? Os grandes politológos da actualidade de Yale Uni. e Berkley Uni.- Jacob Hacker e Paul Pierson- dizem que há um grande risco e desmontam-no: " Winner-take-all politics ", o grande e recentíssimo novo livro da dupla sobre os efeitos da insegurança da Nova Economia e o declínio do Sonho Americano! E urge evitar os perigos do nacionalismo reformista trans-europeu - polarizado numa " infernal " aliança de interesses entre o capitalismo dominante renano e a super-plutocracia estatista russa. Niet

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Manuel,

estamos de acordo, sim - e agradeço a sua honestidade intelectual -, mas receio que a partir de pressupostos diferentes sob certos aspectos fundamentais.
Ou seja, onde você escreve: "Significa isto que a Wikileaks está no bom caminho de defender as instituições, como o Estado, de quem as conseguiu capturar, e de as devolver aos seus legítimos proprietários. Não é uma organização que ataca o sistema, é uma organização que o defende" -, eu teria de escrever qualquer coisa como: "Significa isto que a Wikileaks está no bom caminho de defender um poder democraticamente exercido, contra quem o conseguiu capturar em seu benefício, e da fim de o devolver aos seus legítimos protagonistas. Não é uma organização que ataca a segrança das liberdadese direitos fundamentais, é uma organização que o defende".
Espero que compreenda que é o apreço pela sua honestidade intelectual que me leva a retribuir-lhe na mesma moeda, ainda que estreitando a base do nosso acordo sobre a questão.

Cordiais saudações democráticas

msp

Manuel Vilarinho Pires disse...

Caro Miguel,
Também concordo com a sua resposta, e subscrevo sem reservas a reformulação que fez do meu comentário.
Onde suponho que provavelmente estamos em desacordo é no facto de eu não partir da constatação de o sistema ter sido capturado para a necessidade de o substituir por outro sistema completamente (e peço-lhe que deixe passar o termo "completamente" sem grande debate, porque podia só por si originar uma discussão interminável) diferente, mas sim para a necessidade de o libertar dos captores e de lhe acrescentar instrumentos de blindagem contra capturas futuras.
A transparência é um dos instrumentos fundamentais para o blindar, e o que está em causa neste caso Wikileaks.
Eu não coloco em causa, como já disse antes, conceitos como a segurança do estado ou a segurança nacional, nem que em circunstâncias específicas o segredo seja necessário para as assegurar. O que coloco em causa, como também disse antes, é a utilização abusiva que os estadistas fazem do segredo de estado para esconder os seus actos censuráveis dos cidadãos que representam, sob o argumento que utilizarem o segredo para os protegerem a eles. E é contra ela que se devem encontrar instrumentos de prevenção.
A Wikileaks não é um instrumento de prevenção, mas sim de diagnóstico, é o termómetro, a análise ou a radiografia que revelam a doença que infecta o sistema. Deve-se tentar preservar a sua sobrevivência para eventuais diagnósticos futuros, mas deve-se, acima de tudo, atacar a infecção que revelou.
Tratando como mentiroso quem foi apanhado a mentir. E reflectindo sobre a definição adequada e eficaz de segredo de estado.
Saudações democráticas e transparentes

Manuel Vilarinho Pires disse...

Caro Miguel,
Sendo 4 de Dezembro, vale a pena recordar ainda outro assunto que pode ter a ver com esta discussão, e com outra que recorrentemente temos mantido, a questão da esquerda e da direita.
Uma das fracturas claras entre a esquerda e a direita em Portugal nas últimas décadas foi a interpretação das causas do acidente / atentado de Camarate, a esquerda preferindo geralmente acreditar na tese de acidente, e a direita na tese de atentado.
Uma das vias de explicação plausível é a investigação que o Engº Amaro da Costa estaria a fazer ao obscuro "Fundo de Defesa Militar do Ultramar" que, 6 anos após o fim da guerra, parecia continuar a movimentar muitos milhões de contos, não se sabia (nem sabe) bem porquê, nem por quem, nem como, e de o acidente ter sido um atentado para neutralizar essa investigação.
Se esta tese tiver fundamento, podemos ter assistido há 30 anos à neutralização através uma acção violenta de bombismo de um precursor da Wikileaks, de alguém que procurou trazer para a luz do dia uma obscura conspiração e pagou essa tentativa com a vida.
E podemos também considerar um acto de coragem o apelo do Dr. Freitas do Amaral (que hoje em dia não é fácilmente colocável na direita ou na esquerda, mas eu continuo, por inércia, a colocar na direita) para que este assunto seja investigado até às últimas consequências.
http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1720511
Um abraço transparente e democrático

Niet disse...

Caro M. V. Pires: Todos conhecemos, já, a grandeza das suas opções éticas e a coragem da sua liberdade! Eu já disso o enalteci várias vezes por diferentes lugares. Agora que nos jure que o prof. Freitas do Amaral possa ser de esquerda, essa, MV Pires, é que eu não aceito. De forma alguma. Quando muito, por inteligência trabalhada com realismo e rigor, se libertou de um serôdio e muito inquietante neo-integralismo. De muito maus figurinos e de uma ideologia catastrófica. O eng° Adelino Amaro da Costa, esse sim, era um perfeito cristão-democrata de grande visão e altíssima craveira intelectual, quase único, no contexto de uma direita, de quem, Marcelo Caetano, gostava de fazer repetir aos seus alunos ser das mais estúpidas do Mundo! Freitas do Amaral, que andou cinco anos a balançar entre Sócrates e Cavaco, pelo menos, faz agora de Camarate um fundo de comércio de muitos polémicos contornos. Essa táctica- a histeria prodigiosa e multifacetada ligada à(re) produção de acontecimentos míticos...-é, ela própria, um produto do fecho político de fins ciclicos da História. Como já não existe para este tipo de oligarcas, mais nenhum tipo de história(s) possível, os (anti)acontecimentos têm e devem ser incessantes, explorados, glosados e mitificados. Como
não existem mais causas, é preciso produzir efeitos sem parar. Como nada mais tem sentido, do ponto de vista de classe dele(s),tudo deveria funcionar perfeitamente...até se descobrir o " segredo ", que mesmo quem o possa saber, jamais conseguirá revelar. Niet

Manuel Vilarinho Pires disse...

Caro Niet,
Eu disse que o Prof. Freitas do Amaral é de direita.
No seu comentário não consigo entender se considera ou não a tese de atentado, nomeadamente ligado à tentativa de investigar o FDMU, plausível e, em caso afirmativo, se considera a tentativa de reavivar a investigação ao FDMU um acto de coragem, nomeadamente por, a ser verdade, já ter sido uma vez impedida através de um atentado?
Se relembrei este caso foi, para além da data que lhe devolveu actualidade, pelo paralelo entre a tentativa de neutralizar a Wikileaks e a neutralização da investigação do Engº Amaro da Costa, caso a tese tenha fundamento. Que são formas de abafar revelações, não para defender "o Estado", mas para defender "estadistas".
Já agora, aproveito para informar que a PayPal aderiu ao boicote à Wikileaks, pelo que eu cancelei a minha conta na PayPal justificando o cancelmento com esse boicote.
Um abraço

Niet disse...

MV. Pires: Fujo como uma raposa da dialéctica dos anátemas versus consensus, meu caro. Desejo ser mais radical. Abraço, Niet